O delito de apito



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VERDE CARIOCA

Alfredo Sirkis



PREFÁCIO

Este reencontro com o leitor não traz uma obra nova, original que terá que esperar um pouco mais. Pretendo, assim que tiver um tempinho, escrever um ensaio sobre ecologia urbana. Volta e meia sou supreendido nos meus sonhos e devaneios por personagens de um um novo romance que querem acontecer.Peço lhes paciência porque no momento estamos um pouquinho ocupados salvando o Planeta.Meu último livro Silicone XXI, um roman noir, futurista, foi públicado em 1986 e depois disso me dediquei, inicialmente, aos roteiros de TV e de cinema (Lua de Outubro,que está sendo filmado atualmente,no sul, e Anjo Negro) a partir de 88, à atuação política e parlamentar determinou uma pausa. Não considero esta interrupção abandono do ofício de escritor mas a intensa participação política é uma grande limitação. Falta tempo, tempo real e tempo psicológico. Por outro lado um período assim de abstinência literária serve para a acumulação de histórias a serem contadas mais adiante, amadurecimento de conceitos, vivências. Mas sinto falta de escrever. Consegui em 1992, apesar da campanha e da conferência, um tempinho para uma peça de teatro infantil Alpha-Centauro, que permanece inédita na gaveta a espera do seu momento. Por outro lado Os Carbonários, publicado em 1980, continua vendendo e rendendo uns míngues porem tão gratificantes direitos autorais.
Verde Carioca compoe uma pensata verde e carioca. Uma compilação das nossas idéias a dez anos da fundação do PV. Dez anos duros com momentos difíceis. Fases francamente kafquianas como aquela de 90 à 92 com a perda do nosso registro provisório, a tentativa de sequestro da sigla por uma máfia ligada ao garipo, a maratona burocrático cartorialista da relegalização e do registro definitivo.Tempos difíceis: toda hora saiam aquelas matérias nos tratando, invariavelmente, como uma expécie em extinção. Conservo até hoje aquelas artigos e notas venenosas para ter a íntima satisfação de parafrasear Mark Twain e informar que as noticias sobre o anunciado falecimento do Partido Verde foram um tanto quanto exageradas.
Se tivessemos encorporado todos quantos nos procuraram, nesses dez anos seriamos hoje um partido bem maior só que totalmente descaracterizado.Evitamos inchar, atrair para o verde políticos tradicionais a cata de uma legenda “simpática”. Foi correto.Padecemos porém de uma considerável incapacidade organizativa, de comunicação e de uma grande dificuldade de criar um novo tipo de formação política adaptada a esses tempos de “crise de militância”. No entanto nos descobrimos na gestão do poder local, nas secretarias de meio ambiente do Rio de Janeiro, Salvador e dezenas de outras cidades. Nas prefeituras de Campina do Monte Alegra cuja experiência original de município sem funcionalismo público, gerido por conselhos populares e uma cooperativa de multiserviços, ficou famosa em todo país. Os verdes deixaram para trás aquela facêta pós-hippie, bicho grilo, passaram a atrair os quadros do movimento ambientalista, técnicos das instituições ambientais, empresários preocupados com o desenvolvimento sustentável, moradores de favelas onde se realizam mutirões comunitários e sonhadores práticos com seus projetos debaixo do braço, ansiando por uma oportunidade para tirar do papel e fazer acontecer.
Esta coletânea de artigos é dividida em duas partes Notas cariocas traz textos recentes sobre questões do Rio de Janeiro,quase todos escritos entre 92 e 96 e alguns mais antigos, dos anos 80.Foram publicados nos jornais O Globo, O Jornal do Brasil, O Dia, A Folha de São Paulo,Gazeta Mercantil,Jornal do Comércio e Tribuna da Imprensa. Aqui são reproduzidos em versão integral, revista e por vezes com títulos diferentes. Há alguns inéditos que não chegaram a ser publicados. Abordo questões variadas do Rio como violência, drogas, ciclovias, favelas, problemas de ecologia urbana, etc... A segunda parte Atas Verdes contem alguns matérias publicadas nos mesmos jornais sobre questões mais gerais como a nova esquerda; o nuclear; a história do movimento ambientalista brasileiro, no prefácio que fiz para a tradução brasileira do Reclaiming Paradise; um artigo para os cadernos Le Monde Autrement sobre reservas extrativistas; a transcrição de uma palestra na Cult 93 e uma versão adaptada do anteprojeto que serviu de base de discussão para o programa provisário do PV, que escrevi em Salvador, na casa do meu amigo Juca Ferreira, nos dias de carnaval de 1996, nas pausas matutinas da folia.
Outro dia confidenciei para um amigo que instituir e organizar a Secretaria de Meio Ambiente da Cidade, do Rio de Janeiro, formar aquela equipe, tirar dos sonhos do papel e levar apara o real, durante os três anos em que fui o responsável pela política ambiental da cidade, foi para mim uma satisfação e um sentimento de realização ainda maior do que tive ao escrever Os Carbonários. Verificar que é possivel fazer, é possivel transformar, que é possivel realizar nossos projetos é de uma alegria indescritível. É essa emoção que sinto com um reflorestamento do projeto mutirão numa favela, gerando trabalho, renda e consciencia ecológica, recompondo a mata Atlântica e diminuindo o risco de desabamentos. Ou executar aquelas onze obras de despoluição hídrica para combater a poluição por esgotos das praias do Leblon,Ipanema e São Conrado. Ou sonhar aquele sonho, hoje realidade dee construir a ciclovia Mané Garrincha e as outras. São apenas exemplos de dezenas de desejos coletivos tirados do papel que estão aí acontecendo, acumulando pequenas vitórias e ricas experiências, num contexto muitas vezes difícil e dentro de uma máquina pública onde tudo favorece o imobilismo: a lerdeza da burocracia, o cipoal de regulamentações obtusas, a entropia meio canibalesca de parte da sociedade, que tem uma espécie de fobia de que algo possa dar certo e, também, de parte da mídia para qual não só good news is no news como only bad news is good news.(noticia boa não é noticia.Só noticia ruim é boa notícia). A lentidão das transformações e da realizações é exasperante, voce empurra duas toneladas e a coisa anda dois centímetros. Mas com persistência, imaginação e jeito acabamos superando os obstáculos e fazendo acontecer.
Acredito que a atuação política só vale a pena se ela for pela ótica de organizar as pessoas para melhorar as coisas, fora disso é aquela velha dualidade entre o fisiologismo e o denuncísmo, as duas facêtas dominantes da política brasileira. Antes de ser um problema ético o fisiologismo é uma questão cultural, tanto de quem é eleito,quanto de quem elege. Mas os homens públicos decentes raramente são as vestais, os campeões de denúncias e os fissurados (haja visto Collor). São algumas pessoas (em geral de esquerda,mas nem sempre) movidos por sonhos, ideais de justiça, projetos coletivos. Difíceis de corromper não porque arrotem honestidade a cada discurso mas, simplesmente, porque a acumulação de bens materiais, o consumismo não ocupa um papel central nas suas vidas, no seu desejo. O poder não é um fim em sí, é apenas o instrumento para fazer valer os sonhos. Neste contexto a atuação política, muitas vezes tão chata e desgastante, passa a ter algum sentido, alguma razão de ser. Acaba valendo a pena para para a alma não ficar pequena.
Resistir,resistimos naquela época carbonária , contra a ditadura, com uma ideologia que fracassou mas com a nobreza límpida de quem combate a opressão. Protestar,protestamos, tantos anos em tantas passeatas, comícios e atos públicos. Permanece válido e atual o protesto diante de tanta injustiça social, agressão ambiental, poluição cultural e violência no dia a dia. Mas não basta. Avançamos, nossas idéias ocuparam novos territórios, a sociedade mal que bem se organizou melhor. Por outro lado sabemos que não haverá mais a grande jornada da revolução, da tomada do poder ou de uma vitória eleitoral da esquerda a partir da qual nada mais será como d’antes. Em vários países a esquerda ganhou e tudo continuou igual ou quase. Até porque por que o poder do governo, do estado não é mais aquele. A capacidade de comando dos estados nacionais, mesmo daqueles mais poderosos como os EUA,Japão ou Alemanha, é cada dia mais limitado dentro da globalização econômica, dos alucinantes e caóticos fluxos financeiros, das deslocalizações de industrias. A do nosso governo, essa então...
Um Brasil melhor não virá de Brasília, repartição pública gigante, monumento do modernismo anti-cidade, onde se chega de avião para tramitar e ser tramitado. Nessas alturas do campeonato um governo federal que apenas não atrapalhe já ser será uma coisa boa para uma transformação social, ambiental e cultural que só poderá vir do poder local e da sua pareceria com a sociedade civil organizada. Temos que tomar o poder todos os dias e democratizá-lo executando pontos programáticos concretos que organizem as pessoas para melhorar as coisas. A polarização entre direita e esquerda tem hoje uma validade apenas relativa e sua identificação pode conter armadilhas. Um populismo fisiológico apoiado na oferta do espaço público à apropriação desordenada pode ser de esquerda? Contrapor o “pensamento único” neoliberal com um discurso nacionalista e estatista dos anos 50 pode ser de esquerda? Porém ser de esquerda continua atual no que diz respeito à inconformidade em relação às injustiças, à concentração de renda e no reconhecimento do papel de um estado menor, modenizado,democratizado, descentralizado e parceiro da sociedade civil na sua correção, sobretudo a partir dos municípios, do poder local.
O neoliberalismo dominante, encarado por muitos com uma fascinada e impotente obsessão é simplesmente uma nova embalagem do velho e egoista laissez faire,laissez passer do século XIX que levou às crises cícilicas, a Grande Guerra de 1914-8; à Grande Depressão de 1929, o fascismo, o nazismo e a II Guerra Mundial. O New Deal,as políticas keynesianas, o plano Marshal, o Walfare State, tudo isso que propiciou uma vida decente para uma parte da humanidade, no norte do planeta, foi a negação da idéia de se deixar a economia e a sociedade à cega mercê do mercado. Ou bem a hegemonia planetária do neoliberalismo será suplantada, nos próximos anos, por uma nova alternativa socialdemocrata, por um novo New Deal planetário, centrado no ecodesenvolvimento (ou desenvolvimento sustentável) e no enfrentamento do abismo entre norte e sul, ou, brevemente, teremos um mundo ainda mais excludente, balcanizado, perigoso e ambientalmente inóspito com a ascenção de novas formas de fascismo, do racismo e do integrismo religioso combinadas à uma incontrolável proliferação nuclear.
Só que para enfrentar o neoliberalismo -- conjunto muitas vezes incoerente de concepções da economia e da sociedade-- não há que confundí-lo com a globalização da economia e a explosão tecnológica e informática, em si pois aí reside a sua maior armadilha. A globalização, em si, é um processo objetivo engendrado por mutações tecnológicas irreversíveis ainda que reorientáveis. O pensamento neoliberal procura interpretar a globalização ao seu feitio, puxando a brasa para a velha sardinha podre da acumulação egoísta e usurária de capital via supressão de mecanismos de controle público. Confundir globalização com neoliberalismo é não perceber a diferencia entre o sujeito e sua interpretações subjetiva (e interessada). Enfrentar os novos tempos com um reacionarismo “de esquerda” propugnando a volta ao passado é condernar-se ao fracasso. Mergulhar na globalização e de dentro das suas entranhas gerar uma mudanças de paradigmas, aproveitando todas as oportunidades que ela oferece para uma ação internacional, coordenada daqueles dispostos a lutar pela transformação; forjar o novo internacionalismo --não mais proletário mas planetário-- é a única saida desse decifra-me-ou-devoro-te de virada de milênio. Mas a simples transformação de relações de força políticas é insuficiente. Cabe uma verdadeira revolução cultural e uma transformação interior de cada pessoa através de algum dos muitos caminhos oferecidos à espiritualidade, à busca da divindade dentro de cada um de nós.
Pensar globalmente,agir localmente é o grande princípio da ecopolítica. Entender e se comunicar com o mundo para ter bagagem e estofo para melhorar as coisas na nossa cidade, no nosso bairro, na nossa rua é hoje a forma possível de transformar. Uma vida melhor no país virá desta lenta transformação no dia a dia propiciada pela soma de milhões de pequenos projetos,pequenas vitórias, pequenas alianças no plano local. No plano local a questão ideológica não é a fundamental. Havendo pontos de acordo programático e uma noção clara do que se quer realizar pode-se até trabalhar com administrações com as quais se tenha divergências. Foi correto ter assumido o risco de construir e liderar uma nova instituição pública, a Secretaria Muncipal de Meio Ambiente da Cidade, na administração do César Maia, com todas as nossas diferências ideológicas, políticas e de estilo? Não tenho dúvidas. Valeu a pena se olharmos tudo que foi realizado de concreto em benefício do meio ambiente e da população com essse instrumento e compararmos com o que eu teria obtido como mais um vereador de oposição em quatro anos de protesto ruidoso e impotente. Talvez fosse melhor para “a imagem”. Estar sempre do lado do estilingue, criticando tem seus confortos, botar a mão na massa tráz inúmeros riscos. Só que mais um protestozinho aqui, uma denuncia acolá, uma notinha simpática numa coluna, ficar na midia palpitando sobre variados assuntos, cultivar a imagem “politicamente correta”, tudo isso não altera em uma molécula a realidade concreta da Cidade. O tempo passa cada vez mais rápido, a vida avança, vamos ficando mais velhos, o dia a dia da Cidade ruge angustiado, oferecendo a cada momento interesantes possibilidades de transformação e ameaças terríveis de afundar mais e mais na entropia. O desafio da ecologia urbana está aí.É preciso ousar.É preciso fazer.
O Eros e o Thanatos urbanos se embolam, entraleçam, tropecam um no outro diariamente.A cada momento uma oportunidade, a cada instante um perigo.Vivemos essa esquizofrenia do sublime e do horrendo na mais linda cidade do mundo. Agir localmente, cuidar com amor do Rio de Janeiro é ao mesmo tempo um privilégio e uma responsabilidade do tamanho dum bonde, como se dizia antigamente. Para fazê-lo vale a pena adiar projetos literários, deixar de ganhar dinheiro, encarar aporrinhações, destilar adenalina e ansiedade em consideráveis quantidades, engolir uns tantos sapos a granel, pois a recompensa enche os olhos e emociona o coração. É bom agir localmente para poder sonhar globalmente.

Rio, 27 de maio de 1996

I - NOTAS CARIOCAS

ENTROPIA


Orelhões depredados, brinquedos de praças, monumentos e chafarizes danificados, placas de sinalização arrebentadas, latas de lixo roubadas, muros pichados,a impressão que temos é que nunca o vandalismo foi tão intenso na nossa cidade.Uma reportagem recente da TV Globo apontava que a maior incidência de destruição dos telefone públicos ocorria na zona sul e a imagem grotesca de orelhões boiando na lagoa Rodrigo de Freitas foi uma boa ilustração.O vandalismo é a manifestação mais extremada do feroz individualismo que,cada vez mais, vem tomando conta da Cidade, degradando a qualidade de vida de todos os cariocas. No passado a ditadura oprimiu, perseguiu e discriminou o Rio de Janeiro e a cidade desenvolveu fortes anticorpos em relação ao autoritarismo.Com o passar dos anos esse sentimento salutar degenerou no oposto:num clima de negação de qualquer forma de autoridade, numa permissividade em relação às mais variadas formas de transgressão e comportamentos antisociais.A cidade se fragmentou em centenas de pequenas subtribus cada uma com suas demandas e caprichos a invadir impunemente os espaços dos outros.
Os pilotos de jet ski acreditam piamente que seu prazer de evoluir na arrebentação a poucos centímetros da cabeça dos banhistas é sagrado.Os grileiros acham que tem todo direito de ocupar terras públicas em áreas de proteção ambiental para construir e vender casas sem licença embolsar a grana e partir para outra,muitos camelôs acham que é normal vender produtos contrabandeados ou roubados e expulsar os pedestres da calçada para o meio da rua. Aos promotores de bailes funk nos morros,ao ar livre, pouco importa se o resto da população em volta ou embaixo não consegue dormir.Os donos de empresas de ônibus e caminhão acham que tudo bem essas nuvens de fumaça. Regular a bomba injetora para não soltar fumaça traria até mesmo uma economia de combustível, mas para que se preocupar com isso,afinal fumaça nas ventas dos outros é refresco.
Mas nada se compara a esse predador todo particular que é o motorista carioca.Criou-se uma psicologia de trânsito onde todos, ou quase todos, somos motoristas selvagens, antisociais, assassinos em potencial. Um cidadão perfeitamente pacato, ordeiro, educado e delicado, sentado ao volante pode transformar-se num Mike Tyson ou num Serginho Chulapa do volante.Qual de nós nunca atravessou um sinal vermelho, nunca praticou uma bandalha, estacionou sobre a calçada ou buzinou histéricamente?O automobilismo é, potencialmente, algo tão antisocial que nos países mais civilizados existe uma repressão feroz à transgressões no trânsito.As multas são altíssimas e os guardas de trânsito assustadores. Não são arbitrários nem corruptos, são severos, implacáveis. As multas são elevadas e sua cobrança é inevitável como a morte.Aqui o guarda de trânsito virou espécie em extinção. Diz que ainda existem alguns espécimes em determinados pontos da cidade,mas que conseguem passar perfeitamente despercebidos.E o que os olhos não vêem, o coração não sente.
A transgressão generalizada cria um círculo vicioso onde umas justificam as outras.Estamos realizando uma campanha de educação cicloviária para tirar as bicicletas de dentro da pista de lazer dos domingos na orla marítima e colocá-los no seu lugar adequado que é a ciclovia.Também estamos tirando os pedestres de dentro da ciclovia.Tudo muito óbvio.Mas as pessoas não gostam de ser chamadas a atenção ainda que de maneira supereducada. E sempre tem na ponta da língua um punhado de outras transgressões para justificar a sua.”Ah é? Não posso andar de bicicleta no meio dos pedestres? E esses carros aí nas calçadas, e o frescobol,e os bailes funk,o e sinal vermelho”. Já o cidadão pilhado em alguma dessas outras transgressões responda a queima roupa: “e as bicicletas no calçadão???”.
A desordem urbana destroi os pequenos e singelos direitos de cidadania, abrindo caminho para a destruição dos grandes.Tratam o bem público como se fora de ninguém, quanto é de todos. Ou começamos a botar um mínimo de ordem na cidade através dos meios democráticos e legais ou da desordem crescente brotará um caldo de cultura propício a um novo ciclo de autoritarismo e arbitrariedade boçal.Os transgressores parecem inconscientemente clamar por esse autoritarismo com a mesma sofreguidão que o masoquista anseia pela chicotada do sádico.Mas quem não quer ser sádico,nem masoquista;nem oprimido,nem opressor; nem transgressor nem repressor,quer simplesmente o Rio minimamente civilizado, vai ter que lutar um bocado. Inclusive contra sí próprio.

* O Dia, de de 199 , versão integral


O DELITO DO APITO

É estranha a preocupação de apreender apitos no Posto 9 numa cidade onde bandidos armados fazem a lei em extensas áreas,são tão freqüentes sequestros e assaltos e o trânsito,totalmente fora do controle, mata e mutila mais e mais pessoas todos os dias. Compreendo que enquanto vigir a anacrônica lei 6365/75 --da lavra da ditadura militar e que o Congresso deve modificar brevemente-- o delegado Hélio Luz deva tentar fazê-la acatar,embora seja hoje,na maioria das vezes um mero alvará para o achacamento.Alguem acha que com os presídios e delegacias abarrotadas,com centenas de milhares de mandados de prisão não executados, seria possível fazer cumprir a risca esta lei e prender alguns milhões de consumidores de maconha existentes no país? Compreendo menos que o delegado Hélio Luz proponha-se a justificar ideologicamente essa repressão a beira mar --conferindo-lhe uma conotação “de esquerda”-- e a estabelecer uma discutível isonomia entre os pacíficos jovens do Posto 9, com seus apitos, e os fogueteiros a serviço dos chefetes do trafico armado que mata,assalta e sequestra.


A isonomia que poder-se-ia reivindicar é aquela entre o simples usuário de maconha de classe média e o pobre.Nenhum deles merece ser preso, humilhado, achacado ou jogado num xadrez junto com marginais violentos.Não se confunda o que aqui está escrito com nenhum tipo de apologia ou glamourização do comportamento de fumar maconha. Ele não tem embutido nenhum conteúdo progressista ou outro qualquer.Não cabe reivindica-lo como ato libertário, sobretudo por uma geração tão consumista como a atual. Fumar maconha é apenas fumar maconha,ponto. Desconfio que não deva ser a melhor coisa para os pulmões ou a memória,mas também não se trata de nada pior para a saúde do que as drogas hoje legais como o alcool,os cigarros e toda uma extensa gama de produtos farmacêuticos cuja ingestão provoca mudanças sensoriais e comportamentais muito mais fortes.
Frequento o Posto 9,desde que voltei do exílio em 1979. Esses anos todos vi jovens fumando maconha mas nunca presenciei um ato violento praticado por algum dêles.Assisti ocasionalmente brigas de bebados.Tomei conhecimento, ao longo dos anos,de achacamentos,arbitrariedades policiais e até assaltos à mão fardada.Nos últimos meses ouvi falar da presença no local de traficantes armados. Ao invés de apreender apitos e hostilizar ostensivamente estudantes consumidores de canabis a polícia deveria ter infiltrado discretamente agentes à paisana para identificar e prender esses traficantes,em flagrante, antes que aconteça algum tiroteio numa praia apinhada de gente.Também não seria mal se policiais minimamente competentes campanassem e prendessem certa quadrilha de gatunos que já roubou dezenas de bicicletas no Posto 9 (inclusive a minha Caloi,no próprio dia em que estavam tão preocupados em reprimir os apitos).
As autoridades a cargo da segurança pública resolveram reinflamar a até então minguante verve antiautoritária do Posto 9 colocando um esquema de policiamento agressivo e truculento mas pouco eficaz em relação àquelas atividades realmente criminosas. A reação foi o apito.A mídia com seu eterno frisson de ver o circo pegar fogo pautou a próxima vítima, depois da polêmica que acabou levando Caetano,Gil,Gal,Chico, Milton e o próprio Paulinho para o banco dos réus,constrangidos e processados por terem nos proporcionado um maravilhoso e inesquecível tributo a Tom Jobim.A bola da vez desse macartismo jornalístico pós-ideológico passou a ser o Posto 9.Descobriu-se a grande novidade de que alí fuma-se maconha...há pelo menos vinte anos.Isso tornou-se uma grave ameaça não se sabe bem a que ou a quem. E nessa cidade em que bandos armados controlam territórios e cometem-se diariamente,quase sempre com impunidade, os crimes mais sanguinários e cruéis ,preciosos efetivos policias são mobilizados para intimidar e reprimir jovens sentados fumando canabis e contemplando o mar.
Ao questionar a repressão aos jovens que fumam maconha ou sopram apitos não estou pregando a condescendência com os chamados pequenos delitos.O combate à desordem urbana,ao vandalismo e aos comportamentos antisociais é importante para civilizar e democratizar a nossa Cidade.A fronteira passa por se aferir, realisticamente, sem preconceitos ou histeria moralista, se determinado comportamento é ou não lesivo à integridade e aos direitos de terceiros. Invadir calçadas,pichar muros,desmatar,emporcalhar a cidade,depredar orelhões,estacionar em fila dupla ou tripla,brigar nos estádios,estourar os tímpanos do vizinho são exemplos de comportamentos a serem coibidos e severamente reprimidos porque prejudicam o restante da coletividade.Um jovem acender um baseado para curtir o por do sol, no Posto 9, não faz mal a outrem. Pode-se alegar que mesmo o simples consumo de uma droga leve como a canabis tenha um efeito socialmente negativo por alimentar o tráfico.Como dizem os hispanos esse argumento tiene razón pero poquísima (tem razão,mas muito pouca). Para evitar que o consumo de maconha sirva de estímulo econômico ao negócio clandestino, operado por criminosos, qual o caminho mais eficaz? Tentar prender alguns milhões de pacíficos consumidores num país de prisões abarrotadas?Alimentar um clima de permanente hostilidade e desconfiança entre uma polícia,que precisa mais do que nunca de apoio da sociedade, e boa parte da população jovem de classe média e pobre? Ou devemos solapar a base econômica do tráfico permitindo aos consumidores da canabis cultiva-la, licitamente, em casa, ou adquirí-la ,legalmente,no lugar possivelmente mais apropriado: a drogaria.Em suma: cortar o vínculo de mercado que se estabelece entre o pacífico consumidor e o universo criminoso que o abastece.
A lei atualmente em discussão no Congresso não trará uma mudança profunda na forma da sociedade enfrentar a questão --isso só será possível noutro contexto internacional-- mas, pelo menos, apresentará o avanço de não permitir mais a prisão do simples usuário,substituindo-a,bem como, o achacamento troglodita, por uma multa, legal.Um pequeno passo em direção a uma abordagem mais sensata de uma questão sumamente complexa. No mais é torcer para que esse factóide de verão do delito de apito vá trinar noutra seara,que o delegado Hélio Luz saia dessa roubada e tenha sucesso numa descriminalização muitíssimo mais difícil: a da própria polícia. E que voltem os apitos para sua função mais apropriada, na boca dos guardas de trânsito,essa espécie em extinção no Rio de Janeiro.Príííí !

*JB de de 96,versão integral.



NATURISTAS E PORNOMORALISMO



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