O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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Sinopse
Trinta anos após ter cometido um dos crimes passionais de maior repercussão no país, Doca Street conta sua versão da tragédia. Depois de uma violenta discussão com Ângela Diniz, Doca assassina a “pantera de Minas” à queima-roupa, na véspera do Reveillon de 1976. Defendido por Evandro Lins e Silva, um dos destacados juristas brasileiros, foi inocentado no primeiro julgamento. Mas não teve a mesma sorte no segundo: foi condenado a 15 anos de prisão. Após cumprir a pena, foi colocado em liberdade pela Justiça, mas não pela sua consciência. As anotações, feitas durante o tempo de prisão e reunidas em Mea Culpa, passam a limpo os dez anos mais tumultuados da vida de Doca Street – do primeiro trimestre de 1976, quando tem início seu caso com Ângela, a outubro de 1987. Segundo o autor, “para não enlouquecer, cheio de culpas e remorsos, comecei a escrever. Era fácil, punha no papel tudo o que passava na minha cabeça. Toda a dor, toda a angústia, todo o desespero que senti. Depois de algum tempo, cansado de escrever só sobre minha dor e de sentir pena de mim, comecei a escrever sobre o dia-a-dia do presídio”. Na cadeia ou “universidade do mal”, como ele define, conviveu de perto com os fundadores da facção criminosa Falange Vermelha. Com Mea culpa, o leitor está “diante de uma história com todos os ingredientes de uma verdadeira novela policial: dinheiro, infidelidade, drogas, amor, ciúme e, ao final, o cadáver de uma mulher”, observa o jornalista e escritor Fernando Morais nas orelhas do livro. “Embora o final já seja conhecido de todos, o leitor consome este livro como se devorasse um romance. Um romance que milhões de brasileiros acompanharam pela TV e pelas páginas policiais, e que agora é reconstruído por seu principal personagem.”
Mea Culpa
O depoimento que rompe 30 anos de silêncio
Planeta

Copyright © 2006, Doca Street

Coordenação editorial: Pascoal Soto

Assistência editorial: Carlos A. Inada

Pesquisa: Miguel Said Vieira e Luiz Alberti Júnior

Preparação de textos - Ioparte: Carlos A. Inada

Preparação de textos - 2o e demais partes: Tereza Romeiro

Revisão de textos: Túlio Kawata

Diagramação e projeto de miolo: Equipe Planeta

Capa: Vanderlei Lopes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Street, Doca

Mea culpa Doca Street - São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2006.

ISBN 85-89885-53-4

1. Crimes e criminosos - Biografia 2. Diniz,

Ângela 3. Street, Doca I. Título.

05-4324 CDD-923.41

índices para catálogo sistemático:

1. Criminosos famosos Biografia 923.41

Esta obra é uma autobiografia, sendo de inteira responsabilidade do autor as informações nela contidas. Alguns nomes foram trocados para preservar a identidade das personagens.

2006

Todos os direitos desta edição reservados à Editora Planeta do Brasil Ltda.



Avenida Francisco Matarazzo, 1500 - 3a andar - conj. 32B

Edifício New York

05001-100-São Paulo-SP

vendas@editoraplaneta.com.br
Agradecimentos
A Marilena,

meus pais,

Cláudia Leal Fontana (que corrigiu os primeiros originais),

Maria Zélia Street Aguiar, May e Luiz Carlos Street.


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NÃO SEI EXATAMENTE EM QUE MOMENTO RESOLVI CONTAR ESTA História, nem por quê.

Quando comecei, estava atravessando o inferno, com todos os demônios à minha volta. Sofri muito naquela época, no meio da loucura que era o presídio Ary Franco, conhecido como Água Santa, no bairro de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro.

Os "demônios à minha volta" não eram os presos, e sim os habitantes do inferno. Os de Dante, com os cascos divididos, que enchiam minha alma e minha cabeça, sem me dar trégua.

Sentia-me mal, muito mal. Cheio de culpas e remorsos. Para não enlouquecer, comecei a escrever. Era fácil, punha no papel tudo o que passava pela minha cabeça. Toda a dor, toda a angústia, todo o desespero que senti, escrevi.

Depois de algum tempo, cansado de escrever só sobre minha dor e de sentir pena de mim, comecei a escrever sobre o dia-a-dia no presídio. Quando me perguntavam o que tanto eu escrevia, dizia... um livro.

Nunca meus companheiros de cela duvidaram disso. Brincavam comigo: "Olha... não vai esquecer de mim".

Depois daquela época jamais deixei de pôr no papel todas as minhas emoções, tudo o que se passou à minha volta e pelo mundo. Lia, ouvia e via tudo o que saía na imprensa.

Tudo o que chamava a minha atenção, dos assuntos mais variados, foi sendo armazenado: revistas, recortes de jornais e anotações sobre o noticiário da TV. Também acumulei centenas de cartas que recebi de todo o país e do exterior.

Como não conhecia computador, isso tudo ocupava um espaço enorme. Um dia, há uns dez anos, olhando aquilo e achando que não me serviria para nada, joguei tudo fora. Só fiquei com o que tinha escrito.

Incentivado por meus filhos e por amigos, resolvi colocar aquelas anotações em ordem. Devagar, fui passando a limpo os dez anos mais tumultuados de minha vida, do primeiro trimestre de 1976 a outubro de 1987.

Por que Mea culpai Porque se trata de uma seqüência de acontecimentos que, além de mim, envolveram outras pessoas. Não é apenas culpa de um crime, é culpa de um todo e de suas conseqüências.

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OLHEI AQUELA CENA HORRÍVEL MAIS ASSUSTADO DO QUE COM medo. Joguei a arma no chão, andei até o carro, entrei, manobrei e saí rumo a Cabo Frio.

Apesar da confusão em que estava a minha cabeça, uma coisa me incomodava. Como é que havia bala na agulha? Enfim, esse detalhe não tinha mais importância, a vida não me interessava mais. Iria até a delegacia me entregar.

Estava anoitecendo, a estrada era de terra e, depois de dirigir uns dez minutos, comecei a raciocinar novamente. Parei, abri a mala que estava no banco de trás, vesti calça e camisa, pus a mala no porta-malas e continuei.

Entrei na cidade e parei num posto de gasolina. Abasteci, comprei cigarros e peguei a estrada para São Paulo. Precisava falar com alguém, ver minha família.

Você não comete uma loucura, um crime, um ato tresloucado e fica desesperado. Não, parece que você saiu do seu corpo e que está se olhando, assistindo a tudo. Eu dirigia em altíssima velocidade, controlava tudo à minha volta, a estrada, os carros que vinham e apareciam no retrovisor, nada me escapava. Percebi que não estava mais chorando.

Pouco depois de Niterói havia uma barreira policial, pensei que fosse o fim. Mostrei meus documentos e me desejaram boa viagem e Feliz Ano-Novo.

Quando entrei na via Dutra, a noite parecia mais escura. Me atrapalhei e segui por uma bifurcação paralela, que passava por dentro das cidades da Baixada. Em São João do Meriti, parei em um bar e fiz um lanche. Depois voltei à estrada certa e segui viagem. Dirigia como um louco e recomecei a chorar. Entrava nas curvas da serra a toda, parecia que queria despencar em um daqueles precipícios.

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As últimas cenas na casa da praia dos Ossos estavam muito claras na minha mente. Vinham em flashes, e para suportar a dor eu urrava: — Deus onde está Você, para eu chorar no seu ombro? — Sentia que poderia enlouquecer a qualquer momento e continuava a urrar.



A estrada estava vazia, provavelmente já era o dia 31 de dezembro de 1976. Continuava dirigindo a toda, não importavam mais as lágrimas, os pensamentos ou os urros. Não errava uma curva, não cometia sequer um deslize, embora naquela hora nada importasse mais, eu podia acabar com tudo.

Às quatro da manhã, depois de dar várias voltas por São Paulo, de passar em frente à casa da minha mãe, no Morumbi, estacionei à porta da casa de um amigo que não negaria ajuda. Não estava mais chorando, tinha conseguido me controlar. Esperei que o segurança saísse da guarita e, como percebi que ele não viria até o carro, abri a porta e desci. Ele me reconheceu e se aproximou. Depois de um breve cumprimento, explicou que Laudse e Vera estavam na Bahia. Como ele estava ouvindo o rádio, perguntei se havia alguma novidade.

— Não, senhor, só música sertaneja — respondeu.

Tirei um cigarro e fiquei fumando no carro com a porta aberta, pensando no que fazer. Comentei com o segurança que tinha dirigido várias horas e que estava descansando um pouco.

Lembrei que um amigo, o Paulo, grande advogado criminalista, morava ali perto. Eu mesmo tinha vendido a casa para ele. Despedi-me do segurança e cinco minutos depois tocava a campainha da casa do Paulo. Demorou um pouco, mas ele atendeu. Apareceu numa das janelas do primeiro andar.

— Porra, é você, Doquinha! Que barulhão é esse?

Expliquei que precisava conversar com ele com urgência. Em poucos minutos eu estava no meio de uma sala enorme, que dava para um jardim. Eu estava agitado, andando de um lado para o outro, e Paulo mandou eu me acalmar. Não conseguia começar a falar, mas quando consegui e narrei o que tinha acontecido, ele disse apenas:

— Senta aí ou então deita — e apontou o sofá. — Preciso pensar, vou deixar a garrafa de uísque. Quando amanhecer, a empregada vai servir café, provavelmente Dirce e eu faremos companhia a você.

É claro que bebi, e não foi pouco, e fumei e chorei. Nunca tinha me sentido tão só, era a pior pessoa do mundo, mas, apesar do choque e da agitação, logo desmaiei. Acordei com o barulho da louça

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e fui até a sala de onde vinham o ruído e o cheiro de café. O casal estava lá.



— Oi! Que encrenca... Essa é das grandes, o rádio não fala de outra coisa! Toma um café reforçado que você vai fazer uma pequena viagem. Iremos nos encontrar com você mais tarde. Fique tranqüilo, não está tudo perdido.

O café-da-manhã foi descontraído, éramos amigos havia muitos anos e eu sabia que estava seguro. Paulo era e é um grande advogado. Seria o meu advogado, se eu não tivesse ficado tão mal e perdido o controle da minha vida depois que minha família me encontrou. Só voltei a tomar decisões por conta própria em Cabo Frio, quando já estava preso na delegacia.

Naquela manhã, depois do café, fui para a fazenda do Paulo para me recuperar um pouco, enquanto ele acertava tudo para que eu me entregasse. Antes de eu sair, perguntou se queria que minha família fosse avisada. Eu achava que ninguém iria querer me ver, então ficou combinado que, naquele momento, eu me esconderia até dos mais próximos. Parti com o motorista dele. Paulo recomendou que eu me sentasse no banco de trás, bem perto da janela, com o jornal aberto na frente do rosto. Em mais ou menos duas horas, estávamos em Leme.

Na fazenda os empregados me conheciam. Já estavam avisados da minha chegada e não houve problemas. Fui instalado em um quarto grande, com duas camas. Abri as janelas e fiquei olhando o gramado maravilhoso e uma piscina não menos magnífica. Ouvi então um barulho pelas costas. Virei e dei com os empregados tirando a televisão. Era ordem do dr. Paulo, que não queria que eu me chateasse com nada, principalmente com os noticiários, pois até então não havia ninguém falando a meu favor.

Fiquei sabendo, tempos depois, que nas primeiras horas o delegado e a promotoria ficaram muito à vontade para acusar, fazer declarações e encaminhar o inquérito a seu bel-prazer, exatamente por não terem ninguém para contestá-los.

NÃO FIQUEI SÓ OLHANDO A PISCINA, LOGO ARRANJEI UM CALÇÃO E fui mergulhar. Como precisava daquilo... nadar foi como levantar depois de um pesadelo e espreguiçar. Não que eu tenha saído da água novo em

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folha, mas, depois de atravessar a piscina várias vezes, me senti melhor. Depois almocei e cochilei.



Quando acordei, Dirce, Paulo e a filha já estavam lá, junto com um casal que quase não vi. Estavam animados e falavam sobre a festa de ano-novo a que iriam logo mais, no clube da cidade. Ao ouvir aquela conversa, comecei a sentir uma angústia tão forte, tão violenta, que queriam chamar um médico. Fiquei preocupado, porque seria mais um a saber da minha presença ali, mas fiquei na minha. Paulo sabia o que fazia.

Enquanto o médico não chegava, ele começou a falar sobre sua estratégia para a minha defesa. Já havia mandado um representante para observar o que estava acontecendo em Cabo Frio. Estava dando um tempo para ver que caminho a promotoria iria seguir. Era a primeira vez que eu encarava o problema. Não conseguia pensar num caminho de volta. Mas ele continuou:

— Vou esconder você por alguns dias. As notícias são péssimas, eles estão pintando você como um criminoso perigosíssimo. O principal problema é a imprensa, qualquer boato é aumentado mil vezes. Estão procurando por você na fazenda de um tal de Henrique Cunha Bueno. — Este senhor, que teve sua fazenda invadida e revirada, é primo da minha mãe. Nunca me viu na vida, e eu nem sabia que tinha fazenda em Búzios.

— Sua apresentação vai ser traumática, mas você vai estar preparado.

Finalmente o médico chegou e, depois de conversar comigo, me examinou e aplicou uma injeção. Comentou que eu estava bem e me deixou um remédio para tomar antes de dormir. Eu estava preocupado com as horas seguintes, todos sairiam para a festa e eu ficaria sozinho. Tinha medo disso, achava que poderia enlouquecer. Pedi que pusessem a TV de volta e, depois de muita discussão, consegui.

Até eles saírem, fiquei conversando com quem aparecesse, da família aos empregados. Se pudesse, contrataria alguém para ficar comigo até conseguir dormir. Todos foram para a festa e fiquei sozinho naquele casarão. A primeira coisa que fiz foi pegar uma garrafa de uísque... que se danasse a recomendação do médico. Fui para o quarto, liguei a TV e comecei a beber. Não muito tempo depois, começou o noticiário: "Play-boy continua desaparecido" etc. Mostravam fotografias da "Pantera de Minas" e contavam sua história.

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Mas, como era dia de ano-novo, logo estavam mostrando as festas no Rio e em outras cidades. Eu entendia o que tinha acontecido, e a dor e a angústia eram terríveis. Tive que beber muito para ficar completamente amortecido, embora isso só tenha acontecido mesmo quando tomei o remédio que o médico deixara. Ainda bem que ele deixou um só. Acordei quando o motorista chegou com pães e jornais. Fiquei chocado com aquilo em que havia me tornado. Segundo os jornais, eu não era só uma pessoa passional, era um playboy, um bagunceiro, um gigolô — homem perigosíssimo, procurado em todos os estados.



Depois do café, fui nadar e voltei para o quarto. O pessoal da casa demorou para se levantar. O almoço saiu lá pelas quatro da tarde. Tínhamos acabado de nos sentar quando ouvimos um ronco de motor. Não estranhei, pois havia lugares a mais na mesa. Paulo disse para não me assustar, pois eram amigos que vinham ajudar. Quando vi um grande amigo meu e de Paulo, o Vicente Gusardi, saindo do carro, sabia que, pela amizade que nos unia, logo a minha família chegaria. Só ele poderia imaginar que eu estivesse com o Paulo. Vieram minha mãe, meu irmão e, por último, meu pai. Não os esperava; por isso, o susto foi grande, mas a alegria foi maior. Achava que não queriam mais saber de mim. Se eu mesmo estava horrorizado comigo, imaginei que eles também estivessem. Se estavam, não demonstraram isso. Todos me abraçaram com carinho e me apoiaram. Era óbvio que isso fazia eu me sentir bem melhor.

O almoço foi quase alegre. A presença da minha família fez com que eu encontrasse um pouco de paz. Na mesa, a conversa girava em torno de vários assuntos, mas fui ficando alheio a tudo. No fundo, aquele primeiro momento com minha família ficaria para trás e eu teria de encarar o futuro. Mas que futuro? O que tinha acontecido não me levaria ao suicídio, isso nunca passou pela minha cabeça, mas para mim a vida havia perdido o sentido. Tenho certeza de que o que segura mesmo uma pessoa são os filhos. Quando percebi quanto eles seriam atingidos, resolvi que tinha de me entregar às autoridades para... para quê, meu Deus? O que poderia fazer para não traumatizar meus filhos? Era tarde demais, deveria ter pensado neles antes. E a família de Ângela? Não dava para encarar a situação sem enlouquecer. Meus pensamentos foram interrompidos pelo fim do almoço.

Enquanto tomávamos café, Paulo e a minha família discutiam meus próximos passos. Chegaram à conclusão de que eu deveria voltar

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para São Paulo, com os meus familiares. Não fui para a casa de nenhum deles, fui direto para um sítio em São Miguel Paulista que, provavelmente, pertencia ao Paulo, e no qual teria meu pai como companheiro.



ERA UM LUGAR ESTRANHO, NO MEIO DE UM LOTEAMENTO, COM UMA casa muito bem construída e com tudo para ser habitada, embora provavelmente eu tenha sido o primeiro a usá-la.

Graças a Deus, fiquei lá só três dias. Era um lugar triste, embora tudo estivesse organizado. Pela manhã apareciam leite, pão e jornais, sem que eu visse quem fazia a entrega. No terceiro dia, chegou meu irmão de criação, Chiquito. Trazia uma garrafa de uísque e maconha, a tiracolo. Que bom que ele apareceu, porque batemos papo por muito tempo, apesar de papai estar de olho na gente. Assim que ele saiu, mamãe chegou esbaforida, xingando Chiquito por ter ido até lá, pondo em risco meu esconderijo. Entramos no carro dela e fomos para São Paulo. Largamos papai no centro da cidade e seguimos para a casa da melhor amiga dela.

A casa ficava perto da Chácara Flora. Parecia uma verdadeira fortaleza, com um muro de três metros de altura que cercava um terreno de 15 mil metros quadrados, e uma casa linda, espetacular, no meio de um magnífico jardim, fora a piscina encravada no gramado. O problema era um só: eu não podia sair de dentro da casa. Só sairia se chegasse a polícia. Aí teria de ir até a piscina, abrir um alçapão que estava disfarçado pela grama e esconder-me na casa das máquinas, até que alguém avisasse que podia sair.

Assim que cheguei a esse oásis, a dona da casa me mostrou o quarto em que eu ficaria, que era do seu marido. Apresentou-me as pessoas que trabalhavam lá e foi embora com a minha mãe. Apesar de eu estar num lugar lindo, meu coração estava em frangalhos. Quando me vi só, pensei que a casa cairia em cima de mim. Entrei no quarto, fui até o banheiro e dei com uma banheira que mais parecia uma piscina. É claro que a enchi, entrei e lá fiquei, nem sei quanto tempo. Trouxeram uma bandeja com gelo e uísque. Eu só me servia e renovava a água quente quando começava a esfriar.

Já era bem tarde quando me chamaram. Algumas pessoas queriam falar comigo. A arrumadeira disse que tinham sido mandados pela minha

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mãe e estavam esperando na sala em frente ao quarto. Saí da banheira, me vesti e fui encontrá-los. Eram cinco homens: dois advogados, dois psiquiatras e mais um, provavelmente analista. Apresentaram-se: dr. Paulo José da Costa e dr. Mulayert, se não me engano. Este último era um homem agradável, transmitia confiança. Se fiquei à vontade naquela noite, foi por causa dele. Conversamos por várias horas. Contei em detalhes minha história, dezenas de vezes; já era madrugada quando se foram. O dr. Paulo disse que eu ficaria ali por alguns dias. Perguntei pelo meu amigo e advogado Paulo, e fui informado que ele tinha saído do caso.



Algumas noites depois, mamãe apareceu novamente com o dr. Paulo, o dr. Mulayert e mais dois homens que eu nunca vira. O primeiro era um gordinho bem moreno, 1m 65, de terno e gravata, com o cabelo prestes a pratear; o outro tinha a mesma altura, parecia um índio, bem magrinho, um barbante. Parecia perigoso. Mas devo muito aos dois, que foram meus anjos da guarda por um bom tempo. O dr. Paulo e o dr. Mulayert explicaram que ainda não era oportuno eu me apresentar à Justiça, pois estavam estudando vários aspectos das acusações e achavam que eu deveria sair do estado. Aqueles dois senhores eram mineiros de Poços de Caldas e de total confiança. Se eu concordasse, iríamos imediatamente para lá, já que o cerco estava se fechando e não deveríamos pôr a dona da casa em maus lençóis. O plano era ficar escondido por alguns dias na casa do gordinho, que apelidei de "chefe". Despedi-me do pessoal e dos advogados, entrei em um carro que estava de prontidão e partimos.

Antes de pegar a estrada, passamos na casa da Vera e do Laudse, que eu tinha procurado quando cheguei de Búzios, naquele dia fatídico. Minha mãe deixara lá uma mala com roupas para mim. Batemos um papo brevíssimo, pois meus companheiros estavam preocupados. Vera me entregou a mala e, quando já estávamos nos despedindo, me deu uma peruca loira e um par de óculos escuros. Fazia tempo que eu não ria e aquilo me divertiu. Fui imediatamente experimentar. Os cabelos da peruca eram compridos, coloquei os óculos escuros e, de repente, num passe de mágica, parecia um roqueiro.

Fomos para a casa do "chefe", em Poços de Caldas. A viagem transcorreu sem sustos, e acabei com o uísque que tinha trazido de casa. Ao chegarmos, fui para um dos quartos, me deitei e dormi algumas horas, antes que meu amigo me apresentasse a família.

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Achavam que, de peruca e óculos escuros, e com um violão que apareceu sei lá de onde, eu poderia dar uma volta pela cidade. Topei na hora. O que poderia acontecer? Poderia ser preso? Isso aconteceria a qualquer momento. Saí com o filho do "chefe", um rapaz de vinte e poucos anos. Pedi para ir a uma loja de sapatos, queria comprar uma bota. Comprei e saí com ela nos pés. Estava uma figura: de peruca, óculos, jeans, botas e violão. Passeei sossegado pela cidade, entrei em lojas, tomei café num bar, só não parei em bancas de jornal. Comprei um livro numa livraria e voltamos para casa.



No segundo dia eu parecia um louco: as horas não passavam, eu me sentia com remorsos, angustiado, e, quando cochilava, tinha pesadelos. O dono da casa, percebendo meu estado, chamou outro anjo da guarda e, junto com o filho, fomos até o sítio de um amigo. Deu a seguinte ordem:

— Façam ele andar, daqui a umas três horas eu volto para buscá-los.

Andei muito, subi morros, desci, pulei por cima de córregos, contei casos. O sítio mais parecia um pasto: não vi nenhum animal ou plantação, só pouquíssimos passarinhos. Nasci numa fazenda, estudei em escola agrícola, meus olhos não tinham esquecido como eram os pastos. A certa altura pensei que aqueles caras tinham sido pagos para me matar, que tinham me levado para o mato para acabar comigo. Quando isso passou pela minha cabeça, não fiquei preocupado. Sentei num cupinzeiro e comecei a rir. Eles não entenderam nada. Quando o chefe deles começou a buzinar de algum lugar lá perto, fomos andando até o carro e voltamos para casa. A terapia tinha dado certo: eu estava cansado, sentia-me melhor e com fome.

DA ROÇA PARA CASA, NOVOS PLANOS: IRIA PARA OUTRA CIDADE.

Nem me dei ao trabalho de perguntar para onde ou por quê. Depois do jantar, agradeci à dona da casa, ao filho do gordinho, e entrei no carro com o chefe e seu ajudante.

Era noite, talvez dez horas. Rodamos mais ou menos duas horas. Paramos em uma cidade pequena, num hotel razoável. Registrei-me com um nome que inventamos, e como profissão coloquei: "músico". Estava o tempo todo de peruca, óculos escuros e violão.

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Não lembro por que ligamos para o Laudse — acho que tinha combinado antes. No dia seguinte, saiu num jornal que eu havia me comunicado com um amigo num inglês horrível. O chefe era muito esperto, estávamos os três no apartamento quando percebi que ele parecia um animal enjaulado. Estava desconfiado que o telefone do Laudse estava grampeado, e por isso passamos a mão nas malas, pagamos as contas e logo estávamos na estrada.



Resolvemos voltar para Poços de Caldas, mas a polícia local e a polícia rodoviária foram muito rápidas. Andamos alguns quilômetros e depois de uma curva apareceu uma barreira com um batalhão de policiais. Era impossível manobrar ou sair em disparada. O "chefe" pediu para ficarmos calmos, e avançamos até a barreira. Eu pensava: "Chegou a hora"... Um policial fez sinal para pararmos. Olharam dentro do carro e mandaram todos descerem. Fui o único a obedecer. O chefe tirou do bolso uma carteira e disse:



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