O desamparo primordial em nietzsche e em freud



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Camargos, S. R. L. de; Prochno, C. C. S. C. & Romera, M. L. C. Desamparo primordial em Nietzsche e em Freud





Desamparo Primordial em Nietzsche e em Freud
Overriding Helplessness in Nietzsche and in Freud

Sandra Regina Lopes de Camargos1


Caio César Souza Camargo Prochno2
Maria Lúcia Castilho Romera3
Resumo
Ao propor articular a teoria nietzschiana com a psicanálise, a idéia é tentar pensar em possíveis contribuições para compreender o sujeito na contemporaneidade. Esta reflexão baseia-se em Zaratustra, personagem central de ‘Assim falou Zaratustra’, escrito por Nietzsche (1883-1885), uma de suas principais obras. A finalidade é articular a categoria desamparo através deste personagem que faz um caminho árduo, levando-o a experimentar o lado sombrio e tenebroso da vida. Por meio da categoria desamparo, articulada com a cultura, o homem atual experimenta, na sua relação com o outro, uma angústia paralisante. Questões estas que vêm ao encontro da dissertação de mestrado de Sandra de Camargos, defendida na Universidade Federal de Uberlândia, Minas Gerais, Brasil.
Palavras-chave: desamparo; Nietzsche; Freud; contemporaneidade.
Abstract
Proposing to articulate Nietzsche’s theory and psychoanalysis, the paper makes a contribution for understanding the subject in the contemporary world. The reflection is based on Zarathustra, principal character in the book ‘Thus spoke Zarathustra’, written by Nietzsche (1883-1885). The aim is to think about helplessness through this character which makes his difficult way in experiencing the dark and mysterious side of life. Throughout the helplessness category, articulated with culture, the contemporary human being experiences, in his relation with the other, a stony anxiety. Questions alike have been discussed within the master’s thesis of Sandra de Camargos presented to the Federal University of Uberlândia, Minas Gerais, Brasil.
Key words: helplessness; Nietzsche; Freud; contemporaneity.


Introdução
Uma criança é jogada no mundo... como um aventureiro lança-se... e ao jogar-se de um paraquedas, lança-se no abismo, no nada, no caos..........

Sem certeza e com certeza de que, num dado momento, o paraquedas vai abrir-se.

Que alívio!!!!!!!! Estou seguro... Estou tranquilo... Posso até aventurar-me a me soltar novamente. Porém, muitas vezes, o tempo do caos vivido pelo aventureiro pode durar muito e a aventura transformar-se em angústia como temos percebido no contato com os pacientes e no cotidiano.

Somos jogados neste mundo... e se somos jogados podemos ‘interpretar’ esse caos como uma aventura fascinante ou num terror de morte.

Meu interesse é lançar um debate em torno da questão desamparo buscando em Nietzsche e em Freud alguma reflexão sem a pretensão de achar respostas, pois aproximar estes dois autores é sempre uma questão complexa e delicada. Há várias posições históricas com relação ao conhecimento de Freud sobre Nietzsche.

Assoun (1989) aceita a tese de que Freud não tenha lido quase nada de Nietzsche encontrando declarações sobre isso do próprio Freud. Porém, podemos constatar que o pensamento freudiano tem muito do pensamento Nietzschiano como, por exemplo e, sobretudo, o caráter terapêutico enfatizado pelo criador da psicanálise.

Podemos consubstanciar esse ponto de vista através de Naffah Neto ao referir-se à Nietzsche e Freud: “Trazer Nietzsche para o interior do campo psicanalítico pode significar usá-lo como critério seletivo para descobrir, textualmente o melhor dos Freuds: o mais potente, o mais criativo, o que conseguiu olhar mais longe.” (Naffah Neto, 1997, p. 50). Lanço-me, então, nesta aventura, na tentativa de aproximar estes dois mestres. Lanço-me ao desconhecido e, como ponto de partida, tento soltar-me, olhar o homem atual, apenas permitindo-me sobre ele me debruçar à espera das surpresas!
O caminho de Zaratustra e a morte de Deus
Se olharmos no dicionário, amparo é: ação ou efeito de amparar, proteção, auxílio, esteio, abrigo, refúgio. Portanto, des-amparo, pode-se dizer, ser a falta de abrigo, de proteção (Luft, 1997).

Encorajados pela belíssima história de Zaratustra, a tomamos como eixo dessa reflexão na tentativa de compreender o desamparo do homem contemporâneo refletido no seu modo de ser e de viver. Zaratustra, personagem central de Assim falou Zaratustra, escrito por Nietzsche (1883-1885), passa por uma experiência de solidão, numa caverna, e lá permanece por 10 anos, apenas na companhia de uma águia e de uma serpente. Zaratustra, despontando como um herói e, em seguida, percorrendo um caminho que o levará a integrar o lado noturno, tenebroso da vida. Zaratustra, após anos de solidão, resolve descer da montanha, deseja transmitir aos homens sua sabedoria. O poeta quis estar com os homens, quis aproximar-se do homem, esvaziando-se, transbordando-se, justamente para dar o que tinha. Zaratustra quis dar e distribuir. Desce da montanha de sua solidão e aproxima-se do homem. “Abençoa a taça que quer transbordar, a fim de que sua água escorra dourada, levando por toda parte o reflexo da tua bem-aventurança.” (Nietzsche, 1883, p. 27). Zaratustra, nessa empreitada, vai ao encontro dos homens, cheio de sabedoria, quer oferecer aos homens do mercado uma notícia que poderia transformá-los, ou pelo menos, inquietá-los. Poeta, cheio, quis compartilhar sua história, refletir sua sabedoria, sua vivência. Assim, desce da caverna, desce do alto de sua sabedoria. Porque quis descer? Esta pode ser nossa primeira indagação.

Logo no início do seu percurso, o poeta assim define o homem: “O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem – uma corda sobre o abismo.” (Nietzsche, 1883, p. 31). E, mais adiante, continua: “É o perigo de transpô-lo, o perigo de estar a caminho, o perigo de olhar para trás, o perigo de tremer e parar.” (Nietzsche, 1883, p. 31).

Esta aventura começa a ficar perigosa!!! Como permitir soltar-me se esta aventura me leva ao abismo? Trazendo a metáfora do paraquedas, a noção de homem como abismo, podemos pensar em desamparo, nesse primeiro momento, como uma condição assustadora, uma situação de medo, de perigo e muito ameaçadora.

Quando Nietzsche, através de Zaratustra, introduz a idéia da ‘morte de Deus’ numa época em que o homem moderno estava em busca de uma verdade, o homem parece encontrar-se num profundo desamparo, sentindo-se fragilizado e desesperançoso. O homem não tem Deus, e agora? Com esta idéia da ‘morte de Deus’, Zaratustra revela aos homens do mercado que “assombrosa é a existência humana e sem qualquer sentido.” (Nietzsche, 1883, p. 37). Assim, inunda-se o centro das discussões, constata-se a ruptura que a modernidade introduz na história da cultura com o desaparecimento dos valores absolutos, das essências, do fundamento divino. Zaratustra é um homem moderno e quando resolve descer da caverna abre-se espaço para a desvalorização de valores supremos e incontestáveis na modernidade fazendo uma interlocução à condição de pequenez do homem. Se o homem constata a morte de Deus cai por terra a noção de verdade absoluta, pode-se dizer, uma ruptura de valores imutáveis, um corte na história da época. Zaratustra propõe, a partir daí, uma nova saída positiva, ou seja, a possibilidade do homem buscar seu próprio destino, mesmo no conflito.

Zaratustra tenta tirar daqueles homens um valor supremo e oferece-lhes outro.

Oferece-lhes o Super-homem. Quem é o super-homem?

Nietzsche fundamenta sua obra na possibilidade de nobreza do homem, referindo-se às noções de força e o grau de luta do sujeito. “O homem é algo que deve ser superado.” (Nietzsche, 1883, p. 54). Nesse sentido, o Super-homem suporta condições adversas, graus de luta cada vez maiores: “A vós, não aconselho o trabalho, mas a luta.” (Nietzsche, 1883, p. 63), referindo-se à força do que foi internalizado. Nesse sentido de busca, o homem pode construir seu próprio sentido. Momento chave para construir seu projeto de vida.

Portanto, o ser humano, para Nietzsche, exprime-se, essencialmente, como vontade de potência, vale dizer, vontade de acumular forças, que é específica do fenômeno da vida. Melhor ainda, esta vontade se concentra como uma causa atuante.

O poeta tenta transmitir àqueles homens não somente acerca de um caminho para a felicidade, mas de um caminho para a potência, para a ação, um caminho para a adversidade. Forças e as relações de forças centradas sobre a vida e tudo aquilo que ela tem de essencial, como a sexualidade, a fecundidade, o excesso, o transbordamento, a beleza, a construção, a destruição e o querer-mais e não algo que nos é dado prontamente, referindo-se que “deveis procurar o vosso inimigo, deveis fazer a vossa guerra e fazê-la pelos vossos pensamentos! E, se o vosso pensamento for vencido, que a vossa retidão lance, ainda assim, um grito de vitória!” (Nietzsche 1883, p. 63). São forças que afirmam e elevam a vida e aquelas que, ao contrário, negam, rebaixam e trabalham pelo seu declínio e, talvez, para o seu fim.

Zaratustra, em contrapartida, fala do Último homem. Quem é o Último homem? “Inventamos a felicidade. Todos são iguais, nenhum pastor e um só rebanho.” (Nietzsche, 1883, p. 34). Neste sentido, o último homem busca prazeres momentâneos, busca conceitos, busca a verdade ou a mentira, tornando-se impotente. Zaratustra define o último homem como aquele que não sabe o que é amor, o que é criação, o que é anseio – isto é, inventaram a felicidade, desistiram do que é penoso, conquistaram segurança e conforto, consideraram que todos são iguais e vivem de pequenos prazeres. O último homem: esgotado, desiludido, sem forças, desprezível, terá perdido todas as esperanças de elevação da humanidade.

Podemos imaginar, nesse momento, o esforço do poeta ao tentar transmitir àqueles homens a possibilidade de abertura de um novo caminho a partir do que a vida ia oferecendo. Zaratustra, ao falar aos homens do mercado, entristeceu-se, pois o povo pediu esse último homem. Zaratrusta, frustrado, não sentiu-se compreendido, retira-se, acuado. Fracassa-se ao falar dando-se conta de que o super-homem não era para qualquer um.

O poeta faz, por várias vezes, esse percurso: dirige-se ao homem e volta à solidão. Um caminho árduo, e sempre que se dirige ao homem esvazia-se de sua sabedoria e tende a retornar à sua caverna. Zaratustra se dá conta de que viver com os homens é um desafio, mas ao mesmo tempo, um desejo, no sentido de busca.
O caminho tenebroso e o homem atual...
Zaratustra recuou para si porque não foi compreendido, seu anseio em falar de sua experiência foi reprimido. Por outro lado, o povo do mercado, com ouvidos desatentos ao que lhes falava o poeta, não alcançou a notícia que poderia desestabilizá-los. O povo não estava preparado ainda para uma escuta da morte de Deus e muito menos para iniciar uma aventura de re-conhecer-se em sua condição faltante.

Podemos fazer nesse momento uma pausa. Damo-nos conta de que nossa aventura pode nos levar a lugares bastante tenebrosos. Reconhecer que somos uma corda sobre o abismo, sem deus, sem uma certeza na qual podemos nos agarrar pode ser enlouquecedor. O poeta se dá conta de que estar com os homens não é uma tarefa tão simples.

Aproximando do homem de hoje, podemos dizer que encontramos um modo de viver enlouquecido. O homem atual queixa-se de solidão, mas não consegue estar com o outro. Não vive a aventura do jogar-se ao desconhecido, porque nem sempre o outro o acolhe, o espera. Vive-se na insegurança e no medo do contato. O mal-estar na contemporaneidade parece regido pela falta do olhar do outro, falta encantamento, uma reação, um espanto, talvez. Os olhares são frios e banalizados. Percebe-se um esfriamento das relações, um congelamento das emoções. As saídas são imediatas e não mediadas prevalecendo a impotência perante a vida. E se o paraquedas não se abrir?

Muitas vezes, o paraquedas não se abre para receber, acolher. Porém, Nietzsche expressa, através de Zaratustra que o homem tem a chave para abrir o paraquedas, ou seja, para construir seu próprio destino, ou seja, que o caminho a ser traçado depende do modo de caminhar. O caminho não está pronto, não está dado. E a noção de desamparo, chama-nos atenção para a condição de homem que se dá conta que os conceitos são construídos, são interpretados por cada pessoa de acordo com o olhar que se faz na condição de desamparo, no jeito de caminhar.


O desamparo em Freud
Podemos agora aproximar e tentar uma articulação com o conceito de desamparo para a psicanálise. Desamparo é um conceito caro para Freud. Pode ser considerado o ponto de partida e de chegada no construto teórico da psicanálise. No Projeto Para Uma Psicologia Científica (1895) Freud buscou explicar o funcionamento do aparelho psíquico em termos neurológicos, ou seja, um aparelho livre de contradições que funciona dentro de uma homeostase. Usou da neurologia e da fisiologia para explicar o que não se vê. Quando Freud indagou-se do porquê do ser humano precisar de um aparelho psíquico, tocou na questão do desamparo, ou seja, a imaturidade biológica do ser humano leva-o a precisar de um outro que ofereça uma experiência de prazer/desprazer. Sua fragilidade perante às ameaças decorrentes do mundo externo coloca o bebê na total dependência de um semelhante, responsável pelos seus cuidados. Essa imaturidade leva à dependência. Portanto, esse outro é que cria as primeiras representações, é que faz articular as experiências de prazer/desprazer. É preciso que o outro faça a marca. Assim, Freud (1895) começa a distanciar-se da neurologia e da fisiologia para construir e desenvolver sua metapsicologia. Assim afirma:
O organismo humano é, a princípio, incapaz de promover essa ação específica. Ela se efetua por ajuda alheia, quando a atenção de uma pessoa experiente é voltada para um estado infantil por descarga através da via de alteração interna. Essa via de descarga adquire, assim, a importantíssima função secundária da comunicação, e o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais. (p. 431)
Quando o recém-nascido chora com fome e agita-se, essas respostas motoras são ineficazes para a eliminação do estado de estimulação na fonte corporal. Na linguagem do Projeto, anteriormente citado, num primeiro momento, o bebê nasce desarticulado, não tem instrumental para se livrar da tensão. O choro é interpretado através do desejo materno, ou alguém que exerça essa função aplacando sua tensão. ‘Ele quer o colo’, ou ‘meu bebê quer leitinho’. Portanto, o alívio da tensão só pode ser obtido através da ação específica, capaz de eliminar o estado de estimulação. Mas é isso que o recém-nascido não é capaz de fazer sem o auxílio de outra pessoa. Assim, num segundo momento, esses restos da experiência transformam-se em registros passando a ser guias, ou seja, caminhos para uma segunda, terceira experiência. Também, este momento seguinte dá uma perspectiva de não futuro, ou seja, o bebê dá-se conta de seu desamparo. Nota-se, portanto, que somente neste segundo momento o bebê tem possibilidade de qualificar esse estado como desamparo. Portanto, para Freud, desamparo faz parte da condição inerente ao ser humano, ou seja, a condição de fragilidade do homem coloca-o na dependência do outro.

Freud, em toda sua obra, sustentou esta idéia afirmando, em 1937, em Análise terminável e interminável, um de seus últimos trabalhos, que mesmo depois de anos de análise não existe como o sujeito proteger-se do desamparo e dos riscos que o viver nos impõe. Mas é em O futuro de uma ilusão, em Inibições, sintomas e angústia e no Mal-estar na civilização que o criador da psicanálise funda toda a noção de desamparo: “Terão de admitir para si mesmos toda a extensão de seu desamparo e insignificância na maquinaria do universo; não podem mais ser o centro da criação, o objeto de eterno cuidado por parte de uma Providência beneficente.” (Freud, 1927, p. 63).

Neste sentido, o desamparo coloca o sujeito em, pelo menos, dois caminhos: De um lado, dá condição para luta, para o crescimento; de outro, pode estacionar, paralisar, aprisionar, enfraquecendo-se de recursos internos. Podemos imaginar como, muitas vezes, na nossa caminhada enfrentamos situações de desamparo. E Freud (1925) coloca no centro do desamparo a seguinte definição: “A ansiedade [angst] tem inegável relação com a expectativa: é ansiedade por algo. Tem qualidade de indefinição e falta de objeto.” (Freud, 1925, p. 190). Seguindo a linha de pensamento de Freud, a falta de um paraquedas pode ser o limite entre a vida e a morte como constatamos, por exemplo, na perda de entes queridos, decepções, separações precoces, falta de um ouvido ou um ombro amigo. Situações que colocam em xeque nossa relação com o mundo.
O desamparo e a contemporaneidade
Herrmann (2004), ao tentar articular os campos mapeadores do sofrimento humano na contemporaneidade, afirma sobre o perigo da aniquilação da espécie humana. Uma vivência dura e cruel para nossa geração e que nos assola dia após dia.
A ameaça palpável e imediata de aniquilação nuclear da espécie humana, durante os anos de 60 a 80 do século passado, parece ter produzido um efeito traumático sobre a psique do real. Com efeito, a completa aniquilação do homem impõe um limite radical ao pensamento. (p. 2)
Segundo Herrmann (1997) vivemos, na contemporaneidade, o trauma do fim do mundo. Este trauma tem várias consequências na vida cotidiana. Os efeitos traumáticos podem ser entendidos pela crise de insegurança sobre a continuidade de nossa espécie. Esse medo, esse pavor faz com o sujeito se arme de mecanismos que o impedem de pensar. Assim, Herrmann aponta o ‘ato puro’ como uma das vivências do registro da cultura do real. O ato puro é considerado um instrumento radical quando as palavras falharam. Refere-se a isso dizendo: “Estrutura patológica: provisoriamente, diremos apenas que não se trata de violência nem de agressividade, mas que a impotência é que está em questão.” (Herrmann, 1997, p. 164).

Homem contemporâneo, homem paralisado, não sustenta suas razões pelo diálogo. O pensamento em ato pode ser considerado um modo de estar no mundo levando-o a viver assustado, perdido e fazendo-o arcar não só a singularidade de apreender o mundo, mas também colocar a sua própria existência em cheque.

Então, qual o destino desse homem?

Birman (2000) faz uma reflexão acerca do mal-estar na atualidade indagando os destinos do desejo e a condição da subjetividade do homem hoje. Coloca que a psicanálise ainda é o saber mais consistente no que se refere à tentativa de compreender o desamparo e seus impasses na atualidade. Birman relaciona o desamparo na cultura atual à auto-exaltação desmesurada da individualidade no registro do mundo especular e espetacular em que lhe interessa é o engrandecimento grotesco da própria imagem. Refere-se a isso: “O que justamente caracteriza a subjetividade na cultura do narcisismo é a impossibilidade de poder admirar o outro em sua diferença radical, já que não consegue se descentrar de si mesma.” (Birman, 2000, p. 25).

Portanto, o sujeito contemporâneo, para Birman, impõe-se e expõe-se numa direção exibicionista e autocentrada na qual o horizonte intersubjetivo encontra-se esvaziado e desinvestido das trocas humanas. E o recurso, ou seja, o mecanismo a fim de defender-se do desamparo é anular o outro e tentar salvar a si mesmo manifestando um narcisismo exarcebado com certezas ilusórias. Vive-se de certezas, precisa-se delas para estar no mundo, tem receitas para quase tudo. Aperta-se o botão e aparece logo uma receita que ensina a ser feliz. Desta forma, o sujeito, na contemporaneidade, com um jeito estranho de vivenciar o desejo, tem percorrido um caminho de um mal-estar, ausência de perspectivas, desesperança, nada a dizer, não saber falar sobre si mesmo mostrando uma imagem de senhor de si, cheio de convicções. Um homem desprovido de sua história.

Vivemos um tempo massacrante. Um tempo da falta de olhares quentes, pode-se dizer, um descomprometimento com o outro. Um tempo em que a caminhada sem o reconhecimento dos nossos companheiros pode tornar nossa aventura algo violento e destrutivo. Um tempo em que o semelhante é mais frequentemente representado como igual carecendo de um sentido afetivo possibilitado pela alteridade. A aventura transforma-se em angústia levando-o a um movimento de mergulho em si sem o outro.


O desamparo e a clínica
Faz-se necessário questionar esse tempo de desamparo do homem na contemporaneidade. Zaratustra nos alerta, chama-nos atenção para um perigo: o desaparecimento de vontade, a ausência de todo valor, o fim do amor, da criação. O último homem prefere a passividade. Porque é um desafio estar com o outro? Para que estar com o outro? E porque Zaratustra desejou estar com os homens?

Esta indagação é de extrema importância para a clínica psicanalítica contemporânea, pois o psicanalista se defronta com pacientes marcados por um empobrecimento do mundo simbólico, por falsas seguranças. O homem quer satisfação total. Vive-se a onipotência infantil de uma falsa ilusão de autonomia. O homem tem-se colocado no lugar do mais digno dos seres. Ele se sente tão maravilhoso consigo mesmo que está apto a se colocar como centro do mundo, ou mais ainda, como causa do próprio mundo. O homem ocupa uma posição gloriosa, não pertence ao mundo das coisas ordinárias, mas o mundo lhe pertence.

Percebe-se pouca luta, ou seja, a luta é contra a angústia do desamparo. “Poder-se-ia dizer que há os que lutam contra a angústia e a dependência e aqueles que lutam com a angústia e com a dependência” (Romera & Torrecillas, 1988, p. 6). Isso vem de encontro à vivência atual de que o homem vive uma ilusão de liberdade negando toda forma de dependência. Depender de alguém é aprisionar-se. Nega-se a dor passando uma imagem de autonomia. Falsa autonomia, pois, por trás desse homem, encontra-se um sujeito impotente. Não se luta com a dor. Essa angústia que invade leva o homem a aprisionar-se ao desejo de ser imagem. Assim, ele não reconheceria na imagem, mas esta é que o capturaria deixando-o em inanição de substancialidade. Capturado por uma imagem de felicidade seja marcada no corpo, seja na imagem de pais quando acreditam que cursos podem garantir-lhes o lugar de pais. Uma forma de perfeição, porém, um esvaziamento de implicações, um campo ilusório que não se sustenta.

É por frequentar esse lugar de glórias que o homem se depara com uma grande aflição como cita Freud em Inibições, sintoma e angústia (1926) “a angústia ‘como um sinal’ é a resposta do ego à ameaça da ocorrência de uma situação traumática.” (Freud, 1926, p. 99) e acrescenta que “tem uma qualidade de indefinição” (p. 189) trazendo-nos a idéia de uma situação de impotência. Assim, a angústia como sinal abre a possibilidade de pensamento e a angústia negada incita ao ato.

Portanto, um jogo sem luta, ou seja, pacientes marcados pelas intervenções imediatas na realidade prometidas pelas novas tecnologias, sofisticações que se encontram exatamente na origem do homem fraco que hoje parece constituir uma espécie de mito organizador do mal-estar na cultura. Nega-se a individualidade. Por isso, devemos conceber o sujeito na contemporaneidade como autodestrutivo. Como o leitor pode também verificar, fazer calar o mal-estar com soluções apaziguadoras pode ser uma medida muito cara ao homem enfraquecendo-o de recursos, escravizando-o e levando-o à morte.

Até agora nossa aventura parece levar-nos a caminhos tenebrosos em que a iminência de morte nos assola. Como suportar esta condição de desamparo?

Freud, no Mal-estar, busca responder a esta indagação mostrando-se descontente e preocupado com a civilização. Afirma que “a sociedade civilizada se vê permanentemente ameaçada de desintegração.” (Freud, 1930, p. 134). Por outro lado, diante desta implacável constatação, busca na própria civilização um sentido para o homem viver em sociedade. Indaga-se se o homem pode ainda ser feliz.

Para Freud “a civilização entra em cena como tentativa de regular relacionamentos sociais já que o homem revela uma tendência inata para o descuido, a irregularidade e a irresponsabilidade”. (Freud, 1930, p. 115). Foi o que o criador da psicanálise escreveu em Totem e tabu (1913), em O futuro de uma ilusão e, concluindo brilhantemente em O mal-estar na civilização (1930), levando-nos a confrontar com o abismo em nosso interior e nos forçar à tarefa difícil de domar e controlar nosso caos. Tudo isso com risco e ônus. Talvez um preço alto demais para se conviver com o outro.


Então... É possível ser feliz nesta civilização tão enlouquecida?
Em Ecce homo, Nietzsche deixa clara sua posição com relação à humanidade: “A última coisa que Eu prometeria seria esta: “Melhorar” a humanidade.” (Nietzsche, 2000, p. 32). O homem não tem saída, se vive em sociedade tem de ser assim, diz o poeta. O filósofo propõe um distanciamento crítico de tudo isso, da idéia de homem. “Atrair muitos para fora do rebanho – foi para isso que vim.” (Nietzsche, 1883, p. 39). Para Nietzsche, sair do rebanho é uma das formas de afirmar o desejo, conhecer mais de si mesmo e, assim, ter mais autonomia perante as angústias da vida. Desta forma, o super-homem é um novo modo de sentir, um novo modo de pensar, um novo modo de avaliar, uma nova forma de vida.

Freud também indica-nos alguns caminhos sendo que um deles é a proposta do homem se afastar um pouco da civilização: “Contra o temível mundo externo, só podemos defender-nos por algum tipo de afastamento dele.” (Freud, 1930, p. 96). Manter-se, de certa forma, isento das especulações do mundo, em Freud há a possibilidade do homem voltar-se mais para si mesmo, para a fantasia, para o sonho e para o auto-conhecimento. Esse caminho parece ter a intenção de nos tornarmos, de certa forma, independentes de mundo externo transcendendo o abismo de nosso desamparo. O objetivo da luta de Freud durante toda a sua vida resumiu-se em ajudar-nos a adquirir uma compreensão de nós próprios, de modo que deixássemos de ser impelidos por forças que nos eram desconhecidas e pela massificação da civilização.

Por outro lado, Zaratustra quis estar com os homens, sentia saudades e falta dos amigos quando voltava à montanha, pois, já não eram mais os homens do mercado, eram seus amigos porque criou laços. Experimentou com seus amigos o lado sombrio da vida, entristecia, sofria e sentia saudades. Zaratustra cai no vazio, aceita a condição de jogar-se no abismo, experimenta descer da montanha do seu eu e haver-se com incertezas. Toda vez que voltava à caverna, Zaratustra sofria com a ausência dos seus discípulos, sentindo-se só e desamparado. Como sofreu!!! Como, por várias vezes, deve ter chorado quando retornava à caverna por não ser compreendido. Porém, algo movia-o novamente a buscar os homens. Algo mudou em Zaratustra. Ele causou e foi causado. Pensou, quando quis descer da caverna que pudesse transformar os homens, talvez não alcançasse a dimensão na qual foi causado.

Fortes (2003), fazendo uma interlocução entre Nietzsche, Psicanálise e a subjetividade contemporânea, com relação às dificuldades nas relações humanas, afirma que “o que importa não é a quantidade de força, mas sua capacidade de afetar.” (Fortes, 2003, p. 6). Zaratustra não foi mais o mesmo após ter sido atravessado pelo amor dos amigos. Provocou nele uma nova narrativa e uma nova construção de sentido e significação. Foi ao encontro do próximo, precisou dos homens para voltar a seu caminho de autodescoberta. Precisou esvaziar-se de si mesmo e abrir-se para o outro.

Assim como Nietzsche, a psicanálise não promete felicidade, mas o empenho de Freud seria que o homem pudesse reconhecer-se como sujeito frente aos percalços da vida. E, o de Nietzsche, que o homem buscasse sua autonomia aceitando as coisas, sem desespero, “... alegrando-se com as coisas tais como elas são, foram e serão; (...) é querer a vida, a cada momento, sem reservas, integralmente, incondicionalmente, por toda a eternidade.” (Machado, 1997, p.142). Assim, além de elementos como vitalidade, potência, em Assim falou Zaratustra, associa-se a noção de amor fati, amor ao destino, uma proposta ética de afirmar tudo o que ocorre, de querer o vivido no instante em que é vivido. “Redimir o passado, no homem, é recriar todo o ‘foi assim’ até que a vontade diga: Mas assim eu o quis! Assim hei de querê-lo” (Nietzsche, 1883, p. 204).

Freud (1930), mesmo sugerindo ao homem afastar-se um pouco da civilização, reconhece o amor como um dos fundamentos da civilização. Coloca a civilização como necessária. Estava convencido de que a criação da sociedade civilizada, apesar de todas as suas deficiências, era ainda a mais nobre realização do homem, afirmando que “a civilização constitui um processo a serviço de Eros, cujo propósito é combinar indivíduos humanos, isolados, depois a família e, depois ainda, raças, povos e nações numa única e grande unidade, a humanidade” (Freud, 1930, p. 145). Assim, o amor é um preceito que contraria o que a civilização promove. Somos pura agressividade. Nossa natureza é instintiva, ‘força bruta’. Amar significa nadar contra a correnteza. Amar o próximo não é uma tendência natural, nossa tendência é não sermos amados, estamos muito mais próximos do bruto, do instintivo do que do amor.

Portanto, levar a vida na companhia do outro é um processo, uma aprendizagem, uma arte que nos impõe uma outra lógica. Requer um esforço, uma tarefa em construção. Freud refere-se a isso afirmando que “um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas, num último recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em conseqüência da frustração formos incapazes de amar” (Freud, 1914, p. 101).

Neste sentido, estas reflexões podem nos indicar que afetar e deixarmos ser afetados pelo outro faz-nos afastar da nossa condição de criatura mesmo sendo uma operação de risco e não uma matemática em que dois mais dois são quatro. Assim, quando deixamos ser atravessados, abre-se uma brecha em que as operações podem provocar desdobramentos possíveis e impossíveis. E nesse desdobrar-se, somos reconhecidos em nossa singularidade.

Iniciamos nossa caminhada assustados e medrosos. Talvez seja essa a primeira impressão que temos do pensamento de Nietzsche com relação ao homem como não sendo um filósofo da esperança, mas Zaratustra exprime mensagem de esperança. Nietzsche mostra, ao homem, a esperança de que é possível viver no deserto sem transformar em deserto a própria vida. Zaratustra pode ser chamado o poeta da esperança e do amor mesmo trilhando um caminho na ambivalência da alegria e da dor, do prazer e do desprazer, da felicidade e da infelicidade, da angústia e do gozo foi-se construindo, assim, um homem forte.

Podemos nos indagar agora: Como aplicar tudo isso na clínica? Freud conseguiu transformar o pensamento de Nietzsche numa proposta terapêutica. Neste sentido, Naffah Neto (1997) faz uma reflexão a respeito da cultura atual tendo como base a psicanálise e as teorizações Nietzschianas:


As consequências de uma depuração crítica da psicanálise são bastante preciosas no nível da clínica: trata-se, nada mais, nada menos, de saber que tipo de homem queremos ajudar a construir, se um que seja criador de valores ou meramente reprodutor. (p.50)
Afinal, o que queremos para os pacientes que nos procuram, para nossos entes queridos, nossos filhos, nossos irmãos, amigos? Suscita em nós uma certa desordem, caos, mexe com elementos preciosos guardados a sete chaves. Sabemos que não há teoria alguma que dê conta do ser humano, porém a psicanálise, com sua lente sobre a condição de desamparo e Nietzsche, especificamente Zaratustra, podem nos ajudar a criar uma nova forma de olhar o homem contemporâneo. Exige de nós suportar a presença de uma certa desordem, uma perturbação até invasiva, e principalmente, um certo silêncio, muitas vezes, arrebatador, que a nova ordem na contemporaneidade nos provoca. O poeta nos acalenta dizendo que “é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante. Eu vos digo: há ainda caos dentro de nós.” (Nietzsche, 1883, p. 33).

Esta certa desordem nos ajuda a pensar como no viver do homem hoje encontra-se pouco espaço para o viver criativo. E o que seria um viver criativo? Num primeiro momento, vem a idéia de algo não mecanizado.


A possibilidade... A brecha em Winnicott
Criar, no dicionário, é dar existência, dar origem, causar. Isso vem ao encontro da idéia Winnicottiana de criatividade que consiste no espaço ilusão-desilusão (Winnicott, 1988). Por volta do 3° ao 6° mês de vida, é criado este espaço entre o bebê a mãe que consiste por um lado, na ilusão, na capacidade de criar o seio da mãe. E à medida que cria o seio da mãe, cria a própria existência. E, por outro, na desilusão, ou seja, um espaço em que não é mais um eu totalizado, tão potente. È o espaço do eu e não-eu. A idéia de criatividade, nesse momento, remete ao bebê uma condição de ter de se virar, ter de dar um jeito por tratar-se de um ‘lugar’ sem garantias, nem certezas. Porém, dá a possibilidade do bebê deslocar a angústia e, desta maneira, remodelá-la, transfigurá-la, transformando-a em ato criativo.

Trazendo a metáfora do abismo, viver este vazio pode ser uma aventura interessante e o como se transpõe constrói-se a possibilidade de um viver criativo. Transpor o abismo, ou melhor, viver este abismo requer ir ao encontro do homem e voltar a si mesmo. Procura-se o próximo para encontrar-se. Assim, há a possibilidade de um novo sentido vir à luz e uma nova interpretação se constrói, se desenvolve, se impõe. É uma aventura de autodescoberta, é um processo que nos afeta, nos assola, mas trará como resultado nos tornarmos seres mais fortalecidos. Uma aventura cheia de riscos, porém pode nos levar a nos tornarmos menos escravizados e mais capacitados para enfrentar os percalços da vida e para compreendermos nossos semelhantes. Para o poeta, “Criar – essa é a grande redenção do sofrimento, é o que torna a vida mais leve. Mas, para que o criador exista, são deveras necessário sofrimento e muitas transformações.” (Nietzsche, 1883, p. 101).

Parece não haver outro jeito senão conviver com incertezas, não com verdades absolutas. A essência é o jeito de transpor que torna-se diferente de um para outro. Nietzsche refere-se a isso: “eu tolero, eu afirmo, eu supero.” Esta é a idéia de Nietzsche: ultrapassar o humano, no conflito, na dor. Sim. Não há caminhada sem dor, sofrimento, angústia, o jeito de caminhar é o que nos torna singulares, diferentes. A autonomia do homem parece estar nesse modo de transpor e não na ilusão de que é um super-homem como temos visto na contemporaneidade buscando, a qualquer custo, formas de esconder o desamparo.

Em Nietzsche, o transbordar da taça pode igualmente converter-se num novo começo e numa nova criação.Taça, esvazia e enche - dá e recebe – e nesse transbordar há a possibilidade de uma nova resposta que o sujeito dá, ou tenta dar, à sua própria interrogação, às suas próprias representações, aos seus próprios fantasmas.


Considerações finais
Neste sentido, podemos reconhecer a necessidade de derramarmos no outro, abrirmos para o outro. Sim, uma necessidade, pois é quase uma obrigação. Por outro lado, a tentativa de permanecermos na posse integral de nós mesmos é mortífera e uma empreitada impossível, o qual Herrmann nos afirma que “um sentimento básico, bastante conhecido do todos nós, é o desejo de ser inteiro, de bastar-se a si mesmo. A própria teoria do narcisismo afirma algo assim.” (Herrmann, 2004, p. 104).

Só amor próprio não basta, é preciso esvaziar-se no e em outro.

Descer da montanha do nosso eu é necessário. O poeta fez-se carente do olhar dos homens. Não há como escaparmos do desamparo primordial, é intrínseco ao homem, nos adere. Padecemos dessa condição: “Eu sou desamparado”. O homem veio desse estofo do desamparo. E dar-se conta disso é suportar satisfações parciais. Suportar que não há felicidade completa. Não há como escaparmos dessa verdade que é construída no caminhar, é dura demais percebê-la sozinhos ou uma tarefa impossível. E é nesse transpor que abre-se a brecha para o homem mostrar seu jeito de ser. Seu jeito particular, sua singularidade.

Esta linha de pensamento leva-nos a pensar que conviver com o outro é uma necessidade e não uma escolha e, neste con-viver, cada um faz um recorte do mundo, diferenciando assim, uma pessoa de outra. Quando o poeta diz: “Ai de nós! Aproxima-se o tempo em que o homem não mais arremessará a flecha do seu anseio para além do homem e a corda de seu arco terá desaprendido a vibrar.” (Nietzsche, 1883, p.33), colocando-nos um certo medo de um tempo em que o homem corre o risco de fechar-se completamente em si, perder-se, aniquilar-se. Acrescenta-nos também que “já é tempo de o homem estabelecer sua meta. Já é tempo de o homem plantar a semente da sua mais alta esperança.” (Nietzsche, 1883, p.33). Temos de acreditar nessa pequena fração de abertura para o outro. O homem é sombrio, efêmero. Não é possível ter acesso à individualidade se não for pelo olhar de nosso semelhante. Somos pequenos diante da natureza do universo. Ainda temos muito a aprender no trato dos assuntos humanos, como Freud afirma que “embora a humanidade tenha efetuado avanços contínuos em seu controle sobre a natureza, podendo efetuar ainda outros maiores, não é possível estabelecer com certeza que um progresso semelhante tenha sido feito no trato dos assuntos humanos.” (Freud, 1927, p.17).



Deste modo, o desamparo do homem não se traduz em infelicidade mas em uma condição que alicerça-o para o homem forte. O desamparo de Freud é afirmação da vida. Aí está a grandeza do ser humano, não apenas em suportar o necessário, mas amá-lo. Amar esta condição primordial é fazê-lo mais forte, aí está sua potência. Acolher esta condição é também acolher o outro em sua condição, é aceitar a própria vida, gera vitalidade e alegria, não congela a dor. O homem ativo é aquele que aceita que as coisas passam e faz com que, em cada instante, a sua força seja afirmativa.
Referências
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escolar da língua portuguesa. Nova ortografia da língua portuesa. (2ª. Ed.). São Paulo: Companhia das Letras.
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Freud, S. (1969-1930). O Mal estar na Civilização (Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, Vol.XXI). Rio de Janeiro: Imago.
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Winnicott, D. (1988). Da pediatria à psicanálise (3ª ed.).Textos selecionados. Rio de Janeiro: Francisco Alves.

Categoria de contribuição: Ensaio

Recebido: 09/10/08

Aceito: 27/05/09



1 Psicóloga Clínica. Trabalha com criança em psicoterapia de base analítica desde 1996. Pós-graduação em Teoria Psicanalítica. Mestranda no curso de pós-graduação pelo Instituto de Psicologia Aplicada da Universidade Federal de Uberlândia.M.G lopescamargos@bol.com.br

2 Psicólogo, professor associado do Instituto de Psicologia e do programa de pós-graduação em Psicologia Aplicada da Universidade Federal de Uberlândia. Doutor em Psicologia social pelo Instituto de Psicologia da USP e Pós-Doutorado pelo Instituto de Filosofia da Universidade de Leipzig (Alemanha).c.prochno@uol.com.br.

3 Psicóloga, psicanalista, membro associado da SBPSP, membro do Centro de Estudos da Teoria dos Campos-CETEC, professora associada do Instituto de Psicologia do programa de pós-graduação em Psicologia Aplicada da Universidade Federal de Uberlândia. Doutora em Psicologia Escolar pelo Instituto de Psicologia da USP e Pós-Doutorado pelo Centro de Estudos da Teoria dos Campos – CETEC –PUC-SP. mluciaro@terra.com.br.



Pesquisas e Práticas Psicossociais 3(2), São João del-Rei, Mar. 2009




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