O despertar dos mágicos



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O DESPERTAR DOS MÁGICOS
LOUIS PAUWELS E JACQUES BERGIER
BERTRAND EDITORA
Digitalização e tratamento do texto por Guilherme Jorge

Prefácio
Tenho uma grande falta de habilidade manual e lamento-o.

Seria mais perfeito se as minhas mãos soubessem trabalhar. Mãos

que fazem qualquer coisa de útil mergulham nas profundidades

do ser e dali extraem uma fonte de bondade e de paz. O meu

padrasto (a quem chamarei aqui pai, pois foi ele que me educou)

era alfaiate. Tinha uma alma profunda, um espírito verdadeiramente

mensageiro. Por vezes dizia, sorrindo, que a traição dos

clérigos, principiara no dia em que um deles representou um

anjo com asas: é com as mãos que se sobe ao céu.

A despeito desta falta de habilidade, consegui no entanto

encadernar um livro. Tinha dezasseis anos. Era aluno do curso

complementar de Juvisy, nuns arrabaldes pobres. Ao sábado à

tarde podíamos escolher entre o trabalhar a madeira, o ferro,

a modelagem ou a encadernação. Nessa época eu lia os poetas,

principalmente Rimbaud. No entanto, impus a mim próprio não


' A palavra "clerc" significa simultaneamente clérigo e letrado, erudito,

sábio. Aliás, há aqui, proventura, alusão ao célebre livro de Julien

Benda, La Trahison des Clercs, que tanta celeuma levantou há cerca de

quarenta anos. (N. da T.)


encadernar Une Saison en Enfer. Meu pai possuía cerca de trinta

livros dispostos no estreito armário da sua oficina, juntamente

com os carros de linhas, o giz, os chumaços e os moldes. Havia

também, nesse armário, milhares de notas tomadas numa caligrafia

miúda e aplicada, a um canto da banca de alfaiate durante

as inumeráveis noites de labor. Entre esses livros eu lera Le

Monde avant la Création de lHomme, de Flammarion, e entregava-me

à descoberta, nessa altura, de Para Onde Vaz o Mundo?

de Walter Rathenau. Foi o livro de Rathenau que resolvi encadernar,

não sem custo. Rathenau fora a primeira vítima dos

nazis, e nós estávamos em 1936. Na pequena oficina do curso

complementar, aos sábados, eu fazia trabalhos manuais por

amor ao meu pai e ao mundo operário. No dia 1 de Maio

ofereci-lhe, juntamente com um ramo de junquilho, o Rathenau

encadernado.

Nesse livro, meu pai sublinhara a lápis vermelho uma longa

frase que nunca mais esqueci:

"Mesmo as épocas de opressão são dignas de respeito, pois

são a obra, não dos homens, mas da humanidade, e portanto da

natureza criadora, que pode ser dura, mas nunca é absurda.

Se a época que vivemos é dura, temos o dever de a amar ainda

mais, de a penetrar com o nosso amor, até que tenhamos afastado

as enormes montanhas que dissimulam a luz que há para

além delas."


*

"Mesmo as épocas de opressão..." Meu pai morreu em 1948

sem jamais deixar de crer na natureza criadora, sem jamais

deixar de amar e de penetrar com o seu amor o mundo sofredor


em que vivia, sem jamais perder a esperança de ver brilhar a

luz para além das enormes montanhas. Ele pertencia à geração

dos socialistas românticos, que tinham como ídolos Vítor Hugo,

Romain Rolland, Jean Jaurès, usavam grandes chapéus e conservavam

a pequena flor azul da sentimentalidade entre as pregas

da bandeira vermelha. Na fronteira da mística pura e da acção

social, o meu pai, preso à sua banca de alfaiate mais de catorze

horas por dia - e nós vivíamos à beira da miséria - conciliava

um ardente sindicalismo e uma busca de libertação interior. Nos

gestos muito limitados e humildes do seu ofício introduzira

um método de concentração e de purificação do espírito a respeito

do qual deixou centenas de páginas. Enquanto fazia casas,

ou passava a ferro as fazendas, tinha uma presença resplandecente.

À quinta-feira e ao domingo, os meus camaradas reuniam-se

à volta da sua banca, para o escutar e sentir aquela presença

vigorosa, e a maior parte deles alteraram as suas vidas devido

à sua influência.

Cheio de confiança no progresso e na ciência, acreditando

na ascensão do proletariado, elaborara uma sólida filosofia. Sentira

uma espécie de inspiração ao ler a obra de Flammarion

sobre a pré-história. Depois, guiado pela paixão, lera livros de

paleontologia, de astronomia, de física. Embora sem preparação,

penetrara no âmago dos assuntos. Falava pouco mais ou menos

como "Teilhard de Chardin, que então desconhecíamos: "O que

o nosso século vai viver é mais importante do que a aparição

do budismo! De futuro já não se trata de dedicar a tal ou tal

divindade as faculdades humanas. É o poder religioso da terra

que sofre em nós uma crise definitiva: a da sua própria descoberta.

Começamos a perceber, e para sempre, que para o

homem a única religião aceitável é a que antes de mais o ensinará

a reconhecer, amar e servir apaixonadamente o Universo

de que ele é o elemento mais importante" ". Ele achava que a

evolução não se confunde com o transformismo, mas que ela

é integral e ascendente, aumentando a densidade psíquica do

nosso planeta, preparando-o para tomar contacto com as inteligências

dos outros mundos, para se aproximar da própria alma

do cosmos. Para ele, a espécie humana não estava concluída.

Ela progredia em direcção a um estado de superconsciência,

através da ascensão da vida colectiva e da lenta criação de um

psiquismo unânime. Dizia que o homem ainda não estava perfeito

e salvo, mas que as leis de condensação da energia

criadora permitem-nos alimentar, à escala do cosmos, uma formidável

esperança. E não perdia de vista essa esperança. Era por

isso que julgava com uma serenidade e um dinamismo religiosos

os problemas deste mundo, indo procurar muito longe, muito

alto, um optimismo e uma coragem imediatamente e realmente

utilizáveis. Em 1948 a guerra terminara, e ressurgiam ameaças

de batalhas, desta vez atómicas. No entanto ele considerava as

inquietações e os sofrimentos actuais como negativos de uma

imagem magnífica. Havia nisso um fio que o unia ao destino

espiritual da Terra e espalhava sobre a época de opressão em

que terminava a sua vida de trabalhador, apesar de imensos desgostos

íntimos, muita confiança e muito amor.

Morreu nos meus braços, na noite de 31 de Dezembro

e disse-me, antes de fechar os olhos:
"É preciso não contar demasiadamente com Deus, mas tal

vez Deus conte connosco..."


*

Em que ponto da minha evolução estava eu nesse momento?

Tinha vinte e oito anos. Fizera vinte anos em 1940, em plena

derrocada. Pertencia a uma geração de transição que assistira

ao desmoronar de um mundo, estava separada do passado e

desconfiava do futuro. Eu estava longe de acreditar que a época

de opressão fosse digna de respeito e que era necessário penetrá-la

com o nosso amor. Antes me parecia que a lucidez nos

levava a recusar um jogo em que todos fazem batota.

Durante a guerra refugiara-me no induísmo. Era o meu

"m"uis". Nele vivia em resistência absoluta. Não procuremos o

ponto de apoio na história e entre os homens: escapa-se-nos sem

cessar. Procuremo-lo em nós próprios. Sejamos deste mundo

como se o não fôssemos. Coisa alguma me parecia tão bela como

o pássaro mergulhador da Bhagavad Gita, "que mergulha e volta

à superfície sem ter molhado as penas". Perante os acontecimentos

contra os quais nada podemos, pensava eu, procedamos de

forma que eles nada possam contra nós. Permanecia nas alturas,

sentado em lódão sobre uma nuvem vinda do Oriente. À noite,

meu pai lia às escondidas os meus livros de cabeceira tentando

compreender a estranha doença que tanto me afastava dele.

Mais tarde, após a Libertação, ofereci a mim próprio um

mestre para viver e pensar. Tornei-me discípulo de Gurdjieff.

Esforçava-me por me separar das minhas emoções, dos meus

sentimentos, dos meus impulsos, a fim de encontrar, para além,

qualquer coisa de imóvel e permanente, uma presença muda,

anónima, transcendente, que me consolaria da minha pequena

realidade e da incongruência do mundo. Julgava meu pai com

certa comiseração. Supunha possuir os segredos do governo do

espírito e de todo o conhecimento. Na verdade, eu não possuía

mais que a ilusão de possuir um enorme desprezo por aqueles

que não partilhavam essa ilusão.

Meu pai desesperava-se por minha causa. Eu próprio me desesperava.

Mantinha-me obstinadamente numa posição de recusa.

Lia René Guénon. Pensava que tínhamos a pouca sorte de viver

num mundo radicalmente pervertido e justamente votado ao apocalipse.

Fazia meu o discurso de Cortes à Câmara dos Deputados de

Madrid em 1849: "Meus senhores, a causa de todos os vossos erros

é ignorardes o caminho da civilização e do mundo. Julgais que a

civilização e o mundo progridem, e eles retrocedem!" Para mim,

a idade actual era a idade negra. Entretinha-me a enumerar os crimes

do espírito moderno contra o espírito. Desde o século &I que o

Ocidente, separado dos Princípios, corria para a própria destruição.

Alimentar qualquer esperança era aliar-se ao mal. Denunciava a

mais pequena confiança como uma cumplicidade. Só me restava

entusiasmo para a recusa, para a ruptura. Neste mundo cujas três

quartas partes já se perdiam no abismo, onde os padres, os sábios,

os políticos, os sociólogos e os organizadores de toda a espécie

me apareciam como coprófagos, apenas os estudos tradicionais

e uma resistência incondicional ao século eram dignos de respeito.

Neste estado de espírito chegava a considerar meu pai um

ingénuo primário. O seu poder de adesão, de amor, de visão

remota irritava-me como coisa ridícula. Acusava-o de ter permanecido
nos entusiasmos da Exposição de 1900. A esperança que

ele punha numa colectivização crescente (e colocava-a infinitamente

mais acima que o plano político) provocava-me desprezo.

Eu só acreditava nas antigas teocracias.

Einstein fundava um núcleo desesperado dos sábios do

átomo, a ameaça de uma guerra total pairava sobre a humanidade

dividida em dois blocos. Meu pai morria sem nada ter perdido

da sua fé no futuro, e eu já não o compreendia. Não evocarei,

nesta obra, os problemas de classe. Não é o lugar adequado.

Mas sei muito bem que esses problemas existem, pois crucificaram

o homem que me amava. Não conheci o meu verdadeiro

pai. Ele pertencia à velha burguesia de Gante. Tanto minha mãe

como o meu segundo pai eram operários, descendiam de operários.

Foram os meus antepassados flamengos, folgazões, artistas,

ociosos e orgulhosos, que me afastaram do pensamento generoso,

dinâmico, que me fizeram desprezar e ignorar a virtude da participação.

Há muito tempo já que existia uma barreira entre meu

pai e eu. Ele que não quisera outro filho além deste que não

era do seu sangue, com receio de me prejudicar, sacrificara-se

para que eu me tornasse um intelectual. Tendo-me dado

tudo, idealizara a minha alma semelhante à dele. A seus olhos

eu devia tornar-me um farol, um homem capaz de esclarecer os

outros homens, de lhes dar coragem e esperança, de lhes mostrar,

como ele dizia, a luz que brilha no fundo de nós. Mas eu

não via qualquer espécie de luz, senão a luz negra, em mim

e no fundo da humanidade. Não passava de um letrado semelhante

a tantos outros. Levava até às suas consequências extremas

esse sentimento de exílio, essa necessidade de revolta radical

que se exprimia nas revistas literárias por volta de 1947, ao falar

de "inquietação metafísica", e que constituíram a complicada

herança da minha geração. Nestas condições, de que maneira

ser um farol? Esta ideia, expressão à Vítor Hugo faziam-me sorrir

maldosamente. Meu pai censurava-me por me deixar corromper,

por ter passado, como ele dizia, para o lado dos privilegiados

da cultura, dos mandarins dos orgulhosos da sua impotência.

A bomba atómica, ao passo que para mim marcava o princípio

do fim dos tempos, era para ele o sinal de um novo despertar.

A matéria ia-se espiritualizando e o homem descobriria

à sua volta e em si próprio forças até ali insuspeitadas. O espírito

burguês, para o qual a Terra é um local de descanso confortável

de que é necessário extrair o máximo, ia ser sacudido pelo

espírito novo, o espírito dos obreiros da Terra, para quem o

mundo é uma máquina em marcha, um organismo em evolução,

uma unidade a construir, uma Verdade a fazer desabrochar.

A humanidade estava apenas no início da sua evolução. Ela recebia

as primeiras informações a respeito da missão que lhe era

destinada pela Inteligência do Universo. Mal começávamos a

perceber o que é o amor do mundo.

Para meu pai, a aventura humana tinha uma direcção. Ele

julgava os acontecimentos conforme se situavam ou não nessa

direcção. A história tinha um sentido: ela evoluía para qualquer

forma de ultra-humano, trazia em si a promessa de uma superconsciência.

A sua filosofia cósmica não o separava do século.

No presente, as suas adesões eram "progressistas". Eu irritava-me,

sem perceber que ele punha uma espiritualidade infinitamente

maior no seu progressismo do que os progressos que

eu fazia na minha espiritualidade.

No entanto, eu sufocava no meu pensamento limitado. Diante

daquele homem sentia-me por vezes um pequeno intelectual árido
e transido, e acontecia-me desejar pensar como ele, respirar tão

amplamente como ele. Ao canto da sua banca de alfaiate, à noite,

eu levava a contradição ao extremo, provocava-o, desejando secretamente

sentir-me perturbado e modificado. Mas, com a ajuda do

cansaço, ele exaltava-se contra mim, contra o destino que lhe dera

um grande pensamento sem lhe conceder os meios de o transferir

para esse filho de sangue rebelde, e separávamo-nos encolerizados

e indispostos. Eu buscava de novo as minhas meditações

e os meus livros desesperados. Ele inclinava-se sobre os tecidos e

pegava novamente na agulha, sob a luz forte que lhe amarelecia

os cabelos. Da minha cama ouvia-o durante muito tempo resfolgar,

resmungar. Depois, de súbito, começava a assobiar entre

dentes, suavemente os primeiros compassos do "Hino à Alegria"

de Beethoven, para me dizer de longe que o amor encontra sempre

os seus. Penso nele quase todas as noites, à hora das nossas

antigas discussões. Oiço essa respiração, esse resmungar que terminava

em canto, esse sublime vento desaparecido.

*

Há doze anos que morreu! E eu vou fazer quarenta. Se o



tivesse compreendido em vida teria encaminhado mais habilmente

a minha inteligência e o meu coração. Não parei de procurar.

Agora, alio-me de novo a ele, mas após quantas pesquisas, muitas

vezes inúteis, e perigosas divagações! Podia ter conciliado, muito

mais cedo, o gosto pela vida interior e o amor pelo mundo em

movimento. Podia ter construído mais cedo, e talvez com maior

eficácia, quando as minhas forças estavam intactas, uma ponte

entre a mística e o espírito moderno. Ter-me-ia sentido simultaneamente

religioso e solidário com o grande impulso da história.

Podia ter sentido mais cedo a fé, a caridade e a esperança.

Este livro resume cinco anos de pesquisas, em todos os sectores

do conhecimento, nas fronteiras da ciência e da tradição

Lancei-me nesta empresa nitidamente superior às minhas possibilidades,

porque já não podia recusar por mais tempo este mundo

presente e futuro que, no entanto, é o meu. Mas todo o excesso

é esclarecedor. Podia ter descoberto mais cedo um meio de

comunicação com a minha época. Pode ser que não tenha perdido

totalmente o tempo ao ir até ao extremo da minha procura. Não

acontece aos homens aquilo que eles merecem, mas sim o que

se lhes assemelha. Procurei durante muito tempo, como o desejava

o Rimbaud da minha adolescência, "a Verdade numa alma e num

corpo". Não o consegui. Na perseguição dessa Verdade perdi o

contacto com as pequenas verdades que teriam feito de mim, não

decerto o super-homem por que ansiava, mas um homem melhor

e mais unificado do que sou. No entanto, aprendi, a respeito do

comportamento profundo do espírito, dos diversos estados possíveis

da consciência, da memória e da intuição, coisas preciosas

que não teria aprendido de outra forma e que me permitiriam,

mais tarde, compreender o que há de grandioso, de essencialmente

revolucionário na base do espírito moderno: a interrogação sobre

a natureza do acontecimento e a necessidade imperiosa de uma

espécie de transmutação da inteligência.

Quando saí do meu nicho de Yogi para lançar um golpe de

vista sobre este mundo moderno que eu condenava sem o

conhecer, aprendi repentinamente o maravilhoso. O meu estudo

reaccionário, tão cheio de orgulho e de ódio, fora útil na medida

em que me impedira de aderir a este mundo pelo lado mau:

o velho racionalismo do século xIx, o progressismo demagógico.


Impedira-me igualmente de aceitar este mundo como uma coisa

natural e simplesmente porque era o meu, de o aceitar num

estado de consciência sonolenta, como acontece à maior parte

das pessoas. Com os olhos remoçados por essa longa permanência

fora do meu tempo, vi este mundo tão rico em fantástico real

como o mundo da tradição era para mim em fantástico suposto.

Melhor ainda: aquilo que aprendia sobre a época modificava,

aprofundando-o, o meu conhecimento do espírito antigo. Vi as

coisas antigas com um olhar novo, e os meus olhos estavam

igualmente novos para ver as coisas novas.


*

Encontrei Jacques Bergier (mais adiante direi em que circunstâncias)

na altura em que acabava de escrever uma obra a respeito

do grupo de espíritos reunido à volta de Gurdjieff. Esse encontro,

que não atribuo ao acaso, foi determinante. Acabava de consagrar

dois anos a descrever uma escola esotérica e a minha própria

aventura. Mas nesse momento principiava para mim outra aventura.

Foi o que me pareceu necessário dizer ao despedir-me dos meus

leitores. Terão de desculpar-me o facto de me citar a mim próprio,

dado que não tenho a menor preocupação em chamar as atenções

para a minha obra: são outros os meus objectivos. Inventei a

fábula do macaco e da cabaça. Os indígenas, a fim de capturarem

o animal com vida, amarram a um coqueiro uma cabaça contendo

pistaches. O macaco precipita-se, estende a pata, pega nas pistaches,

fecha a mão. E eis que não a pode retirar novamente.

Aquilo que conquistou retém-no prisioneiro. Ao sair da escola

Gurdjieff escrevi:

"É necessário apalpar, examinar os frutos-armadilhas, depois

afastarmo-nos com rapidez. Satisfeita uma certa curiosidade, convém

dirigir imediatamente a nossa atenção para o mundo em que

estamos, recuperar a nossa liberdade e a nossa lucidez, retomar

o caminho sobre a terra dos homens da qual fazemos parte.

O que importa é ver em que medida o movimento essencial do

pensamento dito tradicional encontra o movimento do pensamento

contemporâneo. A física, a biologia, as matemáticas, nos seus

aspectos terminais, contém actualmente certos dados do esoterismo,

reúnem certas visões do cosmos, relações da energia e da matéria

que são visões ancestrais. As ciências de hoje, se as abordamos

sem conformismo científico, mantêm um diálogo com os antigos

mágicos, alquimistas, taumaturgos. Opera-se, sob o nosso olhar

uma revolução, e há de novo um casamento inesperado da

razão, no auge das suas conquistas, com a intuição espiritual.

Para os observadores verdadeiramente atentos, os problemas que

se põem à inteligência contemporânea já não são problemas de

progresso. Há alguns anos que a noção de progresso deixou

de existir. São problemas de mudança de estado, problemas de

transmutação. Neste sentido, os homens atentos às realidades da

experiência interior vão na direcção do futuro e dão solidamente

a mão aos sábios de vanguarda que preparam o surgimento de

um mundo sem nada de comum com o mundo de pesada transição

no qual vivemos ainda por algumas horas."

É exactamente o assunto que será desenvolvido neste

grande volume. É portanto necessário, pensava eu antes de o

iniciar, projectar a inteligência muito longe em direcção ao passado

e muito longe em direcção ao futuro para compreender

o presente. Apercebi-me de que tinha razão para não amar,

outrora, as pessoas que são simplesmente "modernas". Somente

eu condenava-as sem saber porquê. Na verdade, são condenáveis


porque o seu espírito apenas ocupa uma fracção demasiado

pequena do tempo. Mal surgem, tornam-se anacrónicas. O que

é preciso ser, para estar presente, é contemporâneo do futuro.

E o próprio passado remoto pode ser interpretado como uma

ressaca do futuro. Desde então, quando interrogo o presente,

obtenho respostas cheias de estranhezas e de promessas.


*

James Blish, escritor americano, diz em homenagem a Einstein

que este último "engoliu Newton vivo". Admirável fórmula!

Se o nosso pensamento se eleva para uma visão mais alta da

vida, é vivas que ele deve ter absorvido as verdades do plano

inferior. Tal é a certeza que adquiri no decorrer das minhas

pesquisas. Isto pode parecer banal, mas quando se viveu no

meio de ideias que pretendiam estar acima de tudo, como seja

a sabedoria de Guénon e o sistema Gurdjieff, e que ignoravam

ou desprezavam a maior parte das realidades sociais e científicas,

esta nova forma de julgar modifica a direcção e os anseios

do espírito. "As coisas inferiores, já Platão dizia, devem encontrar-se

entre as coisas superiores, embora num estado diferente."

Agora tenho a convicção de que qualquer filosofia superior,

na qual não continuem a existir as realidades do plano que ela

pretende ultrapassar, é uma impostura.

Eis a razão que me levou a fazer uma longa digressão pelos

domínios da física, da antropologia, das matemáticas, da biologia,

antes de tentar novamente fazer uma ideia do homem, da sua

natureza, dos seus poderes, do seu destino. Outrora, eu procurava

conhecer e compreender o todo do homem, e desprezava a ciência.

Julgava o espírito capaz de atingir altitudes sublimes. Mas que

sabia eu das suas diligências no domínio científico? Não revelara

ele alguns desses poderes nos quais eu me sentia inclinado

a acreditar? Dizia para mim próprio: é necessário ultrapassar a

contradição aparente entre materialismo e espiritualismo. Mas

o progresso científico não nos conduziria a isso? E, nesse caso,

não seria meu dever informar-me? Não seria, no fim de contas,



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