O dia do relâmpago j. J. Benitez editorial Planeta Internacional, S. A., 2013



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O DIA DO RELÂMPAGO
J. J. BENITEZ

Editorial Planeta Internacional, S. A., 2013




ÍNDICE
Dedicatória .................................................................................................................... 3 O Diário (Décima Parte) ................................................................................................ 4 28 de Junho (1973) ....................................................................................................... 4 4 de Julho .................................................................................................................... 20 10 de Julho .................................................................................................................. 37 14 de Julho .................................................................................................................. 48 16 de Julho .................................................................................................................. 60 22 de Julho .................................................................................................................. 87 23 de Julho ................................................................................................................ 100 26 de Julho ................................................................................................................ 130 29 de Julho ................................................................................................................ 155 31 de Julho ................................................................................................................ 163 1 de Agosto ............................................................................................................... 170 10 de Agosto ............................................................................................................. 193 11 de Agosto ............................................................................................................. 222 14 de Agosto ............................................................................................................. 268 16 de Agosto ............................................................................................................. 274 18 de Agosto ............................................................................................................. 299 20 de Agosto ............................................................................................................. 311 21 de Agosto ............................................................................................................. 338 26 de Agosto ............................................................................................................. 354 5 de Setembro ........................................................................................................... 392 7 de Setembro ........................................................................................................... 417 8 de Setembro ........................................................................................................... 425 1 de Outubro .............................................................................................................. 464 2 de Outubro .............................................................................................................. 468 3 de Outubro .............................................................................................................. 474 4 de Outubro .............................................................................................................. 480 5 de Outubro .............................................................................................................. 485 6 de Outubro .............................................................................................................. 498 .

A Operação Cavalo de Tróia terminou, sim, mas...


A Patxi Loidi, o primeiro que me falou do “outro” Jesus de Nazaré.


E a Marcos Gabriyeh e a Laurencio Rodarte, por sua lealdade.

O Diário (DÉCIMA PARTE)


28 de Junho (1973).
Lembro-me de um sol laranja, fugindo para além do oásis de En Gedi, na costa ocidental do Mar Morto...
Recordava os relógios da nave...
Eles indicavam 21 horas de quinta-feira, 28 de junho, 1973.
Eu estava de volta ao meu tempo...
Logo escureceria.
Tínhamos falhado!
O "berço" acabara de precipitar-se nas águas do Mar de Sal. Eu pulei primeiro. Melhor dizendo, Eliseu, meu companheiro, me empurrou. E eu afundei...
Depois, espantado, eu contemplei a nave. Afundava e desaparecia nas profundezas.
O que tinha acontecido?
O módulo deveria ter pousado no topo do platô do Massada. Isto estava programado. Mas nós falhamos...
Eu pensei no combustível. Havia esgotado...
Não, não exatamente. Poderíamos ter pousado na "piscina”...
Por que não o fizemos?
Eu estava meio inconsciente. Era Eliseu que estava pilotando.
Eu não conseguia entender...
Olhei ao redor.
Negativo.
Nenhum sinal de meu companheiro.
"Está feito - eu tentei me tranqüilizar. Certamente nadou até a praia...”
Eu me sentia sem forças.
"Onde eu estava?"
Eu queria me orientar, mas estava difícil.
Eu reconheci a costa oriental do Mar Morto (hoje Jordânia). E isso foi tudo. Eu estava a cerca de 200 metros.
O lógico seria nadar no sentido oposto e procurar a margem judaica. Mas desisti. Estava muito longe. Quase 15 km.
Depois eu soube: o "berço" caiu no mar em frente a desembocadura do Wadi Mujib. Nesta região do mencionado Mar Morto – entre Mujib e En Gedi - a profundidade é máxima: cerca de 300 metros. A nave tinha, provavelmente, descido até o fundo, em uma camada de lama de uma centena de metros de espessura. Areia movediça autêntica e muito perigosa. Qualquer coisa que cai nessa área desaparece para sempre... [1]
Tentei nadar. Eu não consegui. Eu estava exausto.
Eu me deixei ser levado pelo vento e a corrente. Eu não tive escolha.
O vento não estava muito forte, mas soprava. Empurrava-me para o sudeste.
Eu sabia que nessa época do ano, durante o verão, os ventos se apresentavam antes do meio-dia e morriam pouco antes do pôr do sol. Quanto às correntes, no mês de Junho eram suaves: em torno de 15 centímetros por segundo, seguindo no sentido oposto aos ponteiros do relógio [2]. À noite, essas correntes se tornavam mais intensas e ultrapassavam o meio metro por segundo. Resumindo, o vento e as correntes empurravam-me, inevitavelmente, à referida costa leste, especificamente ao sul do Wadi Mujib.
Agora, ao escrever esta parte dos diários, eu entendo. Eliseu, que conhecia estas circunstâncias, tinha tudo planejado... Mas eu tenho que ir passo a passo.
Então reparei no traje de astronauta. O instinto me avisou. Eu tinha que me livrar dele. Se os judeus ou jordanianos acabassem me localizando, o que eu poderia dizer? O que fazia um ianque, vestido como um astronauta, no árido litoral do Mar Morto?
Eu me livrei do pesado e chamativo traje que ficou ali, flutuando na água vermelha.
O sol desapareceu às 21 horas e 36 minutos.
E o silêncio, curioso, olhou-me desde o alto. A lua já havia surgido...
Senti-me triste. Uma tristeza profunda e intensa...
Estava tudo acabado. A operação Cavalo de Tróia virou fumaça. Ele já não estava...


[1] De acordo com as nossas informações, o ritmo de sedimentação nos últimos 15 mil anos é 6,5 milímetros por ano, em média. Dada a inclinação do fundo do Mar Morto, a maior parte do lodo foi se acumulado ao longo das duas grandes bacias existentes ao norte (em frente ao rio Nahaliel) e no centro (En Gedi-Mujib). (N. do m.)
[2] Ao longo das margens do Mar Morto, as correntes de água circulam no sentido contrário aos ponteiros do relógio, devido ao efeito Coriolis (a força que se origina a partir do rotação da Terra e que move os fluidos no sentido horário na metade norte do globo, e para a esquerda no hemisfério sul). Na costa oeste do Mar de Sal, a direção da corrente é para o sul e na margem oriental circula ao contrário: para o norte. (N. do m.)
Eu inclinei minha cabeça para trás e me coloquei nas mãos do Pai Azul mais uma vez. Ele sabia. E eu orei: "Pai, me recebe! Eu me consagro a Ti agora, no tempo...”
E as ondas suaves, quase brincando, me confortaram.
"O que aconteceu?... Jesus de Nazaré... O Mestre levantou o braço esquerdo e acenou... Se despedia de quem isto escreve... Nunca mais voltaria a vê-Lo.”
Era tudo o que eu me lembrava.
  

*
Tarde da noite eu cheguei à costa...


Era tudo silêncio e escuridão. As luzes mais próximas estavam na zona judaica, espreitando aqui e ali. Ninguém parecia ter notado a presença, e posterior afundamento do "berço". Mas eu não deveria confiar...
Toquei as pedras que formavam a praia. Mostraram-se quentes e suaves. Agradeci. Eu estava exausto. Eu precisava de um pouco (de muita) ternura. Meu coração também tinha saltado pelo ar... Ela também, eu não voltaria a ver... Minha querida Ruth...
Explorei com o olhar o que tinha ao meu alcance, mas foi uma inspeção quase inútil. Atrás de mim estavam os penhascos negros que eu conhecia bem. Um pouco mais acima, ao norte, ficava o leito seco do Mujib, repleto de desolação e serpentes. No alto, em preto e branco, um firmamento espetacular.
Eu permaneci caído na margem - eu não posso dizer por quanto tempo - em uma vã tentativa de organizar as idéias e sentimentos. Tudo estava escuro e confuso, como aquele mar de morte.
"O que devia fazer? Como entrar em contato com o pessoal do projeto?... Como explicar o que nem eu mesmo sabia?... Tentava chegar ao Massada?... Estávamos em junho. O mais provável é que os homens de Cavalo de Tróia não estivessem mais no planalto. Eu tinha um problema, sim... Apenas um?”
Eu ri sem querer...
Eu lutei para levantar, e tentei várias vezes.
Mas não consegui. As forças tinham ficado pelo caminho...
E ali continuei, desmoronado, e na companhia de mim mesmo.
Prestar atenção à superfície do lago. Eu queria ver ou ouvir o meu companheiro, mas foi só isso: pura boa fé. Não havia ninguém ali. O mar se mantinha ligeiramente ondulado e hostil.
Gostaria de lamentar a morte de Eliseu, mas não foi possível. Não havia lágrimas.
As estrelas, como outrora, elas entenderam. Algumas brilharam mais intensamente, deixando-me saber que também se sentiam sozinhas e desamparadas. Agradeci e acabei aconchegando-me no leito de pedras e na vontade do Pai.
Foi assim que adormeci, dormindo profundamente.
Eu precisava disso.
E me vi assaltado por uma série de absurdos e angustiantes pesadelos.
Um deles me pareceu particularmente duro e macabro...
No sonho, o "berço" afundava no Mar de Sal...
Eu voltava para a superfície. Nadava apressadamente...
Então eu o vi.
Era Eliseu, meu irmão... Ele estava no interior da nave... Olhava-me através de uma das vigias... Estava vomitando sangue... E sorria maliciosamente.
Ele afundou na escuridão...
Eu queria nadar ao encontro do módulo, mas não foi possível. A salinidade, como uma sereia, puxava quem isto escreve para cima.
Em outra janela apareceu o general Curtiss, chefe da missão. Também me olhava.
Na mão esquerda mostrava o cilindro de aço contendo as amostras de sangue e cabelo do Mestre, da Senhora, de José, o pai terreno de Jesus, e de Amós, o irmão do Rabi. Na direita segurava um daqueles enormes charutos cubanos...
O que fazia Curtiss no "berço"? Não era o seu lugar...
E o general gritou no sonho:
"E terminou o prazo, seu maldito escrevinhador!"
Eu soube. Ele estava se referindo ao ultimato que Eliseu me deu em 24 de dezembro do ano 26 D.C. Eu tinha um mês para devolver o maldito cilindro.
E eu gritei, também no pesadelo:
- E se eu não fizer?
Curtiss clamou:
- Então regressarei sem você...
Isso foi o que Eliseu respondeu naquela oportunidade [3]. Como ele poderia saber?
Que absurdo!

[3] Ampla informação em “Operação Cavalo de Tróia 9 – Caná (N do A)

Nunca mais regressei para Beit Ids, nem pretendia fazê-lo. O cilindro de aço foi roubado pela garota selvagem. Eu queria gritar-lhe, mas a nave se perdeu no fundo.


Nadei no sonho, desesperadamente. Eu queria fugir daquele lugar. Estava me afogando...
A salinidade seguia me puxando, como uma criatura infernal.
Consegui alcançar a superfície e nadei até a margem oriental do lago.
Estava ficando escuro. Neste dia 28 junho de 1973 - eu sabia - o sol se esconderia às 21 horas, 36 minutos e 53 segundos. Como eu poderia saber uma coisa dessas em pleno sonho?
Mas, de repente, a salinidade se voltou contra mim. Me pegou pelos pés e senti que puxava quem isto escreve.
Eu afundava!
Não era possível... No Mar Morto isto não acontece. Ao contrário. Além disso, a salinidade não atua assim... Engoli água... Era amarga, sem nenhum vestígio de sal... Oh, Deus!
Eu estava a um passo de distância da margem...
Eu notei que as forças me abandonavam. E ela continuava me arrastando.
Então eu ouvi um riso distante. Era de Curtiss. Vinha do fundo...
Eu pensei que minha hora tinha chego.
E eu estava prestes a desaparecer sob as águas quando o vi na praia. Ele fez um sinal com os braços. Era ele, outra vez!
Ele me jogou uma corda e eu me agarrei a ela.
Mas salinidade percebeu a manobra e puxou este explorador com mais violência. Eu afundei de novo...
Continuei agarrado ao cabo salvador, e com toda a minha força. Eu podia sentir a corda puxando-me para a superfície.
E em torno de mim surgiram centenas de bolhas. Elas vinham das profundezas. Vinham com pressa.
Meu Deus!
Dentro de cada bolha flutuavam as diabólicas risadas de Eliseu e do General. Estavam por toda parte...
Mas a salinidade acabou vencida e a corda foi me puxando em direção à margem.
Lá estava ele...
Ele enrolou a corda e, sem dizer uma palavra, deu meia volta e foi embora.
Ele era o homem de dois metros de altura... O tipo do sorriso encantador!
Eu estava perplexo.
Então, aquele fascinante personagem virou-se para quem isto escreve, mirou-me, e ouvi uma voz na minha cabeça. Eu não o vi mexer os lábios. E a "voz" disse: "Você regressará..."
O sorriso era incrível. Espetacular. Preenchia tudo no sonho.
E ele repetiu:
"Você regressará com ele..."
Então ele se afastou, saltando ágil entre as rochas.
No sonho, logo escureceria...

*
Acordei no meio da manhã.


O sol, quente, acariciou-me com delicadeza. Era como se ele soubesse.
Fiquei por um tempo sem me mover. E na memória regressaram algumas das imagens vívidas (ou sofridos) em um dos pesadelos da noite anterior.
Por que o tipo do sorriso encantador tinha me puxado, salvando-me? Eu já não desempenhava nenhum papel... E, acima de tudo, o que ele quis dizer com aquele "regressará com ele"? Além disso, por que eu escrevo "ele" em letras minúsculas? Não se referia a Jesus de Nazaré?
Deixei de lado as reflexões. Era apenas um sonho. Um sonho ruim... Ou não? E lembrei-me também da recomendação do Mestre: "Encontrar a pérola em cada sonho..."
O que desejava transmitir o homem de dois metros?
A realidade tocou no meu ombro e me fez voltar ao presente.
O mar continuava azul e quieto, como se nada tivesse acontecido.
Levantei-me com dificuldade e verifiquei o que já suspeitava: Eu estava muito perto da desembocadura do wadi, ou leito seco do rio Arnon (Mujib). A cerca de 50 metros ao sul.
Eu procurei com o olhar, ansioso.
Nenhum sinal de Eliseu, ou do "berço".
E o pressentimento (?) (não sei como chamá-lo) surgiu pesado como chumbo. Eu devia me acostumar com a idéia: meu companheiro estava no fundo do Mar de Sal, morto.
A memória seguia me negando esta informação. Lembrava dos vômitos na praia de Saidan. Lembrava de Zal, correndo na direção do Mestre. Recordava do despertar na nave e, finalmente, o empurrão do engenheiro. Isso era tudo.
De repente, ouvi algo.
Era o típico e tranquilo tilintar de um rebanho.
Realmente, eram cabras. Pastavam e se equilibravam entre as pedras alaranjadas espalhadas pelo wadi.
Logo descobri o pastor.
Ele era um menino.
Ele estava agachado em uma dos rochedos, me observando. Ele portava um cajado.
Quanto tempo estava me observando? E o que importava isso...!
Tentei pensar rápido. O que devia fazer? Pedir ajuda? Talvez o menino soubesse algo...
Eu acabei levantando a mão direita e gritando. E eu fiz em Inglês...
Não houve resposta. Melhor dizendo, respondeu sim, a sua maneira.
Ele percebeu que algo estranho estava acontecendo, e que aquele velho magro e seminu precisava de ajuda. Ele se levantou e se afastou correndo. Vi-o desaparecer no Mujib. Ali ficaram as cabras, indiferentes.
E eu me sentei na praia, desapontado.
Eu tinha que encontrar uma solução.
Eu tentei caminhar. Somente dei 3 passos. Eu tive que parar. Aquela dor insuportável no estômago voltou e me dobrou. Eu caí de joelhos. Comecei a suar profusamente. E, novamente, os calafrios.
Os vômitos de sangue não tardariam a aparecer...
Mas o coração foi se acalmando e dor foi embora, por enquanto. Fiquei imóvel. Eu sabia o tipo de mal que me assombrava e isso multiplicou a angústia.
Depois de um tempo eu ouvi vozes.
Levantei-me, como pude, e consegui ver o pastor. Aproximava-se. Com ele, igualmente rápidos, três homens se aproximavam. Pareciam árabes. Eles usavam as amplas dishashas (túnicas beduínas) e seus turbantes brancos. Era provável que estivesse diante de uma família Badawi (nômades).
Pararam a uma curta distância e me observaram. Eu compreendi a sua estranheza.
Dois dos homens eram jovens. O terceiro tinha cerca de 50. Era encorpado e de baixa estatura. Percorreram-me com o olhar, de cima a abaixo, e eu fiz o mesmo. Os jovens apresentavam as khanjas no cinturão, umas adagas curvas e largas, bastante temidas.
Eles conversaram entre si, mas eu não consegui ouvir. O menino se manteve em silêncio. De vez em quando pegava uma pedra e corrigia o movimento das cabras.
Sinceramente, não me agradou.
O mais baixo avançou e ficou cerca de três metros de quem isto escreve. Ele voltou a percorrer-me com o olhar e perguntou, em árabe, quem eu era e o que tinha acontecido.
Tinha os olhos vermelhos, como se não tivesse dormido, e uma barba preta cerrada.
Eu não respondi. Eu não sabia o que dizer...
O árabe, sem alterar-se, perguntou novamente. Desta vez em Inglês.
Também não respondi. Tentava pensar, mas a mente estava em branco. Eu dei de ombros.
Eu acho que o homem gordo viu minha angústia e parou de questionar. Ele voltou para os outros e conversaram. Um dos rapazes apontou para mim e me chamou de "velho tolo". Eles continuaram a discutir, e em voz alta.
O que me chamou de "louco" queria dar meia volta e deixar-me à minha própria sorte. O barbudo repreendeu-o, acusando-o de desumanidade. E invocou o Deus dos cristãos. Eu estava diante de um grupo de árabes cristãos?
A discussão durou por alguns minutos.
Não houve nenhuma maneira de entrarem em acordo.
E de repente, um dos jovens (o que menos falou) se distanciou do grupo. Ele caminhou até este desconsertado explorador e, ao aproximar-se de mim, ele parou e puxou o punhal de aço.
A khanja advertiu com um par de flashes.
Eu instintivamente dei um passo para trás.
O que ele queria? Eu estava nu. Ele não tinha nada de valor...
O árabe de baixa estatura gritou ao do punhal, advertindo-o para não fazer nada estúpido.
O da khanja não prestou atenção. Ele continuou em silêncio, observando-me, ou melhor, observando meu pescoço. Nestes momentos críticos eu não me dei conta...
E o segundo jovem, seguiu os passos do primeiro.
Ele ficou atrás de mim, mas não disse nada. Ao passar observei a khanja desafiante. Continuava na cintura do árabe.
Senti falta da “pele de serpente”...
Eu estava sem forças. Eu estava desarmado. Aqueles miseráveis poderiam cortar minha garganta, apenas pelo prazer de fazê-lo.
Eu não tinha saída...
O que portava a adaga seguia olhando para o meu pescoço. Ele parecia estar interessado na placa de bronze, minha placa de identidade. Eu pensei isso... Mas não.
De repente ele falou e, em árabe, disse algo sobre uma pérola.
Eu não sabia a quê ele se referia. Eu não tinha nenhuma pérola.
Meu silêncio o irritou.
Sacudiu a Khanja lentamente, e a ponta foi buscar o cordão que suspendia a chapa de metal.
O árabe de baixa estatura gritou novamente, ameaçando. E ele ordenou que os de punhais se retirassem imediatamente.
Não obedeceram.
- Eu quero a pérola! - Reclamou aquele que estava em minha frente.
Eu neguei com a cabeça, mas o árabe interpretou mal o gesto. Só queria dizer que eu não tinha nenhuma pérola...
O segundo árabe, o que estava atrás de mim, me insultou, e aconselhou-me a obedecer ao seu comparsa.
- A pérola...!
A adaga levantou o cordão, e agitou a placa. Foi quando a "pérola" tilintou em contato com a placa de bronze. Foi então que eu a vi...
Eu não tinha reparado nela, ou melhor, "nele".
Estava pendurado no referido cordão, através de um pequeno anel de ouro.
- A pérola, maldito estrangeiro!
Notei a segunda adaga em minhas costas.
E ambos reclamaram a "pérola" pendurada no meu pescoço. A "pérola" preta, de tamanho pequeno... Como chegou até mim? Não recordava...
- Pela última vez, entrega-nos a pérola!
O que estava diante de mim aproximou o khanja, e afundou-o levemente na pele.
Eu levantei minha cabeça e tentei dizer alguma coisa. Eu não poderia explicar. Teria sido inútil e absurdo.
Eu pensei que minha hora tinha chegado...
Finalmente balbuciei:
- Não é uma pérola...
Foi então que o terceiro árabe, o baixinho, gritou e correu para nós.
Seus companheiros olharam para ele, perplexos.
E o de barba preta fechada situou-se diante daquele que ameaçava com o punhal no pescoço.
Ele carregava um revólver na mão direita. Ele agiu com rapidez e precisão.
Ele apontou a arma a poucos centímetros da têmpora esquerda do indivíduo da khanja e ordenou aos dois que guardassem os punhais e voltassem para o acampamento.
Hesitaram.
Era uma arma que eu nunca vou esquecer. Tinha o cabo de marfim. Provavelmente era um Smith & Wesson, calibre .44 Magnum, com um cano enorme de 8.5/8” polegadas (21,9cm).
A mão que estava carregando a Magnum 44 não tremeu em nenhum momento. O homem sabia o que queria e, acima de tudo, sabia como fazer...
Ele engatilhou o revólver e o cilindro girou obediente. Era um tambor de seis tiros. A mira era ajustável com um clique micrométrico.
Os árabes se olharam, temerosos.
Então eu notei o dedo indicador do que estava segurando a temível Magnum 44. Acariciou o gatilho pela parte inferior do mesmo, fazendo alavanca. Isso significava que ele estava pronto para disparar...
Não foi necessário.
Os árabes compreenderam, guardaram os punhais e retiraram-se, murmurando palavrões e obscenidades.
Eles se afastaram em direção ao Mujib.
Meu salvador guardou o revólver com cabo de marfim e sorriu brevemente. Ele suava.

*
Foi nestas circunstâncias, que acabei conhecendo Marcos, o árabe que empunhava a Magnum, um homem literalmente bom.


Muito possivelmente, como eu digo, salvou minha vida.
Marcos, realmente, era um árabe cristão. Era guia por profissão. Sua residência habitual era Belém, mas ele poderia ser encontrado em qualquer lugar do mundo. Ele falava sete idiomas.
Ele estava no Wadi Mujib - segundo ele mesmo disse - preparando uma expedição arqueológica conjunta, na qual participavam a Associação de Expedições de Israel e o Departamento de Antiguidades Amã (Jordânia). Ele havia sido contratado por um velho amigo, o renomado arqueólogo judeu Dan Urman (na época na Galiléia). Os arqueólogos pretendiam escavar quatro das grandes cavernas do Nahal ou rio Arnon. Para isso, eles montaram um pequeno acampamento no referido leito seco do Mujib. Marcos era o líder na época. As escavações começariam no outono.
O bom árabe trocou algumas palavras com quem isto escreve. Tranquilizou-me e eu o fiz ver que eu não estava bem. Ele pediu para ter calma. Voltou para o wadi e eu o vi retornar, em breve, com uma mula e outro árabe, tão velho como eu, sem dentes e sem palavras. Ele era mudo.
Eles me ajudaram a montar o animal e eu fui transferido para o referido acampamento.
Ali eles me deram roupas e leite.
A dor tinha ficado na praia do Mar de Sal. Isso eu imaginei...
Nós conversamos um pouco e Marcos chegou à conclusão que se tratava de um ianque que, talvez, tivesse sofrido um acidente e padecia de amnésia temporária.
Não lhe dei muitas explicações. Nem teria feito muito sentido e, além do mais, estava proibido. A idéia da amnésia parecia oportuna e se encaixava bem. Deixei assim.
Marcos sugeriu que eu descansasse e me recuperasse. Tinha tempo para entrar em contato com as autoridades e decidir sobre meu destino.
Eu agradeci o novo gesto de generosidade e me dediquei a observar todos os que me rodeavam. Ali estavam os sujeitos dos punhais. De vez em quando me olhavam com desprezo... O resto dos árabes, contratado pelo Departamento de Antiguidades, era igualmente Badawi (beduínos). A maioria pertencia à família Di' Ab, do clã dos Hamaideh, assentados na região de Arnon desde tempos imemoriais. Eles eram pastores e contrabandistas. Na zona do Mujib viviam também os Haweitat, os Sararat, os Atawneh, os Sehour, os Gahalin e os Azazmeh, entre outras tribos não me lembro. Eles se odiavam e se suportavam, em partes iguais.
Marcos deu uma curta ordem à Daher, o chefe da família Di’ Ab. Ninguém devia me molestar. E a notícia se espalhou por todo o acampamento. O "ianque louco" era um amigo de Marcos. Isto quer dizer, intocável...
Assim se passaram cinco dias.
Tentei me recuperar, mas somente consegui parcialmente.
Toda manhã eu ia até o Mar Salgado e esperava, em vão, um sinal dos céus. Do "berço" e de Eliseu não detectei nenhum vestígio.
Mas eu acho que estou esquecendo alguma coisa importante: a mal chamada "pérola”...
O que ela estava fazendo lá? Alguém, obviamente, a pendurou no meu pescoço...
Mas quem?
A pergunta era estúpida. Se não fui eu (pelo menos não me recordava) só poderia ser o engenheiro...
Eu a acariciei e mergulhei em outro mar de dúvidas.
Como eu suspeitei, a "pérola" (eu gostei do nome dado pelo árabe) não era isso. Na verdade, tratava-se uma "DR" um Dream Reader ou "leitor de sonhos" no jargão dos homens do Cavalo de Tróia.
O "DR" era um delicadíssimo dispositivo (miniaturizado), de 5 mm de diâmetro, esférico, com um brilho negro (daí a confusão com uma pérola negra) e com 4 gramas de peso.
Que eu tivesse conhecimento, nunca foi usado nas diferentes missões.
No interior, como eu disse, não tinha nada a ver com uma pérola.
Em palavras compreensíveis: era (e é) uma revolucionária descoberta (de origem militar), que poderia ser definido como "captador de sonhos", com o correspondente arquivo-memória.
Em suma, em um "DR" podem ser armazenados todos os sonhos, e memórias, de um mamífero (ao longo de sua vida).
Ao conectar a "pérola" ao crânio, um complexo sistema magnético (muito semelhante ao "Nemos") encontra os "depósitos" das memórias (especialmente as memórias codificadas nos milhões de neurônios do hipocampo), copia-as e as transfere ao arquivo do "leitor de sonhos". Memórias e sonhos são armazenados como se fosse uma videoteca [4].
A velocidade de captação do "DR" é de 12,5 milissegundos. É o tempo necessário para formar um pensamento (eu gosto mais do termo "recepção de pensamento") [5].
A "pérola", no entanto, não foi incluída na bagagem científica do "berço" com a missão exclusiva de conhecer os sonhos e memórias dos personagens que devíamos seguir e estudar. O que realmente interessava do "DR", era sua capacidade de memória, semelhante à dos cristais de titânio [6] que formavam a essência do fiel computador central "Papai Noel", com a vantagem de seu pequeno volume. Não aborrecerei o hipotético leitor destas memórias com dados técnicos sobre o "leitor de sonhos." Direi simplesmente que sua capacidade de armazenamento de informação é ilimitada. Nós a chamávamos de memória "Alfabit", isto é, com princípio e sem final. Ela alcançava (teoricamente) o milhão micabytes (1010 brontos). Em outras palavras: um bilhão de vezes as letras contidas na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América. A potência de transmissão era arrepiante: um bilhão de operações por fentossegundo (um fem, como deve lembrar, é equivalente a 10¯¹ segundos), com uma "latência" abaixo de 0,01 fem.
A memória infinita do "DR" era igualmente ilimitada no tempo, podendo permanecer intacta e limpa por cerca de milhares de anos (em teoria até um milhão de anos) [7]. Era blindada. Poderia resistir a temperaturas de 1.200°C, assim como, imersão em ácidos ou água especialmente salgada.
Sim, acariciei-a e a contemplei por um longo tempo...
O que estava contido na "pérola"? Por que apareceu no meu pescoço? Porque nestes momentos críticos?
Minha mente naufragou mais uma vez.
Eu não conseguia me lembrar. Eu não sabia...
E o mar de dúvidas acabou engolindo-me. O Mujib não era o lugar ideal para dissipar semelhantes interrogações. A única coisa clara na minha memória é que a “DR” não foi utilizado por quem isto escreve. A não ser que ele tenha feito durante o tempo em que eu permaneci sem ficar em pé.


[4] Eu não estou autorizado a descrever, em detalhes, os delicados mecanismos do "DR". São segredos militares. Posso dizer que uma das "portas" de conexão com os "depósitos" das memórias são os sonhos REM ou paradoxais, já comentados nestes diários. O cérebro classifica nossas memórias graças, justamente, aos REM. Durante esse tempo, o que eu chamam memória de "curto prazo" é descartada. Estas cenas, objetos ou sentimentos que não interessam ser guardados. Normalmente são "apagadas" em menos de 30 segundos. As memória de "longo prazo", no entanto, sobrevive, e é armazenada quimicamente. Nós estaríamos diante de tudo aquilo que, por uma razão ou outra, impressiona na vida. Ou seja, o que vale a pena guardar. Pois bem, a consolidação desta memória "indelével" acontece durante o sono, mais precisamente, enquanto sonhamos (períodos REM). O "leitor de sonhos" aproveita esta rota de acesso REM para chegar a esses “depósitos” e absorver a informação. De qualquer forma, eu sempre me perguntava: que "criatura" é a que decide o que manter na memória e que para apagar? (N. do m.)

[5] Aprendi com o Mestre que os pensamentos não se formam, se recebem... (N. do m.)

[6] Ampla informação em “Operação Cavalo de Tróia 1 – Jerusalém (N do a)

[7] Atualmente (2012), os discos rígidos têm uma expectativa de "vida" que dificilmente supera mais de 50 anos. A partir desse momento eles entram em um período de "escuridão digital" e "morrem". Quanto à capacidade de memória dos computadores (não-militares), eu tenho a informação que eles são comercializados até 4 Teras.

As unidades conhecidas em informática são as seguintes: bit: a menor unidade (valor "0" ou "1"); byte: equivalente a 8 bits; kilobytes: 1024 bytes; megabytes 1024 kilobytes; gigabyte: 1024 megabytes; terabyte: 1024 gigabytes; petabyte: 1024 terabytes; exabyte: 1024 petabytes; zettabyte: 1024 exabytes; yottabyte: 1024 zettabytes e brontobyte: 1024 yottabytes. O micabyte não consta na informática civil. (N. do a.)
Debati-me na confusão.
Por que usar um "leitor de sonhos"? Eu não vi sentido nisso...
Pobre idiota. Nunca aprenderei.

*
Assim vi transcorrer aqueles dias, montado no medo.


Ele estava com medo de tudo, e por qualquer motivo.
O medo da dor... Eu sabia que iria voltar.
Medo do Destino... O que tinha reservado para mim?
Medo das pessoas em volta de mim... Medo da solidão...
Eu tinha vivido ao lado d’Ele... Eu estava acostumado... Eu seria capaz de viver sem Ele?
Como eu sentia saudade!
Sentado sobre os escarpados, com o Mar de Sal aos meus pés, eu pensava sem parar...
Em primeiro lugar, o que fazia com a minha vida? Regressava para a base de Edwards, na Califórnia? A idéia não me tentou. Depois de descobrir as verdadeiras intenções dos militares no meu país, em relação ao projeto de Cavalo de Tróia, francamente, não me sentia atraído [8]. Odiava Curtiss e todo o seu grupo...
Eu pensei que desaparecer. Eu poderia fugir. Não era difícil conseguir uma identidade falsa. Procuraria um lugar remoto e pacífico e ali esperaria o fim. Ao que tudo indicava não estava longe...
A idéia foi conquistando-me.
E eu me deixei levar pela imaginação.
Eu tinha algumas economias. Seria suficiente. E dedicar o tempo para escrever a nossa experiência com o Filho do Homem. Ninguém tinha vivido uma aventura como essa. Eu tinha que fazer. Era meu dever. Era necessário que o mundo a conhecesse.
Essa era a chave: a verdade sobre a vida e a mensagem de Jesus de Nazaré não podia permanecer oculta. A história e a tradição são traidores...


[8] Ampla informação em “Operação Cavalo de Tróia 9 – Caná (N do A)

Eu recordava de tudo (ou quase tudo). Minha memória era panorâmica...


Mas, enquanto eu me deixava arrastar por essas fantasias (ou não eram fantasias?), em minha mente se materializava também a crua e triste realidade: eles vão te procurar e te encontrarão...
Eu sorri para mim e escutei, em meu interior, a voz quente do Mestre: "Deixa que Ab-ba faça o seu trabalho..."
Contar a vida do Galileu tal e como ela foi?
Eu gostei do desafio... Na verdade, já havia começado. Ali estavam os diários.
Mas, o que eu estava pensando? Os diários estavam no banco de dados de "Papai Noel". A nave estava perdida...
Não importava, eu disse a mim mesmo. Começaria do zero. Procuraria este refúgio e me entregaria de corpo e alma, à tarefa de escrever.
O Pai Azul, eu suponho, sorriu com benevolência.
Sim, tudo é medido e cuidadosamente medido...
E os pensamentos se voltaram para o "berço" e o desastre final.
Destino curioso...
Recordava de como tinha planejado a destruição da nave, no caso das amostras de sangue e cabelo do Mestre e sua família retornassem conosco ao nosso tempo. Recordava o que disse a Eliseu naquele Agosto do ano 25 de nossa era: "Chegado este momento... quando a nave decolar do Ravid, você não deve perguntar sobre o que você estiver vendo. Simplesmente deve aceitá-lo.”
Sim, estranho Destino...
Nada disso aconteceu. O cilindro de aço, como eu disse, foi roubado pela menina selvagem de Beit Ids e o "berço", muito a meu pesar, afundou no Mar de Sal...
Durante aqueles dias no Mujib, os olhos e os pensamentos também foram elevados para o platô do Massada. Ele podia ser vista daquele lugar. Estava relativamente perto. Presumivelmente, os israelitas ainda estavam na "piscina", a mando da Estação de Recepção de Fotografias (via satélite) [9]. Nosso retorno foi programado para a noite de 19 para 20 de março deste ano de 1973. O acordo estipulava que os militares judeus iniciariam a recepção de imagem em 1 de abril. Infelizmente (?), nosso retorno ocorreu em 28 de junho, quase três meses depois do estabelecido por Cavalo de Tróia...
Imaginei que Curtiss, e o resto das equipes, resistiram ao máximo, até o último momento. Eles, então, calcularam o pior: estávamos mortos ou presos no passado...


[9] Ampla informação sobre o Big Bird e a estação de recepção de fotografias no platô do Massada em “Operação Cavalo de Tróia 2 – Massada (N do A)

Eu entendi a dramática situação. Curtiss e os seus homens não tiveram alternativa. Eles não deviam revelar seu segredo para os judeus. Eles desmontaram o instrumental “classificado” e voltaram para o deserto de Mojave.


A operação Cavalo de Tróia havia fracassado.
Eu acertei em tudo, exceto em algo. Cavalo de Tróia terminou, mas não foi um fracasso. Não para mim, muito menos para ele... Ele soube mover as cordas com perfeição.
Mas quem isto escreve, naquele momento, estava cego. Eu não soube ver...

*



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