O édipo na contemporaneidade: resoluções e transferências



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O édipo na contemporaneidade: resoluções e transferências
Rubens Alberto Pera(PICV/Unioeste/PRPPG), João Jorge Correa(Orientador), e-mail: joaojorgecorrea@gmail.com
Universidade Estadual do Oeste do Paraná/Centro de Educação, Letras e Saúde/Foz do Iguaçu-PR
Grande área e área: Ciências Humanas - Educação
Palavras-chave: Psicanálise, Complexo de Édipo, Sexualidade Infantil.
Resumo
O presente trabalho é parte de uma pesquisa originada no Programa de Iniciação Científica, no âmbito dos estudos realizados no Grupo de Pesquisa Psicanálise e Educação, que trata das resoluções e transferências do Complexo de Édipo na contemporaneidade sob a perspectiva teórica da Psicanálise. O estudo foi realizado a partir de pesquisa bibliográfica tendo como fonte artigos científicos, capítulos de livros e livros pertinentes ao tema estudado. O objetivo primordial do estudo foi buscar elementos teóricos no campo psicanalítico que pudessem contribuir para o entendimento mais aprofundado do tema em questão, bem como estudar atentamente a formação da criança na fase edipiana. Assim, abordamos temáticas clássicas e atuais relacionadas ao desenvolvimento das características que acompanharão a criança por toda a vida. Espera-se com o desenrolar do texto possibilitar ao leitor a visualização de uma linha psicanalítica da formação do indivíduo enquanto criança e suas influências na vida do adulto. Pretende-se com este estudo atender um interesse pessoal de compreender com maior profundidade um tema que está presente em nossas vidas e que se relaciona diretamente com o inconsciente. O estudo também contribuirá para entender melhor, no âmbito teórico, a criança edipiana presente no ambiente escolar e assim, aproximar com conteúdos da pedagogia na perspectiva interdisciplinar.
Introdução
O complexo de Édipo ainda é um tema muito presente no debate acerca do desenvolvimento infantil, notadamente nos momentos em que se faz a reflexão sobre as relações possíveis entre a construção psíquica da criança e suas posteriores elaborações e resoluções na condição juvenil e adulta.

A própria presença do tema no campo teórico da Psicanálise tem início turbulento e tenso ainda quando das primeiras elaborações de Sigmund Freud, tanto no aspecto pessoal propriamente dito, quando o próprio se depara com sua condição edipiana, quanto nas conduções mais teóricas, como por exemplo, nos “Três ensaios sobre a sexualidade”.

Toda a formulação freudiana sobre o complexo de Édipo regula-se pelo desejo do filho pela mãe, e também, da filha pelo pai. Trata-se do marco inicial das primeiras elucidações e tentativas de explicar os movimentos do inconsciente.

Pelo olhar de Freud (1996) o processo edípico se dá na fase fálica, momento em que a criança se depara com a diferenciação da anatomia sexual e é marcado pelo desejo libidinoso dos pais.

Contemporaneamente pode-se afirmar que o conceito sofreu modificações e vem recebendo contribuições que o aprofundam e aprimoram mantendo-o ainda em evidência, mas evitando-se o risco dos reducionismos teóricos.

Em “Édipo, o complexo do qual nenhuma criança escapa” Juan David Nasio apresenta de forma brilhantemente didática os meandros do Complexo de Édipo e seus vários movimentos. Para Násio “(...) o complexo de Édipo não é uma história de amor e ódio entre pais e filhos, é uma história de sexo (...). Não, Édipo nada tem a ver com sentimento e ternura, mas com corpo, desejo, fantasias e prazer (...). (2007a, p. 9-10).

A questão que propomos investigar na literatura pertinente ao tema é para onde vai o Édipo, como a criança soluciona o complexo e recalca as fantasias, os desejos e as angústias daí advindas. Neste sentido, o desejo é compreender as resoluções e transferências edipianas na chegada da infância à vida juvenil e adulta.
Revisão de literatura
A psicanálise não adota os mitos como papéis vivenciados na realidade, entretanto são utilizados para embasar uma realidade, como havia dito anteriormente, para ilustrar uma situação, ocasião ou modo de vida. No caso do Complexo de Édipo, a mitologia trouxe uma representação do inconsciente analisadas por Freud. Talvez tivesse ele mesmo fazendo uma alusão ao paciente que o despertara. Neste caso podemos considerar a mitologia como um modelo de vida almejado por aqueles que os criaram.

No entendimento de Násio (2007b, p. 10) a fantasia pode ser vista como “um teatro mental catártico que encena a satisfação do desejo e descarrega sua tensão”. Em relação ao tema objeto deste estudo, contraposto a esta temática fantasiosa temos a pequena criança criativa que se encontra no estágio do complexo de Édipo, elaborando hipóteses referentes aos sentimentos inexplicáveis que habitam seu pequeno corpo infantil, e que não sabe explicar por nunca tê-los vivenciados anteriormente.

Portanto, a fantasia representa nas crianças, o mesmo papel que a mitologia exerce no adulto, a intenção de criar explicações sobrenaturais contrapunha com o desejo humano de ser e vivenciar na pele desses seres criados; na criança acontece o mesmo, porque é através da fantasia que ela resolve as problemáticas do cotidiano, ela detém os poderes dos super-heróis que conhece, na verdade ela é esse super-herói no “mundo da fantasia”. Essa evidência nos permite refletir o quão é propícia e saudável a imaginação infantil, auxiliando a superar os obstáculos que encontra.

Estes elementos e seres mágicos produzem nos pequeninos a fuga da realidade, lá elas podem ser o herói, a princesa, é o local que elas realizam as próprias fantasias, o que para elas é muito difícil de discernir o real do imaginário, então preservar a inocência, ou melhor, aguardar o amadurecimento individual é de extrema importância para a formação da personalidade da pessoa e das atitudes que ela pode ter ou não em relação a seus problemas.

A infância repleta de novidades coloca a criança em uma dificuldade de posição diante de certas situações, as histórias e contos entram de forma a ajudá-los neste sentido tanto que geralmente ela se identifica com a(s) história(s) que representam a sua problemática real. As confusões causadas pelo complexo de Édipo, o rompimento familiar, as desavenças entre as princesas e suas madrastas e a morte da figura paterna causa na criança essa realização, pois para elas são incompreensíveis esses desejos escondidos que perturbam sua pureza e inocência; a respeito disso Násio (2007b, p. 14) reflete que “toda cena fantasiada é uma cena edipiana, uma vez que uma protagonista busca possuir o outro ou ser possuído por ele”, enquanto para Klein citada por Segal (1975, p. 32) “a fantasia pertence originalmente ao funcionamento, em termos do princípio de prazer-sofrimento”.
Resultados e Discussão
A partir destes conceitos, podemos deveras perceber as relações imaginativas inteiramente relacionadas à realidade da criança. O prazer e sofrimento são vivenciados de forma bastante clara na infância, sendo bem mais evidente na fase edipiana. É nessa fase que inicia o processo mais amplo de compreensão da realidade e fuga da mesma, pois ao deparar-se com variados sentimentos nunca antes vividos necessita-se de uma válvula de escape, no caso a imaginação e/ou fantasia.

No interior dessa perspectiva conceitual de “fantasias”, procuramos elencar um conceito presente no esforço teórico da Psicanálise; a fantasia edipiana. Como abordamos anteriormente, a criança busca através de sua imaginação solucionar os processos ocorridos no dia-a-dia; entretanto essa fantasia ocorre de um modo bastante peculiar dentro dessa fase, e é nesta a qual será enfatizada.

O Complexo de Édipo desenvolve-se por volta dos quatro anos de idade, tanto no menino quanto na menina; e tem como características peculiares o surgimento de novas sensações e sentimentos ainda não compreendidos pelas crianças.

Nesse momento ocorrem os principais sentimentos de desejo, nos quais se direcionam á figura dos pais. Esse desejo incestuoso é fantasiado através de elementos condizentes aos preceitos das condições formadoras da sexualidade adulta. Essa relação de objetos propõe uma configuração que se repete, como diz Násio (2007b, p. 31) “o sujeito torna-se objeto, o sujeito se identifica com o objeto, o sujeito é o objeto”, na qual se condiciona a ser sedutor e seduzido, de possuir e ser possuído, mas todo esse ciclo se reproduz apenas no imaginário por temerem também a dor da invasão, do abuso da inocente fantasia edipiana.

É por isso que não devemos comparar os desejos infantis com os desejos adultos. Os desejos infantis se realizam na fantasia e se esvaem dando espaço para novas fantasias e novos desejos. O adulto realiza o desejo latente de forma física, por sinal quando se trata de um desejo sexual realiza-se através do ato sexual, diferentemente da criança.
Conclusões
A experiência edipiana sinaliza os primeiros contatos infantis com a “porta” para a resolução de seus complexos. Os movimentos fantasiosos, o medo e angústia são fundamentais para o incremento da sua formação psíquica. Dentro das contrariedades que encontra preconiza elementos aos quais se volta para solucionar seu Édipo.

Como profissionais da educação, ressalvo a importância do aprendizado sobre o desenvolvimento da psique humana, que caracteriza influências e desemboca na formação da criança e posteriormente do adulto.



A pesquisa permitiu refletir sobre os tabus sociais e sexuais que nos debatemos cotidianamente. Obtemos a compreensão de que o desenvolvimento da sexualidade humana inicia-se na infância; sem que isso interfira em sua inocência e pureza, muito menos alegar que por desenvolverem- na nesta idade proporcionam maturidade adulta para discernir os desejos fantasiosos com a realização do desejo.
Agradecimentos
Programa de Iniciação Científica da Universidade Estadual do Oeste do Paraná.
Referências
FREUD, S. (1996). Um caso de histeria; Três ensaios sobre a sexualidade e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago. Vol. VII.
NÁSIO, J-D. (2007a). Édipo: o complexo do qual nenhuma criança escapa. Rio de Janeiro: Zahar.
NÁSIO, J-D. (2007b). A Fantasia: O prazer de ler Lacan. Rio de Janeiro: Zahar.
SEGAL, H. (1975). Introdução à obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago.




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