O diário, 13 de abril de 1958



Baixar 15.58 Kb.
Encontro02.07.2018
Tamanho15.58 Kb.

O Diário

Belo Horizonte

13 de abril de 1958

Ballet


Frederico Morais
É PRECISO QUE O BALLET TENHA CONSCIÊNCIA NACIONAL
Um dia Klauss Vianna descobriu que o ballet não era apenas um divertissemant, ou uma paixão, que ele deixaria assim que sua vida se arrumasse. Viu que o ballet lhe interessava realmente e que dele poderia tirar sua razão de viver. Foi então que partiu para São Paulo – vendo que em Minas isto era impossível – onde além de ter sido garçom e tido outras profissões semelhantes, passou dias em que nada havia para comer ou lavava suas próprias camisas e dormia em quartos de quatro a cinco pessoas. Estudava ballet e história da arte pela manhã e a tarde e trabalhava à noite. Um dia desmaiou no ensaio e sua professora, descobrindo seus problemas, arranjou-lhe um emprego, mas quando ia melhorar de vida teve que voltar para casa.

Voltou, contudo, bailarino, coreógrafo, e com bastante conhecimento de sua arte, que resultaram no seu curso de ballet, hoje com quatro anos de existência e cerca de 70 alunos. Destes apenas um elemento masculino. Suas aulas começam pela manhã e prolongam-se até a noite.

Casado com Ângela Abras Vianna, das melhores ex-alunas de Carlos Leite, Klauss Vianna há cerca de dez ou doze anos se interessa por ballet. Aluno em São Paulo de Mmes. Olenewa e Zamenowa, foi em Belo Horizonte assistente de Carlos Leite.

Culto, inteligente, muito preocupado com os reais problemas do ballet brasileiro em seu curso dá ainda aulas de história do ballet, lê bastante, escreve por vezes artigos, dá entrevistas como a de hoje. Além do festival anual que será patrocinado pelas Amigas da Cultura, no fim do ano, ele juntou-se a Giustino Marzano do T.U., onde juntos procurarão resolver, praticamente, as afinidades entre o ballet e o teatro.

R – Que acha que o ballet é?

KV – Uma ação qualquer aplicada em movimentos de dança. Salienta-se que o ballet é moderno, pois é uma das subdivisões da dança, uma arte pré-histórica.

R – E o que ele pretende?

KV – O que ele quer, ou melhor, o que eu quero conseguir é o que chamo de “movimento-idéia”, isto é, um ballet cuja construção e realização se faça a partir de uma concepção fundamental e criadora. Não basta a técnica ou o vistuosiosmo como solução. É preciso preencher este movimento de uma idéia criadora. Veja, por exemplo, estes bailarinos húngaros que nos visitaram recentemente. São verdadeiros monstros na técnica, fazem malabarismos e acrobacias que o próprio Ninjinsky não faria. No entanto nada dizem, seus movimentos não são impregnados de sentimento, emoção, não são vividos. Na realidade são apenas dois bonecos fantoches que dançam. É preciso evitar isto, porque a nada conduzirá.

R – No Brasil, como aplicaria este “movimento-idéia”?

KV – O que se precisa fazer inicialmente é deixar de lado a repetição monótona e anti-criadora do que se faz na Europa, e particularmente na Rússia, com seus eternos “Lago dos Cisnes”. E, pelo contrário, procurar urgentemente uma adaptação do ballet às características brasileiras de cultura, tradição e vida. A grandeza do ballet russo se deve a esta participação no próprio viver da Rússia. No Brasil se não fizermos isto, com urgência, nosso ballet morrerá antes mesmo de nascer, ou então se reduzirá a apresentações para uma elite, acadêmica e balofa sem qualquer sentido artístico e cultural.

R – Quer dizer que ainda não se pode falar em um ballet brasileiro?

KV – Absolutamente. Nada se faz ainda neste sentido. Os grupos de ballet existentes e principalmente o Municipal nada fazem neste sentido. Para que o ballet seja realmente uma força ativa dentro da nossa cultura, é preciso que ele tenha consciência nacional. Para isto é preciso muito esforço, estudo e cultura, e sobretudo honestidade nas realizações. Quanto aos ballets de Eros Volusia, Solano Trindade, a Brasiliana, etc, são pura exploração do exótico e do burlesco, sem qualquer orientação mais séria, ou uma concepção da dança dentro do que eu chamo “movimento-idéia”.

R – Em que você já colaborou para a consciência nacional?

KV – Muito pouco. Tenho excelentes planos e idéias, mas as dificuldades são imensas: materiais, elemento humano, cultura e meio ambiente. No ano que passou levei na Televisão-Rio, com o Ballet do Rio de Janeiro, o ballet Cobra-Grande baseado em Cobra-Norato de Raul Bopp, procurando exatamente uma busca dos valores de nossa literatura adaptáveis ao ballet. Quanto aos planos, creio que realizarei alguns, ainda este ano num festival patrocinado pelas Amigas da Cultura. Nesta ocasião levarei O Caso do Vestido, de Carlos Drumond de Andrade, o ballet Ângulo de Theotonio Jr., jovem intelectual da revista Complemento e ainda Chegança baseado em temas folclóricos nordestinos, onde quero aproveitar inclusive certos passos típicos da dança do nordeste do Brasil.

R- Por que este total esquecimento do ballet em Minas?

KV – Tudo se reduz a ausência de um teatro apropriado, onde se possa levar não só o que se faz aqui, mas também as companhias que nos visitam, que só vem até o Rio e São Paulo. O Francisco Nunes não serve. Mesmo assim algumas companhias ameaçam vir, mas não houve patrocinadores e até mesmo oposição de outros grupos culturais. Cite-se o caso de Tamara Toumanova.

R – E do ensino do ballet o que pensa?

KV – É um problema muito sério, e não há qualquer fiscalização do Ministério da Educação, no sentido de exigir provas de capacidade dos vários professores e professoras que pouco ou quase nada sabem de ballet. Um estudo mínimo de ballet se faz em 7 anos de base, mais três de aperfeiçoamento. Depois o resto da vida. Cursos como se vêm espalhados por aqui são prejudiciais, porque não têm sentido algum didático. Logo nas primeiras aulas colocam-se as meninas a dançar ponta, quando isto só poderá ser feito com um mínimo de dois anos, isto só poderá vir a inutilizar o corpo da menina para o ballet. Um verdadeiro absurdo o que se faz por aqui nestes cursos de ballet. Outros problemas são o do ensino teórico e o da cultura do aluno. Como fazer com que os bailarinos sintam seus personagens se não têm a cultura suficientes para perceber os reais problemas contidos nele? Por outro lado, como ensinar para meninas de menos de sete anos, problemas teóricos de música tão necessários ao estudo do ballet? Não é possível que uma menina de menos de sete anos possa entrar para um curso de ballet. E, no entanto, não é o que está acontecendo por aí?

R – Acha que Minas já deu ou tem algum elemento positivo?

KV – Sim. Sigrid Hermanny, Ângela Abras Vianna, Ana Dora Silva (no sentido moderno), Marilene Martins, Décio Otero, agora no Municipal do Rio de Janeiro.

R – E das relações do ballet com outras artes?

KV – O ballet como o cinema é uma grande síntese das artes. Um bom coreógrafo, por exemplo, deverá conhecer bem a escultura, a pintura e o teatro. Um ballet clássico é composto de linhas retas, no moderno há muito mais relaxamento nestas linhas. Ele resolverá melhor seus problemas se conhecer os problemas do volume, espaço, da linha e da forma na escultura. Um conhecimento mínimo de marcação teatral, iluminação, composição plástica são ensinamentos que ele irá buscar no teatro e nas artes plásticas. Ao mesmo tempo é inevitável o conhecimento de literatura e poesia, tão ligados ao ballet.

R – E do cinema como divulgador do ballet?

KV – As possibilidades didáticas do cinema são imensas. A apresentação dos vários passos e movimentos em primeiro plano, desapercebidos no conjunto do espetáculo visto do palco, a excepcional mobilidade da câmera, a possibilidade de se repetir infinitamente vezes e a divulgação de ballets que se fazem em todo o mundo e que não podemos ver, são possibilidades mínimas do cinema. Entretanto não são muitos ainda os resultados já obtidos. Dos curta-metragens o melhor que vi foi O Real e o Abstrato e longa-metragem Sapatinhos Vermelhos, ambos ingleses. Por sua vez Geni Kelly tem conseguido alguns bons resultados.



(desenho do cenário)

Cenário de Vicente de Abreu para o ballet O Caso do Vestido. Entre os números a serem apresentados no festival a ser patrocinado no fim do ano corrente pelas Amigas da Cultura, inclui-se o Caso do Vestido de Carlos Drumond de Andrade cujo cenário estará a cargo de Vicente de Abreu. O cenário tem o fundo preto e as cordas e toda a marcenaria será em branco. Sobre um baú que contém apenas as ripas brancas, um vestido vermelho. Além uma cortina, uma janela e o conjunto da mesa e cadeiras, tudo em branco. Na foto um esboço do artista para o cenário definitivo.

Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal