O diário de Anne Frank De 2 de Junho de 1942 a de Agosto de 1944



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falta de jeito que me encanta.

Tua Anne

Terça feira, 13 de Março de 1944


Querida Kitty :
Quando me ponho a pensar na minha vida de 1942,

tudo me parece irreal. Essa vida era vivida por uma

outra Anne, diferente desta que tem, agora, tanto juízo.

Era uma vida boa, ai!, se era! Tantos admiradores como

os dedos das mãos, por aí vinte amigos e conhecidos,

a aluna favorita de quase todos os professores, amimalhada

pelos pais, sempre doces e guloseimas, dinheiro que

chegava   que mais queres? Talvez queiras perguntar me

como eu conseguia que todos gostassem tanto de mim.

Se o Peter diz que tenho "charme" talvez não tenha bem

razão. Os professores gostavam mas era das minhas respostas

vivas, das minhas observações cómicas, da minha

cara sempre a sorrir e do meu olhar crítico, divertido e

ameno, não era mais nada. Eu gostava do "flirt", era

brincalhona e alegre. Mas tinha também algumas boas

qualidades que me davam a garantia de não cair em

desgraça com ninguém : era trabalhadora, franca e sincera.

Nunca impedia que alguém, fosse quem fosse, copiasse

os meus exercícios, não era vaidosa e repartia sempre os

meus doces com os outros. Quem sabe se a admiração de

que gozava não faria de mim uma pessoa petulante? Talvez

não tenha sido nada mau que eu, de repente- no auge

da festa, digamos   fosse bruscamente atirada para a

realidade; mas sempre me levou mais de um ano a habituar me

a não ser admirada.

Como é que me chamavam na escola, onde eu estava

sempre à frente em todas as partidas e brincadeiras? "A cabecilha". E eu nunca tinha mau génio ou má disposição.

Por isso não era de admirar que todos gostassem de

me acompanhar e fossem simpáticos e atenciosos.

Agora vejo essa Anne como uma rapariguita simpática

mas superficial, que nada tem de comum comigo. O Peter

disse, e muito bem:

 Quando eu te encontrava, via te sempre com dois

ou três rapazes e com um bando de raparigas, sempre a

rir e divertida. Eras o centro.

O que resta dessa rapariga? Ainda não me esqueci

de rir e de dar respostas. Ainda sei criticar as pessoas e, talvez até melhor do que antes, sei namoriscar se... me apetecer. Gostava de voltar a viver assim, só por uma tarde, uns dias, ou uma semana, despreocupada, mas no fim da semana

estaria saturada e ficaria grata à primeira pessoa que me

aparecesse a falar em coisas sérias. Não preciso de

admiradores mas sim de amigos; não preciso de adoradores

em troca de um sorriso mas sim de alguém que dê valor à

minha maneira de ser e ao meu carácter. Sei que assim

terei menos gente à minha volta. Mas não importa, o

principal é que me fiquem algumas pessoas de carácter.

E, vistas bem as coisas, eu não era inteiramente feliz

naquele tempo. Sentia me muitas vezes só, mas como

andava sempre atarefada, não reflectia nisso e divertia me

o mais que podia. Consciente ou inconscientemente, tentava

com as brincadeiras encher o vazio. Agora prefiro

trabalhar. Aquele período findou irrevogàvelmente: o

tempo da escola, despreocupado e descuidado, não volta

mais. Também não quero que volte, ultrapassei o. Agora,

até quando estou alegre, uma parte de mim mesma conserva

sempre a sua seriedade.

Vejo a minha vida até ao princípio deste ano como

que através de uma lente impiedosa. Em casa, uma vida

cheia de sol; 1942, a vinda para aqui, a transição brusca,

as discussões, as acusações. Não tinha capacidade para

digerir tanta coisa, apanhei um choque e só consegui

manter me mais ou menos firme manifestando atitudes

de rebeldia.

Primeira parte de 1943 : a minha constante vontade

de chorar, a solidão, o lento reconhecimento de todos os

meus defeitos e de todas as minhas faltas, que eram grandes,

sem dúvida, mas que os outros é que queriam fazer muito

maiores ainda.

Falava a torto e a direito e fiz tentativas para conquistar

o Pim só para mim, mas não o consegui. Então

vi me perante o difícil problema de me modificar para não

ouvir mais censuras, para não me sentir esmagada, sob o

seu peso, até ao desespero.

A segunda parte do ano já foi melhor. Como me ia

tornando uma adolescente, já viam em mim uma pessoa

mais ajuizada. Comecei a reflectir e a escrever histórias.

Concluí que já ninguém tinha o direito de me empurrar

como se fosse uma bola. Queria formar me segundo a

minha própria vontade. Reconheci também que o pai

não podia ser o meu confidente em todas as coisas. Só

queria confiar inteiramente em mim própria.

Depois do Ano Novo, a segunda transformação... o

meu sonho. Foi através dele que descobri o meu desejo

de um rapaz e não de uma rapariga, o desejo de um amigo.

Descobri também a felicidade no meu íntimo e a minha

armadura exterior feita de superficialidade e de alegria.

Pouco a pouco acalmei e comecei a sentir uma ânsia sem

limites de tudo o que é bom e belo.

Quando, à noite, estou na cama e remato a oração

com estas palavras: "Agradeço te o bem, o amor e a

beleza", então todo o meu ser rejubila. Ponho me a pensar

em tudo o que foi "o bem" : a nossa fuga para aqui, a

minha saúde; e no "amor": o Peter e tudo aquilo que é

tão delicado e sensível que ambos ainda não ousamos

tocar lhe, mas que um dia virá o futuro, a felicidade.

E penso na "beleza" que envolve o Mundo: a natureza,

a arte, a grandeza e tudo o que a isto está ligado.

Não penso na miséria mas em tudo o que é terno e maravilhoso.

É nisto que reside em grande parte a diferença

entre a mãe e eu. Quando alguém está triste, ela aconselha:

"lembra te da miséria que vai pelo Mundo e sê

grata por tu não a sofreres". Eu digo: "vai e procura os

campos, a natureza e o Sol: vai, procura a felicidade em

ti e em Deus. Pensa no que é belo e que se realiza em ti

e à tua volta, sempre e sempre de novo".

Acho o conselho da mãe errado, pois, o que pode fazer

alguém que se sente infeliz? Perder se na miséria? Acho que alguma coisa de belo resta aos próprios. tÉr se á

perdido a liberdade e alguma coisa de nós. Mas devemos

agarrar nos e reencontrar nos emos a ti e a Deus,

de novo. Aquele que é feliz, espalha felicidade.

Aquele que teima na infelicidade, que perde o equilíbrio

e a confiança, perde se na vida.

Tua Anne

Domingo, 18 de Março de 1944


Querida Kitty:
Ultimamente não tenho tido paciência para estar

sentada à minha mesa. Gosto de conversar com o Peter

e só tenho receio de que ele se mace com isso. Já me contou

muitas coisas da sua vida, dos seus pais e de si próprio.

Mas eu ainda queria que ele me contasse mais.

Depois pergunto a mim mesma porque é que espero

tanto dele. Antigamente ele achava me insuportável e eu

pagava lhe na mesma moeda. Mas as coisas mudaram.

Se com ele, no entanto, ainda nos

pudermos tornar amigos íntimos, suportaria muito melhor esta vida de isolamento. Não

quero excitar me mais. Estou a pensar de mais nele e não

tenho o direito de te vir importunar a ti, só por me sentir

tão obcecada.

Sábado, à tarde, fiquei, depois de uma série de notícias

tristes, tão mal disposta e confusa que me deitei na cama.

Só Queria dormir e não pensar em nada. Dormi até às

quatro horas depois tive de ir ao quarto do Pai.

foi fácil respondér às perguntas da mãe porque fora

que me tinha deitado. Disse que tinha dores de cabeça

e não menti. É que eu tinha dores de cabeça... na alma.

Suponho que gente normal, raparigas normais, adolescentes

da minha idade, me achariam provàvelmente

absurda por eu me lamentar tanto. Mas a ti digo tudo o

que me preocupa, e depois, durante o dia, sou atrevida,

para não precisar de responder às perguntas e para

evitar aborrecimentos.

A Margot é carinhosa comigo e talvez gostasse de

ser a minha confidente, mas não lhe posso dizer tudo.

É simpática e boa e bomita, mas um bocadinho académica quando conversamos sobre coisas profundas. Ela procura

compreender me, não há dúvida nenhuma, reflecte mesmo

sobre a sua irmã maluquinha, fixa me com os olhos de

examinadora quandu digo isto ou aquilo e, provàvelmente,

pensa com os seus botões :

 Estará ela a representar ou será sincera?

Estamos sempre juntas e eu não queria ter a minha

confidente sempre tão próximo.

Quando sairei eu deste labirinto de pensamentos?

Quando haverá calma e paz no meu coração?

Tua Anne

Terça feira, 19 de Março de 1944


Querida Kitty:
Talvez te entretenha a ti   a mim isto já não me

interessa   se te contar o que hoje vamos comer. Neste

momento estou (a mulher da limpeza encontra se lá em baixo nos

escritórios) à mesa dos van Daans, coberta com um oleado.

Aperto o nariz e a boca com um lenço perfumado o

perfume ainda é do tempo de antes do "mergulho". Esta

maneira de contar deve parecer te aborrecida. Vou

começar outra vez. Como os nossos fornecedores foram

apanhados por causa dos cartões "negros" do racionamento

e outras coisas no género, já não temos cartões e, portanto,

nenhumas gorduras. A Miep e o Koophuis estão doentes,

a Elli não pode sair para fazer as compras e, por consequência, a nossa disposição é desconsoladora e a comida

também. Para amanhã já não temos um pedacinho de

pingue, para já não falar de manteiga ou de margarina.

Acabaram se as batatas fritas ao pequeno almoço (para

substituir o pão). Agora comemos papinhas. A sra. van Daan

tem medo de que morramos de fome e, felizmente, conseguiu

arranjar um bocadinho de leite "negro". O nosso almoço:

feijão de conserva de barrica! Daí as minhas providências

que tomei com o lenço. É incrível como o feijão cheira

mal depois de ter estado guardado durante um ano. Todo

o quarto cheira a uma mistura de ameixas podres, desinfectante

e ovos podres. Brrr! Só de pensar que tenho de

comer aquilo, já fico enjoada. Ainda por cima as nossas

batatas têm uma doença esquisita e de cada balde cheio

de "pommes de terre" metade é atirada para o lixo. Ao

descascá las entretemo nos a diagnosticar as mais variadas

doenças e já vimos casos de cancro, varíola e sarampo.

Podes crer que não é fácil viver se "mergulhado" no quarto ano de guerra. Quem nos dera que esta miséria acabasse!

Com franqueza, eu ainda aguentava a má comida, se o

resto fosse mais agradável. Mas o mal está em que todos

nós, com a vida monótona que levamos, ficamos nervosos.

Aqui tens as opiniões de cinco "mergulhados" sobre a

nossa vida:

Sra. van Daan: Estou farta de fazer de criada de

cozinha. Mas quando não tenho nada que fazer aborreço me.

Portanto, ponho me a cozinhar. Mas cozinhar sem

gorduras é inconcebível, só o cheiro põe me doente. Ainda

por cima todos me agradecem o trabalho com má cara

e a resmungar. Sou o carneiro preto do rebanho e tenho

culpa de todo o mal que acontece. Além disso, penso que

a guerra está a caminhar mal e se calhar os alemães ainda

vão vencer. Tenho medo de que morramos todos de fome.

E ainda querem que eu esteja bem disposta.

Sr. van Daan: Preciso de fumar, de fumar, de fumar.

Assim suporto tudo: a política, a comida e o mau génio

da minha Kerli. Masjá que não tenho cigarros, apetecia me,

ao menos, um bocado de carne. Estou sempre a dizer que

vivemos miseràvelmente, nada me serve, há discussões por

tudo e por nada e acho a Kerli estúpida.

A sra. Frank: Mas a comida não é assim coisa tão

importante. Só queria uma fatia de pão de centeio. Estou

com fome. Se eu fosse a sra. van Daan já tinha desabituado

o meu marido de fumar tanto. Faz o favor, dê me um cigarro

para acalmar os nervos. Os ingleses têm os seus defeitos

mas a guerra está a caminhar bem. Ainda bem que posso

falar à vontade e que não estou presa na Polónia.

Sr. Frank: Acho que tudo vai bem, não preciso de

nada. Do que necessitamos é de calma, de paciência. Logo

que me não faltem as batatas estou satisfeito, mas não se

esqueçam de guardar algumas da minha ração para a Elli.

O sr. Dussel: Tenho de concluir a tese antes de mais

nada. A política? Essa vai às mil maravilhas! Acho impossível

que nos descubram aqui. Eu...

Eu, eu, eu...

Tua Anne


Quarta feira, 15 de Março de 1944
Querida Kitty:
Todo o santo dia ouço : se acontecer isto ou aquilo

teremos as maiores dificuldades... e se aquela rapariga

ficar doente, já não temos mais ninguém no Mundo... e se...

Já sabes a lenga lenga. Pelo menos já deves conhecer

bastante esta gente do anexo para poderes adivinhar o

que andam a dizer.

A causa desses "se, se..." é a seguinte: o sr. Kraler

foi convocado para um "campo de trabalho", a Elli está

terrivelmente constipada, a Miep ainda se não levantou

da gripe e o sr. Koophuis teve outra vez uma hemorragia

e desmaiou! Um chorrilho de desgraças.

O pessoal do armazém tem feriado amanhã. Se a Elli

tiver de ficar em casa, a porta ficará fechada e temos de

fazer muito pouco ruído para que os vizinhos não desconfiem.

O Henk deve vir à uma hora para olhar pelos

"abandonados" e para representar o papel de guarda de

jardim zoológico. Hoje, à hora do almoço, contou nos,

pela primeira vez desde há bastante tempo, coisas do grande

mundo lá de fora. Devias ter visto como o ouvimos todos

com o máximo interesse. Há um quadro que se chama

"Avòzinha conta histórias". O nosso grupo deve ter tido

o mesmo aspecto. Falou, falou, com muitos pormenores

e pormenorinhos, e não se esqueceu de contar nos coisas

sobre comidas e do médico da Miep por quem perguntámos.

 Médico? Não me falem desse médico! Hoje de manhã

telefonei lhe, mas só consegui que um assistentezinho viesse

ao telefone. Pedi lhe uma receita contra a gripe. Disse me

que, entre as oito e as nove, podia ir buscá la. Quando se

trata de uma gripe mais grave, suponho que o médico vem pessoalmente ao telefone para dizer: "Mostre a língua...

diga aaahhh... sim, senhor, ouço bem, tem a garganta

inflamada. Vou transmitir a receita à farmácia. Depois

pode ir lá buscar o remédio. Bom dia!" Lindo serviço, não

há dúvida. Consultas exclusivamente pelo telefone!

Mas podemos acusar os médicos? Ao fim e ao cabo

cada pessoa só tem duas mãos e, infelizmente, existem

agora muitos doentes e muito poucos médicos. Mas não

pudemos deixar de nos rir, quando o FIenk representou

aquela conversa ao telefone. Imagino como é diferente,

agora, a sala de espera de um médico. Decerto já não

desprezam só os doentes da "caixa", como era costume.

Agora devem desprezar se as pessoas que não sofrem de

nada a sério mas que gostam de se queixar. Provàvelmente

falam lhes assim:

 Que é que queres? Vai para o fim da bicha, que

temos agora de tratar primeiro os autênticos doentes.

Tua Anne


Quinta feira, 16 de Março de 1944
Querida Kitty:
O tempo está maravilhoso, indescritivelmente maravilhoso. Hei de ir ao sótão.

Agora sei por que sou mais irriquieta do que o Peter.

Ele tem um quarto só para ele, onde pode sonhar, pensar,

dormir. Eu sou empurrada de um quarto para o outro.

Raras vezes estou sozinha no quarto que partilho com o

Dussel, e tenho sempre tanto desejo de estar só! Por isso

fujo a cada passo lá para cima. Uma vez ali e contigo,

Kitty, posso, por pouco tempo, ser eu mesma. Mas não

me vou queixar, pelo contrário, vou ser corajosa. Os

outros, felizmente, nada percebem do que se passa comigo,

porque é que sou mais fria para com a mãe, menos meiga

com o pai. Falo muito pouco com a Margot sobre as minhas

coisas. Tenho de conservar a minha segurança exterior.

Não é preciso que os outros fiquem a conhecer a confusão

do meu íntimo, uma espécie de luta entre o desejo e a

razão. Até agora a razão tem sido sempre vencedora, mas

não chegará o dia em que sucumba? às vezes tenho medo

disso, outras vezes desejo que assim aconteça.

É pena não poder falar sobre estas coisas com o Peter

,

mas eu sei que é a ele que compete começar. Entristece me



não poder continuar as minhas conversas dos sonhos

durante o dia e que as aventuras sonhadas não se tornem

realidade. Sim, Kitty, é verdade, a Anne não regula bem.

Mas não te esqueças : vivo numa época louca e em circunstâncias loucas. Que sorte a minha poder escrever o

que penso e sinto. Se não fosse isto, sufocava, de certeza.

O que pensará o Peter de tudo isto? Oxalá possa

dizer mo em breve! Deve ter adivinhado alguma coisa, porque aquela Anne que ele conhecia até há pouco não

lhe agradava com certeza. Pode ele, que tanto aprecia a

calma e a paz, simpatizar com a minha vivacidade e inquietação?

Será ele o único no Mundo que conseguiu ver o

que está por detrás da minha máscara de pedra? Não é

velha regra o amor nascer muitas vezes da compaixão

e as duas coisas confundirem se? Será o meu caso? É que

tenho tanta pena dele como de mim própria.

Não sei, palavra que não sei, como hei de começar a

falar nisto! E se eu não sei muito menos ele, a quem tanto

custa exprimir se. Se lhe pudesse escrever! Então ficaria

a saber o que lhe queria dizer. Mas falar é muito difícil!

Tua Anne

Sexta feira, 17 de Março de 1944


Querida Kitty:
Uff! Pelo anexo passa uma onda de alívio. O Kraler

está livre, a Elli não consentiu que a sua constipação

piorasse e a impedisse de cumprir os seus deveres. Tudo

voltou à velha ordem. Só a Margot e eu estamos um tanto cansadas dos nossos pais. Não me compreendas mal, por favor.

Bem sabes que não me entendo, neste momento, muito

bem com a mãe, mas do pai gosto sempre na mesma, e

a Margot gosta de ambos. Mas a gente na nossa idade

queria, por vezes, decidir sózinha sobre as suas coisas e

a sua vida, e não depender sempre dos outros. Se vou para

cima, perguntam o que vou lá fazer; não me deixam comer

sal às refeições; todas as noites, é garantido, a mãe pergunta me se ainda não me quero despir. Cada livro que me

apetece ler tem de ser primeiro apreciado por eles. Bem

sei que a censura não é rigorosa e posso ler quase tudo,

mas o que nos aborrece é o controle constante e também

as observações e as anotações. Pelo que me respeita, já

não sou a criancinha "beijinho aqui, beijinho ali", e acho

todos os diminutivos de carinho bastante artificiais. Em

poucas palavras: durante algum tempo aguentar me ia

bem sem os pais, sempre cheios de cuidados carinhosos.

Ontem a Margot disse :

  É quase ridículo! A gente já nem pode apoiar a

cabeça na mão sem que perguntem logo se temos dores

de cabeça ou se não nos sentimos bem!

É uma desilusão para nós duas verificarmos que muito

pouco resta do nosso convívio familiar tão íntimo. A causa

disto é haver entre nós relações um pouco erradas. Com

isto quero dizer que eles nos tratam como crianças e não

se lembram de que estamos mentalmente mais desenvolvidas do que as outras raparigas da nossa idade. Embora

eu só tenha catorze anos, sei muito bem o que quero e

sei também quem tem razão. Tenho a minha opinião, as

minhas concepções, os meus princípios. Talvez isto soe a

vaidade, mas já não me sinto criança, sinto me despegada

seja de quem for. Sei que discuto melhor do que a mãe,

que sou mais objectiva e não tão exagerada, sei que tenho

mais ordem nas minhas coisas e que sou mais habilidosa e,

por isso , se quiseres, ri te de mim! em muitas coisas

superior a ela. Para amar alguém, a primeira condição é

poder admirar admirar e respeitar. Tudo seria melhor

se o Peter fosse meu. A ele posso admirá lo em muitas

coisas. É bom rapaz, um rapaz às direitas!

Tua Anne

Domingo, 19 de Março de 1944


Querida Kitty:
Ontem foi um dia importante para mim. Tinha resolvido

falar abertamente com o Peter. Antes de nos sentarmos

à mesa, perguntei lhe baixinho:

 Estudas estenografia logo à tarde, Peter?

 Não, senhora disse ele.

 Gostava de falar contigo.

 Está bem.

Por atenção, ainda fiquei, depois de termos lavado a

louça, um bocado com os pais dele. Depois fui ter com

o Peter. Ele estava do lado esquerdo da janela, eu pus me

à direita. Fala se melhor na penumbra do que em plena

luz. Creio que o Peter é da mesma opinião.

Falámos sobre tantas coisas que não me é possível

escrever tudo, mas foi maravilhoso, nunca vivi nada tão

maravilhoso desde que entrei nesta casa. Alguma coisa

vou reproduzir te. Falámos dos eternos conflitos cá em

casa, que eu agora vejo com olhos diferentes, e do afastamento

íntimo dos nossos pais. Contei lhe coisas do meu pai,

da minha mãe, da Margot e de mim. De repente, ele

perguntou me :

  Vocês beijam se quando dizem "boa noite" uns aos

outros?


  Pois claro, beijamo nos muitas vezes. Vocês não?

 Nós não. Poucas vezes tenho dado beijos a alguém.

  E no dia dos teus anos?

  Ah sim, nesse dia beijamo nos.

Dissemos que era impossível falar sobre os nossos problemas

aos pais, e ele confessou que os dele queriam muito

ser os seus confidentes mas que não podiam sê lo. Contei lhe

que chorava de noite, na cama, quando tinha desgostos e ele disse me que ia para o sótão praguejar. Também lhe

contei que a Margot e eu só agora nos chegámos a conhecer

bem, mas que não podemos confiar tudo uma à outra

por estarmos próximas de mais. E falámos de muito mais

coisas e ele era exactamente como eu tinha imaginado.

Depois voltámos a falar de 1942, de como tínhamos

sido tão diferentes e que, ao princípio, não gostávamos um

do outro. Nessa altura ele achava me espevitada e desagradável

e eu não encontrava nada nele que me interessasse.

Parecia me incompreensível que ele nem sequer procurasse

namoriscar mas agora estou contente por isso mesmo.

Disse me que procurava isolar se, e eu expliquei lhe que

entre a minha vivacidade e a sua calma quase não havia

diferença porque eu desejava tanto o sossego como ele e

só encontrava um bocado de paz junto do meu diário.

Ele ainda disse ter sido uma felicidade os meus pais virem

com as filhas para o anexo, e eu disse lhe que me sentia

feliz por ele estar cá e que o compreendo na sua solidão e

nas suas relações com os pais e que gostaria de o ajudar.

  Mas tu estás constantemente a ajudar me.

  Eu ajudar te, em quê? perguntei espantada.



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