O diário de Anne Frank De 2 de Junho de 1942 a de Agosto de 1944



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certo e sabido que se apaixona logo por mim e que não me

perde de vista durante algum tempo. Depois, pouco a

pouco, vai acalmando, sobretudo porque eu faço de

; conta que não vejo os olhares apaixonados e continuo

alegremente a pedalar. Se, por vezes, aquilo passa das

marcas, ponho me a fazer umas habilidades na bicicleta,

a minha pasta cai ao chão e, por amabilidade, o rapaz

; vê se obrigado a descer. Apanha a pasta e até ma entregar

tem tempo para se acalmar. Estes ainda assim são os mais

inofensivos, mas há também alguns que nos atiram beijos

ou nos tocam no braço. Mas comigo a coisa não pega.

Quando isso sucede, desço da bicicleta e declaro que lhes

dispenso a companhia ou finjo me ofendida e mando os passear.

E pronto, Kitty, foi colocada a primeira pedra da

nossa amizade. Até amanhã!

Tua Anne


Domingo, 21 de Junho de 1942
Querida Kitty:
Toda a nossa turma treme: a Reunião de conselho dos

professores está à porta. Metade da turma passa o tempo

a apostar quem passa de classe e quem chumba. A Miep

de Jong e eu escangalhamo nos a rir por causa das nossas

companheiras de carteira que já apostaram todo o seu

dinheiro de bolso. De manhã à noite andam a rezar: "Tu

passas, tu chumbas, sim, não..." Nem os olhares suplicantes

da Miep nem as minhas sérias tentativas para as meter

na ordem conseguem nada daquela gente. Há tantos

mandriões na minha turma que eu, se mandasse, reprovava

metade. Os professores são as pessoas mais caprichosas

do mundo, mas talvez sejam, neste caso, caprichosos no

bom sentido.

Dou me razoavelmente com os professores e com as

professoras. Ao todo são nove, sete homens e duas senhoras.

O sr. Kepler, o velho professor de matemática, ao princípio

embirrava comigo, por eu palrar muito. Andava

constantemente a avisar me, até que me marcou um

trabalho de castigo. Mandou me fazer uma redacção sobre

o tema: "Uma tagarela." Uma tagarela! O que se poderia

escrever sobre isto? Mas não me afligi. Meti o caderno de

exercícios na pasta e esforcei me por estar calada. à noite,

depois de acabados todos os outros deveres, lembrei me da

redacção. Roí um bocadinho a pena e pensei no assunto:

escrever umas tretas e com as palavras tanto quanto possível

distanciadas, toda a gente sabe. Mas encontrar uma razão

evidente da necessidade de palrar, aí é que estava o grande

problema. Pensei e tornei a pensar. De repente as palavras

surgiram. Enchi as três folhas obrigatórias, rapidamente,

sem cessar. Aquilo saiu me bem. Como argumento aleguei que palrar era próprio das mulheres e que eu de bom

grado faria esforços para me emendar se a minha mãe

não falasse tanto como eu. E, como era sabido, contra

defeitos hereditários pouca coisa se podia fazer.

O sr. Kepler riu se da minha explicação. Quando na

próxima aula palrei de novo, foi me marcada outra redacção:

a "tagarela incurável". Lá a escrevi como pude e

durante duas aulas portei me lindamente. Mas na terceira

aula já não sucedeu o mesmo, e o sr. Kepler achou que

o meu mau comportamento passava das marcas:

  Anne, como castigo por causa da tua tagarelice, vais

fazer uma redacção: cá, cá, cá, cá, a menina que cacareja.

A turma riu a bandeiras despregadas. Também ri, embora

me parecesse que tinha esgotado o meu espírito inventivo

para redacções sobre o palrar. Tinha de encontrar alguma

coisa de novo, de original. A minha amiga Sanne, poetisa

consumada, aconselhou me a tratar o assunto em verso

e pôs o seu talento à minha disposição. Fiquei entusiasmada.

O Kepler queria fazer pouco de mim, mas eu podia pregar lhe

uma partida ainda pior.

Fizemos um poema que foi um sucesso. Tratava de

uma mamã de patos e de um "pai cisne". com três patinhos

que, por causa de tanto cacarejar, foram mordidos pelo

pai até morrerem. Felizmente o Kepler compreendeu a

brincadeira e leu o poema em voz alta na nossa e nas

outras turmas. Desde então posso palrar sem que o Kepler

me mande fazer redacções de castigo, mas passou a dizer me

a cada passo uma piadinha.

Tua Anne


Quarta feira, 24 de Junho de 1942
Querida Kitty:
Está a escaldar. Todos bufam e transpiram, e por um

calor destes tenho de andar a pé. só agora compreendo

como é bom o carro eléctrico, sobretudo as carruagens

abertas. Mas é um prazer que já não existe para nós, os

judeus. Temos de nos contentar com "as irmãs perninhas".

Ontem,,à hora do almoço, tive de ir ao dentista na

Jan Luykenstraat. É uma caminhada longa desde a nossa

escola, que fica junto do jardim público. Na aula da tarde,

de cansada, por pouco, ia adormecendo. O que vale é que

ainda há pessoas amáveis que nos oferecem de beber

meSmo sem pedirmos nada. A "irmã" no dentista compreende

a nossa situação.

Só um meio de transporte nos é ainda permitido:

 a barca. No molhe de Joseph Israel há um barquinho,

que a nosso pedido nos leva à outra margem. Em boa verdade,

não é por culpa dos holandeses que a vida é dura

para os judeus.

Ai, se não precisasse de ir para a escola! Durante

as férias da Páscoa roubaram me a bicicleta, o pai pôs

a da mãe em segurança, em casa de gente conhecida!

Felizmente as férias estão à vista, mais uma semana e estou

livre disto!

Ontem, da parte da manhã, aconteceu me uma coisa

engraçada. Quando passei por aquele sítio onde costumava

guardar a minha bicicleta, ouvi chamar. Virei me. Atrás

de mim vinha um rapaz simpático que, na noite anterior,

tinha encontrado na casa da Eva, uma conhecida minha.

Um pouco tímido, disse me o seu nome: Harry Goldberg.

Fiquei admirada, não sabia bem o que ele queria de mim.

Mas, num instante, fiquei a saber. Queria acompanhar me

à escola.

Se tens o mesmo caminho, então está bem, disse eu

e caminhámos lado a lado. O Harryjá tem dezasseis anos

e sabe falar com graça sobre muitas coisas. Hoje, de manhã,

estava, de novo, à minha espera e, para já, penso que assim

há de continuar algum tempo.

Tua Anne

Terça feira, 30 de Junho de 1942


Querida Kitty:
Até hoje ainda não tive tempo para escrever. Quinta feira

estive toda a tarde em casa de gente amiga. Sexta

tivemos visitas e assim por diante, até hoje. Harry e eu

conhecemo nos melhor nesta semana. Contou me muita

coisa dele. Veio cá para a Holanda com os avós. Os pais

estão na Bélgica.

Harry tem andado, até agora, com uma outra rapariga,

a Fanny. Ela é um modelo exemplar de meiguice e de

enfado. Desde que o Harry me conhece a mim, descobriu

que quase adormece ao lado de Fanny. Sou para ele uma

espécie de estimulante. Nunca a gente sabe para o que

é capaz de servir.

Sábado, a Jopie dormiu cá em casa. A tarde de domingo

passou a com a Lies e eu aborreci me de morte. à noite

devia vir o Harry, mas às seis telefonou me:

 Aqui, Harry Goldberg. Por favor posso falar com

a Anne?

 Sou eu mesma.



 Boa noite Anne. Como estás?

 Bem, obrigada.

 Infelizmente não posso ir aí à noite. Mas queria

muito falar contigo. Podes descer, daqui a dez minutos?

 Está bem. Até já.

Mudei num instante de roupa e dei um jeito ao cabelo.

Depois pus me à janela, toda nervosa. Finalmente, veio.

É espantoso, mas não me precipitei logo escada abaixo.

Esperei calmamente que ele tocasse à campainha. Depois

desci. Saímos e ele foi direito ao assunto.

  Ouve, Anne, minha avó acha que tu és nova de mais

para mim. Acha que eu devia virar me de novo para a Fanny Lours. Se calhar soube que eu já não quero saber

da Fanny para nada.

 Então, zangaste te com ela?

 Não, pelo contrário. Eu disse lhe que não ligamos

lá muito bem um com o outro e que, por isso, não vale

a pena encontrarmo nos tantas vezes. Que pode continuar

a vir à nossa casa e que também eu continuarei a ir à dela.

Desconfiei que a Fanny andasse com outros rapazes, mas

afinal não anda. Meu tio achou que devia pedir lhe desculpa,

mas não me apetece. Achei preferível acabar assim.

A avó insiste; quer que eu mantenha a amizade com a

Fanny e que não comece a andar contigo, mas eu quero

lá saber disso para nada. Gente velha tem por vezes ideias

à antiga, que me não podem interessar. Não há dúvida

de que dependo de minha avó, mas, em certa medida, ela

também depende de mim. às quartas estou sempre livre.

Os avós julgam que vou às aulas de trabalhos manuais

mas eu tenho ido quase sempre às reuniões dos sionistas.

Não somos sionistas, mas interessava me conhecer aquilo.

Ultimamente não me sentia à vontade naquelas reuniões

e resolvi não tornar a ir. Assim podemos encontrar nos

nas quartas e sábados, à tarde e à noite, e no domingo,

à tarde, e talvez mais vezes ainda.

 Mas os teus avós não estão de acordo. Não deves

fazer isso às escondidas.

 No amor ninguém manda.

Passámos pela livraria e dobrámos a esquina. E lá

estava o Peter Wessel com mais dois rapazes. Era a primeira

vez que o tornava a ver e fiquei cheia de alegria.

Harry e eu andámos e tornámos a andar em volta do bairro

e, por fim, combinámos que ele me esperasse na tardinha

seguinte às sete menos cinco, em frente da sua casa.

Tua Anne


Sexta feira, 3 de Julho de 1942
Querida Kitty:
Ontem esteve cá o Harry. Quis conhecer os meus pais.

Eu tinha ido buscar torta, doces e bolachas e tomámos

chá. Ao Harry e a mim não nos apetecia nada ficar em casa

quietinhos. Saímos, demos um passeio e eram oito e dez

quando ele me deixou em casa.

O pai estava zangadíssimo por eu chegar tão tarde,

que era muito perigoso, para judeus, andar pelas ruas

depois das oito.

Prometi de hoje em diante estar sempre em casa,

pontualmente, às oito menos dez minutos. Amanhã estou

convidada para ir a casa do Harry. A minha amiga Jopie faz

troça de mim por causa dele. Mas não estou apaixonada. Então

não posso ter um amigo? Ninguém acha mal que tenha um

amigo ou como costuma dizer a mãe um cavalheiro.

Eva contou me que o Harry esteve o outro dia em casa

dela e que ela lhe perguntou :

  Quem achas mais simpática,.a Fanny ou a Anne?

 Não tens nada com isso respondeu ele.

Então não falaram mais no assunto, mas ao despedir se

o Harry disse:

 A Anne é mais simpática, claro, mas não precisas de

falar nisso a ninguém.

As últimas palavras já foram ditas na rua.

Sinto que o Harry está apaixonado por mim e, para

variar, isto é engraçado. A Margot dizia :

  Um tipo simpático.

  Acho o também simpático, mais até do que simpático.

A mãe anda encantada com ele.

 Um rapaz bonito, muito gentil e bem educado.

Ainda bem que o Harry agrada tanto a toda a família.

Ele também nos acha a todos muito simpáticos. Só acha

a minha amiga infantil e não deixa de ter razão.

Tua Anne

Domingo, 5 de Julho de 1942


Querida Kitty:
A festa do fim do período correu lindamente. As minhas

notas não são nada más. A pior nota é um cinco em Álgebra;

tenho dois seis, sete em quase tudo e dois

oitos.


Cá em casa ficaram satisfeitos. Não ligam grande

importância às notas boas ou más, dão mais valor ao bom

comportamento e querem acima de tudo que eu tenha

saúde e seja alegre. Dizem eles que havendo saúde e boa

disposição, o resto vem por si, mas eu gostava de ser uma

boa aluna a valer.

Só me admitiram no liceu condicionalmente por me

faltar ainda o último ano da Escola Montessori. A coisa

foi assim:

Quando todos os alunos judaicos tiveram de mudar se

para escolas judaicas, o reitor, depois de muito palavriado,

admitiu me a mim e à Lies, mas com muitas reservas.

E agora não quero desiludi lo. Minha irmã Margot teve

notas brilhantes, como de costume. Se houvesse louvores

ela passaria   com distinção e louvor, a mais alta classificação, pois é muito inteligente.

O pai, desde que não pode ir ao escritório, passa muito

tempo em casa. Deve ser uma sensação horrível, isto de

uma pessoa se sentir, de repente, posta de parte. O sr.

Koophus tomou conta da   Travis   juntamente com o

sr. Kraler, da firma Kolen & C.o, de que o pai também

era sócio. Quando, há uns dias, andávamos a passear, o

pai disse me que decerto teríamos de   mergulhar  . Disse que nos iria custar muito viver isolados do mundo.

Perguntei porque é que falava assim.

 Bem sabes   disse ele   que há mais de um ano estamos

a levar o vestuário, a mobília e os comestíveis para

casa de outras pessoas. Não queremos deixar cair o que é

nosso nas unhas dos alemães. E ainda menos queremos,

nós próprios, cair lhes nas mãos. Por isso não vamos esperar

até que nos venham buscar.

O rosto muito sério do meu pai inquietou me.

 Então, quando, pai?

 Não te preocupes, minha filha. Sabê lo ás a tempo.

Goza a tua liberdade enquanto for possível.

Foi tudo. Oxalá que o tal dia ainda venha longe!

Tua Anne

Quarta feira, 8 de Julho de 1942


Querida Kitty:
Entre domingo de manhã e hoje foi como se se tivessem

passado muitos anos. Aconteceram imensas coisas. É como

se a Terra estivesse toda ela transformada. Contudo, Kitty,

ainda estou viva, e isto é o principal. Sim, estou viva, mas

não queiras saber de que maneira. É possível que hoje

nem me entendesses, por isso, antes de mais nada, vou te

contar o que se passou.

às três horas (Harry tinha saído naquele mesmo

momento e queria voltar mais tarde) tocou a campainha.

Eu não tinha ouvido nada porque estava, numa preguiça

agradável, estendida na cadeira de repouso, a ler. Nisto

entrou a Margot, toda excitada.

  Anne, recebemos uma convocação das SS para o

pai   cochichou.   A mãe já foi ter com o sr. van Daan.

Senti um medo horrível. Uma convocação para o pai...

Toda a gente sabe o que isto significa: campo de concentração... Vi surgir diante de mim celas solitárias para onde queriam levar o meu pai!

  Não pode ser   disse Margot categòricamente quando

nos encontrámos as duas na sala de estar, à espera da mãe.

 A mãe foi a casa dos van Daans para combinar se não

seria melhor   mergulhar   já amanhã. Os van Daans vão

connosco, somos, ao todo, sete.

Um grande silêncio. Não fomos capazes de dizer mais

uma palavra. A ideia de que o pai andava em visita aos

seus protegidos no asilo dos velhos judeus, sem suspeitar

coisa alguma, a demora da mãe, o calor, a tensão... tudo

isso nos emudecia.

De repente, tocou a campainha.

 É o Harry   disse eu.

  Não abras!

A Margot quis deter me, mas já não foi preciso. Ouvimos

a mãe e o sr. van Daan a falar com o Harry. Depois

de ele se ter ido embora, entraram e fecharam a porta.

A cada toque da campainha ou Margot ou eu tínhamos

de descer sem fazer o menor ruído, para ver se era o pai.

Não devíamos deixar entrar mais ninguém. Mandaram nos,

às duas, sair do quarto. O van Daan queria falar a sós com

a mãe. Enquanto esperávamos no nosso quarto, a Margot

disse me que a convocação não tinha sido para o pai mas

sim para ela. Apanhei, de novo, um susto horrível e desatei

a chorar desesperadamente. A Margot tem dezasseis anos.

E eles obrigam raparigas assim a partir sòzinhas. Felizmente

ela não se há de separar de nós. A mãe já o tinha dito e

as palavras do pai, quando me falou em   mergulharmos  ,

deviam querer dizer a mesma coisa.

  Mergulhar  ! Onde havemos nós de   mergulhar  ?

Na cidade, no campo, num edifício qualquer, numa cabana,

quando, como, onde? Estas perguntas não me era permitido

fazê las em voz alta mas andavam me constantemente

na cabeça.

Margot e eu começámos a meter nas pastas da escola

o que nos parecia mais necessário. A primeira coisa em que

peguei foi neste caderno, depois meti ao calhar: "bigondis",

lenços, livros escolares, um pente e cartas velhas. Ao

lembrar me de que íamos   mergulhar  , meti ainda na pasta

coisas inconcebíveis mas não estou arrependida.

Recordações valem mais do que vestidos.

às cinco horas o pai chegou finalmente. Telefonou ao

sr. Koophuis e pediu lhe que viesse à noite a nossa casa.

O sr. van Daan foi buscar a Miep que veio e meteu sapatos,

vestidos, casacos e roupas brancas numa malinha. Prometeu

voltar à tardinha. Depois disso reinou o silêncio na nossa

casa. Ninguém quis comer. O calor ainda apertava. Parecia me

tudo tão estranho!

O quarto grande, no andar de cima, estava alugado

a um tal sr. Goudsmit, um homem divorciado, de mais

ou menos trinta anos. Como nesse domingo parecia não

ter nada que fazer, foi ficando conosco até às dez horas,

não conseguimos despedi lo antes. às onze horas chegaram

a Miep e o Henk san Santen. A Miep trabalha, desde 1933, no escritório do pai e tinha se tornado uma nossa

amiga fiel, assim como o seu marido Henk, com quem

casou há pouco. Na mala de Miep desapareceram sapatos,

meias, livros e roupas brancas e também nos bolsos fundos

do Henk. às onze e meia saíram carregados. Eu, cheia

de sono, já não me aguentava em pé e, embora soubesse

que era aquela a última noite que passava na minha casa,

adormeci num instante. Na manhã seguinte a mãe acordou me

às cinco e meia. Felizmente já não estava tanto

calor como no domingo. Uma chuvinha, miúda, quente,

caiu todo o dia. Vestimo nos todos com tanta roupa como

se fôssemos meter nos num frigorífico. Assim, foi nos

possível trazer para cá uma data de roupas. Um judeu

na nossa situação não podia correr o risco de andar na rua

com uma grande mala. Eu trazia duas camisas, dois pares

de meias, três calcinhas e um vestido leve, com saia e

casaco por cima e ainda mais um casaco comprido de

verão. Calcei os meus melhores sapatos, pus cachecol, boina

e ainda mais coisas. Mesmo antes de sair de casa já me

sentia quase sufocada, mas ninguém quis saber disso.

A Margot meteu mais livros de estudo na pasta, foi

buscar a bicicleta e ia pedalando atrás da Miep, para

qualquer parte, que me era desconhecida. É que eu ainda

não sabia qual era o lugar misterioso onde nos havíamos

de abrigar... às sete e meia saímos e batemos a porta.

Só me despdi de Mohrchen, o meu querido gatinho, que

havia de encontrar um bom refúgio num dos vizinhos, se

o sr. Goudsmit cumprisse este nosso desejo que lhe deixámos

ficar escrito num papelinho.

Na mesa da cozinha ficou meio quilo de carne para

o gato, na mesa da sala ainda estava a louça do pequeno

almoço. As roupas das camas arejavam nas janelas. Tudo

isso dava a impressão de termos deixado a casa precipitadamente.

Mas era nos indiferente o que os outros podiam

pensar. Queríamos desaparecer e chegar sãos e salvos ao

nosso destino.

Amanhã continuo!

Tua Anne


Quinta feira, 9 de Julho de 1942
Querida Kitty:
Assim corremos debaixo da chuva, a mãe, o pai e eu,

cada um com uma pasta e uma saca de compras completamente

cheia, sabe Deus com quê. Os operários que iam

para o trabalho olhavam nos. Bem se lhes lia nos rostos

que tinham pena de nós por irmos tão carregados e por

não nos deixarem andar nos carros eléctricos. A nossa

estrela amarela no braço falava por si. Pelo caminho fora,

os pais contaram me, tintim por tintim, como nascera o

plano do nosso esconderijo. Havia já meses que parte da

nossa mobília e do nosso vestuário tinha sido posta a salvo.

Se não houvesse complicações, estariamos prontos para

desaparecer no dia 16 de Julho. Por causa da convocação

as coisas anteciparam se uns dez dias e, por isso, os quartos

que íamos ocupar ainda não estavam preparados como

devia ser, mas tínhamos de nos conformar. O esconderijo

é na casa comercial do pai. Para quem está de fora, tudo

isto é difícil de compreender. Por isso vou explicar melhor.

O pai nunca teve muitos empregados. Os de agora eram

o sr. Kraler, o sr. Koophuis, a Miep e Elli Vossen, a dactilógrafa

de vinte e três anos. Todos sabiam que vínhamos.

Só o sr. Vossen, o pai da Elli, que trabalha no armazém,

e os dois criados é que não estão no segredo.

O edifício é assim : no rés do chão há um grande armazém

que também serve para a expedição. Ao lado da

entrada para o armazém há a verdadeira porta de entrada.

Passada a porta, sobe se por uma escada de poucos degraus,

até uma outra porta onde, sobre vidros foscos, existiu em

tempos, em letras pretas, a palavra "escritório". Trata se do escritório grande, muito grande mesmo, muito claro

e atravancado de móveis. Nele trabalham, durante o dia

a Miep, a Elli e o sr. Koophuis. Através de um quarto

de passagem que serve de vestiário, onde há um grande

armário e um cofre à prova de fogo entra se num grande

quarto que dá para as traseiras, onde antes o sr. Kraler

trabalhava com o sr. van Daan. Agora só lá ficou o sr. Kraler.

Pode também passar se do corredor directamente para

este quarto, atravessando uma porta de vidro que se

pode abrir por dentro com facilidade, mas que dificilmente

se abre do lado de fora. Do escritório do sr. Kraler,

passa se, através do corredor e subindo quatro degraus, à

mais bonita sala da casa, o escritório particular. Móveis

de luxo, escuros, chão revestido de oleado e com tapetes;

um rádio, candeeiros catitas, vistosos, tudo estupendo.

Ao lado há uma cozinha grande, airosa, com um cilindro

de água quente e dois fogareiros a gás. E, ao lado da

cozinha, o W. C. Isto é o primeiro andar.

Do corredor comprido, uma escada de madeira conduz

a um vestibulo que acaba noutro corredor. Há uma

porta à direita e outra à esquerda. A da esquerda conduz

à parte da frente da casa onde se encontram os armazéns,

as águas furtadas e o sótão. No edifício há ainda uma

outra escada comprida, íngreme de mais, perigosa, tipicamente holandesa.

A porta da direita conduz a um anexo. Ninguém podia

nem sequer suspeitar que, para além desta porta simples,

pintada de cinzento, ainda se encontrariam escondidos muitos quartos. Aberta a porta, sobe se um degrau, e

está se dentro do anexo. Em frente da entrada há uma escada

íngreme. à esquerda, um corredorzito leva a um quarto

que vai ser o quarto de dormir e de estar do casal Frank

e a um outro quartinho : o quarto de trabalho e de



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