O diário de Anne Frank De 2 de Junho de 1942 a de Agosto de 1944



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dormir das duas meninas Frank. Ao lado direito da

escada há um quarto sem janelas com lavatório e

um W. C. com uma outra porta que dá para o nosso

quarto.,


Quando se sobe a escada e se abre a porta de cima

fica se admirado ao ver numa casa tão velha, um quarto

tão grande, bonito e airoso. Neste quarto há um fogão

de gás e uma banca. Aqui estava instalado, até há pouco,

o laboratório da firma. Agora serve de cozinha, de sala

e de quarto de dormir do casal van Daan.

Um quartinho minúsculo de passagem o ladeia também

de Peter van Daan. Como na casa, aqui há águas furtadas e um

sótão. Vês, agora fiz te a

apresentação de todo o nosso anexo.

Tua Anne

Estivemos ocupados durante todo o dia. Até quarta feira nem tempo tive para pensar nesta grande reviravolta que se deu na

minha vida. Só então, pela primeira vez desde que aqui

chegámos, consegui arranjar tempo para ficar em mim,

para te descrever o que tinha acontecido e para falar no

que ainda poderá vir a acontecer.

Tua Anne

Sexta feira, 10 de Julho de 1942


Querida Kitty:
Se calhar aborreci te mesmo, com a descrição extensa

da casa. Mas acho que deves saber onde nos aninhamos.

E agora deixa me continuar, pois ainda não acabei. Quando

chegámos a Prinsengracht, a Miep fez nos subir depressa

para o anexo e fechou a porta atrás de nós. Cá estávamos.

Margot tinha chegado muito mais depressa de bicicleta

e já estava à nossa espera. O nosso quarto de estar e os

outros também pareciam arrumos atravancados. A desordem

era indescritível! Os caixotes e as malas que, no decorrer

dos últimos meses, se tinham mandado para aqui,

alastravam numa grande confusão. O quartinho, apinhado

até ao tecto com camas e roupas brancas. Se queríamos

dormir à noite em camas bem feitas, tínhamos de deitar

já mãos à obra. A mãe e a Margot não foram capazes de

mexer numa palha. Atiraram se para cima dos colchões;

sentiam se muito infelizes. O pai e eu, os dois

"arrumadores" da família, desatámos a trabalhar. Despejámos as

malas e os caixotes, colocámos tudo nos sítios próprios,

martelámos, esfregámos, e quando a noite chegou caímos, mais

mortos que vivos, nas camas limpinhas. Não tomámos uma só

refeição quente durante todo o dia. Também não era

preciso. A mãe e a Margot estavam nervosas de mais para comer e o pai e eu não tivemos tempo. Na terça feira de

manhã continuámos. A Elli e a Miep fizeram as compras

com os nossos talões de racionamento, o pai melhorou

a ocultação das luzes que tinha ficado imperfeita e

esfregámos os azulejos da cozinha. Estivemos todos bem.

Tua Anne

Sábado, 11 de Julho de 1942


Querida Kitty :
O pai, a mãe e a Margot ainda não conseguiram habituar se

ao sino da   Torre Oeste  , que toca de quarto em

quarto de hora. Eu já me habituei, até acho bonito. Principalmente de noite tem algo de calmante para mim.

Decerto gostavas de saber se este refúgio me agrada.

Para ser franca, ainda não sei. Creio que nunca me sentirei

aqui como em nossa casa. Mas com isto não quero dizer

que o acho lúgubre ou triste. Por vezes quer me parecer

que estou numa pensão estranha. Uma concepção singular do

"mergulhar" não achas? Esta casa é realmente um esconderijo ideal. Apesar de ser um bocado húmida, torta e

sinuosa, será difícil encontrar coisa mais confortável em

Amesterdão ou mesmo em toda a Holanda.

O nosso quarto até agora estava nu completamente.

O pai trouxe toda a minha colecção de postais de estrelas

de cinema e de vistas, e eu transformei os, com cola e

pincel, em lindos quadros para as paredes. Agora o quarto

tem um aspecto alegre. Logo que cheguem os van Daans

havemos de construir armarinhos para as paredes e outras

coisas úteis com a madeira que está no sótão.

A Margot e a mãe vão se habituando. Ontem, pela

primeira vez, a mãe quis cozinhar. Sopa de ervilhas!

Mas enquanto tagarelava em baixo esqueceu se da sopa

por completo, e esta esturrou toda, as ervilhas ficaram

negras como carvão e era impossível despegá las do fundo

da panela. É pena que eu não possa contar esta história

ao meu professor Kepler... teoria da hereditariedade.

Ontem à noite fomos todos ao escritório particular para

ouvir a emissão da B. B. C. Estava com muito medo de

que alguém na vizinhança pudesse dar por ela e supliquei

ao pai que voltasse conosco para cima. A mãe compreendeu me

e veio comigo. Estamos sempre com receio de que

alguém nos possa ver ou ouvir. Logo no primeiro dia

fizemos cortinas. São simplesmente retalhos de diferentes

formas e cores, ajuntados e cosidos pelo pai e por mim.

Estas peças de luxo estão pregadas aos caixilhos das janelas

com "punaises" e aí ficarão enquanto durar o nosso

"mergulho".

à direita da nossa habitação há uma grande casa

comercial e à esquerda uma carpintaria. Nestes edifícios

não fica ninguém depois das horas de trabalho, mas nunca

se sabe ao certo se os nossos ruídos não chegam a ouvir se.

Por isso proibimos a Margot, que anda terrivelmente

constipada, de tossir de noite. Coitada da rapariga,

volta e meia obrigam na a engolir codaína. Na terça feira

chegarão os van Daans. Estou contente. Será mais agradável assim e menos monótono. Esta calma enerva me, principalmente

de noite; muito gostava eu que algum dos nossos protectores

também aqui dormisse. Aflige me a ideia de não se

poder sair daqui e tenho medo de que nos descubram

e nos fuzilem. É isto que pesa sobre mim de um modo

horrível. Durante o dia não nos podemos mexer à vontade.

não podemos pisar o chão com força e temos quase de

cochichar em vez de falar, pois lá em baixo, no armazém,

não nos devem ouvir. Desculpa. Estão a chamar me.

Tua Anne

Sexta feira, 1 de Agosto de 1942


Querida Kitty :
Há um mês que não tenho feito caso de ti, mas nem

todos os dias acontecem coisas novas. No dia 13 de Julho

chegaram os van Daans. Só os esperávamos no dia 16.,

mas como justamente naqueles dias toda a gente andava

muito agitada por os alemães convocarem de cada vez

mais judeus, os van Daans preferiram partir da sua casa

antes que fosse tarde de mais. Pela manhã, às nove e meia

 estávamos ainda a tomar o pequeno almoço   entrou o

Peter van Daan, um rapazote de dezasseis anos, enfadonho,

bastante tímido, que não promete vir a ser um companheiro

interessante. Meia hora mais tarde apareceu o

casal van Daan. Rimo nos muito por a sra. van Daan

trazer na chapeleira um vaso de noite. "Sem vaso de noite

não posso viver", disse ela, e pôs a peça valiosa no seu

lugar debaixo da cama. Ele, o sr. van Daan, não trazia

váso, mas apareceu com uma mesinha de chá de dobrar,

debaixo do braço. No primeiro dia estivemos sentados

todos juntos, num ambiente simpático, e passados três

dias, tínhamos a impressão de termos sido sempre uma

grande família. Os van Daans assistiram a muita coisa

em toda aquela semana que ainda passaram fora da toca,

e era disso que nos falavam. A nós interessava nos muito,

em especial o que tinha sucedido à nossa casa e ao sr.

Goudsmit.

E o sr. van Daan contou :

 Segunda feira, às nove horas da manhã, o sr. Gouds

mit telefonou me para ir ter com ele. Mostrou me o papelinho que vocês tinham deixado ficar (para ele levar o

gato ao vizinho). Ele tinha um medo terrível de que a

polícia revistasse a casa e, por isso, limpámos um bocado

a mesa. De repente descobri no calendário em cima da

escrivaninha da sra. Frank um apontamento com uma

direcção qualquer em Maastricht. Eu sabia este "desleixo"

intencional, mas fingi me admirado e assustado e pedi

ao sr. Goudsmit para, com toda a urgência, queimar aquele

malfadado papel. Ao mesmo tempo ia dizendo que não

fazia a menor ideia da vossa intenção de desaparecer.

De repente foi como se se fizesse luz no meu espírito.

  Sr. Goudsmit  , disse,   agora estou a perceber o que

quer dizer essa direcção. Há mais ou menos meio ano apareceu nos no escritório um oficial alemão de alta patente, um amigo de infância do sr. Frank. Ora, esse oficial prometeu

ao sr. van Daan ajudá lo se ele, um dia, estivesse

em perigo aqui. E esse oficial estava precisamente estacionado

em Maastricht! Suponho que cumpriu a promessa

e que levará os Franks à Bélgica e de lá para junto dos

parentes deles na Suiça. Pode contar isso aos amigos

que perguntem pelos Franks, mas não mencione Maastricht,

por favor.

Depois fui me embora. A história correu e até já me

foi contada a mim próprio por várias vezes, segundo esta

mesma versão.

Achámos a coisa deliciosa e rimo nos ainda bastante da

força de imaginação dalgumas pessoas! O sr. van Daan

contou que uma família pensava ter nos visto quando

partimos de bicicleta de manhã cedo, todos juntos. Uma

outra senhora sabia categòricamente que um automóvel

militar nos foi buscar em plena noite.

Tua Anne


Sexta feira, 21 de Agosto de 1942
Querida Kitty:
O nosso "esconderijo" é agora perfeito. O sr. Kraler

teve a boa ideia de tapar a porta de entrada do anexo.

A polícia anda a fazer muitas buscas às casas por causa

das bicicletas escondidas. O sr. Vossen executou um plano:

construir uma estante giratória que abre para o lado como

uma porta. É claro que, para isso, o sr. Vossen teve de

"entrar no segredo" e está a ser muito prestável. Agora, antes

de descermos, temos de nos curvar e depois damos um saltinho

porque o degrau desapareceu.

Ao cabo de três dias tínhamos todos a testa cheia de

galos, porque como não tomávamos cautela e não estávamos

habituados, batíamos quase sempre contra a portinha.

Agora pregámos lhe uma almofadinha de serrim.

Vamos a ver se serve para alguma coisa.

Não leio muito. Tem me esquecido quase tudo o que

aprendi na escola. A nossa vida aqui é pouco variada.

O sr. van Daan e eu pegamo nos a cada passo. Ele, já se vê,

acha a Margot muito mais engraçada do que eu. A mãe

trata me como se eu fosse um bebé, coisa que não suporto.

O Peter também não tem piada. É aborrecido e mandrião.

Passa a maior parte do dia estendido na cama, por vezes

levanta se, carpinteira um bocado e volta de novo a dormitar.

Um autêntico palerma!

Está calor e nós preguiçamos na cadeira de lona, lá

em cima, no sótão grande.

Tua Anne


Quarta feira, 2 de Setembro de 1942
Querida Kitty:
O sr. van Daan zangou se com a mulher. Nunca vi

tal coisa na minha vida. O meu pai e a minha mãe não

eram capazes de gritar assim um com o outro. O motivo

foi tão insignificante que nem vale a pena falar nele.

Mas enfim, cada um é como é. Para o Peter não deve

ser nada agradável assistir a zangas dessas. Mas ele, de

resto, ninguém o toma a sério por ser tão preguiçoso

e tão mimalho. Ontem estava todo aflito porque tinha a

língua azul. Mas pouco depois já lhe tinha passado, e

hoje anda com um cachecol grosso à volta do pescoço,

diz que tem lumbago e dores nos pulmões, no coração

e nos rins. Calcula, mais nada! Este jovem está me a

sair um belíssimo hipocondríaco! (É assim que se diz,

não é?)


A minha mãe e a sra. van Daan não se dão lá muito

bem, e realmente há razões bastantes para isso. Só um

exemplo: a sra. van Daan só deixou ficar três lençóis no

armário das roupas brancas, usado em comum por eles

e por nós. Tinha ela a intenção simpática de poupar os

lençóis dela e de usar os nossos. Há de ficar muito espantada,

quando descobrir que a mãe lhe seguiu o bom

exemplo... Madame também se enfurece toda quando pomos

a uso a louça dela e não a nossa. Anda constantemente a

ver se descobre o que foi feito da nossa porcelana e nem

suspeita que esta se encontra tão perto dela, no sótão,

atrás de vários materiais de reclame, onde está bem guardadinha

e onde ficará "mergulhada" tanto tempo como

nós. A pouca sorte persegue nos. Ontem deixei cair um

prato de sopa.

 Oh!   gritou ela, furiosa   toma cautela. É tudo que me resta! Mas o sr. van Daan é agora a amabilidade

em pessoa para comigo.

A mãe voltou a pregar me um grande sermão, hoje

pela manhã. Acho isto horrível. As nossas opiniões são

demasiado diferentes. O pai tem mais compreensão, mesmo

se às vezes fica zangado durante cinco minutos.

Na semana passada houve um incidente. O motivo

foi um livro sobre mulheres e... o Peter. Ainda não te disse

que a Margot e o Peter têm licença para ler quase todos os

livros que o sr. Koophuis nos traz da biblioteca. Mas esse

tal livro os "grandes" não lhos queriam dar.

claro está, a curiosidade do Peter ficou espicaçada.

O que estaria escrito num livro proibido? Tirou o, à

sucapa, à sua mãe quando ela estava cá em baixo. Escondeu se

com a presa debaixo do telhado. Durante dois dias

tudo correu bem. A mãe tinha dado fé, mas não o traiu.

Mas depois o pai descobriu tudo. Zangou se, tirou lhe o

livro e pensou que o assunto estava resolvido. Não contava

com a curiosidade do filho que não achou a intenção

do pai razoável e por isso não desistiu. Procurou, por todos

os meios, apanhar o livro outra vez. A sra. van Daan,

entretanto, tinha falado com minha mãe sobre o assunto.

Minha mãe também achava que aquele livro não era

próprio para a Margot, apesar de a deixar ler todos os

outros livros.

 Entre a Margot e o Peter há uma grande diferença,

sra. van Daan, disse a mãe. Em primeiro lugar, as raparigas

são quase sempre mais desenvolvidas do que os rapazes

e depois a Margot já leu muitos livros, livros sérios e

notáveis, e, além disso, ela está mais avançada no que

respeita ao raciocínio e à cultura. Não se esqueça de que ela

tem o curso dos liceus quase completo.

Em princípio, a sra. van Daan concordava, embora

não achasse necessário darem se aos jovens os livros que,

na realidade, eram destinados aos adultos.

O Peter aproveitou a ocasião para se apoderar do livro.

Quando, à noite, toda a família se reuniu no escritório

particular, para ouvir rádio, levou ele o seu tesouro para

o sótão. às oito e meia devia voltar para baixo, mas o

livro era tão palpitante que não reparou nas horas. Vinha

precisamente a descer a escada do sótão com muita cautela quando o seu pai entrou no quarto. Podes imaginar

o que se seguiu... Ouviu se o estalar de uma bofetada

retumbante. Um empurrão, o livro voou por cima da

mesa e o Peter para o canto do quarto. O casal van Daan

apareceu à mesa sem Peter, que foi obrigado a ficar em

cima. Ninguém fez caso. Diziam que, de castigo, ia para

a cama sem comer. Passámos à ordem do dia e comemos.

De repente... um assobio penetrante... Ficámos como que

petrificados e pálidos. Olhámos uns para os outros. Os

talheres cairam nos das mãos. Depois ouvimos a voz de

Peter através do cano do fogão :

 Se pensam que desço, estão muito enganados.

O sr. van Daan deu um pulo da cadeira e gritou,

vermelho como um tomate:

 Agora basta!

O pai, receando zaragata, agarrou lhe no braço e

subiram assim os dois. Depois de muita resistência e demasiado

barulho, o Peter acabou por voltar ao seu quarto,

onde ficou fechado à chave. A sua boa mãezinha quis

guardar lhe um pão com manteiga, mas o sr. papá mostrou se

inflexível.

 Se ele se não resolve a pedir desculpa imediatamente,

irá dormir para o sótão!

Protestámos e dissemos que já era castigo suficiente

ter o rapaz ficado sem jantar. E se o Peter se constipasse

não havia possibilidade de ir buscar um médico.

O Peter não pediu desculpa e ficou no sótão. O sr.

van Daan não lhe ligou importância, mas na manhã

seguinte pôde verificar que o Peter, afinal, tinha dormido

na sua cama. às sete horas, porém, o rapaz subiu,

de novo, para o sótão e foi preciso o meu pai intervir com

algumas palavrinhas conciliadoras para que ele descesse.

Durante três dias tivemos caras carrancudas e um silêncio

teimoso. Depois tudo regressou à velha ordem.

Tua Anne


Segunda feira, 21 de Setembro de 1942
Querida Kitty :
Hoje vou contar te coisas miudinhas da nossa vida

diária. A sra. van Daan é insuportável. A cada passo me

censura por eu falar tanto. Não perde uma ocasião para

nos irritar. Agora meteu se lhe em cabeça que não havia

de lavar a louça! E se uma ou outra vez se digna fazê lo,

quando um resto de comida ficou na panela não o guarda

num pratinho de vidro como nós fazemos, deixa o ficar.

Resultado: estraga se e, além disso, a Margot que tem

de lavar a louça na vez seguinte, tem o dobro do trabalho.

E ainda por cima tem de ouvir da senhora :

  Coitadinha da Margot, tem tanto trabalho!

O pai e eu arranjámos agora um entretenimento engraçado.

Estamos a elaborar uma árvore genealógica da família

dele. Conta me coisas de todos os parentes. Então sinto me

muito ligada à família.

De quinze em quinze dias, o sr. Koophuis traz da

biblioteca alguns livros para raparigas. Gostei imenso da

série   Joop ter Heul   e acho bonito tudo o que escreve

Gissy von Marxveldt. Já li quatro vezes as Alegrias de

Verão e rio me sempre com a mesma vontade das

situações cómicas.

Também voltámos aos estudos : dedico me muito ao

francês e, só de verbos, meto todos os dias cinco dos irregulares na cabeça. Peter faz os exercícios de inglês

a suspirar. Recebemos livros escolares novos. Eu tinha trazido de casa um sortido de lápis, cadernos, etiquetas, borrachas de safar, etc.

Ouço muitas vezes a emissora de Orange. Ainda há

pouco acabou de falar o príncipe Fernando. Contou que

estão à espera de outro bebé... Aqui todos se admiram

da minha afeição aos reis holandeses. Há dias falou se

dos meus estudos e que eu ainda tinha muito que aprender.

Por consequência atirei me mais ao trabalho. Não quero

voltar, mais tarde, ao primeiro ano. Também veio à baila

que eu não tinha lido nada ultimamente. A mãe está a ler   Heeren, Vrouwen, Knechten  . Mas este livro não mo

querem deixar ler. Para o poder ler tenho de ficar, antes

de mais nada, tão esperta e culta como a minha inteligente

e talentosa irmã. Falou se também sobre filosofia,

psicologia e fisiologia (estas palavras tão complicadas

fizeram me ir ao dicionário), coisas de que nada sei.

Oxalá no próximo ano já seja menos ignorante.

Verifiquei uma coisa desastrosa, é que para o Inverno

só tenho um vestido de mangas compridas e três "gilets".

O pai deu me licença para fazer uma camisola de lã

branca de carneiro. A lã já não está grande coisa, mas o

principal é que seja quentinha. Muitas roupas nossas estão

nas casas de outras pessoas, mas só depois da guerra

poderemos ir buscá las, se ainda existir alguma coisa.

Estava eu, outro dia, a escrever precisamente sobre

a sra. van Daan quando ela entrou. Imediatamente fechei

o caderno.

 Então, Anne, deixas me espreitar?

 Não, sra. van Daan!

 Só a última págína, está bem?

 Não, também não!

Ai! Que susto que passei. Era mesmo naquela página

que se lhe faziam referências pouco lisonjeiras.

Tua Anne.

Sexta feira, 25 de Setembro de 1942


Querida Kitty:
Ontem   visitei   os van Daan, lá em cima, para tagarelar

um bocadinho. De vez em quando tem graça. Comemos

"bolachas de naftalina" (a lata das bolachas está no guarda roupa,

onde há bolinhas contra a traça) e tomámos

limonada.

Falámos do Peter. Eu disse lhes que ele, por vezes,

se queria chegar de mais a mim e que isto não me agradava

nada e que eu detestava tais demonstrações. Com modos

paternais perguntaram me se eu não queria, apesar de

tudo, ser muito amiga do Peter, pois ele gostava de mim.

Pensei de mim para mim : ah!, meu Deus. Mas disse

em voz alta:

 Oh, não!, de maneira nenhuma!

Peter é esquivo como todos os rapazes que não conviveram

bastante com raparigas.

A "comissão do mergulho", formada pelos nossos protectores,

é de facto engenhosa. Ouve o que os senhores

inventaram! Querem fazer chegar notícias nossas ao

sr. van Dijk, um amigo nosso e representante principal da

firma "Travis". Aliás, ele tem também muitas coisas nossas

guardadas em sua casa. Assim escreveram uma carta a

um farmacêutico na Zelândia Meridional com o pedido

de uma informação. Juntaram um envelope que este

cliente utilizará para a resposta. Ora, o endereço da nossa

casa comercial foi escrito à mão por meu pai. Quando a

carta voltar, eles tirar lhe ão a resposta do farmacêutico,

meterão uma carta escrita pelo pai e, assim, o sr. van Dijk

terá um sinal de vida nosso. Escolheram a Zelândia, na

fronteira belga, sítio onde se torna mais fácil fazer passar

cartas assim.

Tua Anne.

Domingo, 27 de Setembro de 1942


Querida Kitty:
Outra zanga com a mãe. Não sei já quantas foram

ùltimamente! A maior parte das vezes não nos entendemos.

Também com a Margot já não tenho a mesma intimidade.

Não que na nossa família se façam "cenas" como lá em cima,

mas, mesmo assim, não acho graça nenhuma a isto. Tenho

uma maneira de ser diferente da de minha mãe e de

Margot. Sempre compreendi melhor as minhas amigas

do que compreendo a minha própria mãe. É lamentável.

A sra. van Daan está outra vez de mau humor. fecha

à chave a maior parte das suas coisas destinadas ao uso

da casa. Eu gostava tanto que a mãe lhe pagasse na mesma

moeda!


Há pais a quem parece dar prazer especial não só

educar os seus próprios filhos mas, também, os filhos dos

outros. A esta categoria pertencem os van Daan. a Margot

já não precisa de ser educada, é o amor, a bondade e a

Inteligência em pessoa. Mas o que ela tem a mais tenho

eu a menos! A cada passo, durante as refeições, chovem

recomendações sobre a minha pessoa e eu, de vez em

quando, não posso deixar de dar uma das minhas respostas

atrevidas, malcriadas até por vezes. O paii e a mãe

tomam sempre o meu partido e sem eles eu não me aguentava

na luta. Muitas vezes, os dois repreendem me, ou

por eu falar de mais, ou por meter o nariz em tudo, ou

por não ser bastante modesta, mas não há meio de me

corrigir destes defeitos. Se o pai não fosse sempre tão

paciente eu já não tinha esperanças de ser capaz de me



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