O diário de Anne Frank De 2 de Junho de 1942 a de Agosto de 1944



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emendar. E, vistas bem as coisas, os meus pais não exigem

muito de mim.

Quando acontece eu servir me de pouca hortaliça, porque gosto pouco, mas de muitas batatas, os van Daans

ficam todos enfurecidos com tais "mimalhices".

 Mais um bocado de hortaliça diz a senhora

imediatamente.

 Obrigada, só queria batatas respondo eu.

 Hortaliça faz bem à saúde, a tua mãe também assim

pensa. Vá, mais um bocadinho.

Insiste até que meu pai intervém e põe termo àquilo.

 Havias de ter visto como as coisas se passavam antigamente

em minha casa. diz irritada Coisas destas não

se admitiam. Isto não é educação! Estão a estragar a Anne.

Ai, se fosse minha filha!

É com estas palavras que termina sempre os seus discursos.

Ainda bem que não sou filha dela!

Ainda sobre educação. Ontem seguia se um silêncio

depois de a sra. van Daan ter acabado o seu sermão. Por

fim meu pai disse :

 Acho a Anne uma rapariga bem educada. Veja, ela

já compreendeu que o melhor é não responder aos seus

longos discursos. E no que respeita à hortaliça, só lhe digo

a si: vice versa!

Ela sentiu se totalmente vencida. Com aquele "vice versa"

meu pai quis referir se às pequenas porções que

ela própria costuma comer. Para se justificar, ela disse que

muita hortaliça à noite, como vai logo para a cama, lhe

fazia mal à digestão. Mas o que eu queria era que ela me

deixasse em paz! É divertido ver como a sra. van Daan

cora por tudo e por nada. Eu não, e ela inveja me por isso.

Tua Anne.

Segunda feira, 28 de Setembro de 1942
Querida Kitty:
Ontem não tinha acabado a carta mas tive de a interromper.

Vou contar te mais outra zanga. Mas primeiro

deixa me dizer te que acho horrível e inconcebível que os

adultos se irritem e zanguem com tanta facilidade e por

causa das mais insignificantes bagatelas. Até há pouco

tempo eu julgava que só as crianças se zangavam e que isso

mais tarde já não acontecia. Já se vê, por vezes existem

motivos para grandes discussões. Mas eles ofendem se uns

aos outros constantemente, com palavras veladas e isto

torna se insuportável. Já me devia ter habituado porque

é o mesmo quase todos os dias. Mas não posso ficar indiferente

se as discussões (assim chamam àquilo, que é

apenas "barulho") giram em volta da minha pessoa. Dizem

de mim cobras e lagartos : a minha aparência, o meu

carácter, as minhas maneiras, tudo é remexido, criticado

e... condenado. Eu não estava habituada a ouvir palavras

duras e gritos. E agora querem que engula tudo isso?

Não, não posso! E não tenciono engolir tudo. Hei de

mostrar lhes que a Anne não é tola. Ainda se hão de

admirar e calar o bico! Eles é que precisavam de ser

educados, não eu. De cada vez fico mais espantada com

tanta falta de correcção e tanta estupidez (a sra. van Daan!).

Mas hei de me habituar também a isto e qualquer dia

ela há de ouvir me. Então serei de facto tão mal educada,

atrevida, teimosa, estúpida e preguiçosa como me querem

fazer ver os de lá de cima. Bem sei que tenho muitos defeitos

e fraquezas, mas os de cima exageram de uma maneira

escandalosa.

Se tu soubesses Kitty como eu fervo cá por dentro quando oiço tantos insultos! Qualquer dia a minha raiva

acumulada explode!

Se calhar estou a aborrecer te, mas não posso deixar

de te contar ainda uma conversa à mesa, que foi muito

interessante e divertida. Estava se a falar da grande modéstia

do Pim (Pim é a alcunha do pai). É tão evidente nele

a modéstia que até as pessoas mais broncas a notam. De

repente a sra. van Daan, que relaciona tudo, mas mesmo

tudo, consigo própria, disse :

 Eu também sou muito modesta, muito mais modesta

do que o meu marido.

O sr. van Daan quis atenuar esta frase e disse com

calma :

 Não quero ser muito modesto, porque creio que as



pessoas vaidosas vão muito mais longe na vida.

E depois dirigiu se a mim:

 Não sejas demasiado modesta, Anne, não te servirá

de nada.


A mãe concordou, mas a Sra. van Daan teve que meter

de novo o bedelho e agora, em vez de falar para mim,

dirigiu se aos meus pais :

 Vocês têm uma maneira estranha de dizer as coisas

à Anne. No meu tempo de rapariga isso era impossível.

Mas mesmo hoje não é assim que se educam os filhos,

excepto em famílias modernas como a vossa.

Com isso ela quis atacar o método de educação de

minha mãe, tantas vezes discutido. Estava vermelha como

fogo. Quando uma pessoa ferve daquela maneira quase

que já perdeu ojogo de antemão. A mãe, que estava muito

calma, quis pôr termo à discussão e disse :

 Sra. van Daan, acho também melhor não se ser

muito modesto. Meu marido, a Margot e o Peter são de

facto modestos de mais, seu marido, a senhora, Anne e eu

não somos precisamente vaidosos, mas não deixamos fazer

o ninho atrás da orelha.

 Mas eu sou modesta, sra. Frank! Como se atreve a

dizer o contrário?

A mãe :


 Não é precisamente vaidosa, sra. van Daan, mas

acho que modesta também não é.

A sra. van Daan:

  Então, já agora, gostava de saber quando é que

não sou modesta. Se não cuidasse um bocado de mim,

morreria provàvelmente de fome. Sou tão modesta como

seu marido.

Este auto elogio fez com que minha mãe desse uma

gargalhada, o que irritou a "pobrezinha" de tal forma

que continuou a falar e a falar sem conseguir acabar.

Por fim atrapalhou se de tal modo que perdeu o fio à

meada e, toda ofendida, levantou se para sair do quarto.

Por acaso o seu olhar caiu sobre mim. Mal ela tinha virado

as costas, eu pus me a abanar a cabeça, de um modo

meio piedoso, meio irónico, quase sem querer. Ela, ao

ver me assim, já não saiu e começou a berrar, numa

linguagem feia e vulgar como uma velha e gorda peixeira.

Aquilo é que era um espectáculo divertido! Se eu soubesse

desenhar, tinha a eternizado naquela atitude; que modelozinho

tão ridículo!

Uma coisa te vou dizer: se quiseres conhecer bem uma

pessoa, tens de te zangar uma vez com ela. Só então é

que podes julgá la.

Tua Anne.


Terça feira, 28 de Setembro de 1942
Querida Kitty:
Há sempre qualquer coisa para contar nesta casa!

Como não temos banheira, lavamo nos numa celha.

E como no escritório (quero dizer em todo o andar de

baixo) há àgua quente, vamos os sete alternadamente para

baixo. Mas somos muito diferentes uns dos outros, no que

respeita ao pudor. Por isso, cada um, conforme a sua

maneira de ser, escolheu um ou outro lugar para o acto

de limpeza. Peter toma banho na cozinha, embora esta

tenha uma porta de vidro. Antes de começar a lavar se,

avisa toda a gente e pede nos que não passemos por

aquela porta durante uma meia hora.

O sr. van Daan prefere tomar banho em cima. Acha

que vale a pena carregar com a água quente, escada acima,

para poder gozar as comodidades do seu quarto. A sra. van

Daan, até hoje, ainda não tomou banho. Quer primeiro

estudar qual o lugar mais conveniente para ela. O pai

prefere o escritório particular e a mãe vai para detrás do

resguardo do fogão, na cozinha. A Margot e eu escolhemos

o escritório grande, para podermos chapinhar à vontade.

Todos os sábados, de tarde, fechamos as cortinas e assim,

no lusco fusco, lavamo nos. A que fica à espera, observa,

através de uma fenda das cortinas, o que se vai passando

lá fora e diverte se com o vaivém tão patusco das pessoas.

Mas de há uma semana para cá, já não me agrada aquele

quarto de banho e tenho andado à procura de um sítio

mais confortável. O Peter teve uma ideia boa: propôs

que eu levasse as minhas coisas de banho para o grande

W.C. que pertence ao escritório. Aí, eu podia estar sozinha,

podia acender a luz, fechar a porta e, até, despejar a água

sem auxílio de ninguém. Hoje inaugurei o meu novo quarto de banho. Estou satisfeita.

Ontem esteve o picheleiro no andar de baixo para

deslocar os canos que ligam à canalização da nossa moradia.

Isto tinha que ser feito. De outro modo podia, no Inverno,

que talvez venha a ser rigoroso, gelar a água nos canos.

Essa visita foi para nós tudo, menos agradável. Não só

porque não se podia abrir uma torneira, mas também

porque não nos podiamos servir do W.C. Talvez não seja

lá muito elegante contar te o que fizemos para remediar

o mal. Mas não sou tão pudica que não possa falar em tais

coisas. O pai e eu tínhamos tomado providências. Guardámos

alguns frascos de conserva de que agora nos servimos.

Forçosamente não podiam ser despejados e tinham de

ficar nos quartos. Mas achei isso menos repugnante do que

estar todo o dia quieta, sem poder falar. Tu não podes

imaginar quanto isto me custou a mim, que tanto gosto

de palrar. Vulgarmente já somos obrigados a falar muito

baixinho. Mas não falar mesmo nada e ficar sentada todo

o dia sem me mexer, acho que é dez vezes pior! Tinha o

rabo espalmado e nem o sentia; doeu me durante três

dias. Passámos então a fazer ginástica todas as noites, o

que nos foi compondo.

Tua Anne


Quinta feira, 1 de Outubro de 1942
Querida Kitty:
Ontem apanhei um susto terrível. às oito tocou a

campainha e eu já estava a imaginar o pior já sabes o

que quero dizer com isto. Mas todos disseram que aquilo

deviam ter sido garotos, e eu acalmei.

Agora os dias passam num silêncio! Na cozinha do

escritório trabalha um farmacêutico, o sr. Lewin, que está

a fazer experiências para a firma. Conhece bem a casa

toda, e andamos sempre com o receio de que lhe venha

a ideia de entrar no laboratório antigo. Estamos muito

quietos. Quem, há três meses, teria adivinhado que a Anne,

sempre tão mexida, tinha de estar tanto tempo quieta

numa cadeira, sem falar?

No dia 26, a sra. van Daan fez anos: não houve grande

festa. Demos lhe flores, umas prendinhas e um jantar

melhorado. Já é velha tradição o marido oferecer lhe

cravos vermelhos. Falando da sra. van Daan, quero confessar te

uma coisa. As suas tentativas de "flirtar" com

meu pai aborrecem me do fundo do coração. Ela passa lhe

a mão sobre a cara e o cabelo e mostra lhe com preferência

as suas "lindas" pernas. Faz esforÇos para ser espirituosa

e tenta, sempre que pode, chamar a atenção do Pim sobre

ela. Pim não a acha bonita nem simpática e as seduções

dela deixam no de todo indiferente. Não sou ciumenta,

palavra, mas aquilo custa me a suportar. Já lhe disse a

ela na cara que minha mãe não se porta assim com o

sr. van Daan.

O Peter, por vezes, tem piada. Temos ambos a paixão

das brincadeiras de Carnaval e divertimo nos bastante

com isso. Outro dia apareceu ele encafuado num vestido

muito apertado de sua mãe, com um chapelinho na cabeça.

Eu vesti o fato dele e pus a sua boina; os adultos quase

que morriam de tanto rír e nós estivemos também

divertidíssimos.

Elli comprou no armazém saias para mim e para a

Margot, de má qualidade e muito caras. E mais alguma

coisa engraçada ela nos prometeu: vai tratar de nos arranjar

lições de estenografia por correspondência. No ano

que vem seremos estenógrafas perfeitas. Que bom a gente

poder aprender esta espécie de "código" secreto.

Tua Anne.

Sábado, 3 de Outubro de 1942
Querida Kitty:
Ontem houve aqui grande zaragata. A mãe contou

todas as minhas travessuras ao pai, mas exagerou muito.

Chorou. Também chorei, e já tinha andado todo o dia

cheia de dores de cabeça. Eu então disse ao pai que gostava

mais dele do que da mãe. O Pim disse que isso havia de

passar, mas eu não acredito. Tenho de fazer grandes

esforços para ficar calma quando falo com a mãe. O pai

quer que a ajude, e lhe preste serviços quando ela se não

sente bem, mas eu não quero.

Estudo muito francês e estou a ler La belle Nivernaise.

Tua Anne.

Sexta feira, 9 de Outubro de 1942


Querida Kitty!
Hoje só te posso dar notícias tristes e deprimentes.

Os nossos amigos e conhecidos judaicos são deportados

em massa. A Gestapo trata os sem a menor consideração.

Em vagões de gado leva os para yVesterbork, o campo

para judeus. Westerbork deve ser um sítio horrível. Estão

lá milhares de pessoas e nem há sequer lavatórios nem W.C.

que, de longe, cheguem para todos. Conta se que as pessoas

dormem em barracas, homens, mulheres e crianças,

todos misturados. Não podem fugir: quase todos se podem

identificar pelas cabeças rapadas ou então pelo seu tipo

judaico.

Se já na Holanda as coisas se passam deste modo, como

há de ser então nos sítios longínquos para onde levam

essa gente? A emissora inglesa fala de câmaras de gás.

De qualquer forma talvez seja a câmara de gás a maneira

mais rápida de se morrer... A Miep falou nos de acontecimentos

terríveis e está excitadíssima. Ainda há pouco

encontrou, em frente da sua porta, uma velhinha manca.

Estava à espera do automóvel da Gestapo que recolhe as

pessoas umas após outras. A velha tremia de medo. Os

canhões da defesa atroavam os ares. Os raios dos projectores

cruzavam se no céu, a trovoada dos aviões ingleses ecoava

entre as casas. Mas a Miep não teve coragem de arrastar

a mulherzinha para dentro da sua casa. Os alemães castigam

com dureza tais procedimentos.

Também a Elli está desanimada e triste. O seu noivo

foi levado para trabalhar na Alemanha. Ela receia que o

seu Dirk possa ser atingido quando há bombardeamentos.

Os aviões ingleses despejam milhões de quilos de bombas.

Piadinhas como: "Descansem, não lhes cairá em cima um milhão delas", ou "só uma bomba chega bem", acho as

grosseiras. O Dirk não foi o único que teve de partir.

Todos os dias saem comboios de jovens, forçados a ir.

Um ou outro consegue fugir pelo caminho ou "mergulhar",

mas são tão poucos! A minha cantiga triste ainda não

acabou. Já ouviste falar em reféns? Pois inventaram esta

coisa requintada. Parece me o pior de tudo o que inventaram.

Gente inocente é presa. Se em qualquer parte se

dá uma "sabotage" e os autores não se encontrarem, fuzilam

simplesmente alguns dos reféns. Depois publicam a

notícia no jornal. E lembrar me que também já fui alemã!

Hitler tirou nos a nacionalidade há muito. Entre aquela

espécie de alemães os hitlerianos e os judeus existe uma

inimmizade como não pode haver mais forte em todo o

Mundo!


Tua Anne.

Sexta feira, 16 de Outubro de 1942


Querida Kitty:
Tenho imenso que fazer. Traduzi um capítulo de La beLle

,Nivernaise. Tirei todos os significados novos. Depois fiz um

problema de matemática e ainda estudei três páginas de

gramática. Não gosto nada dos problemas nem me apetece

pegar lhes. O pai também os acha complicados e, por

vezes, resolvo os melhor eu do que ele, mas, em boa verdade,

nem ele nem eu sabemos muito disto e acabamos quase

sempre por chamar a Margot para nos dar uma ajuda.

Na estenografia sou eu quem vai à frente dos três. Ontem

acabei de ler Os Salteadores. É um bom livro, mas não se

pode comparar a ooter Heul. continuo a dizer que acho

a Gissy v. Marxveldt uma escritora brilhante. Os meus

filhos hão de ler os seus livros. O pai deu me algumas

peças de teatro de Krner: O primo de Bremen, A governanta,

O dominó verde. Um bom escritor.

A mãe, a Margot e eu voltámos a ser amigas, o que

não deixa de ser muito agradável. Ontem a Margot deitou se

ao meu lado na minha cama. Quase não havia

lugar para as duas, mas não fazes ideia como foi bom.

Ela perguntou me se podia ler o meu diário. Eu disse:

 Algumas passagens podes.

Perguntei lhe pelo diário dela. Disse que também mo

dava a ler. Depois falámos sobre o futuro e perguntei lhe

o que ela queria ser. Mas não quis dizer, é um segredo.

Ouvi vagamente dizer que quer ser professora e suponho

que deve ser verdade. Acho que sou curiosa de mais. Hoje

de manhã estendi me sobre a cama do Peter depois de

o ter expulsado de lá. Ficou furioso, mas não fiz caso.

Acho que podia ser mais amável comigo, pois ainda ontem

lhe dei uma maçã.

Ontem perguntei à Margot se me achava feia. Ela

disse me que eu tinha um ar patusco e os olhos muito

bonitos. Uma resposta um bocado vaga, não te parece?

Até à próxima.

Tua Anne

Terça feira, 20 de Outubro de 1942


Querida Kitty:
As minhas mãos ainda tremem com o susto que apanhámos,

embora isto já se tenha passado há duas horas.

Temos em casa os aparelhos "Minimax" contra incêndios.

Ninguém nos tinha dito que vinha gente enchê los. E já

se vê, nós não tínhamos tomado cuidados especiais. Nisto

ouvi martelar do outro lado, no vestíbulo. Pensei que fosse

o marceneiro. A Elli estava a almoçar connosco. Avisei a

para não descer. O pai e eu resolvemos ficar de guarda

e escutar atrás da porta até o homem acabar o trabalho.

Depois de ele ter martelado um quarto de hora, pôs a

ferramenta em cima do armário (pelo menos foi o que

supusemos) e bateu à nossa porta. Ficámos ambos pálidos.

Teria ele dado por alguma coisa e queria agora decifrar

o mistério? Com certeza, pois nunca mais acabava de

bater, puxar, empurrar. Eu ia quase desmaiando ao

lembrar me de que aquele estranho iria descobrir o nosso

belo esconderijo e estava precisamente a pensar que decerto

ia morrer dentro de pouco, quando ouvi a voz do sr. Koophuis :

 Por amor de Deus, abram a porta. Sou eu.

Imediatamente abrimos. O gancho com que se fecha

a porta por dentro e de que os iniciados se servem também

do outro lado, estava preso e, por isso, não tinha sido

possível avisar nos de que vinha o operário. O homem

já descera e como o sr. Koophuis, que vinha buscar a

Elli, não conseguia abrir a porta, pôs se a fazer aquele

barulho todo. Que grande alívio! Na minha imaginação

eu tinha visto o homem prestes a entrar no nosso anexo

e a crescer até parecer um gigante invencível. Enfim,

tivemos sorte, pois tudo se passou sem mais novidade.

A segunda feira foi um dia divertido! A Miep e o Henk

passaram cá a noite. A Margot e eu dormimos no quarto

dos pais, e o jovem casal nas nossas camas. A comida

estava um mimo. Mas não faltou também um pequeno

incidente. Houve curto circuito, causado pelo candeeiro

do pai, e, de repente, ficámos às escuras. A caixa onde

se encontram os fusíveis fica no fundo do armazém e

não é brincadeira chegar lá sem luz. Mas conseguiu se

e, dentro de dez minutos, os estragos estavam reparados

e apagámos a iluminação das velas.

Levantámo nos cedo. O Henk tinha de se ir embora

às oito e meia e queriamos tomar o pequeno almoço

com ele e a Miep, sem pressas. Chovia a potes. A Miep

desceu ao escritório, radiante por não precisar de fazer

a caminhada do costume. O pai e eu fizemos as arrumações

e depois comecei a meter verbos franceses na cabeça.

Em seguida pus me a ler Eternamente cantam as florestas,

um belo livro. Vou quase no fim.

Para a semana a Elli vem cá dormir!

Tua Anne

Quinta feira, 26 de Outubro de 1942


Querida Kitty:
Estou aflita! O pai está doente. Tem muita temperatura

e manchas vermelhas pelo corpo, como acontece quando

se tem o sarampo. A mãe anda a tratá lo e tem muito

cuidado para que ele transpire muito, porque assim talvez

a temperatura desça.

Hoje de manhã a Miep contou nos que a casa dos

van Daans foi toda despejada pelos alemães. Ainda não

dissemos nada à sra. van Daan. Está muito nervosa ùltimamente

e não temos empenho nenhum em ouvir lhe falar outra vez, durante horas, do seu lindo serviço de porcelana e das mobílias valiosas que tinha em casa.

Também nós tivemos de abandonar tantas coisas bonitas!

E nada adiantamos com lamentações.

Já me deixam ler, de vez em quando, livros para adultos

e agora estou a ler A juventude de Eva de Nico van

Suchtelen. Não encontro grande diferença entre este livro

e a literatura para raparigas. Bem sei que neste livro

se fala de mulheres que vendem o corpo a homens estranhos

para ganhar um ror de dinheiro. Eu morreria

de vergonha! Também se conta que a Eva começou a

ter o "incómodo". Gostava de começar a ter o "incómodo"

É que isto dá nos importância.

O pai foi buscar ao armário os dramas de Goethe e

de Schiller. Vai lê los agora todas as noites em voz alta.

Começámos com Don Carlos. Para seguir o bom exemplo

do pai, a mãe entregou me o seu livro de rezas. Eu não

quis ser indelicada e li umas páginas. Acho o livro bonito,

mas aquilo não me diz nada. Porque é que a mãe quer

que eu seja religiosa à força?

Amanhã acende se o fogão pela primeira vez. calculo

o fumo que vai fazer, porque há muito tempo que não se

limpa a chaminé.

Tua Anne.

Sábado, 7 de Novembro de 1942


Querida Kitty:
A mãe está muito nervosa e isto é para mim como que

um perigoso escolho. Porque sou sempre eu quem paga as

favas.

Por exemplo, ontem, à noite : A Margot estava a ler um



livro com lindas ilustrações. Foi para cima e deixou ficar

o livro para quando voltasse. Comtinuá lo ia, então, a

lê lo

não tinha nada de especial a fazer, peguei no livro



e pus me a ver as gravuras. A Margot voltou, viu o "seu" livro

nas minhas mãos e franziu a testa. Queria o outra vez. Eu

estava com vontade de o ver mais um bocadinho, mas a

Margot ficou zangada. Então a mãe disse :

 Era a Margot quem estava a ler áb á do quehse

Nesse momento entrou o pai. Nada se

tinha passado, mas pensou logo que quem tinha razão

era a Margot e disse para mim:

 Gostava de te ver, a ti, se a Margot folheasse um

livro teu.

Cedi imediatamente e pousei o livro. Então disseram

que eu fiquei ofendida. Mas eu não me sentia ofendida

nem zangada, apenas estava triste, muito triste.

O pai foi injusto, não devia julgar o caso sem o conhecer.

Eu teria devolvido o livro à Margot, de livre vontade

e muito mais depressa, se os pais não se tivessem metido

no assunto e tomado logo partido por ela. Enfim, que a

mãe se ponha do lado da Margot, é coisa natural. Morrem

uma pela outra. Já estou tão habituada que não me importo

com as descomposturas da mãe nem com o mau génio da

Margot. Sou amiga delas porque uma é minha mãe e a



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