O diário de Anne Frank De 2 de Junho de 1942 a de Agosto de 1944



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outra minha irmã. Mas com o pai a coisa é diferente.

Quando ele dá preferência à Margot, quando acha bem tudo o que ela faz e lhe dá mimos, então roo me toda

por dentro, pois o pai é tudo para mim! É o meu ideal,

e amo o como não amo a mais ninguém neste mundo.

Bem sei que ele nem se apercebe de que trata a Margot

de maneira diferente. Também não se pode negar que

a Margot é mais inteligente, mais bonita e melhor. Mas

não terei o direito de ser tomada a sério? Eles acham que

eu sou o palhaço da família e sofro duplamente por apanhar

tantos raspanetes e por ainda não conseguir compreender me

bem a mim própria. Os carinhos superficiais já

não me satisfazem, nem sequer as tais conversas chamadas

sérias. Espero do pai alguma coisa mais, que ele decerto

me poderá dar. Não que tenha inveja da Margot.

Não cubiço a sua inteligência nem a sua beleza. O que

eu queria era o amor do pai, não só como sua filha, mas

como Anne, o ente humano que sou.

Agarro me ao pai por ser ele o único que me faz conservar

o sentimento da família. Mas ele não compreende

que eu, por vezes, tenha necessidade de abrir me, de

falar sobre a mãe. O pai não quer falar dos defeitos da

mãe e esquiva se propositadamente a qualquer conversa

sobre o assunto. E, no entanto, a maneira de ser da mãe

pesa me no coração. Por vezes não consigo dominar me,

e faço lhe ver o seu desprezo, ironia e dureza. Pois, decerto,

a culpa não será sempre minha, não é verdade?

Sou em tudo o contrário da mãe e, por isso, é inevitável

que nos choquemos. Não estou a criticar o seu carácter,

pois isso não me compete. Vejo a apenas como minha mãe.

E ela não é para mim a mãe que idealizei. Parece que tenho

de ser eu própria a minha mãe. Desprendi me deles,

sigo o meu próprio caminho. Quem sabe aonde chegarei

um dia? Na minha imaginação vejo o ideal de mulher

e de mãe, mas naquela a que tenho de dar o nome de

mãe nada disso encontro.

Proponho me constantemente não reparar nos seus

defeitos, ver sòmente as suas qualidades e desenvolver

em mim o que nela procuro. Mas não é fácil, e o pior é

que nem o pai nem a mãe querem ver o que me falta

e é isto que lhes tomo a mal. Será possível que haja pais

capazes de contentarem inteiramente os filhos?

Por vezes penso que Deus quer pôr me à prova. Tenho

de me aperfeiçoar sòzinha, sem exemplo e sem ajuda, só

assim hei de ser um dia forte e resistente.

Quem, além de mim, lerá estas coisas? Quem pode

ajudar me? Necessito de ajuda e de consolo! Sou muitas

vezes fraca e incapaz de ser aquilo que gostava de ser.

Sei o e tento todos os dias, de novo, melhorar me.

Nem sempre me tratam da mesma maneira. Um dia

pertenço à classe dos adultos e posso saber tudo, e no dia

seguinte a Anne não passou de um ser inexperiente que

julga ter aprendido alguma coisa nos livros mas que, na

realidade, não sabe coisa de jeito. Ora eu não sou um

bebé nem uma boneca para os divertir. Tenho os meus

ideais, o meu modo de pensar e os meus planos, embora

ainda me falte a capacidade de traduzir tudo isto em palavras.

Ai! tantas, tantas dúvidas que se me levantam quando

estou só, à noite, ou mesmo durante o dia quando estou

encerrada com toda esta gente quejá não posso ver à minha

frente e de que estou farta até não poder mais. Eles nada

compreendem dos meus problemas. Assim, volto sempre

ao meu diário. É ele o meu princípio e o meu fim. A ti,

Kitty, nunca te falta a paciência e prometo te que hei de

aguentar. Hei de vencer a minha dor e seguir o meu

caminho. Só gostava de ter, de vez em quando, um pouco

de sucesso, de ser estimulada e encorajada, por alguém

que me tivesse amor!

Não me condenes! Por favor, compreende que, às

vezes, não posso mais!

Tua Anne.

Segunda feira, 9 de Novembro de 1942


Querida Kitty :
Ontem o pai fez anos. Teve prendas bonitas, entre outras

um aparelho para fazer a barba e um isqueiro, não porque

fume muito, mas por ser chique.

Foi o sr. van Daan que lhe fez a maior surpresa: deu lhe

a notícia de que os ingleses desembarcaram na Tunísia,

em Casablanca, na Algéria e em Orão.

 É o princípio do fim disseram todos.

Mas Churchill, o Primeiro Ministro da Inglaterra que,

decerto sabe mais disso, declarou num discurso:

  Este desembarque é uma fase importante, mas

ninguém deve convencer se que ele significa o princípio

do fim. Eu, talvez gostasse antes de dizer que significa o

fim do princípio.

Compreendes a diferença? Mas, mesmo assim, há

motivos para sermos optimistas. Estalinegrado, a grande

cidade russa, que os alemães já estão a cercar há três

meses, ainda não se rendeu.

Voltaremos agora aos assuntos quotidianos : quero

descrever te como nós, cá no anexo, nos abastecemos de

géneros. Antes de mais nada tenho de dizer te que os

"de cima" são uns gulosos terríveis. O pão é nos fornecido

por um padeiro simpático que o sr. Koophuis conhece

muito bem. Não podemos receber tanto como antigamente

em nossa casa, mas é o suficiente. Os talões de

aLimentação compram se clandestinamente. Estão cada

vez mais caros. Primeiro pagávamos por eles vinte e sete

florins e agora já custam trinta e três. Imagina, um simples

pedacinho de papel!

Para termos, além das conservas, alimentos em casa

que não se estraguem, comprámos 35 quilos de legumes

secos que pendurámos em sacos no corredor, atrás da

porta giratória. Mas com o peso as costuras rompem se e,

por isso, resolvemos levar todas essas reservas de Inverno

para o sótão. Confiámos ao Peter a tarefa de carregar

com os sacos. Ele já tinha levado cinco para o sítio e

estava prestes a carregar com o sexto quando rebentou

a costura inferior. Uma chuva, não, uma saraivada de

feijão vermelho desabou sobre a escada. Os outros, lá

em baixo (felizmente não havia estranhos no prédio),

julgavam que a casa ia ruir. O Peter apanhou um susto,

mas quando me viu a mim, ao pé da escada, coberta de

feijões que se iam amontoando no chão até acima dos

tornozelos, desatou numa grande gargalhada. Depressa começámos

a apanhar os feijões com desembaraço, mas estes são tão

pequenos e escorregadios que nos passavam pelos dedos

e desapareciam em todos os buracos e buraquinhos. Agora,

sempre que alguém sobe a escada, encontra um ou outro

feijão que entrega lá em cima à sra. van Daan.

Quase me ia esquecendo do mais importante: o pai já

está completamente bem!

Tua Anne.

P. S. Na rádio acabam de anunciar que a Algéria

caiu. Marrocos, Casablanca e Orão também estão nas

mãos dos ingleses. Agora não deve tardar a queda da

Tunísia.

Terça feira, 10 de Novembro de 1942


Querida Kitty:
Uma novidade sensacional! Vamos meter mais um

"mergulhador". Já tinhamos dito muitas vezes que ainda

havia lugar e comida para mais uma pessoa. Só o que não

queríamos era dar tanto incómodo ao Kraler e ao Koophuis.

Mas como as notícias sobre as medonhas perseguições

aos judeus se tornam de dia para dia piores, o pai resolveu

sondar as possibilidades :

Resultado : Os dois senhores ficaram logo de acordo

com a ideia. "O perigo é o mesmo para sete ou para oito",

disseram e com razão.

O problema a resolver em seguida era saber qual das

pessoas isoladas das nossas relações ligava melhor com a

nossa "família mergulhada". Não foi difícil a escolha.

Depois de o pai ter rejeitado todas as propostas do sr. van

Daan para se receber uma pessoa da sua família, optou se

por um dentista bastante conhecido,. de nome Albert

Dussel, que tem a mulher no estrangeiro. Tem fama de

pessoa agradável e tanto nós como os van Daan simpatizamos

com ele. Como a Miep também o conhece bem,

pode tratar de tudo. Se ele aceitar tem de dormir no meu

quarto no lugar da Margot que dormirá na cama sofá,

no quarto dos pais.

Tua Anne.

Quinta feira, 12 de Novembro de 1942


Querida Kitty:
O Dussel ficou muito contente quando a Miep lhe

falou de um bom esconderijo. Ela aconselhou o a vir o

mais depressa possível, de preferência depois de amanhã.

Mas ele hesitou porque ainda precisava de pôr as fichas

em ordem, acabar o tratamento de dois clientes e pôr

as contas em dia. Foi o que a Miep nos contou hoje de

manhã. Não achámos nada bem aquilo, pois qualquer

demora pode ser prejudicial. Tais preparativos podem

exigir, da parte do Dussel, explicações a pessoas que não

queríamos que desconfiassem de nada. Pedimos à Miep

que o aconselhasse a vir no sábado. Ele disse que não,

que vinha na segunda feira. É ridículo. Devia ter aproveitado

logo. Se o prenderem na rua, também não pode

pôr em dia a caixa ou acabar o tratamento dos clientes.

Quanto a mim, acho que o pai não devia ter cedido. De

resto, nada de novo.

Tua Anne.

Terça feira, 17 de Novembro de 1942


Querida Kitty:
O Dussel chegou. Tudo correu bem. A Miep tinha lhe

dito que esperasse em frente do correio geral. Pontualmente

lá apareceu. Então o sr. Koophuis, que o conhece,

foi ter com ele. Disse lhe que o senhor com quem se queria

encontrar vinha um bocado mais tarde e que ele, Dussel,

esperasse antes junto da Miep, no escritório. Koophuis

meteu se num carro eléctrico, enquanto o Dussel seguia

a pé. Chegou ao escritório às onze e meia. A Miep fez lhe

tirar o sobretudo para que ninguém visse a estrela amarela

e depois pediu lhe que esperasse no escritório particular

do sr. Koophuis.

Queria ela que a mulher das limpezas se fosse primeiro

embora. Mas, claro, o Dussel de nada sabia. Depois a

Miep levou o para o andar de cima. Disse lhe que não

podia estar mais tempo naquele escritório porque, daí

a um bocado, os chefes tinham uma reunião. O espanto

do homem foi grande quando viu a porta giratória abrir.

Ambos entraram.

Nós estávamos todos lá em cima, com os van Daan,

para receber o nosso companheiro com café e conhaque.

Entretanto a Miep fê lo entrar na nossa sala de estar.

Ele reconheceu logo a mobília, mas, mesmo assim, não suspeitou

que estivéssemos tão próximos. Quando a Miep

lhe disse ficou de boca aberta, e ela nem lhe deu tempo

de a fechar: fê lo subir imediatamente a escada.

O Dussel deixou se cair numa cadeira, cravou os olhos

em cada um de nós e não quis acreditar no que viu.

Depois começou a balbuciar:

  Mas... não... mas então, não estão na Bélgica?

O tal oficial não os veio buscar? E o automóvel? Não

foram bem sucedidos na fuga?...

Explicámos lhe que nós próprios tínhamos feito constar

a história do oficial para despistar as pessoas, em especial

os alemães, que podiam andar à nossa procura. O

Dussel ficou varado com tanto engenho e mais varado ainda

ficou quando se meteu a esquadrinhar todo o nosso esconderijo

tão bem imaginado e tão bem montado. Comemos

todos juntos. Depois ele deitou se um bocado, tomou

o chá connosco e pôs nos devidos lugares as suas coisas,

que tinham trazido antes de ele chegar. Depressa se sentiu

como em sua casa, sobretudo depois de lhe terem

sido entregues os regulamentos do anexo (o plano foi

feito pelo sr. van Daan).
Prospecto e guia do anexo
Fundação criada propositadamente para a estadia

provisória de judeus e outros que tais.

Aberta todo o ano

Belamente localizada, calma, com arredores sem florestas

no coração de Amesterdão. Acessível pelas linhas

19 e 17; de automóvel ou bicicleta; e a pé para aqueles

a quem os alemães proibiram o uso de qualquer veículo.

Renda Gratuita.

Cozinha de dieta sem gorduras

Água corrente

No quarto de banho (sem banheira) e, infelizmente,

também em várias paredes.

EspaÇo largo reservado a bens de toda a espécie.

Central de rádio, com emissões directas de Londres,

New York, TelAviv e muitas outras estações. O aparelho

está à disposição dos habitantes das seis horas da tarde

em diante.

Horas de repouso: Das dez horas da noite às sete e trinta da manhã. Domingo até às dez horas. Atendendo a certas circunstâncias, também se intercalam outras horas de repouso, conforme indicações da Direcção. Estas indicações devem ser

rigorosamente seguidas, no interesse da segurança comum!!!

Até novas ordens não há.

em surdina!

Todos os dias.

Uma lição de estenografia por semana. Inglês, Francês

e Matemática a qualquer hora do dia.

Pequeno almoço todos os dias, com excepção de domingos

e feriados, pontualmente às nove horas.

Almoço: da 1 e 15 à 1 e 45. Jantar: frio ou quente, não

tem horas fixas devido às notícias da rádio.

A "Celha" está à disposição dos habitantes todos os

domingos desde as nove horas. Pode tomar se banho no

W.C., na cozinha, no escritório particular ou no outro

escritório, conforme o gosto de cada um.

Bebidas alcoólicas fortes Só permitidas por ordem médica.

Tua Anne.

Quinta feira, 19 de Novembro de 1942
Querida Kitty:
Não estamos desapontados. O Dussel é de facto um

homem simpático. Para dizer com franqueza, não acho

lá muito agradável que um estranho se sirva das minhas

coisas no quarto, mas, para fazer uma boa acção, toda a

gente se deve sacrificar. Nada importa se pudermos salvar

alguém, diz o pai, e tem toda a razão.

Logo no primeiro dia o Dussel perguntou me uma

série de coisas, por exemplo, quais eram as horas da mulher

da limpeza, e quais as do W. C. e onde me parecia a mim

o melhor sítio para se tomar banho. Não te rias, Kitty,

mas no esconderijo todas estas coisas são importantes.

Estão tantas vezes pessoas lá em baixo que não conhecem

o segredo! É necessário saber bem as horas de trabalho

delas para não fazermos barulho. Já expliquei tudo isto

ao Dussel, mas fiquei pasmada por ele ser tão lento.

Pergunta as coisas duas vezes e mesmo assim não as fixa.

Talvez ainda esteja um pouco atrapalhado, a surpresa

foi muito grande, e é natural que ele se tenha de adaptar.

O Dussel tem nos contado muitas coisas do mundo

exterior, de onde partimos há tanto tempo. Tudo que

conta é triste. Inúmeros amigos e conhecidos foram levados

das suas casas e um destino terrível os espera. Noite após

noite os automóveis cinzentos e verdes dos militares

atravessam as ruas a toda a velocidade. Os "verdes (a SS

alemã) e os "pretos" (a Polícia Nazi holandesa) procuram

os judeus. Se encontram algum, levam no, e a toda a

família. Tocam, por exemplo, numa porta e se não encontram

lá nenhum judeu, tocam na do vizinho e assim por

diante. Por vezes, andam com listas de nomes e procuram

os "marcados" sistematicamente. Só consegue escapar lhes

quem "consegue fugir" a tempo. Por vezes aceitam um

resgate, mas são poucos os que conseguem escapar.

Fazem, hoje, o que há muitos anos foi feito com os

escravos. Maltratados, torturados, mortos enfim. O que

aconteceu com eles, nos tempos antigos, está hoje a

acontecer com os judeus.

Não poupam ninguém, homens, mulheres, velhos, crianças.

E nós aqui tão bem guardados! Podiamos fechar os olhos a toda

esta miséria, mas estamos sempre

em aflição por aqueles que nos são caros e a quem não

podemos dar uma ajuda.

Quando estou deitada na minha cama, cama tão quente

e confortável, enquanto as mais queridas amigas sofrem

lá fora, talvez expostas ao vento e à chuva, mortas até,

sinto me quase má. Tenho medo ao pensar em todas as

pessoas às quais tanta coisa me liga e ao lembrar me de que

estão entregues aos mais cruéis carrascos que a história

dos homens já conheceu. E tudo isto só por serem judeus!

Tua Anne.

Sexta feira, 20 de Novembro de 1942


Querida Kitty:
Estamos todos um pouco desconcertados. Até agora

só recebíamos de longe em longe notícias sobre os judeus.

E daí, talvez fosse melhor assim. Quando a Miep por vezes

falava do destino trágico de pessoas nossas conhecidas, a

mãe e a sra. van Daan punham se logo a chorar, de modo

que ela achou melhor não contar mais nada. Mas fizemos

muitas perguntas ao Dussel e o que ele conta é medonho,

é bárbaro. Não se consegue pensar em outra coisa. Será

possível que alguma vez mais possamos sair e divertir nos

como outrora, mesmo quando tudo isto tiver passado?

Mas a verdade é que se transformarmos o nosso esconderijo

numa casa de luto, se ficarmos sempre melancólicos, não

adiantamos nada, nem para nós nem para os que lá fora

sofrem. Não posso fazer coisa nenhuma sem pensar naquela

gente que partiu. Se dou comigo a rir despreocupadamente,

assusto mA e acho me injusta por estar alegre. Mas hei de

chorar todo o dia? Não, não posso. E o desânimo decerto

passará. Allém destas misérias, há outra coisa desagradável,

assunto pessoal e que, já se vê, nenhuma importância tem

comparado às tragédias de que acabo de falar: quero dizer

que me irrito tão só ùltimamente! Sinto um vácuo enorme

dentro de mim. Antigamente não pensava muito nisto.

Os divertimentos e as amizades prendiam me o tempo.

Mas agora preocupam me problemas sérios. Reconheci,

por exemplo, isto: o pai, embora me seja tão querido, não

pode substituir todo o meu mundo de outrora.

Achas me ingrata, Kitty? Por vezes tenho a impressão

de não poder suportar mais: ouvir todas estas coisas

horríveis, ter as minhas próprias dificuldades e ainda por

cima ser o bode expiatório para tantas coisas que acontecem!

Tua Anne.

Sábado, 28 de Novembro de 1942


Querida Kitty:
Gastamos electricidade de mais, ultrapassamos os limites.

Temos de fazer economia, caso contrário cortam nos a

corrente e estaremos quinze dias sem luz. Das quatro e

meia em diante não podemos ler mais. Matamos então o

tempo com várias distracções : adivinhas, ginástica, falar

inglês ou francês ou sobre os livros que acabamos de ler...

Com o tempo tudo se torna monótono. Descobri uma coisa

nova: com o binóculo posso espreitar para os quartos

iluminados dos vizinhos da frente. Durante o dia não

podemos abrir as cortinas nem um centímetro, mas à

noite já pode ser. Eu antes nunca sabia que os vizinhos

são pessoas tão interessantes. Observei alguns enquanto

comiam; numa outra família passavam um filme e o dentista,

mesmo em frente, estava a tratar uma velhinha

cheia de medo.

A propósito de dentista! O sr. Dussel, de quem se dizia

saber lidar tão bem com crianças e gostar muito delas,

revela se um bota de elástico. A cada passo faz sermões

sobre boas maneiras e bom comportamento. Como sabes,

tenho a pouca sorte de partilhar o quarto com este senhor

tão "respeitável" e, como sou tida como a mais mal educada

dos três jovens daqui, ele dá me que fazer e por vezes

nem sei como escapar a tantas descomposturas e avisos.

Olha, faço me surda! Mas tudo isto ainda se suportava

se o homem não fosse um "denunciante" de grande categoria

e se não tivesse escolhido precisamente a mãe para as suas

reclamações. Assim, recebo primeiro uma ensaboadela dele,

depois a mãe junta outra e, se estou com sorte, a sra. van

Daan também mete o bedelho para me censurar.

Ai! Kitty, não é fácil ser se a pessoa mais mal educada ou antes: o pára raios de uma família "mergulhada"

sempre a criticar e a educar! à noite, na cama, quando

passo em revista todos os meus pecados e todos os defeitos

que me são atribuídos, perco me nessa abundância de

queixas e, quase sempre, começo a chorar... ou a rir,

conforme a disposição. Depois adormeço com a ideia tola

de querer ser diferente do que sou ou de que não sou como

queria ser e de que faço tudo ao contrário. Queria agir

de outra maneira e não ser como sou. Santo Deus! Agora

estou a baralhar tudo, não te zangues! Mas não risco o

que está escrito e rasgar a folha também não posso, porque

há grande falta de papel. Seria mesmo pecado! Assim

só te posso aconselhar a não voltares a ler a última frase

nem tentares aprofundá la, que és capaz de não conseguir

voltar à superfície!

Tua Anne

Segunda feira, 7 de Dezembro de 1942


Querida Kitty :
Chanuca e São Nicolau coincidem quase este ano.

O Chanuca festejámo lo apenas com as velas, mas como

estas são agora uma preciosidade só as acendemos durante

dez minutos. As velas acesas e nós a cantarmos a canção

de Chanuca! O sr. van Daan construiu um lindo candelabro.

O São Nicolau, no sábado, ainda foi mais lindo.

A Elli e a Miep vinham para cima cochichar com o pai

e, assim, andávamos todos muito curiosos, pois compreendíamos

que estavam a preparar alguma surpresa. E, de

facto, às oito horas descemos a escada, através do corredor

escuro (arrepiei me toda; tinha medo de não voltar inteirinha), para o escritório, no outro andar. É um quarto

sem janelas e, assim, podíamos acender a luz. O pai abriu

o armário e todos exclamaram: "Que lindo!" No centro

estava um grande cesto, enfeitado com papéis coloridos,

e guarnecido simbòlicamente com a máscara do Pedro,

o negro. Transportámos o cesto para cima. Cada um

recebeu as suas prendas acompanhadas de uma quadra.

Tenho a certeza de que conheces bem esse género de

poemas e, por isso, não os vou aqui transcrever. Recebemos:

eu um "Pieferkuchen" enorme, em forma de

boneca; o pai, suportes para livros; a mãe, um calendário;

a sra. van Daan, uma bolsa para o pano do pó; o sr. van

Daan um cinzeiro... Todos os presentes tinham sido bem imaginados e, como festejávamos o S. Nicolau pela primeira

vez, achámos a nossa estreia bem sucedida.

Também demos prendas aos nossos amigos lá de baixo,

coisas que tínhamos ainda dos velhos tempos. Disseram nos

hoje que o sr. Vossen fez com as próprias mãos o cinzeiro

para o sr. van Daan e os suportes para o pai. Acho admirável

alguém fazer coisas tão bonitas.

Tua Anne


Quinta feira, 10 de Dezembro de 1942
Querida Kitty:
O sr. van Daan negociava, noutros tempos, em carnes

frias, salsichas, chouriços e outras especialidades. A firma

contratou o por ser um comerciante muito hábil e experiente. E agora ficámos maravilhados aqui com a sua

perícia de salsicheiro.

Encomendámos, no mercado negro, já se vê, carne

para fazer conservas para os tempos difíceis. É engraçado

ver a carne passar pela máquina, duas ou três vezes.



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