O diário de Anne Frank De 2 de Junho de 1942 a de Agosto de 1944



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Depois juntam se os temperos, mistura se tudo bem e,

por fim, enchem se as tripas com aquela massa. Comemos

ao almoço chucrute com salsicha fresca! Os chouriços

defumados têm de secar bem e, por isso, enfiámo los numa

vara suspensa do tecto. Sempre que alguém entra no quarto

e vê os chouriços a bambolear não pode deixar de rir.

É uma exposição patusca.

Havia uma tremenda desordem no quarto. O sr. van

Daan (com um avental da esposa), todo gorducho, mais

gorducho ainda do que de costume, tratava da carne.

Parecia mesmo um carniceiro com as mãos cheias de

sangue, a cara afogueada e o avental sujo. A sra. van Daan

quer fazer mil coisas ao mesmo tempo: estudar holandês

por um livro, remexer a sopa, examinar a carne com que

o marido trabalha e ainda ter tempo para se queixar da

sua costela partida.

Bem feito! Quem é que manda as senhoras entradotas

e vaidosas fazer ginástica tola, só porque não querem ter

um traseiro gordo?

O Dussel tinha um olho inflamado e estava junto do

fogão a fazer compressas. O pai, sentado na cadeira, procurava

aproveitar os magros raios do Sol. Julgo que tenha dores de reumatismo, estava todo encolhido e seguia com

olhos infelizes o trabalho do sr. van Daan. O Peter andava

a correr pelo quarto atrás do gato, que se chama Mouchi.

A mãe, a Margot e eu descascávamos batatas. Fazíamo lo

automàticamente, porque estávamos a contemplar, fascinadas,

a actividade do sr. van Daan.

O Dussel inaugurou o consultório de dentista. Vais te

divertir ao saber da primeira consulta. A miep estava a

passar a ferro enquanto a sra. van Daan fez de primeira

cliente. Estava sentada numa cadeira, no meio do quarto,

enquanto o Dussel tirava cerimoniosamente todos os

seus instrumentos. Pediu água de colónia para desinfectar

e vaselina para substituir a cera. Depois olhou para dentro

da boca da sra. van Daan. Tocou lhe num dent molar,

escabichou o a seguir com um ferrinho, o que a fazia

estremecer e gemer sem nexo, como se estivesse a morrer

de dores. Depois de um exame sem fIm   pelo menos na

opinião da doente, pois na realidade só tinham passado dois

minutos   o Dussel queria começar a chumbar um dente.

Mas isso sim! A sra. van Daan defendeu se com braços e

pernas, de tal maneira que o Dussel teve de largar o gancho

com que estava a limpar o buraquinho. O gancho lá

ficou espetado no dente. Havias de ver! A senhora

agitava se para um lado e para o outro, tentava tirar o gancho

mas só conseguia enterrá lo ainda mais. O Dussel não se

comovia. De mãos nos bolsos observava o espectáculo.

E nós, os outros espectadores, a rir. Não o devíamos

ter feito. Fomos velhacos! com certeza eu também me

teria portado assim e teria gritado quanto pudesse.

Depois de muito esforço, suspiros e gemidos, a sra. van Daan

tirou o ferro, e o Dussel retomou o seu trabalho como se nada tivesse acontecido. Tão depressa manejou os instrumentos, que

a senhora não teve tempo para mais brincadeiras. Mas

suponho que ele nunca teve na sua consullta ajudantes

tão prestáveis. O sr. van Daan e eu éramos os assistentes

e agora imagino tudo aquilo como um quadro da Idade

Média: "charlatães a trabalhar". Por fim a paciência da

senhora esgotou se. Disse que tinha aora de olhar pela

comida. Uma coisa é certa: tão cedo não voltará ao

dentista.

Tua Anne


Querida Kitty :
Sentada confortàvelmente à janela do escritório grande,

estou a observar, através de meia fenda da cortina, o que

se passa lá fora. Anoitece, mas ainda consigo ver o bastante

para te escrever.

É curioso ver as pessoas a correr! Parece que estão com

pressa, quase que tropeçam nos seus próprios pés. Os

ciclistas passam numa velocidade tal que não consigo

distinguir as mulheres dos honens.

Este quarteirão é de gente do povo e a maioria tem

aparência pobre. As crianças andam tão sujas que eu só

me atrevia a tocar lhes com tenazes. São autênticos garotinhos

e falam um dialecto que quase não se compreende.

Ontem, quando a Margot e eu estávamos aqui a tomar

banho, ocorreu me uma ideia: se pudéssemos pescar

algumas daquelas crianças, pela janela e com um anzol,

dar lhes um banho, vesti las e dar lhes depois novamente

a liberdade...

 Amanhã estariam sujas na mesma interrompeu me

a Margot.

Há mais coisas para ver: automóveis, barcos e a chuva.

Oiço o ruído do carro eléctrico e ponho me a imaginar as

mais variadas coisas. Como nós aqui não temos estímulos,

os nossos pensamentos também pouco variam. Dos judeus

passa se à comida, da comida à política, da política... mas

já que falo de judeus: ontem, ao espreitar pela cortina, vi

dois judeus. É uma sensação estranha, quase como se eu

os traísse e estivesse aqui para espionar a sua infelicidade.

Precisamente em frente desta casa há um barco habitado

por um pescador com a família. Eles têm um cãozinho

que já conhecemos pelo ladrar e cujo rabo se vê quando

ele corre ao longo da borda do barco.

Agora chove a cântaros e as pessoas escondem se debaixo dos guarda chuvas. Só vejo impermeáveis e por vezes também um capuz.

Mas não preciso de ver mais, porque já as conheço

bem, àquelas mulheres metidas nos seus casacos vermelhos

ou verdes, com os tacões tortos, uma bolsa gasta debaixo

do braço, os corpos inchados por comerem batatas de mais

e outras coisas de menos. Uma traz a infelicidade estampada

no rosto, outra parece feliz, mas isto decerto depende

do bom ou do mau humor dos seus maridos.

Tua Anne.

Querida Kitty:
Com grande satisfação, soubemos no anexo que cada

um de nós terá para o Natal meio quarto de manteiga, fora

a do racionamento. Oficialmente recebe se um meio quilo,

mas isto é para os mortais felizes que vivem lá fora, na

liberdade. Gente "mergulhada como nós que, com oito

cartões de racionamento, só pode comprar as mercadorias

para quatro pessoas, já fica radiante com tão pouco!

Cada um de nós quer fazer doces com a sua manteiga.

Eu farei bolachas e duas tortas. Temos muito que fazer

e a mãe disse que não me deixava ler nem estudar enquanto

não tivesse acabado as minhas obrigações domésticas.

A sra. van Daan está na cama,por causa da costela

partida: lamenta se todo o dia, temos de a atender e de

lhe mudar as compressas, mas ela nunca está satisfeita.

Só queria que já estivesse outra vez a pé e tratasse sòzinha

das suas coisas. Mas tenho de lhe fazer justiça: ela é muito

trabalhadeira e quando se sente bem, moral e fisicamente,

chega a ser mesmo uma pessoa divertida.

Todo o santo dia advertiram me com os "chut chut",

pois, pelos vistos, sou demasiadamente barulhenta, e, como

se ainda não bastasse, o meu companheiro de quarto

resolveu lançar me também, durante a noite, os "chut chut".

Nem sequer admite que me vire na cama. Faço

de conta que não dou por nada, mas qualquer dia hei de

retribuir lhe uns "chuts". Aliás, aos domingos, ele dá me

cabo da paciência. Acende a luz muito de madrugada

para fazer ginástica. Aquilo parece me que dura horas e

como ele está sempre distraído, dá constantemente contra

as cadeiras que servem para prolongar a minha cama.

Por fim acordo mesmo de todo. Mas como ainda não

tenho dormido bastante, queria adormecer de novo.

Depois de ter percorrido os caminhos da força e da beleza", ele começa a fazer a toillete! As cuecas estão penduradas

num gancho. Portanto vai até lá e volta. Mas, já se vê,

esqueceu se da gravata em cima da mesa. Lá vai ele para

lá, para cá, esbarrando com as cadeiras. E pronto!

Acabou se o meu descanso dos domingos!

Mas valerá a pena a gente queixar se de homens

velhos e esquisitos? Por vezes dá me na gana pregar lhe

uma partida: fechar a luz, desaparafusar a lâmpada e

esconder lhe as roupas. Mas não o faço, por amor da

santa paz.

Ai! Como estou a ficar ajuizada. Aqui é preciso ter se

juízo a cada passo: para não responder, para cumprir as

ordens, para ser sempre amável, prestável, transigente e

sabe Deus o que mais! Estou a abusar do meu juízo que,

já por si, não vai longe, e receio que não me sobre nenhum

para depois, para quando a guerra acabar.

Tua Anne.

Quarta feira, 13 de Janeiro de 1943
Querida Kitty:
Hoje estamos todos perturbados, não conseguimos fazer

nada com calma. As notícias lá de fora são horríveis. Dia

e noite arrastam a pobre gente das suas casas. Só deixam

levar o que cabe na mochila e algum dinheiro (mas este

tiram lho mais tarde). Separam as pessoas em três grupos,

homens, mulheres e crianças. É vulgar voltarem as crianças

da escola e já não encontrarem os pais, ou voltarem as

mulheres das compras e darem com a casa selada. O resto

da família já foi deportada.

Nos círculos cristãos também já reina o desassossego.

Os jovens são enviados para a Alemanha. Toda a gente

tem medo!

E durante as noites, centenas de aviões sobrevoam a

Holanda, para lançarem uma chuva de bombas na Alemanha.

A cada hora tombam homens na Rússia e na

África. A Terra enlouqueceu, há destruição por toda a

parte. A situação melhorou para os Aliados, mas o fim

de tudo isto ainda está longe.

Nós aqui estamos bem, melhor de que milhares de

outras pessoas. Estamos em segurança e podemos fazer

planos para os tempos do pós guerra. Podemos pensar

nos vestidos e nos livros que havemos de comprar em vez

de estarmos sempre preocupados com cada tostão que

se gasta inùtilmente e que podia servir para ajudar os

outros, ou com aquelas coisas que se perderam e talvez

ainda se pudessem salvar.

Há crianças, cá no quarteirão, que andam de blusinhas

leves, de socos e sem meias, sem sobretudos, sem

boinas ou luvas. Têm o estômago vazio, mastigam cenouras,

fogem das casas frias para as ruas húmidas e ventosas, e estudam em escolas sem aquecimento. Mais: as crianças

pedem pão às pessoas que passam! Chegaram até este

ponto as coisas na Holanda! Ouço falar durante horas a

fio sobre a miséria que esta guerra trouxe e fico cada

vez mais triste. Não temos outro remédio senão esperar,

calma e serenamente, o fim de tanta infelicidade. Esperam

os judeus, esperam os cristãos. Esperam os povos de todo

o Mundo... mas muitos esperam pela morte!

Tua Anne.

Domingo, 30 de Janeiro de 1943
Querida Kitty:
Estou com uma raiva que nem podes fazer ideia. Mas

não a posso dar a conhecer a ninguém. Gostava de bater

com os pés, gritar, sacudir a mãe e não sei o que mais.

E isto por causa das palavras zangadas, dos olhares irónicos,

das acusações que contra mim são lançadas todos os

dias, como setas de um arco muito esticado. Gostava de

gritar lhes, à mãe, à Margot, ao Dussel e aos van Daans:

Deixem me em paz! Então não me deixam passar uma

única noite sem molhar o travesseiro de lágrimas? Não

posso adormecer uma única vez sem que os meus olhos

ardam e a cabeça me pese centenas de quilos? Deixem me!

Queria me ir embora, embora deste Mundo!

Mas para que serviria? Eles nada sabem do meu desespero!

Nada sabem das feridas que me fazem! Já não suporto

por mais tempo a compaixão e a ironia deles. Só queria

mas era chorar!

Acham me exagerada quando abro a boca, ridícula

quando me calo, malcriada quando dou uma resposta,

manhosa quando tenho uma boa ideia, preguiçosa quando

estou com sono, egoísta quando me sirvo mais um tudo

nada, estúpida, covarde, interesseira, etc., etc... Todo

o dia tenho de ouvir que sou uma criatura insuportável,

e podes crer: embora me ria ou finja não ligar importância,

nada daquilo me é, em boa verdade, indiferente.

Bem eu queria pedir a Deus uma outra natureza que

não irritasse tanto os outros. Mas é impossível. E, de resto,

se sou assim, sinto, no entanto, que não sou má. Faço

muito mais esforços para lhes agradar a todos do que eles

imaginam. Rio me com eles só para não lhes mostrar a

minha dor íntima. Mais de uma vez, quando discutia com a mãe e ela era injusta para comigo, bradava lhe: "tanto se me dá como se me deu, do que estás para aí a dizer. O melhor é não te preocupares mais comigo, sou um caso perdido".

Dizem que sou malcriada e não "fazem caso de mim

durante dois dias". E de repente tudo me é perdoado e

esquecido. Mas eu é que não posso ser um dia muito simpática

e carinhosa com alguém, para o odiar logo no dia

seguinte. Prefiro não me aproximar dos extremos, guardar

os meus pensamentos e fazer os possíveis para tratar as

pessoas com o mesmo desdém com que me tratam a mim.

Ai! se eu fosse capaz disso!

Tua Anne

Sexta feira, 5 de Fevereiro de 1943


Querida Kitty:
Há bastante tempo que não te tenho falado das nossas

encrencas mas não penses que alguma coisa se tenha

modificado. Ao princípio o sr. Dussel incomodava se bastante

com as várias discussões que ouvia. Depois acostumou se

e agora já faz tentativas para servir de medianeiro.

A Margot e o Peter nem parecem jovens de verdade,

são ambos monótonos e calmos. Claro, eu faço um grande

contraste com eles e, por isso, ouço continuamente :

 Olha a Margot e o Peter, eles eram incapazes de

fazer tais coisas!

Que maçada! E, já agora, vou confessar te uma coisa :

não quero de maneira nenhuma ficar como a Margot.

A meu ver é demasiado transigente e insípida, deixa se

influenciar por toda a gente, cede sempre. Então não

há de a gente ter a sua opinião! Mas estas teorias não as

confio a mais ninguém. Não quero que se riam de mim.

à mesa reina muitas vezes uma atmosfera pesada que só

se alivia quando um ou outro hóspede come em nossa

casa falo das pessoas do escritório, que vêm comer um

prato de sopa connosco.

Hoje, ao almoço, o sr. van Daan verificou mais uma

vez que a Margot não come o suficiente. "Se calhar por

causa da linha", rematou, em tom irónico, o seu discurso.

A mãe que tira sempre as castanhas do lume para a Margot

disse muito alto :

 Estou farta do seu palavriado!

A sra. van Daan ficou vermelha como um pimento e

ele pôs se a olhar para o chão, embaraçado.

Muitas vezes rimo nos uns com os outros. Há pouco, a sra. van Daan contou coisas engraçadas dos vários "flirts"

que teve e como se entendia bem com o seu pai.

"Se algum homem ousar ser atrevido para contigo

deves dizer lhe: "Meu senhor, sou uma senhora". Ele

desistirá logo", aconselhava lhe o pai.

Rimo nos como se nos tivesse contado uma anedota

formidável.

O Peter, geralmente muito calado, diverte nos de vez

em quando. Tem o fraco das palavras estrangeiras cujo

significado raras vezes conhece e o resultado é uma linda

baralhada. Certo dia, quando no escritório particular

havia visitas e não nos era permitido utilizar o W.C.,

Peter sentiu uma necessidade terrível. Foi mesmo lá, mas

não puxou o autoclismo. Queria avisar nos disto e colou na

porta do W..C. um papel com as palavras : "Sívelil vous

plait, cheirete!". O que ele queria dizer era: "Cautela,

cheirete!". Achou a expressão "sívelil vous plait" muito distinta

e não fazia ideia nenhuma de que ela se traduz

por "faz o favor".

Tua Anne


Sábado, 27 de Fevereiro de 1943
Querida Kitty:
Esperamos a invasão de um dia para outro. Churchill

teve uma pneumonia, mas já está quase bom. Gandhi, o

libertador da Índia, já fez, não sei quantas vezes, a greve

da fome.


A sra. van Daan disse ser fatalista. Mas sabes quem

tem mais medo quando caem as bombas? Claro que é

ela, a D. Petronella!

O Henk trouxe nos a pastoral dos bispos que foi lida

em todas as igrejas. É grandiosa e incita as pessoas: Não

vos caleis, holandeses! Cada um tem que lutar com as suas

armas pela liberdade do povo, pela pátria e pela religião!

Ajudai, não hesiteis! Foi assim que falaram. Servirá para

alguma coisa? Aos nossos correligionários com certeza

não serve para nada.

Imagina o que aconteceu. O senhorio, sem avisar o sr.

Koophuis ou o sr. Kraler, vendeu a casa. Uma manhã

apareceu o novo proprietário com um arquitecto.

Queriam ver a casa. Graças a

Deus o sr. Koophuis estava presente e mostrou tudo

aos senhores, menos o anexo.

Disse lhes que deixara as chaves da porta em casa. Os

senhores não insistiram. Oxalá não voltem para o anexo.

Seria a nossa desgraça.

O pai deu nos um ficheiro com fichas novas. Serve nos,

a mim e a Margot, para os livros que já lemos. Registámo los

não só pelo autor e título mas também com as

nossas observações. Para as palavras estrangeiras e os

ditos arranjei um caderno especial.

Ultimamente dou me melhor com a mãe. Mas nunca

seremos verdadeiras confidentes uma da outra. A Margot

está mais impertinente do que nunca, e o pai está muito preocupado com qualquer coisa. Mas ele é e será o melhor de todos!

Novas rações de manteiga e de margarina. Cada um

recebe a sua parte do dia num pratinho. Parece me que

a distribuição quando está ao cargo dos van Daans não

corre lá com grande honestidade, mas os meus pais estão

fartos de zangas e, por isso, calam se. É pena. A meu

ver, devíamos pagar lhes na mesma moeda.

Tua Anne


Quarta feira, 20 de Março de 1943
Querida Kitty:
Ontem à noite houve um curto circuito. E ainda por

cima o barulho infernal dos canhões da defesa. Não sou

capaz de me habituar às bombas e aos aviões. Tenho

medo e quase sempre fujo para a cama do pai. Se calhar

achas me muito criança, mas só queria que assistisses!

Não ouvimos as nossas próprias palavras, tanto é o barulho

dos canhões. A sra. van Daan, a fatalista, estava quase a

chorar e disse, toda enfiada :

 Acho um horror dispararem tanto.

Não queria isto dizer : tenho muito medo!? De dia a

coisa não me aflige tanto. Gritei como se tivesse febre

e supliquei ao pai que acendesse a vela. Mas ele não

se comoveu e continuámos às escuras. Então começou

o ruido das metralhadoras, que acho pior ainda do que

o dos canhões. A mãe saltou fora da cama e, com desgosto

do pai, acendeu a vela. Ao seu protesto respondeu resolutamente :

 Mas a Anne não é um velho soldado como tu!

E acabou se! Já te falei dos ataques da sra. van Daan?

Tens que saber tudo o que se passa no anexo. Certo dia

ela ouviu passos pesados no sótão. Pensou que eram ladrões.

Ficou tão cheia de medo que acordou o marido. No mesmo

instante o ruido terminou, o sr. van Daan só conseguiu

ouvir bater o coração da fatalista.

Ai! Putti: (é como ela chama o sr. van Daan) se calhar

roubaram os chouriços e os feijões. E que terão feito ao

Peter?


 Não roubaram o Peter, não te aflijas! E deixa me

dormir.


Mas isso sim!

Como ela não conseguia adormecer, também o não

deixava a ele.

Algumas noites depois, a família van Daan acordou

com um barulho esquisito. O Peter subiu para o sótão

com a sua lâmpada de mão e quando a acendeu viu

fugir um bando de ratazanas. Agora sabíamos quem eram

os ladrões, e pusemos o Mouchi a dormir no sótão. Os

. hóspedes indesejáveis, pelo menos durante a noite, não

voltaram mais. Mas há poucos dias o Peter teve de ir ao

sótão (eram sete e meia e ainda dia) para buscar alguns

jornais velhos. Ao descer a gente tem de agarrar se à saída.

Ao pousar a mão ia caindo pela escada abaixo. Uma

ratazana mordeu o no braço. Quando chegou cá em

baixo e de que maneira! tinha o pijama cheio de sangue,

estava branco como cal e mal se aguentava nas pernas.

Não admira, pois ser se mordido por uma ratazana sem

contar é horrível, e ainda por cima uma mordedura

daquelas... Chega a ser infívelame!

Tua Anne.

Sexta feira, 12 de Março de 1943
Querida Kitty:
Posso apresentar ta: a mamã Frank, defensora da juventude,

reclama manteiga suplementar para a gente nova.

Luta pelos problemas dos jovens modernos. Luta pela

Margot, por mim e pelo Peter, e depois de grandes discussões

consegue sempre o que pretende.

Estragou se um frasco de língua de conserva. Resultado:

Jantar de gala para o Mouchi e o Bochi. É verdade, tu

ainda não conheces o Bochi. Dizem que já estava no

imóvel antes de chegarmos nós, os "mergulhadores". Agora

é o gato do armazém e do escritório e afasta os ratos.

O seu nome político explica se fàcilmente. Antes, a casa

tinha dois gatos : um para o armazém, outro para o sótão.

Quando os dois se encontravam havia sempre luta. Infalivelmente

o do armazém é que começava, mas o do sótão

é que vencia. E, por isso, foram baptizados : o do armazém

era o alemão ou o Bochi, o do sótão, o inglês ou o Tommy.

O Tommy desapareceu e o Bochi é a nossa distracção

quando vamos para baixo.

Comemos tantas vezes feijão branco que já não posso

vê lo à minha frente e fico enjoada só de pensar nele.

Ao jantar já não temos pão.

O pai acaba de dizer que está preocupado com vários

assuntos. Tem olhos tristes, o pobre!

Ando maluca com o livro De Ylop op de Deur, de Ina

Boudier Bakker. É o romance de uma família, extraordinário

nas descrições. As passagens que tratam da guerra,

dos problemas da mulher, dos escritores, não os acho

tão bem; com toda a franqueza, são assuntos que me

interessam pouco.

Bombardeamentos sobre a Alemanha. O sr. van Daan

anda de mau génio por não haver cigarros.

O problema de se havíamos de comer já ou não os

legumes de conserva resolveu se a nosso favor. Além das

minhas botas de ski, já não me servem nenhuns sapatos

e as botas são bastante incómodas em casa. Umas sandálias

de palha entrançada duraram uma semana, e acabou se.

Pode ser que a Miep encontre qualquer coisa no

mercado negro. Agora tenho de cortar o cabelo ao Pim.

Disse ele que, mesmo depois da guerra não pode voltar

ao cabeleireiro, por eu o servir tão bem, embora eu

o corte tantas vezes na orelha!

Tua Anne


Quinta feira 18 de Março de 1943
Querida Kitty:
A Turquia entrou na guerra... Estamos impacientes pelas notícias da rádio.

É mesmo assim que a rádio transmite este repugnante

teatro de marionetas. Dá quase a ideia de que os soldados

têm orgulho das suas feridas: mais e melhor:

Um deles a quem o Führer consentiu em apertar a



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