O diário de Anne Frank De 2 de Junho de 1942 a de Agosto de 1944



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mão caso ainda tivesse alguma nem conseguiu falar.

Tua Anne

Sexta feira, 19 de Março de 1943


Querida Kitty:
à alegria seguiu se uma decepção muito maior. Afinal

a Turquia ainda não entrou na guerra. O Ministro do

Exterior só apelou no seu discurso para que cessasse a

neutralidade. O vendedor dos jornais no "Pan" tinha

gritado :

"A Turquia está do lado dos ingleses".

Assim nasceu o boato e chegou até nós.

As notas de 500 e 1000 florins vão deixar de ter valor.

Os negociantes do mercado "negro" e os possuidores de

dinheiro "negro" vão se ver em maus lençóis, mas o problema

é também grave para as pessoas "mergulhadas".

Quando se quer trocar uma nota de mil florins é se obrigado

a declarar e a provar donde ela vem. Para já, mas

só até ao fim da próxima semana, ainda estas notas podem

ser utilizadas para pagamento dos impostos.

O Dussel recebeu a sua broca de mão e, em breve,

vai examinar os meus dentes.

O "Führer" de todos os germânicos falou perante os

seus soldados feridos e depois "conversou" ainda com eles.

Que tristeza ouvir aquilo! Um exemplo:

 Meu nome é Heinrich Scheppel!

 Onde ficou ferido?

 Diante de Estalinegrado.

 Que feridas tem?

 Perdi os dois pés por causa do frio e fracturei o

pulso esquerdo!

Tua Anne.

Quinta feira, 25 de Março de 1943


Querida Kitty:
A mãe, o pai, a Margot e eu estávamos ontem muito

bem dispostos quando entrou o Peter e segredou qualquer

coisa ao pai. Ouço: "Entornou se um barril no armazém"

e "alguém tentou abrir a porta".

A Margot também ouviu, mas fez os possíveis para

me acalmar, pois eu estava branca como a cal quando o

pai saiu do quarto com o Peter. Ficámos os três à espera,

mas dois minutos depois apareceu a sra. van Daan que

tinha estado no escritório particular a ouvir rádio. O pai

pedira lhe que fechasse o rádio e que saísse sem fazer

ruído. Mas quando a gente quer ter muita cautela, ainda

é pior. E ela disse que os degraus da velha escada tinham

rangido medonhamente debaixo dos seus pés. Mais cinco

minutos... O pai e o Peter voltaram, ambos pálidos até

à raiz dos cabelos. Contaram nos o que se passava: sentados,

lá em baixo, puseram se à escuta, mas primeiro, não

ouviram nada. Depois, de repente ouviram duas pancadas

fortes como se alguém tivesse batido com as portas. De um

pulo o Pim correu escada acima, o Peter foi buscar o Dussel

que, antes de mais nada, arrumou as suas coisas. Então

subimos todos, em meias, para cima. O sr. van Daan

está constipado e, por isso, já se tinha deitado. Juntamo nos

todos em volta da sua cama e contamos, em voz

baixa, as nossas suspeitas. Quando o sr. van Daan tossia

alto, a sra. van Daan e eu quase desmáiavamos de susto,

até que enfim alguém teve a ideia luminosa de lhe dar

codeína. A tosse acalmou imediatamente.

Esperámos... Como não ouvimos mais nada, calculámos

que os ladrões tinham fugido ao ouvir, de repente,

passos numa casa tão calma.

Lembrámo nos de que, por mal dos nossos pecados, o

rádio ainda estava sintonizado para a emissora inglesa e

que as cadeiras estavam desarrumadas. Assim, qualquer

pessoa perceberia imediatamente que, pouco tempo antes,

tinha estado gente naquele quarto. No caso de os ladrões

terem arrombado a porta e os da defesa antiaérea darem

por ela, a polícia seria avisada e as consequências podiam

ser muito sérias.

O sr. van Daan levantou se, vestiu o casaco, pôs o

chapéu e desceu cautelosamente com o pai. O Peter ia

atrás, levando um martelo para o que desse e viesse.

As senhoras, a Margot e eu esperámos com grande ânsia.

Cinco minutos mais tarde os senhores voltaram para nos

dizer que estava tudo em ordem. Combinámos não abrir

as torneiras e não puxar o autoclismo no W. C. Mas como

o susto provocou o mesmo efeito em todos nós, podes imaginar

o cheirete num certo sítio...

Quando acontece uma coisa má vem outra logo a

seguir. Foi o que aconteceu. Primeiro: o sino da Westertorenjá

não toca. Achava o tão bonito e calmante! Segundo:

sabíamos que o sr. Vossen tinha saído mais cedo na noite

anterior, mas o que não sabíamos era se a Elli, depois,

tinha levado as chaves ou se, porventura, se esqueceu de

fechar a porta. Estávamos todos um tanto inquietos, embora

não se ouvisse o menor ruído desde as oito horas e já

eram onze. Depois de estarmos menos excitados parecia nos pensando

agora com calma quase inconcebível

que algum ladrão tivesse arrombado a porta numa hora

em que ainda anda tanta gente na rua. A um de nós

ocorreu a ideia de que um contramestre da casa vizinha

tivesse estado a trabalhar. Como as paredes são pouco

espessas, é fácil confundir o som dos ruídos, especialmente

quando se está aflito, e a imaginação também toma um

papel importante nesses momentos espinhosos. E assim

fomo nos deitar, mas ninguém conseguiu dormir bem.

O pai, a mãe e o Dussel estiveram toda a noite sobressaltados

e eu, sem exagero, não preguei olho...

Hoje de manhã os senhores desceram para ver se a porta de entrada estava ainda fechada. Tudo parecia estar

em ordem. Contámos os acontecimentos tão aflitivos, com

todos os pormenores, aos nossos protectores, que

troçaram de nós, mas depois de as coisas se terem

passado é fácil rir! Só a Elli é que nos tomou a sério.

: Tua Anne.

Sábado, 27 de Março de 1943


Querida Kitty:
O curso de estenografia terminou. Estamos agora a

treinar nos em velocidade e havemos de conseguir chegar

ao máximo. Vou contar te coisas do meu "trabalho de matar o tempo"

(esta designação inventei a eu, porque,

ao fim e ao cabo, tudo aqui se faz para preencher o tempo

até ao dia em que já não precisarmos de estar aqui). Estou

entusiasmadíssima com a mitologia e o que mais me

interessa são as lendas dos Deuses gregos e romanos. "São

entusiasmos passageiros" dizem aqui, porque nunca

ouviram dizer que uma adolescente se tivesse dedicado

à mitologia. Mas eu posso bem ser a primeira!

O sr. van Daan está constipado ou antes : arranha lhe um

bocado a garganta e ele faz disto um grande acontecimento :

gargareja, toma chá de marcela, pincela a garganta com

tintura de mirra, põe pomada no nariz, no pescoço, no

céu da boca e na língua. E, além disso... tem mau génio.

Rauter, um dos alemães mais importantes nesta terra,

fez um discurso: todos os judeus têm de desaparecer,

até 1 de Julho, dos países germânicos. Far se á a limpeza

(como se se tratasse de baratas!) na província de Utrecht

do primeiro de Abril até ao primeiro de Maio, na Holanda

do Norte; e do Sul do primeiro de Maio até ao primeiro

de Junho. Como a um rebanho de pessoas doentes e inúteis,

levam a pobre gente ao matadouro. Mas não quero falar te

mais nisto. Os meus próprios pensamentos

provocam me pesadelos. Também há novidades boas : a repartição de trabalho foi sabotada, incendiada e, alguns dias mais tarde, aconteceu o mesmo à repartição da população. Homens metidos em uniformes da policia alemã subjugaram os guardas e depois fizeram desaparecer ficheiros importantes, de

maneira que as convocações e as buscas tornam se agora

bem mais difíceis.

Tua Anne

Quinta feira, 1 de Abril de 1943


Querida Kitty:
Não há disposição para graças (repara na data)! Aqui

justifica se o provérbio: "Uma desgraça não vem só".

Primeiro : o nosso protector, sr. Koophuis, que nos anima

sempre, teve ontem uma forte hemorragia do estômago

e tem de estar três semanas de cama. Segundo: a Elli

está com gripe. Terceiro: para a semana o sr. Vossen dá

entrada no hospital. Parece que tem uma úlcera e que

o vão operar.

Tinham sido feitos planos para uma importante reunião

de negócios. O pai tinha tratado tudo com o sr. Koophuis.

Agora não há tempo para dar instruções ao Kraler e o pai

treme só de pensar no decorrer da reunião.

 Se eu pudesse estar presente!   disse.   Se eu pudesse

estar lá em baixo!

 Porque não te deitas no chão? aconselhámo lo. Os

senhores negoceiam no escritório particular. Com certeza

podes ouvir tudo.

A cara do pai iluminou se. às dez e meia ele e a Margot

tomaram as suas posições e escutaram. Duas pessoas ouvem

mais do que uma. As negociações não acabaram da parte

da manhã, mas à tarde o pai não teve coragem para se

deitar novamente naquela posição. Estava como que

moído. Quando às três horas se ouviram as vozes lá em

baixo, tomei eu o lugar do pai e a Margot deitou se ao

meu lado. As conversas eram muito longas e aborrecidas

e, de repente, adormeci naquele oleado tão duro e tão frio.

A Margot não ousou dar me um empurrão, com medo

de que lá em baixo notassem alguma coisa. Dormi uma boa

meia hora e quando acordei já tinha esquecido as coisas

mais importantes. Mas, felizmente, a Margot tinha estado

com mais atenção.

Tua Anne.

Sexta feira, 2 de Abril de 1943
Querida Kitty:
Mais um pecado para a minha lista. Ontem estava à

espera que o pai, como de costume, viesse para rezar

comigo e para me dizer boa noite. Mas veio a mãe. Sentou se

na minha cama e perguntou, modesta e hesitante :

 Anne, o pai ainda não pode vir. Vamos rezar as duas.

 Não, mãe respondi.

A mãe levantou se, ficou parada ao lado da minha

cama. Depois dirigiu se devagarinho para a porta. De

repente virou se e, desfigurada, disse :

 Não estou zangada, Anne. O amor não é coisa que

se possa pedir a alguém.

Corriam lhe as lágrimas pela cara abaixo.

Fiquei muito quieta e senti que fui má, por tê la

afastado tão brutalmente, mas não podia responder de

outra maneira. Não sou capaz de fingir e de rezar com ela

contra a minha vontade. Palavra que não sou capaz.

Tenho pena da mãe, muita pena até, pois compreendi,

pela primeira vez, que a minha atitude não lhe é indiferente.

Li a dor na sua cara, quando me disse que o amor

não era coisa que se pudesse pedir a alguém. É duro dizer

a verdade. Mas a verdade é que ela me afastou de si.

Foi com as suas observações pouco delicadas e as suas

gracinhas sobre coisas que para mim são muito sérias.

Assim como em mim tudo se constrange quando ela é

dura, também agora se constrangeu o seu coração, quando

compreendeu que entre nós se tinha extinguido o amor.

Chorou durante toda a noite, quase não dormiu. O pai

nem olha para mim, e quando o faz leio lhe a acusação

nos olhos : "Como foste capaz de ser tão má para tua mãe?

Como pudeste fazê la sofrer tanto?"

Estão à espera que peça desculpa. Mas eu não posso

pedir desculpa, pois só disse o que é verdade, e mais cedo

ou mais tarde a mãe ficava a sabê lo. Parece me que já

não me importo tanto com as lágrimas da mãe e o olhar

do pai. Não, já não me importo. Pela primeira vez, os

dois se aperceberam do que eu sinto continuamente. Sim,

posso ter pena da mãe, mas só ela própria deve procurar

reencontrar me. Quanto a mim continuarei calada e fria

e nunca terei medo da verdade. É sempre melhor não

adiar o que tem de se dizer.

Tua Anne.

Terça feira, 27 de Abril de 1943


Querida Kitty:
Estamos todos zangados uns com os outros, os van

Daans, a mãe, o pai, etc. Lindo ambiente, não te parece?

A lista completa dos pecados da Anne chegou a ser desencantada

e discutida em toda a sua extensão.

O sr. Vossen está no hospital. O sr. Koophuis já anda

a pé. Desta vez a hemorragia do estômago passou mais

depressa do que de costume. Koophuis contou nos que a

repartição da população ficou muito destruída depois do

assalto. Porque os bombeiros, em vez de extinguirem o

fogo, não, inundaram o edifício todo e os danos são agora

enormes e o Hotel Carlton foi destruído. com o "lar dos

oficiais" e toda a esquina da Vijzelstraat Singel ficou

destruída pelo fogo.

Dois aviões ingleses, que transportavam grande carga de

bombas incendiárias, despenharam se precisamente neste

ponto.


Já não há um pouco sequer de sossego durante as noites.

Tenho grandes olheiras porque não consigo dormir.

A comida está uma miséria : os pequenos almoços pão

seco e cevada. Ao almoço há mais de quinze dias, ou

espinafres ou salada, e as batatas, de vinte centímetros de

comprimento são vermelhas e doces. Quem quiser emagrecer que venha viver connosco

Os de cima gemem. Mas nós ainda não fazemos disto uma

tragédia.

Todos os homens que tinham sido mobilizados ou que

combateram "na guerra de cinco dias" em 1940 foram

convocados como prisioneiros de guerra e têm de trabalhar para o "Führer". Mais uma medida de precaução contra a invasão!

Tua Anne.

Sábado, 1 de Maio de 1943
Querida Kitty:
Se me ponho a pensar na nossa vida aqui, chego sempre

à mesma conclusão : nós, em comparação com os

judeus que não conseguiram esconder se, ainda estamos

como que no paraíso. Mas mais tarde, quando tudo estiver

normalizado e eu me puser a pensar naquilo que vivi,

ficarei, decerto, admirada dos limites a que nós chegámos,

especialmente no que respeita aos nossos costumes. Usamos,

por exemplo, desde que aqui entrámos, a mesma toalha

de oleado na mesa, e deves calcular que ela não ficou mais

bonita pelo uso. Com um trapo, que é mais buracos do que

trapo, tento dar lhe um pouco de "brilho", mas em vão.

Os van Daans não puderam lavar, durante todo o Inverno,

o lençol de flanela que serve para poupar os colchões,

porque o sabão é raro e muito fraco. O pai anda com umas

calças no fio e a gravata já está muito gasta. A cinta da

mãe rasgou se lhe, de velha, e a Margot usa um soutien

que lhe é apertado de mais. A mãe e a Margot, durante o

Inverno remediaram se as duas com três camisas, e as minhas

estão me curtas, dão me pela anca. Isto agora ainda vai.

Mas assusta me quando pergunto a mim mesma : será

possível que nós tão terrivelmente esfarrapados, com tudo

tão gasto, a começar pelas minhas solas e a acabar no

pincel de barbear do pai, voltemos algum dia à mesma

vida de outrora?

Hoje os aviões bombardearam a cidade terrivelmente,

sobretudo durante a noite. Estive resolvida a juntar o

indispensável e preparar uma "mala de fuga", mas a mãe

disse e muito bem:

 Para onde querias fugir?

Toda a Holanda está a ser castigada, por haver sabotagens por toda a parte. Foi declarado o estado de sítio e tiraram uma ração de manteiga a cada pessoa. É assim

que se castigam as crianças mal comportadas!

Hoje, à tardinha, lavei a cabeça à mãe. Não é coisa

fácil. Temos de nos remediar com o sabão amarelo e pegajoso

e, além disso, custa muito pentear o cabelo forte da mãe

com o pente da família que já só tem dez dentes.

Tua Anne


Terça feira, 18 de Maio de 1943
Querida Kitty:
Observámos um combate aéreo entre aviões alemães

e ingleses. Infelizmente a tripulação de dois ingleses teve

de abandonar os aparelhos, saltando em pára quedas.

O nosso leiteiro que mora no caminho para Harlen, viu

quatro canadianos, dos quais um falava perfeitamente

holandês e que lhe pediu lume para o cigarro. Contou lhe

que a sua tripulação se compunha de seis homens, mas que

o piloto, infelizmente, morrera no incêndio e o sexto

companheiro se tinha escondido não se sabia onde. Depois

veio a polícia verde e prendeu os quatro aviadores. é

admirável a calma e presença de espírito destes homens,

depois de um salto assim!

Embora já haja calor, precisamos de acender o fogão

para queimar os despojos da hortaliça e de outras porcarias.

Temos de ter cautela por causa do criado do armazém

e não podemos deitar nada no balde do lixo. Qualquer

pequeno desleixo podia traír nos.

Todos os estudantes são obrigados a assinar uma declaração

de lealdade como sinal de simpatia para com os

ocupantes. Depois podem continuar os estudos. Oitenta

por cento, no entanto, não foram capazes de assinar contra

a sua convicção e de se vender. As consequências não se

fizeram demorar. Todos os estudantes que não assinaram

são obrigados a trabalhos forçados na Alemanha. O que

vai ser da juventude holandesa se as coisas continuarem

assim?


Hoje à noite a mãe fechou a janela porque o barulho

dos bombardeamentos tornava se insuportável. Eu dormia

na cama do Pim. De repente ouvimos a sra. van Daan a

gritar. Saltou fora da cama como se uma tarântula a tivesse picado. Depois ouviu se uma forte explosão. Imaginei logo

que uma bomba incendiária tinha caído junto da cama

dela e gritei :

 Luz, luz!!!

Pim acendeu a luz e eu esperava que o quarto, dentro

de poucos minutos, fosse devorado pelo fogo. Mas tudo

ficou na mesma. Precipitámo nos escada acima para ver

o que tinha acontecido. Os van Daans tinham visto um

clarão de fogo pela janela. Ele era de opinião que o incêndio

devia ser perto, em qualquer parte, mas ela na sua imaginação,

já estava a ver a nossa casa a arder. A explosão

fê la saltar da cama. Mas como não se ouvia nem via

mais nada voltámos a deitar nos. Depois de um quarto

de hora o barulho dos canhões recomeçou. A sra. van Daan

fugiu do quarto, desceu a escada e refugiou se junto do

sr. Dussel. Pelos vistos o marido não a sabia proteger!

O sr. Dussel recebeu a com estas palavras:

 Deita te ao meu lado, minha filhinha!

Desatámos todos a rir e assim salvámos a situação.

Tua Anne

Domingo, 13 de Junho de 1943


Querida Kitty :
O poema que o pai me escreveu para os meus anos

é tão lindo que tens de o conhecer. Depois de um apanhado

dos acontecimentos deste ano, prossegue assim:
Como és a mais nova de todos,

Ainda que já bem crescida,

Não é lá muito fácil a tua vida.

Todos pretendem dar te lições

Mas o que te dão são aflições:
Repara na nossa competência.

Passamos por tudo isso afinal,

E sabemos distinguir entre o bem e o mal.
Assim te falam sem interrupção.

Porque os defeitos próprios

nunca são muito graves

Enquanto que os dos outros são os grandes entraves.


Avisam te, fazem te ver...

Como se fosse para teu prazer.


E nós, os pais desta filha querida

Nem sempre podemos dar te razão

Porque a transigência na vida

É uma forte condição.


O ano que finda

aproveitaste o bem.

Trabalhaste, leste, aprendeste.

E quase nunca te aborreceste.


No que respeita à roupa, ouço te perguntar:

O que é que vou usar?


As coisas já não me servem

Os sapatos tanto apertam que me enervam

A saia, a camisa, tudo encolhido.

Reduzido a uma tanga ficou o meu vestido

Dez centímetros que a gente se lembre de crescer

Bastam para em coisa nenhuma se caber.


A Margot fez um Poema sobre a comida. Mas os versos

são pouco jeitosos e não tos vou transcrever. Todos foram

simpáticos, e deram me muitas prendas bonitas.

entre outras coisas deram me um calhamaço

sobre o meu interesse pela mitologia da Grécia e de

Roma. Não me posso queixar, pois sacrificaram alguma

coisa das suas últimas reservas.

Sou a mais pequena da "família mergulhada". Tenho

de confessar que recebo mais mimos do que mereço.

Tua Anne.

Terça feira, 15 de Junho de 1943
Querida Kitty :
Aconteceram muitas coisas, mas receio que todas estas

histórias te comecem a aborrecer e que eu acabe por

maçar te com as minhas cartas. Prometo ser breve.

O sr. Vossen não foi operado ao estômago. Depois

de terem feito o golpe no abdómen os médicos verificaram

que ele tem um cancro, infelizmente tão adiantado que já

nada podia fazer se. Fecharam, trataram no

do coração. não veio para casa. Ficou fora durante três

semanas. Tenho muita pena dele, e custa me não poder sair

daqui para o visitar e distrair um bocado. Sempre era ele que nos vinha contar o que se passava no armazém. Era nos de um grande auxílio, sempre preocupado connosco, o bom Vossen.

Faz nos uma falta enorme.

No próximo mês seremos provàvelmente obrigados a

entregar o nosso rádio. O sr. Koophuis tem um desses

aparelhos "Baby" que nos vai ceder para substituirmos o

nosso grande "Philips". Que pena, termos de nos desfazer

do lindo aparelho! Mas numa casa onde há gente escondida

nada se deve arriscar. O que importa antes de mais

nada é a gente desembaraçar se das autoridades. O rádio

pequeno ficará cá em cima. Para um rádio há sempre

lár, mesmo em casa de judeus escondidos, que compram

tudo com dinheiro "negro". Toda a gente anda empenhada

em arranjar um aparelho antigo para o entregar às autoridades em vez daquele que tem em casa. A rádio é para

nós a única ligação com o mundo exterior. E a verdade

é que, quando estamos deprimidos da vida! o Melhor é

ter um rádio para nos dár coragem.

Tua Anne.

Domingo, 11 de Julho de 1943
Querida Kitty:
Torno a falar te sobre "educação". Asseguro te que

tenho feito todos os possiveis para ser prestável, amável

e simpática. Assim a avalancha de criticas está a abrandar.

Mas custa muito,comportarmo nos bem com gente que

não podemos ver à nossa frente. Alguém me ouve dizer como há vantagem de fingir um bocado na cara de pessoas aquem

costumava, dar a minha opinião

afinal, não ligam importância à minha opinião.

Mas por vezes esqueço mais tantas injustiças. Depois,

poder esconder a minha raiva.

durante semanas fala se da "mais malcriada rapariga do

Mundo!" Não achas que sou digna de pena? Ainda bem

que tenho senso critico, pois de outro modo azedava e

perdia por completo a boa disposição.

com a estenografia, Resolvi não me preocupar tanto

preciso de mais tempo para os meus outros trabalhos.

primeiro por causa dos olhos. Ultimamente estou a ficar míope, o que não é nada bom.

Precisava de óculos (decerto ficaria com cara de coruja),

mas como sabes, os "mergulhados" não têm licença...

Ontem passámos todo o dia a falar de uma coisa só:

a mãe andava com a ideia de me mandar com a sra.

Koophuis ao médico da vista. Ao ouvir aquilo, no primeiro

momento fiquei tonta. Não é brincadeira nenhuma sair

à rua, imagina à rua! Tive a sensação de morrer de medo,

não é coisa simples.

e depois fiquei toda contente. Mas a coisa não é assim

tão fácil. Tem todas as dificuldades e perigos

Era preciso pensar bem e dcidir as coisas



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