O diário de Anne Frank De 2 de Junho de 1942 a de Agosto de 1944



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importantes, e as personalidades que entenderem. A Miep queria levar me imediatamente e fui logo ao armário tirar o meu casaco cinzento. Mas este estava me tão acanhado como se pertencesse a uma irmã mais nova. Estou ansiosa por saber

se, de facto, vou ao médico. Mas se calhar resolvem adiar.

Os ingleses desembarcaram na Sicília e o pai diz que

a guerra já não pode demorar muito. A Elli entrega nos,

a mim e à Margot, uma parte do seu trabalho do escritório.

Gostamos muito de o fazer, e a Elli poupa tempo.

Julgo que qualquer pessoa sabe classificar a correspondência

e assentar as vendas, mas nós somos especialmente

cuidadosas.

A Miep é o nosso burro de carga, coitada! Quase todos

os dias descobre alguma hortaliça e trá la na sua saca

amarrada à bicicleta. Também é ela quem cuida, todos os

sábados, da troca dos livros, na biblioteca. Estamos sempre

ansiosamente à espera do sábado, como criancinhas que

esperam por uma renda nova mas não a podem usar. E fazem uma

vida de espera.

Que significam os livros para gente isolada do mundo

exterior?

Ler, estudar e ouvir rádio... é este o nosso mundo.

Tua Anne.

Sexta feira, 16 de Julho de 1943


Querida Kitty:
Outra vez ladrões, mas desta vez a valer! Da parte

da manhã o Peter foi, como sempre, ao armazém e verificou

que as portas do armazém e da rua estavam abertas.

Foi logo ter com o Pim que, antes de mais nada, ligou

o rádio para a emissora alemã e fechou a porta. Depois

os dois vieram para cima. As ordens, num caso destes,

são : não abrir as torneiras, não andar pela casa, estar

vestido e arranjado às oito horas, não utilizar o W.C.

Estávamos contentes por não termos dado por nada durante

a noite, pois, pelo menos, dormimos bem. Só às onze

e meia é que chegou o sr. Koophuis e contou que os

ladrões conseguiram abrir a porta exterior com uma

alavanca para em seguida arrombar a porta do armazém.

Viram logo que no armazém não havia nada que valesse

a pena roubar e então tentaram a sorte no andar de cima.

Levaram a caixa do dinheiro com quarenta florins e os

livros de cheques em branco, mas o pior é que lhes cairam

nas mãos todas as senhas do racionamento do açúcar,

de mais ou menos 1,50 quilos.

O sr. Koophuis supõe que se tratava dos mesmos

ladrões que tentaram, há seis semanas, arrombar uma das

portas. Nessa altura não o tinham conseguido. Ficámos

todos bastante aflitos. Parece que cá no anexo não se pode

passar sem acontecimentos sensacionais. Ainda bem que

as máquinas de escrever e a caixa, grande estavam cá

em cima onde, aliás, as guardamos todas as noites.

Tua Anne.

Segunda feira, 19 de Julho de 1943


Querida Kitty:
No domingo, o Porto de Amesterdão foi terrivelmente

bombardeado. Dizem que as destruições são medonhas.

Ruas inteiras estão transformadas em montões de entulho

e ainda hão de passar se muitos dias sem se terem encontrado

todos os cadáveres. Até agora contam se duzentos

mortos e inúmeros feridos. Os hospitais estão apinhados.

Crianças vagueiam entre as ruinas à procura dos pais.

Ainda agora estremeço ao lembrar me do estampido das

explosões e do ruído surdo das derrocadas que nos prediziam

toda esta destruição.

Tua Anne

Sexta feira, 23 de Julho de 1943


Querida Kitty :
Elli descobriu uma loja onde ainda se vendem, sem

talões, cadernos e livros de escritório para a Margot,

que está a aprender contabilidade. Mas não queiras saber

o aspecto dos cadernos : papel cinzento com linhas tortas

e só com doze folhas. E caros como fogo!

Agora hás de divertir te um bocado. Vou contar te o

que cada um de nós deseja em primeiro lugar quando

estiver em liberdade.

A Margot e o sr. Daan gostavam de tomar um banho

quente, numa banheira cheia até cima e ficar lá dentro,

pelo menos, uma meia hora. A sra. van Daan quer ir

direitinha a uma confeitaria e comer torta. O Dussel não

pode pensar em outra coisa senão na sua mulher e na

Lottinha; a mãe tem saudades de uma chávena de café.

O pai quer visitar, antes de mais nada, o sr. Vossen; o

Peter pensa em ir logo ao centro da cidade e ao cinema

 e eu? Acho que de tanta felicidade nem era capaz de

saber o que havia de fazer primeiro.

Parece que o meu maior desejo é voltar à nossa casa,

onde posso estar à vontade, onde faço o que me apetece.

Queria também ser orientada nos estudos, isto é: queria

ir para a escola!

A Elli tem possibilidades de arranjar fruta no mercado

" negro". Mas os preços não são brincadeira nenhuma:

uvas, cinco florins, groselhas, setenta cent., um pêssego

cinquenta cent., um quilo de melão, um florim. Isto,

apesar de nos jornais se ler todos os dias: "Qualquer subida

de preços é considerada como especulação".

Tua Anne.

Segunda feira, 26 de Julho de 1943


Querida Kitty:
O dia de ontem foi bastante tumultuoso e ainda estamos

excitados. Com certeza gostavas de perguntar se não

é possível passar se aqui um único dia sem aflições.

Estávamos sentados à mesa e a tomar o pequeno almoço

quando as sereias deram o primeiro alarme. Isto não nos

incomoda grande coisa porque quer dizer apenas que os

aviões inimigos se estão a aproximar da costa. Depois do

pequeno almoço deitei me de novo na cama. Tinha terríveis

dores de cabeça. Eram aí duas horas quando

vim para baixo. às duas e meia a Margot terminou os

trabalhos para o escritório. Ainda não tinha arrumado

as coisas quando se ouviu de novo o toque de alarme,

mas desta vez mais forte. Subimos num instante a escada

e não foi sem tempo, pois cinco minutos mais tarde o

barulho tornou se medonho. Resolvemos refugiar nos no

nosso cantinho de "abrigo" no corredor. A casa tremia.

Ouvimos nitidamente o cair das bombas. Apertei a minha

malinha debaixo do braço, mais para sentir algum amparo

do que para fugir.

Depois de uma boa meia hora os aviões foram rareando

e toda a gente da casa começou a sair dos seus esconderijos.

O Peter desceu do seu posto de observação nas águas furtadas, o sr. Dussel estivera no grande escritório, a sra. van Daan achara que só no escritório particular estaria em segurança e o sr. van Daan observara o espectáculo lá do alto do sótão. Só nós tínhamos ficado no cantinho de "abrigo". Agora subimos todos para o andar de cima donde víamos nitidamente as nuvens de fumo sobre o porto de Amesterdão. Em breve chegou até nós o cheiro a queimado: era o incêndio. Tive a impressão de que um nevoeiro espesso envolvia a cidade. Um incêndio assim não é um espectáculo agradável. Cada um de nós voltou ao seu trabalho, contente por ter escapado. à hora do jantar, outra vez alarme. Estávamos a comer umas coisas boas mas eu perdi o apetite logo que ouvi o terrível uivar das sereias. Tudo, porém, ficou calmo e três quartos de hora depois deram sinal de fim do alarme. Mas mal tínhamos lavado a louça, tudo recomeçou : alarme, estampidos horríveis, muitos, muitos aviões por cima de nós. Pensámos : "céus! Isto agora já passa das marcas!".

Mas ninguém queria saber o que nós pensávamos. Choveram

bombas sobre bombas, desta vez do outro lado

(no Schiphol). Foram os ingleses que deram a notícia.

Os aviões mergulhavam, subiam. O ar parecia vibrar.

Tive receio de que algum caísse por cima de mim.

Podes crer, já nem me segurava nas pernas quando

às nove horas fui para a cama.

à meia noite em ponto, aviões! O Dussel estava precisamente

a despir se. Eu quis lá saber. à primeira explosão

saltei cama fora. Duas horas de voos constantes e, por isso,

fiquei na cama do pai. Só depois, quando já não se ouvia mais

nada, voltei para o meu quarto. às duas e meia adormeci.

Sete horas. Acordei num sobressalto. O sr. van Daan

estava no quarto do pai. "Tudo", ouvi lhe dizer. "Pronto,

ladrões", pensei e imaginei logo que nos tinham roubado

tudo. Mas não! Seguiu se um relatório como não tínhamos

ouvido há meses, talvez mesmo durante toda esta guerra:

Mussolini caiu, o rei da Itália tomou conta do governo.

Ficámos radiantes. Depois do susto de ontem, enfim

alguma coisa de bom e... um pouco de esperança! Esperança

do fim. Esperança da paz!

Chegou o Kraler e contou que Fokker está muito destruído.

Entretanto, tivemos também outro alarme, de noite.

Vieram muitos aviões e depois outra vez alarme. Parece

que sufoco com tantos alarmes aéreos, não durmo o suficiente

e não consigo trabalhar como deve ser. Mas agora

a ansiedade e a esperança de que esteja a chegar o fim

de tudo isto, fazem com que não desanimemos. Oxalá

tudo acabe ainda este ano.

Tua Anne.

Quinta feira, 29 de Julho de 1943
Querida Kitty:
A sra. van Daan, o Dussel e eu estávamos a lavar a

louça e, o que acontece raras vezes e que eles devem também

ter estranhado, eu estava excepcionalmente silenciosa.

Para evitar perguntas, procurei um tema neutro e, por

fim, comecei a palrar sobre o livro Henri van den O Cerkant.

Mas enganei me nos cálculos. Se não é a sra. van

Daan que me diz das suas, então é com certeza o Dussel.

É que a coisa foi esta: o Dussel tinha nos recomendado

o livro como uma coisa extraordinária. Mas nem a Margot

nem eu lhe encontrámos nada de especial. A figura do

rapaz está bem descrita, mas o resto... é melhor não

falar nisso. Enfim, eu disse lhe o que pensava do livro.

Havias de ouvi lo :

 O que é que sabes tu afinal da psicologia de um

homem? Se o livro tratasse de uma criança, vá lá. És

nova de mais para compreenderes um livro destes. Nem

um jovem de vinte anos o entende bem. (Só gostava de

saber porque é que ele tanto nos recomendou o livro).

E agora desataram ambos a atacar me :

 Sabes coisas de mais, coisas que ainda não te dizem

respeito. Tiveste uma educação errada. Mais tarde não

te contentarás com coisíssima nenhuma. Hás de dizer:

"aquilo? Já o li há uns anos num livro". Apressa te se

ainda queres apanhar um marido ou se queres apaixonar te.

Se calhar só hás de encontrar defeitos em toda

a gente! Sabes muita coisa em teoria, mas na prática

tudo é diferente.

Parece que eles pensam que é boa educação incitarem me

contra os meus pais. Gostam disso. Acham também que

é um método excelente não falar com uma rapariga da minha idade sobre "assuntos de adultos". Ora os resultados de uma educação assim são sempre desastrosos!

Apeteceu me dar lhes na cara pelas suas manias ridículas.

Fervi de raiva. Ah! se pudesse começar a contar

os dias que faltam para me ver livre deles! A sra. van Daan,

que encanto!... é que me deve servir de exemplo! Sim,

de exemplo... daquilo que se não deve ser!

Todos o sabem: ela é impertinente, egoísta, espertalhona,

interesseira e nunca está satisfeita. Eu podia escrever

livros sobre esta senhora, e quem sabe se não o farei

um dia. O seu "verniz" estala com facilidade. Ela faz se

simpática e amável, principalmente junto dos homens.

Mas isso não passa de um "bluff"! A mãe acha a estúpida

de mais e que nem vale a pena perder palavras com

ela. A Margot acha a insignificante. O Pim diz que é

feia, física e moralmente, e eu percebi depois de a ter

observado pois não tenho preconceitos que todas essas

opiniões estão certas, mais do que certas! Tem tantas

qualidades más que nem sei a qual delas havia de dar

o primeiro lugar.

Tua Anne
P. S. Peço à querida leitora que se não esqueça de que

esta carta foi escrita com raiva ainda não esfriada!

Terça feira, 3 de Agosto de 1943
Querida Kitty:
Politicamente, tudo vai às mil maravilhas. Na Itália

proibiram o partido fascista. Em várias regiões o povo

bate se contra os fascistas. Até os soldados tomam parte.

Como querem que um povo assim ainda se ponha a lutar

contra a Inglaterra!

Pela terceira vez a cidade foi violentamente bombardeada. Cerrei os dentes e disse para comigo: "Coragem!".

A sra. van Daan que até agora sempre dizia: "É melhor

acabarem os sustos de uma vez do que ficar à espera indefinidamente", é agora a mais cobarde de todos. Hoje de

manhã tremia como varas verdes e depois desatou a chorar.

O marido, com quem depois de uma semana de vida de cão e gato acabou por fazer as pazes, acalmou a carinhosamente. A gente ia ficando quase sentimental perante aquela linda cena.

A propósito de gatos. Afinal não são apenas úteis.

A Mouchi deu nos a prova disso. Andamos todos com pulgas,

e a praga torna se, de dia para dia, mais insuportável.

O sr. Koophuis espalhou por toda a parte um pó amarelo

que parece não ter efeito algum sobre as pulgas. Já andamos todos nervosos. Não nos conseguimos abstrair disso,

sentimos os bichinhos a correr pelos braços, pelas pernas

e por toda a parte do corpo. A gente exibe se com os

movimentos mais cómicos deste Mundo, procurando caçar

os minúsculos verdugos. Mas todo o movimento nos causa

embaraço. Falta nos ojeito porque fazemos pouca ginástica

e já não temos o corpo flexível.

Tua Anne


Quarta feira, 2 de Agosto de 1943
Querida Kitty:
Depois de passarmos mais de um ano fechados no

anexo, já estás bem informada sobre a nossa vida. Há

coisas que dificilmente se conseguem escrever. Tudo é

tão complicado e diferente da vida em liberdade! Mas

para que possas fazer melhor ideia, vou contar te de

vez em quando aquilo que acontece regularmente todos os

dias. Hoje vou começar pelo fim do dia.

às nove horas toda a gente começa a fazer os preparativos

para se deitar. Puxam se cadeiras, vão se buscar

as roupas das camas, estendem se os cobertores. Realmente

nada fica onde estava durante o dia. Eu durmo

no pequeno sofá que tem mais ou menos metro e meio

e preciso de cadeiras para o prolongar. Durante o dia o

meu "edredon", os cobertores, o travesseiro e os lençóis

guardam se na cama do Dussel.

No quarto ao lado ouve se chiar e ranger: a cama

da Margot é "armada". E de novo surgem cobertores e

almofadões, sabe se lá de onde.

Podia julgar se que estava a trovejar se não se soubesse

que é a cama da sra. van Daan que está agora a ser arrastada

para a janela. "Sua Majestade", de "liseuse" cor de rosa,

tem de respirar, através do seu belo narizinho, o

ozone fresco junto da janela.

Depois de o Peter estar arranjado mais ou menos

às nove horas  entro eu no "quarto de banho" para me

lavar minuciosamente, e então uma pulguinha perde,

não raras vezes, a sua vida. Depois lavo os dentes, ponho

os "bigoudis", arranjo as unhas e trato de outros pequenos

segredos da toilette... e tudo isto numa escassa meia hora.

às nove e meia meto me no roupão de banho, saio ràpidamente, levando o sabão, os alfinetes, bigoudis, algodão em rama!, etc., e a roupa sobre o braço. Mas muitas vezes sou chamada para voltar atrás, por ter enfeitado o lavatório com um ou outro dos meus lindos cabelos pretos, o que, pelos vistos, não agrada ao meu sucessor.

Dez horas: apagam se as luzes. Boa noite. Durante um

quarto de hora ainda se ouve o ranger das camas e os

suspiros das molas escangalhadas. Depois tudo é silêncio,

pelo menos quando lá em cima não há discussão conjugal.

às onze e meia abre se a porta do "quarto de banho."

Um magro raio de luz, um arrastar de sapatos. ívelum

roupão largo, largo de mais para aquela figura, entra o

Dussel, que tinha estado a trabalhar no escritório do Kraler.

Durante dez minutos anda às furtadelas, mexe com

papéis, anda a esconder as guloseimas, arranja a cama,

desaparece de novo e, de tempos a tempos, ouvem se

ruídos suspeitos no W.C.

às três horas tenho eu de me levantar para fazer uma

coisa que ninguém pode fazer por mim. Debaixo da lata,

que serve para isso, há um bocado de tapete de borracha

para todas as eventualidades, pois a lata pode começar

a verter. Retenho de todas as vezes a respiração para apreciar

o ruído; parece me ouvir correr um ribeirinho sobre

calhaus. E depois a figurinha branca que ouve troçar a

Margot noite após noite: "Oh, que camisa tão imoral!",

torna a desaparecer debaixo dos cobertores.

Durante um quarto de hora escuto ainda os ruídos nocturnos.

Primeiro : lá em baixo não estará algum ladrão?

Depois concentro a minha atenção nos ruídos dos vizinhos

de cima, do lado e do que está junto de mim. Por eles

podia fazer se um resumo de temperamentos. Alguns

estão pesadamente ferrados no sono, outros estão meio

acordados, o que não é coisa agradável, quando se trata

do sr. Dussel. Primeiro dá a impressão de um peixe que

procura apanhar ar com a boca, e isso por aí umas dez

vezes. Depois humedece os lábios e dá estalinhos com a

língua. Ao mesmo tempo volta se para um lado, volta se

para o outro e puxa pelo travesseiro até encontrar uma posição

cómoda. Com pequenos intervalos todas estas manobras

se repetem pelo menos três vezes e, finalmente, o bom

doutor adormece.

Por vezes acontece haver bombardeamentos. Mal

começam estou logo meio acordada, com os pés no chão.

Há também noites em que sonho com verbos irregulares

ou com uma discussão conjugal, lá em cima. Só então

é que me acontece ter a sorte de não acordar e de não

dar conta dos bombardeamentos. Mas das outras vezes

saio da cama de um pulo, pego no travesseiro e no lenço,

enfio o roupão e os chinelos e corro para a cama do pai.

A Margot descreveu a cena num poema de aniversário.
Quando de noite um avião mal se adivinha

certo e sabido que uma certa mocinha

Vai aparecer ao pai a impLorar

Que lhe ceda na cama um pouco de lugar!


Recolhida na cama do pai, o pior susto para mim já

passou, caso o barulho não se torne mesmo dramático.

Um quarto para as sete : rrring... o despertador lá

em cima.


Ping, pang... é a sra. van Daan que o desliga. O seu

marido levanta se a gente bem o ouve põe a água a

ferver e vai para o quarto de banho. Uma meia hora

depois é a vez do Dussel. Finalmente estou só , abro os

cortinados escuros   um novo dia começa no anexo!

Tua Anne.

Quinta feira, 5 de Agosto de 1943
Querida Kitty :
Hoje vou te falar da hora do almoço.

Meio dia e meia hora: todo o nosso ninho respira de

alívio. Os criados do armazém saíram. Lá em cima ouve se

o aspirador com que a sra. van Daan trata carinhosamente

uo seu querido e único tapete. A Margot mete os livros

debaixo do braço e vai ter com o seu aluno Dussel que é

um pouco tapadinho para aprender holandês. O Pim

retira se para um cantinho onde possa gozar o seu querido

Dickens. A mãe sobe para o andar de cima e dá uma

ajuda à "perfeita dona de casa", enquanto eu me meto no

quarto de banho, faço uma pequena arrumação das coisas

e dou uma arranjadela à minha pessoa.

Uma menos um quarto: um após outro aparecem:

o sr. v. Santen, o sr. Koophuis ou o Kraler, a Elli e quase

sempre também a Miep.

Uma hora : todos ouvem animosamente as notícias

da B. B. C. São estes os únicos momentos em que os habitantes do anexo não se interrompem uns aos outros, pois

o que está a falar não pode ser contrariado, nem sequer

pelo sr. van Daan.

Uma hora e um quarto : uma refeição simples : uma

chávena de sopa para cada visitante. E se há sobremesa

é também repartida com eles. Contente, o sr. v. Santen

recosta se no canto do sofá, desdobra o jornal, o gato ao

seu lado, a chávena em frente. É a jovialidade em pessoa.

O sr. Koophuis conta novidades da cidade. É uma fonte

inesgotável. O Kraler sobe a escada aos pulinhos, bate

um tanto rápido e seco à porta, entra esfregando as mãos

e, conforme a disposição, mostra se animado e alegre ou

deprimido e calado.

Duas menos um quarto: os hóspedes despedem se,

voltam ao trabalho. A mãe e a Margot lavam a louça,

o sr. e a sra. van Daan vão dormir, o Peter desaparece no

seu quarto, o pai estende se um bocadinho, o Dussel faz

o mesmo, eu leio ou escrevo. É esta a hora mais simpática.

Quando as pessoas dormem não nos estorvam.

O Dussel sonha com boa comidinha. Leio lho no seu

rosto. Mas não gasto tempo a estudar o Dussel, porque o

tempo passa tão depressa! Um minuto depois das quatro

aquele caturra já está ao meu lado a resmungar por eu

ainda não ter deixado a mesa.

Tua Anne.

Segunda feira, 9 de Agosto de 1943


Querida Kitty:
Vou continuar com o boletim. O nosso jantar: o

sr. van Daan é o primeiro a servir se e serve se abundantemente

de tudo... isto é, se houver coisas ao seu paladar.

Fala sempre, mete se em tudo, impinge as suas opiniões

e depois de as ter impingido não há ninguém que lhas

possa modificar. Ai daquele que se atreva a contrariá lo.

Bufa como um gato... e se alguém se atreve uma vez, não

fica com vontade de repetir. Só ele é que tem opiniões

certas, só ele é que sabe tudo! É um finório, isto não se

lhe pode negar, mas a sua presunção é qualquer coisa de

descomunal.

A ilustre senhora: o melhor seria eu nem falar nela.

Por vezes, principalmente quando está de mau génio, nem

me apetece olhar para ela. Vistas bem as coisas, é quase

sempre ela quem provoca as discussões, mesmo que não

sejam sobre a sua pessoa. Por amor de Deus, isso não!

Todos evitam zangar se com ela. Mas o que eu queria

dizer é que a sra. van Daan provoca as discussões. Provocar,

sim, esta arte conhece a a fundo! Provocar a sra. Frank

e a Anne! Com o pai e com a Margot a coisa já é mais

difícil, porque eles não lhe dão motivo.

à mesa, a sra. van Daan não fica nunca em desvantagem,

embora imagine que fica. As batatas mais pequenas, os

pedaços mais delicados, apanhar sempre o melhor, é esta

a sua divisa! Os outros que se arranjem. O essencial é que

ela tenha conseguido aquilo que queria! E nunca mais

se cala!

Tanto se lhe dá como se lhe deu se as pessoas estão

a ouvir ou não interessadas. Está convencida de que as suas

palavras douradas são um gozo para toda a gente. Sempre a sorrir com "coquetterie", pretende saber

todas as coisas, dá, maternalmente, conselhos e pensa que

está a causar a melhor das impressões. Mas examinando a

bem, descobre se logo que atrás de tudo aquilo há muito

pouca coisa.

característica número 1   aplicação. Segundo   alegria. Número 3   "coquecterie". E por vezes boa apresentação. Petronella

van Daan.

O terceiro companheiro de mesa, o jovem sr. van Daan,



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