O diário de Anne Frank De 2 de Junho de 1942 a de Agosto de 1944



Baixar 1.78 Mb.
Página9/21
Encontro05.12.2017
Tamanho1.78 Mb.
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   21

refila pouco. i não chama a atenção sobre si.

O seu estômago deve ser uma espécie de tonel das

Danaides, pois mesmo quando a comida é forte e depois

de ter consumido uma porção fantástica, afirma, com a

cara mais séria deste mundo, que teria sido capaz de comer

o dobro.

o quarto é a Margot. Fala pouco e come como um passarinho.

As únicas coisas que lhe escorregam bem pela garganta

abaixo são hortaliças e frutas. "Amimalhada", é a

sentença dos van Daans. Mas a nossa opinião é outra:

"Falta de ar e de movimento".

Ao lado a mãe. Come bem, fala muito e com gosto.

Ninguém a tomaria por dona de casa como à sra. van Daan.

E porquê? Porque a ilustre senhora é que cozinha e a

mãe só limpa e lava a louça.

Somos 6 e : a respeito do pai e de mim não vou dizer

muita coisa. O Pim é o mais modesto de todos à mesa.

Olha primeiro à sua volta, a ver se os outros estão bem

servidos. Não necessita de nada em especial e tudo o que

é bom vai para as filhas. É o exemplo da bondade e da

grandeza de alma... e ao seu lado fica sentado o feixe de

nervos do anexo!

O sr. Dussel: serve se mas não olha para ninguém.

come e não fala. Mas se é absolutamente indispensável

falar, então escolhe o tema "comida" por ser um tema

que não provoca conflitos, quando muito dará lugar a

algumas fanfarronices. Consegue engolir porções gigantescas,

nunca diz que não, tanto faz que a comida seja

boa como má. Puxa as calças demasiado para cima, usa

um colete vermelho e chinelos pretos e sobre o nariz

pousam lhe uns óculos de armação escura. É assim que se

apresenta na mesa de trabalho, às refeições, durante a sesta e quando vai ao seu lugar favorito, uma, duas, Três, quatro ou cinco vezes por dia está algum de nós em frente da porta do W.C. saltando de impaciência de um pé para o outro, quase sem poder esperar mais.

Julgas que isso o comove? Nem pensar em tal! Podem

registar se sessões dessas das sete e um quarto às sete e

meia, da meia hora à uma, das duas às duas e um quarto,

das quatro às quatro e um quarto, das seis às seis e um

quarto e das onze e meia à meia noite. Disso não desiste

e nem a voz mais suplicante, a profetizar um acidente,

o pode comover.

Um outro, não é pròpriamente um membro da família

do anexo, mas companheira de casa e de mesa, a Elli.

Tem bom apetite, não é esquisita e nunca deixa ficar

restos no prato. Fica contente com a coisa mais insignificante

e dá nos também prazer com isso. Está sempre

alegre e de bom humor, é prestável e simpática, enfim

só tem boas qualidades.

Tua Anne


Terça feira, 10 de Agosto de 1943
Querida Kitty:
Uma ideia nova! Converso à mesa mais comigo própria

do que com os outros, o que tem duas vantagens: provàvelmente

todos ficam contentes quando falo pouco e, além

disso, não preciso de me aborrecer com as opiniões dos

outros. Como acho as opiniões dos outros quase sempre

tolas e só as minhas certas, o melhor é não dizer nada.

Da mesma maneira procedo quando há uma comida de

que não gosto. Imagino que aquilo é muito bom, finjo

mesmo que assim penso, e antes que consiga reflectir, já

engoli tudo. Pela manhã quando me levanto outra coisa

desagradável   salto da cama e digo para comigo:

"Vais te já deitar outra vez". Tiro os cortinados escuros da

camuflagem, respiro um pouco de ar fresco pelas fendas

até ficar bem acordada. Quando depois tiro as roupas da

cama, já não sinto a tentação de deitar me.

Sabes como a mãe chama a isto? "A arte de viver".

Uma expressão patusca, não achas?

Há uma semana que não sabemos as horas exactas,

porque levaram o nosso tão querido e fiel sino da torre

Oeste. Supomos que querem transformá lo num canhão.

Quase nunca sabemos que horas são. Espero que descubram

alguma coisa que nos imdique o tempo e substitua também

o lindo som. É preciso que o quarteirão não sinta tanto

a falta do seu sino.

Seja como for que eu esteja, lá em cima ou cá em

baixo, todos olham sempre com admiração para os meus

pés. É que os meus pés ostentam sapatos novos. A Miep

conseguiu comprá los em segunda mão por vinte e sete

florins e meio. São de camurça cor de vinho e têm um salto

largo e bastante alto. É como se fossem umas andas e pareço ainda mais alta do que sou. Ontem tive pouca

sorte. Piquei me no polegar direito com uma agulha grossa.

Não pude descascar as batatas, e a Margot teve de fazê lo

por mim. Depois dei com a testa contra a porta do armário

e tão forte foi a pancada que quase caí ao chão. E como

aquilo não se passou sem estrondo, apanhei um raspanete

ainda por cima. Não pude refrescar a testa porque estávamos

proibidos de abrir as torneiras. Agora ando com um

galo enorme sobre o olho direito. E para cúmulo entalei

o dedo pequeno do pé direito no aspirador. Mas as minhas

outras dores eram já tão grandes que não liguei a esta

nova. Fui tola porque a ferida infectou, tenho de andar

com o pé ligado... e não posso calçar os meus lindos sapatos.

O Dussel fez nos indirectamente correr perigo de vida.

Pediu à Miep que nada sabia destas coisas para lhe

trazer um livro que está proíbido, um panfleto contra

Hitler e Mussolini. Precisamente esta manhã uma moto

das SS esbarrou contra a bicicleta dela. Ela perdeu a

cabeça e gritou lhes: "Patifes!", mas, felizmente,

pôs se a andar. O melhor é a gente não imaginar o que teria

acontecido se a tivessem levado ao posto da polícia.

Tua Anne

Quarta feira, 18 de Agosto de 1943


Querida Kitty:
Hoje vou descrever te o nosso dever quotidiano de descascar

as batatas.

Um de nós vai buscar os jornais (para as cascas), outro

as facas (e, evidentemente, fica para si com a melhor),

outro traz as batatas e o último, um panelão com água.

O sr. Dussel começa, descasca bastante mal, mas, sem

interrupção, olha, de vez em quando, para a direita e

para a esquerda, porque quer verificar se os outros

trabalham tão bem como ele. Chega à conclusão de que isso

não sucede.

 Anne, não vês? Eu pego na faca assim, e descasco

de cima para baixo. Não, assim não! Olha, assim é que

deve ser!

 Acho o meu modo mais cómodo ouso dizer finalmente.

 Olha que como eu faço é melhor, podes crer. Mas,

afinal, que me importa a mim? Faze como entenderes.

Continuamos a descascar. Olho de esguelha para o

meu vizinho da esquerda. Está a abanar a cabeça, por

minha causa, suponho. Mas não me diz nada. Continuo

a descascar. Depois olho para o pai que está em frente

de mim. Para ele, descascar batatas não é uma brincadeira

mas sim um trabalho de precisão. Quando o pai está a

ler, tem uma ruga profunda na testa, mas quando descasca

batatas ou quando ajuda a preparar a hortaliça,

então dá a impressão de ser impermeável a tudo o que

acontece à sua volta. Nestas ocasiões põe a sua cara "para

batatas", e nunca entregará uma só que não esteja descascada

impecàvelmente. Com uma cara assim também

seria impossível não se fazer coisa perfeita, e era ELe sempre a trabalhar. levanto os olhos de quando

em quando, e sei logo tudo, Não tira os olhos dele, mas

chama sobre si a atenção do Dussel, pisca lhe os olhos.

ele Finge não dar por nada. Depois ela como que pensa

  bem, isto não está mau.   E Ele contimua a descascar. Ela

ri se, mas também não deixa de descascar. A sra. van Daan diz: - Porque não pões o avental?

 Não me sujo.

E ela continua a cismar.

- Porque não te sentas?

 Estou muito bem assim, gosto de estar de pé.

Novo silêncio.

  Putti, vês, agora fizeste saltar a água.

  Está bem, Mammi, hei de ter mais cautela.

E ela a inventar outro tema.

 Oh, Putti, dize lá, porque é que os ingleses deixaram

de bombardear?

 por causa do mau tempo, suponho.

 Mas ontem esteve bom tempo e eles não vieram.

 E se falássemos de outras coisas?

 Mas porque não há de a gente falar sobre isto?

 Porque não.

 Mas porquê?

 Cala te Mammi!

 O Frank nunca deixa de responder à mulher quando ela quer saber alguma coisa.

O sr. van Daan não responde.

ela retoma a conversa Depois de uns minutos de silêncio:

  Nunca mais fazem a invasão.

O marido fica vermelho de raiva. Ela bem o vê e cora.

Agora a bomba rebenta:

  Cala a boca! Caramba, caramba.

Eu nem olho para ninguém. Minha mãe mal pôde esconder o riso

Cenas destas ou semelhantes repetem se quase todos os dias, a não ser que o casal esteja amuado, o que é de grande vantagem, porque, ao menos, não diz nada.

Tenho de ir ao sótão buscar mais batatas. Vejo o

Peter a catar o gato. Quando me aproximo, ele ergue os

olhos. O gato, ao perceber que não está preso, dá um pulo

e foge pela janela. O Peter roga pragas, eu rio e desapareço.

Tua Anne.

Sexta feira, 20 de Agosto de 1943


Querida Kitty:
às cinco e meia em ponto os operários saem do armazém

e a nossa liberdade recomeça.

Quando a Elli sobe, sabemos que já não há perigo e

começamos a mexer nos à vontade. Quase sempre vou

com ela para cima, onde ficou guardada uma lambarice.

Mal a Elli se senta, logo a sra. van Daan começa a

enumerar os seus desejos:

  Ai, Elli!, eu gostava tanto de...

A Elli pisca me os olhos. É raro alguém do escritório

aparecer lá em cima sem que a sra. van Daan deixe de ter

algum desejo. É esta a razão por que ninguém gosta de

subir até ao andar dos van Daans.

Seis menos um quarto. A Elli deixa nos e eu vou descer

à cozinha, depois entro no escritório particular, abro a

porta da carvoeira ao Mouchi, que quer ir para lá caçar

ratos. Por fim vou ao escritório do sr. Kraler, onde o

sr. van Daan está a examinar as pastas e as gavetas para

ver a correspondência do dia. O Peter vai buscar a chave

do armazém e também o Bochi. O Pim leva a máquina

de escrever para cima. A Margot procura um sítio calmo

para se entregar aos trabalhos do escritório. A sra. van Daan

põe um panelão de água a ferver; a mãe está a descer

com uma panela de batatas. Cada um cumpre a sua

obrigação.

O Peter volta do sótão. A sua primeira pergunta é

se não se esqueceram de pôr o nosso pão no escritório do

Kraler. Esqueceram se! Então ele não tem outro remédio

senão ir procurá lo no escritório grande. Gatinha como

os bebés para que ninguém de fora o possa ver. Abre o

armário, tira o pão e desaparece, isto é, quer desaparecer, mas durante aquele passeio, o Mouchi saltou por cima

dele e depois escondeu se debaixo da escrivaninha. O Peter

procura em todos os cantinhos. Por fim, descobre o gato.

Sempre de gatinhas procura apanhar o bicho pelo rabo.

O gato bufa, o Peter suspira. Mouchi senta se à janela e

lambe o pêlo. Como última tentativa, o Peter estende lhe

um pedaço de pão. E agora a coisa dá resultado. Mouchi

deixa se "levar", vai atrás dele, e a porta pode fechar se.

Eu estive a observar todo o espectáculo através de

uma frincha. Depois voltei ao meu trabalho. Tac, tac, tac!

Bater três vezes, é sinal de que o jantar está pronto!

Tua Anne.

Segunda feira, 23 de Agosto de 1943


Querida Kitty:
Continuação do boletim: O relógio dá as nove horas

da manhã. A mãe e a Margot estão nervosas.

  Ghut! Pai... Otto, chut... Pim! São nove horas,

fecha a torneira!

 Não pises o chão dessa maneira!

É assim que avisam o pai, que ainda está no quarto

de banho. às oito e meia ele tem de estar no quarto.

E nem mais uma gota de água! Não utilizar o W. C, não

andar de um lado para o outro, silêncio absoluto. Se ainda

não houver gente no escritório, os ruídos ainda ecoam

mais fortes no armazém.

Lá em cima, os van Daans abrem a porta e batem

três vezes no chão:

 A papinha para a Anne está pronta!

Subo num instante para ir buscar a minha tijelinha

de cachorro. Depois ando numa roda viva: pentear, despejar

o "vaso", pôr a roupa da cama no sítio. E silêncio,

o relógio deu horas!

A sra. van Daan ainda se arrasta de chinelos pelo

quarto, e o marido também. Depois não se ouve mais nada.

Se cá estivesses podias agora presenciar uma linda

cena familiar. Eu começo a ler ou a escrever. Também

a Margot e os pais gostam de aproveitar esta meia hora

de calma para a leitura. O pai pega, já se vê, no seu querido

Dickens e senta se na borda da cama que range sempre

e que tem colchões que já nem o nome de colchões merecem.

Os dois "edredons" que lhe queremos dar, recusa os :

 Não preciso. Assim estou muito bem.

Uma vez pegado na leitura, já não se interessa por

mais nada. Por vezes ri se, procura ler baixinho uma

passagem à mãe. Mas ela diz :

 Agora não, por favor. Não tenho tempo.

Ele fica um bocadinho desapontado. Mas logo que

descobre outra passagem engraçada, tenta novamente:

 Mãezinha, isto tens de ouvir!

A mãe está na cama de armar, lê, costura, faz malhas

e estuda um bocado. De repente ocorre lhe uma ideia e

ela não pode guardá la:

 Anne, sabes... Margot, toma nota.

Uns minutos de silêncio. Depois a Margot fecha ruidosamente

o seu livro. O pai cerra as sobrancelhas num arco

muito patusco, mas logo a seguir aparece a ruga de leitura,

sinal de que ele está mergulhado no livro. A mãe, então,

começa a conversar baixinho com a Margot. Curiosa,

escuto.

Por fim o Pim também escuta... Nove horas. Pequeno



almoço!

Tua Anne.

Sexta feira, 10de Setembro de 1943
Querida Kitty:
Quase sempre que te escrevo, alguma coisa aconteceu

e, de um modo geral, alguma coisa desagradável. Mas

desta vez posso contar te um acontecimento simpático.

Na quarta feira (8 de Setembro) estávamos todos, às

sete horas da tarde, a ouvir rádio.

 Here follows the best news of the whole war. Italy

has capitulated!

A Itália capitulou incondicionalmente.

às oito começou a emissora de Orange :

  Ouvintes! Depois de eu, há uma hora, ter lido as

notícias do dia, recebemos a maravilhosa notícia da capitulação incondicional da Itália! Deitei ao cesto dos papéis com o maior prazer as notícias ultrapassadas.

Tocaram "God save the king", "Star spangled banner"

e também a "Internacional". A emissora de Orange foi,

como de costume, animadora, mas não demasiadamente

optimista.

Estamos preocupados por causa do sr. Koophuis. Como

sabes, gostamos todos muito dele. Embora esteja adoentado

e tenha dores, e embora não possa comer grande coisa e

tenha de ter muita cautela consigo, continua sempre

animado, amável e admiràvelmente corajoso.

 Quando o sr. Koophuis entra, nasce o Sol   costuma

dizer minha mãe e tem muita razão. Agora tem de ser

operado aos intestinos e não pode aparecer durante quatro

semanas. Havias de ver quando se despediu. Não como

alguém que vai ser operado, mas como se simplesmente

saísse para fazer compras.

Tua Anne.

Quinta feira, 16 de Setembro de 1943


Querida Kitty:
à medida que o tempo vai passando, mais mal se vão

dando as pessoas umas com as outras. Quase já ninguém

ousa abrir a boca à mesa (a não ser para meter a

comida), pois tudo o que se diz é levado a mal ou mal

entendido. Eu, por mim, engulo todos os dias "Valeriana Dispert" por causa das depressões, mas isto não me impede de me sentir ainda mais mal disposta no dia seguinte.

Ai, se pudesse rir, só uma vez, rir de todo o coração,

seria melhor remédio do que dez dessas pastilhas brancas.

Mas já nem sabemos o que é rir assim. Por vezes tenho

receio de ficar muito feia depois de sair daqui e vejo me

com uma boca comprimida e rugas de preocupações.

Os outros não se sentem melhor do que eu : todos aguardam

o Inverno com medo.

Mais uma coisa pouco animadora : um dos homens

do armazém, um certo M., ficou desconfiado a respeito

do anexo. Isto podia não ter grande importância se ele

não fosse tão curioso e se se deixasse convencer fàcilmente.

Também não sabemos a que ponto é de confiança.

Um dia o sr. Kraler quis ser mais cauteloso: à uma

hora menos dez pegou no chapéu e na bengala, saiu e

entrou na drogaria da esquina. Cinco minutos depois

voltou e subiu, com mil cautelas, como um ladrão, a

escada do anexo. à uma e um quarto quis ir se embora,

mas encontrou a Elli, que o impediu, porque o tal M.

estava no escritório. Kraler voltou para cima e ficou até

à uma e meia. Depois descalçou os sapatos, pegou neles na mão e, em meias, caminhou até à porta do sótão, pisou

cautelosamente os degraus e depois voltou da rua para

o escritório. A Elli que conseguira, entretanto, despachar

o M. do escritório, veio para avisar o Kraler. Mas este

já estava a fazer as suas acrobacias na escada. O que

terão pensado as pessoas na rua que o viram calçar as

botas?

Tua Anne


Quarta feira, 29 de Setembro de 1943
Querida Kitty:
A sra. van Daan faz anos. Oferecemos lhe, além de

  um bónus para queijo, carne e pão, um frasco de compota.

O marido, o Dussel e os nossos queridos protectores também lhe ofereceram, além de flores, coisas de comer.

Sinal dos tempos!

Esta semana a Elli teve uma crise de nervos. Tem de[

andar sempre de um lado para o outro para ir buscar

isto ou aquilo, muitas vezes mandam na trocar as coisas

por ela se ter enganado. E se a gente se lembra de que ela

tem muito que fazer no escritório, que o Koophuis está

doente e a Miep na cama por causa de uma constipação,

que ela própria torceu um pé, que tem aflições por causa

do namorado de quem o pai não gosta, não é difícil imaginar que já não aguenta mais. Consolámo la e pedimos lhe

que, sempre que não tiver tempo para nós, no lo diga

calma e friamente. Assim, ao menos, a lista das compras

ficará diminuída.

Deve ter havido sarilho com os van Daans. O pai

anda furioso, mas não sei porquê. Vai haver zaragata,

com certeza. Quem me dera estar longe daqui, quem me

dera poder fugir! Aquela gente dá cabo de nós!

Tua Anne.

Domingo, 17 de Outubro de 1943
Querida Kitty :
, graças a Deus! Ainda está pálido,

Koophuis voltou

mas já trabalha e está a tentar vender roupas dos van Daans.

É uma coisa bem penosa, porque se lhes acabou o dinheiro.

A senhora tem muitas coisas mas não quer desfazer se

delas e um fato do marido custa a vender, pois não querem

dar o que ele pede. Mas ainda há de haver trapalhada.

Provàvelmente é o casaco de peles da senhora que vai ser

sacrificado! Por causa disso houve grande discussão lá em

cima, depois seguiu se um período pacífico e agora só se

ouve:

 Oh, meu querido Putti!



Eu já estou meio tonta de tantas discussões e das palavras

feias que se ouvem ùltimamente na nossa casa honrada.

O pai anda de lábios cerrados e se a gente lhe dirige

a palavra, assusta se como se estivesse com medo de algum

acontecimento desagradável em que tivesse de intervir.

A mãe, de tanta aflição, tem manchas vermelhas na cara,

a Margot queixa se de dores de cabeça, o Dussel não

pode dormir, a sra. van Daan lamenta se todo o dia e

eu estou completamente desconcertada. Para dizer a

verdade : há ocasiões em que me esqueço de quem são os que

andam zangados uns com os outros e quem são os que

já fizeram as pazes. A única distracção é o trabalho, e eu

trabalho muito!

Tua Anne


Sexta feira, 29 de Outubro de 1943
Querida Kitty:
Houve "tempestade" lá em cima. Como eu já te contei,

eles não têm dinheiro. Um dia o Koophuis falou lhes de

um negociante de peles de quem é amigo. O sr. van Daan,

então, sempre se resolveu a vender o casaco da mulher.

É de pele de coelho e tem dezassete anos de uso. Receberam

trezentos e setenta e cinco florins por ele. É bem pago.

A sra. van Daan quis guardar o dinheiro para comprar

coisas novas mais tarde. O marido com muito custo sempre

conseguiu convencê la de que o dinheiro era absolutamente

necessário para o sustento. Não podes imaginar

como ela ralhou, gritou, vociferou e bateu com os pés no

chão... E nós cheios de pavor. Estávamos os quatro com

a respiração suspensa, ao pé da escada, prontos para

separar aqueles dois furiosos. Cenas assim são tão aflitivas

que me fazem chorar, de noite, quando estou na cama,

grata, no entanto, por ter uns momentos de solidão.

O sr. Koophuis já tem de ficar novamente em casa.

O estômago não o deixa em paz e ainda não se sabe se

a hemorragia acalmou por completo. Foi ao contar nos

que se sentia mal e que ia para casa que, pela primeira

vez, o vimos deprimido. Eu, por mim, não estou doente,

só não tenho apetite. Mas estão sempre a dizer me :

 Estás com mau aspecto.

Tenho de confessar: a minha família esforça se muito

para que eu tenha saúde e robustez. Dão me, alternadamente,

glucose, levedura, cálcio, óleo de fígado de bacalhau,

para me fazer aguentar. Mas nem sempre consigo

dominar os meus nervos. É aos domingos que os sinto

mais, pois nesses dias reina uma má disposição geral, uma

espécie de sonolência pesada como chumbo. Não se ouvem ruídos lá fora e qualquer coisa parece estar para acontecer.

É como se pesos grandes me puxassem. Uma voz gritasse na

escuridão, insondável.

indiferentes, até o pai, mas

Nessa altura todos me são muito amigos, sobretudo a mãe

e a Margot. Ando por toda a casa, de um quarto

para o outro escada acima, escada abáixo. Sinto me como

um pássaro a quem cortaram as asas ebate contra as grades da

gaiola estreita.

em mim soa como que um grito: para fora! Tenho saudades,

 Quero sair. Sair daqui, para o ar livre, quero poder rir à

vontade!Não há resposta! Mas sei que esses gritos não

têm poder, e deito me na cama para matar estas horas tão

terrivelmente silenciosas e cheias de angústia.

Tua Anne


Quarta feira, 9 de Novembro de 1943
Querida Kitty :
O pai, cuja constante preocupação é a de nos distrair e,

ao mesmo tempo, de nos cultivar, mandou vir o prospecto

de um instituto que dá lições por correspondência. A Margot

já folheou o calhamaço por três vezes mas ainda não

,encontrou o que queria. Julgava ela que tinha de pagar

o curso com o seu dinheiro da semana e, por isso, achava

tudo demasiado caro. Mas o pai mandou vir uma lição

para experimentarmos : latim para principiantes. A



1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   21


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal