O duplo em contos de mário de andrade – só pra constar novamente: que tal



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O DUPLO EM CONTOS DE MÁRIO DE ANDRADE
Fernando de Moraes Gebra (Dep. de Letras/UNICENTRO), e-mail: fernandogebra@yahoo.br

Resumo: O presente estudo centra-se na análise de três antologias de contos de Mário de Andrade (1893-1945), nas quais um determinado objeto ou experiência trazem mudanças ao sujeito, que ora permanece no seu estado de inércia e apatia, ora entra em embate com a sociedade patriarcal, força contrária à construção da identidade do sujeito. Esses processos de transformação narrativa são analisados pela teoria Semiótica de Greimas, cujas categorias da enunciação (sujeito, tempo e espaço) permitem verificar os elementos sócio-históricos norteadores do projeto estético-ideológico de Mário de Andrade. Além disso, buscamos o apoio da teoria do duplo, com embasamento filosófico de Clément Rosset, para estabelecermos as relações de alteridade entre os sujeitos dos contos.

Palavras-chave: Mário de Andrade, conto brasileiro, duplo


Introdução
O estudo proposto, centrado na problemática das construções de identidade na ficção breve de Mário de Andrade (1893-1945), apresenta quatro objetivos, quais sejam: a) analisar as categorias da enunciação (sujeito, tempo e espaço) que permitem a construção do sentido em contos de Mário de Andrade e verificar como essas categorias se duplicam no processo da construção da identidade nessas narrativas; b) compreender a problemática da construção da identidade do sujeito nos contos de Mário de Andrade, relacionada aos elementos espaço-temporais e simbólico-figurativos, no âmbito das relações subjetivas e sócio-históricas; c) relacionar as categorias da enunciação, nas suas duplicações, com as propostas ensaísticas de Mário de Andrade e presentes no seu projeto estético-ideológico para estabelecermos as conjunturas sócio-históricas em consonância ou em oposição à construção da identidade; d) comprovar e demonstrar a importância quantitativa e qualitativa das categorias da enunciação como elementos determinantes na ficção breve de Mário de Andrade e na configuração das múltiplas identidades presentes em sua obra.
Materiais e Métodos
O estudo que se realiza vale-se, em primeiro lugar, das contribuições de críticos literários que analisaram a produção ficcional de Mário de Andrade, considerando a perspectiva das duplicações, seja de narradores, de pontos de vista ou de personagens. Desses autores, poder-se-ia dizer que a pioneira nos estudos sobre Mário de Andrade é Telê Porto Ancona Lopez. Seu ensaio intitulado “Um contista bem contado” (1987) aponta três concepções de mundo nos contos de Mário de Andrade, uma relacionada ao modo Belazarte de ser, marcada pelo pessimismo e pelo compadecimento dos infortúnios de misérias das personagens, outra representada por Malazarte, irônico, “louco”, “cabotino”, com lado anti-social e de enfrentamento da sociedade e, uma terceira, representada pela postura híbrida dos lados Belazarte e Malazarte condensados num mesmo narrador.

Nossa proposta de análise também se articula com o discurso filosófico de Clément Rosset. Para o referido autor, o desdobramento está relacionado com mecanismos de ilusão, pois o sujeito, sentindo-se inadaptado à realidade cotidiana, busca outras realidades, quer sob a forma de um outro eu, ou na busca de um outro tempo ou um mundo transcendental. A Semiótica Greimasiana descreve maneiras pelas quais o enunciador de um texto se projeta no mesmo, bem como deixa marcas da enunciação no enunciado. Esses mecanismos são chamados de debreagens, que projetam no enunciado atores, tempos e espaços, ora distantes da enunciação (debreagens enuncivas) ora próximas do momento de produção do discurso (debreagens enunciativas). Acreditamos e pretendemos demonstrar em Tese de Doutorado como essas debreagens se relacionam com o processo de desdobramento actancial, espacial e temporal, revelando efeitos poéticos em textos de Mário de Andrade.

No decorrer da análise dos contos de Mário de Andrade, demonstramos como os desdobramentos estudados por Clément Rosset relacionam-se aos procedimentos discursivos de debreagens da Semiótica Greimasiana e como estas geram efeitos poéticos. Consideramos cada conto analisado como algo marcado por uma linguagem simbólica e metafórica. Embora muito presentes nos poemas de Mário de Andrade, símbolos e metáforas não deixam de estarem presentes na sua produção ficcional. A linguagem poética, presente não apenas no texto poético, está sendo descrita e analisada devido às contribuições teóricas que articulam forma e conteúdo textuais, possibilitando a determinação de efeitos de sentido.
Resultados e Discussão
O estado atual da pesquisa consta da leitura bibliográfica sobre Mário de Andrade, Semiótica greimasiana e o duplo na literatura, bem como da análise dos seguintes contos de Mário de Andrade: “Nízia Figueira, sua criada”, “O besouro e a Rosa”, “Túmulo, túmulo, túmulo”, inseridos na antologia Os contos de Belazarte, “Frederico Paciência” e “Tempo da camisolinha”, da coletânea Contos novos, e por fim, Balança, Trombeta e Battleship.

Neste estudo, destinado à Semana Científica, serão discutidos resultados relacionados, principalmente, ao conto “Tempo da camisolinha”. Como analisado no decorrer do estudo, as personagens d’Os contos de Belazarte permanecem numa inércia e numa apatia. No percurso a que estamos propondo reconstituição, os rituais operados em cada personagem protagonista ou narrador protagonista marcarão a passagem do não-saber para o saber.

Se considerarmos a proposta de Norman Friedman, no tocante à focalização narrativa, seria de fato inverossímil o menino de “Tempo da camisolinha” saber de tudo. Por isso, temos a narrativa no modo “eu-protagonista”, em que tudo é descrito de um ângulo fixo. A teoria de Greimas corrobora essa questão de verossimilhança, à medida em que desdobra esse “eu-protagonista” em dois tempos: tempo da enunciação, em que esse eu já está adulto e rememora os acontecimentos da infância, e o tempo do enunciado, em que esse eu passa pelo ritual de iniciação ao mundo adulto.
Conclusões
De tudo que foi exposto acima, resta-nos a seguinte indagação: E os demais contos? Do conjunto de 28 narrativas, sendo onze de Primeiro andar, sete de Os contos de Belazarte, nove de Contos novos, e uma intitulada Balança, Trombeta e Battleship, optamos por apenas seis. Em seu trabalho de análise dos poemas de Mário de Andrade, João Luiz Lafetá lamenta não percorrer as várias facetas e determinações, de modo claro e detalhado, da produção poética de Mário de Andrade. Fazemos nossas as palavras do referido crítico: “(...) mais uma vez a diversidade da poesia de Mário escapou a um crítico. Só posso exibir o esqueleto rudimentar exposto acima, e a tentativa de esquadrinhar melhor uma das máscaras”.

Onde se lê “poesia de Mário”, leia-se “contos de Mário”, de forma que optamos por analisar as narrativas que, a nosso ver, apresentam uma estrutura narrativo-discursiva e simbólico-figurativa de maior complexidade, tanto na sua estrutura interna como nas relações que estabelecem com os demais textos ficcionais de Mário de Andrade. Dessa forma, julgamos pertinente esquadrinhar seis momentos da produção ficcional do autor de Macunaíma, tomando o rito como metáfora da passagem do não-saber para o saber e do saber para o eterno retorno ao universo mítico, ausente de pecado. Os demais contos serão referidos como recursos de intertextualidade dentro da estrutura ritualística, como pertencimento às categorias propostas em cada etapa ritualística e como possibilidade de estabelecermos correlações com outros textos da produção literária de Mário de Andrade.



Referências
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