O fiel jardineiro



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Para Yvette Pierpaoli que viveu e morreu estando-se nas tintas

Ah, mas o esforço de um homem tem de exceder o seu limite, Senão, para que serve o céu?

Andrea del Sarto” de Robert Browning


Capitulo Um
A notícia atingiu a Alta Comissão Britânica em Nairob, às nove e trinta numa manhã de segunda-feira. Sandy Woodrow recebeu-a como um tiro, queixo rígido, peito para a frente, em cheio no seu dilacerado coração inglês. Estava de pé. De tudo isto só se lembrou depois, Estava de pé e o telefone interno começou a tocar. Ele estava esticado à procura de qualquer coisa, ouviu o apito e dobrou-se para baixo a fim de apanhar o auscultador de cima da secretária e dizer «Woodrow». Ou talvez, «fala Woodrow». E provavelmente disse o seu nome com aspereza, disso lembrava-se bem: o som da sua própria voz pareceu-lhe a voz de outra pessoa, como uma chicotada, «Fala Woodrow», o seu nome perfeitamente normal, mas sem o sobrenome familiar «Sandy»* e dito quase com ódio, porque a conferência ritual com o Alto Comissário estava marcada para começar dali a trinta minutos em ponto e Woodrow, como Chefe de Chancelaria tinha o papel de moderador num bando de prima-donas, todas com assuntos de especial interesse e cada uma das quais exigia a posse exclusiva do coração e do pensamento do Alto Comissário.
Isto é, mais outra segunda-feira de merda em fins de Janeiro, a época mais quente do ano em Nairobi, época de poeira, de cortes de água, erva queimada, olhos a arder e o calor a rebentar o pavimento das ruas; e os jacarandás à espera das longas chuvadas, como toda a gente.
Exatamente por que razão estava de pé é que foi um problema que ele nunca resolveu. Mais normal seria estar acaçapado atrás da secretária, manuseando as teclas do computador, revendo ansiosamente as instruções vindas de Londres e as informações vindas das vizinhas Missões Africanas. Em vez do que se encontrava de pé à frente da secretária, procedendo a um gesto vital que não conseguia identificar - tal como a endireitar a fotografia da sua mulher, geralmente a pessoas de cabelos loiro-arruivados. (N. T)
Glória, e dois filhos pequenos, tirada talvez no último Verão durante a licença de férias no seu país. A Alta Comissão situava-se numa encosta e um aluimento constante era o suficiente para fazer inclinar as molduras durante um, fim-de-semana de desocupação.
Ou talvez tivesse estado a lançar spray insecticida contra qualquer insecto queniano a que nem os diplomatas são imunes. Tinha havido uns meses antes uma praga de «oftalmia de Nairobi», causada por mosquitos que, quando espalmados ou esfregados acidentalmente na cara, causavam bolhas à volta dos olhos que podiam levar à cegueira. Ele estaria de spray em riste, ouvira o telefone, pousara a lata sobre a secretária e agarrara no telefone: isto também era provável, porque mais tarde aparecia vagamente na sua memória como que um slide a cores de uma lata vermelha de insecticida pousada na bandeja «out» sobre a secretária. Portanto: «Fala Woodrow» e o telefone encostado ao ouvido.
- Olá, Sandy, é o Míke Mildren. Bom dia. Está sozinho, por acaso? Sim, respondeu Woodrow, estava só. Porquê?
- Aconteceu uma coisa chata, Sandy. Por acaso, até estava a pensar em ir aí falar consigo.
- Isso não pode esperar até depois da reunião?
- Bem, acho que realmente, não... Não pode, não, - replicou Mildren ganhando coragem à medida que falava. - Trata-se de Tessa Quayle, Sandy. Surge subitamente outro Woodrow, de nervos eriçados. Tessa. - Que é que se passa com ela? - disse ele num tom deliberadamente indiferente, com o pensamento a correr em todas direcções. Oh Tessa. Oh meu Deus. Que é que terás feito desta vez?
- A polícia de Nairobi diz que foi morta, - disse Mildren como se fosse uma coisa normal.
- Que disparate - replicou Woodrow antes de ter tempo para pensar.
- Isso é ridículo. Onde? Quando?
- No lago Turkana. Margem leste. Este fim-de-semana. Estão a ser muito diplomáticos com os detalhes. No carro dela. Segundo eles, um lamentável acidente, - acrescentou, em tom de desculpa - tive a impressão de que não queriam ferir os nossos sentimentos.
- No carro de quem? - perguntou Woodrow descontrolado. Estava a lutar, rejeitando aquela ideia louca - quem, como, onde - esmagando todos os outros pensamentos e sentidos para baixo, para baixo, rejeitando furiosamente todas as memórias secretas que tinha dela para as substituir pela recordação de certa paisagem árida e lunar de Turkana que ele conhecera durante uma viagem de trabalho, seis meses atrás, na companhia incontestavelmente irrepreensível do adido militar. - Não saia daí, eu vou ter consigo. E não fale com mais ninguém, está a ouvir?
Maquinalmente, Woodrow pousou o telefone, rodeou a secretária, pegou no casaco pendurado nas costas da cadeira e vestiu-o manga após manga. Normalmente não teria posto o casaco para ir ao andar de cima. Os casacos não eram obrigatórios nas reuniões de segunda-feira, quanto mais para ir fazer dois dedos de conversa ao gabinete do rechonchudo Mildren. Mas o profissionalismo de Woodrow estava a avisá-lo de que a coisa não ia ficar por ali. Enquanto subia a escada conseguiu, com um grande esforço de autocontrolo, Submeter-se ao seu princípio sagrado sempre que aparecia uma crise no horizonte e dizer para si próprio, tal como dissera a Mildren, que era tudo um disparate. Como confirmação, evocou o caso sensacionalista de uma rapariga inglesa que tinha sido cortada em pedaços no mato africano há dez anos atrás. Trata-se de um boato mórbido, é o que é de certeza. Uma imagem criada pela imaginação de um tarado qualquer. Algum polícia africano meio marado, largado no deserto, atestado de bangí, tentando fazer valer o salário miserável que há seis meses lhe deviam.
O edifício da Missão, recentemente reconstruído, era austero e bem desenhado. Woodrow gostava daquele estilo, talvez porque correspondesse formalmente ao seu próprio. Com uma estrutura nitidamente definida, com cantina, loja, bombas de combustíveis e corredores silenciosos e limpos, dava uma impressão de auto-suficiência e severidade. Woodrow possuía visivelmente as mesmas preciosas qualidades. Aos quarenta, tinha um casamento feliz com Glória - ou, se não o tinha, partia do princípio de que era o único a sabê-lo. Era Chefe da Chancelaria e era de apostar que, se jogasse bem o seu jogo, podia vir a ser Chefe de Missão no próximo posto modesto e daí avançar por postos menos modestos até à dignidade de «Sir», proposta a que ele próprio não atribuía qualquer importância, claro, mas seria agradável para Glória. Havia nele qualquer coisa de militar e na verdade era filho de militar. Nos seus dezessete anos ao serviço do Foreign Office de Sua Majestade tinha cravado o seu estandarte em meia dúzia de Missões Britânicas no ultramar. Mas o Quênia, perigoso, decadente, saqueado, falido e outrora Britânico, tinha-o motivado mais do que qualquer outro, embora não ousasse perguntar a si próprio em que medida esse facto era devido à Tessa.
- Muito bem, - disse ele com alguma agressividade a Mildren, depois de fechar a porta e baixar o trinco.
Mildren exibia um eterno beicinho que lhe era próprio. Sentado à secretária fazia lembrar um menino gorducho e malcriado que não queria comer a sopa.
- Estava instalada no Oasis, - disse ele,
- Qual oásis? Seja mais preciso, se for capaz.
Mas Midren, apesar da sua idade e categoria social, não era tão fácil de irritar como Woodrow fora levado a crer. Tinha um bloco com notas em estenografia e estava a consultá-lo antes de falar. Deve ser o que lhes ensinam agora, pensou Woodrow com desprezo. De outra forma, onde é que aquele arrivista de água doce arranjaria tempo para estudar estenografia?
- Existe uma pousada na margem leste do Lago Turkana, na ponta sul, anunciou Mildren, de olhos pregados ao bloco. - Chama-se «Oasis». A Tessa passou lá a noite e saiu na manhã seguinte num todo-o-terreno fornecido pelo dono da Pousada. Disse que queria ver o berço natal da civilização, uns trezentos quilômetros a norte: a Cova do Leakey. - Corrigindo: - o sítio das escavações de Richard Leakey, no Parque Nacional de Sibiloi.
- Sozinha?
- o Wolfgang forneceu-lhe um motorista. O cadáver está com o dela no todo-o-terreno.
- Quem é o Wolfgang?
- O dono da pousada. O apelido não sei. Toda a gente o trata por Wolfgang. Parece que é alemão. É uma figura conhecida. De acordo com a polícia, o motorista tinha sido brutalmente assassinado.
- Como?
- Decapitado. Paradeiro desconhecido,
- Quem? Não disse que estava no carro com ela?
- Falta a cabeça.
Eu é que tinha de adivinhar, não?
- Como é que eles dizem que a Tessa morreu?
- Um acidente. É só o que eles dizem.
- Foi roubada?
- A polícia diz que não.
A ausência de roubo, completada pela morte do motorista, punha a imaginação de Wloodrow a ferver. - Diga-me exactamente tudo o que sabe. Mildren descansou as enormes bochechas nas palmas das mãos enquanto consultava de novo o bloco estenografado.
- «Às nove e vinte e nove uma brigada móvel vinda do Comando da Polícia pediu para falar ao Alto Comissário - recitou ele.
- Expliquei que Sua Excelência se deslocara até à cidade, em visita a vários ministérios e deveria regressar às dez da manhã, o mais tardar. Pela voz, pareceu-me um oficial muito eficiente. Deu o nome. Disse que a notícia tinha vindo de Lodwar.
Lodwar?! Mas isso é longe de Turkana!
É o posto de polícia mais próximo, - replicou Mildren. - Um todo-o-terreno, pertencente à Pousada Oasis, em Turkaria, tinha sido encontrado abandonado na margem direita do lago, perto de Allia Bay, a caminho das escavações Leakey.
- Os cadáveres tinham pelo menos trinta e seis horas. Uma mulher branca, morte inexplicada, um Africano sem cabeça, identificado mais tarde como sendo o motorista Noali, casado, quatro filhos. Uma bota safar, «Mefisto», tamanho sete. Um blusão de mato azul, tamanho extra-grande, manchado de sangue, encontrado no chão do carro. A mulher, de vinte e cinco a trinta anos, cabelo escuro, uma aliança de ouro no anelar da mão esquerda. Uma corrente de ouro no chão do carro.
- Esse seu colar... - lembrou-se Woodrow de ter dito em tom trocista, enquanto dançavam.
- A mínha avó deu-o à minha mãe no dia do casamento, - respondeu ela. Uso-o com tudo, mesmo quando não se vê.
- Na cama também?
- Depende.
- Quem é que os encontrou? - perguntou Woodrow.
- O Wolfgang. Mandou um rádio à polícia e informou o escritório que ele tem aqui em Nairobi, também via rádio. O Oasis não tem telefone.
- Se o motorista não tinha cabeça, como é que souberam que era ele?
- Era aleijado de um braço. Por isso é que tomou a profissão de motorista.
O Wolfgang assistiu à partida da Tessa com o Noah no sábado às cinco e meia, na companhia de Arnold Blulim. Foi a última vez que os viu com vida.
Continuava a guiar-se pelas suas notas ou pelo menos fingia. Tinha ainda a cara entre as mãos e parecia decidido a assim permanecer, como se depreendia da rigidez obstinada dos ombros.
- Diga lá outra vez, - ordenou Woodrow, após uma pausa.
- A Tessa estava acompanhada pelo Arnold Blulim. Instalaram-se Juntos na Pousada Oasis, passaram lá a noite de sexta-feira e partiram na manhã seguinte, às cinco e meia, no jipe do Noah, - repetiu Mildren pacientemente. - O corpo de Blulim não estava no todo-o-terreno e não há nenhum vestígio dele. Pelo menos até agora. A polícia de Lodwar e a brigada móvel estão no terreno mas o comando da Polícia em Nairobi quer saber se pagamos ou não um helicóptero.
- Onde estão os corpos, neste momento? - perguntou Woodrow como bom filho de militar, seco e prático.
- Não se sabe. A Polícia queria que o Oasis ficasse com eles mas o Woffigang recusou. Disse que o pessoal sairia imediatamente porta fora e os clientes também. - Houve uma hesitação. - Ela registou-se na Pousada sob o nome de Tessa Abbott.
- Abbott?
- É o seu nome de solteira. «Tessa Abbott, com uma Caixa Postal em Nairobi.» É a nossa. Como não tínhamos nenhum Abbott, procurei-o no nosso computador e apareceu Quayle, Tessa, nome de solteira Abbott. Acho que é o nome que ela usa no seu trabalho de ajuda humanitária.
- Mildren estudava a última página das suas notas. - Tentei alertar o Alto Comissario, mas ele anda a visitar os ministérios e estamos em hora de ponta, - disse ele. Com isto queria dizer: isto é o Nairobi moderno do Presidente Moi, em que numa chamada local pode passar-se meia hora a ouvir: Desculpe, todas as linhas estão ocupadas, volte a ligar porfavor, repetido vezes sem fim por uma simpática voz feminina de meia-idade.
Woodrow já tinha chegado à porta.

- E não contou a ninguém?


- Nem um pio.
- E a polícia contou?
- Eles dizem que não. Mas não põem as mãos no fogo pelo pessoal de Lodwar. Nem por eles próprios, creio eu.
- E quanto a si, Justin também não sabe de nada?
- Exato.
- Onde está ele?
- Calculo que no seu gabinete.
- Não o deixe sair de lá.
- Ele hoje chegou cedo. É o costume, quando a Tessa viaja pelo mato. Acha que cancele a reunião?
- Espere.
Consciente agora - se é que alguma vez duvidara - de que estava a braços com um mega-escândalo, além de uma tragédia, Woodrow esgueirou-se por umas escadas das traseiras marcadas «Só para Pessoal Autorizado» e subiu uma passagem lúgubre que levava até uma porta de aço com uma campainha e um olho-de-boi. Uma câmara de televisão seguiu-o enquanto ele tocava a campainha. A porta foi aberta por uma ruiva magra que usava jeans e uma blusa solta às flores. Sheila, o número dois deles, que fala Swahili, pensou ele automaticamente.
- O Tim está? - perguntou.
Sheila premiu um besouro e falou para uma caixa. - É o Sandy e está com pressa.
- Só um minuto, - gritou uma voz de homem. Esperaram.
- A costa está completamente livre, agora - disse a mesma voz bem disposta enquanto se abria outra porta.
Sheila recuou e Woodrow seguiu-a para dentro da sala. Tim Donohue, Chefe do MI5 local, um metro e noventa, estava de pé diante da sua secretária. Devia ter estado a arrumá-la, porque não havia um único papel à vista. Donoluie tinha ainda mais mau parecer do que o costume. Gloria, a mulher de Woodrow, dizia sempre que ele devia estar à morte. Faces encovadas e sem cor, bolsas de pele enrugada sob os olhos amarelados e descaídos. O bigode desgrenhado e puxado para baixo numa expressão cômica de desespero.
- Olá, Sandy. Que é que podemos fazer por si? - gritou ele, espreitando Woodrow por cima dos bifocais com o seu sorriso de caveira.
Este é perspicaz demais, lembrou-se Woodrow. Faz um voo planado sobre o nosso território e intercepta os sinais ainda antes de serem executados.
- Tessa Quay1e parece ter sido assassinada algures perto do Lago Turkana, - disse ele, com um desejo vingativo de chocar. - Há lá um sítio chamado Pousada Oasis. Preciso de falar pela rádio com o proprietário.
São treinados para isto, pensou. Regra número um: nunca demonstrar os seus sentimentos, se eles existirem. A cara sardenta de Sheila estava imóvel, pensativa. Tim Donohue mantinha o seu sorriso parvo - de qualquer modo aquele sorriso nunca tivera nenhum significado.
- O quê, caro amigo?! Repita lá isso.
- Assassinada. Método desconhecido ou a polícia não quer dizê-lo. O condutor do jipe onde ela ia ficou sem cabeça. A história é essa.
- Morta e roubada?
- Assassinada. Só.
- Perto do Lago Turkana?
- Sim.
- Que raio tinha ido ela lá fazer?
- Não faço ideia. Ao que dizem, ia visitar as escavações Leakey.
- O Justin já sabe?
- Ainda não.
- Estará envolvido alguém nosso conhecido?
- É uma das coisas que ando a investigar.
Donohue conduziu-o a uma cabine à prova de som que Woodrow nunca vira antes. Havia telefones de cores variadas com cavidades para introduzir richas de código. Uma máquina de fax pousada sobre uma coisa que parecia um barril de petróleo. Um aparelho de rádio formado por caixas de metal verde. Um livro de endereços escrito à mão pousado em cima. É então assim que os nossos espiões cochicham uns com os outros dentro das nossas embaixadas, pensou ele. Nas mais altas esferas ou no submundo do crime? Nunca o soubera. Donohue sentou-se em frente do rádio, procurou na lista de endereços, depois manuseou os contrôles com os dedos brancos e tremelicantes enquanto entoava «ZN13 85, ZN13 85 chamando TKA 6N, como o herói num filme de guerra. «TKA 6O, está-me a ouvir, por favor? Escuto. Oasis, está-me a ouvir, Oasis?»
Uma explosão de electricidade estática, seguida por uma voz autoritária: «Aqui Oasis. Ouço perfeitamente. Quem é você? Escuto» - com um sotaque germânico de baixa extracção.
- «Alô Oasis, aqui a Alta Comissão Britânica em Nairobi, vou-lhe passar Sandy Woodrow. Escuto».
Woodrow apoiou as mãos na secretária de Donohue, para se aproximar do microfone:
- Aqui Woodrow, Chefe de Chancelaria. Estou a falar com Wolfgang? Escuto.
- Chancelaria, como a do Hitler?
- Secção política. Escuto.
- Okay senhor Chanceler, eu sou o Wolfgang. Que deseja saber? Escuto.
- Quero que me dê, por favor, pelas suas próprias palavras a descrição da mulher que passou a noite no seu hotel sob o nome de Miss Tessa Abbott. É assim, não é? Foi o nome que ela escreveu? Escuto.
- Claro: Tessa.
- Como era ela, fisicamente? Escuto.
- Cabelo escuro, sem maquilhagem, alta, vinte e muitos e não era inglesa. Cá para mim, não era. Alemã do Sul, austríaca ou italiana. Eu sou hoteleiro, reparo nas pessoas. E ela era linda! Também sou homem. Aquele modo de andar, sexy como um animal... E o que ela trazia vestido... dava ideia que se podia tirar aquilo tudo só com um sopro, Parece-lhe a sua Abbott ou outra pessoa qualquer? Escuto.
A cabeça de Donohue estava a poucos centímetros da sua. Sheila estava de pé do outro lado. Todos três olhavam fixamente para o microfone.
- Sim. Parece ser Miss Abbott. Pode dizer-me por favor quando é que ela fez a reserva no seu hotel e como? Acho que o senhor tem um escritório em Nairobi. Escuto.
- Ela não fez reserva nenhuma.
- Como?
- O Dr. Bluhrn é que fez as reservas; duas pessoas, dois bangalôs perto da piscina, por uma noite, Só temos um bangalô livre, disse-lhe eu. Está bem, fico com esse. E era cá um tipo...! Uau! Toda a gente reparou neles, tanto os hóspedes como o pessoal. Uma mulher branca lindíssima, um médico africano lindíssimo. Um prazer para os olhos. Escuto.
- Quantos quartos tem cada bangalô? - perguntou Woodrow, na esperança vã de afastar o escândalo que se perfilava na sua frente.
- Um quarto de dormir com duas camas confortáveis, colchões de molas muito macios. Aqui toda a gente tem de assinar o registo. Nada de nomes falsos, digo-lhes eu sempre. Há gente que se perde e eu é que tenho de saber quem são. Esse é mesmo o nome dela, não é? Abbott? Escuto.
- É o nome de solteira. O número da posta restante que ela deu é o da Embaixada.
- E o marido onde está?
- Aqui em Nairobi.
- Oh c’os diabos!
- E então, quando é que Bluhm fez a reserva? Escuto.
- Quinta-feira. Na quinta-feira ao fim da tarde. Mandou-me um rádio de Loki a dizer que esperavam partir logo na madrugada de sexta. Loki quer dizer Lokichoggio, perto da fronteira norte, É a sede das agências de Auxílio Humanitário que operam no sul do Sudão. Escuto.
- Sei onde é. Disseram o que estavam lá a fazer?
- Assuntos lá do Auxílio. O Bluhm trabalha nesse negócio, não é? É a única razão de se estar em Loki. Disse que estava a trabalhar por conta de uma ínstituição médica belga. Escuto.
Então ele telefonou de Loki e saíram de Loki na sexta-feira de manhã cedo? Escuto,
- Disse que esperavam chegar ao lado oeste do lago por volta do meio-dia. Queriam que eu lhes arranjasse um barco para os trazer para a outra margem até ao Oasis. «Ouça lá», disse eu, «Lokichoggio a Turkana não é nenhum piquenique. Aconselho-os ajuntarem-se a uma caravana de mantimentos. As montanhas fervilham de bandidos, as tribos andam a roubar o gado umas às outras, o que é normal, só que há dez anos atrás só tinham lanças e agora não há quem não tenha uma AK 47.» Ele riu e respondeu que era capaz de se desenrascar sozinho. E assim foi. Cá chegaram sem problemas. Escuto.
- Então, eles chegaram e assinaram o registo. E depois? Escuto.
- O Bluhm diz então que precisam de um jipe e de um motorista para irem até às escavações Leakey no dia seguinte ao romper da aurora. Não me pergunte porque é que ele não falou nisso quando fez as reservas, nem eu lhe perguntei, Talvez fosse uma decisão de última hora, Talvez não quisessem falar dos seus planos pelo rádio. Eu cá respondi: «Okay, vocês estão cheios de sorte.
O Noah está livre,» o Bluhm ficou encantado, ela também. Vão para o jardim, tomam banho na piscina, sentam-se no bar os dois, jantam os dois, dizem boa-noite a toda a gente e recolhem ao bangalô. De manhã, partem juntos. Eu assisti. Querem saber o que eles comeram ao pequeno-almoço?
- Quem é que os viu partir, além de si? Escuto.

- Viu-os toda a gente que estava acordada. Levaram almoço, garrafas de água, gasolina de reserva, rações de emergência, caixa de prontos-socorros, produtos farmacêuticos. Os três sentados à frente como uma família feliz. Isto aqui é um oásis, percebe? Tenho vinte hóspedes, a maioria aínda está a dormir.


Tenho quarenta empregados, a maior parte já está levantada. Tenho uma centena de tipos que não fazem absolutamente nada para mim, a cirandar pelo meu parque de estacionamento vendendo peles de animais, bengalas e facas de mato. Toda a gente que assiste à partida do Blulim e da Abbott lhes acena adeus com a mão. Aceno eu, acenam os vendedores ambulantes, o Noah acena também em despedida, Bluhm e Abbott também. Não sorriem. Vão muito sérios. Como se tivessem um negócio importante a concluir, uma decisão de vida ou de morte, sei lá! O que quer o senhor que eu faça, senhor Chanceler? Que mate as testemunhas? Oiça, faça de conta que eu sou o Galileu. Meta-me na cadeia e eu juro que ela nunca pôs os pés no Oasis. Nunca por nunca ser. Escuto.
Por um momento Woodrow, paralisado, não teve mais perguntas a fazer ou talvez tivesse demasiadas. já estou na prisão, pensou ele. A minha sentença é perpétua e começou há cinco minutos. Passou a mão pelos olhos e quando a tirou viu Donohue e Sheila olharem-no com a mesma expressão totalmente vazia que tinham quando ele lhes dissera que ela tinha morrido.
- Quando é que percebeu pela primeira vez que qualquer coisa tinha corrido mal? Escuto, - e acrescentou, atrapalhadamente: - Oiça, o senhor vive aí todo o ano? ... ou há quanto tempo dirige essa agradável pousada? Escuto.
- O todo-o-terreno tem rádio. Quando vai levar os hóspedes a passear, o Noah deve chamar para cá a dizer que está tudo a correr bem. Ora o Noali não chamou. Bem sei que os rádios nem sempre funcionam. Que os motoristas se esquecem. E que as ligações são chatas de fazer: tem que se parar o carro, sair, tirar o material para fora, montar a antena... Ainda me está a ouvir? Escuto.
- Ouço-o perfeitamente. Escuto.
- Mas é que o Noah nunca se esquece. Por essas e por outras é que ele é o meu motorista. Ora ele não chamou. Nem à tarde nem à noite. E eu pensei: okay, devem ter acampado num sítio qualquer, deixaram o Noah beber demais ou coisa assim. À noite antes de fechar falei pela rádio com a guarda florestal mais perto das escavações Leakey. Nem sinal deles. No dia seguinte logo de manhã vou a Lodwar participar o acontecido. O jipe é meu? É sim senhor e o motorista também. Mas não tenho autorização para participar o desaparecimento pelo rádio, tenho de lá ir em pessoa. É um raio de uma viagem, mas é a lei. A polícia de Lodwar adora realmente ajudar os cidadãos em dificuldade.
O meu jipe desapareceu? Raio de chatice. Levava dois dos meus hóspedes e mais o meu motorista? Então porque é que não vou lá eu à procura? É domingo, hoje não se trabalha. Têm de ir à igreja. «Dê cá umas massas, arranje-nos um carro, talvez lhe possamos dar uma mão» - dizem eles. Voltei para casa e organizei um grupo de busca. Escuto.
- Consistindo em quê? - Woodrow começava a recuperar o passo.
- Dois grupos, com os meus empregados, dois jipes, água, combustível de reserva, mantimentos, material de prontos-socorros e whísky para o caso de ser preciso eu desinfectar alguma coisa. Escuto. - Ouviu-se na rádio uma intervenção cruzada. Wolfgang mandou-a sair do ar, merda! Surpreendentemente, obedeceram. - Aqui está um calor dos diabos, senhor Chanceler. Temos 42 graus centígrados e além disso chacais e hienas como vocês têm ratos. Escuto.
Pausa, aparentemente esperando a resposta de Woodrow.
- Estou a ouvir, - disseWoodrow.
- O jipe está tombado de lado, não me pergunte porquê. Uma janela está aberta p’ra aí uns cinco centímetros. Alguém fechou as portas, trancou-as e levou a chave. O cheiro, só pela fresta da janela, é indescritível. Há arranhões de hienas por todos os lados e amolgadelas por onde elas tentaram entrar. A toda à volta, rastos profundos como se elas tivessem endoidecido. Uma boa hiena cheira sangue a dez quilómetros de distância. Se tivessem conseguido chegar aos corpos tinham-nos aberto duma dentada e chupado o tutano de dentro dos ossos. Mas não puderam. Alguém lhes fechou as portas e deixou uma fresta da janela aberta. Devem ter ficado loucas. O senhor também ficava, se fosse consigo. Escuto.
Woodrow esforçou-se por fazer uma pergunta:
- A polícia diz que o Noah foi decapitado. É verdade? Escuto.
- Claro que é verdade. Era um gajo porreiro. A família ficou de rastos. Há gente à procura da cabeça por tudo quanto é sítio. É que, se não se encontrar a cabeça, não lhe podem dar um enterro decente e o espírito dele vai voltar à terra para os atormentar. Escuto.
- E quanto a Miss Abbott? Escuto. - Uma visão obscena de Tessa sem cabeça.
- Não lhe disseram nada?
- Não. Escuto.
- Garganta aberta de lado a lado. Escuto.
Segunda visão, desta vez o punho do assassino a arrancar a corrente de ouro para dar lugar à faca. Wolfgang continuava a contar o resto.
- Primeiro, disse aos meus rapazes que deixassem as portas fechadas. Lá dentro não há ninguém vivo. Quem abrir as portas vai passar um mau bocado. Deixei um grupo para fazer uma fogueira e ficar de guarda e levei os outros comigo para o Oasis. Escuto.
- Uma pergunta... Escuto. - Woodrow tinha dificuldade em aguentar-se.
- Qual é a pergunta, senhor Chanceler? Continue por favor. Escuto.
- Quem abriu o jipe? Escuto.
- A polícia. Logo que a polícia chegou, os meus rapazes puseram-se a andar. Ninguém gosta da polícia. Ninguém gosta de ser preso. Pelo menos cá p’ra estes lados. A polícia de Lodwar foi quem chegou primeiro, agora cá está a brigada móvel, mais uns gajos da Gestapo pessoal do Moi. Os meus rapazes já fecharam a caixa registadora e esconderam as pratas, só que eu não tenho pratas. Escuto.
Mais uma pausa, enquanto Woodrow lutava por encontrar palavras.
- Bluhm levava algum casaco tipo sabariana quando começaram a viagem? Escuto.
- Claro. Um bastante usado, mais no género de um colete. Azul. Escuto.
- Acharam alguma faca no local do crime? Escuto.
- Não. E foi cá uma faca... só lhe digo! Uma cataria com uma lâmina Wilkinson. Atravessou o Noah como se fosse manteiga. Dum só golpe. E com ela foi o mesmo. Vinim... A roupa arrancada, nua em pelo. Cheia de nódoas negras. já lhe tinha dito? Escuto.
Não, não tinhas dito nada, respondeu Woodrow em silêncio. Omitiste completamente a nudez dela. E as nódoas negras também.
- Havia alguma cataria no todo-o-terreno quando eles partiram do seu hotel? Escuto.
- Nunca conheci um africano que não levasse uma cataria num safari, senhor Chanceler.
- Onde estão os corpos neste momento?
- O Noah, ou o que restava dele, foi entregue à tribo. Quanto a Miss Abbott, a polícia mandou-a buscar numa lancha. Tiveram de serrar o tecto do jipe. Serviram-se do nosso equipamento de cortar metal. Depois ataram-na ao convés. Não havia sítio para ela lá em baixo. Escuto.
- Porquê? - e arrependeu-se imediatamente de ter perguntado.
- Use a sua imaginação, senhor Chanceler. Sabe o que acontece aos cadáveres com um calor destes? Se quisessem levá-la de helicóptero, tinham de a cortar aos bocados, senão, não entrava na cabine.
Woodrow teve um momento de ausência mental e quando veio a si ouviu Wolfgang dizer que sim, já tinha conhecido Blulim antes. Woodrow depreendeu que fizera a pergunta, embora não se lembrasse de se ouvir a si próprio.
- Há uns nove meses. Servindo de guia a um grupo de figurões lá desse negócio da ajuda humanitária. Comida mundial, saúde mundial, despesas mundiais. Os sacarias gastaram uma porrada de massa e queriam recibos do dobro do dinheiro. Mandei-os levar no cu. O Blulim adorou. Escuto.
- Como é que ele lhe pareceu, desta vez? Escuto.

- Que é que isso quer dizer?


- Estava diferente, de alguma maneira? Excitado, ou estranho ou qualquer coisa?
- Que é que o senhor quer dizer com isso, senhor Chanceler?
- Quero dizer... acha possível que ele tivesse tomado alguma coisa? Que estivesse drogado, quero dizer... - estava cada vez mais atrapalhado - Bom, quero dizer... não sei... cocaína ou coisa assim? Escuto.
- Oh meu rico senhor - disseWolfgang e a chamada caiu.
Woodrow sentiu de novo o olhar penetrante de Donohue. Sheila desaparecera. Woodrow teve a impressão de que ela tinha ido fazer qualquer coisa de urgente. Mas o que seria? Porque é que a morte de Tessa exigia a acção urgente de espiões? Teve um calafrio e vontade de vestir um casaco de malha, embora sentisse o suor a escorrer por ele abaixo.
- Não quer mais nada de nós, caro amigo? - perguntou Donohue com uma estranha solicitude, continuando a olhá-lo de alto com o seu ar desgrenhado e doentio. - Talvez um copo de alguma coisa?
- Obrigado. Neste momento, não.
Eles já sabiam, pensou Woodrow enfurecido, enquanto voltava para baixo. Sabiam que ela estava morta antes de eu saber. Mas isso é o que eles querem que a gente pense: nós os espiões sabemos sempre mais do que tu e antes do que tu.
- O Alto Comissário já chegou? - perguntou metendo a cabeça pela abertura da porta de Mildren.
- Está a chegar.
- Desconvoque a reunião.
Woodrow não se dirigiu directamente para o gabinete de Justin. Foi ver Chita Pearson, a funcionária mais recente da Chancelaria, amiga e confidente de Tessa. Chita tinha olhos escuros, cabelo loiro, era anglo-indiana e usava na testa a marca da sua casta. Empregada em Nairobi, recordou Woodrow, mas deseja fazer carreira no Ministério. Uma ruga de desconfiança apareceu na testa dela quando o viu fechar a porta à chave atrás de si.
- Chita, aqui vai uma pergunta para si, pode ser? - Ela olhou-o nos olhos, à espera. - Bluhm. Doutor Arnold Blulim. Então?
Então o quê?
É um amigo seu? - Ela não respondeu. - Quer dizer, conhece-o, é seu amigo.
- É um contacto. - As funções de Chita incluíam contacto diário com as agências humanitárias.
- E é amigo de Tessa, obviamente. - Dos olhos escuros de Chita não houve comentário. - Conhece mais alguém da equipa dele?
- Falo com a Charlotte de vez em quando. É a secretária. Os outros só fazem trabalho de campo. Porquê? - Aquela cadência anglo-indiana na voz dela, que ele sempre achara tão sedutora... Mas nunca mais. Nunca mais com ninguém.
- Bluhm esteve em Lokichoggio na semana passada. Não estava só.
Outro aceno de cabeça, mais lento, e um baixar de olhos.
- Quero saber o que é que ele lá foi fazer. De Loki atravessou até o -turkanã. Preciso de saber se ele já voltou para Nairobi. Ou talvez tivesse regressado a Loki. Pode saber isso sem fazer muitas ondas?
- Duvido.
- Mas tente. - Ocorreu-lhe uma pergunta. Em todos os meses desde que connhecera Tessa, nunca pensara nisso senão agora. - Sabe se Blulun é casado?
- Eu diria que sim. Acontece, mais tarde ou mais cedo. Geralmente eles são casados, não são?
Eles, quem? Eles, os africanos? Ou eles, os amantes? Todos os amantes?
- Mas a mulher não vive cá? Ele não tem uma esposa em Nairobi. Ou pelo nenos, nunca se ouviu falar. De Bluhm, não.
- Porquê? - e de repente, muito baixo: - Aconteceu alguma coisa à Tessa?
- Pode ter acontecido. É o que estamos a averiguar.
Ao chegar à porta do escritório de Justin, Woodrow bateu e entrou sem esperar por resposta. Desta vez não fez girar a chave na fechadura mas, de mãos nos bolsos, encostou os largos ombros contra a porta, o que serviu ao seu propósito enquanto ali permaneceu.
As costas elegantes de Justin estavam viradas para ele. A sua cabeça bem tratada estava virada para a parede e ele estudava um gráfico, um entre os vários que forravam a sala, cada um com o seu cabeçalho de iniciais a preto e os seus degraus de várias cores subindo ou descendo. O gráfico a que ele prestava especial atenção intitulava-se lNFRA-ESTRUTURAS RELATIVAS 2OO5-2O1O e pretc”diatn, tanto quanto Woodrow podia julgar do ponto onde se encontrava, predizer a prosperidade futura das nações africanas. No peitoril da janela à esquerda de Justin perfilava-se uma bicha de vasos de plantas que ele cultivava. Woodrow pôde identificar jasmim e balsamina, porque Justin tinha oferecido a Glória plantas dessas.
- Olá, Sandy - disse Justin prolongando o olá.
- Olá.
- Parece que não temos reunião esta manhã. Houve alguma trapalhada nesta casa?
Aquela famosa voz de oiro, pensou Woodrow, reparando em cada pormenor como se fosse a primeira vez. Tocada pelos anos mas de charme garantido, enqoanto o tom se sobrepusesse à substância. Para que estarei eu aqui a pensar mal de ti, quando estou prestes a mudar a tua vida para sempre? De agora até ao fim dos teus dias haverá sempre o antes e o depois deste momento e serão eras diferentes para ti como já o são para mim. Porque é que não tiras o raio do casaco? Deves ser actualmente o único neste Serviço que manda fazer no alfaiate os fatos tropicais. Depois lembrou-se que ele próprio também estava de casaco vestido.
- E vocês estão todos bem, ao menos? - perguntou Justin no seu amável tom arrastado. - A Glória não murchou ainda com este calor horrível? Os rapazes, ambos florescentes como de costume?
- Estamos óptimos. - Um silêncio, cuidadosamente elaborado por Woodrow. - E a Tessa, lá anda pelo mato, - sugeriu. Estava a dar-lhe, a ela, uma última oportunidade de aparecer a dizer que era tudo um terrível engano.
De repente, Justín tornou-se prolixo, o que lhe acontecia sempre que o nome de Tessa era proferido diante dele. - Sim, realmente! O trabalho dela na comissão de auxílio não tem parança nos dias que correm. - Estava abraçado a um volume das Nações Unidas de meio palmo de espessura. Curvando-se de novo, pousou-o numa mesinha de apoio. - A este ritmo, ela terá salvo a África em peso antes de nos irmos embora.
- O que é que ela foi fazer ao mato, precisamente? - Woodrow agarrava-se à última palha. - Pensei que o trabalho dela era agora mais aqui em Nairobi. Nos bairros de lata. Em Kíbera, não é?
- O mais possível, - disse Justin com orgulho. - Dia e noite, pobre rapariga. Faz de tudo ao que me dizem, desde limpar o rabo aos bebés, até pôr a gente mais atrasada a par dos seus direitos civis. A maioria dos clientes são mulheres, claro, o que lhe agrada imenso. Embora não agrade tanto como isso aos homens lá da família delas. - O seu sorriso melancólico, que queria dizer se fosse só a eles... - Direitos de propriedade, divórcio, abuso físico, violação marital, excisão feminina, sexo seguro. O menu completo, todos os dias. Estás a ver porque é que os maridos ficam um bocado ressentidos, não estás? Eu ficava, se fosse um violador marital.
- Então é isso que ela anda a fazer lá no mato? - insistiu Woodrow.
- Oh, só Deus sabe... Deus e o Doutor Arnold, - lançou Justin num tom excessivamente casual - Arnold é o guia e o filósofo dela lá naquelas bandas. Então é esse o jogo dele, pensou Woodrow. A história que dá cobertura a todos três: Arnold Bluhm, médico, é o tutor moral dela, o seu cavaleiro negro e o seu protector na selva do auxílio humanitário. Tudo menos o amante tolerado. - Naquelas bandas, onde exactamente? - perguntou.
- Em Loíci. Lokichoggio. - Justin sentara-se na borda da secretária, talvez numa imitação inconsciente da postura descontraída de Woodrow contra a porta. - Aquela gente do Programa Alimentar Mundial tem lá um workshop sobre a consciência do sexo! Pode-se imaginar uma coisa dessas? Trazem de avião camponesas completamente ignorantes que apanham no Sul do Sudão, dão-lhes um curso-relâmpago sobre o John Stuart Mill e depois levam-nas outra vez de avião para a terra delas, já a par de tudo. Arnold e Tessa foram lá assistir a essa brincadeira. Cheios de sorte!
- Onde está ela agora?
Justín pareceu não gostar da pergunta. Talvez fosse nesse momento que se apercebeu que havia um propósito oculto na conversa de chacha de Woodrow. Ou então - pensou Woodrow - não lhe agradava sentir-se encurralado por uma pergunta acerca de Tessa a que ele próprio não estava seguro de saber responder.
- Deve vir a caminho de casa. Porquê?
- Com Arnold.
- Certamente. Ele não ia deixá-la por lá sozinha.
- Tem havido algum contacto da parte dela?
- Para mim? De Loki? Como é que ela fazia? Lá não há telefone.
- Pensei que ela pudesse ter usado um dos contactos pelo rádio da própria agência de auxílio. Não é o que as outras pessoas costumam fazer?
-A Tessa não é como as outras pessoas. - Replicou Justin, enrugando a testa levemente. - Tem princípios firmes. Não gosta de gastar o dinheiro dos donativos sem ser necessário. Que se passa, Sandy?
Justin, agora de sobrolho franzido, desencostou-se da secretária e veio postar-se a meio da sala com as mãos atrás das costas. E Woodrow, observando aquele rosto belo e inteligente e o cabelo que começava a ficar grisalho à luz do sol, lembrou-se do cabelo de Tessa, exactamente da mesma cor mas sem a idade, nem a moderação. Lembrou-se da primeira vez que os vira juntos, Tessa e Justin, os novos recém-chegados, um par de recém-casados ambos lindíssimos, convidados de honra do jantar de boas-vindas do Alto Comissário de Nairobi. E de como, ao avançar para os cumprimentos, ele imaginara para consigo que se tratava de pai e filha e que ele a ia pedir em casamento,
- Então quando foi a última vez que tiveste notícias dela? - perguntou.
- Na terça-feira quando os fui levar ao aeroporto. Que é isto, Sandy? Se o Arnold está com ela, ela deve estar bem, Ela faz o que lhe mandarem.
- Achas que ela pode ter ido até ao Lago Turka-na, ela e o Bluhm... o Arnold?
- Se lhes apeteceu e tinham transporte, porque não? A Tessa adora os lugares selvagens, tinha o Richard Leakey em grande conta, tanto como arqueólogo como um africano branco decente. O Leakey deve ter uma clínica para aqueles lados, não? Arnold se calhar tinha lá trabalho e levou-o com ele... Sandy, o que vem a ser isto? - repetiu indignado.
Ao desferir o golpe mortal, Woodrow não pôde deixar de observar o efeito das suas palavras na cara de Justin. Viu os últimos sinais da juventude passada de Justin retirarem-se como uma onda, como se ele fosse um ser marinho e o seu belo rosto fechou-se e endureceu, deixando só a aparência do coral,
- Temos estado a receber relatórios acerca de uma mulher branca e um motorísta negro encontrados na margem leste do Lago Turkana. Ambos mortos.
- Woodrow começou devagar, evitando deliberadamente a palavra «assassinados». - O carro e o motorista tinham sido alugados na Pousada Oasis. O proprietário da pousada pretende ter identificado a mulher como sendo Tessa. Diz que ela e Bluhm passaram a noite no Oasis antes de partirem para as escavações Leakey. Bluhm ainda não foi encontrado, Encontraram a corrente de ouro dela, a que ela usava sempre.
Como é que eu estou a par disto? Por que raio é que eu escolhi este momento para alardear o meu conhecimento íntimo acerca do colar dela?
Woodrow continuava a observar Justin. O cobarde que havia nele queria afastar o olhar, mas para um filho de militar seria o mesmo que condenar um homem à morte e não comparecer ao seu enforcamento. Viu os olhos de Justin dilatarem-se num desapontamento mortal, como se tivesse sido atingido pelas costas por amigo íntimo, depois apagarem-se quase totalmente, como se o mesmo amigo o tivesse posto knock-out. Viu aquela boca perfeitamente esculpída abrir-se num espasmo de dor física, depois fechar-se de novo numa linha de músculos comprimidos até à lividez.
- Obrigado por me teres dito, Sandy. Não deve ter sido agradável. O Porter sabe?
Porter era, estranhamente, o primeiro nome do Alto Comissário.
- O Mildren anda a ver se o encontra. Acharam uma bota Mephísto, tamanho sete. Diz-te alguma coisa?
Justin estava a ter dificuldades de coordenação. Tinha de esperar algum tempo antes que o som das palavras de Woodrow chegasse ao seu entendimento. Depois apressou-se a responder em frases curtas, saídas a custo. - Naquela loja em Piccadilly. Ela comprou lá três pares da última vez que fomos de licença. Nunca a tinha visto fazer uma extravagância daquelas. Como regra, não é esbanjadora. Nunca teve de se preocupar com dinheiro, por isso nem pensava nele. Por ela, só comprava roupa nas lojas do Exército de Salvação.
- Usava uma espécie de sahariana. Azul.
- Ah, ela detestava essa maldita coisa, - respondeu Justin, recuperando torrencialmente a faculdade da fala. - Costumava dizer que, se eu alguma vez a apanhasse a usar uma daquelas geringonças de caqui com algibeiras nas coxas, devia queimá-la ou dá-Ia ao Mustafa.
Mustafa era o seu criado de casa, Woodrow lembrava-se. - A policia falou em «azul».
- Ela detestava o azul - agora parecia prestes a perder a paciência - ela odiava absolutamente tudo o que era paramilitar. - já estava a usar os verbos no passado, notou Woodrow. -Teve em tempos uma sabariana verde, garanto, comprada no Farbelo-,Vs em Stariley Street. Fui eu que a levei, nem sei porquê. Provavelmente ela pediu-me. Detestava fazer compras. Vestíu-a e fez logo uma cena. - Olha para isto - disse ela, - Pareço o General Patton em travesti.
- Não, rapariga - disse eu - olha que não pareces o General Patton. Pareces uma mulher linda vestida com uma horrorosa sahariana verde caqui.
Começou a arrumar a secretária, com precisão e minúcía, preparando-se para a partida. Abrindo e fechando as gavetas, metendo as suas pastas de arquivo no cofre-forte e fechando-o. Alisava o cabelo de vez em quando distraidamente, um tique com que Woodrow sempre embirrara. Desligou cautelosamente o seu computador que detestava, com o indicador espetado como se tivesse medo que ele lhe mordesse. Dizia-se que pedira a Chita Pearson que lho ligasse todas as manhãs. Woodrow viu-o lançar à volta da sala um último olhar vazio. Fim da época. Fim da vida. É favor deixar este sítio arrumado e livre para o próximo ocupante. À porta Justin voltou-se e olhou para as plantas no peitoril da janela, hesitando talvez se havia de levá-las consigo ou pelo menos dar instruções para a sua conservação, mas não fez nem uma coisa nem outra.
Acompanhando Justin ao longo do corredor, Woodrow fez menção de lhe tocar no braço, mas uma espécie de repugnância prendeu-lhe a mão antes de fazer contacto. Não obstante, teve o cuidado de seguir ao lado dele suficientemente perto para o apoiar se ele caísse ou de algum modo tropeçasse, porque nesse momento Justin tinha o ar de um sonâmbulo bem vestido que tivesse abdicado do seu sentido de orientação. Caminhavam devagar e sem fazer barulho, mas Chita devia tê-los ouvido, porque à passagem deles abriu a porta do seu gabinete e acompanhou em bicos de pés Woodrow durante uns passos, sussurrando-lhe ao ouvido, tendo o cuidado de segurar com a mão o seu cabelo dourado para que não roçasse por ele.
- Ele desapareceu. Andam à procura dele por todo o lado.
Mas o ouvido de Justin era melhor do que eles julgavam. Ou talvez, naquele extremo de emoção, as suas percepções fossem anormalmente agudas.
- Suponho que estão preocupados com Arnold - disse ele a Chita no tom amável de um transeunte indicando uma direcção.
O Alto Comissário era um homem um tanto vago, superinteligente, eternamente em estudo de qualquer matéria. Tinha um filho banqueiro, uma filha pequena chamada Rosie, deficiente mental e uma mulher que era Juíza de Paz quando estava em Inglaterra. Adorava-os a todos igualmente e passava os fins-de-semana com Rosie amarrada ao seu peito por braçadeiras. O próprio Coleridge ficara como que abandonado nas margens da idade adulta, Usava uns suspensórios de rapazola com umas calças largueironas. O casaco correspondente estava pendurado atrás da porta num cabide com o seu nome: R Coleridge, Balliol. Estava postado no centro do seu enorme escritório, a guedelha inclinada raivosamente para Woodrow, que acabava de falar. Corriam-lhe lágrimas pela cara abaixo.
- Balliol: um dos colégios da Universidade de Oxford. (N, T)
- Porra!, - exclamou furioso, como se tivesse esperado muito tempo para se livrar da palavra.
- Também digo, - murmurou Woodrow.
- Pobre rapariga!... Que idade é que ela tinha? Era uma criança!
- Vinte e cinco. Pr’aí - Como é que eu sabia? - - acrescentou vagamente.
- Não parecia ter mais de dezoito. E aquele desgraçado do Justin, mais as suas flores de estimação...
- Também digo, - repetiu Woodrow.

- A Ghita já sabe?


- Mais ou menos.
- Que raio vai ele fazer da vida dele? Nem sequer tem uma carreira que se veja. Estavam todos a contar mandá-lo embora no fim desta volta. Se não fosse a Tessa perder o bebé, coitada, ele tinha ido fora com o refugo. - Cansado de estar quieto, Coleridge avançou para outro lado da sala. - A Rosie pescou uma truta de um quilo no sábado passado. - Lançou ele em ar de desafio. - Que é que me diz a esta, hein?
Coleridge tinha aquele hábito de ganhar tempo com inesperadas digressões.
- Formidável! - disse Woodrow, como lhe cabia.
- A Tessa é que havia de ficar encantada. Sempre disse que a Rosie se safava muito bem. E a Rosie adorava-a.
- Via-se logo.
- Repare que não a quis comer. Tivemos que manter o bicho em respiração assistida durante o fim-de-semana e depois lá o enterrámos no jardim.
- Endireitou os ombros, sinal de que tinha voltado ao assunto em discussão.
- Há aqui uma história por trás disto, Sandy. A sacana duma história dos diabos.
- A quem o diz.
- Esse filho da puta do Pellegrin já anda a falar para aqui, a barregar que temos de limitar os estragos», - Sir Bernard Pellegrin era o mandarim dos Negócios Estrangeiros especialmente responsável por África e inimigo figadal de Coleridge. - Como raio é que havemos de limitar os estragos quando não sabemos quais são os sacanas dos estragos? Também lhe deve ter prejudicado a partida de tênis, aposto.
- Ela esteve com o Bluhm durante quatro dias e quatro noites antes de morrer, - disse Woodrow, após um relance para a porta para se certificar de que ainda estava fechada. - Talvez isso faça parte dos estragos. Estiveram em Lokh i e depois estiveram no Turkana. Partilharam um bangalô e só Deus sabe que mais. Foram vistos por uma catrefa de gente.
- Obrigado. Muito e muito obrigado. Era mesmo isso que eu precisava ouvir. - Enterrando as mãos nos bolsos das largas calças, Coleridge vagueou pela sala. - E onde raio é que está o sacana do Bluhm, já agora
- Dizem que andam à procura dele desesperadamente. A última vez que foi visto estava sentado no jipe ao lado de Tessa quando partiram para as escavações.
Coleridge foi lentamente até à sua cadeira e deixou-se cair nela com os braços abertos. - Então foi o mordomo. - disse ele. - Bluhm esqueceu a sua educação, deu em doido varrido, chacinou os outros dois, meteu a cabeça do Noah num saco como recordação, deitou o jipe de lado, fechou as portas à chave e largou a correr. Mete-se pelos olhos dentro, não é? Porra!
- Conhece-o tão bem como eu.
- Ah isso é que não conheço! Nem me chego a ele. Detesto ver estrelas de cinema nessa coisa da ajuda humanitária. Para onde raio é que ele foi? Onde está ele?
Várias imagens passaram pelo espírito de Woodrow. Bluhm, o Negro da Civilização Ocidental, o Apolo barbudo de Nairobi, o da malta dos cocktaíls, carismático, espirituoso, belo. Bluhm e Tessa lado a lado, cumprimentando os convidados enquanto Justin, o querido das velhas debutantes, ronrona, sorrindo e passando as bebidas. O Dr. Arnold Bluhm, em tempos herói da guerra na Argélia, discursando da tribuna da sala de conferências das Nações UnIdas acerca das prioridades médicas numa situação de calamidade. Bluhm, afundado numa cadeira acabada a festa, de ar perdido e vazio e com tudo o que nele havia de digno de conhecer-se escondido bem no fundo de si mesmo.
- Não fui capaz de os mandar embora, Sandy - continuava Coleridge no tom grave de quem foi interrogar a sua consciência e regressou tranquilizado.
- Não acho que esteja nas minhas atribuições arruinar a carreira de um tipo só porque a mulher gosta de dar umas cambalhotas. Estamos no novo milénio. As pessoas devem ter o direito de lixar as suas próprias vidas como lhes apetecer.
- Claro.
- Ela andava a fazer uma obra dos diabos pelos bairros de lata, mau grado o que se dizia dela lá no Clube Muthaiga. A gente do Moi talvez a olhasse de revés, mas não havia nenhum verdadeiro Africano que não a adorasse.
- Sem dúvida, - concordou Woodrow.
- É verdade que andava metida em tudo o que é a luta contra a discriminação sexista e essa treta toda. E tinha razão. Se entregassem a África nas mãos das mulheres, tudo poderia correr melhor.
Mildren entrou sem bater.
- Uma chamada do Protocolo, Sir. O corpo de Tessa acaba de chegar à morgue do hospital e eles pedem uma identificação de imediato. E todas as agências noticiosas exigem uma declaração.
- Como diabo é que a trouxeram tão depressa para Nairobi?
- De helicóptero. - respondeu Woodrow tentando afastar a imagem repelente, dada por Wolfgang, do corpo dela a ser serrado para caber no compartimento da carga.
- Não há declaração nenhuma até ela ser identificada. - Disse Coleridge secamente.
Woodrow e Justin foram juntos, baixando a cabeça, sentados no banco de ripas duma carrinha Volkswagen com janelas de vidros fumados que pertencia à Alta Comissão. Livingstone ia ao volante com Jackson, o seu volumoso guarda-costas Kikuyu, entalado ao seu lado no banco da frente para o caso de vir a ser necessário alguma persuasão musculada. A carrinha era um forno, apesar do ar condicionado ligado no máximo. O tráfego era demencial. Os minibus Matutus abarrotando de gente avançavam e buzinavam de todos os lados, exalando fumo e levantando poeira e cascalho. Livingstone conseguiu rodear uma pequena rotunda e parou junto a um portal de pedra onde se juntavam grupos de homens e mulheres balanceando e entoando cânticos. julgando tratar-se de uma manifestação, Woodrow soltou uma imprecação, mas logo percebeu que eram familiares dos mortos à espera que lhes entregassem os corpos. Ao longo do passeio havia carroças enferrujadas e carros enfeitados com fitas vermelhas.
- Não era preciso tu vires, Sandy, realmente - disse Justin.
- Claro que era preciso - rectificou nobremente o filho do militar.
Na soleira da porta esperavam-nos um magote de polícias e profissionais da saúde com fatos-macacos brancos manchados de salpicos. O seu desejo era só agradar. Um tal Inspector Muramba apresentou-se e, com um sorriso radioso apertou a mão aos dois distintos cavalheiros da Alta Comissão Britânica, Um asiático de fato preto apresentou-se como sendo o médico cirurgião Banda Singh ao serviço de Suas Excelências. Seguiram por um sujo corredor de betão atravancado por caixotes do lixo a deitar por fora, cujos tectos eram percorridos por tubos grossos. Os tubos levam a electricidade às câmaras frigoríficas, pensou Woodrow, mas os frigoríficos não funcionam porque houve um corte de electricidade e a morgue não dispõe de um gerador. O Dr. Banda ia à frente mas Woodrow poderia ter encontrado o caminho sozinho. Se voltar à direita, perco o cheiro, voltando à esquerda, regressa mais forte. O seu lado insensível tinha de novo tomado a chefia. O dever de um filho de militar é estar aqui, não é sentir. Dever. Porque será que ela me fazia sempre pensar no meu dever? Perguntava a si próprio se não haveria alguma superstição antiga acerca do que poderia acontecer aos aspirantes ao adultério quando observassem os cadáveres das mulheres que tinham cobiçado. O Dr. Banda levava-os agora por uma escada acima. Foram emergir num grande átrio sem ventilação onde o fedor da morte dominava tudo.
Em frente havia uma porta de ferro enferrujada onde Banda começou a martelar com os punhos imperiosamente, apoiando-se nos calcanhares e batendo depois quatro ou cinco vezes a intervalos regulares como se estivesse a transmitir um código. A porta abriu-se um pouco chiando para revelar as cabeças desnorteadas e apreensivas de três rapazes. À vista do cirurgião-chefe recuaram para o deixar esgueirar-se rapidamente; o resultado foi que Woodrow, largado de repente no meio do átrio nauseabundo, teve a sensação de estar a ser submetido à visão infernal do antigo dormitório do seu colégio interno, cedido aos mortos de todos os tempos do Auxílio Humanitário. Em cada cama estavam lado a lado dois cadáveres definhados. Entre eles havia mais cadáveres pelo chão, uns vestidos, outros nus, de costas ou de lado. Outros tinham encolhido os joelhos, numa tentativa inútil de se protegerem, queixos espetados em ar de protesto. Sobre eles, numa espécie de nevoeiro vacilante e lodoso, estavam as moscas, zumbindo numa nota só.
E no centro do dormitório, arrumado na passagem entre as duas filas de camas, estava a tábua de passar da senhora governanta, sobre rodas. E sobre a tábua de passar um icebergue formado por um lençol revolto de onde saíam dois pés monstruosos e semi-humanos que fizeram Woodrow pensar nos chinelos com pés de pato que ele e Glória tinham oferecido ao filho, Harry, no passado Natal. Uma mão estendida tinha conseguido ardilosamente ficar fora do lençol. Os dedos estavam cobertos de sangue negro, mais espesso nos nós. As pontas eram de um azul de água-marinha. Use a sua imaginação, senhor Chanceler: faz alguma ideia do que acontece aos cadáveres com um calor destes?
- O senhor Justin Quayle, por favor - clamou o Dr. Banda Singh com a voz estentória de um mordomo anunciando os recém-chegados a uma recepção real.
- Eu vou consigo, - murmurou Woodrow e, lado a lado com Justin, avançou corajosamente a tempo de ver o Dr. Banda levantar para trás o lençol e revelar a cabeça de Tessa, uma caricatura grosseira amarrada do queixo ao topo do crânio por uma tira de pano imundo que tinha coberto o pescoço onde em tempos estivera a corrente de ouro. Como um afogado que volta à superfície pela última vez, Woodrow ansiosamente abarcou o restante: o cabelo negro dela colado ao crânio pelo pente de um cangalheiro qualquer. As bochechas inchadas como as de um querubím soprando o vento. Os olhos fechados, as sobrancelhas erguídas e a boca aberta numa expressão flácida de espanto, cheia de sangue negro como se lhe tivessem arrancado os dentes todos de uma vez. Oh! é que ela sopra com a boca arrendondada de estupefacção, enquanto a matam. Mas a quem se dirige ela? Quem viram os seus olhos, por trás daquelas pálpebras esticadas e brancas?
- Conhece esta senhora, Sir? - pergunta delicadamente a Justin o Inspector Muramba.
- Conheço. Conheço, sim, obrigado - respondeu Justin pesando cada palavra antes de a pronunciar. - É a minha mulher, Tessa. Temos de marcar o funeral quanto antes, Sandy. Ela gostaria que fosse aqui em África. É filha única. É órfa e sem parentes. Não há ninguém, excepto eu, a ser consultado. bom que seja o mais breve possível.
- Sim, suponho que isso agora só depende da polícia - disse Woodrow em tom brusco e só teve tempo de se afastar até uma bacia rachada onde vomitou as tripas, enquanto Justin, sempre cortês, o segurava com um braço pelos ombros, murmurando condolências.
No santuário atapetado do Gabinete Particular, Mildren vagarosamente está lendo alto para o rapaz de voz neutra que estava no outro lado da linha:
«A Alta Comissão tem o desgosto de participar o assassinato de Mrs. Tessa Quayle, esposa de Justin Quayle, Primeiro Secretário da Embaixada. A morte deu-se nas margens do Lago Turkana, perto de Allia Bay. O seu motorista, Sr. Noab Katanga, foi também morto. Mrs. Quayle será recordada não só pelo seu empenho na causa dos direitos das mulheres africanas, como também pela sua beleza e juventude. Desejamos exprimir os nossos mais sentidos pêsames ao marido de Mrs. Quayle, Justin, e aos seus numerosos amigos. A bandeira da Alta Comissão será colocada a meia-haste até nova ordem. Um registo de condolências estará à disposição no átrio do edifício da Alta Comissão.»
- Quando é que pode enviar isto?

- Acabo de o fazer, - disse o rapaz.



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