O filme: Noiva em Fuga



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Noiva em Fuga? Desencontros e encontros - a busca pelo próprio caminho.
Sinopse: Este artigo discute o desenvolvimento da mulher no que se refere à busca pelo companheiro e o processo de individuação a partir de Maggie, personagem do filme Noiva em Fuga. A análise da heroína inicia-se com um conflito que torna pública sua imagem de noiva em fuga. O foco da análise recai sobre o desenvolvimento da mulher, no que se refere a alguns aspectos do arquétipo do Feminino, do animus incluindo o relacionamento com o pai e suas conseqüências para o desenvolvimento da mulher.

Palavras-Chave: Mulher, Feminino, animus, processo de individuação, casamento psíquico.
Abstract: This article argues the development of the woman in which it refers to the search for the companion and the process of individuation from Maggie – the runway bride. The analysis of the heroin begins with a conflict that makes her image public of the runway bride.

The focus of analysis is based on the analysis of the development of the woman The focus of the analysis lies on the development of women, with regard to some aspects of the female archetype, the animus including the relationship with the father and its consequences for the development of women.



Key words: Women, Female archetype, animus, individuation process, psychological marriage.

Ana Carolina Falcone Garcia:

Psicóloga Clínica. Especialista em Sexualidade Humana (UNICAMP); Especialista em Farmacodependência (UNIFESP); Mestre em Psicologia Clínica (PUCSP) - núcleo de estudos junguianos.

Email: acfalcone2007@hotmail.com

Av. Barão de Itapura, 2310- sala 93- Guanabara- Campinas- São Paulo

CEP 13073-300.

Fone: 19 - 3243.6937



O filme: Noiva em Fuga
O filme narra a história de Maggie, em suas constantes fugas de seus noivos. Diante de sua última fuga, seu ex-noivo desabafa com um jornalista, sobre seu sofrimento e desejo de vingança. Ike, o jornalista, está numa busca desesperada por assunto para sua coluna.

Ike redige o artigo sobre a vida de Maggie a partir do relato do ex-noivo, chamando-a de “devoradora de homens”. Maggie, ao ler o artigo resolve responder ao jornal, defendendo-se e também vingando-se do jornalista.

Diante da defesa de Maggie, Ike é demitido. Desempregado, decide provar que estava certo e sai em busca de dados que confirmem sua versão do artigo. Então, parte ao encontro de Maggie, em Hale.

O encontro acontece ao acaso. Ike está à procura de Maggie e entra no salão de beleza, onde ela se encontra. Ao se dar conta de que está diante do tal jornalista, Maggie finge contar seus sonhos em relação ao próximo casamento.

Ike começa, então, uma busca incansável por provas. Sua primeira providência é conseguir os vídeos dos casamentos anteriores. Percebe, aos poucos, que cada casamento se apresenta de uma forma diferente.

Na seqüência, Maggie invade o quarto do hotel de Ike e pega algumas anotações que ele fez dela. Constatando que as opiniões não correspondem ao que ela é, decide colaborar com ele, para que ele escreva a história verdadeira.

Então, Maggie leva Ike a conhecer sua vida, inicialmente, através de suas produções artísticas e depois através dos anéis de noivados. Seguem juntos para comprar o vestido de noiva, onde Maggie é ridicularizada, pela vendedora, por usar um vestido por apenas 10 minutos. Ike, pela primeira vez, toma a defesa de Maggie, e a admira ao vê-la com o vestido de noiva.

Ambos vão ao encontro de Bob, o atual noivo, no bar. Ike se dá conta de que Maggie desconhece a si mesma. Isso fica ainda mais claro quando observa a peculiaridade de como comer ovos: Maggie pede os mesmos ovos, sem gema, que o noivo, com a convicção de que são os seus preferidos!

Na cena seguinte, Maggie sai em busca de seu pai. Um dos primeiros momentos que seu pai é mostrado. Ike a ajuda com o pai bêbado, o que permite uma aproximação maior um do outro.

A história prossegue e Ike está quase certo de que ela não é uma devoradora de homens, mas que há outro motivo para suas fugas. Então, vai encontrar-se com outro dos noivos e descobre que o ovo que ela mais gostava era igual ao dele: escalfados.

Na festa do Luau, anterior ao casamento, Ike toma a defesa de Maggie, mais uma vez. Esse é mais um dos indícios de mudança no relacionamento entre Maggie e Ike.

Quando inicia o ensaio para a cerimônia do casamento, Maggie se dá conta do seu envolvimento com Ike e termina com Bob antes do casamento. Aceita o convite de se casar com Ike.

Com a data já marcada, a notícia é divulgada para todos que tiveram conhecimento da história de Maggie. Muita publicidade, muitas câmeras e muitos convidados. Já na entrada, Maggie foge assim que perde o contato visual com Ike, no caminho para o altar.

Na seqüência, apresentaremos Maggie, em separado, antes de relatarmos o desfecho dessa história.


A heroína
Maggie Carpenter é uma mulher solteira, que está em busca de seu companheiro. Trabalha em uma oficina, que é de seu pai. Suas habilidades artísticas parecem não receber sua atenção e seu cuidado devido.

Apesar de mulher, muitas vezes demonstra ser uma menina: desconhece a si mesma, tanto em suas potencialidades quanto em suas dificuldades!

Ao que parece, Maggie está em um momento de sua vida em que a energia psíquica encontra-se estagnada. A imagem de noiva em fuga torna-se pública pelo artigo de Ike, promovendo, assim, o contato de Maggie consigo mesma. Contato este conflituoso, carregado de rejeição e de inconsciência.

Na parceria interna, algo está acontecendo: seu animus parece ser ativado.

O primeiro contato de Maggie com o seu conflito (fuga do casamento) gera nela a necessidade de se defender publicamente: é obrigada a olhar para si mesma.

Para Jung o psiquismo (consciente e inconsciente) é um sistema energético relativamente fechado, possuidor de um potencial que permanece o mesmo em quantidade, durante toda a vida do indivíduo. A energia com suas direções movimenta-se em deslocamentos de progressão e de regressão da libido (energia psíquica). A progressão é a utilização da energia para a adaptação do sujeito à vida e ao mundo. No movimento de progressão, as polaridades equilibram-se mutuamente e com a energia produzida promovem o avanço, em direção ao mundo externo. A regressão é o retorno ao inconsciente da energia, ativando os complexos. O movimento ao interior leva a uma nova adaptação exterior, reiniciando o caminho da progressão.

Desta forma, a dinâmica psíquica se traduz como constantes movimentos de progressão e regressão. E um conflito implica em uma rigidez do indivíduo diante da situação proposta pela vida. A tensão gerada pelo conflito é que vai promover o movimento da energia psíquica na busca de um novo equilíbrio.

O artigo de Ike vai gerar o conflito na vida de Maggie desacomodando a estrutura psíquica até então adaptada e tornando o conflito público, até então inconsciente, da vida dela.

Para Jung, “a escolha do parceiro normalmente se realiza por motivos inconscientes e instintivos (...).” (1991, §330, p.197)

Sendo assim, a constelação de um parceiro externo, o companheiro, passa pela ativação de aspectos inconscientes, que podem estar relacionados a complexos e/ou ao animus.

Sanford (1986) destaca que não é o Yang ou Yin (ou masculino e feminino)ique tornam homens e mulheres diferentes, pois cada uma contém em si o outro:
[...] é antes, o fato de que o homem ordinariamente identifica seu ego com sua masculinidade e de que seu lado feminino é inconsciente nele, ao passo que a mulher se identifica conscientemente com sua feminilidade, e seu lado masculino permanece inconsciente para ela. (SANFORD, 1986, p.21)
O encontro com o outro produz transformações, pois promove, de certa forma, o movimento da energia psíquica, de acordo com Jung. Desta forma, Jung acrescenta: “A pessoa está sempre no escuro quando se trata de sua própria personalidade. Ela precisa do auxílio de outras pessoas para se conhecer a si própria.” (JUNG, 1977 p.165 apud SANFORD, p. 74).

O relacionamento homem-mulher é composto por projeções de alguns desses aspectos psíquicos inconscientes que cada um de nós carrega em si. Desta forma, o enamoramento acontece a partir do reconhecimento no outro de aspectos inconscientes existentes em nós.

Maggie parece estar sob esta condição em que reconhece em seus parceiros aspectos inconscientes conhecidos por ela. Contudo, transmite a impressão de não se apropriar desses, restando apenas o relacionar-se com suas projeções, que sempre terminam no altar. O relacionamento puramente idealizado e pautado nas projeções não se sustenta quando a realidade põe à prova a relação!

Dessa forma, sua atitude parece muito próxima de uma fusão com o outro e não de um crescimento com o parceiro a partir das características de cada um. Maggie parece se fundir com o companheiro na tentativa de se desenvolver. Contudo,


Sem haver desenvolvimento individual por parte das duas pessoas, não pode ocorrer um verdadeiro relacionamento. Ao invés disso, um estado de identificação mútua desenvolve algo que embota o desenvolvimento psicológico de ambos os parceiros. (Sanford, 1986, p.42)
Assim, o crescimento psíquico acontece diante da relação e também da diferenciação com o outro. Maggie costumava se relacionar a partir da identificação e fusão com seus parceiros.

Ainda que ao longo da história o propósito de Ike parece se transformar, ele não toma consciência dessas mudanças e faz sua primeira grande intervenção na vida de Maggie. Essa atuação promove a união de alguns conteúdos inconscientes de Maggie. Ele acaba fornecendo uma ponte simbólica para que essa conscientização aconteça, como, por exemplo, no caso do marido de Peggy. Maggie costumava se relacionar com o marido da amiga de forma sedutora e inconsciente, parecendo esquecer-se de um dia ter sido namorada dele.

Esses aspectos compulsivos da postura de Maggie, foram destacados por Ike, de forma a tornar consciente para ela a postura imatura e que poderia gerar mágoa, em Peggy, já que parece que está flertando com ele.

Essa intervenção de Ike faz com que Maggie interrompa o automatismo de suas atitudes, de seu complexo, e faça uma reflexão. Neste diálogo, temos o que acreditamos ser o primeiro contato dela com o seu Feminino.

Peggy: “A imagem que você passa é: sou charmosa e misteriosa, de um modo que nem mesmo eu entendo, e algo em mim roga pela proteção de um homem como você!” (...).

Maggie: “Acho que existe uma possibilidade muito real de que eu seja irreversível e profundamente atrapalhada”. (...)

Peggy: Você tem sido assim desde que somos crianças. Só acho que agora que sabe disso, e sabe que às vezes fere o sentimento das pessoas, talvez seja a hora de amadurecer e comprometer-se com alguém...”
Paralelamente ao encontro com o Feminino, Maggie está se conscientizando de alguns aspectos de seu complexo e também de seu animus pouco desenvolvido.

O papel do Masculino na psique da mulher é essencial para o seu desenvolvimento psíquico. A ele cabe fornecer requisitos de raciocínio, direcionamento, ação para a mulher, acostumada a receber, acolher, conter. Maggie não se assumia como mulher, detentora de um Feminino que acolhe e seduz. Sua vida era vivida inconscientemente. Não se apropriava da mulher em si, nem na forma de se vestir. Não conseguia tomar atitudes, ter sua própria opinião, reforçando que seu Masculino estava ainda indiferenciado; seu animus estava ainda pouco conscientizado e vinculado diretamente a cada parceiro que escolhia. Ela não se apropriava das características de cada parceiro. Maggie apenas disfarçava pra eles e também para si mesma a respeito de seu modo de ser. Ela acreditava que era o que eles eram. Ficava então despersonalizada e imatura. Como uma menina que desconhece ainda a si mesma!

Essa sua dificuldade em tomar atitudes e assumir suas próprias opiniões pode estar relacionada à representação e participação que seu pai tem em sua vida.

O pai parece ter se tornado alcoolista após a morte da mãe. Contudo, pela característica de alcoolista, podemos pressupor que ele estava ausente na vida da filha, principalmente no que se refere ao fornecimento de características masculinas. Sabemos que o pai participa de forma importante no desenvolvimento psíquico da filha. Além de pouco auxiliá-la em sua jornada, seu pai parece ser também pouco hábil no uso do afeto e das palavras. As poucas cenas em que vemos a relação pai-filha apresentam ausência de afeto entre eles: pouco diálogo, palavras duras e posturas de desprezo do pai com a filha.

Carter (1992) afirma que as mulheres que possuem pais inadequados ou ausentes apresentam alguma dificuldade no estabelecimento de intimidade no casamento ou no que se refere ao desempenho sexual. A ausência do pai pode gerar também sentimento de raiva, promovendo uma aproximação da filha em relação à mãe e um afastamento ainda maior em relação ao pai. Contudo, Maggie não tinha em quem se apoiar: a mãe já havia falecido; estava só!

Assim, as diversas maneiras de o pai se relacionar com a filha podem gerar complexos o que contribui para construir um tipo de ferida na mulher.


Seja qual for a causa, se o pai não estiver disponível para sua filha de modo comprometido e responsável, estimulando o desenvolvimento de suas dimensões intelectual, profissional e espiritual, valorizando sua singularidade feminina, isso resultará em dano ao espírito feminino da jovem. (LEONARD, 1997, p.31).
A autora acrescenta que, no decorrer do desenvolvimento da mulher, alguns aspectos da relação estabelecida entre pai-filha reforçam a enorme influência que o pai exerce sobre a filha. Desses aspectos, a autora dá ênfase aos parâmetros construídos com base nessa relação, que norteiam as relações da filha com outros homens e, também, a forma como o pai se relaciona com a feminilidade da filha, e que irá afetar o modo de ela amadurecer até tornar-se uma mulher.

Sendo assim, consideramos que o pai tem como uma das funções, auxiliar a filha a enfrentar seus conflitos. As atitudes dele referentes ao trabalho e ao sucesso profissional auxiliarão nas atitudes da filha.

Uma construção psíquica na mulher, de eterna menina, caracteriza-se como uma filha dependente e que aceita a identidade que os outros projetam nela. A grande dificuldade está em integrar as qualidades de um pai positivo: consciência, disciplina, coragem, tomadas de decisão, autovalorização e direção. Maggie parece ainda se encontrar nesta fase: a menina!

Tomando por base o que a literatura aponta sobre o desenvolvimento da mulher, é preciso que a filha reconheça as dificuldades e limitações do pai e também reconhecer seus valores para assim poder se relacionar com o pai pessoal e se diferenciar de aspectos feridos constelados em complexos.

Segundo Jung (1993), para a mulher viver conscientemente é preciso estar a par da batalha entre as forças de sua natureza feminina, do princípio de Eros, e da força de seu Masculino inconsciente (animus). A conscientização de que a pessoa é composta também por aspectos inconscientes é necessária para que ela se desenvolva psiquicamente e não tenda a agir com base em apenas uma das polaridades: a consciente (ou egóica), ou a inconsciente (ou complementar).

Se a mulher não se relaciona com seus aspectos Masculinos internos corre o risco de buscar essas características externamente em um homem. Isso a tornará ainda mais frágil e insegura. Caso se identifique com seu Masculino, o risco está em ela mesma desvalorizar tudo o que for referente à natureza Feminina, o cuidar, o acolher, o conter. Qualquer uma dessas polarizações não é saudável para a mulher.

Maggie parece necessitar de algumas características do Masculino, que se apropria concretamente de seus noivos. Do feminino, apodera-se apenas da sedução indiscriminada.

Tanto o animus quanto o complexo paterno estão relacionados ao Masculino e são decorrentes também das vivências com o pai. Na relação pai-filha a identificação está presente, num primeiro momento. Com o passar dos anos, é preciso ocorrer uma desidealização da filha em relação ao pai para que ela consiga desenvolver aspectos de seu masculino internalizado. Se persistir um estado de idealização da filha com o pai, este a influenciará no que se refere aos conteúdos do arquétipo paterno.

Cabe ressaltar que a mulher precisa se diferenciar de seu pai para que possa se desenvolver como mulher em sua plenitude. Isso porque uma dependência interna do pai faz com que a mulher fique presa ao complexo paterno e não integre aspectos de seu animus.

Conforme as posturas que o pai assume em relação à filha, ele pode auxiliar o desligamento dela de seu complexo paterno ou favorecer o seu aprisionamento nele. A filha passa a ter uma independência do complexo paterno quando as dimensões paternas são integradas à consciência. A mulher aprisionada não consegue desenvolver seu animus, pois continua vinculada ao complexo paterno. As posturas da mulher submetida ao complexo paterno acabam sendo de submissão à ordem, com uma crítica muito acentuada de si mesma.

A importância do desenvolvimento do animus diz respeito à independência da mulher no mundo. Nesse sentido, o papel do animus é fundamental. O animus conduz à diferenciação do pai e é a sua integração que permite a separação do complexo paterno, pois quando o animus é ativado são acionados todos os aspectos masculinos do inconsciente feminino que correspondem às representações da força, poder, verbo e sentido, como já colocamos anteriormente.

A relação tipicamente ausente com o pai costuma gerar nas filhas um sentimento de abandono e grande vulnerabilidade em relação à vida, além de proporcionar dificuldades no estabelecimento de vínculos mais íntimos e uma falta de estrutura interna, o que favorece sentimentos de insegurança. A ausência pode acarretar, também, forte idealização do pai e rejeição da mãe.

A função do animus é de servir como auxiliar no processo de amadurecimento da filha e de atuação dela no mundo, em especial, no trabalho. Percebe-se contudo, que dinâmicas familiares, em função das características que cada pai porta e constela na filha, muitas vezes, transformam um relacionamento positivo em negativo para a filha, exigindo dela maior desprendimento e conscientização para desenvolver os aspectos masculinos necessários à sua vida. Quando a mulher fica aprisionada em um complexo, todas as ações de direcionamento ficam prejudicadas e acabam tendo forte ligação com o complexo.

Em relação à mãe, nada sabemos. Contudo, percebemos que a ausência materna pode ter contribuído para a dificuldade que ela apresenta na relação com o feminino. Maggie parece não se apropriar da mulher que é. Temos a impressão de ver uma adolescente, no que se refere ao comportamento, às roupas e à vida. A ausência de referência de um Feminino acolhedor, receptivo e sedutor parece se concretizar na maneira como Maggie se veste e se relaciona com o mundo: indiferenciada. Sua vida é vivida inconscientemente.

Quando resolve colaborar com Ike para o conhecimento de sua história, Maggie passa a assumir a responsabilidade pela própria história. Então, leva Ike a conhecer um pouco de sua vida a partir de suas produções artísticas e dos seus anéis de noivado. Ike apresenta um possível pedido de noivado; um dado de realidade.

“garanto que teremos momentos difíceis; garanto que cedo ou tarde, um de nós vai querer cair fora; mas também garanto que se não pedir que seja minha, vou me arrepender pelo resto da minha vida, porque sei que no fundo do meu coração, você é única para mim”.


Essa declaração põe Maggie em contato com o que gostaria de ouvir de um noivo. Mais uma vez, Ike, como portador de uma das representações do animus, proporciona o contato com seus sentimentos mais profundos promovendo em Maggie um movimento de reflexão e questionamento.

Ike, ao tomar a defesa de Maggie, e ao admirá-la com o vestido de noiva entra em contato com a mulher que Maggie é. Maggie, neste momento, depara-se com seu valor como mulher.

As fugas eram na verdade movimentos saudáveis na medida em que sinalizavam que a doença estaria na identificação e não na diferenciação do animus.

A busca pela realização do próprio caminho é árdua, pois além das metas necessárias para se traçar seu percurso, é preciso força interna para romper com atitudes inconscientes, com pressupostos estabelecidos e com heranças psíquicas familiares. A luta interna é necessária para romper com padrões criados numa família, sejam eles positivos ou negativos.

No caso de Maggie, parece viver grande identificação com o Pai interno (complexo paterno) e certa dificuldade com o universo Feminino.

Algumas mulheres demonstraram ter maior identificação com o Masculino interior e maior dificuldade com os aspectos relacionados ao universo Feminino.

Parece que ela vive aprisionada no universo Masculino. Talvez isso seja decorrente do momento de vida dela, em que se tornou responsável pelo trabalho do pai e abriu mão de suas produções artísticas em nome de cuidar do pai.

O caminho de Maggie é estar conectada consigo mesma, com seu universo Feminino para que consiga se diferenciar do Pai interno. É preciso também ter consciência de aspectos do seu animus, tão valorizado pela sociedade, para que não fique possuída por ele e se desenvolva como mulher.

Maggie costuma reagir com raiva diante de situações em que seu conflito é tornado consciente. A raiva é uma reação comum diante da constatação de aspectos inconscientes sinalizados e de difícil conscientização. Algo que ela inconscientemente sabe que acontece, mas que pelo sofrimento gerado, prefere não enfrentar o sentimento, projetando em Ike a raiva, como se ele fosse o causador de tudo. Ele apenas serve como ponte para a conscientização. Ele a está auxiliando a decodificar os fatos e comportamentos das pessoas a favor dela. Mas, Maggie ainda não percebeu isso.

Ike continua trazendo mais situações em que ela se misturou com os atos dos noivos acrescentando:


“eles queriam era ver você se enforcar mais uma vez (...) Você estava com medo. Com medo então e com medo agora!É a mulher mais perdida,tão perdida que não sabe nem como quer comer os ovos! Com o padre, eram mexidos; com o hippie eram fritos; com o outro, eram escalfados, e agora, só com claras! Isso é não ter opinião própria! O que você está fazendo?”
Ike, mais uma vez, procura promover a transcendência, vai apontando pontos inconscientes nas atitudes de Maggie, o que a faz sentir raiva. Ainda acredita que quando Ike aponta a verdade sobre ela, é com a intenção de fazê-la fugir mais uma vez. Na verdade, a consciência de si mesma é que que poderá permitir que faça escolhas. O desconhecimento de si mesma e a incapacidade de fazer a escolhas por si mesma, acarretam medo e como conseqüência a fuga!

Aqui marca a primeira mudança nas atitudes de Maggie: frente ao pai, diz não gostar das brincadeiras que ele faz com ela, que são humilhantes e que está farta de tudo isso:


“talvez você não goste de ter uma filha com problemas. Mas sabe? eu não gosto de ter um pai que vive bêbado.”
Este é um posicionamento importante de Maggie frente ao pai e à própria vida. Esta fala sinaliza o início da diferenciação do Pai e um reconhecimento dos limites e dificuldades do pai pessoal. Desta forma, Maggie reconhece para si e para o pai suas limitações e dificuldades, bem como as limitações e dificuldades do pai. Essa atitude favorece o crescimento e desenvolvimento de aspectos do animus, como o planejamento, a vontade, que estavam vinculados ao complexo paterno e ao Masculino de seus parceiros.

Com Ike, Maggie parece entrar em contato com o sentimento em relação ao outro, pela primeira vez. Começam uma relação rápida de conhecimento, enquanto casal, através de brincadeiras, passeios, conversas.

Interessante entender o símbolo do contato visual: quando ela perde o contato com Ike (função transcendente), Maggie perde o contato com o que a leva para o altar, consigo mesma e foge.

Mais uma vez o movimento de regressão da libido acontece: a cada fuga, a energia flui para o inconsciente, ativando complexos. A cada nova tentativa de adaptação externa, ao mundo, que se faz através dos casamentos, ocorre uma regressão ao inconsciente. Este fato se deve ao desconhecimento de si mesma; nenhum dos noivos, no caso, conseguiram realmente tocá-la intimamente e proporcionar o crescimento.


A virada do ovo
O símbolo é a estrutura capaz de produzir uma nova unidade a partir da dinâmica de opostos. É um termo derivado do grego symbállo, que significa colocar junto. Além disso, o símbolo permite a dissolução de tensões, na medida que tem a capacidade de transformar a energia natural em formas culturais. O símbolo é então entendido como uma espécie de instância mediadora entre a incompatibilidade do consciente e do inconsciente; um autêntico revelador entre o oculto e o revelado. (Jacobi, 1957, p.90) Essa qualidade mediadora e, como Jacobi descreve, “lançadora de pontes” do símbolo é um dos equipamentos mais importantes da “administração” psíquica.(Jacobi, 1957, p.91) O símbolo é também considerado com uma função transformadora da energia na psique.

Assim, acaba colocando-a a serviço da consciência. Desta forma, a transformação de cada indivíduo se faz na psique humana através da função simbólica.

A experiência com os ovos pode ser assim compreendida: vai encontrar-se através do “encontro” dos ovos. Os ovos exercem a função transformadora do símbolo. Através dos ovos, ela entra em contato com suas escolhas pessoais. Ao experimentar cada tipo de ovo, para si mesma e não para o outro, ela pode entrar em contato consigo própria. O símbolo, portanto, está em constante movimento, permitindo encontros e desencontros, vivências e descobertas, contatos com o novo, o necessário e o criativo, com o que incomoda e permite a transformação.

Após a fuga do casamento com Ike, diferentemente dos outros momentos pós casamento, Maggie estava voltada para uma adaptação ao mundo interno. Neste momento, o movimento psíquico parece ter se invertido: a energia parece ter regredido e agora Maggie pode estar consigo mesma; com seu trabalho e suas produções, como faz ao observar seu abajur; em sua casa, sem os amigos de sempre, sem o mundo externo. Ela foi tocada. Aqui podemos ver o princípio da enantiodromia, com a passagem para o lado oposto, seu oposto, o seu encontro. Passa a dar uma atenção especial às suas produções, arrumando-as. Maggie vive um momento de introspecção. Seleciona suas produções artísticas para serem vendidas em Nova York - um sonho antigo.

Neste encontro, Maggie também se apresenta vestida de uma forma diferente (persona): sem macacões ou calças que não realcem seu lado feminino, mas com saia, cabelos arrumados.
Maggie: Queria dizer a você sobre porque eu fujo, às vezes, corro das coisas ... quando eu caminhava até o altar, era para alguém que não fazia idéia de quem eu era realmente. E só a metade da culpa era dele, pois fiz todo o possível para convencê-lo de que eu era exatamente o que ele queria. Então, foi bom eu não ter levado adiante, porque teria sido uma mentira. Mas, você sabia como eu realmente sou ... eu não... (...) ...Benedict, adoro ovos a Benedict. Odeio ovos de outra forma. Não gosto de grandes cerimônias, ficam todos olhando(...) “eu te amo Homer Eiserhower Graham. Quer se casar comigo? (...) eu garanto que teremos momentos difíceis; garanto que cedo ou tarde, um dos dois ou os dois vão querer sair fora; mas também eu garanto que se não pedir para que seja meu, vou me arrepender para o resto de minha vida, porque sei do fundo do meu coração, que você é a única pessoa para mim.”
O casamento pode ser realizado, de acordo com os desejos de Maggie.

Ela pode encontrar-se através do confronto com seus aspectos mais inconscientes, no movimento psíquico da energia, no sofrimento da perda, no questionamento e na busca de suas próprias realizações.

O processo de individuação está se realizando. Movimentos constantes de extroversão e introversão, de expansão e recolhimento, de alegria e de dor compõem o crescimento psíquico durante toda a vida.

Referências Bibliográficas

CARTER, Beth. Fathers and Daughters (1992) In SCULL, C.S.. Fathers, sons, and daughters- exploring fatherhood, renewing the bond. Los Angeles: Jeremy P. Tarcher, INC.

JACOBI, Jolande. (1957)Complexo, Arquétipo, Símbolo na Psicologia de C.G. Jung. São Paulo: Cultrix.

JUNG, Carl (1991). Estudos sobre Psicologia Analítica. CW VII. São Paulo: Vozes.

JUNG, Carl (1993). A mulher na Europa In Civilização em transição. CW X/3. São Paulo: Vozes.

LEONARD, Linda. (1997) A mulher Ferida: em busca de um relacionamento responsável entre homens e mulheres. São Paulo: Summus.



SANFORD, John (1986). Os parceiros invisíveis: o masculino e o feminino dentro de cada um de nós. São Paulo: Paulus.

i Grifo meu.




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