O fotojornalismo do Big Picture: notícias contadas por fotografias Resumo



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O Fotojornalismo do Big Picture: notícias contadas por fotografias

Resumo: O artigo teve como objetivo geral um estudo no campo da Comunicação, mais especificamente da Cultura Visual e do Fotojornalismo, através da reflexão e análise referente a um objeto pouco estudado, que são as imagens fotojornalísticas propagadas por um suporte virtual. A investigação foi feita em cima do blog de fotojornalismo Big Picture, que tem como finalidade contar notícias através de fotografias, com a função de produzir informação imagética na Internet.

Palavras-chave: Fotojornalismo. Fotografia-expressão. Imagem complexa
Abstract: The article had as general objective a study in the field of communication, more specifically the Visual Culture and Photojournalism, through reflection and analysis concerning a subject that was little studied before, which are photojournalistic images propagated by a virtual support. The investigation was based on the photojournalism blog Big Picture, which aims at telling news through photographs, producing imagery information in the Internet. 

Keywords: Photojournalism. Expression-photography. Complex Image.

  1. Introdução

A fotografia utilizada nos meios digitais como suporte de informação imagética é o alvo deste artigo, pois percebemos que a produção fotojornalística na web, apesar de partir de padrões tradicionais, vem tentando construir uma nova maneira de disponibilizar conteúdo visual no ambiente ilimitado da internet. Buscamos neste trabalho entender as dinâmicas envolvidas no processo jornalístico visual online de modo a compreender como as narrativas se aplicam à fotografia que pretende ser de imprensa. Consideramos o fotojornalismo como um produto que pode gerar conhecimento, provocar sensibilização, contextualizar e incitar um olhar demorado. Não pretendemos construir uma fórmula de veiculação de imagens jornalísticas, mas desenvolver um debate acerca de como a fotografia jornalística vem arquitetando o seu espaço no mundo digital para que a sua dimensão informativa seja percebida e observada.

O site fotojornalístico Big Picture, do jornal The Boston Globe surgido em 2008, é um exemplo de como os dispositivos imagéticos procuram produzir uma nova experiência sensitiva para o espectador. A exploração de mecanismos que contribuem para esse caminho novo faz com que os diálogos com outras mídias ou mesmo com a bagagem do espectador se multipliquem. A fotografia se insere neste caso. Ela é presença forte na expansão das manifestações contemporâneas, na qual, cada vez mais as imagens se tornam experiências de interação entre o dispositivo e o observador.

No mundo atual, muitas vezes digital, o choque e o espetáculo são bases das contradições da sociedade. Neste sentido, propomos explorar o fato de que, na sociedade contemporânea, existem inovações calcadas em tradições como consequência das transformações múltiplas que se deram por causa do novo suporte, da produção contemporânea dos fotojornalistas e dos mecanismos de edição. Logo, a fotografia se torna um processo expressivo e de revitalização dos sentidos simbólicos, sendo importante para a experiência visual. As imagens do boston.com/bigpicture permitem a reflexão não somente pela busca de informação, mas também por meio de um olhar apreciativo e consumidor diante de imagens que podem funcionar como notícia e que, por sua vez, possuem alta carga ideológica porque são representações. Essas formas imagéticas, por sua vez, podem estimular olhares atentos, reflexivos e serem base para a narração jornalística.



  1. Big Picture

No contexto de inovações dos suportes das mídias surge o site Big Picture1, criado e administrado pelos editores de fotografia do jornal The Boston Globe2, com o objetivo de publicar fotografias para contar notícias mundiais. Criado em 2008, por Alan Taylor, o blog teve em seus primeiros 20 dias mais de 1,5 milhão de visualizações. Ele surge como uma quebra de paradigma na comunicação imagética via internet, uma vez que traz coberturas fotográficas de grande formato, sob a ótica do fotojornalista. O grande sucesso do blog fez com que Alan Taylor levasse o modelo do projeto para a revista The Atlantics, para criar o blog In Focus3. O Big Picture, então, ficou a cargo dos editores Lane Turner, Llloyd Young e Paula Nelson.

Dois aspectos chamam a atenção para este fotoblog4: além de estar relacionado a um veículo de imprensa (o jornal The Boston Globe), é também o pioneiro em publicação de imagens em alta resolução. Em tempos de aumento e expansão da banda larga e com a variedade de meios de se conectar à rede, esta convergência digital é uma alternativa para o uso do fotojornalismo na internet. O Big Picture reúne e organiza fotografias de várias origens e gera novas formas de conteúdo, apresentando fotorreportagens e ensaios, remidiatizando-as para um tema em comum com o objetivo de alcançar novos eixos de audiência e visibilidade.


  1. A Fotografia na Cultura Visual

André Rouillé , nos fala que a fotografia “só foi imagem de poder enquanto pôde ficar em sintonia com o sistema, os valores e os mais emblemáticos fenômenos da sociedade industrial: a máquina, as grandes cidades e esta extraordinária rede que as interliga, a estrada de ferro” (ROUILLÉ, 2009, p. 48). O autor observa atentamente o caminho histórico e teórico por qual a fotografia passou até os dias atuais e critica a indicialidade, afirmando que a teoria que coloca a fotografia como traço do real apenas seguiu uma visão de cunho ideológico e não leva em consideração a utilização da fotografia em seus diferentes contextos. Para o historiador, a fotografia é mais do que um efeito luminoso, ela é um processo.

Ele nomeia, ainda, duas grandes funções da fotografia: a fotografia-documento e a fotografia-expressão. Para Rouillé (2009), o status de documento foi originado a partir da crença de que a fotografia funciona como prova, pois contém a relação direta com o referente. A discussão acerca desse status culminou na abertura do pensamento e deu origem ao que o autor chama de “fotografia-expressão”:
A fotografia-expressão exprime o acontecimento, mas não o representa. Levaremos em consideração, aqui, a hipótese segundo a qual a passagem do documento-designação para documento-expressão repercute na fotografia como um fenômeno mais global: a passagem de um mundo de substâncias, de coisas e de corpos, para um mundo de acontecimentos, de incorporais. A passagem de uma sociedade industrial para uma sociedade da informação. A sociedade da informação, que se estende ao ritmo das redes digitais de comunicação, age profundamente sobre o conjunto das atividades, particularmente sobre as práticas e as imagens fotográficas, segundo processos muitas vezes subterrâneos e silenciosos, mas que colaboram para o esgotamento da fotografia-documento. (ROUILLÉ, 2009, p. 137)
Na passagem acima, Rouillé explica que a fotografia-expressão pode “condensar” o acontecimento e que ela não apresenta o real diretamente, mas o ordena visualmente. No presente artigo, a noção de representação surge daquilo que forma o conteúdo visual proveniente de operações simbólicas, tal como a fotografia-expressão.

A condição de reprodutibilidade da fotografia e sua rapidez de produção atuam como condicionantes da mediação, de modo que os conteúdos fotográficos ficam, muitas vezes, perdidos dentre tantas imagens. A reprodução por si só já retira a imagem fotográfica de seu contexto original e, dependendo de seu uso, pode ser encarada de diferentes formas. A fotografia, assim, sendo passível de reprodução e edição, ganha o terreno do jornalismo por sua condição eficiente, substituindo em muitos casos as gravuras e ilustrações outrora utilizadas. O fotojornalismo foi, portanto, o impulso que a fotografia recebeu para se firmar como essencial à sociedade industrial.

Pensando nisso, o dispositivo fotográfico pode funcionar como modelo de comunicação e transmissão que se dá não somente pelas fotografias-documentos, mas também por qualquer elemento da ordem visual, inclusive relacionados à fotografia-expressão de modo a criar contradições e desmentir a ilusão anteriormente proposta. Para Rouillé (2009), a fotografia-expressão assume um caráter indireto. O site Big Picture, ao misturar imagens que podem ser consideradas por muitos de ordem direta (notícias instantâneas com a estética do testemunho) com imagens da ordem indireta (ensaios, fotorreportagens, etc) desmistifica os clichês e propõe um novo método de reconhecimento da representação e parte para “jogos infinitos das interferências e das distâncias”. (ROUILLÉ, 2009, p. 159)

Sempre prestigiamos a fotografia como um complemento da notícia escrita ou reportagem e a atenção dada ao webfotojornalismo só se baseava em pequenas imagens no layout dos sites, algumas com a possibilidade de ser um hiperlink para a mesma imagem em tamanho maior. A imagem não deixa de ter o seu passado impresso, ela ainda precisa de uma contextualização, uma regra do fotojornalismo que não leva em consideração o suporte.

O site Big Picture apresenta um diferencial. As imagens sequenciadas provocam uma narrativa que acontece pela visão da publicação como um todo ou na junção de apenas algumas imagens. Elas apresentam vividamente notícias, fotorreportagens e ensaios, uma vez que as fotografias já aparecem na interface do site em tamanho grande também. Não temos como ignorar a plasticidade das fotografias, que representa um dos modelos de utilização de fotografias digitais na internet e um caminho para as possibilidades do uso de fotografia nesse novo suporte.

O processo jornalístico aparece no Big Picture por meio de fotografias que significam olhares que nos fazem desconfiar de uma possível encenação e que possuem milhares de simbologias a respeito de como a foto foi tirada, a posição do fotógrafo, o tipo de lente utilizada, o sentimento que se quis passar. Tudo é passível de dúvida, mas a representação muitas vezes alcança uma atmosfera singular para compor o que podemos chamar de imagens fotojornalísticas contemporâneas.

A capacidade de mutação das imagens contemporâneas faz pensar numa complexidade imagética, uma vez que o fluxo de produção envolve imagens e suas mutações em diversas ordens: fotografias, montagens, narrativas, interações, etc; processos que tornam a reflexão de Català (2005)5, fundamentais para o entendimento da representação na cultura atual. Para ele, o cenário de produção de imagens equivale a uma cultura visual, visto que as imagens se manifestam na forma de uma ecologia do visível.

Català concebe a noção de imagem complexa, ou seja, aquela que privilegia operações estéticas características da subjetividade e da emoção, de modo a atentar para formas que não estejam relacionadas à mimese. Na epistemologia da imagem complexa, ele determina que a imagem tradicional esteja relacionada à ciência e à objetividade. Nestas, a imagem não provoca reflexão no observador passivo. A imagem tradicional é transparente, mimética, ilustrativa e espectatorial o que mostra como durante a história da imagem, esta sempre esteve relacionada à objetividade e ao realismo. Essa visualidade científica na cultura visual, todavia, pode ser desmentida pela imagem complexa (CATALÀ, 2005).

A imagem complexa se relaciona com a arte e com a subjetividade, uma vez que ela é opaca e exige um olhar demorado. Além disso, Català (2005) a entende como positiva, reflexiva e interativa, pois a imagem complexa deve ser exposta e permitir ampliar a visão do observador ativo. A complexidade aparece na reflexão e forma, o que o pesquisador chama de visualidade pós-científica.

Diante dessas constatações, pode-se dizer que o pesquisador desenvolve um conceito epistemológico que tem como fundamento trazer interrogações acerca da imagem e como ela pode se tornar complexa. Partindo disso, há que se levar em consideração também a ação do observador e como ele investe o olhar sobre as imagens complexas. Este olhar ativo é chamado de “mirada”, resultado da articulação entre o olhar investido sobre a imagem e a imagem, ou seja, uma “mirada” complexa.

A ativação da “mirada” complexa resulta no entendimento das imagens e a relação delas com as dimensões subjetivas e objetivas, no espaço e no tempo e no pensamento que provêm dessas articulações de modo a entender as consequências epistemológicas provenientes da imagem complexa. A “mirada" se desenvolve no pensamento imagético, ou seja, na capacidade de não só pensar sobre as imagens, mas também pensar com elas.

O conceito de “imagem complexa” desenvolvido por Català (2005), nos ajuda a refletir sobre essa capacidade do fotojornalismo e o seu processo representativo. Isso porque o estudioso propõe uma noção diferenciada de leitura do mundo por meio de imagens. Ele usa a noção de complexidade de Edgar Morin6 para mostrar que é possível investir o olhar sobre as imagens, de modo a perceber que elas possuem profundidade e são carregadas não só de objetividade, mas também de subjetividade.

Català (2011) abre o caminho pelo qual é preciso levar em consideração o conjunto de imagens, como elas se relacionam e transmitem intenções para outras imagens. Nessa “ecologia da imagem”, como ele diz, tudo está se inter-relacionando e os modos de percepção estão sendo alterados por causa dessa constelação imagética. A era da visão trouxe a diferença entre ver e olhar. O olhar se torna atento e descobridor dessas várias camadas e as imagens são fluidas, modernas e possuem, sem dúvida, diversas superfícies.

É importante notar que, considerar a ecologia da imagem é pensar principalmente na fotografia-expressão, pois enquanto a fotografia-documento possui o seu lugar no mundo das coisas, a fotografia-expressão atua sobre o conjunto de elementos que envolve os fatos jornalísticos, as redes digitais, as informações em tempo reais, a originalidade e criatividade daqueles que a produzem. A fotografia-expressão representa dialeticamente a razão e a emoção e se dá também pela possibilidade de articulação de diversas imagens, ou seja, pode se dar através de uma ecologia do visível. Isso não implica que a fotografia-documento não possa constituir também uma ecologia.

O conceito de fotografia-expressão cunhado por Rouillè (2009) está diretamente relacionado ao conceito de imagem complexa de Català (2005) pois, para ambos, a fotografia pode carregar elementos antes dispensados pela fotografia-documento, tais como a dimensão poética, a subjetividade do autor e a existência do Outro em relação ao dispositivo fotográfico. A fotografia-expressão e a imagem complexa contribuem para o processo de representação e as reflexões originadas a partir desses conceitos buscam o sentido da imagem e não a coisa a qual ela se refere.

Ambos os estudiosos refletem sobre as estratégias visuais que são encontradas nas imagens atuais, estratégias as quais envolvem também as dimensões espacial e temporal e estão relacionadas aos processos mentais de reconhecimento e memória. Se aplicarmos esses conceitos ao fotojornalismo, aqui estudado, poderemos perceber que a utilização da imagem como forma de expressão e conotação contribui para a humanização do jornalismo, o que por sua vez, apreende a complexidade do fato divulgado.




  1. O fluxo editorial e a “fotografia-expressiva-jornalística”

Para além do uso da tecnologia, fotografar na era da internet sob a égide do fotojornalismo é comunicar, o que por sua vez é trocar informações, emoções, ou mesmo dividir conhecimento. O trabalho do fotógrafo já entra cada vez mais num sistema em que a concepção da imagem resulta do trabalho de diversos profissionais.

O fotojornalismo estabelece uma maneira própria de comunicação entre o observador e o mundo. Ele apresenta a versão dos fatos, apesar de não ser considerada a verdadeira testemunha de um acontecimento. Sua ação comunicativa só é efetiva quando estabelece uma relação com o imaginário social, pois, a partir do fotojornalismo podemos construir visualidades que potencializam o imaginário e isso se dá através do discurso visual.

As fotografias ocupam posições de destaque em alguns jornais e até mesmo já se destacam em primeira página, isso porque elas podem possuir mais força do que os textos dentro da dimensão jornalística. Elas têm o poder de sensibilização, ou seja, atingem os indivíduos no nível da estética e da emoção. Também possuem a dimensão informativa e, na contemporaneidade, estamos acostumados a ver o mundo através de imagens. Em muitos casos, as fotos tomam o lugar do verbal, porém, percebe-se que apesar do entendimento das simbologias presentes nas fotografias, poucos a reconhecem como um modelo de pensamento, costumam enxergá-las apenas como factuais, como índices. Antes de ser publicada a fotografia jornalística passa pelo processo de edição. É publicada aquela que ganhou o privilégio de ser escolhida dentre tantas outras do mesmo fato. Essa seleção passa pelo caminho que leva em consideração a linha editorial do jornal ou webjornal e geralmente ocupa a função de representar uma notícia imageticamente. Além disso, em muitos casos, a fotografia é escolhida pela sua relevância factual, ou seja, algumas fotografias são publicadas por serem caracteristicamente “testemunhas” de um fato. No entanto, a arbitrariedade da edição ainda domina a publicação e toda a decisão é parcial, porque envolve um suporte ideológico em que a qualidade e o comportamento são ditados anteriormente. A edição legitima o poder existente nos meios de comunicação, que por sua vez, também leva em consideração aquilo que mais agrada ao público, o que será visto e discutido.

A fotografia publicada é resultado de um pensamento complexo do editor. Os ensaios e fotorreportagens como do site Big Picture resgatam fotografias de diversos canais e, por meio do sequenciamento e junção delas, formam painéis, narrativas e olhares sobre acontecimentos que são preparados pelo editor para atrair o público consumidor desse tipo de pensamento imagético. As fotografias publicadas representam estados de reconhecimento, dos quais as imagens servem como catalisadoras de um evento, tornando-os reais, tornando-os passíveis de serem acreditados.

É fato que atualmente todas as notícias buscam algum tipo de ilustração para o seu conteúdo verbal, mas podemos pensar numa imagem complexa ao ponto de ser a protagonista da notícia? O site Big Picture, de certa forma, tem a pretensão de fazer isso acontecer, de fazer as notícias e informações se realizarem através de imagens.

De forma geral, a edição é o processo pelo qual uma obra recebe corte, substituição, deslocamento, inserção, reorganização e padronização no estilo da editoria. A edição é, portanto, um dos procedimentos que singularizam o jornalismo, o tratamento final das informações obtidas e o mecanismo que o jornal utiliza para selecionar e organizar conteúdos com o intuito de formar uma narrativa, de modo hierarquizado e seguindo a linha editorial. No caso do Big Picture, a edição também expressa a visão estética no conteúdo imagético.
Fotos impressionantes resultam em pautas sólidas. Editores de fotografia em revistas, jornais, agências ou sites leem atentamente listas de notícias para determinar quais são apropriadas para informações pictóricas, quais precisam de uma ilustração ou elemento gráfico e quais não precisam de nenhum trabalho artístico. Com o pessoal e recursos limitados - a maioria dos jornais, revistas e sites se encaixam nessa categoria - editores devem optar por cobrir artigos ou matérias de primeira página com certa dose de interesse visual imagético. (KOBRÉ, 2011, p. 126)

A estrutura da fotografia jornalística não é isolada, ela é sempre acompanhada de um texto (título, notícia e legenda), de outras fotografias e da interface do suporte onde se encontra. O modo como o fotojornalismo é exposto representa muito sobre a edição do jornal, sobre a estética para sensibilização do usuário e os modelos de pensamento envolvidos nessas constituições. As legendas que participam dessa esfera de comunicação ampliam a informação, já que a contextualização é determinante para a compreensão da fotografia jornalística. Pode-se pensar que a legendagem é algo fácil de se fazer, no entanto, reduzir a fotografia em poucas palavras é um processo difícil, visto que a legenda deve complementar e aprofundar a leitura da imagem.

A fotografia jornalística é um dos recursos mais empregados pelos jornais online para demonstrar as capacidades que o suporte digital oferece no quesito narrativa jornalística. Apesar de existir outros modelos multimidiáticos, eles ainda são utilizados de forma limitada, ficando a cargo, principalmente, de a fotografia ser o objeto das tentativas de interação. A priori, não percebemos diferenças entre a utilização da fotografia no suporte impresso e digital, porque ela está sempre vinculada a uma notícia ou a um texto, uma regra que não foge do fotojornalismo independente de seu suporte.

Algumas mudanças, porém, têm mostrado procedimentos diferentes de se utilizar a fotografia no meio digital e isso envolve desde a sua origem, até o modo como ela é empregada no espaço visual do suporte online. O Big Picture se diferencia também de outros modelos de utilização de imagens da imprensa no que se refere à qualidade das imagens. Nele, explora-se a riqueza de detalhes, as cores, as texturas, as sombras e o degradé, fazendo com que as fotografias tenham participação fundamental dentro da cultura jornalística.

Em fotoblogs como o Big Picture, a maioria das imagens provém de agências de notícias. Observa-se, então, a terceirização dos serviços fotográficos, a qual mostra que a formação do discurso está mais intimamente relacionado ao editor, uma vez que seu papel é unir as fotografias das agências com as notícias relacionadas ao acontecimento original. Logo, podemos perceber que os ensaios e fotorreportagens presentes no nosso objeto de estudo ocorrem devido à prática da reprodução de notícias e à tentativa de expansão da mesma por meio de imagens.

A equipe de edição tem papel fundamental na formação da narração, pois ela busca nos bancos de dados e nas agências de notícias as fotografias que serão utilizadas, faz o tratamento das imagens quando necessário, as seleciona e as sequencia, de modo a mantê-las coerentes com a notícia e com a linha editorial do meio. O resultado disso é o processo criativo jornalístico com a união de texto, imagem e interface, já que as escolhas feitas pelos editores constituem redes de pensamentos complexos que determinam o percurso editorial e as relações comunicativas provenientes do processo de criação.

O arranjo das fotografias é conectado a um processo sensível e aberto e à necessidade de revelar a pluralidade de possibilidades que dão origem ao imaginário social, processo que não é fixo e, sim, dinâmico. A busca incessante dos jornais para atrair leitores se dá pela qualidade de seu conteúdo e das experiências diferenciadas que proporcionam. O jornalismo tem o poder de “testemunhar” os fatos, o que acaba direcionando a atenção dos leitores para uma determinada informação, por meio de narrativas, e é justamente nessa dimensão potencializadora do imaginário que as imagens são muitas vezes protagonistas das narrativas.

Procura-se constantemente novos modelos de utilização do fotojornalismo dentro da produção jornalística, uma vez que a última está relacionada à predominância da estrutura visual nos processos comunicativos. É necessário buscar maneiras de comunicar a informação visual, de tal modo que alcance as possibilidades editorialmente permitidas dentro do fazer jornalístico.

A edição fotográfica, portanto, obedece a diversos parâmetros originados da linha editorial, que incluem os critérios de noticiabilidade; os critérios estéticos, presentes na plasticidade dos elementos visuais, e como isso interfere na narrativa e no discurso visual; as opções políticas e sociais das empresas de comunicação; a relevância das narrativas noticiosas frente ao público-alvo do meio de comunicação; os valores culturais e morais da representação fotográfica, uma vez que a fotografia produz a visibilidade do outro; a escolha por uma imagem que transmite emoção ou o máximo de informação, já que a seleção da imagem relaciona-se com a característica da notícia e dos critérios de noticiabilidade, por outro lado, pode-se escolher uma imagem que emocione ou outra que assuma a noção de testemunho e de fidelização do assunto proposto.

Essas questões estão todas relacionadas ao difícil papel do editor de fotografias, que deve considerá-las pensando principalmente em que tipo de comunicação a fotografia causará e, portanto, seu papel, o do editor, se torna tão fundamental quanto aquele que fotografa. No fotojornalismo, o editor produz tanto uma fotografia quanto o fotógrafo.

No fundo, a representação de um instante de um acontecimento está praticamente sujeita à utopia: com exceção de algumas imagens em que se cultiva o aleatório (instantâneos fotográficos automáticos, em intervalos regulares, por exemplo), esse instante é sempre escolhido em virtude do sentido a exprimir, depende da fabricação. A doutrina do instante pregnante, por sua insistência sobre a significação de conjunto da imagem, detaca esse caráter fabricado, reconstituído, sintético, do dito ‘instante’ representado – que só é obtido de fato por justaposição mais ou menos hábil de fragmentos pertencentes a instantes diferentes. Tal é o modo habitual de representação do tempo na imagem pintada: ela retém, para cada uma das zonas significantes do espaço, um momento (“o momento mais favorável”), e opera depois por síntese, por colagem, por montagem. (AUMONT, 2004, p. 235)

A partir disso, podemos entender que cada imagem possui um sentido e ao serem colocadas em conjunto adquirem um sentido coletivo, em que a individualidade de cada imagem, a partir da relação com outras imagens, origina a história ou a narrativa que se pretende passar. O coletivo cria um novo conceito pelo sequenciamento das imagens fotográficas, como acontece no Big Picture.



A produção terceirizada e o processo coletivo jornalístico estão ligados à questão de autoria e de autenticidade. Antes os fotógrafos queriam ter seus nomes relacionados à produção, mas sites como o Big Picture (apesar de manterem os nomes dos fotógrafos), além de não produzirem material próprio, utilizam os materiais de terceiros sob outra ótica. Estamos num momento em que é possível colher imagens de diversas procedências e montar novos quadros, novas narrativas e painéis. Antigamente, havia mais necessidade de ter o domínio sobre a produção de imagens, fator este que está enfraquecido atualmente. A apropriação se tornou parte do processo jornalístico e tem total relação com o cenário cultural contemporâneo.

Entendemos por fotojornalismo, portanto, o modelo jornalístico composto a partir de uma fotografia e que tem como função primeira informar e ajudar na interpretação dos fatos jornalísticos. Vemos o fotojornalismo também como uma construção representativa que pode contextualizar e opinar por meio da fotografia sobre assuntos jornalísticos e constituir, assim, a “fotografia-expressiva-jornalística”.




  1. Considerações Finais

Esse artigo buscou no fotojornalismo da internet a reflexão sobre a cultura visual na atualidade de modo a compreender possibilidades imagéticas de transmissão de notícias e documentações cotidianas. O site www.boston.com/bigpicture, apesar de ser reconhecido pela veiculação de fotografias em alta resolução é também um válido objeto para entendermos o papel das fotografias jornalísticas como transmissoras de notícias na sociedade contemporânea.

A experiência habitual de visualizar fotografias em certos sites no meio online deixa de ser a habitual originária dos meios impressos, pois dá lugar à reconfiguração e à ressignificação das fotografias unidas sob uma mesma ótica, mas que levam em consideração o pensamento complexo do editor. É perceptível que o jornalismo digital ainda não explorou todo o potencial da comunicação em rede, mas novas configurações têm surgido de modo a adequar o tradicional ao novo suporte.

Observamos mudanças no caráter cultural e na forma de produção fotojornalística em sites como o nosso objeto de estudo, onde a função de estabelecer uma linha de raciocínio imagética é muito forte. É clara também a finalidade de privilegiar os trabalhos do editor e do fotógrafo. O fotógrafo aparece muitas vezes como ator social das fotografias encontradas no Big Picture, por conta das mãos do editor. Desta relação, destaca-se a transformação do trabalho do editor, que ao unir fotografias de diferentes autores, datas e contextos, acaba deslocando a noção de acontecimento e instantâneo, mesmo que a autoria do fotógrafo seja preservada (a utilização de fotos de diversas autorias inaugura uma nova forma de narrativização fotojornalistica). Percebemos que a produção jornalística está entendendo o processo fotojornalístico como a união de pelo menos dois importantes agentes: o fotógrafo e o editor. Neste sistema não existe mais o privilégio do trabalho autoral do fotógrafo, pois ele passa a dividir essa função com o editor. As responsabilidades adquiridas pelos fotojornalistas e pelos editores têm como consequência uma atividade complexa e dela depreende-se uma tendência à narrativização.

Entendemos que o fotojornalismo pode constituir uma imagem complexa e uma fotografia-expressão, pois em muitos casos a forma de testemunhar é transformada e ampliada, ao mesmo tempo que reforça representações visuais já cristalizadas. Na fotografia-expressão e na imagem complexa jornalísticas prevê-se uma representação que torne visível elementos, de modo que novos procedimentos surjam para que a fotografia ilumine o estado das coisas e das pessoas. Neste caso, a invenção e a experimentação são necessárias para que a fisicalidade dos objetos seja superada pela ação de tornar visível de forma expressiva.

Apesar de se basear no modelo tradicional, o fotojornalismo do Big Picture também pode ser visto como uma das primeiras tentativas em construir uma representação que se dá pela narração e que pode produzir pensamentos complexos através da imagem fotográfica. A possibilidade de “mirar” a fotografia, levando em conta seu contexto, e atrelá-la a algum assunto jornalístico constitui o que chamamos de “fotografia-jornalística-expressiva”.



  1. Bibliografia

AUMONT, Jacques. A imagem. Campinas: Editora Papirus, 2004.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução. In: BENJAMIN, W. et al. Textos Escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1975. (Coleção Os Pensadores).

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BUITONI, Dulcília H. S. Imagens semoventes: fotografia e multimídia no webjornalismo. Animus: revista interamericana de comunicação midiática. Universidade Federal de Santa Maria, v. VI, nº 1, p. 9-23, jan./jun. 2007.

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CATALÀ, Josep M. La imagen compleja. In: La Imagen Compleja. Barcelona: UAB, 2005.

_______________. A Forma do Real: introdução aos estudos visuais. São Paulo: Editora Summus, 2011.

HORN, Evelyse Lins. Fotografia-Expressão: a fotografia entre o documental e a arte contemporânea. Disponível em . Acesso em novembro de 2012.

KOBRÉ, Kenneth. Fotojornalismo: uma abordagem profissional. Rio de Janeiro: Elsevier Editora LTDA, 2011.



ROUILLÉ, André. A Fotografia: entre documento e arte contemporânea. São Paulo: Editora Senac, 2009.


1 Http://www.boston.com/bigpicture

2 Jornal estadounidense de Boston, Massachusetts e pertencente ao The New York Times Company desde 1993. Foi lançado na internet em 1995 e está no ranking dos 10 webjornais com maior prestígio na América. Está sediado no endereço www.boston.com.

3 http://www.theatlantic.com/infocus/

4 Fotoblog é um derivado do "weblog". O weblog é como um diário de anotações ou memórias online. O fotoblog tem a mesma definição, porém, é composto apenas de fotos e legendas. Uma característica importante do fotoblog é a interatividade: outras pessoas podem inserir comentários sobre a imagem que foi enviada (Fonte: http://fotoblog.uol.com.br/stc/faq_geral.html#1).

5 Joséph M. D. Català é pesquisador da Universidade Autônoma de Barcelona.

6 Pesquisador emérito do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique). Formado em Direito, História e Geografia, realizou estudos em Filosofia, Sociologia e Epistemologia. É considerado um dos principais pensadores sobre a complexidade. Fonte: http://www.edgarmorin.org.br/vida.php






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