O garçom, o bêbado e o ergonomista



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O Garçom, o bêbado e o ergonomista


Ensaio sobre os aspectos cognitivos na

análise ergonômica do trabalho

Luiz Carlos Fadel de Vasconcellos*




Rio de Janeiro

Dezembro de 2004

(trabalho escrito em outubro de 1996)

Apresentação – A Ergonomia e suas aplicabilidades pode ser apropriada de várias formas, inclusive, o que seria uma contradição, como fonte legitimadora de situações que provocam adoecimento no trabalho. Fugir dessa armadilha, para trilhar sem riscos seu objetivo, é entendê-la como ferramental teórico e técnico que possa ser apropriado pelos trabalhadores no objetivo de transformar o mundo do trabalho, seus processos e o ambiente em que se realizam, em fonte exclusiva de realização, aprendizagem, conforto, convívio prazeroso e produtividade compatível com o respeito à natureza humana. Ainda que isso seja meta quase impossível, à ciência ergonômica não cabe deserdá-la ou relativizá-la.

A forma capaz de atingir esse objetivo passa por associar necessidades. Necessidades ... dos trabalhadores, contrapondo-se a necessidades não humanas.

Nessa linha, o aspecto da cognição em ergonomia nos dá algumas pistas para melhor compreender as necessidades humanas, no micro-cosmo do trabalho.

O presente ensaio é uma metáfora do quanto se pode imprimir ao tema da análise ergonômica, enquanto garimpagem estético-técnica das variações sobre o tema, com o propósito de possibilitar o exercício permanente da reflexão.

A ausência de citações bibliográficas é proposital para não quebrar o ritmo da narração. Sempre que houver citação implícita, explícita ou literal usa-se o asterisco (*). O enfoque, digamos, mais técnico da abordagem foi baseado em textos e observações de aula (em 1996) do Professor Mario Vidal da COPPE/UFRJ, área de Engenharia da Produção.

Obs: Sempre que possível, este ensaio deve ser lido tendo como fundo musical as canções de Joséphine Baker, por ela mesma.
* Servidor do Ministério da Saúde em exercício no Centro de Estudos de Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana – CESTEH / ENSP / FIOCRUZ
O Garçom, o bêbado e o ergonomista

(Ensaio sobre os aspectos cognitivos na análise ergonômica do trabalho)


I - O Botequim

O botequim é daqueles que já não se encontra.

Porta de saloon - duas bandas de vai-e-vem, do lado de fora se duvida, o lado de dentro convida.*

Dez mesas pequenas, com 80 x 80 cm, aproximadamente. De tampo de mármore. Dizem que esse mármore é original, como se todo mármore não fosse original. Talvez porque esse seja o mesmo mármore travertino (com faixas coloridas belíssimas), trazido pelo 1º dono do botequim, lá pelos anos 20, Seu Joaquim de Almeida, um português de Caldas da Rainha, parece.

As cadeiras são de madeira fina Gonçalo-alves, daquelas bem pequenas mas confortáveis, muito resistentes.

Do lado esquerdo de quem entra está o balcão. Imponente e, também, de mármore, só que não original. Do lado direito, as mesas, sendo uma do lado próximo à porta, duas filas de três no meio do salão e três ao fundo do salão. Todas sem toalha (para a apreciação do mármore, tudo indica). Os pés das mesas são de caviúna, em forma de coluna retorcida, com 4 expansões podálicas, que imprime uma curiosidade para saber quem teria sido o artesão que as trouxe ao mundo.

Voltando ao balcão, no sentido da rua para o interior do botequim, vê-se um baleiro múltiplo, daqueles de vidro com tampa de metal, giratório (o metal brilhante como recém-nascido); uma tábua circular com tampo de vidro, com um grande pedaço de queijo desses suiços cheio de furos saborosos; 4 garrafas de vinho português; a caixa registradora, daquelas bem antigas, não tanto quanto o mármore das mesas; 2 salames dos grandes; um pote de vidro, desses enormes de boca larga, cheio de tremoços e a tira de madeira que permite a entrada e saída do balcão.

Na parede de trás do balcão, vê-se 3 quadros - o 1º, do lado da rua, e o 3º mostram, respectivamente, paisagens de Caldas da Rainha e de Figueiró dos Vinhos, pequenas vilas portuguesas.

___________________

* Inspirado na música Noite Vadia, de Wilson Valença.

Entre os 2 quadros vê-se uma réplica de um quadro de José Malhoa, pintor português, nascido em 1855 em Caldas da Rainha e morto em 1933 em Figueiró dos Vinhos. O quadro se chama “Gozando rendimentos” e mostra, numa paisagem fria de inverno, um homem calvo, um tanto gordo e só, sentado num banco público, de madeira, com um cachecol e um chapéu pousados ao seu lado, segurando uma bengala. O chapéu sobre o cachecol.

Ainda, na parede, logo após o 3º quadro há um armário de parede, de madeira escura, caviúna talvez, com 4 prateleiras, cheias de garrafas ... conhaque, bagaceira, rum branco, creme de ovos, aguardente, uma de vinho do Porto, gim ...

Ao fim do balcão vê-se uma pequena cozinha, separada do ambiente por uma meia-porta. A parte de cima permanentemente aberta.

Ao lado da tira de madeira, na parede ao fundo há uma porta inteira, fechada, onde se situa o banheiro, um pequeno depósito e um quartinho para a troca de roupa.

Ao lado da porta, ocupando o que resta da parede ao fundo, repousa uma geladeira dessas de 4 portas espelhadas, com seus 2 metros de altura e trinco horizontal de trava roliça.

As 2 paredes restantes são azulejadas até o teto, que é branco, centrado por um ventilador, desses que já foram muito antigos e hoje são muito modernos. Os azulejos são de dois tipos entremeados, a maioria brancos e alguns com uma paisagem em azul. A paisagem lembra, em muito, o quadro de José Malhoa, sem o homem.

O piso é de taco e, ao primeiro olhar, não há tacos soltos.

Esse é o botequim.

Ah! Cada vez que o botequim fica mais silencioso, ouve-se a voz, que parece vir da cozinha, de Joséphine Baker, desfiando um a um seus clássicos - La petite Tonkinoise; Toc-Toc Partout; Voulez-vous de la Canne à Sucre; Dis-moi Joséphine...

Esse, agora, é o botequim.


II - Os personagens


Além dos fregueses que entram e saem, àquela hora com escassa freqüência, têm-se o dono do botequim, que permanece todo o tempo atrás do balcão, o cozinheiro, que permanece todo o tempo na cozinha e os três personagens deste ensaio - o garçom, o bêbado e o ergonomista.

O garçom aparenta 60 anos, veste uma calça preta, limpa, um paletó branco, limpo, sobre uma camisa branca, também limpa, e ostenta uma borboleta no pescoço. A borboleta lembra, de longe os azulejos azuis do botequim, talvez a borboleta que falte na paisagem.

O bêbado, não demasiadamente bêbado, veste-se de forma elegante, paletó e gravata, aparenta seus 60 anos e está sentado na mesa mais ao fundo e mais à direita de quem entra. Tem cabelos fartos e esbranquiçados.

O ergonomista senta-se à primeira mesa, logo à direita de quem entra, veste-se de forma esportiva, calça jeans, camisa de manga comprida estampada, com predominância do amarelo sobre o vermelho e aparenta seus 35 anos.

À exceção dos que leiam este ensaio, não se percebe qualquer ligação entre os 3 personagens, a não ser pelo garçom que lhes serve.

No entanto, há uma profunda e estreita relação entre eles como se poderá observar mais adiante.


III - O Garçom

É um homem sereno. Àquela hora, com apenas duas mesas ocupadas e os dois fregueses servidos, o garçom permanece grande parte do tempo sentado, na mesa ao fundo, à esquerda de quem entra, a que está mais próxima da parte final do balcão. Tem um guardanapo dos grandes pendurado no braço esquerdo e outro guardanapo nas mãos.

Lentamente, durante o tempo em que está sentado, ele passa o guardanapo em cada

um dos 5 copos de vidro que estão em cima da mesa.

Os copos vão ficando cada vez mais límpidos, finos e transparentes. Cada copo que o garçom parece dar como concluída a tarefa de limpá-lo ostenta a aparência do cristal mais delicado, como se fosse recém-chegado da já não mais existente Tchecoslováquia.

A tarefa só termina quando o velho garçom levanta o copo, posiciona-o contra a luz, torce-o em todas as direções e, não se sabe bem, se balança a cabeça de aprovação ou se para desviar o olhar da lâmpada, acoplada ao ventilador de teto.

A cada copo terminado, levanta-se, dirige-se para trás do balcão, abre uma porta do que deve ser um armário, localizado na sua parte interna e volta sem o copo.

Feito isto, dirige-se à mesa do ergonomista e pergunta se deseja mais alguma coisa. Em seguida, repete a pergunta ao bêbado.

O ritual se reproduz com uma precisão de metrônomo.

Cada etapa, embora os copos sejam em tudo semelhantes, inicia e encerra um ciclo diferente do pensamento do garçom.

Assim, durante a limpeza do 1º copo, o homem pensa sobre seu filho de 35 anos, engenheiro estudioso e operoso, desempregado há quase 1 ano. Demitido por conta de uma discussão boba com o dono da empresa em que trabalhava. Olha, então, com uma certa reverência para o dono do botequim, naquele momento distraído com o conteúdo parco da velha caixa registradora.

Afinal, nos 22 anos que já trabalhava no botequim, o garçom havia tido inúmeras discussões com o patrão e, nem por isso, tinha sido demitido.

É bem verdade que em todas as ocasiões o garçom estava com a razão. É bem provável, portanto, que seu filho não estivesse com a razão, quando discutiu com o patrão.

O que era uma contradição, pois o menino era o mais dócil e compreensivo dos seus 4 filhos. Coisas da vida ... Joséphine canta Pardon si je t’importune ...

O 2º copo, à medida que vai se transmutando em cristal, serve ao pensamento de coisas mais amenas (e mais profundamente dolorosas) ... Gerusa ... Gerusa ... ainda viva na lembrança. Teríamos sido felizes? Que amor mais definitivo havia sido esse que ela tanto decantava se ela não soube esperar por mim ... Joséphine canta Mon rêve c’était vous ...

Enquanto todas as mulheres que havia conhecido tinham olhos, Gerusa tinha olhar. As mulheres do mundo, inclusive a mãe de seus 4 filhos, que tanto amava, tinham braços, Gerusa ... abraços; tinham pernas, Gerusa ... andar; tinham voz, Gerusa ... som; tinham mãos, Gerusa ... gestos.

Gerusa ... o copo balança na ponta dos dedos do garçom, como bailarina no ar contra a luz meio fosca que vem do teto.

Durante a limpeza do 3º copo, o garçom reflete sobre a sua inutilidade (e sobre a sua utilidade). Chega às 10 horas, troca de roupa, arruma as mesas, confere as bebidas colocadas pelo patrão na geladeira, passa um pano nas bebidas da prateleira e espera pelos fregueses. Qualquer um poderia fazer isso, pensa com uma grande tristeza. Quer dizer, também não é bem assim, há que ter uma certa vocação para ser garçom, pensa com menos tristeza.

O patrão, por exemplo, não tem a menor paciência com alguns fregueses e não sabe como reagir em algumas circunstâncias. Sempre que aparece algum problema inesperado, o homem empurra para ele solucionar. Acaba sempre nele a coisa do estoque e, quando falta alguma coisa, o patrão o chama de negligente, mas se ele demonstra uma preocupação prévia, não é que ele é tachado de paranóico?

Qualquer um poderia estar no seu lugar, tudo bem, mas por que o patrão não lhe manda embora? Será por pena dele ser tão velho ou medo de perder um empregado dedicado, que não falta, é atencioso com os fregueses, é pontual, é cuidadoso, não lhe rouba ... e nem lhe quebra os copos.

E ademais, ele conhecia cada detalhe do funcionamento daquela engenhoca que as pessoas chamavam de botequim. Sabia descongelar uma cerva no ponto do congelamento, preparar um “samba”, apartar uma briga, temperar um tira-gosto, mandar um freguês embora, empurrar uma cerva a mais, discutir o futebol e a política ... tudo com muito jeito. Ah! E é claro, limpar um copo como ninguém, transformá-lo em cristal.

E, como bom garçom, estava pronto para qualquer parada, até p’ra morrer da profissão (ele sabia que ser garçom era muito arriscado).

Joséphine canta Partir sur un Bateau tout Blanc.

Enquanto limpa o 4º copo pensa na sua aposentadoria.

Se conseguisse comprovar pelo menos 12 dos 23 anos que ele havia trabalhado, sem carteira assinada, no armazém do cunhado, ele poderia se aposentar já. Mas o puto do cunhado não havia deixado um puto de um registro de empregados quando morreu e ele sempre confiando, confiando. Afinal, o puto, além de irmão da sua mulher, tratava-o como sócio e dividia com ele o lucro do armazém.

Dividia mesmo? Como é que ele podia saber, se quem fazia toda a contabilidade era o puto?

A limpeza do 4º copo tem que ser interrompida. O rapaz da mesa 1 (que, aliás, lembra um pouco o seu filho desempregado) quer mais uma cerveja.

Ao voltar para terminar a limpeza do 4º copo, o garçom tem a impressão que o 4º copo já está limpo, torna a levantar, dirige-se para trás do balcão, volta e pega, então, o 5º copo. Parece vir da cozinha o som de La Joséphine cantando C’est lui. O 5º copo jamais terá a sensação de ser cristal, como será visto mais adiante.

IV - O Bêbado

O bêbado não é um bêbado comum, desses que perturbam, falam sozinhos e ziguezagueiam sentados. Sabe-se que é (ou está) bêbado, apenas, pela forma de pegar o copo e levá-lo à boca enquanto cruza e descruza as pernas.

É um homem (ou está) profundamente amargurado. Tem um pedaço de papel escrito na mão, que a cada gole relê.

Nos momentos em que não está (re)lendo o papel, pensa na inutilidade de seu trabalho como jornalista mal sucedido, fracassado mesmo. Afinal, jornalismo no Brasil, sem concessões, sem mumunhas, sem padrinhos, é profissão sem prumo. Qualquer dia acabaria tendo de escrever sobre crimes de botequim. Era só o que estava lhe faltando.

Maldita a hora em que havia abandonado a Escola de Engenharia. Maldita a hora em que havia saído de casa por um amor maldito. Maldita a hora de ter vivido.

Era a 1ª vez que vinha àquele botequim. Já estava na 12ª cerveja e só havia urinado duas vezes (duas?).

O que será que passa na cabeça de um suicida, antes?

E na cabeça de um assassino, antes?

Que perspectivas pode haver para um país como este?

Qual será a reação do garçom ao saber?

E aquele garoto que não pára de escrever na mesa ao lado da porta, o que tanto escreve? Não tem cara de jornalista, nem de engenheiro.

Mais um gole e se lembra de um poema de Domitilo de Andrade* ...


Se nada há de mais sublime do que a vida, o há na morte, que lhe duvida.

Quem disse, portanto, o quão soberba é a morte, disse-o certo.

Pois, por certo, não há aquele que de tão torto não a tema.

E que exista, se a busca por pensar enfrentá-la é por desfeita.

Mas e eu, então, que sei do morrer o ato de grandeza,

E do matar, não importa, ato de grandeza de igual similitude,

Pois a permite.

Então,

Eu a enfrento.

______________

* Pseudônimo do Autor do Ensaio.

Já tem, parece, o tema para o seu primeiro artigo de pasquim, escrito da prisão.


V - O Ergonomista

O ergonomista já não tem muitas ilusões e vive às voltas com uma certa sensação de inutilidade.

Por isto, passou a freqüentar botequins.

Eis que está às voltas com a crise da ergonomia, que no fundo é a sua própria. E a de todas as crises de todas as coisas, que no fundo é a sua própria.

E ele está lá para fazer e responder perguntas a ele próprio. Mas não essas perguntas triviais de qualquer freqüentador solitário de botequim, sobre a vida, o amor, a crise de todas as coisas e a sua própria.

Ele está lá para fazer e responder perguntas sobre o trabalho do garçom e a sua relação com o bêbado. Que poderia ser qualquer bêbado, como também qualquer garçom, mas naquele dia, com um pouco de sorte, ele havia achado o botequim certo com o garçom certo e o bêbado certo, tudo indicava.

Havia uma certa atmosfera no ar, bem propícia a uma análise ergonômica do trabalho do garçom - tema do artigo que estava escrevendo para o Congresso de Ergonomia de Lima, daqui a 3 meses.

Em Lima, ele compraria em alguma livraria alternativa o original de El derecho de matar, livro de contos de 1926, da poetisa peruana Magda Portal e de lá seguiria para Cuzco, p’ra fumar todas e redefinir sua vida.

Observa, portanto, o leitor deste ensaio, uma primeira relação entre os 3 personagens: todos estão trabalhando. O garçom, por motivos óbvios, o bêbado por motivos não tão óbvios (prepara-se para ser o próprio personagem de sua primeira matéria quando estiver na prisão) e o ergonomista trabalha no seu último projeto como ergonomista.

O ergonomista começa por caracterizar a materialidade da organização do trabalho em que executar uma atividade é confrontar-se com a estrutura organizacional da empresa e da sociedade: a atividade do garçom é a ponte entre as duas.

Todavia, embora o garçom seja o operador-chave da atividade de trabalho, as variáveis observáveis: tipo da operação e suas tarefas componentes, prescritas ou não, sua seqüência, a obrigatoriedade de realizá-las para manter o fluxo do processo, o espaço onde se realizam, a freqüência, a variabilidade e a simultaneidade das tarefas e, enfim, o quanto é requerido em termos de ritmo, tempo e esforço, implicam, do mesmo modo, o comportamento do bêbado como elemento-chave na dinâmica do processo de trabalho, pela possibilidade de sua perturbação.

A explicitação de certos comportamentos e atitudes da atividade de trabalho e o entendimento do sentido aparentemente absurdo de certas atividades só se concretiza a partir da visibilidade da organização do trabalho, sua capacidade de ser observada e a possibilidade de ser registrada.*

Limpar os copos, por exemplo, é perfeitamente compreensível. Mas limpá-los, de forma ritualística e compulsiva, até transformá-los em cristal travertino, só tem sentido se o garçom estiver esperando que lhe aconteça algo catastrófico (o garçom se adequa à cena que retrata a relação entre a sua atividade e a sociedade).

Ou não?


Parece que sim, pois “a atividade de trabalho se insere num contexto onde o presente - a organização materializada do trabalho - se conjuga com um futuro - os meios técnicos de ação e os meios gerenciais de planejamento e controle de operações - e é condicionado com um passado - as vivências, experiências, a história pessoal e coletiva.”*

Entre o trabalho de um operador numa sala de controle de uma refinaria, o de um soldado na faixa de Gaza e o do garçom existe uma identidade de mediação, que se reporta ao processo de trabalho no contexto antropológico.

No caso do soldado, a contradição entre o trabalho como fonte de vida e o produto objetal do processo - a morte, é mais evidente.

Nos outros casos, contudo, embora não seja tão evidente, a relação contraditória também está presente (o trabalho como fonte real de vida e como fonte virtual/potencial de morte).

A atividade do garçom, por exemplo, que será assassinado pelo freguês bêbado, só tem sentido se observada num contexto ampliado de seu significado.

Enquanto vai desfiando e decodificando os mediadores sociotécnicos da atividade* de trabalho do garçom, os artefatos (copo, tira-gosto, cerveja), os mentefatos (a forma de limpar os copos e de garantir a cerveja estupidamente gelada) e os sociofatos (sua inserção naquele contexto, prestes a ser morto), o ergonomista refaz o roteiro de suas reflexões.

_______________

* Adaptado de Mario Vidal - Textos selecionados (relação ao final).


Já tomou umas 5 cervejas, comeu uma porção de queijo prato e uma de salame, foi três vezes ao banheiro, fumou uns 8 (?) cigarros, rabiscou 3 folhas do bloco de apontamentos, contou 23, aproximadamente, o número de vezes que o garçom sentou e levantou, e, claro, fez um grande esforço, até aqui para conter a excitação de que será espectador de um crime, a qualquer momento.

E um esforço, ainda maior, para contextualizar a morte do garçom no processo de produção botequim.

Neste momento, o leitor pode perceber que se estabelece uma outra relação entre os personagens - o garçom, o bêbado e o ergonomista estão naquele local, àquela hora, como parte indissolúvel de um crime que deverá ocorrer para alcançar o objetivo do autor do ensaio.
VI - O garçom, o bêbado e o ergonomista

Ao retomar suas reflexões, o ergonomista demarca o significado da morte para o garçom na análise ergonômica de sua atividade, comparando-a com o soldado na terra palestina e o operador da sala de controle da refinaria de petróleo.

Em todas, ela está presente como fator subjacente, não sob o aspecto existencialista mas como parte materializável da atividade, mais intensamente na do soldado e menos nas do operador de refinaria de petróleo e menos, ainda, na do garçom.

Mas essa gradação não importava muito para ele, pois no artigo que ele estava preparando para o Congresso de Lima, a questão da morte surgiria com toda a riqueza de seu conteúdo simbólico projetado na atividade. Assim, por exemplo, um incidente que perturbe a “démarche” rotineira do trabalho é (ou pode) significar morte. Morte temporária, talvez, morte passageira, mas, morte.

E o ergonomista extrapola: tanto faz o garçom derrubar um copo de cerveja no freguês ou ser assassinado por um bêbado, a situação é similar no contexto do processo produtivo, porquanto há uma similaridade nas suas causas e conseqüências - ausência de mecanismo previsional do distúrbio; incapacidade de deter a perturbação do sistema; interrupção abrupta do processo; necessidade de reparação, recuperação ou ambos; dano de intensidade variável; seqüela física, mental, social ou todas; e vai por aí.

A par da contradição cristalizada no trabalhador entre o medo de morrer e a sua negação, estabelecida pelas chamadas ideologias defensivas, magistralmente propostas por Dejours, ao pensar a morte como parâmetro na análise ergonômica do trabalho do garçom, algumas questões não estavam claras. Na verdade, havia algo errado nesta história.

Daqui a pouco haveria um crime.

O garçom sabia que seria assassinado pelo bêbado.

A forma compulsiva e ritualística de transformar os copos em cristal, no entanto, não era suficiente para justificar seu comportamento, pois o garçom, apesar disto, continuava seu trabalho como se nada fosse acontecer.

Não seria uma incoerência, a espera passiva pela morte?

Seria a dimensão cognitiva da atividade do garçom suficiente p’ra justificar seu comportamento?

Se a competência do trabalhador depende de uma série de articulações*, entre os “conhecimentos, representações operativas de leis e de estruturas que dizem respeito aos ... fenômenos que neles ocorrem ..., de saber-fazer, advindos da experiência ..., de operações de tratamento de informações que surgem no curso das ações de trabalho...”* como justificar o comportamento do garçom?

A opção do ergonomista começava a “fazer água”, ao perceber que seria impossível escrever seu artigo sem esquadrinhar os códigos utilizados entre o garçom e o bêbado, sua relação num contexto da historicidade de cada um deles, os pontos comuns entre eles, determinantes do assassinato do garçom.

Seria uma pretensão descabida de um ergonomista fazer uma observação deste porte sem ouvir o garçom e o bêbado.

A construção de sua hipótese de trabalho*, ele devia saber, passava por uma série de etapas, capazes de gerar indicativos tais como a verificação e generalização de algumas constatações particulares; o estabelecimento de argumentações quantitativas de alguns aspectos bem delimitados; a pesquisa de elementos das situações onde não sejam suficientes os dados obtidos; a descrição meticulosa dos aspectos mais importantes.**

Neste contexto, o registro de verbalizações provocadas pelo ergonomista seria absolutamente imprescindível.

O ergonomista está mergulhado em suas reflexões, o garçom desaparece por alguns minutos e o bêbado se prepara ...

_______________

* Adaptado de Mario Vidal - Textos selecionados (relação ao final).

Joséphine canta J’ai un message pour toi ...

O garçom reaparece com uma arma na mão, aproxima-se do bêbado e dispara um após outro, com serenidade, os seis tiros de que dispunha. Todos no peito do bêbado.

O ergonomista, perplexo, chama o garçom, pede mais uma cerveja e, um tanto indignado, fala ao garçom:

- Estou surpreso! Neste ensaio, o bêbado é que deveria lhe matar.

Como se sabe, as dificuldades na obtenção de verbalizações podem se dar na transferência de intenção mal realizada, em que o locutor (o garçom) pode julgar o que seja do interesse do interlocutor (o ergonomista), sem que isto seja realmente de seu interesse; pode ocorrer pela impossibilidade da narrativa do locutor conseguir retratar, de forma fidedigna, componentes de sua atividade, adquiridos a partir de uma vivência pouco formalizada; ou pode, ainda derivar da própria limitação da linguagem.*

O garçom não responde, volta à mesa próxima do balcão, ao fundo, e começa a transformar em cristais uma nova série de cinco copos.

Nesta nova série, inverte a ordem no ciclo de seus pensamentos. O bêbado morto, ao pé da mesa da direita, ao fundo do botequim, leva-o a pensar, durante a limpeza do 1º copo, em Gerusa ... Trocá-lo por um jornalista mal sucedido, bêbado ... Gerusa ...

Enquanto Joséphine canta J’ai deux Amours, o garçom lembra de um poema de Domitilo de Andrade
Afinal!

Se a vida não é senão a busca incessante de realização

de nossas próprias utopias,

Ah! Que seja a morte a exaltação de não realizá-las.

Pois viver sem realizá-las, essa vida,

Eu não enfrento ...
O ergonomista, toma mais um gole de cerveja, preocupado em encontrar um tema para o Congresso Internacional de Ergonomia de Lima.

________________

* Adaptado de Mario Vidal - Textos selecionados (relação ao final).


Citações, referências, inspiração e fundo musical

1 - Roteiro de Análise Ergonômica do Trabalho - Mario Cesar Vidal e José Orlando Gomes, GENTE/COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, 1996.

2 - Ergonomia Cognitiva (A cognição e o Trabalho) - Mario Cesar Vidal, GENTE/COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, 1996.

3 - Conceitos Básicos para uma Engenharia do Trabalho- Mario Cesar Vidal e José Orlando Gomes, GENTE/COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, 1996.

4 - A Materialidade da Organização do Trabalho como Objeto da Intervenção Ergonômica - Mario Cesar Vidal, GENTE/COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, 1996.

5 - Apontamentos de aula - Disciplina: Ergonomia Contemporânea - Professor Mario Cesar Vidal, Curso de Doutorado em Engenharia de Produção, COPPE/UFRJ, 1996.

6 - Travail: Usure Mentale - Essai de psychopathologie du travail - Christophe Dejours, Bayard Éditions, Paris, 1993.

7 - J’ai Deux Amours - Joséphine Baker - CD Mudisque de France, 1994.



E mais ... Enciclopédia Mirador; Novo Dicionário Aurélio; Pequenos escritos engavetados...



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