O homem de granito



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Masarykova Univerzita

Filozofická Fakulta

Ústav románských jazyků a literatur

PORTUGALSKÝ JAZYK A LITERATURA



Lenka Kroupová



O HOMEM DE GRANITO:

O USO E A FUNÇÃO DOS MOTIVOS NATURAIS NA POESIA DE MIGUEL TORGA

Magisterská diplomová práce

Vedoucí práce: Mgr. Silvie Špánková, Ph.D.

Brno 2010


Prohlašuji, že jsem magisterskou diplomovou práci vypracovala samostatně a všechny podklady, ze kterých jsem čerpala, jsou uvedeny v seznamu pramenů a literatury.

Taktéž prohlašuji, že se tištěná verze práce shoduje s verzí elektronickou.

V Brně dne ...................... .........................................................

Lenka Kroupová

Moje nejsrdečnější poděkování náleží vedoucí této magisterské práce, paní Mgr. Silvii Špánkové, Ph.D., za věnovaný čas, pečlivé vedení a shovívavost, kterou mi při konzultacích projevila. Tímto jí vyjadřuji ještě jednou svoje upřímné díky.



«Miguel Torga é sempre o mesmo homem de pés fincados na terra transmontana».

Massaud Moisés

«Torga é a reencarnação de um poeta mítico por excelência - daquele que vive na intimidade das forças elementares (a terra, o sol, o vento, a água) para celebrá-las com o seu canto - e alto exemplo de constante rebeldia, numa atmosfera que pretende afixiá-lo.»
David Mourão Ferreira

Todo hombre tiene dos
batallas que pelear:
en sueños lucha con Dios;
y despierto, con el mar.


Antonio Machado

Índice



1. INTRODUÇÃO 8

1.1. Miguel Torga: o Anteu recriado 8

1.2. Objectivos do trabalho 10

1.3. Metodologia. 11



2. O TEMPO CULTURAL E LITERÁRIO DE TORGA 13

2.1. Decadentismo. 14

2.2. Grupo Presença. 15

2.3. Neo-realismo. 16

2.4. Outras tendências. 17

3. A VIDA E A OBRA DE MIGUEL TORGA 19

3.1. Biografia. 19

3.2. Obra. 24

3.1.1. Características gerais. 24

3.1.2. Teatro. 25

3.1.3. Ficção narrativa. 26

3.1.4. Diários. 30

3.1.5. Poesia. 30

3.1.6. Discursos doutrinários e ensaios. 31

3.3. Notas complementárias. 32



4. A NATUREZA E A METAPOESIA…………………………………………………......................34

4.1. Acto criativo: da sementeira à colheita 34

«Canção do Semeador». 34

«Colheita» 36

4.2. Natureza e o poder da palavra poética 37

«A palavra» 38

«Marca» 39

5. IDENTIFICAÇÃO COM A NATUREZA….. 43

«Identificação» 44

«Mimetismo» 45

6. MOTIVOS NATURAIS E A EXPERIÊNCIA AMOROSA ….. 49

6.1. Paixão amorosa 49

«Voz» 49

«Pedido» 50

6.2. Amor esfumado. 52

«Vendaval» 52

«Versos de Amor» 53

7. A NATUREZA E O DESESPERO VITAL….. 56

7.1. A natureza e o desespero. 57

«Voz reflectida» 57

« Canção da Aflição» 59

7.2. Experiência derradeira do Homem e a natureza .. 60

«Estuário» 61

«Vida» 63

«Limite» 64

7.3. A religião e a natureza. 65

«Condição» 65

«Comunhão» 67

«Rebate» 68



8. NATUREZA NO CONTEXTO DA LUTA ENTRE A OPRESSÃO E A LIBERDADE ….. 72

«Panorama» 73

«Desencontro» 75

«Convite» 77



9. A NATUREZA: O IBERISMO E A PORTUGALIDADE 81

9.1. Mar ibérico 81

«Mar» 83

9.2. Encruzilhada fluvial de Torga 85

«Doiro» 86

«Tejo» 87

9.3. Terra ibérica 88

«A Vida» 88

9.4. Pátria portuguesa 89

«Êxtase» 89



10. REFLEXÃO FINAL SOBRE A PROCURA DE ELEMENTOS NATURAIS NA POESIA TORGUIANA 93

REFERÊNCIAS 100

APÊNDICE. 103

1. Sumário cronológico da vida de Miguel Torga. 103

2. Ordem cronológica das publicações de Miguel Torga. 105













1. INTRODUÇÃO

1.1. Miguel Torga: o Anteu recriado

Segundo a mitologia grega, em desertos da actual Libia morava um dos mais temidos gigantes, o Anteu, filho da deusa da terra, Gaia, e do deus supremo do mar, Poseidon. O gigante fez um voto de edificar um templo de culto ao seu pai que seria feito de crâneos humanos. Obtinha-os desafiando todos os que ousaram pôr os pés no seu território ao combate corpo ao corpo. O gigante ganhava sempre graças às extraordinárias forças provenientes da terra que lhe concedia Gaia, a terra-mãe, cada vez que Anteu tocava o chão.

Anteu encontrou o seu rival tão somente no héroi Heracles que passava pela região em procura do Jardim das Hespérides onde devia colher as maçãs de ouro. Heracles derribou três vezes o gigante, mas sem conseguir vencê-lo, até que finalmente compreendeu a razão da sua força descomunal e levantou-o no ar. Anteu, perdendo contacto com o chão revitalizador e fonte das suas energias, asfixiou-se.1

Este mito inspirou vários artistas da literatura mundial, mencionemos o escritor espanhol José Manuel Caballero Bonald, o Prémino Nobel da Literatura irlandês do ano 1995 Seamus Justin Heaney ou o escritor americano Nathaniel Hawthorne que usou o mito no seu livro de lendas. Podemos assumir a eles o gigante das letras portugesas do século XX, Miguel Torga, pseudónimo do médico Adolfo Correio Rocha. Assim como o gigante Anteu conservava a sua força só estando em contacto directo com a terra, também este poeta, ficcionista e autor de peças de teatro retira forças vitais da terra, declara identificar-se com o Anteu mitológico: filho do Mar e da Terra.

Numa nota do seu Diário escrita na sua aldeia natal, S. Martinho de Anta, Torga escreveu: «De todos os mitos de que tenho notícia, é o de Anteu que mais admiro e mais vezes ponho à prova, sem me esquecer, evidentemente, de reduzir o tamanho do gigante à escala humana, e o corpo divino da Terra olímpica ao chão natural de Trás-os-Montes. E não há dúvida de que os resultados obtidos confirmam a veracidade. Sempre que, prestes a sucumbir ao morbo do desalento, toco uma destes fragas, todas as energias perdidas começam de novo a correr-me nas veias. É como se recebesse instantaneamente uma transfusão de seiva.»2

O autor reconhece a influência deste mito grego que modificou para os seus propósitos. Trocadas as terras mitológicas pela bela natureza do nordeste de Portugal, identifica-se sempre com a ideia essencial: o poder revitalizador do chão que proporciona energias vitais ao homem. Entrando em contacto com as fragas da sua terra de infância, Trás-os-Montes, o seu espírito se nutre da seiva das árvores, recupera os ánimos decaídos e o chão natal lhe supre energias para continuar a luta da vida.

A vida e a obra são inseparáveis em Miguel Torga. Entre os fatores que condicionaram a vida e a obra do autor encontra-se, no primeiro lugar, a sua aldeia natal, São Martinho de Anta, situada em Trás-os-Montes no concelho de Sabrosa, e o amor pela terra natal, que projectaram repetidas repercussões na sua produção literária. Com efeito, o telurismo é um aspecto que trespassa toda a criação artística de Miguel Torga, tanto a prosaística como a poética. Além disso, é impossível esquecer-nos da estação temporária no Brasil, a sua pátria de emigração, onde como adolescente trabalhou na finca do seu familiar para ganhar fundos para os estudos universitários.

Outro dos factores marcantes foi a residência em Coimbra, onde desenvolveu paralelamente a sua vocação artística e a profissional, a do médico especializado em otorrinolaringologia.3

A vida literária de Miguel Torga começa em 1928 com a publicação do seu primeiro livro de poesia intitulado Ansiedade aos 21 anos de idade, não obstante, o poeta recusa-o posteriormente salvando apenas dois poemas. Tambén não foi a sua intenção reeditar os livros que seguem directamente a Ansidedade, Rampa (1930), Tributo (1931) e Abismo (1932), e salvou deles apenas seis poemas e um verso. Desde 1929 até 1930 colabora com a revista Presença, veículo da expressão da Generação Presença, conhecida também como o Segundo modernismo português pela sua ligação com a geração dO Orpheu que introduziu o modernismo nas letras portuguesas. Os integrantes deste grupo e autores coetâneos de Torga, que naquela altura ainda assinava Adolfo Rocha, salientaram a autenticidade pessoal como valor primordial na criação poética e a independência dos valores estéticos.4 Precisamente a sobrevalorização do indivíduo e a falta de qualquer compromisso social farão que Adolfo Rocha se afaste do grupo e procure as suas próprias veredas artísticas. A pesar de manifestar preocupações similares à várias vertentes literárias, sempre conservou a sua originalidade e autenticidade até o último livro publicado, o Volume XVI do Diário, em 1993. Torga morreu em 1995 sendo reconhecido como um dos literatas que mais significativamente marcaram o panorama literário português do século XX com mais de cinquenta obras de teatro, prosa e poesia. Durante a sua vida foi galardoado por uma série de prestigiosos prémios literários nacionais, sem atingir o Prémio Nobel de Literatura, embora duas vezes proposto.

1.2. Objectivos do trabalho

Versos que albergam diversos motivos naturais e vegetais são constantes em toda a obra torguiana. O acentuado interesse de Torga pela natureza, espaço campestre e montanhoso assim como pelo povo camponês encontramos em toda a sua obra. Dada a sua vastidão, somos obrigados a delimitar um só campo da sua criação. Afinal escolhemos a obra poética. Visto que também nós compartimos com Torga a sua paixão pela natureza, achamos interessante ver como se desenvolvem os motivos naturais na sua obra. A lírica torguiana contém diversas palavras recorrentes típicas para o autor, que se repetem e constantemente reaparecem, às vezes transfiguradas. Por volta destas palavras agrupam-se os motivos. Precisamente a riqueza dos motivos naturais na obra de Miguel Torga que é considerável atraiu a nossa atenção. Ademais, os motivos raras vezes permanecem isolados, senão combinam-se entre si dando espaço a novas imagens. A observação do seu emprego e das transformações pelas que passam, pode ser uma aventura apaixonante pela que resolvemos encaminhar-nos.

Por tanto, no trabalho aqui apresentado vamos centrar-nos na função da natureza e da terra natal na poesia torgiana que se entrelaça com o resto dos temas grandes em Torga: a reflexão metapoética, a sensualidade, a questão religiosa ou as cogitações metafísicas.

Partindo dos seus livros de poemas, vamos tentar encontrar respostas às perguntas que se planteiam ao propósito: Que lugar realmente ocupa neles a natureza, com que temas secundários está ligada e como se reflecte o mito de Anteu na obra poética do autor? Como o poeta plasma mas sobretudo como explicar a presência dos recorrentes motivos naturais e telúricos que se encontram dispersados na sua obra? E, finalmente, como determina a força telúrica o estilo do poeta?



1.3. Metodología

Em suma, o principal enfoque do trabalho apresentado será a reflexão sobre o valor dos motivos naturais na obra poética torguiana e os mecanismos espressivos que o poeta usou para a sua apresentação.

Dada a vastidão da obra de Torga e o espaço limitado de trabalho de magistério, fomos obrigados a fazer selecção mesmo que os elementos naturais interferem em todos os gêneros que o autor cultivou. Optámos pela reflexão de elementos naturais na obra poética do autor que tem, para nós pessoalmente, maior interesse. Desta forma, o nosso desejo é contribuir modestamente aos estudos da obra poética torguiana, neste caso enfocada desde o ângulo de vista de motivos vinculados com a natureza. Contudo, dada a profundidade de estudos torguianos realizados, o trabalho dificilmente poderá ter um carácter totalmente novedoso. Mesmo assim, para nós pessoalmente representa uma sondagem muito enriquecedora na obra de um autor de qualidade incontroversa, altamente verdadeira, intensa e sugestiva, arraigada no chão e banhada pelo mar.

Quanto aos métodos empregados, todo o trabalho apresentado baseiar-se-á principalmente, mesmo não somente, no anâlise e na interpretação temáticos. Resolvemos, por tanto, realizar uma interpretação temática dos poemas de Miguel Torga para observar em que temas expressam-se os motivos naturais com maior frequência, e, marginalmente, formal por opinar que o estilo do poeta está sujeito aos temas e motivos seleccionados.

Para atingir os critérios propostos, vamos estruturar o trabalho aqui presente da seguinte forma: antetudo, consideramos conveniente localizar o autor no panorama das letras portuguesas e assinalar as tendências prevalecentes naquele período para criar um ponto de apoio. Visto que o poeta viveu quase tudo o século XX (nasce em 1907 e falece em 1995) a literatura portuguesa passou por numerosas fases e revezaram-se várias correntes artísticas. Como as mais marcantes para a criação do autor revela-se o Grupo Presença, conhecido também como o Segundo modernismo português e a corrente do neo-realismo social, com o qual ora nunca estiver formalmente ligado, mas com o qual a sua escrita têm certos aspectos comuns. Como já se fez constar, Torga nunca aderiu à nenhuma escola literária após do afastamento da Presença e seguiu o seu caminho original e autêntico.

A seguir continuamos com uma breve apresentação de dados biográficos do autor e dos momentos que marcaram de forma decisiva a sua produção artística. Esta reparte-se pelos vários géneros: poesia, ficção (contos e romances), teatro e textos ensaísticos e discursos doutrinários, embora o escritor se assumisse durante toda a vida como poeta.

A parte analítica compreende os capítulos quatro até nove, nos quais pretendemos enfocar a resonância do Mito de Anteu vinculado à natureza e o sentimento da portugalidade na obra poética torguiana. Assim, com base em referências bibliográficas consultadas, propõe-se, de início, tecer algumas considerações sobre a função dos motivos naturais na sua criação literária.

Para os fins da análise, trabalharemos com a edição das Publicações Dom Quixote Poesia Completa I. e II. que reúne toda a obra lírica torguiana. Neste lugar convém mencionar que Miguel Torga é também autor de uma série de Diários editados entre 1939 e 1993, nos quais o autor, em dezasete volumes, discorre sobre a sua vida e os acontecimentos que marcaram a sua era, e onde aparecem intercalados numerosos poemas que não saíram publicados em coletâneas independentes. Os volumes da Poesia completa de Torga inclui também os poemas pertencentes aos respeitivos Diários. A análise então pretende advertir sobretudo à forma de uso dos motivos naturais e recursos com os que se plasma. Evidentemente, não deseja interpretar de maneira exhaustiva todos os recursos artísticos empregados e realizar uma anâlise formal pormenorizada por não ser este o nosso alvo principal. Mesmo assim, em todos os capítulos encontram-se poemas que são trabalhados com maior detalhe porque ao mesmo tempo achamos que também o estilo de autor em união com o natural pode trazer noções de interesse. Naturalmente, somos conscientes de que a interpretação que pretendemos expor não pode ser exaustiva, pretende apenas oferecer uma orientação de leitura possível.

O trabalho termina com uma conclusão final à que segue una tábua cronológica de dados biográficos da obra do autor e uma tábua orientativa dos anos de lançamento dos seus livros para facilitar a orientação.

2. O TEMPO CULTURAL E LITERÁRIO DE TORGA

A vida profissional e artística de Miguel Torga transcorreu durante o século XX. Este século é extraordinariamente rico em diversas expressões artísticas. O período moderno das letras portuguesas data do estabelecimento da república em 1910. A partir de então, nascem diversas escolas que dominam as letras portuguesas de diversa duração e de distinto grado de influência nas gerações seguintes. Vejamos sucintamente o ambiente no qual se desenvolveu a sua produção literária e qual foi o tempo social, literário e político que compartilhou com os artistas portugueses deste século para compreender os traços e motivos recurrentes na sua obra.

A infância e adolescência de Miguel Torga deram-se em circunstâncias político-socias muito agitadas que tinham antecedência em anos precedentes. O início do século XX é marcado por grave crise na situação nacional. Já antes da ascenção do monarca D. Carlos I ao trono português, o país encontrava-se sumido numa série de conflitos: a crise política e económica extendida ao ultramar, esgotamento do rotativismo, constantes lutas entre republicanos e monárquicos, e um malestar social global. Em 1907, ano em que nasce Miguel Torga, D. Carlos confiou o governo a João Franco, um dos políticos dominantes da fase final da monarquia constitucional portuguesa. João Franco estabeleceu una firme censura e dissolveu as Cortes. Começa assim uma ditadura adiministrativa, marcada por repressões, agitações republicanas, insatisfação popular e crise financeira cujo ponto máximo é o regicídio a 1 de Fevereiro de 1908. A culpa foi atribuída a João Franco que foi obrigado a demitir, sendo substituído por um governo de acalmação.5

5 de Outubro de 1910 é proclamada a I República, que substituiu o Governo Provisório de Teófilo Braga. Incapaz de estabilizar a situação no país e pôr final às perturbações políticas e socias, que se iniciaram com o assassinato de D. Carlos I e do sucesor de trono, príncipe D. Luís Filipe em 1908, a República consumiu-se com o golpe de estado de 28 de Maio de 1926.

Os conflitos que afrontava a República foram graves: a sociedade estava fortemente dividida entre republicanos e monárquicos, viveu duas ditaduras efémeras – a primeira representada por Pimenta de Castro em 1915, e a segunda liderada dois anos mais tarde por Sidónio Pais, além de grandes desigualdades tanto económicas como sociais. Como aponta Douglas L. Wheeler: «Com um total de quarenta e cinco governos, oito eleições gerais e oito presidentes em quinze anos e oito meses, a República Portuguesa foi o regime parlamentar mais instável da Europa ocidental.»6 Estas discrepações prepararam terrenos para as intervenções militares na política e para a instauração da ditadura e do respectivo regime do «Estado Novo» que tão somente colapsou em 1974.

2.1. Decadentismo

Quanto à cena literária e cultural reinante nesta altura, também nesta projectaram-se as grandes questões do mundo finissecular: a polemização e abandono de valores tradicionais que privam o Homem de certezas, descrença no progresso, na felicidade humana e a decadência política, piorada em Portugal devido à descredibilização da Monarquia. Neste panorama de decadência, nascem diferentes correntes literárias que assumem, por sua vez, diferentes atitudes perante esta situação.

Antes da entrada de Torga na literatura portuguesa, convivem nas letras portuguesas o simbolismo, o neogarretismo e o decandentismo, e após a implantação da I. República também os ideais da Renascença e Saudosimo. Contudo, entre as influências decisivas para a fase juvenil da poesia torguiana conta-se o decadentismo, vertente literária estreitamente ligada ao Simbolismo dado que são frutos de igual clima sociocultural e ambas perfilam-se contra o realismo e o naturalismo. É efectivamente sob a chancela desta corrente, especificamente da linha satanista, na qual foram escritos os primeiros poemas de Miguel Torga.7

No atinente ao decadentismo, é marcado por procura de novas sensações mais fortes, conseguidas através da extravagância, morbidez, ocultismo, satanismo, gosto do patológico (sobretudo a loucura e a neurose), e uma assumida atitude de provocação (a homossexualidade, a ostentação dos vícios). Contudo, estas correntes convivem simultâneamente com outras tendências com quais se entrecruzam.

Torga, urgido pelas necessidades financeiras, vá aos seus 14 anos a trabalhar à finca do seu tio brasileiro. Quando volta em 1925 a Portugal, o panorama das letras portuguesas estava dominado pela estética da nascente Presença portuguesa, revista formada por seus coetâneos: Régio, Simões, Nemésio, Branquinho da Fonseca, etc. Integrado por um período breve nesta revista, é preciso salientar, ao lado da herança orfista marcante para toda a Geração de Presença, a tendência para a introspecção e análise interior que caracterizam esta estética.
2.2. O Grupo Presença

Quanto ao panorama literário desta época de opressão, Saraiva ressalta a bifurcação de tendências e explosão de novas formas de expressão que iam surgindo particularmente desde os anos 30 que decisivamente mudaram o perfil do último século literário em Portugal.8

Em 1927, quando já estava vigente o regime militar, foi lançada em Coimbra a revista literária Presença, que marcaria de forma decisiva a escrita juvenil de Miguel Torga, ainda conhecido sob o nome civil, Adolfo Rocha. A revista foi fundada em 10 de Março de 1927 por Branquinho de Fonseca e José Régio como uma revista de arte e de crítica.Embora a sua limitada duração (extingiu-se em 1940 com 54 números publicados), chegou a constituir-se como uma das mais influentes revistas das letras portuguesas do século XX.

Nas suas páginas obtinham espaço jovens poetas, prosistas e críticos portugueses, entre os quais, João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, Vitorino Nemésio, António Branquinho da Fonseca, Carlos Queirós, José Régio e o próprio Miguel Torga, que é chamado a colaborar na revista em 1929. Como elemento da Presença, cultivou os mesmos modelos de referência e sofreu influências comuns às dos outros modelos presencistas. Quando foi editado o primeiro número, compunham o quadro dos valores estéticos reinantes os autores franceses – Rimbaud, Apollinaire, Valéry, Gide, Proust –, espanhóis – Unamuno, Ortega y Gasset –, brasileiros – Amado, Lins do Rego, Meireles, Rebeiro Couto –, russos –Dostoievski – assim como as correntes filosóficas de Bergson, Nietzsche e Freud.9 À parte das infuências estrangeiras, não nos podemos esquecer da compartida admiração pela geração portuguesa antecedente a Presença, os Orfistas. Neste sentido, graças à tarefa divulgadora das obras dos autores do primeiro modernismo e admiração para com eles, podemos considerá-los como continuadores da linha modernista. Efectivamente, o grupo é conhecido sob o nome da Segunda geração modernista.10

Mesmo reconhecendo os orfistas como os seus mestres, o alvo principal dos presencistas foi uma literatura original e sincera, tão valorizada dentro do culto do artista-génio. Destacaram o individual sobre o colectivo, o psicológico sobre o social, a intuição sobre a razão. No número um aparece o manifesto de estética do grupo literário recentemente formado, Literatura Viva, assinada por José Régio. Nela, Régio proclama o seguinte: «Em Arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística. A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe.»11 No entendimento de Ellen Sapega, é concretamente esta escolha de não se implicarem socialmente uma das questões mais conflitiva do programa do grupo: «Dentro deste contexto de revisão e reavaliação surge, portanto, um dos valores mais coerentes, e também mais criticados, do projecto teórico presencista – a defesa de uma arte livre e transcendental, divorciada do seu meio e passiva a ser julgada só em função do seu valor estético.»12

A questão da defesa de uma arte desvinculada de limitações espaço-temporais resultou ser cedo a maçã da discórdia entre os mesmos integrantes do grupo. Esta polémica sobre o valor unicamente estético e autorreferencial e as disputas sobre a liderança no grupo, que assumiu Régio, produziu graves fricções entre es membros do grupo. Em Junho de 1930 ocorreu uma cisão interna, quando Torga, Edmundo Bettencourt e Branquinho da Fonseca afastaram-se oficialmente do grupo.

A partir de então – embora ter colaborado brevemente também com várias revistas mais – o percurso de Torga é solitário. Há quem o afilie ainda à corrente neo-realista, mas o próprio poeta se recusa a isto.13

O significado da Presença nas letras portuguesas tem sido objeto de várias polémicas. Em breve, estes pontos discutidos sintetiza o crítico e ensaísta português E. M. de Melo e Castro na publicação As Vanguardas na Poesia Portuguesa do Século Vinte. «Se a Presença é ou não uma forma de Modernismo (Eugénio Lisboa) (ou um Modernismo segundo?) se é um movimento contra-revolucionário (Eduardo Lourenço) ou não, se é ou não possível considerá-lo como uma vanguarda (Fernando Guimarães) – estes são os temas principais da referida polémica sobre o significado da Presença na vida literária portuguesa. »14

Após da Presença, já simultâneamente aos anos finais do reinado de Presença sobre as letras portuguesas, pedem a palavra as novas correntes artísticas: o neo-realismo, o surrealismo e uma série de autores jovens, que colaboraram com a revista Cadernos de Poesia e Novo Cancioneiro.



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