O homem de granito



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2.3. Neo-realismo

Já nos meados dos anos 30 começam a manifestar-se sinais de uma nova corrente de carácter ideológico de esquerda que procura representar a realidade social e económica de uma época mostrando-a sem rodeios. A literatura neo-realista em Portugal resgatou valores do realismo e naturalismo decimonónicos que misturou com forte influência do modernismo, marxismo e psicanálise freudiana.

Torga, apesar de manifestar preocupações de cariz social que o poderiam relacionar com o movimento neo-realista, nunca aderiu à esta escola, embora haja autores (Saraiva e Lopes) que afiliem a sua obra à esta corrente e que rasgos neo-realistas em certas obras suas (Vindima, por exemplo) sejam incontestáveis. É certo que Torga defende sempre a necessidade de evitar cair no individualismo literário e abandonar a torre de marfim; o poeta não quer ser alheio aos homens, mas procura um equilíbrio entre o papel da arte e da vida humana. Usualmente as personagens de Torga são enraizadas na terra nordestina ou alentejana que molda o carácter e comportamente deles. Mas mesmo preocupado com temas socias, Torga nunca permitiu que o elemento social prevaleça sobre o conteúdo intelectual e a dimensão metafísica. Segundo, rejeita a ideologia que foi ligada ao Neo-realismo.15

Forçoso é referir que o seu espírito independente o levou a ocupar um espaço próprio, fora das correntes literárias após do afastamento do grupo Presença.



2.4. Outras tendências

Na mesma década em que o Neo-Realismo se define, irrompe uma nova estética, o Surrealismo. As bases do movimento surrealista foram fixadas pelo artista francês André Breton com a escrita do primeiro manifesto surrealista em 1924. O surrealismo chega a Portugal só com 20 anos de atraso quando o meio literário estava dominado pelos neo-realistas. O ambiente socio-político, adverso ao livre-pensamento surrealista que entronca com o espírito das vanguardas, não favorecia o desenvolvimento desta corrente que se caracterizou em Portugal sobretudo pela sua instabilidade e efemeridade.

A partir dos anos 50 não podemos falar de nascimento de grandes grupos claramente definidos das correntes precedentes. As nova expressões artíticas multiplicam-se e abreavia-se a sua duração no tempo. Surgem numerosas revistas (intituladas, frequentemente folhas de poesia) e antologias e aparecem novos artistas com características e estilos heterogêneos, dificilmente enquadráveis num grupo. Com a Revolução de 25 de Abril de 1974, e a abolição da censura, a produção literária em Portugal "explodiu" tomando diversos cursos e encaminhou-se em distintas tendências, ainda que já não tanto ao abrigo de revistas literárias.

3. A PERSONAGEM E A OBRA DE MIGUEL TORGA

3.1. Breve biografia

Como ponto de partida para o interesse de Miguel Torga em elementos naturais que actuam como um tema recorrente ao longo da sua obra, devemos prestar atenção a uma série de rasgos biográficos deste autor creativo e prolífico.

Adolfo Correia Rocha nasce a 12 de Agosto de 1907 em S. Martinho de Anta no distrito de Vila Real, numa família de camponeses modestos. É o ano em que o rei D. Carlos impôs a ditadura de João Franco. A sua infância nos montes e serranias trasmontanas, a vida rural dura cheia de privações, de trabalho contínuo, a magreza de chão pedregoso cujos frutos ancestrais megalíticos encontram-se esparcidos pela região, e a convivência com a natureza e o ciclo da natureza marcara o poeta de forma decisiva. Vaz Ponce de Leão, autora de O essencial sobre Miguel Torga, acrescenta: «Esta pequena vila transmontana, a que regressa sempre que a necessidade de retemperar forças se faz sentir, permanecerá o seu axis mundi, corroborando-o as incessantes referências, ao longo da sua obra, àquela terra que «não é um lugar onde, mas um lugar de onde...»16

Ao completar a instrução primária de S. Martinho de Anta, é mandado para O Porto a servir numa case de parentes distantes. Ante a falta de possibilidades de mandá-lo estudar à cidade, em 1918 ingressa no Seminário de Lamego. Contudo, faz-se patente a falta de vocação sacerdotal e Torga abandona o seminário após de um ano. A sua estadia ali proporciona-lhe estimáveis conhecimentos de textos bíblicos que posteriormente aproveitará na sua criação artística, visto que o tema de relação com Deus e as questões de fé constituem uma preocupação de toda a vida para o autor. A família de Torga encontrava-se sem recursos financeiros e a partida para O Brasil foi a única saída para o jovem Rocha. Assim, aos 13 anos embarca para viver na fazenda Santa Cruz pertencente ao seu tio. O sobrinho não foi tratado com especial delicadeza e teve que desempenhar vários ofícios: desde a trata de porcos, capinar café e laçar cobras, tem responsabilidade pela escrita da fazenda, mas tem possibilidade de frequentar o Ginásio Leopoldinense na província. Em total permanece ali cinco anos. A experiência brasileira deixou traços na sua obra posterior e o poeta evoca a terra do seu exílio em numerosos poemas incluídos no Diário como Brasil, que formam parte do Diário VIII: «Pátria de emigração. / É num poema que te posso ter... / A terra - possessiva inspiração;/ E os rios - como versos a correr.»17 Paralelamente, encontramos no Diário II este apontamento: «Filme sobre Bornéo. Só nestas ocasiões, quando me encontro diante duma floresta tropical, é que sinto verdadeiramente o que significa toda a minha adolescência a romper no húmus duma fazenda do Brasil. Foi um fermentar que nunca mais acabou, pois continua a lavrar no meu corpo, dos ossos ao coração. Nada que se possa traduzir em palavras, porque não tem expressão condigna a quentura deste lume que recebi de uma terra incendiada de vida, de força e de liberdade.»18

Em 1925, um ano antes da consumação da Revolução Nacional, Adolfo regressa a Portugal onde termina o ensino licencial. Graças à ajuda financeira que recebe como recompensa do trabalho na fazenda do tio matricula-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Desde então, inicia-se como escritor publicando a seu primeiro livro de poesia Ansiedade. Como anota o investigador Jesús Herrero em Miguel Torga Poeta Ibérico, para Torga «O estudo da medicina constituirá a sua obrigação social. A poesia é a sua devoção íntima e pessoal.»19

A primeira nota que inaugura os escritos diários é dedicada efectivamente à sua Alma Mater. Reza o seguinte: «Passo por esta Universidade como cão por vinha vindimada. Nem eu reparo nela, nem ela repara em mim.»20 Detrás desta nota descobre-se o desgosto que guardava o escritor pela insitutição que em várias ocasiões veio a etiquetar como elitista envelhecida e politicamente servil.

Em 1929 é convidado a colaborar com a revista Presença, veículo de expressão da geração Presença, conhecida também como o Segundo Modernismo Português, como já foi referido. Dentro do grupo, que dá realce ao individualismo acentuado, e aspira a uma literatura e uma arte alheia e neutra a qualquer tendência política, social ou religiosa, pronto começou a sentir necessidade de um maior compromisso social. Para Azevedo Lopes, a herança presençista na obra torguiana consiste, sobretudo na consciência deste conflito entre o individual e psicológico e o universal. Comenta assim: «Desta passagem pela Presença sobressai, pois, uma conflitualidade em que Torga asume a sua profunda humanidade, procurando apaziguar dentro de si forças opostas sem o conseguir cara aos presencistas e particularmente a Régio.»21

O poeta desliga-se do grupo após de um ano. Com Branquinho Fonseca estabelecem a sua revista intitulada Sinal, cuja existência foi, contudo, efémera saindo apenas um número único. Em 1934 estabelece com Albano Nogueira uma nova revista, Manifesto, onde os colaboradores – Vitorino Nemésio ou Fernando Lopes Graça, entre outros – polemizaram a função do artista e intelectual na sociedade. Em total saíram 5 números, desde que a sua publicação se viu travada pela Censura.

Para além da sua primícia, publica ainda durante os seus estudos os livros de poesia Rampa (1930), Tributo e Pão Ázimo (ambos datados 1931) e Abismo (1932) que assinala ainda como Adolfo Rocha.

Após concluir os estudos universitários (1933), começa a exercer de médico geral numa vila pequena situada no Distrito de Coimbra, Vila Nova de Miranda de Corvo. No seu Diário menciona sobre aquela localidade: «A intimidade desta vida de aldeia é um espectáculo ao mesmo tempo repugnante e maravilhoso. (…) Mas, ao cabo, esta animalidade toda, de tão natural, acaba por ser pura e limpa como a bosta do boi.»22

Não é de estranhar que a vida na vila provinciana não satisfaz o jovem doutor com inclinações artísticas. A destinação oferece muito limitadas ou nenhumas possibilidades de vida cultural. Uma nota do Diário I diz: «Estou aqui enterrado em montes até às orelhas, a receitar xaropes e a ler o Comércio do cabeçalho ao derradeiro anúcio. «Pela cidade»… E vêm-me umas saudedes dos eléctricos, das livrarias e do Joaquim António de Aguiar dentro da casaca de bronze à Portagem, que até estas pedras bravias comovem. Já nem o negrilho posso ver! Ou saio daqui para um sítio onde haja ao menos um cinema, ou esta minha raiz, que mesmo do cabo do mundo bebeu sempre neste chão, seca como um canoco.»23

Naquela altura chega o momento crucial para a sua escrita. Em 1934, aos 27 anos, Adolfo Correia Rocha autodefine-se pelo pseudónimo que criou e sob o qual o conhecerá e reconhecerá a Península Ibérica e o mundo tudo: Miguel Torga. Apontemos para as discussões existentes entre os círculos de investigadores que debatem o significado deste pseudónimo.

A versão que mais partidários recaudou é a que sustenta que o nome de baptismo Miguel representa uma ligação entre os grandes Miguéis da cultura ibérica – Miguel de Cervantes, cujo Dom Quixote é leitura apreciada por Torga, e Miguel de Unamuno, filósofo e artista polifascético. Além disso, há quens acrescentam ainda o Arcanjo Miguel, chefe de exércitos celestiais.24 Por outro lado, o seu amor à natureza e a ligação ao chão natal traduz-se na escolha de torga, um arbusto bravio que cresce por todo o país, mas especialmente nas serras, humilde mas resistente.

No entanto, há outros que o interpretem de maneira diferente. O escritor e político Manuel Alegre suspeita que a chave consiste em uma engenhosa combinação de vogais e consoantes que constituem o pseudónimo que é cheio de correspondâncias e mistério.25 António Arnaut, autor de Estudos torguianos, encontra no seudónimo um esforço de transcender e atingir uma transfiguração associada com a mudança de estado. Para ele, Torga deixa de ser o filho do componês para se transfigurar num poeta. Por tanto, Miguel Torga é o nome do que se transfigurou.26 Seja como for, na pedra granítica da sua sepultura fica insculpido o seu nome de poeta em vez do nome civil.

Em 1939, o poeta-médico especializou-se em otorrinolaringologia e dirigiu-se para Leiria, onde fundou o seu consultório. É a altura na qual na Espanha vizinha ganhou na Guerra Civil o bando fascista liderado pelo general Francisco Franco, a Alemanha hitleriana ia ganhando controle, direito our indireito, sob a maioria da Europa, e a Italia foi governada por Benito Mussolini. O poeta, afectado pela ameaça fascista e os horreres acometidos pelos regimes dictatoriais, publica O Quarto Dia d’A Criação do Mundo. O volume é confiscado e Torga detido pela PIDE. Transferido para o Limoeiro e para o Aljube de Lisboa é posto em liberdade poucos meses depois. Após o seu regresso, casa com a intelectual belga Andrée Crabbé, que veio a frequentar um curso de verão na Universidade de Coimbra e que o poeta conhece numa tertúlia convocada por Vitorino Nemésio. Traslada o consultório para Coimbra, que nunca deixou de visitar, e dedica-se à escrita junto à sua profissão de médico.

O poeta tem um especial prazer um viajar. Para além das viagens regulares a S. Martinho de Anta e as idas anuais às termas de Gêres, viagens ao estrangeiro próximo ou distantes são a sua inclinação de toda a vida. Com a sua mulher revisita o Brasil da sua infância, depois viaja por práticamente toda a Europa, mas também as ilhas, e as antiguas colónias portuguesas na África. Não deixa de viajar até uma idade muito avançada. Visita a China e a Índia chegado aos oitenta.

Dos traços principais do retrato da personagem do autor destaca a sua personalidade soberana e insubornável, comprometida do ponto de vista tanto social quanto existencial. Além disso, a crítica assinala o seu carácter introspectivo, cujo centro é o desespero de um homem em constante confronto com o mundo e, sobretudo, em combate persistente consigo mesmo.

Exemplifiquemos com as palavras de Eduardo Lourenço: «O seu desepero existe na sua obra desde começo. De livro para livro se depura e concentra na expressão e se torna mais reflexivo no conteúdo. Mas o seu fundo permanece o mesmo. Ele é suscitado como todo o desespero humano por objectivos próximos e longínquos, por condições que têm a sua raiz nele mesmo ou no mundo com que se defronta, mas acima de tudo, pela experiência de um obstáculo, cuja natureza é obscura, mas cujo ser se confunde com o sentimento da própria existência no que ela tem de inominado e propriamente eterno.»27

Torga mesmo, sempre ávido por encontrar explicação para a angustiante condição humana, diz: «Não, não trouxe da aldeia a paz do arado que trazem todos. Conheço alguns, que investigam, medicam, litigam, profesam, com a serenidade e a paz com que os pais abrem regos de batatas na terra. Eu não. Eu trouxe de lá angústia, tortura, crítica negativa a tudo. A razão não a sei. Talvez sina, talvez desilusão crónica que se me colou à pele ao nascer...»28 Pelos vistos, corrobora-se a ideia de Lourenço sobre a origem incerta, difícilmente definível, das suas preocupações constantes.

Em adição, de acordo com o que aponta Alexandre de Melo Andrade, Torga dedicou-se a criar poesias que tematizaram o paradoxo entre o ser humano e as convenções, ou em outras palavras, o indivíduo e a sociedade.29 Em luta com Deus, as soluções procuram-se encontrar sem éxitos definitivos, vivendo o autor intensamente o desespero da consciência.


3.2. A obra torguiana

«– Mas porque não deixa você de escrever durante uma temporada, pra descansar? – perguntava-me hoje alguém.

– Porque era a mesma coisa que um crente deixar de rezar um mês ou dois, por higiene.»30

3.2.1. Características gerais

No conjunto da prolongada actividade artística, Miguel Torga é autor de dezenas de livros repartidos por vários géneros literários. A primeira obra escrita por Torga foi um livro de poesia intitulado Ansiedade (1928). Mais tarde o poeta recusou esta coletânea salvando apenas um único verso do poema Ignoto. O verso reza: «Sinto o medo do avesso.» O seu último livro saiu aos 84 anos do autor com o lançamento do último volume do seu Diário. Entretanto, escreveu poemas, narrativa breve, romances, peças dramáticas, ensaios e discursos doutrinários, e uma série intitulada Diários que compreendem vários géneros e estilos. A escrita mais valorizada é a escrita poética e os contos.

Em suma, na sua obra constatam-se quatro grandes ciclos temáticos que traspassam toda a sua criação: são, nomeadamente, os temas atinentes à preocupação com o ser humano, as suas limitações e a sua necessidade de transcendência, nas palavras de Eduardo Lourenço referido como o tema do «desespero humanista» que se relaciona com a sua personalidade introspectiva e meditativa; a seguir, a problemática religiosa onde o poeta se debate entre a (des)crença e (des)esperança como resultado da sua luta interior; o sentimento telúrico e a sua «portuguesia», termo inventado por Ortega e Gasset e o qual Jesús Herrero usou para referir-se ao amor e criticismo pela pátria portuguesa e iberismo que o autor tem.

3.2.2. Teatro

Miguel Torga é autor de quatro textos dramáticos que designa poemas dramáticos. Torga dedicou-se ao teatro especialmente nos começos da sua carreira artística e posteriormente abandonou este veículo de expressão e passou a cultivar outros géneros, ficando o teatro a forma menos apreciada.

A primeira peça, Terra Firme, foi escrita em 1941. Consta de três actos, coincidendo cada um com uma festividade religiosa celebrada no campo nortenho: o Dia de Reis, o Carnaval e a Páscoa. O conflito gira em torno da ecolha entre a terra e o mar. O filho opta por ofício de marinheiro e recusa ser camponês tal como o foram gerações do seu antepassados incluindo os seus pais. Estes, ficam a desesperar-se e a questionar-se tal escolha que não conseguem compreender e aceitar.31 No mesmo ano edita a peça intitulada Mar onde aborda as vidas de pescadores e reflete um vasto mundo de relações humanas e atitudes ante a vida perto do mar. Em 1947 aparece a Sinfonia e dois anos mais tarde, O Paraíso (1949) onde o autor recupera as personagens bíblicas e a questão da liberdade e livre arbítrio do Homem que, contudo, tem de pagar por isso. 32

A investigadora portuguesa Vaz Ponce de Leão encontra pontos de encontro do teatro e o resto da sua criação sobretudo no respeitante aos sentimentos que condicionam o desespero do Homem. Diz: «Une-a a luta do homem pela sobrevivência, condicionado pelo seu livre arbítrio, mas também pelas limitações que a condição humana lhe impõe. Na luta consigo próprio parece sair vencido, como também o sai na luta com forças adversas. Reduzido a uma instrumentalização superior, o desespero é manifesto por não conseguir a libertação – o mesmo desespero humanista, do vencido, mas não convencido, de que a poesia ou o Diário dão igualmente conta.»33

3.2.3. Ficção narrativa: prosa breve e contos

Torga é autor de narrativas breves intituladas Pão Ázimo (1931), A Terceira Voz (1934), O Senhor Ventura (1943) e Vindima (1945) e o romance A Criação do Mundo que saiu em 6 volumes entre os anos 1937 – 1981.

A prosa Pão Ázimo, publicada aos 24 anos de idade do autor, compõe-se de doze narrativas breves que giram em torno de temas omnipresentes em Torga: a condição humana avassalada pela morte e existência de forças superiores, a tarefa do poeta e a sua procura de imaterialidade. Segue-se A Terceira Voz cheia de alusões bíblicas, cujo maior interesse repousa sobre a passagem do próprio nome ao seudónimo artístico. Foi no prefácio deste livro que Adolfo Rocha apresentou e entregou Miguel Torga ao leitor.34

O Senhor Ventura data de 1943 e narra, com as palavras de Vaz Ponce de Leão «uma história de glória e patifaria, ingénua e maliciosa, pícara e trágica». Ventura, que é o nome do (anti)héroi desta obra epónima, é um termo polisemántico capaz de plasmar significados positivos de sorte, felicidade, e prosperidade assim como valores negativos relacionados com o risco, perigo e destino incerto.35 O nome predestina a vida do protagonista: vicissitudes entre momentos felizes e existência de sucesso e quedas cruéis. A obra consta de três partes. cada uma delas introduzida pelas palavras de um narrador que, em primeira pessoa, tece considerações sobre o desenvolvimento da história, antes de pôr-se a contar as peripécias vividas pelo protagonista. Segundo Vaz Ponce de Leão, esta obra dá conta de «o imigrante português que luta contra o destino trágico, não por carências económicas, mas pela índole aventureira que, aqui e agora, consubstancia um profundo traço do carácter do povo português.» A obra foi transposta ao ecrã.

Por outra parte, o romance, Vindima é testemunho da vida rural na região natal de Miguel Torga na época da recolha de uva. Neste romance, Torga exprime os seu amor e solidariedade com os Trás-Os-Montes e o seu povo. Precisamente as preocupações socias expressadas aproximam este livro às ficções neo-realistas, como aponta o escritor Urbano Tavares Rodrigues.36

A narrativa continua com os volumes dOs Diários os quais o autor redigiu e compactou em um só em 1991. O título da obra aponta para o mundo que o poeta trata de erguer baseando-se nas suas vivências que se convertem em objeto de reflexão por meio da obra literária. O romance é uma mistura de notas autobiográficas e autofictícias, que se combinam com outros géneros literários: relatos de viagens, cartas ou ensaios sócio-históricos e parcialmente uma crónica. As experiências pessoais, as paisagens, as pessoas que passaram pela sua vida funcionam como testemunhas de toda uma época da sua vida pessoal e do decorrer do mundo que o rodeava. O mundo que cria é um mundo da sua própria vida mas fictício e simbólico ao mesmo tempo que reflecte através de literatura.

No prefácio da traducão do romance ao francês publicada em 1984, o autor dirige-se ao leitores desta maneira: “Todos nós criamos o mundo à nossa medida. (…) O meu tinha de ser como é, uma torrente de emoções, volições, paixões e intelecções a correr desde a infância à velhice no chão duro de uma realidade proteica, convulsionada por guerras, catástrofes, tiranias e abominações, e também rica de mil potencialidades, que ficará na História como paradigma do mais infausto e nefasto que a humanidade conheceu, a par do mais promissor. Mundo de contrastes, lírico e atormentado, de ascensões e quedas, onde a esperança, apesar de sucessivamente desiludida, deu sempre um ar da sua graça, e que não trocaria por nenhum outro, se tivesse de escolher.” 37



O Primeiro e O Segundo Dia da Criação compreendem o processo de aprendizagem do protagonista. O primeiro volume trata da infância do autor até os seus 13 anos quando ao ver-se bloqueados a possibilidade de continuar os estudos por razões económicas, decidiu entrar no Seminário para ter acesso à cultura e educação. Contudo, o menino apercebe-se da falta de vocação sacerdotal e opta pela segunda possibilidade – a viagem ao Brasil. O Segundo Dia abrange a estadia na fazenda brasileira e a dedicação às tarefas agrícolas e administrativas, além de aperceber-se de uma primeira vez do mundo complexo de relações humanas e tipos de carácter. O Terceiro Dia (1938) trata das aventuras do narrador autobiográfico após da volta do Brasil. Completada a fase de formação, é difícil para o protagonista voltar à sua terra e reintegrar-se na sociedade agrícola na terra da sua infância. Escolhe estudos de Medicina e começa a dedicar-se à profissão. Por editar O Quarto Dia, que dá testemundo da época de 1937 à 1938 quando o narrador empreendeu viagem por Espanha, França e Itália e sentencia os regimes ditatoriais nascentes, é preso pela PIDE e aprisionado em Aljube. O livro é prohibido pela censura e só volta a ser editado 32 anos mais tarde. O Quinto Dia (1974) continua na linha de denúncia do ambiente político e social português mas prevalecendo as experiências no consultório leiriense e meditações sobre o acto de escrever. Em O Sexto Dia (1981) fixam-se na última fase de regime salazarista com os problemas da guerra colonial e os esforços de democratização que finalmente culminam na Revolução dos Cravos (25 de Abril de 1974) que, contrariamente às expectativas, traz ao eu autobiográfico desencanto mas sempre sem renunciar à luta pela liberdade.38

Em adição à narrativa, de certo é mais conhecida e lida a sua produção de contos, que igualmente foi uma das formas que o autor mais desenvolveu. A sua criação contística compreende títulos Bichos (1940), Contos da Montanha (1944), Rua (1942), Novos Contos da Montanha (1944) e Pedras Lavradas (1951).

“São horas de te receber no portaló da minha pequena Arca de Noé,”39 convida Torga ao leitor à leitura do livro de contos Os Bichos, herdeiro de fábulas tradicionais. Da mesma maneira tem como personagem principal um animal com características humanas: um touro, galo, melro, gato ou cão. Por outra parte, no livro estão insertos contos com um héroi humano. Através da interpenetração das categorias bichos-homem/homens-bicho percebemos que é uma forma de realizar a fraternidade entre os seres, entre os homens e os animais, todos filhos da uma única Mãe-Terra.40

Quando em 1941 Miguel Torga lançou o livro Contos Montanha, foi este apreendido pela polícia prontamente. A segunda edição teve que realizar-se no Brasil, esta vez com um título emendado: Contos de Montanha. Esta edição circulou clandestinamente em Portugal até que o autor a publicou de novo em 1962 em Coimbra em edição do autor.41 Segundo Vaz Ponce de Leão, os Contos de Montanha e os Novos Contos de Montanha formam um corpus heterogéneo unido tanto por a localização espácio-temporal como pela capa social protagonista.42 Torga faz protagonista da população portuguesa excluída, o povo transmontano, que mora nas serranias em pobreza e trabalho agrícola duro, adoptando uma postura de denúncia social. Os principais motivos e temas são, no respeitante à relações humanas, o conflitos entre o indivíduo e a colectividade (O Leproso), a interminável luta entre a justiça e a injustiça (O Artilheiro), a ânsia de liberdade e a questão do livre arbítrio e finalmente a emigração e o conseguinte regresso. Resta ainda por apontar para o tema da religião e a superstição que se entrelaçam na montanha, junto com as críticas à Igreja e as suas figuras representates. Simultaneamente, a comunhão com a natureza e o ciclo de vida humano são retratados através do milagre do nascimento e a capacidade criadora (Mariana) que contrasta com a morte e a esterilidade que terminam o ciclo vital (Fronteira).

O último livro de contos, Pedras Lavradas do ano 1951, se assemelha em muitos aspectos aos precedentes.

3.2.4. Diário

Os apontamentos dOs Diários iniciam-se e terminam-se com poesia. A primeria nota que figura no volume I. das suas escritas biográficas é do dia 6 de Fevereiro de 1932 e refere-se à Universidade de Coimbra. Ante ela, abre o Diário o poema Santo e senha onde convida a deixar passar a quem «vai cheio de noite e solidão». O Diário é obra de características híbridas, em que se mistura toda uma diversidade de formas e estilos literários. Está composto por uma série de reflexões perspicazes sobre acontecimentos internacionais e nacionais, diários de viagens, considerações sobre a política e o seu lugar, comentários de leituras e de diversos escritores, meditações metafísicas, sem deixar à parte as constantes deliberações metapoéticas e os mesmos poemas. Esta tendência acentúa-se especialmente a partir de 1965 quando Torga deixa de editar livros de poesia autónomos e começa a introduzir a sua poesia directamente no Diário. Em total conformam a série de Diário dezasséis volumes pulicados ao longo da vida de Torga. O primeiro sai em 1941, segue-se o Diário II (1942), Diário III (1946), Diário IV (1949), Diário V (1951), Diário VI (1953), Diário VII (1956), Diário VIII (1959), Diário IX (1964), Diário X (1968), Diário XI (1973), Diário XII (1977), Diário XIII (1982), Diário XIV (1987), Diário XV (1990) sendo o último o Diário XVI editado em 1991.

Vários são os temas que procupam o artista mas de certo os que prevalecem traspassam a sua criação inteira, tanto a narrativa como a poesia: o papel da poesia e do poeta, crise religiosa, o amor e a decepção de Portugal, denúncia da opressão e apelo à liberdade e o pânico ante a infalibilidade e iminência da morte. As alusões ao desenlace fatal da vida prolificam quando o poeta chega a idade avançada. A última nota que conclui o Diário é um poema intitulado «Réquiem por mim». O autor é consciente de se encontrar no umbral da morte. Preocupado com a ideia do aniquilamento físico total, por fim é capaz de aceitá-la. Com uma óptica já distanciada reflecte sobre o percurso da sua vida e faz certos balanços. A Morte é encarada por meio de uma metáfora de rio que dá ao mar ao qual o poeta pretende «desaguar.» A aceitação da Morte é pacífica e o poeta chega a eternizar-se por meio dela.

3.2.5. Poesia


    Como já foi referido antes, a partir de 1965 em adiante Torga passa a inserir a sua produção poética aos volumes diarísticos. A obra produzida antes deste ano encontra-se reunida em treze títulos sendo os primeiros Rampa (1930), Tributo (1931), Abismo (1932). Após de uma breve pausa, retoma a sua produção poética com O Outro Livro de Job (1936), Lamentação (1943), Libertação (1944), Odes (1946), Nihil Sibi (1948), Cântico do Homem (1950), Penas de Purgatório (1954), Orfeu Rebelde (1958), Câmara Ardente (1962), Poemas Ibéricos (1965) mais poesia incluída nos volumes dos Diários. Na poesia reflectem-se temas comuns para toda a sua escrita já relatados com anterioridade.

    Torga, autor prolífico, está constantemente preocupado com a faculdade de escrever, o próprio acto criativo e o conceito de poesia e poeta. Ele, para referir-se à sua própria faceta de artista, assumiu-se sempre em primeira linha como poeta. Refere a investigadora Azevedo Lopes: «Para Torga a Poesia é algo de tão fundamental e intríseco ao seu próprio ser que ele se refere sempre a si mesmo como poeta, identificando o acto da escrita com a própria vida (…).»43

    A intimidade ou a convivência do poeta com a sua criação constrói-se a través de reflexões obsessivas sobre o drama da criação, visto como um fenómeno ambivalente: por um lado é encarado como difícil e exaustivo quando é preciso arrancar as palavras, encontrar a paravra certa e perfeita em todos os sentidos, depurar a expressão e alcançar uma concretude absoluta; por outro, é um acto de elevação e forma de como eternizar as coisas, e assim lutar contra a morte. A morte, em oposição à vida, estende-se ao longo dos apontamentos do Diário. O poeta chega a angustiar-se frequentemente com a inevitabilidade da morte física, que procura combater, e porventura vencer, com e escrita. Neste sentido configura a Poesia como um mecanismo de eternizar-se e de perdurar até para além da morte.44


A questão religiosa é outro dos traumas indeléveis de Torga e está detalhadamente trabalhado através da sua escrita. A infância no campo português onde as leituras da Bíblia eram diárias, além da estadia no Seminário de Lamego desembocaram num conhecimento íntimo dos textos sagrados que valem incontáveis reflexões e alusões relacionadas com o religioso, embora o autor se proclamasse ateu confesso. Isto corroboram os títulos dos livros de poesia O Outro Livro de Job e Penas de Purgatório, assim como os nomes dos próprios poemas como «O Lázaro», «Comunhão», «Ressureição», «Sudário», «In Pulverem Reverteris», «Dies Irae», entre outros. O autor se debate entre a fé e a descrença, e procura difícilmente novos caminhos para dar com o divino, mas fora dos dogmas e instituções.

Finalmente, mas não por isso menos importante, o poeta dá na sua obra, duma forma fortemente impressiva, a sugestão plástica da terra trasmontana e do seu povo, cuja linha vamos observar com mais detalhe nos capítulos a seguir, após de concluir o tema com os rasgos relativos à sua obra doutrinária.

3.2.6. Discursos doutrinários e ensaios

Como último dos géneros aos que se dedicou, figuram os ensaios e discursos. Saíram publicados três: Portugal (1950), Traço de União (1995) e Fogo Preso (1976). Portugal é dedicado à sua pátria, através de um recorrido simbólico e histórico por Portugal, ressaltando províncias, regiões e cidades portuguesas. Aparece a Galiza e o Douro, o pastor beirão, a Coimbra fervilhante, Lisboa, Alentejo e Algarve, entre outros, realçando tanto vícios como virtudes do país letárgico.45 Em Traço de União Torga discorre sobre as relações entre Portugal e o Brasil e lamenta o desconhecimento reinante entre eles. Além de ponderações artísticas, sobressaem reflexões políticas e considerações sobre a ideossincracia brasileira do urbanismo moderno das cidades brasileiras como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Apesar do legado histórico português – materializado em cidades como Ouro Preto –, avalia mais a modernidade futurista de São Paulo.46 Por outra parte, Fogo Preso (1976) é um conjunto de entrevistas a jornais, dos textos sobre as figuras da literatura portuguesa – Eça de Queirós e Teixeira de Pascoaes, além de intervenções cívicas e políticas. Neles, o autor reage à situação nacional política e social na aquela altura e expressa as suas preocupações políticas, a defender a liberdade e opor-se a qualquer mecanismo que tencione travá-la.47




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