O homem de granito



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3.3. Notas complementárias

A maior parte dos livros que o autor lançou foram publicados em edições de autor e distribuídos pela Coimbra Editora, pois o autor recusava-se a entregar os textos à Censura oficial. Contudo, vários livros seus foram apreendidos e saíram publicados após passarem anos ou tiveram que publicar-se em outros países como no caso dOs Bichos que foram publicados no Brasil. O aspecto de livros tende a ser simples, sem dispendiosas soluções gráficas, e poupando na qualidade do papel e de capa. Esta razão deve-se principalmente à intenção de Torga de fazer chegar as publicações ao número máximo de leitores e não excluir aqueles de escassos recursos económicos.

Aparentemente, Torga nunca chegava a ser satisfeito com a sua escrita, reeditando-a sempre e recusando aceitar outra pessoa por editor. A sua ânsia de perfeição levou-o à profundas desilusões e trouxe-lhe poucas satisfações. No Diário diz acerca de um livro publicado: «Aqui tenho à mesa-de-cabeceira o último livro ainda a cheirar à tinta da tipografia. Não há dúvida nenhuma que o concebi, que o realizei, e que, depois disso, com os magros vinténs que vou ganhando por estes montes, consegui pô-lo em letra redonda – a forma material máxima que se pode dar a um escrito. E, contudo, olho esta realidade que eu tirei do nada, que bem ou mal arranquei de mim, com o mesmo desânimo com que olho uma teia de aranha. E não é por saber de antemão que o livro vai ser abocanhado ou ignorado. (...) O meu desalento vem duma voz negativa que me acompanha desde o berço e que nas piores horas diz isto: Nada, em absoluto, vale nada.»48

Em contradição à sua severa autocrítica, a autor foi proposto em várias ocasiões para o Prémio Nobel sem consegui-lo nunca, contudo. Na altura dos anos 70 e, sobretudo no final da sua vida, recebeu numerosos prémios nacionais e internacionais. Entre eles, Torga foi o primeiro Prémio Camões das letras lusófonas (1989), em 1992 foi galardoado com o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores e um ano mais tarde a sua obra foi reconhecida com o Prémio da Crítica. Torga, porém, nunca revelou muito apreço pelos diversos prémios atribuidos. A recepção do prestigioso Prémio Internacional de Poesia de Knokke-Heist valeu duas linhas no Diário: «O Prémio Internacional de Poesia. Deus me proteja.»49

A entrega do Prémio Camões foi comentada no Diário da seguinte, muito sóbria forma: «Prémio Camões. Os meus leitores mereceram-no.»50 No apontamento do Diário explica: «Uma das poucas virtudes que tenho é de não gostar de escrever o nome nas paredes e nos livros de honra que há por este mundo. Parece-me um dos mais débeis processos de eternização, e eu sou um homem de granito.»51
4. A NATUREZA E A METAPOESIA

Comforme o que já foi declarado, a crítica revelou na poesia torguiana uma forte preocupação pelo acto criativo, o conceito de poesia e a condição do escritor. Não é de estranhar que também nas reflexões do autor sobre a poesia penetra a natureza que interdialoga tanto com o próprio Poeta como com a Poesia. Pretendemos, então, neste apartado observar de que forma o tema da metapoesia se serve de motivos naturais e com que mecanismos formais os trabalha.



4.1. Acto criativo: da sementeira à colheita

Já no título da canção a seguir, «Canção do Semeador», é encerrada uma alusão telúrica e genesíaca que remete à imagem do poeta como semeador que como um camponês semeia trigo na terra, semeia poemas. O Poeta maiusculizado sente a urgência de compor poemas e povoar com eles a realidade vazia e desanimadora do quotidiano, embora incapaz de prever se o seu lavor produza o efeito desejado (tanto como a sementeira real).

«Canção do Semeador»52

Na terra negra da vida,


Pousio do desespero,
É que o Poeta semeia
Poemas de confiança.
O Poeta é uma criança
Que devaneia.

Mas todo o semeador


Semeia contra o presente.
Semeia como vidente
A seara do futuro,
Sem saber se o chão é duro
E lhe recebe a semente.

O poema é dividido grafica e semanticamente em duas partes (estrofes) entre as quais existe um contraste que causa uma tensão de ideias entre a percepção de vida estagnada e a fé em que a tentativa de renovar trará frutos.

Na primeria estrofe, plasma-se a imagem do Poeta que interage com a terra. A vida, representada pela metáfora da terra, é caracterizada como uma realidade opressiva apertada, sem brilho. Conforma um espaço estagnado (pousio) ainda assim vislumbrantemente latente de vigor e expectante de uma ocasião para reverdecer novamente, neste caso, com a poesia. A seguir aparece a imagem do Poeta encarnado na figura de um camponês simples, capaz de semear a terra que foi excluída do cultivo. A voz lírica compara o Poeta com uma criança que começa a enfraquecer. De forma semelhante à uma criança, um ser frágil e não completamente preparado a encarar a realidade, que prontamente perde a energia inicial ante uma tarefa custosa impossível de remediar imediatamente, começa a perder a força também o Poeta.

Na segunda estrofe também construída por uma sextilha de versos predominantemente heptassílabos, esboça-se a importância da persistência do semeador na sua tarefa: embora os resultados não sejam patentes neste instante, possielmente o serão no futuro. Depreende-se que é importante superar as dúvidas do presente para poder vencer no futuro, embora incerto e imprevisível.

Não podemos deixar à parte a carga semâtica e simbólica da palavra capital deste poema que entrelaça os versos ao longo de todo o poema prestando-lhe união ideológica e estrutural: a palavra semente e as suas palavras derivadas (semeador, sementeira, semear). Uma semente, embora pequena, oculta em si um poderoso gérmen de vida é símbolo de renovação, vigência e fé no futuro. Simboliza possibilidades abertas com vistas para o futuro, novos inícios e alimenta esperanças. Naturalmente não todas as sementes podem brotar e gerar grandes árvores, mas não é de desestimar o seu poder, mesmo que o efeito se produza a longo prazo. Assim, através de uma comparação com uma faina agrícola: a sementeira poetiza-se, a nosso modo de ver, o impulso ao lavor criativo renovador e incessante ante a estagnação e o oco de vida sem uma semente imaginativa. Ou dito em outras palavras, apresenta o Poeta, crente na capacidade da poesia de conceder sentido à vida humana.

A identificação do poeta com o lavrador repercute-se em vários poemas de Torga. Por exemplo em «Comunhão» continua na linha da metáfora do poeta-camponês («Tal como o camponês, que canta a semear/ A terra,/ Ou como tu, pastor, que cantas a bordar/ A serra/ De brancura,/ Assim eu canto, sem me ouvir cantar,/ Livre e à minha altura…»).

Conforme deparámos já no poema «Canção do Semeador», também o poema seguinte, «Colheita», remete à metáfora do acto criativo e do seu resultado -um poema- através da imagem de fainas agrícolas: a sementeira e a colheita. O poeta, tal como o lavrador que semeou no Outonoe no Verão prepara-se para ceifar os frutos do seu lavor, ou saborosos ou imaduros, desconhece o resultado que é imprevisível.

«Colheita»53

Os frutos vêm agora em pleno dia,

Maduros de certeza e de frescura.

A raiz, toda em húmus de alegria,

Pode mostrar ao céu cor e doçura.

O vento que passar apenas leva

Sementes doutro sonho por abrir.

Inverno que durar concentra e neva

Outros frutos futuros que hão-de vir.

Rosa de mosto, de saúde e rumo,

Na mais alta pernada,

A poesia é um sumo

Desta harmonia plantada!

Da primeira estrofe filtra-se a satisfação e ilusão do sujeito lírico de ter acertado com a sua tentativa criativa. O seu Verão está a dar frutos de qualidade. O poeta está consciente de ter originado um produto original e certo. É a raiz que porta a essência deste fruto: a cor e a doçura, por outras palavras, a forma e o resultante conteúdo autêntico, pleno de significado. Desta forma, o poema maduro pode manifestar-se e abrir-se ao exterior, ao público.

A segunda estrofe entrevê a colheita do ano seguinte. As sementes são trazidas pelo vento, metaforicamente dito, ou seja pelo instante de inspiração, ao qual segue-se o processo criativo que o transformará em poema. Estabelece-se uma dicotomia entre o Verão pleno e o Inverno cru que coincide com a tarefa árdua de criação poética que não é somente encarada como um produto de inspiração momentâea, mas consiste igualmente de rigor e concentração. Contudo, acredita-se no poder criativo do chão/ mente do poeta, que nunca deixarão de dar frutos.

A última estrofe, formalmente heterométrica, apresenta os ingredientes do coctail poético: A poesia é afrontada como uma mistura lograda de mosto (de ideia original e líquida), saúde (que corresponde à viabilidade de ideias) e rumo (corrente de ideias e imagens enveredadas para a causa final). A poesia é o produto de fermentação destes factores. O último quarteto rompe com a regularidade métrica de versos decassílabos embora conservando o esquema de rima assonante em abab. A métrica regular se entrecorta para conseguir um efeito rítmico surpreendente e, ao mesmo tempo, sublinhar a ideia chave contida na última estofe: a poesia como produto de fermentação de ideia cintilante, bem sucedida, combinada com afã rigoroso. Desta maneira, Azevedo Lopes observa na poesia torguiana duas fontes de abordagem do acto criativo: a face representada pelo poeta inspirado e a face do poeta – artesão.54 Portanto, trata-se de conciliação da concepção romântica de arte (arrebato, inspiração) e uma concepção clássica (esforço rigoroso, afã de perfeição) planteada por meio de uma metáfora tomada do mundo natural.

Ideia semelhante plasma-se também no poema «Fonte Nova»55 onde o sujeito lírico, outra vez metaforicamente, dedicando-se ao trabalho mineiro, consegue dar com uma vertente de água por entre as rocas («Minei as fragas onde o sol e a neve/ Pintavam panoramas só de fora./ E da alma da serra, fresco e leve/ Brotou este caudal que tenho agora.»).



4.2. Natureza e o poder da palavra poética

No poema seguinte, Torga aponta para o poder evocativo e imaginativo da palavra, concretamente das palavras que conformam o campo semâtico da natureza, que fortemente perfila a poesia torguiana e a qual, efectivamente, suscita no poeta um sem-número de sentimentos.

«A palavra»56

Falo da natureza.

E nas minhas palavras vou sentindo

A dureza das pedras,

A frescura das fontes,

O perfume das flores.

Digo, e tenho na voz

O mistério das coisas nomeadas.

Nem preciso de as ver.

Tanto as olhei,

Interroguei,

Analisei


E referi, outrora,

Que nos próprios sinais com que as marquei,

As reconheço, agora.

A capacidade evocadora de certas palavras em nossa mente é incrível. O sujeito lírico ao pronunciar a palavra natureza é capaz de evocar mentalmente as percepções sensoriais que sente conotadas a ela. Assim, revela-se toda uma série de percepções sensoriais e imagens muito precisas, plásticas e maleáveis, captáveis através de sentidos humanos. O tacto permite sentir a dureza das rocas, através do sabor prova a água fresca dos rios e pelo olfato cheira a flora. A impressão é potenciada pelo desenvolvimento lento das imagens. As percepções não surgem imediatamente, senão demoram em estender-se no tempo e espaço, dado o uso do presente contínuo (vou sentindo). Este, ademais, aponta para certo aspecto durativo. Portanto, a imagem forma-se lentamente e perdura certo tempo na imaginação do sujeito lírico. É de supor que o poeta pertence à pleiade de artistas fascinados pela força da palavra poética certa, verdadeira, cheia de significado. Neste caso, o eu lírico conquistou a palavra poética certa que o transmite a mundos imaginativos mas ricos de vivência autêntica: a natureza.

A segunda parte do poema, apesar de não estar marcada distintamente na grafia mas sim na lógica e na semâtica, gira em torno do mistério da denominação das coisas, a faculdade de apoderar-se delas ao nomeá-las. Embora a primeira parte seja construída essencialmente com estruturas nominais, na segunda predomina a acção verbal que origina uma mudança de atmosfera e o dota de ritmo marcado. O poema consegue desta forma um ritmo muito agitado e cortado. O processo de conquista de palavras certas é complexo e o sujeito lírico refere-se a ele por meio de sequência de verbos em pretérito perfeito de indicativo que transmite a noção de acções terminadas, que não guardam relação com o presente, porque já a conquista deu resultado e o conhecimento que dela derivou é total. A realidade fica apanhada dentro do poema e ao pronunciar a palavra verdadeira, este mundo capturado revela-se.

Finalmente, os dois últimos versos provam a concepção da poesia como um meio de deixar marcas de criatividade que são permanentes.

Tanto como no poema antecedente, onde o sujeito lírico refere-se ao mistério das coisas nomeadas com o verbo marcar, também no poema seguinte aparece a convicção, e ao mesmo tempo ânsia, de marcar, de deixar vestígios e assim permanecer perpetuado naquele vestígio. Com efeito, é na natureza, meio predilecto do poeta, onde se pretende eternizar.

«Marca»57

Um verso, ao menos, nestas serranias!

Que passe o vento sem deixar sinais

No rostro enxuto e sério dos penedos;

Que a neve vista e dispa os arvoredos

Como um velo de ovelha imaginada;

Mas que fique gravada

Na carne imacuada da paisagem

A indelével e bruxa tatuagem

De uma voz inspirada!

O poema inicia-se e termina com uma exclamação. Então, o poema adquire um tom emotivo e veemente já desde o primeiro verso e culmina na ênfase final. Começa com a exlamação emotiva na qual o eu lírico expressa a sua necessidade urgente de poesia nestas serranias. Segue-se a enumeração de mudanças relacionadas com a natureza (serranias, penedos, arvoredos) e o ciclo natural junto com os fenómenos atmosféricos (vento, neve). Não podemos deixar de lado a noção que esse tipo de paisagem descrita faz lembrar as montanhas do Norte de Portugal, donde Torga provinha.

O conteúdo entre estas duas exclamações é denso e consistente e constrói-se predominantemente de frases desiderativas. Com ajuda delas, o sujeito lírico expressa uma exortação cuja mensagem é a suprema importância dada à conservação da essência do estado das coisas original. Para além disso, insiste-se na base pura das coisas na qual se quer incrustar a marca «de uma voz inspirada.» A ideia da voz inspirada remete às concepções româticas da figura do poeta como um ser único e solitário que convive, essencialmente, com a sua própria interioridade. Segundo Vaz Ponce de Leão, as recorrentes reflexões metapoéticas são, de facto, devedoras de rastros de jeito româtico que acredita na figura do Poeta a prenda do gênio e concebe o acto de criação como elevação de espírito.58

Dando um passo adiante, o fascínio pela poesia e o seu poder mágico são motivos para relacioná-lo com a herança clássica do mito de Orfeu. É notório que os mitos e as alusões mitológicas são, a par de referências bíblicas, fontes de inspiração predilectas de Torga. Além do mito do Anteu, é precisamente o mito órfico um dos mais significativos. São disso provas os títulos de vários poemas e o do seu livro de poemas mais importante que recolhe poemas de inspiração órfica, Orfeu Rebelde que contém poemas «Orfeu Rebelde», «Descida aos Infernos», «Desencontro», «Ameaça de Morte». Mas este mito não se limita só a este poemário; aparecem os seus traços também em outros como em Odes («A Orfeu») ou em Câmara Ardente («Eurídice») assim como nos volumes dOs Diários (Diário VI: «Orfeu», Diário XIII: «Eurídice»´).

Com a sua voz excepcional, Orfeu, pastor de Trácia, conseguiu silenciar as sereias que punham em risco as vidas dos argonautas no seu caminho pelo mar em procura do Velocino de Ouro. Ademais, com o seu canto convenceu o Rei do Mundo dos Mortos para que lhe permitisse trazer de volta ao mundo dos vivos a sua companheira Eurídice. Orfeu serve como símbolo do poeta e cantor que com o seu canto seduz e arrebata o seu redor, consistindo a sua força mágica nas palavras engenhosamente construídas e nos efeitos rítmicos. Como acertadamente assinalou o investigador português José Ribeiro Ferreira, «Em Torga, parece haver uma identificação de Orfeu com o próprio poeta.»59

Também o crítico Cardoso Bernardes acentua esta ideia salientando que na obra torguiana «a noção de que a escrita literária (e a inspiração lírica, em particular) excede o plano da consciência e da programação racional para se inscreverem, de facto, no âmbito da transcendência órfica.» Assim, na opinião de Cardoso Bernardes, «mais do que imitar a realidade, a poesia de Torga reinventa-a sem cessar, tal como Orfeu conseguia modificar a paisagem envolvente através da melodia do seu canto. Para além de tudo, e ainda à semelhança do pastor da Trácia, o objectivo último do poeta é sempre o de resgatar a amada Eurídice (que tem, neste caso, o nome de Pátria), arrancando-a ao negrume do Hades e devolvendo-a à luz e à esperança do futuro.»60

A Eurídice mencionada pelo investigador, a terra nortenha, neste caso cumpre mais uma função. É nos últimos quatro versos onde se concentra o objectivo final do tema do poema. Isto é a perpetuação da voz inspirada do poeta no mundo, na paisagem das serranias cobertas de florestas. De acordo com o que já foi dito, os sujeitos líricos da poesia torguiana chegam a angustiar-se constantemente com a inevitabilidade da morte física, que procuram combater, e porventura vencer, com e escrita. Neste sentido, Torga configura a poesia como um mecanismo de eternizar-se e de perdurar para além da morte. O termo bruxo com qual se refere à marca que pretende legar ao mundo, tem conotações mágicas e sobrenaturais que geralmente são capazes de interferir no plano físico do homem ou para o seu bem ou para o seu mal.


    O poema na sua totalidade possui um tom insistente que é formalmente conseguido sobretudo graças às construções paralelísticas e ao uso de frases exclamativas. O poema consiste em nove versos e aproveita os versos endecassílabos que combina, no verso 6 e 9 com hexassílabos. A regularidade é truncada claramente por motivos enfáticos visto que esses são os versos que portam o significado da mensagem principal acerca da natureza nortenha: «Mas que fique gravada/ De uma voz inspirada!» Para além dos paralelismos, dentro do poema se pode apreciar a personificação da natureza na sua totalidade (fala-se do seu corpo que se quer marcar com uma tatuagem), e mais concretamente dos penedos e da neve.

    Este motivo não é para nada um caso solitário no poemário torguiano. De facto, forma parte do leque dos temas recurrentes de Torga. Neste capítulo, vimos como funciona este motivo dentro do espaço metapoético e como se identifica com a natureza o Poeta maiusculizado. No capítulo seguinte, vamos voltar ao tema de identificação do Homem com a natureza. Este vez do homem como indivíduo.


Em resumo, nesta parte intitulada A natureza e a metapoesia observámos com maior detalhe a maneira de Miguel Torga de fundir as suas procupações metapoéticas com a dimensão natural e telúrica. No primeiro ponto vimos que a poesia torguiana aproveita a metáfora das fainas no campo e a figura do lavrador para referir-se ao processo criativo e à figura do Poeta. Ademais, a poesia é concebida como um mecanismo contra o vazio existencial na vida humana. A luta contra o oco tem que ser continuada apesar de não se poderem prever os resultados já que o objectivo é perseverar, tal como o lavrador cada ano recomeça o seu lavor e nunca deixará de semear. O poeta utiliza o jogo metafórico de vocabulário genesíaco por meio de palavras relacionadas com o campo, sobretudo, a semente. Pelo poeta, é compreendida como armazém de energia concentrada da qual emana a essência da vida. O seu valor mantém-se íntegro esperando o momento propício para começar a crescer e dar lugar ao milagre da criação. Sobretudo é posto de relevo o poder criador do chão/mente do poeta. Reconhece-se, por outro lado, a necessidade de trabalhar para obter resultados satisfatórios. Revelam-se assim dois planos de juízo sobre a criação: inspiração e trabalho, frequentemente plasmados metaforicamente.

A importância dada à natureza no processo manifesta-se ainda no conteúdo da própria palavra natureza. Para o poeta, esta palavra é altamente sugestiva e cheia de imagens quase fisicamente palpáveis. Abundam as meditações sobre o mistério do nome das coisas, a faculdade de apoderar-se delas ao chamá-las pelo seu nome. Ao pronunciá-las, restituise todo o tempo que foi invertido na reflexão sobre elas, visto que as palavras oferecem imagens tão plásticas que não precisam de ser novamente visualizadas.

A seguinte dimensão que encontrámos é o afã de se eternizar por meio de marcas que o poeta deseja deixar na natureza. O medo de perder a voz no tempo e espaço é sentido como muito agudo e guarda relações com as preocupações atinentes ao tempo humano, envelhecimento e a morte, seja física, seja espiritual. A perda final e total é combatida através de marcas que o sujeito lírico dos poemas quer deixar neste mundo. Com efeito, é na natureza, espaço favorito do poeta, onde se pretende tornar eterno. Especialmente propícia para esse alvo acha-se a paisagem transmontana.



5. IDENTIFIÇÃO COM A NATUREZA

A obra poética de Torga desenvolve-se desde os anos vinte até os noventa e apresenta grande número de aspectos que dão forma ao seu legado literário. Contudo, é possível identificar certas constantes nas suas composições poéticas, como já foi referido. Entre elas, encontramos a presença de temas e motivos relacionados com a vontade de se fundir com a natureza, identificar-se com ela e convertir-se na paisagem de infância. São ideias que Torga trabalha frequentemente na sua escrita. No capítulo anterior vimos que esta vontade reflete-se também na preocupação metapoética. O Poeta procura esta fusão para conseguir eternizar-se e alcançar a sua plenitude. Mas este tema não funciona somente em união ao sujeito lírico – poeta. Ser poeta não é condição para poder desenvolvê-lo.

Assim, por exemplo, no poema «Identificação»61, o sujeito lírico sente que a sua essência física está formada pela natureza. A dimensão física –a natureza transmontana– é manejada por Torga como método de procura da sua identidade, onde quer encontrar o seu próprio eu. Destarte, pretende-se voltar à herança natural humana que foi esquecida pelo homem moderno.

Desta terra sou feito.

Fragas são os meus ossos.

Húmus a minha carne.

Tenho rugas na alma

E correm-me nas veias

Rios impetuosos.

Dou poemas agrestes,

E fico também longe

No mapa da nação.

Longe e fora de mão...

A primeira frase, enunciativa afirmativa, anuncia directa e concretamente o tema da canção: o sujeito lírico proclama-se ser constituido por esta terra. Compreendemos por esta terra a sua terra de origem, à qual o poeta volta recorrentemente na sua obra. Neste caso, no sentimento de indentificação com a terra projecta-se paralelamente o seu amor por Portugal. O sujeito lírico identifica-se plenamente com a natureza; os elementos que compõem o seu corpo (ossos, carne, sangue) encontram paralelo nos elementos vegetais que formam parte da paisagem setentrional.

O poema é constituido por 10 versos hexassílabos regulares sendo a rima irregular. Rimam tão somente os versos 2 e 6 em consonante e 9 e 10 em assonância. A primeira rima funciona como ligação entre a enumeração dos elementos constituintes do corpo do sujeito e os seus antípolos naturais. A segunda liga o motivo dos versos 7 até 10. Neles, o eu lírico plasma-se na sua condição de poeta. O adjectivo agreste que complementa à palavra poemas conota espaços campestres, sem cultivo, selvagens, cheios de vida indomada e não sujeitos a regras impostas. Assim, o poema pode compreender-se dentro do contexto da serrania que configura o seu mundo e está no fundamento da sua personalidade. Por tanto, a rima assonante em versos 9 e 10 aglutina as imagens do distanciamento do sujeito lírico do bulício quotidiano. Junto com a vontade de se fundir com o natural, vai o afastamento e marginação.

Mais um poema leva o mesmo nome, «Identificação»62, no poemário torguiano. Nele, a voz lírica também afirma que a sua essência brota da natureza. Esta vez a essência procura-se no chão e o sujeito acha-se constituído pelas raízes («É debaixo do chão que me procuro./ Que fundura atingiu cada raiz?»). A pergunta chave é uma consideração retrospectiva do percurso vital do indivíduo e uma reflexão sobre a fundura dos traços que foram deixados.

Portanto, a vontade de mímesis com a natureza é presente em vários poemas torguianos. Manifesta-se também no título do poema «Mimetismo» que se adere ao ciclo temático recorrente da identificação com a natureza.

«Mimetismo»63

Sou mais um caule na floresta densa.

Um tronco de preguiça vertical.

Inerte, muda anónima presença,

Perdida no silêncio vegetal.

Não ondula uma folha, um pensamento.

A sombra é o véu do tempo interrompido.

E o coração que bate, e a seiva em movimento,

Dão apenas à vida um resplendor fingido.

O título do poema, «Mimesis», remete ao conceito da arte como imitação e representação da natureza, ou seja, da realidade. Embora a mimesis tenha sido alvo de diferentes escolas e etapas literárias ao longo da história da literatura, a arte do século XX caracteriza-se pelo afastamento desta práctica literária. Porém, essa não é a única forma de como compreender este termo. O autor do artigo «A mimesis no século XX», Rui Lopes, explica: «No entanto, há uma outra forma de entender a mimesis artística e a sua relação com a natureza na qual aquela não é tomada somente como uma simples imitação do aspecto fenomenal dos seres, essa outra forma estabelece uma equivalência de identidades entre a capacidade geradora da natureza e a energia inventiva do artista. Neste contexto, o artista não se limita a copiar as formas preexistentes no mundo, ele é também, à semelhança do que sucede com a natureza, uma força  criadora por si mesmo.»64

A mimese do título do poema de Torga com certeza não pretende a imitação rígida e pouco imaginativa mas referir-se-á a mimesis criativa. Escrito em terceira pessoa, o poema trata da fusão do sujeito lírico com a árvore. Aqui, a mimese é passiva. O sujeito lírico, corporificado em vegetação florestal, sente-se como um tronco de uma árvore que está parada sem movimento, sem comunicar com o exterior no reino vegetal.

A primeira estrofe do poema é descriptiva e planteia a situação. O sujeito lírico reconhece ser um tronco de árvore não individualizada. O sujeito não se especifica ou distingue dentro da floresta, aceita-a como multitude. Na segunda estrofe desenvolve-se a ideia da inércia Tudo está em calma absoluta. O tempo parou e fica estagnado.

Estabelece-se um contraste entre a compostura rígida da árvore a os sinais de vida – o coração do homem no que circula o sangue como na árvore circula a seiva. Sem embargo, segundo o eu lírico não são estes os sinais de uma vida verdadeira. É apenas fingimento de uma vida. A vida e a vontade de vivê-la plenamente não consistem somente em marcas biológicas de batidas de coração, é preciso mais. O tom do poema é triste e melancólico. A mimese com a natureza pode significar inclusive tristeza e estagnação mas mesmo assim, prefere-se uma e outra vez. O indivíduo, como uma árvore enraizada em terra, é individual e mudo.

Com efeito, todo o poema é perpassado por uma forte imagem visual – a imagem da árvore com a qual identifica-se o eu lírico. Com a árvore relacionam-se os adjectivos vertical, inerte, mudo, que remetem para a impressão do individualizado e erguido mas sem proferir palavra. No último verso, o adjectivo fingido dá noção que a existência muda, estagnada é rejeitada pelo sujeito lírico que não considera os sinais biológicas da vida como suficientes para cumprir a missão na vida.

Agora bem, as ânseias do poeta de fundir-se com a natureza já foram comentadas mas sobretudo ao tratar-se de serras e florestas. Desta vez, no poema «Miragem» adivinhamos o desejo do protagonista de compenetrar-se físicamente com o mar: «Passa um navio ao largo dos meus olhos./ (Os meus olhos, agora, são azuis,/ Imensos e navegáveis...)»65 A fusão foi consumada. Agora os seus olhos convertiram-se em dois rios navegáveis pelos que passa um navio. O sujeito identifica-se, ou mais concretamente, identifica uma parte de si, os olhos com os que observa a realidade, com rios azuis.


Enfim, é evidente que numerosos poemas torguianos tratam o tema da identificação com os elementos naturais que reflectem a íntima ligação do poeta com a sua terra de origem, e por extensão, toda a terra portuguesa. Já abordamos este tema no capítulo precedente, dedicado ao espaço metapoético em união com a natureza. Contudo, a identificação com o natural é um motivo muito potente e desenvolve-se tanto dentro do plano metapoético como fora dele.

Os elementos de identificação são, na maioria de casos, florestas, rios, penedos, mas também o próprio chão do qual brota a essência íntima do poeta. Todos os elementos naturais mencionados, ligados fortemente às ânsias de achar a identidade de homem como indivíduo, constituem parte indissolúvel do processo da procura e do encontro de um único valor certo e infalível: o espaço determinante que passou a ser o nordeste português, concretamente as serras e as fraguas transmontanas, por cima de toda a geografia portuguesa, embora também haja no seu poemário poemas dedicados ao Alentejo ou Algarve. Mas as verdadeiras vontades de confluir remetem somente ao Norte natal.

Torga, numa nota diarística, refere: «Olho estes montes circundantes que desde muito cedo me desafiaram a imaginação e as pernas. [...] E agora, que estou no fim, pergunto a mim mesmo o que seria tudo quanto escrevi se eles fossem outros. Nascemos num sítio. E ficamos pela vida fora a ver o mundo do fragão que primeiro nos serviu de mirante.»66

Não estranha, por tanto, que o poeta, nascido numa povoação humilde, contemple o mundo desde duas perspectivas: a de um artista intelectual, lutador pela liberdade e contra as angústias pessoais, e a de um montanhês, que opta pela vida em comunhão com a natureza e com tudo o ambiente campestre e coberto de florestas.




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