O homem de granito



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6. MOTIVOS NATURAIS E A EXPERIÊNCIA AMOROSA

O amor é uma vertente que está na sombra de outras temáticas potentes que foram sublinhadas na poesia torguiana; ainda assim tem o seu lugar reservado na escrita de Torga. O amor e a sensualidade adoptam diversas posturas e expressam uma multiplicidade de atitudes. Ademais, segundo Azevedo Lopes, o tema amoroso participa «nessa “fundamentação agónica” que sustenta todas as manifestações do seu modo de ser poeta.»67 Portanto, podemos assumir que o amor é encarado como uma experiência conflictuosa que contribui à visão desesperada da realidade humana. Agora bem, neste trabalho interessa saber como interferem no plano de amor os motivos naturais e vegetais e se é possível falar de certa «dimensão natural» do amor torguiano. Assumindo que sim, pretende-se indagar sobre mecanismos com os quais reflectem-se nele.



6.1. Paixão amorosa

No poema «Voz», a relação entre o Homem e a Mulher é vista como um convite a plenitude vivida através de um momento amoroso. A anatomia feminina converte-se através de paralelos com a natureza no veículo de saciar a fome metafórica do sujeito lírico.

«Voz»68

Era o céu que sorria nos seus olhos,

Eram junquilhos trémulos aos molhos,

As flores do rostro que eu beijava.

Fresca e gratuita como um hino à lua,

Nua,


Era um mundo de paz que se entregava.

Oh! perfume da Vida! – gritei eu.

Oh! seara de trigo por abrir,

Quem te fez todo o pão da minha fome?

Mas os seus braços, longos e contentes,

Só responderam, quentes:

– Come.

O poema figura-se como uma recordação de um momento de plenitude. Na primeira estrofe a figura da mulher é caracterizada com vários elementos vegetais que se convertem em sinais de celebração do amor e do desejo. Começa-se com a comparação da figura feminina com elementos naturais. A mulher coincide com momento de relaxamento, de beleza, ternura. As imagens são sumamente positivas e a mulher descreve-se como altamente atraente, desejável, cheia de vida. Nos seus olhos reflete-se o céu inteiro, o rostro é descrito por meio de símeis florais. Com ela, entrega-se o mundo tudo, ou o que é mundo para o sujeito lírico naquele instante.



Na segunda estrofe aparece uma metáfora tomada do mundo de fainas do campo, já vimos que muito frequente na poesia torguiana – a seara, que desta fez está qualificada por complemento por abrir que possui conotações fortemente eróticas e sugerentes. Seara por ceifar, mulher por conquistar. O seguinte verso continua na linha sensual. O corpo feminino é metaforicamente referido como um pão que é destinado a saciar a fome do sujeiro lírico. A coincidência do pão com o corpo pode ter conotações diversas: ora pode ser pensado como a comida mais frequente, de aceso relativamente fácil, e nutritiva dos camponeses, mas por outro lado também o pão sem fermentação refere se à hóstia- representante de Corpus Cristi, sendo esta teoria também de validez visto que a leitura de Esctitura Sagrada teve forte tradição no campo.. Torga, por sua vez, recebeu educação religiosa e criou-se em condições muito humildes e ademais, é notória a noção que o sagrado encontra forte eco na obra torguiana. Ambos componentes, por tanto, têm o seu fundamento. Contudo, neste caso, parece-nos que prevalece o plano do pão como forma de satisfazer as necessidades do corpo sobre a dimensão sagrada do pão. Sem dúvida, ao longo de todo o poema gera-se um ambiente muito erotizado. Azevedo Lopes salienta a dimensão instintiva do amor – tratada como uma força instintiva sem freio. A mulher, comparada ao pão, é vista como alimento para o Homem faminto.

Na segunda estrofe ressalta o uso de frases exclamativas e os discursos directos: o da voz masculina e o da voz feminina que convida o amante para consumar o acto amoroso. A estrofe adquire assim um tono insistente e concentrado e profundamente emotivo.

O relacionamento do homem com elementos naturais está presente também por exemplo no poema «Pedido».69

Ama-me sempre, como à flor do lírio

Bravo e sozinho, a quem a gente quer

Mesmo já seco na recordação.

Ama-me sempre, cheia de certeza

De que, lírio que sou de natureza,

Na minha altura eu brotarei do chão.
O sujeito lírico enamorado toma corpo de uma flor, do lírio, e pede à sua amada que o ame sempre. Que o ame como se ama às flores silvestres que crescem solitárias e as que a gente recolhe e seca como lembrança. A petição de um amor fiel repete-se. A voz lírica assegura à amada que quando vier o momento apropriado vai brotar da terra. Também neste caso o sujeito lírico procura forças vitais na terra, no chão, acorde as ressonâncias do mito do Anteu. Este poema constrói-se à base paralelística e forma anafórica: Ama-me sempre. Finalmente, a rima em terceiro e sexto verso completa a estrutura que no tocante da forma faz lembrar da tradição lírica popular. Assim, Anteu e a lírica popular vão de mãos dadas nesta breve composição.

Por outra parte, no plano erótico não entram só seres humanos, mas curiosamente, também a terra. Personifica-se e erotiza-se fortemente traduzindo assim a paixão telúrica torguiana. No poema «À terra» do poemário Odes o sujeito lírico refere-se à terra como à sua mulher e projecta nela a sensualidade feminina. Explicitamente diz-se: «Terra, minha mulher!/ Um amor é o aceno,/ Outro a quentura que se quer/ Dentro dum corpo nu, moreno!

Outras vezes topamos com a representação da terra como uma fêmea animal que espera o seu macho; neste caso, a charrua. Assim plasmada aparece no poema «Lavram e Semeiam aqui ao Lado»,70 onde se diz: «Anda a terra no cio:/ Chegou a lua/ E é como um falus de aço macio/ A ponta aguda da charrua.»

Neste processo de identificação da mulher com a natureza e a natureza com a mulher, chega-se a certo ponto onde é difícil distinguir em alguns poemas se o poeta dirige-se à mulher ou á natureza. É o caso do poema «Orgasmo» incluído no Diário V onde o sujeito pede: «Deixa que eu te descubra, anónima paisagem,/ Corpo de virgem que não amo ainda! […] Só eu vivo afastado/ Dos teus encantos!/ E são tantos/ E tais,/ Que eu não posso, paisagem,/ Esperar mais!»71



6.2. Amor que se esfumou

Contudo, o amor não é só experiência amena. O poema «Vendaval» apresenta outra face do amor, a marcada pela decepção e tristeza. O sujeito lírico, identificado com uma árvore, sofreu um tormento amoroso do qual saiu quebrantado e com dificuldade de recuperar-se. Ao longo dos dez versos que integram este poema, desenvolve-se a dicotomia entre a morte emocional e a vida física.

«Vendaval»72

Meu coração quebrou.

Era um cedro perfeito;

Mas o vento da vida levantou,

E aquele prumo do céu caiu direito.

Nos bons tempos felizes

Desde a rama às raízes

Era seiva e sentido.

Agora jaz no chão.

Palpita ainda, e tem

Vida no coração...

Mas não ama ninguém.

No poema destaca um contraste entre o agora que representa a existência estagnada, sem paixões, e o antes, que foram os tempos felizes de plenitude e contento. A causa da desgraça de hoje é expressada metaforicamente com o vento da vida, que provavelmente será o decurso dos acontecimentos que está na origem da desgraça. O vento fez cair o prumo, assunto que pesa muito o sujeito lírico e que desatou a crise. Antigamente, todo na mente e corpo do sujeito poético harmonizava e estava em ordem. Enumeram-se várias partes da árvore que representa o sujeito - desde a seiva, às ramas e às raízes. Mas a felicidade foi truncada. E hoje, embora o sujeito seja vivo físicamente, sente-se morto emocionalmente.

Em «Requiem»73 ressalta uma visão negativa de um amor apagado: «[...] Degenerados como vegetais/ Que se esqueceram de frutificar,/ Tanto nos faz o céu dos vendavais/ Como a terra da seiva a levedar.// Cortiços da doçura que passou,/ Temos círios no peito/ Cera dos favos onde o mel secou/ Quando secou o amor de que era feito.» A relação humana encontra novamente comparação na natureza. A parelha é como duas plantas que se esqueceram de frutificar, quer dizer, o seu amor nunca mais vai ser satisfatório. O poeta faz uso do adjectivo degenerados. Parece que exprime assim o seu descontento e desengano ante o rumo que tomou esta relação. O amor feliz, representado pelo mel, secou, quer dizer, acabou-se.

Em Penas de Purgatório está incluido o poema intitulado «Versos de Amor» dedicado à reflexão sobre um amor terminado, mas cujo fim o poeta comenta com distanciamento de tempo. O amor, antes cantado em poemas, simplesmente foi substituído por esquecimento.

«Versos de Amor»74

Versos de amor, búzios do coração.

Ressoam – mas a onda que passou.

Sons da recordação

Eternizam apenas a emoção

Que a Musa ciumenta estrangulou.

Ouvi-los nesta hora, que tristeza!

Como era o rostro astral da namorada?

Redondo, oval... Que bruma de incerteza!

Rimas, ditongos, e areia sem firmeza

Que o mar da vida torna mais salgada.

Neste poema combina-se o olhar do amante e do poeta. O poema começa com um símile. Os versos amorosos são como búzios. No búzio normalmente ressoa o mar, ou menos romanticamente, os sons externos que rodeiam ao ouvinte. No búzio que representa os versos ressoa o coração do amante. O problema é que a onda que provocava o mar a soar já passou e dentro da concha apenas há uma recordação da música antiga. Ao terminar a relação, também a inspiração cessou. Após certo tempo, o sujeito – poeta tem dificuldade em relembrar a cara da antiga namorada. Ficaram somente versos escritos outrora.

No poema destaca a metáfora que representa o amor (búzio) e o passo do tempo (mar). Ambas as coisas relacionam-se com o mundo de natureza. Também interessa o jogo entre a inspiração que lhe valeu esta relação que contrasta com o esquecimento actual. O poema está repartido em duas redondilhas e sobretudo a segunda destaca pelo seu tom conversacional e o uso de exclamações e de uma exortação que caracterizam o discurso quotidiano.

Em síntese, neste bloque comprova-se que o tema amoroso é trabalhado por Torga com ajuda de várias reminiscências naturais; inclusive foi rastreada a repercussão do mito de Anteu no plano amoroso. A natureza funciona como espelho tanto de amor logrado como do mau de amores. Em ambos os casos, o poeta serve-se frequentemente de identificações com a vegetação para plasmar os seus sentimentos e vivências.

O amor pode tomar contornos de força instintiva e chegar a ser muito sensual. Esta sensualidade instintiva emprega sistematicamente um vocabulário conectado com a capacidade criadora e força fecundadora da natureza. Por vezes, a sensualidade transborda e da figura feminina passa à natureza. Não só o ser humano é identificado com a natureza mas, ao invés, a terra identifica-se com a mulher – tanto mãe como amante. É a razão porque topamos com repetidas representações da terra com mulher ou fêmea. Dentro da linha sensual fazem-se valer as palavras como seiva, cio, germinar ou seara de trigo por abrir que remetem à fecundidade.

No pólo oposto, encontrámos na obra poética torguiana o drama do amor não correspondido. Também não faltam motivos naturais que traduzem o fracasso amoroso. O amante serve-se de léxico relacionado com a vegetação e expressa por meio dele todos os estados de ânimo.

Em geral, notámos emprego especialmente frequente de termos de vegetação como as flores (lírio), e as árvores, junto com as partes das que se compõem, às quais se aplica o estado do romance. Para além destes, apreciamos a presença dos elementos: fora da já referida função e uso da terra e do chão, o fogo é representado pelos trigais e pela paixão amorosa fervilhante; o vento traz mudanças. O elemento aquático encontra-se nas imagens relacionadas com o mar e a seiva. A seiva das árvores é aplicada sobretudo em relação ao sangue ou à força fecundadora da natureza. O mar tem que ver com o passo do tempo e a mudança imparável mas natural.



7. A NATUREZA E O DESESPERO VITAL

É frequente que a crítica saliente na obra poética torguiana a sua dimensão agónica. Agonia, o sofrimento extremo, traduz-se na luta do homem com as forças que o excedem. Azevedo Lopes dá contas disso: «Esta dimensão agónica que caracteriza a Vida atravessa também, inevitavelmente, todos os aspectos da sua Poesia e constitui, talvez, a sua característica mais constante: está presente nos poemas em que o sujeito poético se manifesta em oposição e conflito com o divino, com o mundo, com a natureza, consigo próprio e até quando em luta com a linguagem para alcançar a plenitude da Poesia. Todo o seu percurso poético, tal como a própria vida, se faz em constantes oscilações entre pólos de oposição nunca conciliáveis.»75

Este desgarro interno que se plasma na poesia parece haver existido também na personalidade do artista. Os seus interesses estavam divididos entre vários campos: como artista dedicava-se praticamente a todos os géneros dando relevo ele mesmo à poesia sobre os outros géneros; quanto a sua profissão, partilhava o tempo entre o consultório de médico otorrinolaringólogo e a vocação literária; finalmente, debatia-se entre as raízes de um homem simples, nascido numa povoação modesta transmontana, e as aspirações de homem culto e intelectual que participava activamente na cena literária portuguesa.

Por tanto, esta divisão, junto com a apreensão da morte e crise religiosa, figuram entre factores que contribuiram a dar contornos intranquilos à obra torguiana. Eduardo Lourenço chama o desespero da poesia torguiana como «humanista». À questão porque não o chama simplesmente humano o investigador dá esta resposta: «Porque este desespero se dá a si mesmo um tempo de reflexão e desesperando de tudo respeita os muros da cidade invisível cujo nome é Literatura. [...] Deste modo o desespero de Torga, da mesma natureza humana que todo o desespero, como é fatal, mesmo se não provém das mesmas fontes, adquire uma significação diferente através da diversa forma que se inventa para se comunicar. Uma relação com a cultura está aí inscrita, uma relação com a literatura, sobretudo, aí se manifesta, que não é a mesma da das formas de outros desesperos. Essa relação é todavia tal em Torga e nos outros poetas que é permitido ler nela o sinal de várias gerações literárias.»76

A origem do desespero de Torga é variada. Uma delas é a indelével presença da morte que acompanha o Homem desde o nascimento. Segundo, como sugere Azevedo Lopes, o desespero despreende-se precisamente do facto de estar limitado. Não se trata somente de limitações no eixo vital, também com a presença divina. Desde aí encadeiam-se outros conflitos porque Torga não aceita Deus mas também não pode desfazer-se dele completamente. Este luta continua com os outros, quer dizer, com os homens, e finalmente com todo o mundo.77

Então, o desespero humanista baseia-se particularmente no respeito às regras literárias e no facto de cultivá-lo artisticamente. O objectivo deste capítulo, por tanto, será o de ponderar o peso dos motivos naturais, frequentes em outros temas, dentro do tema metafísico e existencial.



7.1. Natureza no plano do desespero

O poema «Voz Reflectida» mostra que também a natureza pode servir para respaldar motivos de angústia e temor e debaixo dela pode haver mentiras e falsidades, quando vistos por uma mente inquietada e desassossegada.



«Voz Reflectida»78

Ah!, sim, o mar…

E as montanhas também, e os horizontes…

E o luar…

E as fontes,

No coração da noite a murmurar…

Que feliz é quem pode

Rimar assim a vida!

Tudo simples e certo!

Como um sepulcro aberto

Onde se enterra um morto

Conhecido.

Os pêsames já foram, antes disso.

Agora, é só cobrir, tornar maciço

O desgosto fingido.

Não.

É um outro mar

E são outras montanhas

Que testemunho.

Um mar de solidão,

E montanhas de angústia

Acumulada.

Eco da própria voz de quem me ouvir,

Canto a dor de existir,

Transfigurada.

Formal e semanticamente o poema divide-se em três partes. A primeira estrofe parece um exercício poético para principiantes. Descreve-se um mundo perfeito e tranquilo. Rimam-se nela diversos elementos que tradicionalmente servem para descrever uma paisagem natural: mar, montanhas, horizonte, luar, fonte, noite. Todo bem rimado e sem complicações ideológicas e formais.

Na segunda, em contrapartida, o sujeito lírico reage com uma exclamação irónica: feliz aquele que é capaz de viver a vida em termos assim de simples. Aquele que concebe a realidade como amena a consoladora, que não deixa entrar as dúvidas. Simplicidade e certeza são valores que o sujeito lírico não admite. Com uma imagem macabra de enterro refere que para ele, a imagem não pode ser mais distante da realidade. As pessoas somente escondem a verdade desagradável como se sepulta uma pessoa pouco querida.

Não. A negação da visão positiva do mundo é rotunda. Para o sujeito lírico, o quadro bonito pintado na primeira estrofe é absolutamente falso. Para ele, a natureza não é conformadora, representa, nesta caso, temores internos do homem – o mar é tão vasto como a solidão, as montanhas erguem-se tão alto como a angústia que se acrescenta dentro do peito. O sujeito lírico vive noutro mundo, num mundo dominado pela angústia e solidão, onde a vida é uma experiência dolorosa. O título do poema, a voz reflectida, remete outra vez ao sentimento do abandono e à solidão. Gritar e procurar assim compreensão e afecto dos outros é vão; a sua voz volta em eco sem obter resposta. O drama de existir torna-se um assunto difícilmente sofrível.

Que a natureza serve de motivo para expressar as suas inquietações íntimas demostra também o poema «Manancial» de Câmara Ardente.79 Fala-se nele do desespero sufocado que se encontra soterrado. Rio que brotar desta decepcão não pode ser esperançoso. «E o rio que assim nasce e não tem foz,/ Corre sem direcção,/ A debruar de pura inquietação/ A calma da planura adormecida/ E é nele que se reflecte a solidão/ Do céu, que só é céu longe da vida.» O céu, os sonhos, o nobre e transcendental só pode ser céu porque está muito longe das desgraças da vida terrestres.

Ou em «Búzio»80 há estes versos: «Encosto o ouvido à concha do silêncio./ Oiço um rumor de angústia na lembrança./ É o mar humano do desassossego/ A ressoar…» A versão româtica diz que na concha ouve-se o mar. A versão mais realista afirma que a concha funciona como uma caixa de ressonância de sons, externos e internos – como o fluxo do sangue – que nos rodeiam no momento de encostar o búzio ao ouvido. Mas o que ouve o sujeito lírico tem substância ainda diferente. É a sua inquietação a rugir dentro da sua mente, aumentada pela forma côncava do búzio. O mar serve para exemplificar a imensidade do desassossego que o sujeito sente. Mas a água não veicula somente sentimentos negativos e angustiosos. Oferece também ao sujeito forças e traz-lhe calma. Destarte, em «Memória» o sujeito clama: «De todos os cilícios um, apenas,/ Me foi grato sofrer;/ Cinquenta anos de desassossego/ A ver correr,/ Serenas,/ As águas do Mondego.»81 Aqui, as águas serenas do rio contrastam com a personalidade desequilibrada do sujeito observador.

No poema «Canção de Aflição» inscrita em Nihil Sibi nota-se uma forte influência do mito de Anteu e da aliança íntima do sujeito com a terra. Mas o título estranha. Talvez Torga o tenha escolhido num momento de crise, apercebendo-se de que recuperar forças não é para ele tão facilmente acessível como para o gigante legendário.

«Canção da Aflição»82

Salva-me, ó terra, minha Mãe!

O meu corpo, de ti

Cresce;

E o espírito que tenho, só floresce

Da sua verde rama.

Salva e rejuvenesce

O pirilampo vivo, mas sem chama,

Que na tua negrura fosforesce.



O sujeito poético procura abrigo ante o mundo hostil nos braços da terra. Neste poema recolhe-se perfeitamente a repercussão do mito de Anteu, do gigante mítico que tomava forças da sua mãe, a Terra. O sujeito invoca a ajuda da sua mãe, a terra. A seguir desenvolve-se esta imagem ainda mais. O corpo do sujeito ganha forças quando está em contacto com ela. Junto com a força física também crescem os seus ânimos. Invoca-se a Terra para salvar e dotar de energias o sujeito, que se identifica com um pirilampo, mas sem chama, porque está muito fraco. Não obstantem, nada mais restabelecer contactos com ela recupera o vigor perdido. Os verbos em terceira pessoa do singular – cresce, floresce, rejuvenesce, fosforesce – criam um belo efeito fónico ademais do nível significativo no qual plasmam os sentimentos do gigante ao unir-se com a terra. O único verbo a mais que aparece no poema é o verbo salvar – é o pedido que se faz à terra. Salvar o sujeito, envolvê-lo nos braços e outorgar-lhe forças.

7.2. Experiência derradeira do Homem e a natureza

Gerações de autores aludiram a essa temática existencial. Miguel Torga não é caso excepcional, mas nele, o sentimento da iminência da morte é singularmente acentuado: «É que, a juntar à tristeza do momento, cada vez mais próximo, de fechar os olhos definitivamente – os olhos, a que devo a maior parte das horas de plenitude que tive –, parto do mundo profundamente desiludido de mim. [...] Sobretudo, não encontrei resposta para nenhuma das perguntas inquietantes que em momento algum deixou de me fazer a voz atormentada da alma. É certo que tentei denodadamente satisfazê-la. Resta saber se da melhor maneira.[...] Daí o terror com que vejo aproximar-se o fim, onde só posso chegar no pavor biológico de bicho consciente, e no desespero humano de saber que terminam ali, irrevogavelmente, todas as minhas possibilidades de salvação.»83

Miguel Torga escreveu estas linhas inquietantes em 1969, com ainda 26 anos de vida diante de si. O poeta foi obstinado com a morte desde a sua juventude e enchia as páginas do diário e a sua obra artística de referências ligadas à este tema apaixonante e macabro.

Desde jovem cultivou esta temática que aparece já nos seus poemas mais novos, ainda influenciados pelo decadentismo. A consciência da morte está na origem das suas numerosas reflexões metafísicas sobre o final do homem, a missão que tem na vida, a vida póstuma e a possibilidade de prolongar a vida após o momento da morte. Para o poeta, talvez o maior problema que a morte causa é que todas as coisas perdem sentido. Se existe a morte, para quê é bom viver a vida. Relata ao respeito no Diário: «É terrível, a morte. Tira sentido às palavras, aos gestos, às lágrimas, ao silêncio. Deixa a visa sem expressão.»84 Frequentemente clamou a sua fome de imortalidade e desejos de se tornar eterno, como já deparámos no tema de metapoesia.

Naturalmente, com a paulatina aproximação da velhice, os pensamentos sobre as últimas coisas do Homem acrescentam-se. Não é de estranhar, por tanto, que o último volume do Diário esteja saturado de referências à morte e ao combate final que já não é temido, mas até desejado. É também o volume mais breve quanto ao número de páginas, mas um dos mais fortes e contundentes no tocante à carga metafísica que se concentra nele.

Estuário é a parte final do rio, quando a corrente se aproxima da foz do mar, onde a água doce do rio se mistura com a água salgada do mar. Também é título de um dos poemas escritos nos últimos anos de vida do poeta. A escolha deste título para a sua composição datada de 1987 que encerra o Diário XIV não será inocente. A simbologia de água é rica e cobre tanto o positivo como o negativo.85 Para além de outros significados, é referida como elemento criador da vida. Pode, por tanto, representar a vida mesma.



«Estuário»86

O rio chega à foz.

Cansada, a minha voz

Desagua no silêncio

No grande mar do tempo.

A correr a nascente,

Numa crescente

Inquietação lustral,

Foi um longo caudal

De solidão

Na infinita extensão

Da humana aridez.

Agora, na exaustão da caminhada,

Encontra finalmente a paz calada,

O eterno repouso da mudez.

O primeiro verso, de facto, resume todo o tema do poema: a morte aproxima-se. O poeta utiliza a imagem da vida como um rio que desemboca no mar. Recorre ao tópico metafórico vita flumen que considera a vida humana como rio. A seguir, Torga continua a desenvolver-se este tópico de forma alegórica. O sujeito lírico, cansado, sente-se já muito próximo da morte. O percurso da vida, representada pelo caudal do rio, foi longo. Desde o nascimento (nascente), juventude (crescente) a vida trouxe-lhe solidão, por meio de gente incapaz de compartir cordialidade. Outra vez repete-se o motivo do rio, estavez, um rio que secou, assim como o calor nos corações dos próximos, e fica a terra dura e árida. A paz converte-se em mudez. Chegado a velho, finalmente a voz do sujeito lírico que sempre estava a lutar encontrará repouso em mudez. A última imagem aponta para certo desgarro. A mudez não é bem-vinda para alguém que passou toda a sua vida a denunciar injustiças. É amargo aceitá-la mesmo que seja uma aceitação derradeira.

No tocante à estrutura formal do poema, com excepção dos três últimos versos, os versos do poema são de arte menor, de origem popular, mais curtos e ritmicamente mais marcados. É como se o rio estivesse a passar por entre as linhas. O terceto final é constituído por versos de arte maior que são mais discursivos. Nelas, o tópico do rio como vida humana ganha a sua segunda forma, a vida como caminho. Predominam os sustantivos relacionados com o transcurso do tempo, velhice e cansaço e morte que se reflectem na imagem da água. Os versos adquirem unidade interna graças à rima que embora não seja perfeitamente regular, aglutina os versos e presta maior fluidez ao poema. Assim, através de tópico clássico e as rimas, plasma-se a vida que está brevemente por dar ao mar final, a morte irrevogável.

A perspectiva da inevitabilidade da morte foi sempre frustrante para Torga. No poema «Cordial» revela-se a sua indignação e luta contra a sua chegada. O momento da morte deseja-se retardar. O poeta, activo artística e civicamente toda a sua vida, não consegue aceitar que a existência humana tem um limite marcado «Não pares, coração!/ Temos ainda muito que lutar./ Que seria dos montes e dos rios/ Da nossa infância/ Sem o amor palpitante que lhes demos/ A vida inteira? [...]»87 Para o sujeito poético é simplesmente inimaginável como poderia ser o mundo sem a sua presença.

Diante disso, o poeta estranha-se ante a capacidade renovadora da natureza. Sendo esta faculdade negada ao homem, foi doada à natureza. A renovação é milagrosa para o homem receoso da morte sem ressurreição. Em «Certeza»88, por tanto, diz: «[...] Basta que um novo sol/ Desça do velho céu,/ E diga ao rouxinol/ Que a vida não morreu.»

Assim, o sujeito poético fica admirado em poema «Vida.»89

Do que a vida é capaz!

A força dum alento verdadeiro!

O que um dedal de seiva faz

A rasgar o seu negro cativeiro!

Ser!

Parece uma renúncia que ali vai,



– E é um carvalho a nascer

Da bolota que cai!

O poema é uma celebração da natureza e do seu renovo e, ao mesmo tempo, verbalização da sua admiração profunda que sente por ela. «Do que a vida é capaz!» A seiva, o sangue das árvores, é como água de vida dos contos de fada. Tem o mesmo poder mágico de despertar vida. A luta pela vida é vitoriosa para a natureza. A seiva acorda e a árvore nasce. A magia do quotidiano tomou corpo.

A admiração que domina todo o poema traduz-se sobretudo no uso de frases exclamativas, assim como na distinção de certas palavras cruciais como a palavra «ser» que ocupa, com uma clara intenção estilística, uma estrofe. Embora o poema não seja isomêtrico, a rima é regular cruzada rimando os versos em assonância. O verso que mais difere pela sua medida de versos é o primeiro verso da segunda estrofe que é um monossílabo. Trata-se precisamente do verbo «ser» em infinitivo, acentuado ainda pelo uso do sinal de exclamação.

Para Torga, o milagre consiste, especialmente, no efeito renovador do tempo na natureza. O passo do tempo significa para ela possibilidades de um novo despertar; após o Inverno, regressa a vida. Em contrapeso à esta capacidade animadora, Azevedo Lopes repara: «Em contraste com esta renovação da vida na natureza, cresce nele [em Torga] a consciência de que, ao contrário, para o homem, a passagem do tempo só traz degradação e aproximação da morte.»90

«Limite» foi escrito em 1990 e pertence ao último tomo dos apontamentos diarísticos de Torga. O sujeito lírico canta o seu imenso amor à sua pátria que pode concluir tão somente com a morte física.

«Limite»91

Pátria até que os meus pés

Se magoem no chão.

Até que o coração

Bata descompasado.

Até que eu não entenda

A voz livre do vento

E o silêncio tolhido

Das penedias.

Até que a minha sede

Não reconheça as fontes.

Até que seja outro

E para outros

O aceno ancestral dos horizontes.

Os pensamentos da voz lírica sobre a terra e o amor que por ela sente permanecerão até o último momento quando o tempo medido a cada homem cobrar no seu corpo o pago. O amor acabar-se-á só quando o sujeito lírico ficará sem elementos que possam distinguir a natureza amada e ela se abrir para pessoas que o vão sustituir. Quando o seu tempo acabar e vier um tempo novo para alguém novo.

O poema é construído à base de forma paralelística. O sujeito lírico começa com a palavra chave – pátria, e depois acumula os elementos relacionados com ela que pretende conservar na sua mente até ao final. Precisamente a palavra até complementada com imagem da mudança que a proximidade da morte causará no sujeito lírico, funciona como elemento aglutinador de todo o poema e repete-se ao longo de toda a composição. A mudança referida afectará a sua voz, coração, entendimento, sede, e finalmente, todo o ser. Assim, o poema torna-se desgarrado e trasmite o sofrimento que sente o sujeito lírico ao ver que a pátria amada vai ser perdida para ele.

A natureza reflecte-se nos últimos pensamentos do eu lírico e o acompanha até a sua morte e só com ela, extingue-se.



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