O homem de granito



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7.3. Natureza e a religião

Ao repassar brevemente a biografia de Torga, não podemos deixar à parte os seguintes traços: primerio, a sua infância que decorreu no campo português e segundo, a estadia no seminário de Lamego. Ambos traços aludem ao contacto directo e profundo que Torga teve com a educação religiosa e os princípios de moral cristã- católica. Com efeito, o poeta na sua obra recorre constantemente a referências bíblicas. Mas pronto surgiram dúvidas acerca de Deus e o poeta começou a questionar-se sobre a existência divina. Ateu confesso, a sua relação com Deus resultou altamente contraditória e problemática. Torga, ser dividido entre a crença e descrença, oferece numa das notas mais famosas dos seus apontamentos diarísticos prova desta contraditoriedade: «Deus. O pesadelo dos meus dias. Tive sempre a coragem de o negar, mas nunca a força de o esquecer.»92 Na sua obra poética, dois poemários ostentam nome de influência bíblica: Penas de Purgatório e O Outro Livro de Job, assim como toda uma série de poemas particulares inscritos ou dentro deles ou em outras coletâneas.

«Condição»93 concerne o drama da (in)existência divina e da condição difícil humana vil. A natureza serve aqui para exprimir a diferença entre o homem mesquinho, a natureza nobre e majestuosa e uma divinidade dubitável.
Ergo os braços ao céu, desesperado.

(Lama rasteira, nem ao menos posso

Ter a nobreza altiva dos penedos!

Em vez de lanças de granito, dedos

De carne e osso

Num leque de impotência!...)


Com a corda ao pescoço,

Peço clemência

A quem, a que tirano?

A nenhum Deus que veja

Ou anteveja...

Peço clemência, só por ser humano.

Começa-se com uma frase enunciativa. O sujeito levanta os braços o céu, usualmente trata-se de um gesto de súplica ou exclamação. O resto da estrofe composta de 6 versos ocupa um parêntesis dentro do qual a voz lírica lamenta-se da sua condição e expressa admiração para com os penedos que se erguem altivamente sem se ter que arrastrar na superfície terrestre. O sujeito compara-se com a lama, matéria suja feita de terra molhada que se cola às solas dos sapatos e suja-o todo. A sua luta é dificultada ainda pela essência humana de carne e osso - insignificante em comparação com a massa de pedra inquebrável.

Na situação de extremo desespero, o sujeito pede mercê pelo seu pecado capital: a sua humildade humana da qual não se pode desvincular. A questão é a quem pedi-la porque nos olhos do sujeito, Deus permuta-se com um tirano. A questão fica sem resposta.

É de realçar a aliteração no verso 7 onde predomina a repetição da vogal o e dramatismo de todo o poema que exprime o combate entre o homem – sujeito e a sua condição.

Como representante de elementos naturais aparece o desejo de ser como os penedos postos em contraste com a lama e o corpo humano. Os penedos não só destacam pela sua dureza e magnitude frente ao ser humano que é frágil e fraco mas erguem-se ao céu e aproximam-se da transcendência muito mais do que o homem que se arrastra na terra.

Já no título do poema «Comunhão» aparecem alusões religiosas. No contexto religioso, a comunhão refere-se ao acto de receber sacramento e entrar em união com Deus. Mas a união que se pretende alcançar por Torga será diferente da da igreja católica.

«Comunhão»94

Tal como o camponês, que canta a semear
A terra,
Ou como tu, pastor, que cantas a bordar
A serra
De brancura,
Assim eu canto, sem me ouvir cantar,
Livre e à minha altura.
Semear trigo e apascentar ovelhas
É oficiar à vida
Numa missa campal.
Mas como sobra desse ritual
Uma leve e gratuita melodia,
Junto o meu canto de homem natural
Ao grande coro dessa poesia.

O poema começa com duas comparações. Na primeira estabelece-se uma comparação com um camponês que canta ao semear; a segunda é uma comparação com um pastor que pasta ovelhas na serra. O sujeito lírico compara com eles o seu próprio canto, ou seja, os versos que compõe. O seu canto é silencioso e interior mas composto livremente sem se deixar atar por nada.

Nos seguintes três versos desenvolve-se a imagem de tarefas camponesas – o pastoreio e a sementeira – vistas pelo sujeito como uma missão religiosa. Tradicionalmente sublinha-se a importância da religião em zonas rurais apartadas. O campo traça assim laços com dimensões religiosas. De igual maneira o vocabulário empregado tem que ver por uma parte com o simples trabalho rural, mas por outra, com uma carga simbólica. A semente e o semeador remetem à gênesis bíblica e as ovelhas apascentadas podem ter o significado do povo evangelizado. Mas esta mensagem de fé é de natureza. Este ritual, esta nova forma de missão emite uma melodia forte, e muito particular, que a voz lírica quer incorporar no seu próprio canto poético.

Já o próprio título deste poema, comunhão, faz pensar no íntimo vínculo existente entre o sujeito e a vida num ambiente rural e pastoril. Há mais dois poemas do poemário torguiano que compartem o mesmo título. Por tanto, a comunhão entre o homem e a natureza perfila-se como um assunto essencial para o poeta, digno de ser referido repetidas vezes e retrabalhado com distanciamento do tempo.

A dimensão religiosa abre-se também noutros poemas. Assim, em «Rebate»,95 o sujeito dirige-se à terra e ao povo e pede-lhes reconhecimento da sua fidelidade do sempre e do amor que lhes tem tido em forma de uma oração telúrica.

Minha terra,

Meu povo,

Dizei-me nesta hora de aflição

Que sempre vos amei,

Que sempre os cantei,

E que nunca jurei

O vosso nome em vão.

Minha terra,

Meu povo,

Dizei-me nesta hora de agonia

Que essa fidelidade

Desafia

Quem à sombra da noite e à luz do dia



Negue no mundo a vossa eternidade.

Acomodando os versos do Decálogo, concretamente do terceiro mandamento, o sujeito tenta conseguir deles comprovação da sua lealdade e respeito. O sujeito lança este pedido num momento difícil quando se sente triste. A segunda estrofe repete o mesmo esquema. Começando com a invocação da terra o do povo amados, o tom insistente agudiza-se. O sujeito proclama-se preparado a defendê-las à unhas e dentes ante toda a pessoa disposta a negar o seu estatuto supremo. Precisamente a terra e o povo têm uma posição de destaque no poema, o que também reflecte a composição do poema ocupando a apóstrofe dois versos individuais. Este procedimento repete-se paralelisticamente ao princípio da segunda estrofe. O sujeito utiliza estrutura verbal típica de escrita religiosa e de orações: dizei-me. O terceiro verso também aparece quase imutado: Dizei-me nesta hora de ... Mas enquanto na primeira estrofe segue o substantivo aflição, na segundo aparece agonia, que intensifica muito mais toda a atmósfera suplicante. Com efeito, deste poema – ou pequena oração – depreende-se que a terra e a gente portuguesa são para o sujeito poético tão importantes que não hesita em trocar Deus por eles e está disposto a defender esta sua religião agrária e social ante todo e todos.


Neste tema tratámos de ver como interfere a natureza no tema recorrente da poesia torguiana: o desespero. Primeiro, temos de assumir que há abundantes poemas dessa temática que operam com motivos naturais. A natureza serve não só como elemento conformador, como o foi em outros temas, mas também como espelho do mundo interno soçobrado do poeta. Assim, o mar representa a solidão imensa que sente e as montanhas a medida da angústia que sente. O rio brota de uma terra abominável e a esperança é fraca. Por outro lado, também neste tema ressoa o mito do Anteu. Em momentos de maiores lamentações e apuros, a natureza estende a sua mão ao poeta comovido. Mas não ocorre assim sempre.

Em ocasiões, quando a angústia apodera-se dele totalmente, até a natureza perde a capacidade protectora e torna a representar temores internos do homem. Azevedo Lopes não deixa de comentar: «Com efeito, Torga integra-se num contexto de preocupações típicas da crise existencialista europeia. Como refere Armindo Augusto: Tudo isto se reflecte na obra do escritor português. Ele vive a angústia religiosa de Kierkegaard. Como Nietzsche, apela desesperadamente para a terra. Como Nietzsche, sente a tentação do ressentimento que continuamente lhe segreda a possibilidade de recriar o mundo. O ser-para-a-morte, a náusea, o risco, a ânsia de liberdade, toda a temática existencialista lhe é familiar. Com Gabriel Marcel dá relevo à esperança. Como Jaspers, vê limites por todos os lados. Com Unamuno, vive o sentimento trágico da vida.»96

Emfim, o desespero faz com que a natureza -que usualmente possui conotações positivas- se torne hostil e inimiga.


É evidente que a questão existencial da vida e morte está no poemário torguiano ricamente suprida de motivos naturais, pode ser que a razão está em que a natureza é para Torga representação da vida mesma. O ciclo natural faz lembrar o percurso vital do homem. O maior problema humano é, nesta perspectiva, que a natureza renasce mas o homem não. A humanidade renasce com as novas gerações, mas não com cada indivíduo. Por isso entre as coisas que o poeta admira mais na natureza é a sua capacidade renovadora da qual o homem fica privado. Ao mesmo tempo, Torga através dos versos canta o seu imenso amor que sente pela sua pátria. Sobretudo a sua terra de origem é o que lhe faz sentir-se plenamente vivo. Escreve no Diário quando foi visitar no Verão de 1969 a sua aldeia natal, S. Martinho de Anta: «Sempre que venho por aí acima, começo a avistar o Marão e o Doiro, e me ponho a pensar na morte, o que mais me entristece é não poder deixar em testamento os olhos à filha.»97

Esta nota contém tanto o desejo de nunca deixar de avistar a terra amada como o de mediar esta visão a pessoa querida. A natureza, amada por Torga, plasma o combate com a morte que está por chegar, e presencia os seus momentos de incerteza preparação para ela. A água serve de metáfora clássica da vida humana que desboca no mar.
No atintente ao espaço religioso, o campo propõe uma nova concepção de religião. Sendo o Deus questionado intensivamente, Torga traça novas dimensões religiosas que encontra precisamente no campo e na terra. Esboça-se uma comparação entre o canto de um camponês que canta ao semear e um pastor que canta ao pastar, com os quais o sujeito lírico confunde os seus próprios versos. A natureza oferece uma nova forma de missão, que seduz o poeta e finalmente faz-lhe incorporar a sua melodia genuina no seu poemário. Por isso Torga selecciona comunhão para nomear o seu poema. Insinua assim que a religião que se quer «professar» provém de ambientes rurais e pastoris. O vocabulário utilizado reflecte frequentemente dois planos: o de denominação de fainas rurais, e o simbólico, com repercussões do mito genesíaco.

Por outro lado, a natureza é posta como contraste entre o homem cuja essência física e espiritual é fraca e a natureza que é vista como majestosa e invencível. Deus, por sua parte, proporciona mais um contraste desde que apareça como um tirano alheado. É portanto diferente tanto do sujeito que se sente avasalhado pela sua humildade humana como dos penedos altivos e dignos. Aparecem aqui termos naturais mais gerais que reflectem grandes ideias: terra que representa toda a terra pela que andam os homens, ou penedos, que representam a dureza e dignidade frente a deidades incertas.

A natureza supre para Torga a dimensão espiritual que não quer ou não pode para ele desempenhar Deus e nos seus versos inventa pequenas orações recriadas nas quais defende o agrário e social.

Contudo, especialmente a questão agónica torguiana é um tema muito mais complexo que não se limita a estas observações breves. Sendo a natureza um elemento a considerar dentro do tema, a problemática que compreende é muito mais diversa e rica.



8. NATUREZA NO CONTEXTO DA LUTA ENTRE A OPRESSÃO E A LIBERDADE

A problemática da liberdade pessoal pertence entre outros temas salientados na obra torguiana. O autor, incansável lutador contra toda a classe de opressão, combinou em si o amor de liberdade individual, sempre ao lado da consciência social. Esta convicção pode ser rastreada na entrevista concedida ao Diário de Lisboa que não pôde ser publicada mas que se conserva transcrita no seu Diário. Torga defende nela a ideia que não existem grandes artistas que não se preocupem pelo povo, porque é o povo que é determinante para um artista. Conta na entrevista «A atitude de todo o artista verdadeiro não pode ser neste momento senão de inteira e franca comunhão com a grande massa do nosso país. [...] Não, parece que não há artistas dignos desse nome inteiramente alheios à dor e à injustiça. E, se os há, por mim creio que são traidores a si próprios.»98 A vontade de compartir com o povo foi de facto a razão para o autor se despreender do movimento presencista, fortemente individualizado e ensimesmado.

Durante os anos quarenta que coincidem com os acontecimentos cruciais do século XX como, a nível mundial, a Segunda Guerra Mundial e, a nível nacional de Portugal, intensificação do regime salazarista e a agudização da censura, Miguel Torga assume abertamente a sua responsabilidade cívica de protesto. Os seus apontamentos diarísticos são cheios de alusões à situação política de momento e entreluz nele a sua reprovação de armas e de guerras. Para lusitanistas checos e eslovacos certamente serão de interesse as notas que mencionam a ocupação da Checoslováquia99, a morte de Palach,100 ou a aclamação de Dubček101, comentadas por Torga, que deixam ver a sua reprovação para com a ocupação.

A sua relação com os conflitos armados deduz-se facilmente da seguinte entrada diarística: «Combater é, em termos absolutos, uma diminuição. O homem, quer defenda a pátria, quer defenda as ideias, desde que passa os dias aos tiros ao vizinho, mesmo que o vizinho seja o monstro dos monstros, está a perder grandeza.»102 Torga claramente assume posturas pacifistas e antimilitaristas.

Em outras ocasiões comenta ironicamente os acontecimentos no Japão: «A primeira bomba atómica. Que maravilhoso bicho, o homem! Teimou, teimou, teimou, e descobriu a pedra filosofal!»103 No dia seguinte, podemos lêr no Diário: «Em Hiroxima, onde a primeira bomba atómica foi lançada, tudo quanto era vida morreu. [...] Nem quarenta, nem sessenta, nem setenta mil mortos. Isto só: todos os seres vivos liquidados!»104

Uma vez terminada a guerra, o poeta anota amargamente no Diário: «Paz. Mas que trágica ironia é esta palavra escrita a letras gordas nos jornais que viveram seis anos a soldo da guerra, e na boca de estadistas que viveram os mesmos seis a aguentá-la!

Paz! Paz a quem teve a sorte de deixar este lodaçal de sangue, e a quem se contente com o viático de uma palavra vazia.»105

Torga não temia expressar as suas opiniões publicamente. Nem depois da experiência na cadeia em Aljube por ter publicado O Quarto Dia d’A Criação do Mundo, nem quando a sua mulher foi obrigada a demitir do seu cargo na Universidade. A visão que Torga teve do Portugal salazarista é evidentemente negativa e conflituosa. No poema «Panorama» datado de 1966 revela-se claramente a relação do autor para com a situação nacional daquela altura, quer dizer, dominada pelo regime ditatorial.

«Panorama»106

Pátria vista da fraga dura onde nasci.

Que infinito silêncio circular!

De cada ponto cardeal assoma

A mesma expressão muda.

É de agora ou de sempre esta paisagem

Sem palavras,

Sem gritos,

Sem o eco sequer duma praga incontida?

Ah! Portugal calado!

Ah! povo amordaçado

Por não sei que mordaça consentida!

O poeta, fazendo uso de recursos da linguagem poética, esconde nos seus poemas uma mensagem sobre a sua aversão para com o regime mas também para com a atitude dos portugueses que ficam calados e não querem afrontar diretamente o governo antidemocrático. A paisagem portuguesa funciona como um ponto de partida que perfila a sua compreensão destas circunstâncias e de onde o sujeito propaga juizos sobre o Portugal estadonovista.

Ao mesmo tempo, o sujeito lírico adverte sobre um factor desesperante que condiciona de maneira determinante a sociedade da época. Consiste basicamente na incapacidade dos portugueses de levantar a voz de protesto contra os agravos sofridos da mão do regime. Nota-se isto ao longo de todo o poema e é rematado no último verso, que encerra uma imagem potente da mordaça instrumento que impede falar e morder. Portugal converte-se assim, nos olhos do sujeito lírico, numa paisagem rasa que emudeceu. O tom do poema é altamente insistente e trabalha com imagens fortes apoiadas por frases exclamativas e estrutura repetitiva com anáforas. O sujeito lírico apercebeu-se da mudez e da falta de protesto de Portugal que consente censura e opressão sem se rebelar.

O poema armazena diversas expressões que descrevem o silêncio do povo. Caracteriza-se o infinito silêncio (v. 2), expressão muda (v. 4), sem palavras (v. 6), sem gritos (v. 7), sem o eco (v. 8), Portugal calado (v. 9), povo amordaçado (v. 10). Todas estas imagens têm um objectivo comum: denunciar a realidade portuguesa e chamar a atenção sobre a atitude reservada e tácita que predomina na sociedade. O inconformismo do sujeito poético com o ambiente de conformidade tácita da nação concentra-se sobretudo nos últimos três versos. O sujeito não pode concordar com a mudança que o povo consente, e sente uma frustração profunda. Por tanto, assume uma missão redentora: através dos versos de protesta mobilizar os outros. O seu empenho demostra-se também através de notas diarísticas. Assim, Torga refere: «Sim, fui sempre um poeta empenhado na minha liberdade e na dos outros.»107

O elemento natural aparece, embora ocupe um plano secundário. Serve ao sujeito lírico como o ponto fixo apartir do qual lança o seu olhar setentrional-cêntrico, e apartir do qual valora as atitudes conformistas dos portugueses despreocupados por defender uma vida livre. Não em vão Torga escreve no Diário XI: «Insisto: S. Martinho de Anta não é um lugar onde, mas um lugar de onde...»108 A imagem da paisagem muda engloba em si todo o Portugal subjugado mas que consente calado as injustiças.

Na mesma linha de luta contra o conformismo continua o poema «Desencontro», de 1958, contido no livro de poemas Orfeu Rebelde, que é um dois mais conhecidos de Torga.

«Desencontro»109

Desirmandade, irmãos!

Margens do mesmo rio,

Mas sem ponte.

É como se a unidade

Dum bifronte

Se perdesse,

E a mais sedenta face

Recusasse

Beber na mesma fonte

Onde a outra bebesse.

Sois a noite da vida, e eu sou a madrugada.

Onde começa a luz, começa a dimensão

Da minha humanidade.

Vejo o sol, mostro o sol a quem é cego,

E nego

Que o tenebroso seja a claridade.



Podeis o que não posso:

Entender como lobos

A parábola dos vimes...

Mas é vosso

Também

O pesadelo



Dos crimes.

Meu, é o destino de vos acordar

A cantar.

Já o próprio título do poema remete à ideia de uma desunião, separação de itens que outrora estavam ligados. A seguir aparece outra imagem que acentua a ideia de divisão: o sustantivo desirmandade, que é a primeira palavra do poema, revela uma forte desunião entre os homens. O parentesco entre irmãos ou amigos com os que se sente uma profunda afeição fica quebrantado. A divisão entrelaça toda a primeira estrofe que coloca a voz lírica fora do âmbito da comunidade por meio de diversas imagens visuais relacionadas com a água. O sujeito lírico parece automarginar-se da comunidade que chama (des)irmãos. O ente que por natureza tinha duas faces (representadas pelo povo e pelo sujeito) perde e, ante tudo, rejeita, a sua segunda face. Entre as duas faces abre-se logo um abismo.

Na segunda estrofe explica-se a razão da separação por meio de dicotomias luz – escuridão. A voz lírica identifica-se com a luz e os termos associados: madrugada, sol, claridade. O carácter dos antigos irmãos traduz-se semanticamente em vocábulos como a escuridão, cegueira, a tenebrosidade. Então, o poema retoma o tema clássico da luta entre a Luz e a Escuridão sendo a Luz tradicionalmente vinculada com o positivo e o Bem e a Escuridão com o reprovável, o Mal. Neste poema esta dicotomia é transferida à dois classes de posturas: a postura «correcta», representada pelo sujeito poético, e a «ruim», representada pela segunda face, os irmãos. A voz poética proclama-se ser portador da luz, que claramente distingue entre o bom e o mal, consciente da sua humanidade, enquanto os irmãos são cegos e insensíveis. Por tanto, o contacto não é possível.

Não obstante, o sujeito reconhece que os irmãos têm outra classe de virtudes e capacidades, alheias a ele. A estrofe final contém uma alusão a um conto tradicional português, «Parábola dos sete vimes»,110 recolhido por Trinidade Coelho no livro Os Meus Amores. A moral da história consiste na fé na união de irmãos. Vivendo em boa irmandade e ajudando-se um ao outro não houverá força que os desuna nem força que os vença, mas logo que se separem ou reine entre elas a discórdia, facilmente serão vencidos.

Mas o positivo de agirem todos como uma pessoa única tem também o seu contrapeso, diversos crimes dos quais talvez o mais sério é o de ficar calado quando se tem de protestar. O destino do sujeito é o de fazê-los acordar a cantar, isto é, denunciar mecanismos opressivos. A voz poética é consciente de que a convivência com os outros não sempre é fácil nem pacífica senão cheia de confusões e por vezes até temível. Não obstante, reconhece que o povo sabe manter-se unido, mas faltam-lhe impulsos para rebelar-se quando chega a altura. Há, de facto, no final, certa conciliação da voz lírica com a sua segunda face, da qual já se despreendeu e não pode voltar a aproximar-se dela.

Quanto aos campos léxicos, o poema constói-se em particular de termos dicotómicos da luz e da sombra. Há também uma forte imagem visual da fonte de água, elemento purificador, que divide as faces que até o momento confluiam no sujeito lírico. A água ajudá-o a compreender que a desunião, a desirmandade entre ele e os outros é inevitável, visto que ele constitui-se como porta-voz de tudo o que há de ser dito, enquanto a massa irmã emudece quando é preciso falar. Embora neste poeta, centrado na capacidade e incapacidade de proferir o que é preciso de dizer, não há uma grande concentração de motivos naturais, Torga trabalha com o motivo de água no qual exemplifica metaforicamente as divergências existentes entre um indivíduo consciente da sua tarefa cívica e humana e a massa inconsciente disso.

Agora bem, mesmo que a maioria dos poemas de Torga dentro do ciclo da luta contra a opressão estejam inscritos na poética do desespero, aparecem ao mesmo tempo composições mais positivas, onde se revela a esperança no futuro melhor e brilhante. Corrobora-o por exemplo o poema «Convite».111

Vamos, ressuscitados, colher flores!

Flores de giesta e tojo, oiro sem preço…

Vamos àquele cabeço

Engrinaldar a esperança!

Temos a primavera na lembrança;

Temos calor no corpo entorpecido;

Vamos! Depressa!

A vida recomeça!

A seiva acorda, nada está perdido!

O convite trespassa todo o poema. É um convite a uma nova vida cheia de energias. O sujeito mostra-se absolutamente convencido de que os tempos maus terminaram e o homem recuperou-se deles (ressuscitou) e pode dar bem-vinda a umas épocas melhores. O sujeito tenta alertar os outros e infundir-lhes energia para levantarem cabeças novamente. De novo, o sujeito lírico toma a voz liderante e dirige-se para os outros. O que se quer é enlaçar com o estado existente antes de certa crise não mencionada explicitamente, somente esboçada sem dar detalhes. Imagens de primavera e de flores que se animam a colher, geram uma atmosfera hilariante e festiva. A energia vital é novamente identificada com a seiva vegetal.

O poema utiliza muitas frases exclamativas e relativamente curtas, por isso o convite ou mais bem alento intensifica-se e trasmite o entusiasmo da voz poética.


Por outra parte, o poema «Planalto»112 deselvolve a ideia que a liberdade como conceito constituinte de uma pessoa nasce e forma-se na infância da pessoa e cresce ao longo da vida. A natureza, o monte, os produtos agrícolas – pão e vinho, concordam com a colheita da liberdade. «Malhadas e vindimas./ Pão e vinho./ A liberdade colhe-se primeiro,/ Em criança,/ No monte descampado,/ A jogar o pião e a fazer a trança,/ Atento à voz do vento e à voz do gado.» A liberdade é, desta vez, vista como resultado do vínculo com o campestre e o natural.
Os motivos de liberdade e a opressão são um tema constante na obra torguiana. É seguro que a liberdade é para Torga um valor supremo como se pode deduzir dos seus poemas. No poema «Liberdade»113 o poeta escreve a sua confissão subvertendo o Pai-Nosso ao substituir Deus com a liberdade: «– Liberdade, que estais em mim,/ Santificado seja o vosso nome!»

O autor, como se pode entrever dos poemas citados, assumiu-se publicamente contra o regime, embora a sua frontalidade trouxe-o problemas tamanhos. Já foi mencionado que a sua contundente oposição valeu-lhe prisão e censura de livros. Ainda assim, não deixou nunca de exigir liberdade e de denunciar todos os mecanismos opressivos. Por isso em vários poemas dele, transpira a frustração diante o conformismo do povo. Em 1968 apontou no seu Diário: «Nenhum português deste século ficou a conhecer a realidade social da pátria se não passou pelos calabouços da P.I.D.E. ou por um tribunal político, mesmo só a testemunhar. Se nunca encarnou a liberdade fechado num curro, ou teve de defender o pensamento sentado no banco dos réus.»114

Concluindo as noções extraídas deste subtema é preciso dizer que o tema de liberdade não está tão saturado de motivos naturais como outros ciclos temáticos, a metapoesia ou o amor, por exemplo. Talvez isto se deva ao facto que a natureza, representada pela trasmontana, é vista pelo poeta como encarnação de liberdade, onde se pode sentir livre e respirar livremente.

Dentro dos poemas que lidam com este tema há mensagens mais ou menos abertas sobre a sua desaprovação da situação nacional de opressão onde falta o ar democrático e o que prevalece é silêncio em vez de vozes de protesto. O elemento natural, embora no plano secundário, assume o papel do epicentro do poeta desde onde proclama a sua valoração dos acontecimentos.

Elementos naturais são presentes, mas servem basicamente como parte de uma imagem mais desenvolvida que contém alusões a questões mais profundas sobre a liberdade invididual e o livre arbítrio ou forma como uma pessoa enfrenta as injustiças. Assim, a água serve para expressar tanto a diferença existente entre Torga, colocado numa margem, e os outros, na margem oposta, como a coragem («[…] Sobre a ponte insegura é que é passar!/ Fica o rio a correr dentro das veias. […]»115). O ar, ou melhor dito a falta de ar, remete para a sufocação que se sente num ambiente de não-liberdade («[…] Ar livre! Correntes de ar/ Por toda a casa empestada! (Vendavais na terra inteira,/ A própria dor arejada, - E nós nesta borralheira/ De estufe calafetada! […]»116)

Contudo, o futuro não é somente negro e carente de perspectivas. Há momentos de esperança e fé no futuro que se plasmam com belas imagens de natureza em Primavera. O poeta, ao cantá-los recorre frequentemente a termos vinculados com o natural e vegetal. Assim, surgem motivos florais que contribuem a instaurar uma atmosfera alegre e festiva. A seiva representa o vigor vital que renasce com a Primavera e nos períodos quando o poeta sente-se entusiasmado e as suas apreensões dispersam-se. A liberdade canta-se nestes instantes com imagens muitas vezes resultantes do vínculo com o campestre e o natural.




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