O homem de granito



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9. O IBERISMO E A PORTUGALIDADE

O iberismo torguiano foi assunto focado sob diversos ângulos e por numerosos investigadores. Naturalmente, neste capítulo não é o nosso objectivo levar a cabo um pormenorizado exame dele. Mas certamente não podemos deixar este tema de lado, porque o Iberismo de Miguel Torga é principalmente geográfico e telúrico, não político nem cultural.

A mensagem lançada no Diário XV sobre a possibilidade de união dos povos ibéricos não pode ser mais clara: «A Espanha sempre amada e sempre temida. Aqui ando, mais uma vez, maravilhado e aterrado, a vê-la progredir, progredir e aproximar-se ameaçadora da fronteira. O meu iberismo é um sonho platónico de harmonia peninsular de nações. Todas irmãs e todas independentes. Mas é também uma paixão escabreada, que arrefece mal se desenha no horizonte qualquer sinal de hegemonia política, económica ou cultural.»117

Podemos assumir, pois, que, segundo Miguel Torga, a Ibéria não é uma totalidade uniforme, mas antes um solar comum habitado por povos singulares e inconfundíveis. Contudo, há traços que unem os dois povos. Estes traços tornam-se factíveis sobretudo no livro de poemas Poemas Ibéricos, conhecido como o mais «peninsular» de todos os de Torga.



9.1. Mar ibérico

O mar pertence às grandes forças elementares que em nosso mundo interior podem encontrar a plenitude de uma naturalização. A propósito do fascínio que sente pelo mar e da importância que ocupa na sua vida o poeta confessa: «Foi um amor à primeira vista, que ainda dura. O mar que agora comtemplo deslumbrado é o mesmo que outrora me deslumbrou. Quando pela primeira vez na meninice o vi em Leça, se não preferi o Marão nativo, ancorei-o em água salgada. E fiquei com duas referências cósmicas na vida.[...]»118

O próprio Torga não passava por alto os comentários que a crítica assinalou à sua obra. Às vezes, opina deles nas páginas do seu Diário. Por exemplo, numa nota diarística comenta a tradicional ligação que a crítica estabelece na sua obra com o telúrico. O poeta, por sua parte, não nega o telurismo, mas acrescenta o seu vínculo íntimo e profundo com a água salgada ignorado: «O mar. Mal cheguei, mergulhei nele. Vinha abrassado de calor e de saudades. Os que falam do meu telurismo, nem longe imaginam o fascínio que sinto pelas ondas. Nasci, de facto, em terra firme. Mas sou anfíbio, carnal e espiritualmente.»119

O mar por tanto aparece constantemente na mente do poeta. As estadias de Torga junto ao mar inspiraram-lhe numerosos poemas que dão prova do seu amor pelo mar. Topámos com vários poemas que mereceram levar o mar ou referências ao mar no seu título: «Ressaca do Mar Morto» (O Outro Livro de Job), «Naufrágio» (O Outro Livro de Job), «Mar» (Diário IX), «Mar» (Diário XI), Ao «Mar» (Odes), «Mar Sonoro» (Diário X), «Mar Matinal» (Diário XIV), «Mar Ausente» (Diário IX), «Búzio» (Diário X), «Búzio» (Diário II), «Circum-Navegação» (Orfeu Rebelde).

Sendo o poeta tão apaixonado pelo mar, naturalmente não pode excluí-lo dos seus pensamentos mais íntimos e recorre a ele para traçar paralelo com a sua própria vida. Por tanto, o mar encontra sítio em todos os ciclos temáticos ainda assinalados: desde a solidão e angústia, premente vontade de transgredir, morte física até atitudes esperançosas, relação amorosa e drama da criação poética. Dado este facto, optámos por encaminhar-nos por um caminho diferente. O mar é o demoninador comum dos dois países ibéricos, Portugal e a Espanha, e o elo de ligação entre os diferentes territórios portugueses e espanhóis: «Mar! O mar basco, o mar galego, o mar português, o mar andaluz, o mar catalão... O mar que Castela nunca teve e nunca terá... O mar que jamais viu e jamais entendeu, que sulcou de olhos fechados, à espera de desembarcar em qualquer praia e desembainhar a espada da intolerância....

En Castilla el paisaje es el cielo – disse alguém. Pois eu acrescento que nas outras nações ibéricas a paisagem é o mar. O mar que azula os olhos dos pescadores e aveluda a verdura das vinhas, das hortas, dos olivais, das matas e dos pomares. O mar de onde vem o sal que tempera o gosto e transforma o devorar em comer. O mar que dá sargaço à terra esfomeada. O mar dos fenícios, dos gregos e dos romanos. O mar convivente, civilizado e civilizador...»120 O mar desempenha nos olhos do poeta papel crucial e dá plenitude à vida na Ibéria.

O poema «Mar» forma parte do livro de poemas Poemas Ibéricos dividido em quatro partes. Este poema pertence à primeira parte intitulada História Trágico-Telúrica que contém meditações de carácter geral sobre a terra e o povo ibérico. «Mar» é uma reflexão lírica sobre o papel decisivo do mar na história dos povos peninsulares que resolveram jogar-se ao mar e enfrentar os seus perigos na procura de novos mundos.

«Mar»121

Mar!

Tinhas um nome que ninguém temia:



Era um campo macio de lavrar

Ou qualquer sugestão que apetecia...

Mar!

Tinhas um choro de quem sofre tanto



Que não pode calar-se, nem gritar,

Nem aumentar nem sufocar o pranto...

Mar!

Fomos então a ti cheios de amor!



E o fingido lameiro, a soluçar,

Afogava o arado e o lavrador!

Mar!

Enganosa sereia rouca e triste!



Foste tu quem nos veio namorar,

E foste tu depois que nos traíste!

Mar!

E quando terá fim o sofrimento!



E quando deixará de nos tentar

O teu encantamento!

O poema consiste em cinco estrofes de quartetos de versos. Torga organiza o conteúdo do poema por meio de um apóstrofe lírico Mar! com o qual inicia cada primeiro verso da estrofe. O eu lírico assumindo a atitude de um porta-voz das nações que representa tece um diálogo com o mar personificado. Desta forma, ao implicar-se directamente abandona a posição de um narrador distante e a tensão emotiva aumenta.

Torga manifesta nestes versos de tom repreensivo uma revisão da importância do mar na história peninsular, através de um contraste estabelecido entre o tempo precedente às viagens ultramarinas e o posterior. O mar sai desta comparação de épocas como um elemento que originou discórdias.

O eu lírico dirige-se ao seu interlocutor, o mar, começando a expor-lhe a história à base de imagens metafóricas relacionadas com o campo e tranquilidade. No passado, o mar parecia mais um campo a lavrar, não apresentava perigo ou risco. Parecia submisso e sofrido até que dava pena. Então o povo de Ibéria aproximou-se a ele com afecto. Mas ocorreu uma mudança brusca. O mar traiçoeiro revelou a sua face verdadeira de um elemento indomável e devorou os lavradores ingénuos. A quarta estrofe é uma exclamação que desenvolve a ideia da atracção com consequências nefastas. O mar é referido como um ser mítico, uma sereia, que enganava os navegantes com o seu canto. O canto do mar que seduziu a gente é rouco e traidor, a voz dele não é limpa e não tem boas intenções.

Na quinta estrofe combina-se exclamação com um visão profética. O sujeito interroga-se quando terminar-se-á a fascinação e deixará de atrair fatalmente o povo português e espanhol.

Não carece de interesse a escolha de tempos verbais neste poema que concorda com a distribuição de ideia chave no poema. Os tempos verbais nas primeiras três estrofes – imperfeito («tinhas», «temia», v. 2,«era», v. 3, «apetecia», v. 4, «afogava», v. 8). A quarta estrofe traz uma mudança que se plasma também no uso dos tempos verbais. À diferença das estrofes anteriores, de tom mais narrativo, predomina o pretérito perfeito simples («foste», v. 15, «veio», v. 15, «foste», v. 16, «traíste», v. 16) que intensificam a acusação que o sujeito lhes lança.

O último verso do poema encerra uma palavra que é chave para a compreensão do mar torguiano: o encantamento. O mar é uma magia.

Que o mar desempenha um papel sumamente importante para o país natal de Torga e para Torga pessoalmente, é indiscutível. Nas suas viagens de exploração e conhecimento de diferentes cantos do mundo, Torga escreve inúmeros poemas dedicados ao mar. No poema «Descoberta», o mar é concebido como um elemento aglutinador de um país repartido por todo o mundo fazendo referência a um verso de Camões, «Pátria em pedaços repartida»122 ou também pode tratar-se de uma alusão à concepção estadonovista da Pátria portuguesa que compreende todas as colónias. O poema reza o seguinte: «O tempo que levou a tua imagem/ A encontrar nos meus olhos a medida/ Dum íntimo destino,/ Mar que juntas a pátria repartida/ E lhe salgas o nome masculino!»123 O mar abre nos olhos do sujeito uma nova dimensão de destino. Une a pátria e lhe dota de um valor masculino frente à docura tradicionalmente concebida como feminina.

E terminemos com os versos de Torga destinados ao habitante maiusculizado de Portugal: «Lusitano, almocreve, olha o que tens:/ Montanha e mar, o berço e a sepultura.»124


9.2. Encruzilhada fluvial torguiana

Não somente as águas salgadas são motivos predilectos de Torga. As águas doces encontram o seu espaço em diferentes poemas e não são poucos. Só a partir dos títulos de poemas notamos o seu emprego frequente: «Água» (Diário II), «Chuva (Diário II), «Á Água» (Odes), «Douro» (Diário III), «Doiro» (Diário X), «Fonte Nova» (Diário IV), «Manancial» (Câmara Ardente), «Estuário» (Diário XIV), «Tejo» (Diário XI). O poeta, procedente do Concelho de Sabrosa que é ladeado pelo rio Douro e nas cujas encostas cultiva-se o apreciado vinho, reconhece a importância capital do rio na vida de aldeias ambientadas em zonas fluviais e o seu amor por ele.

Torga, nascido numa região que se estende às margens do rio Douro, mais tarde fixou residência em Coimbra, cidade que se ergue na colina sobre o rio Mondego. Por tanto não estranha que dedique a estes rios linhas como estas no seu Diário: «Na paisagem da minha vida há dois rios: este Doiro e o Mondego. Um a espelhar os planaltos da meninice, e o outro a reflectir os vales da maturidade. O primeiro, terroso, caudaloso, insofrido, todo aos cachões e às golfadas, a correr entre viris penedias, quente de sol e seiva; o segundo, límpido, magro, paciente, a deslizar sem alardes a través de araias de erosão. [...]»125 A estes rios também dedicou poemas e numerosas referências nas notas diarísticas.

Como o mesmo Torga referiu na nota mencionada, o rio Douro tem uma especial importância para ele. Torga caracterizou-o por um lado, com os adjectivos terroso, caudaloso, insofrido, e por outro lado, pelo espaço por onde corre, isto é, por meio de zonas rurais rodeadas de penedias, regiões vinícolas e calorosas.

«Doiro»126

Core, caudal sagrado,

Na dura gratidão dos homens e dos montes!

Vem de longe e vai de longe a tua inquietação...

Corre, magoado,

De cachão em cachão,

A refractar olímpicos socalcos

De doçura

Quente.

E deixa na paisagem calcinada

A imagem desenhada

Dum verso de frescura

Penitente.

O eu lírico aborda o rio personalizado, e o excita a correr mais. O caudal do rio é sagrado, possivelmente, pela sua importância chave nas regiões pelas que passa. O rio é muito longo e não se discerne nem o seu princípio nem o seu fim. O rio é caracterizado pela sua inquientação que traz ao longo de todo o seu percurso. O rio passa por regiões famosas pela produção vinícola. Dado a pobreza do chão e o clima variável entre Invernos rigorosos e Verões quentes, a gente moldou as colinas de xisto em socalcos, quais jardins suspensos, e cultiva neles o vinho doce típico. O percurso do rio converte-se da mão do poeta num verso penitente. Quer dizer, conjuga a humildade por sua poesia.

Vê-se então que o rio é caracterizado por dois adjectivos provenientes da linguagem religiosa. Como em outros casos, Torga mistura o religioso com o natural dando origem a uma dimensão natural elevada acima do mundano.

Destaca o vocabulário ligado, por uma parte, com a paisagem pela que passa o rio (montes, socalcos, paisagem calcinada, doçura e cachão que representam o cultivo vitivinícola, quente que insinua o calor escaldante) e, por outra, com o nível emocional. Neste plano se reflecte a inquietação do rio que o sujeito comparte com ele (inquietação, adjectivos magoada, penitente).

Nos livros de poemas de Torga existe também outro poema denominado «Doiro». Repete-se nele o contexto da região duriense vinícola que é dividida pelo rio em dois margens pedernais: «De cachão em cachão,/ O mosto vai correndo/ No seu leito de pedra./ Correndo e reflectindo/ A bifronte paisagem marginal./ Correndo como corre/ Um doirado caudal/ De sofrimento./ Correndo, sem saber/ Se avança ou se recua./ Correndo, sem correr,/ O desespero nunca desagua...»127 A inquietação do poema precedente tem aumentado até dar lugar ao desespero. O desespero é concebido como uma massa fluida que corre de maneira similar à da um rio sem estuário. O desespero fica com o sujeito até sempre e não principia nem termina.

O poema dedicado ao rio Tejo em confrontação com os dois poemas sobre o Douro destaca por oferecer uma imagem bastante distante de um rio como espelho de soçobras e angústias. Em contraste, o Tejo é descrito como um rio calmo e majestático.

«Tejo»128

É um lento e majestoso

Caudal de claridade

Que corre no teu leito,

Rio perfeito

Como o dia a passar,

Largo, sereno, aberto,

Logo à partida, certo

De chegar...

Em contraste ao Douro do qual se afirma que Vem de longe e vai de longe a tua inquietação...do Tejo tem-se por certa a sua chegada ao lugar determinado. Entretanto, o rio tem um percurso calmo e sereno, sem disturbações. Os termos léxicos utilizados expressam a sua longitude, serenidade, certeza e abertura, e, resumidamente, perfeição (v. 4).



9.3. Terra ibérica

Já vimos em vários poemas que a terra é para Torga um elemento frequentemente empregado e tratado sob diversos ângulos de vista. Ademais, o poeta inventa para o mar numerosas imagens que, por vezes, são muito diferentes entre si mas sempre inscritas no círculo do seu afecto.

No atinente à dimensão ibérica da terra, o tema especial no livro Poemas lusitanos, o papel da terra não é tão harmónico como em outras ocasiões: «Como ondulada capa de miséria/ A cobrir de negrura a cor das chagas,/ Assim és tu, crosta de velhas fragas/ Sobre o corpo da Ibéria.»129 A terra serve de manta para cobrir as chagas da Ibéria com as florestas mas sem poder dissimular a miséria toda. A visão dos países ibéricos é desentantada e desprovida de optimismo.

Em «A Vida» o poeta liga o sentido da vida dos povos ibéricos com a sua firme fé no chão natal que não deve ser rejeitado nunca.

«A Vida»

Povo sem outro nome à flor do seu destino;

Povo substantivo masculino,
Seara humana à mesma intensa luz;
Povo vasco, andaluz,
Galego, asturiano,
Catalão, portugués:
O caminho é saibroso e franciscano
Do berço à sepultura;
Mas a grande aventura
Não é rasgar os pés
E chegar morto ao fim;
É nunca, por nenhuma razão
Descrer do chão

Duro e ruim!

O povo da Península ibérica é identificado com os espigos do trigal. O sujeito nomeia alguns dos povos que constituem a pátria ibérica. A linha que os une é a vocação religiosa que se imprime ao nascer e termina só com a morte. De facto, o poema é uma deliberação sobre a missão do homem na vida. Segundo o sujeito, a grande questão não é morrer totalmente destruído físicamente. O alvo para ele consiste em manter-se fiel ao chão até a morte, por mais duro que seja. Assim, chega-se ao final com consciência limpa e cumpre-se com o dever à terra de nascimento.

9.4. Pátria portuguesa

Uma especial atenção recebe a terra natal de Torga, que não tem que ser concretamente o S. Martinho de Anta natal, mas, por extensão, toda a terra portuguesa. Uma verdadeira paixão pelo chão natal reconhecemos no poema «Êxtase». O eu lírico expressa com recursos líricos altamente emotivos o seu amor ardente para com a terra. O poema é saturado de frases exclamativas, unidas por paralelismos anafóricos que, neste caso, aumentam a tensão e conseguem criar uma efeito de concentração de ideias, aqui, concentração de sentimentos sumamente positivos para com a terra.

Êxtase130

Terra, minha medida!

Com que ternura te encontro

Sempre inteira nos sentidos!

Sempre redonda nos olhos,

Sempre segura nos pés,

Sempre a cheirar de fermento!

Terra amada!

Em qualquer sítio e momento,

Enrugada ou descampada,

Nunca te desconheci!

Berço do meu sofrimento,

Cabes em mim, e eu cabo em ti!

No primeiro verso há uma invocação à terra. O eu lírico refere-se a ela como à sua medida. Normalmente, a medida é entendida como forma para avaliar extensões ou quantidades mensuráveis. Achamos, por tanto, que se trata de maneira como o sujeito avalia o mundo inteiro.

As qualidades da terra que o sujeito ressalta são desenvolvidas nos versos 3 – 6. Primeiro, a voz lírica sublinha a sua inteireza nos sentidos. Compreendemos isto como a capacidade da terra de exercer influência sobre todos os sentidos do homem, a visão, a audição, o olfato, o gosto e o tacto. A terra é caracterizada também como redonda nos olhos. A forma esférica representava na Antiga Grécia a forma de maior perfeição possível. Sob este ângulo de vista, o adjectivo remete à máxima harmonia que a terra exala. O qualificativo segura nos pés alude à permanência da terra que nunca se desloca e sempre oferece um suporte forte para os pés que por ela andam. Afinal, salienta-se uma percepção olfáctica: o cheiro a mosto fermentado. Provavelmente trata-se -como é frequente na obra de Torga- da terra duriense onde se practica um tradicional cultivo do vinho.

Após da segunda invocação à terra, qualificada como amada, segue uma confessão dirigida à terra. O sujeito conhece intimamente todas as partes dela, quer os montes (terra arrugada), quer as planícies (o descampado). A terra é intitulada como o berço do sofrimento do sujeito. Torga, proveniente daquela terra, nasceu já com o seu carácter introspectivo e inclinado a duvidar. Então é ali onde nasceu a sua visão conflituosa da realidade que lhe causa sofrimento. Ademais, o poeta sempre foi muito preocupado com o destino da terra portuguesa e sua região natal, portanto, participam activamente no seu sofrimento pessoal. Mesmo assim, a relação entre eles é proporcional. A terra forma parte da sua personalidade e essência (cabes em mim) da mesma forma como o sujeito cabe na terra, capaz de abranger todas as almas que a amam (cabo em ti).

As referências à terra como berço podem-se detectar em numerosos poemas. O berço, referido acima como origem de sofrimento, contrasta com os momentos quando o poeta se eche de orgulho e invade-o alegria perante a sua terra, tal como em «Pétalas»: «Infantil e alada,/ A brisa do teu espanto/ Salta de monte em monte/ E roça o meu ouvido:/ – Que maravilha é esta?/ – É o meu berço florido:/ O duro chão da minha terra em festa!»131

No poema «Regresso»132o poeta refere-se à sua pátria portuguesa em termos gerais. Este poema expressa de maneira bastante clara a profundidade do enraizamento de Torga na sua terra natal: «Quanto mais longe vou, mais perto fico/ De ti, berço infeliz onde nasci./ Tudo o que tenho, o tenho aqui/ Plantado./ O coração e os pés, e as horas que vivi,/ Ainda não sei se livre ou condenado.» O sujeito, pois, não consegue viver longe da sua pátria porque se sente enlaçado com ela. Considera que tudo o que vale a pena está concentrado precisamente aí. O coração, os pés, que remetem à sua ligação física com a terra, e o tempo pessoal, as memórias que surgem em relação com esta terra. Não obstante, há um problema metafísico que aparece no último verso. Será esta ligação voluntária e perfeitamente livre ou trata-se de uma condenação mascarada?

Uma nova e supreendente visão da pátria aparece nos poemas da velhice do autor. «Corografia»133 é um exemplo: «Meu Portugal eterno/ De cabras e carrascos!/ É no teu chão dorido/ Que gasto, em paz, os cascos/ De fauno envelhecido...» O sujeito por meio do pronome possesivo expressa a aceitação da terra tal e qual, com todos os seus pros e contras. O chão é referido como dorido. Portugal é um país agrário e cheio de florestas. A voz lírica converte-se num ser mitológico, o fauno, metade cabra, metade homem, deidade rústica e relacionada com espaços campestres ou silvestres que fertilizava o gado. Mas os cascos do sujeito lírico são gastos de tanto andar pela terra e as forças físicas vão-lhe diminuindo progressivamente. Os seus cascos já não são tão afilados, já foram limados no chão de pedruscos.

No que concerne à projecção de motivos naturais no plano do iberismo e portugalidade de Toga, observámos especialmente a sua projecção no elemento aquático e terrestre. Em ambos os cascos, temos de dizer que topámos com várias imagens que expressam a relação de Torga com a pátria e a pátria ibérica.

As imagens relacionadas com o mar são frequentes na obra poética de Miguel Torga e reflectem practicamente todos os ciclos temáticos mencionados com antecedência no texto. Neste plano, ademais, o mar funciona como um elemento que algutina os povos ibéricos e que foi decisivo para a sua história comum. O mar tem para ele um poder mágico e até interfere no plano metafísico ao ser comummente concebido como a sepultura, seja do poeta, seja de toda a nação.

Não somente as águas salgadas são motivos favoritos de Torga. O poeta percebe o rio como algo sumamente importante e belo na sua vida capaz de expressar todos os estados da sua mente e ânimo. A sua vida decorreu aos lados de dois rios que considera determinantes para a sua vida e carreira artística, o Doiro e o Mondego. Por tanto, presta-lhes espaço na sua obra e serve-se deles para traçar paralelos com a sua própria vida.

Quanto à dimensão ibérica da terra, tão harmónica como em outras ocasiões, supreende a visão dos países ibéricos desencantada e desprovista de optimismo excessivo. Mesmo que a pátria não seja o cúmulo de positivos e também tenha os seus lados negativos, a questão é que andam por ela todos os povos ibéricos e ela oferece-lhes refúgio. Por tanto, por mais imperfeições que a terra tenha, é o dever de cada um mostrar-lhe respeito e amor.

Em vários poemas Torga confessa o seu amor para com o chão natal. Especialmente a região natal é conhecida em todos os detalhes pelo poeta. Mas sabe tornar-se madrastra e representar hostilidade do mundo.



10. REFELEXÃO FINAL SOBRE A PROCURA DE ELEMENTOS NATURAIS E A SUA FUNÇÃO NA POESIA TORGUIANA
Chegando ao fim do nosso trabalho orientado à procura de elementos naturais na obra poética de Miguel Torga, pretendemos neste capítulo resumir as noções adquiridas durante o exame da obra do autor.

Os objectivos que determinámos ao princípio foram os seguintes. Partindo dos livros de poemas de Miguel Torga, examinar que lugar ocupam neles os elementos naturais, com que temas secundários estão ligados e ponderar o lugar do mito de Anteu na obra poética do autor. Além dissso, interessa saber como o poeta plasma a presença dos recorrentes motivos naturais e telúricos que se encontram dispersados na sua obra lírica, e, sobretudo, como podemos explicá-los.

Para encontrar resposas às questões mencionadas, optámos por estruturar o trabalho da seguinte maneira. Depois de contextualizar a criação literária de Torga dentro do marco da escrita portuguesa do século XX, segue-se um breve quadro com apontamentos sobre a vida e obra do autor. A continuação, o trabalho conta com cinco capítulos que de forma prática reflectem os ciclos temáticos mais comummente salientados pela crítica e tentámos encontrar neles as respostas às perguntas expostas. Os temas são: a natureza e a metapoesia, o ciclo da identificação com a natureza, a experiência amorosa, o desespero vital dividido no tema da angústia, a reflexão sobre a morte e sobre a religião, a seguir a luta entre a opressão e a liberdade e, finalmente, o iberismo e a portugalidade, tratados sempre com vistas ao plano natural, todos eles provídos de uma conclusão parcial ao final de cada capítulo.

Apoiando-nos nas referências literárias indicadas no lugar devido e nos poemas de Miguel Torga recolhidos nos dois volumes da Poesia completa (que contêm também a sua poesia pertencente aos Diários), achámos o seguinte.



No tocante ao tema da metapoesia, entre as imagens naturais mais comuns pertencem os seguintes.

  • A figuração do poeta como um camponês que semeia trigo. Deste modo, abre-se uma alusão telúrica e genesíaca que remete à imagem do poeta como semeador que, como um camponês semeia trigo na terra, semeia poemas. Com esta imagem relaciona-se o uso da metáfora do acto criativo e do produto lírico através da imagem de fainas agrícolas: a sementeira e a colheita. A dimensão genesíaca aparece também em outra forma: a semente imaginativa da qual abrolha a poesia funciona como maneira de combater o oco da vida.

  • Mas antes de levar a efeito a sementeira tem que vir um toque de inspiração que, por vezes, demora em pronunciar-se. Neste caso, aparecem frequentemente imagens de uma paisagem rochosa e montanhosa de onde, muito trabalhosamente, tem que se extrair uma veia de pedras preciosas, ou dar com um manancial de água cristalina.

  • Em relação à angústia do poeta da transitoriedade da vida e da inevitável presença de morte, nascem ânsias de deixar vestígios indeléveis e assim permanecer perpetuado. Com efeito, é a natureza e a lírica que o autor escolhe para estes fins.

  • Em todos os casos, a natureza, por uma parte, é inspiração para a sua poesia, mas também é forma como explicar o processo criativo e por meio de imagens vinculadas com o natural consegue plasmar todo um leque de sentimentos que sente conotadas a ela em relação à criação poética.

Resumindo brevemente o capítulo cinco, dedicado ao exame da identificação com a natureza, achámos o seguinte.

  • É evidente que numerosos poemas de Miguel Torga tratam o tema da identificação com os elementos naturais, ora dentro do olhar metapoético, ora fora dele.

  • As ânsias de se fundir com a natureza funcionam, sobretudo, em relação com a paisagem montanhosa e povoada de florestas. As árvores de florestas são tratadas como elementos muito propícios de realizar tais fusões porque representam na poesia torguiana a figura humana, com os pés enraizados e a seiva representativa do sangue. Contudo, muitas vezes aparece também o próprio chão do qual brota a essência íntima do poeta, ou o mar que atrai o poeta desde os primeiros livros de poemas.

  • Todos estes elementos naturais, ligados fortemente às ânsias de procura de identidade, reflectem a íntima ligação do poeta com a sua terra de origem. O nordeste português, concretamente as serras e as fraguas transmontanas, constituem parte indissolúvel do processo da procura e do encontro de uma garantia de vida tanto pessoal como artística.

Em síntese, relativamente ao capítulo sexto que aborda o ciclo amoroso, concluamos com estas palavras finais.

  • Foi comprovado que o tema amoroso constrói-se com ajuda de várias reminiscências naturais; inclusive foi rastreada a repercussão do mito de Anteu no plano amoroso. O amor, encarado tanto pelo seu lado positivo como pelo desgraçado, encontra nos motivos naturais espelho que reflecte o estado da relação amorosa. Em ambos os casos, Torga serve-se de imagens vegetais para plasmar os diferentes sentimentos e vivências.

  • Existe uma dimensão que comparte, com o tema metapoético, alusões genesíacas e de facto, pronunciadamente sensuais. O amor, sob este ângulo de vista, toma forma de uma força instintiva e serve-se de vocabulário que remete à criação e força fecundadora da natureza.

  • Curiosamente, não somente os seres humanos podem identificar-se com o natural, mas também a terra humaniza-se, ora como a mãe, ora como a amante/ fêmea.

  • No pólo oposto, encontra-se o drama do amor não correspondido. O romance é, na maioria de casos, posto de paralelo com a terra, encontra eco também na vegetação (árvores, flores), e no mar, nas praias e nos búzios por meio dos quais expressam-se todos os estados de ânimo que se querem transmitir e sublinhar.

O capítulo sete compreende três motivos do grande tema recorrente da poesia torguiana: o desespero. Trata-se dos temas da angústia vital, da proximidade da morte e da religião.

  • Ante tudo, há necessidade de afirmar que dentro desta temática operam motivos naturais em grande medida. A natureza serve de eco ao mundo interno do poeta inquieto, por tanto não sempre se apresenta na face conformadora mas com prevalescência reflecte as soçobras e angústias pelas que passa o poeta. De facto, o mar e a terra, embora profundamente amados, em várias ocasiões tornam-se hostis e inimigos. Não obstante, em momentos de maiores lamentações e apuros, a natureza estende a sua mão ao poeta fazendo ressoar nestes casos alusões ao mito do Anteu.

  • Em realidade, o ciclo natural representa o percurso de vida do homem. Só com uma diferença, chave para o poeta. Para Torga é de admirar e invejar a incrível capacidade que a natureza tem de renascer da qual o homem fica destituído. Outra vantagem que a natureza tem sobre o homem é a sua essência majestosa, invencível, eterna, frente à fraqueza física e espiritual do homem.

  • Tanto como o poeta procura uma forma de vida em comunhão íntima com a natureza, também representa de maneira metafórica o seu final. Assim, a natureza (especialmente a água que serve de metáfora clássica da vida humana que desemboca no mar) traduz o combate com a morte que está por chegar, e presencia os seus momentos de incerteza preparação para ela. Nos poemas escritos na idade avançada do poeta aparece cada vez com maior frequência a noção da limitação do homem pelo tempo e pela morte. Os últimos poemas por isso conduzem à uma reflexão e balanço profundos. A noção da limitação desta constante na vida humana manifesta-se com a procura de eternização através da natureza que permanece.

  • Relativamente ao espaço religioso, o campo propõe uma nova concepção de religião. Sendo o Deus questionado pelo autor, Torga procura novas dimensões religiosas no campestre. A natureza oferece uma forma diferente de missão religiosa, que atrai o poeta. e que substitui a dimensão espiritual que não consegue aceitar Deus. Por tanto vários poemas são como orações recriadas que defendem o agrário e social.

Concluindo as noções extraídas do capítulo que lida com a liberdade e a opressão no plano vegetal, podemos afirmar isto.

  • No primeiro lugar, podemos ver que o tema de liberdade não está tão saturado de motivos naturais como outros ciclos temáticos. Mesmo assim, as imagens são muito intensas. Para expressar a rebeldia, emprega-se, por exemplo, o motivo do rio. A rebeldia do sujeito brota como um rio ao nascer da fonte e depressa ganha intensidade de um rio caudaloso.

  • Ademais, presenciamos o conflito entre o sentimento de missão na vida artística frente à vontade de desfrutar a sua própria libertade. Ao final, a alerta dos próximos é sempre muito forte e encerra mensagens mais ou menos abertas sobre o ambiente de opressão que tem que ser superado, e no qual falta o ar democrático. O mais reprovável é o silêncio em vez de vozes de protesto.

  • Contudo, o futuro também oferece boas pespectivas e símiles esperançosos. Há momentos de esperança e fé no futuro que se plasmam com belas imagens de natureza em Primavera. A seiva representa o vigor vital que renasce com a Primavera e nos períodos quando o poeta sente-se entusiasmado e as suas apreensões dispersam-se.

Quanto à sua relação com a Ibéria e com a sua pátria portuguesa, que constitui o capítulo final da parte prática, podemos constatar que:

  • Ante tudo, ambos os motivos expressam a sua profunda ligação ao mar e a terra. O que é comum aos dois países é o mar e o fascínio que o poeta sente por ele, ora seja português, ora espanhol. Salienta-se a importância do mar para todo o povo ibérico, tanto na história e na contemporaneidade do poeta. O mar desempenha o papel central e dá plenitude aos que vivem na Ibéria, incluindo o autor mesmo, que deixa trasluzir o seu deslumbramento perante o mar igualmente nos poemas como nas notas diarísticas.

  • As alusões à água não se limitam ao mar. Aparece sublinhado, no mesmo nível de importância, os principais rios que moldearam a sua vida, o Douro e o Mondego. Para além destes dois, aparece também o Tejo. Em todos os caso, o rio recolhe toda uma série de estados do poeta. Especialmente propício parece ser como identificação de rebeldia, desespero violento, amor, nascimento e morte. Apresentaram-se vários poemas onde o mar é identificado com a tumba funerária e o rio com a vida que desemboca nele. Enfim, o facto que as águas desempenham um papel sumamente importante para o país -e toda a península natal- de Torga é indiscutível.

  • Relativamente à terra, outra vez é uma linha de união entre os povos ibéricos que habitam a mesma terra, que encara os seus problemas e cuja visão, embora conciliadora, é também crítica e desprovida de optimismo descomedido. Contudo, a terra é concebida como a pátria, portanto, não se deve mostrar-lhe ingratidão e é preciso ser-lhe fiel.

  • Por outra parte, já mencionámos que Torga foi um viajante constante pelo seu país e pelo mundo inteiro. Destes percursos constantes brota, para além de inúmeros poemas dedicados aos diferentes cantos de Portugal, o seu profundo conhecimento da geografia portuguesa: conhece intimamente todas as partes, montes, florestas, planícies e praias e mais. Em cada região encontra alguma coisa que lhe atrai. Mas é concretamente o seu torrão natal com o qual se indentifica e que representa a sua essência. Necessariamente tem que representar, pois, também amarguras e medos. Mas o desenlace final é claro: apesar de todos os possíveis defeitos, continua a amá-la.

O objectivo do trabalho apresentado foi, portanto, extrair dos exames realizados a concepção e a função de motivos naturais no marco de toda a sua criação poética. Foram observados, embora em menor medida, outros elementos de composição do poema que estão em correlação com o uso dos determinados motivos. Trata-se, especialmente, do esquema métrico e dos recursos poéticos em geral.

Dito geralmente, não podemos deixar de constatar a incidência em certas palavras empregadas reiteradamente por Torga como seiva, cio, germinar, partir e também cacho, vinho, mosto, e a surpreendente concentração de vocabulário ligado ao elemento aquático junto com os acidentes terrestres: penedos, montanhas ou planícies, todas elas estreitamente ligadas ao pólo mais importante da sua inspiração: a terra e a vida. Por parte formal, os poemas de Torga destacam pelo ritmo marcado, pelo uso de uma variedade de recursos enfáticos, as palavras chaves ocupam um verso todo, outras vezes num poema sem rima são as únicas portadoras dela. Ademais destacam jogos com palavras e efeitos fónicos.

A concepção torguiana dos motivos naturais altera-se ao longo da sua carreira artística. Esta evolução não é linear mas intervêm nela diversos retornos e recorrências. Os motivos evoluem mas permanecem. Em diferentes livros de poemas são estas constantes naturais presentes em porções diferentes. Com certeza podemos afirmar, só com olhar nas datas da escrita dos poemas referidos nas notas de rodapé, que os motivos naturais prevalecem nos poemas intercalados na obra diarística. Ao olhar na proporção dos poemas analisados no nosso trabalho, 77% formam os poemas contidos nos Diários e 23% ficam para as colectâneas editadas.

Isto deve-se, provavelmente, ao carácter destas obras. Os apontamentos diarísticos foram escritos dia trás dia e comentam todas as realidades que rodeavam o autor que se deslocava constantemente entre Coimbra, Lisboa, S. Martinho de Anta, balneário de Gêres, e estava practicamente sempre em caminho por diversos cantos de Portugal, assim como pelo estrangeiro. Ademais, aproximando-se ao final da sua carreira poética, o poeta deixou de editar livros de poemas e introduzia os seus versos apenas nos Diários.

Contudo, achámos que não convém tentar fazer juízos mais profundos visto que não foi possível realizar o estudo mais pormenorizado e investigar sobre o uso dos motivos naturais em todas as composições líricas. O trabalho aqui apresentado não leva em conta todos os poemas, é apenas uma selecção deles. Deixamos para outros para se inquirirem mais pormenorizadamente sobre a real percentagem.

Quanto ao eco do mito de Anteu, vimos que este funciona em quase todos os temas apresentados. A terra nutre o poeta de forças sempre que necessário. A investigadora Isabel Vaz Ponce de Leão constata: «Destarte, a terra em que Anteu tocou, pode ser a transmontana como a brasileira, como a da pátria mítica das suas memórias pessoais, em que o presente dialoga com o passado, ou mesmo aquele pedaço de mar que assazmente contempla.»134 E nós finalizamos afirmando que Miguel Torga, Anteu enão, como ele mesmo diz num dos poemas, um dos autores portugueses mais relevantes do século XX, é autor de uma obra baseada numa poética intensa, enraizada na relação com a natureza e com o homem, cujos textos estão ancorados nos valores fundamentais humanos. Pertencem às suas garantias de vida particularmente acentuadas o vínculo com a terra natal, ou por extensão, com toda a terra portuguesa, por vezes desbordando para toda a Ibéria, que se filtram em toda a sua obra.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bibliografia activa

TORGA, Miguel

2007 Poesia completa Vol. I. Lisboa, Publicações Dom Quixote.

Poesia completa Vol. II. Lisboa, Publicações Dom Quixote.

2002 Bichos, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 22ª edição.

1999 Diário Vols. I a VIII (1941 – 1959). Coimbra, Publicações Dom Quixote, 2a edição integral.

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APÉNDICE

1. Sumário cronológico da vida de Miguel Torga

1907 12 de Agosto em S. Martinho de Anta, Vila Real, Tras-Os-Montes, nasce Adolfo Correia Rocha.

1917 Estadia no Porto como criado em família de parentes distantes.

1918 Estudos no seminário de Lamego, onde ganha sólidos conhecimentos de textos bíblicos, mas logo dessiste da carreira sacerdotal.

1920 Emigração para o Brasil, onde trabalha na fazenda Santa Cruz do seu tio em Minas Gerais.

1924 Frequenta o Ginásio Leopoldinense em Leopoldina, Minas Gerais, Brasil.

1925 Regressa a Portugal.

1928 Ingressa na Facultade de Medicina da Universidade de Coimbra. Amizades na república de estudantes Estrela do Norte.

1928 Publica o seu primeiro livro de poemas, Ansiedade, que acaba por retirar do mercado salvando apenas um verso do poema Ignoto.

1929 Colabora com a revista Presença separando-se do grupo o ano seguinte.

1933 Conclui a formatura como otorrinolaringologista e começa a exercer como clínico geral em Vila Nova de Miranda do Corvo, Distrito de Coimbra.

1934 Adopta o seudónimo de Miguel Torga.

1940 Detido em Aljube pela publicação dO Quarto Dia d’A Criação do Mundo. Contrai matrimónio com a intelectual belga André Crabbé.

1941 Estabelece definitivamente em Coimbra o seu consultório de otorrinolaringologia, após de exercer como e em Leiria.

1955 Nasce a filha única de Torga, Clara Crabbé Rocha, autora de vários livros biográficos de Torga, como O espaço autobiográfico em Miguel Torga ou Miguel Torga. Fotobiografia.

1989 Ganha o Prémio Camões sendo o primeiro autor galardoado com este prémio prestigioso.

1995 Morre em 17 de Janeiro aos 88 anos. Está enterrado na sua aldeia natal.

2. Publicações de obras de Miguel Torga em ordem cronológica

1928 Ansiedade, primeiro livro de poesia que mais tarde o autor recusou

1930 Rampa, poesia

1931 livros de poesia Pão Ázimo e Tributo

1932 Abismo, poesia

1934 A Terceira Voz

1936 O Outro Livro de Job, poesia

1937 O Primeiro Dia d’A Criação do Mundo, O Segundo Dia d’A Criação do Mundo

1938 O Terceiro Dia d’A Criação do Mundo

1941 peças de teatro Terra Firme e Mar, primeiro volume Diário I

1942 Rua, poesia, Diário II

1943 Lamentação, livro de poesia, e a novela O Senhor Ventura

1944 Libertação, poesia, coletâneas de contos Contos da Montanha e Novos Contos da Montanha

1945 Vindima, romance

1946 Odes, poesia, Diário III

1947 Sinfonia, poema dramático

1948 Nihil Sibi, poesia

1949 O Paraíso, peça de teatro, Diário IV

1950 livro de poesia Cântico do Homem, discurso titulado Portugal

1951 Pedras Lavradas, coletânea de contos, Diário V

1953 Diário VI

1954 Penas de Purgatório, poesia

1956 Diário VII

1958 Orfeu Rebelde, poesia

1959 Diário VIII

1962 Câmara Ardente, poesia

1964 Diário IX

1965 Poemas Ibéricos, poesia

1968 Diário X

1973 Diário XI

1974 O Quinto Dia d’A Criação do Mundo

1976 Fogo Preso, discurso

1977 Diário XII

1981 O Sexto Dia d’A Criação do Mundo, Antologia poética

1982 Diário XIII

1987 Diário XIV

1990 Diário XV

1991 Diário XVI



3. Poemas

«Réquiem por Mim»135



Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim.
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei.
E caísse de pé, num desafio
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.

1 LÖWE, Gerhard, STOLL, Heindrich Alexander, ABC Antiky, p. 27.

2 AZEVEDO LOPES, Maria do Carmo, Miguel Torga: Uma poética de Auntenticidade, p. 80.

3 HERRERO, Jesús, Miguel Torga, poeta ibérico, p. 57.

4 AZEVEDO LOPES, op. cit. p. 22.

5 SAMPAIO PIMENTEL AZEVEDO GRAÇA, Manuel de, «Os últimos días da monarquia portuguesa», p. 1-6, Biblioteca digital de Faculdade de letras da Universidade do Porto. Disponível on-line: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6362.pdf. Acesso em 16-04-2010. Consultado em 16 de Abril de 2010.

6 WHEELER, Douglas L., «A Primeira República Portuguesa e a história», p. 865, Análise Social: revista de Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Disponível on-line: http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223989532S4yRL1eb3Cn44CL5.pdf. Consultado em 16 de Abril de 2010.

7 Consulte-se, por exemplo, o poema «Balada do Morgue» do livro Rampa, que se inicia com os seguintes versos: «Olho este corpo morto aqui deitado/ E sinto impulsos de beijá-lo e ter/ Toda a força de beijá-lo/ Com sugestões de prazer...»

8 SARAIVA, António José, op. cit, p. 139.

9 AZEVEDO LOPES, Maria do Carmo, op.cit., p. 21.

10 A Primeira Geração Modernista portuguesa, a Geração Orpheu surgiu no ambiente republicano efortemente marcada pelo factor da irradiação de novos ares cosmopolitas progressistas. Por volta de 1915, os antigos moldes simbolistas estavam esgotados e os jovens artistas sentiam vontade de encaminhar-se por outros trajectos. Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e Santa-Rita Pintor, que por altura da Primeira Guerra Mundial viajaram a Paris, cidade fervilhante de novidades literárias e plásticas, aproveitaram-se desta experiência ao fundar em Portugal o movimento modernista. Os modernistas reuniam-se em volta da revista O Orpheu (1915). Embora se tivessem publicado apenas dois números, presentarou-se nela toda uma série de figuras de destaque como, ao lado dos mencionados, Luís de Montalvor, Cortes-Rodrigues, Alfredo Pedro Guisado, ou Ângelo de Lima. Seguindo as vanguardas europeias do início do século XX, particularmente o Futurismo, seu propósito fundamental consistia em abanar as águas estancadas das letras portuguesas, romper com as tradições precedentes, agitar, escandalizar a classe burguesa do mesmo modo como preservar o específico de Portugal. Quer dizer, conservar o espírito português, mas enriquecê-lo com novas tendências do estrangeiro e assim conciliar a tradição com o mundo moderno.

11 CABRAL, Avelino Soares, Presença, José Régio e Miguel Torga: ensino secundário, Ediçőes Sebenta - Mem Martins, Sebenta, D.L. 1997, p. 10.

12 SAPEGA, Ellen W., «A Presença, o cânone e a crítica», IV Congresso Internacional da Associação Portuguesa de Literatura Comparada, p. 9. Disponível on-line:

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13 AZEVEDO LOPES, Maria do Carmo, op. cit., p. 26.

14 MELO E CASTRO, E. M. de, «As Vanguardas na Poesia Portuguesa do Século Vinte», Biblioteca Digital de Instituto Camões, Estudos Literários / Crítica Literária, ICALP - Colecção Biblioteca Breve - Volume 52, 1987, p. 51. Disponível on-line: http://cvc.instituto-camoes.pt/conhecer/biblioteca-digital-camoes/cat_view/54-estudos-literarioscritica-literaria.html?start=20. Consultado em 15 de Abril de 2010.

15 AZEVEDO LOPES, Maria do Carmo, op.cit., p. 163.

16 LEÃO, Isabel Vaz Ponce de, O essencial sobre Miguel Torga, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2003, p. 3.

17 TORGA, Miguel, Poesia completa Vol. I, Publicações Dom Quixote, Lisboa 2007, p. 156.

18 Id., Diário I, Coimbra, 30 de Outubro de 1938, in Diário Vols. I a VIII, Publicações Dom Quixote, 2a edição integral, Coimbra, 1999, p. 74.

19 HERRERO, Jesús, op. cit., p. 60.

20 TORGA, Miguel, Diário I, Coimbra, 6 de Fevereiro de 1932, in Diário Vols. I a VIII, p. 32.

21 AZEVEDO LOPES, Maria do Carmo, op. cit., p. 20.

22 TORGA, Miguel, Diário I, Vila Nova, 22 de Janeiro de 1936, in Diário Vols. I a VIII, p. 37.

23 Id., Diário I, S. Martinho de Anta, 3 de Março de 1934, in Diário Vols. I a VIII, p. 33.

24 AZEVEDO LOPES, Maria do Carmo, op. cit., p. 30 – 33.

25 “Não creio que tenha sido por homenagem a Cervantes e Unamuno, sem sequer pela flor do monte, mas sim pelas vogais e consoantes. Há nomes que estão certos sem se saber porquê e este nome está certo. Veja-se o e de Miguel e o o de Torga, vogais abertas, mas, sobretudo, nem percebo porque nunca ninguém deu por isso, veja-se o g de Miguel e o g de Torga. Esse é o segredo, vogais, consoantes, sonoridades, correspondências, mistérios.” idem., p. 13.

26 idem, p. 32, 33. AZEVEDO LOPES, Maria do Carmo, cita a ROCHA, Clara. Fotobiografia, p. 207.

27 LOURENÇO, Eduardo, Desespero humanista de Miguel Torga e o das novas gerações, In Tempo e poesia. Lisboa, Relógio d´Água, 1955, p. 79.

28 TORGA, Miguel, Diário I, Coimbra, 10 de Maio de 1939, in Diário Vols. I a VIII, op. cit., p. 83.

29 MELO ANDRADE, Alexandre de, «Álvaro de Campos, José Régio e Miguel Torga: do olhar absoluto para o olhar relativo», Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara. Disponível on-line: http://www.uel.br/pos/letras/EL/vagao/EL3Art1.pdf. Consultado em 20 de Maio de 2010.

30 TORGA, Miguel, Diário II, Gerês, 24 de Agosto de 1942, in Diário Vols. I a VIII, op. cit., p. 176.


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