O império do Sol



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O Império do Sol, de J. G. Ballard, consagrou-se como um dos romances mais populares e importantes sobre o pós-guerra. Ganhador do prêmio Guardian e filme de Steven Spielberg, o pungente relato de um menino na Xangai ocupada pelos japoneses durante a guerra, baseado nas experiências do autor, tocou um ponto permanentemente sensível em milhões de leitores.

SOMBRAS DO IMPÉRIO é a continuação de O Império do Sol. De forma brilhante e inesquecível, Ballard volta aos acontecimentos traumáticos do mundo do pós-guerra, abrangendo cenários e convulsões sociais, num romance de imensa ambição e realização. Ao se colocar no centro de sua própria ficção, J. G. Ballard cria uma obra tão rica de informação e sensibilidade que só poderia ter sido escrita por quem foi prisioneiro em Xangai durante a Segunda Guerra Mundial e para quem escrever é reviver os episódios marcantes de uma história que muitos fazem ainda questão de esquecer...

Sombras do Império

Depois de um dos romances mais populares e importantes do pós-guerra, O Império do Sol, ganhador do Guardian e filme de Steven Spielberg, J. G. Ballard cria um romance de imensa ambição e realização.



Sombras do Império é a continuação de O Império do Sol. Começa em Xangai e vai até a Inglaterra do pós-guerra. Um depoimento pungente e inesquecível, baseado nas próprias experiências do autor, que revive sob nova ótica as tentativas de fuga, os acontecimentos traumáticos e difíceis da vida em uma guerra, os anos loucos por que passou a humanidade... Ao se colocar no centro de sua própria ficção, J. G. Ballard compõe um romance autobiográfico e ficcional, um verdadeiro romance de idéias, abrangente em seus cenários e preocupações, e coerentemente inventivo e penetrante.

J. G. Ballard, que nasceu em Xangai e foi levado com a família a um campo de concentração depois do ataque a Pearl Harbor, volta a compor uma história tema e comovente sobre a vida de um menino na Xangai ocupada pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial.



Sumário
PARTE I Um Tempo de Assassinos
1. Sábado Sangrento

2. Tentativas de Fuga

3. Os Soldados Japoneses
Parte II Os Anos Loucos
4. A Rainha da Noite

5. Os Rapazes da OTAN

6. Mundo Mágico

7. A Ilha

8. A Gentileza das Mulheres

9. Gente Louca

10. O Reino de Luz

11. A Exposição

12. Na Objetiva da Câmara

13. O Hospital de Campanha


PARTE III Depois da Guerra
14. A Luz no Fim do Túnel

15. O Último Programa

16. O Palácio Impossível

17. O Resgate do Sonho


PARTE I
Um Tempo de Assassinos

1

Sábado Sangrento
Durante o verão de 1937, em Xangai, toda tarde eu ia de bicicleta até o Bund para ver se a guerra tinha começado. Assim que o almoço terminava, esperava que mamãe e papai saíssem para o Country Club. Enquanto eles vestiam o uniforme de tênis, preparando-se tranqüilamente no quarto de dormir, espantava-me que eles se mostrassem tão despreocupados com a guerra iminente, não percebessem que ela podia estourar a qualquer instante - talvez até quando papai estivesse dando o primeiro saque. Lembro-me de que eu andava de um lado para outro, com a impaciência napoleônica de um menino de sete anos, com meus soldadinhos de chumbo, representando o exército japonês e o chinês em torno de Xangai, dispostos em ordem de batalha em cima do tapete. Às vezes tinha a impressão de que era eu, sozinho, quem mantinha viva a guerra.

Procurando não ouvir a risada coquete de mamãe para papai, eu vigiava o céu sobre a avenida Amherst. A qualquer momento um esquadrão de bombardeiros japoneses poderia surgir sobre os magazines do centro de Xangai e começar a bombardear a Escola-Catedral. Meu cérebro infantil não fazia a menor idéia do tempo que duraria uma guerra; poderiam ser alguns minutos ou até mesmo, quem sabe, toda uma tarde. Meu único medo era de que, como tantos acontecimentos emocionantes que eu vivia perdendo, a guerra acabasse antes mesmo de eu notar que tinha começado.


Durante o verão, todo mundo em Xangai comentava a iminente guerra entre a China e o Japão. Nas reuniões de bridge de mamãe, enquanto eu me servia de chow, oferecido em pequenas travessas, ouvia suas amigas conversarem sobre os tiros trocados, em 7 de julho, na ponte Marco Pólo, em Pequim, os tiros que haviam assinalado a invasão do norte da China pelo Japão. Um mês se passara sem que Chiang Kai-shek ordenasse um contra-ataque, e dizia-se que os assessores alemães do Generalissimo o vinham aconselhando a abandonar as províncias setentrionais e combater os japoneses mais perto de seu reduto em Nanquim, a capital da China. Astutamente, porém, Chiang resolvera desafiar os japoneses em Xangai, cidade que ficava a 320 quilômetros de distância, na foz do Yangtsé, onde os Estados Unidos e as potências européias poderiam intervir para salvá-lo.

Como eu mesmo via, sempre que descia ao Bund, imensos exércitos chineses estavam a se reunir em torno do Setor Internacional. Na sexta-feira, 13 de agosto, assim que mamãe e papai se instalaram nos bancos traseiros do Packard, tirei a bicicleta da garagem, enchi os pneus e parti para a longa excursão até o Bund. Olga, minha babá russa-branca, imaginou que eu tivesse ido visitar David Hunter, um amigo que morava no extremo ocidental da avenida Amhers Moça de muitas venetas e olhares estranhos, Olga só se interessava em experimentar as roupas de mamãe, e ficou feliz por me ver sair.

Cheguei ao Bund uma hora depois, mas o largo estava tão cheio de apressados empregados de escritórios, que não consegui chegar perto da escadaria do cais. Tocando a campainha da bicicleta, passei pelos bondes estralejantes, pelas fileiras de jinriquixás e seus condutores exaustos, pelos bandos de mendigos agressivos e batedores de carteiras. Refugiados de Chapei e Nantao afluíam para o Setor Internacional, lançando imprecações às imponentes fachadas dos bancos e casas comissárias ao longo do Bund. Milhares de soldados chineses estavam entrincheirados nos subúrbios da zona norte de Xangai, bem diante da guarnição japonesa, que se mantinha na concessão de Yangtsepu. Na escada do Hotel Catai, entreguei a bicicleta para que o porteiro a segurasse e vi o rio Huang Pu cheio de navios de guerra. Havia contratorpedeiros, chalupas e canhoneiras inglesas, e estavam ali o USS Augusta e um cruzador francês, bem como o velho cruzador japonês Idzumo, que, como meu pai me contara, havia ajudado a afundar a esquadra imperial russa em 1905.

Apesar dessa mobilização de forças, a guerra recusou-se, obstinada, a rebentar naquela tarde. Desapontado e cansado, pedalei de volta à avenida Amherst, com o casaco da escola amarrotado e sujo, ainda a tempo para o chá e meu seriado radiofônico predileto. Com os braços em torno dos joelhos arranhados, fitei meus exércitos de soldadinhos de chumbo e corrigi suas linhas de acordo com os mais recentes movimentos de tropas que eu vira ao voltar para casa. Sem atender aos chamados de Olga, tentei formular um plano que rompesse o impasse, na esperança de que meu pai, que conhecia um dos banqueiros chineses que apoiavam Chiang Kai-shek, transmitisse minha enevoada onda cerebral ao Generalissimo.

Aborrecido com todos esses problemas, ainda mais difíceis do que meu dever de francês, entrei no quarto de meus pais. Olga estava de pé diante do espelho alto de mamãe, com uma capa de peles sobre os ombros. Sentei-me à penteadeira e rearrumei as escovas de cabelos e os frascos de perfume, enquanto Olga me olhava, carrancuda, pelo espelho, como se eu fosse um visitante indesejado cuja intenção fosse ir a uma outra casa da avenida. Eu contara a mamãe que Olga mexia em suas roupas, mas ela apenas sorrira, sem nada dizer a Olga.

Compreendi mais tarde que aquela moça de dezessete anos, filha de uma família de Minsk antes abastada, era quase uma criança também. Em meus passeios de bicicleta, eu ficara chocado com a pobreza dos refugiados russos-brancos e judeus que moravam nos cortiços de Hong-kew. Uma coisa era chineses serem pobres, mas me afligia ver europeus reduzidos a tamanha penúria. Seus rostos estampavam um desespero que os chineses jamais demonstravam. Uma vez, ao passar pedalando diante da porta de uma sombria cabeça-de-porco, uma velha russa gritou comigo, dizendo que eu fosse embora e acusando meus pais de serem ladrões. Durante alguns dias eu acreditei nela.

Os refugiados se postavam, com seus remendados casacos 4e peles, na escadaria do Park Hotel, na esperança de vender suas jóias fora de moda. As moças pintavam a boca e os olhos, e eu achava que isso era uma valente tentativa de se animarem. Chamavam os oficiais americanos e ingleses que entravam no hotel, mas minha mãe nunca conseguira explicar o que estavam vendendo. Ofereciam aulas de francês e russo, disse ela por fim.

Sempre preocupado com meus deveres de casa, e informado de que muitos russos-brancos falavam excelente francês, eu havia perguntado a Olga se ela não queria me dar uma aula de francês, como as moças que ficavam diante do Park Hotel. Ela ficou sentada na cama enquanto eu folheava meu dicionário de bolso, balançando a cabeça como se eu fosse uma criatura estranha num jardim zoológico. Com medo de a ter melin-drado, por referir-me à pobreza de sua família, dei a Olga uma de minhas camisas de seda, pedindo-lhe que a entregasse ao pai inválido. Olga segurou a camisa durante pelo menos uns cinco minutos, como se fosse uma das vestes usadas nas cerimônias religiosas da catedral de Xangai, antes de devolvê-la em silêncio a meu guarda-roupa. Eu já observara que as babás russas-brancas possuíam um profundo mistério feminino, inteiramente ausente nas mães de meus amigos.

- O que foi, James?-Olga pendurou a capa de peles no cabide e passou o peignoir de mamãe sobre os ombros. - Terminou seu livro? Você está muito agitado hoje.

- Estou pensando na guerra, Olga.

- Você pensa na guerra todos os dias, James. Você e o general Chiang não pensam em outra coisa. Tenho certeza de que ele gostaria de conhecer você.

- Bem, eu poderia me encontrar com ele... - Na verdade, às vezes eu achava que o Generalissimo não dedicava à guerra a atenção merecida.

- Olga, você sabe quando a guerra vai começar?

- Mas já não começou? Todo mundo está dizendo que sim.

- Não a guerra de verdade. A guerra em Xangai.

- Essa é que é a guerra de verdade? Nada em Xangai é de verdade, James. Por que não pergunta a seu pai?

- Ele não sabe. Perguntei a ele depois do café da manhã.

- Que pena! Há muitas coisas que ele não sabe?

Ainda usando o peignoir, Olga sentou-se na cama de papai, alisando com a mão a colcha de cetim e desfazendo as dobras. Acariciava a marca dos ombros de papai, e por um instante tive a impressão de que iria meter-se entre os lençóis.

- Ele sabe muitas coisas, mas...

- Uma coisa eu posso lhe dizer, James. Hoje é sexta-feira, 13. Será um dia bom para começar uma guerra?

- Ih, Olga...! - Aquela notícia me animara. Corri para a janela... pois as superstições, como eu havia notado, costumavam se tornar realidade. - Se acontecer alguma coisa eu lhe conto.

Olga ficou atrás de mim, com a mão em minha orelha. Embora adorasse o aconchego das roupas de mamãe e o cheiro forte da jaqueta de montaria de papai, raramente me tocava. Olga fitou o horizonte distante, no Bund. Das caldeiras a carvão dos navios de guerra mais antigos subiam rolos de fumaça. As colunas negras competiam por espaço enquanto os navios mudavam de posição, virando um de frente para o outro com as sirenes a tocar. A luz vespertina dava ao rosto de Olga a severidade das estátuas mortuárias que eu vira no cemitério de Xangai. Ela levantou o peignoir, olhando através de seu tecido fino, como se contemplasse em sonho a desaparecida Rússia imperial.

- É, James, acho que vão começar a guerra para você hoje.

- Ah, que bom, Olga.

Mas antes que a guerra pudesse começar papai e mamãe voltaram inesperadamente do Country Club. Com eles vinham dois oficiais britânicos da Força de Voluntários de Xangai, com seus uniformes justos da Grande Guerra. Tentei ficar junto deles no estúdio, mas mamãe me levou para o jardim e, tensa, mostrou-me os papa-figos que bebiam água na beirada da piscina.

Lamentei vê-la preocupada, pois sabia que mamãe, ao contrário de Olga, era uma daquelas pessoas que não suportavam qualquer espécie de preocupação. Procurando não incomodá-la, passei o resto da tarde em meu quarto de brinquedos. Escutando as sirenes das esquadras, reorganizei meus soldadinhos de chumbo. No dia seguinte, no Sábado Sangrento, como veio a ser chamado, meu exército em miniatura finalmente ganhou vida.

Lembro-me da monção chuvosa que se abateu sobre Xangai durante aquela última noite de paz, abafando os tiros dos franco-atiradores chineses e o ribombo distante dos canhões navais japoneses, que martelavam as baterias de praia chinesas em Woosung. Quando acordei, a noite estava quente e pegajosa, mas a tempestade passara e os anúncios de néon da cidade, molhados, brilhavam mais do que nunca.

Na hora do café, mamãe e papai já se achavam vestidos com suas roupas de golfe, ainda que, ao saírem no Packard, alguns minutos depois, meu pai fosse ao volante, com o chofer a seu lado, e não estivessem levando os tacos de golfe.

- Jamie, você vai ficar em casa hoje - anunciou papai, olhando bem dentro de meus olhos, como fazia quando tinha suas próprias razões insondáveis. - Você vai poder acabar de ler seu Robinson Crusoe.

- Você vai conhecer Sexta-Feira e os canibais.-Mamãe sorriu ao pensar na alegria que me estava reservada, mas seus olhos se mostravam tão inexpressivos quanto no dia em que nosso spaniel foi atropelado pelo médico alemão na rua Columbia. Fiquei a imaginar que talvez Olga tivesse morrido de noite, mas ela estava espiando da porta, apertando as golas do quimono contra o pescoço.

- Já conheci os canibais. - Por mais emocionante que fosse, o naufrágio de Crusoé perdia a graça em comparação com o desastre naval verdadeiro que estava para acontecer no rio Huang Pu. - Podemos ir ao Espetáculo? David Hunter vai na semana que vem e...

O Espetáculo Militar encenado pelos soldados da guarnição britânica era cheio de retumbantes tiros de canhão, clarões de granadas e cargas de baioneta, e recriava os mais violentos embates da Grande Guerra, as batalhas de Mons e Ypres e os desembarques de Gallipoli. De certo modo, o faz-de-conta do Espetáculo talvez viesse a ser a coisa mais parecida com uma guerra de verdade que eu viria a conhecer.

- Jamie, vamos ver... talvez eles tenham de cancelar o Espetáculo. Os soldados estão muito ocupados.

- Eu sei. Podemos então ir ver os Demônios Motorizados? - Tratava-se de uma trupe de automobilistas americanos que lançavam seus amassados Fords e Chevrolets contra barricadas de madeira em chamas. Aqueles emocionantes acidentes ensaiados transformavam em ninharia os prosaicos acidentes das ruas de Xangai. - O senhor prometeu...

- Os Demônios Motorizados não estão mais aqui. Voltaram para Manila.

- Estão se preparando para a guerra. - Mentalmente, eu visualizava aqueles lacônicos americanos, com seus uniformes e óculos de aviador, a atravessar com estrépito as muralhas flamejantes enquanto respondiam a uma salva de tiros do Idzumo. - Posso ir ao clube de golfe?

- Não! Fique aqui com Olga! Não vou repetir... - A voz de papai tinha um tom de irritação que eu vinha notando desde as agitações trabalhistas em seu cotonifício em Putung, na margem esquerda do rio. Por que Olga o observava com tanta atenção quando ele estava zangado? Seus olhos impassíveis assumiam uma vivacidade rara e quase faminta, a expressão que eu sentia em meu rosto quando estava prestes a atacar um sundae. Um dos dirigentes sindicais comunistas que ameaçaram matar papai olhara para ele da mesma maneira, enquanto esperávamos dentro do Packard, do lado de fora de seu escritório na rua Szechuan. Fiquei com medo de que Olga quisesse matar papai e comê-lo.

- É preciso mesmo? Olga passa o tempo todo ouvindo música de dança francesa.

- Bem, ouça música com ela-disse mamãe.-Olga pode ensinar você a dançar.

Essa era uma possibilidade que me apavorava, uma tortura ainda maior que a perspectiva de paz interminável. Quando Olga me tocava, era de um modo distante, mas estranhamente íntimo. Quando eu estava deitado, de noite, ela às vezes costumava despir-se em meu banheiro, com a porta entreaberta. Mais tarde imaginei que essa era sua maneira de provar a si mesma que eu não existia mais. Assim que meus pais saíssem para o clube de golfe, minha única intenção era fugir dela.

- David disse que Olga...

- Está certo! - Irritado com a campainha do telefone, que os criados não atendiam porque o aparelho os deixava nervosos demais, meu pai cedeu. - Pode ir ver David Hunter. Mas não vá a nenhum outro lugar.

Por que estaria ele assustado com Xangai? Apesar de seu temperamento explosivo, papai cedia com facilidade, como se os acontecimentos do mundo fossem tão incertos que até minha insistência infantil tivesse peso. Estava perturbado demais para brincar com meus soldadinhos de chumbo, e muitas vezes olhava para mim da mesma maneira firme, mas desalentada, como o diretor da Escola-Catedral fitava os alunos reunidos durante as orações da manhã. Ao sair em direção ao carro, ele bateu com força os sapatos de golfe ferrados, deixando marcas fundas no cascalho, como pegadas que afirmassem um direito à praia de Crusoé.

Antes mesmo que o Packard chegasse à rua, Olga já estava reclinada na varanda, com a Vogue e a Saturday Evening Post de minha mãe. De vez em quando ela me chamava, a voz tão distante quanto as sirenes nas bóias fluviais de Woosung. Olga devia estar a par de minhas escapadas de bicicleta por Xangai. Sabia muito bem que eu poderia ser seqüestrado ou ter as roupas roubadas num dos becos da rua do Poço Borbulhante. Talvez os horrores da guerra civil russa e a longa viagem com os pais, através da Turquia e do Iraque, até aquela cidade perdida na foz do Yangtsé, a houvessem desorientado tanto que já não lhe importava que a criança entregue a seus cuidados fosse morta.

- Quem foi que seu pai deixou você ir visitar, James?

- David Hunter. É meu melhor amigo. Estou indo agora, Olga.

- Você tem muitos melhores amigos. Avise-me se a guerra começar, James.

Ela acenou, e saí. Na verdade, a última pessoa em Xangai que eu queria ver era David. Nas férias de verão, meus colegas de escola e eu participávamos de homéricas brincadeiras de esconder que duravam semanas e se estendiam por toda Xangai. Enquanto eu seguia de carro para o Country Club com mamãe ou tomava chá gelado na Casa dos Chocolates, não deixava por um instante de ficar à espreita de David, que poderia escapulir de sua amah (criada tipicamente chinesa) e avançar pela multidão para me dar um tapinha nos ombros. Essas brincadeiras acrescentavam mais uma camada de estranheza e surpresa a uma cidade que já era demasiado estranha.

Tirei a bicicleta da garagem, abotoei o casaco e saí pelo caminho. Movimentando as pernas como as lâminas de um batedor de ovos, guinei para a avenida Amherst e alcancei uma coluna de camponeses, que avançavam pelos subúrbios da área oeste da cidade. Refugiados vindos do interior agora ocupado pelos exércitos da China e do Japão, eles passavam diante das mansões da avenida, carregando às costas seus poucos pertences. Esfalfavam-se na direção das torres distantes do centro de Xangai, sem nada ver senão o asfalto quente diante deles, não atentando aos pára-choques cromados e às buzinas dos Buicks e Chryslers cujos motoristas chineses tentavam forçá-los a sair do meio da rua.

De pé sobre os pedais, tirei um fino num jinriquixá carregado de fardos de esteiras, sobre os quais se acocoravam duas velhas, que se agarravam às paredes e ao teto de uma choupana desmontada. Pude sentir o cheiro de seus corpos, aleijados por toda uma vida de pesado trabalho braçal, e o mesmo suor azedo e o hálito de fome de todos os camponeses miseráveis. Mas a chuva da noite ainda lhes empapava as túnicas negras de algodão, que luziam ao sol como as mais delicadas sedas sobre os balcões de fazendas no magazine Sun Sun, como se a magia de Xangai já houvesse começado a transformar aqueles indigentes.

O que lhes aconteceria? Mamãe mostrava-se cautelosamente vaga a respeito dos refugiados, porém Olga me disse, com seu jeito simples e franco, que a maioria deles logo morria de fome ou tifo nos becos de Chapei. Toda manhã, indo para a escola, eu passava pelos caminhões da Prefeitura Municipal de Xangai, que rodavam pela cidade juntando as centenas de corpos de chineses que tinham morrido de noite. Eu preferia pensar que só os velhos morriam, embora tivesse visto um menino, de minha idade, morto e recostado na grade do edifício em que ficava o escritório de meu pai. Segurava nas mãos brancas uma lata de cigarros vazia, provavelmente o último presente de sua família antes de o abandonarem. Eu esperava que os outros se tornassem barmen e garçons ou moças Número 3 no Parque de Diversões Grande Mundo, e mamãe dizia que também tinha essa esperança.

Coloquei de lado essas idéias, pensei no dia que estava pela frente, e alcancei a avenida Joffre e os longos bulevares arborizados da Concessão Francesa, que me levariam ao Bund. Nervosos soldados franceses vigiavam a guarita, protegida por sacos de areia, junto ao terminal de bondes. Fitavam com ar cansado o céu vazio e cuspinhavam aos pés dos chineses que passavam, odiando aquela cidade horrenda, do outro lado do mundo, para onde tinham sido exilados. Mas eu sentia um frêmito de emoção ao entrar em Xangai. Para meus olhos infantis, que nunca tinham visto outra cidade, Xangai era um sonho, onde tudo quanto eu podia imaginar já havia sido levado ao extremo. Os cartazes multicores e os luminosos de néon das boates, os jovens marginais chineses e os mendigos violentos, que me olhavam com atenção enquanto eu passava por eles, faziam parte de um reino feérico mais excitante do que as revistas em quadrinhos e os seriados americanos de que eu tanto gostava.

Xangai absorvia tudo, até a guerra que se aproximava, por mais assustadores que fossem os rolos de fumaça que subiam dos navios de guerra no rio Huang Pu. Papai dizia que Xangai era a cidade mais avançada do mundo, e eu sabia que um dia todas as cidades do planeta estariam cheias de estações de rádio, demônios motorizados e cassinos. Do lado de fora do Canídromo, multidões de chineses e europeus abriam caminho para entrar na arena dos galgos, indiferentes aos exércitos do Kuomintang, que se juntavam em torno da cidade, preparando-se para atacar a guamição japonesa. Jogadores acotovelavam-se nos guichês de apostas do estádio dejai-alai, enquanto a platéia matinal se reunia diante da entrada do Grande Teatro, na rua Nanquim, ansiosa para assistir ao mais recente musical de Hollywood, Cavadoras de Ouro de 1937.

Entretanto, entre todos os locais assombrosos, o que mais me extasiava era o Parque de Diversões Grande Mundo, na avenida Eduardo VII, que encerrava o coração magnético de Xangai em seus seis andares. Sem que meus pais soubessem, o chofer muitas vezes me levava às suas cavernas sujas e febricitantes. Depois de me apanhar na escola, Yang em geral parava o carro do lado de fora do Parque de Diversões e ia cumprir um ou outro dos misteriosos mandados que ocupavam uma parte substancial de seu dia.

Imenso depósito de luz e ruídos, o Parque de Diversões era cheio de mágicos e fogos de artifício, máquinas caça-níqueis e cantoras. Uma névoa de banha de fritar luzia no ar, formando uma película gordurosa em meu rosto, misturando-se com o cheiro de incenso. Aturdido pela algazarra, eu seguia Yang, enquanto ele se embarafustava entre os acrobatas e os atores chineses que batiam gongos. Curandeiros lanceteavam os pescoços de enormes gansos brancos, vendendo xícaras do sangue fumegante aos passantes, enquanto as aves ferozes batiam os pés e grugulejavam para mim quando eu chegava perto demais. Enquanto Yang sussurrava nos ouvidos de banqueiros de mah-jong e de casamenteiros, eu espreitava, entre suas pernas, as latrinas expostas dos lavatórios e os ídolos medonhos que carranqueavam sobre as portas dos templos, os misteriosos espetáculos a que se assistia por um buraquinho e as cabines de massagem com suas elegantes moças chinesas, que, infinitamente mais aterradoras do que Olga, usavam mantos bordados, de gola alta, abertos de modo a lhes exibirem as coxas.

Naquele sábado, porém, o Grande Mundo estava fechado. Os estrados de baile, as bancas de peixe seco e as cabines onde se escreviam cartas de amor tinham sido desmontados, e as autoridades municipais haviam transformado o velho edifício num centro de refugiados. Centenas de chineses desvairados procuravam entrar à força no prédio decrépito, contidos por um cordão de policiais sikhs com turbantes caqui manchados de suor. Como uma turma de batedores de tapetes, os sikhs fustigavam os camponeses desdentados com pesados bastões de bambu. Um corpulento sargento da polícia inglesa brandia o revólver para uma velha simiesca, de pés atados, que tentava passar por ele, batendo-lhe no peito com os punhos calosos.

Mantive-me na calçada do outro lado da rua, escutando as sirenes que soavam no rio, um intenso gemido de feras cegas a se desafiarem umas às outras. Pela primeira vez, pressenti que uma espécie de guerra já chegara a Xangai. Empurrado pelos escriturários chineses, avancei em minha bicicleta ao longo da sarjeta, passando com dificuldade por um caminhão blindado da polícia de Xangai, com sua metralhadora Thompson de cabos duplos montada sobre a boléia.

Ofegante, encostei-me no portal de uma agência funerária. O idoso proprietário estava sentado entre caixões nos fundos da loja, com os dedos brancos manuseando as contas do ábaco. Os cliques ecoavam entre os ataúdes vazios e me recordaram a superstição que Yang havia vividamente descrito, estalando os dedos diante de meu nariz.

- Quando um caixão estala, o papa-defuntos chinês sabe que vai vendê-lo...

Prestei atenção ao ábaco, tentando verificar se os caixões estremeciam ao estalar. Em breve, muitos caixões estalariam em Xangai. Os dedos do ancião mexeram-se mais depressa quando ele me fitou com seus olhos vazios e sonhadores. Estaria ele calculando todos aqueles que iriam morrer em Xangai, tentando chegar a meu próprio número, oculto em algum lugar entre os caixões e o barulho das contas?

Atrás de mim soou, forte, uma buzina de automóvel. Um Lincoln Zephyr branco forçava caminho no tráfego, comprimido entre cules de jinriquixás e os refugiados que forçavam entrada no Parque de Diversões. No banco de trás, ajoelhado ao lado de sua babá australiana, vinha David Hunter, com os cabelos louros a lhe tapar o rosto, enquanto olhava a calçada de olhos semicerrados. Esquecido dos caixões e do ábaco estalante, empurrei a bicicleta pela sarjeta, sabendo que David me avistaria assim que o trânsito melhorasse um pouco.

De um dos edifícios de escritórios veio o som estridente de um alerta de ataque aéreo, ao qual se superpunha um ronco cavo e contínuo, como se o céu estivesse a desabar. Aos gritos, um cule correu para mim, com fardos de lenha pendurados de uma vara de bambu atravessada em seus ombros, onde as veias saltavam como minhocas inchadas. Sem parar, deu um chute na bicicleta. Abaixei-me para esfregar os joelhos feridos e tentei agarrar o guidom, mas o cule passou por cima de mim, atirando-me ao chão. Sem fôlego, caí entre bilhetes de loteria velhos, jornais rasgados e sandálias de palha, enquanto o Lincoln branco passava por mim. Alisando os cabelos louros atrás da janela traseira, David franziu a testa enquanto me olhava com seu jeito agitado, incapaz de me reconhecer mas sem entender por que um menino inglês, com um casaco da Escola-Catedral, havia escolhido logo aquele momento para rolar numa sarjeta imunda.

O alarme antiaéreo começou a uivar, lançando um lamento ao céu. Muitos chineses - empregados de escritórios, secretárias e garçons de hotéis - desciam correndo a rua Nanquim, vindos do Bund. Atrás deles, uma imensa nuvem branca de vapor subia do rio Huang Pu, e clarões de disparos de canhões refletiam-se em sua superfície. Três bombardeiros bimotores a circundavam, inclinando-se ao atravessar seus rolos cinéreos.

Um esquadrão de aviões chineses bombardeava o Idzumo e os coto-nifícios japoneses em Yangtsepu, a pouco mais de um quilômetro e meio do Bund, do outro lado da ponte do Jardim. O estrondo de canhões de grosso calibre sacudia as janelas dos edifícios de escritórios na rua Thibet. Um bonde chocalhante passou por mim na direção do Bund, e seus passageiros se apressavam a saltar. Bem acima deles, no terraço do edifício Socony-Vacuum, um grupo de despreocupados europeus, com uniformes brancos de tênis e binóculos, apreciavam os pormenores do espetáculo, apontando-os uns para os outros.

Teria a guerra começado mesmo? Eu estava à espera de alguma coisa organizada e disciplinada como o Espetáculo Militar. Os aviões arrastavam-se pelo ar, como se os pilotos estivessem enfastiados com seus alvos e rodassem sobre o Idzumo simplesmente para matar o tempo antes de regressar à base. Os navios de guerra franceses e ingleses continuavam atracados perto da praia de Putung, com as luzes de sinalização piscando mansamente em seus passadiços - um comentário vagamente curioso a respeito da exibição de bombardeio que acontecia mais abaixo.

Montando na bicicleta, endireitei o guidom e sacudi a poeira de meu casaco, pois os intrometidos inspetores da escola gostavam de vaguear pela cidade em suas horas de folga, para depois delatar os alunos que encontrassem vestidos de forma desleixada. Parti atrás do bonde vazio, seguindo entre os trilhos polidos. Quando o veículo aproximou-se do Bund, o condutor desceu, praguejando para o motorneiro e sacudindo a sacola de couro onde guardava o dinheiro. A sineta de alerta do bonde retinia na rua vazia, vigiada por grupos de funcionários chineses, que se comprimiam nas portas dos edifícios de escritórios.

Um esguicho d'água subiu das ondas encapeladas ao lado da proa do Idzumo, deteve-se no ar por um instante e a seguir precipitou-se para o alto numa cascata violenta. Braços de espuma dispararam no ar e subiram bem acima das antenas de rádio e dos mastros do velho cruzador. Um segundo esquadrão de bombardeiros chineses avançava em formação sobre o Huang Pu, a meio caminho entre o Bund e a praia de Putung, onde um véu de fumaça gordurosa escondia o cotonifício de meu pai. Um dos aviões retardou-se em relação aos outros, pois o piloto não conseguia manter seu lugar na formação. Inclinava as asas de um lado para outro, como os pilotos que faziam demonstrações no aeródromo de Hungjao.

- Jamie, deixe a bicicleta onde está! Venha conosco!

Os pára-lamas brancos do Lincoln Zephyr achavam-se bem atrás de mim. A babá australiana de David gritava para mim, com os braços estendidos sobre os ombros do nervoso chofer chinês. Firmando o chapéu de palha com uma das mãos, ela fazia sinais para que eu entrasse no carro. A babá Arnold tinha sido sempre meiga e serena, muito mais simpática comigo do que Olga, e por isso surpreendeu-me seus maus modos. David me reconhecera e havia um brilho de triunfo em seus olhos. Afastou os cabelos louros da testa, feliz por estar prestes a fazer a primeira captura de nossa gigantesca brincadeira de pique-esconde.

O Idzumo soltava fumaça pelos lados. De sua proa subiam espirais de vapor oleoso. Através das nuvens fuliginosas eu avistava o tremor do fogo antiaéreo, cujo barulho se perdia no zumbido monótono dos bombardeiros chineses.

- Jamie, seu idiota...!

Afastei-me deles, a pedalar, na direção da muralha de barulho e fumaça. Vidraças caíam das janelas do edifício de meu pai, na rua Szechuan. Funcionárias disparavam pelas portas, com as blusas brancas cobertas de finas agulhas. A roda dianteira da bicicleta bateu com força num pedaço de cantaria, que se soltara de uma cornija. Enquanto eu endireitava os pedais, um bombardeiro em vôo rasante desviou-se do fogo antiaéreo japonês. Passou sobre o Bund, deixando ver os porta-bombas abertos, e lançou duas bombas na direção dos sampanas vazios, atracados junto ao cais.

Ansioso para ver os esguichos d'água, subi na bicicleta, porém duas mãos fortes me agarraram pelas axilas. Um sargento da polícia inglesa, fardado, me fez rodopiar e perder o equilíbrio. Afastou a bicicleta com um pontapé e se agachou junto da escada do edifício Socony. Ao me apertar contra si, a coronha metálica de seu revólver cortou-me o joelho.

Uma chuva de destroços voou entre os hotéis e lojas de departamentos da rua Nanquim e encheu de cinza branca a rua. Uma onda de ar abrasante golpeou-me o peito e me atirou ao chão ao lado do sargento. Escriturários chineses, de braços erguidos e o sangue a lhes escorrer da testa, correram em nossa direção, através de nuvens de pó. Uma das bombas caíra no Palace Hotel, e a outra na avenida Eduardo VII, ao lado do Parque de Diversões Grande Mundo. Os prédios da rua Szechuan sacudiam em tomo de nós, arremessando na rua uma cachoeira de vidros e azulejos quebrados.

Junto ao meio-fio, uma matrona eurasiana desceu de seu carro, com o ouvido a sangrar. Tocou-o discretamente com um lenço de seda, enquanto o sargento da polícia me empurrava na direção dela.

- Fique com ele aqui! - Sacudiu meus ombros, como se eu fosse uma boneca adormecida e ele quisesse me acordar. - Rapaz, fique aqui com ela!

Assim que ele correu na direção da rua Nanquim, a eurasiana soltou minha mão e fez sinal para que eu fosse embora, desorientada demais para se incomodar comigo. O sangue corria por minha perna, manchando as meias brancas. Olhando para o filete vermelho, notei que havia perdido um dos sapatos. Minha cabeça parecia vazia, e toquei-a para ter certeza de que ainda estava no lugar. A explosão sugara todo o ar da rua, e era difícil respirar. Fazendo para mim gestos distraídos, a eurasiana pôs-se a caminhar pelos destroços, limpando a poeira que cobria sua bolsa de couro. O sangue corria de seu ouvido, e ela fitava os vidros quebrados, tentando reconhecer as janelas de seu próprio apartamento.

Ao longe, sirenes da polícia tinham começado a uivar, e pela rua passou uma ambulância da Força de Voluntários de Xangai, com os pneus atirando cacos de vidro para os lados. Percebi que estava surdo, porém tudo a meu redor também estava surdo, como se o mundo não fosse mais capaz de escutar a si próprio. A duzentos metros do Parque de Diversões Grande Mundo, vi que a maior parte do edifício desaparecera. Nuvens de fumaça subiam de seus andares expostos, e um cabo elétrico, formando um arco, saltava e emitia faíscas como um gigantesco busca-pé.

Centenas de chineses jaziam mortos na rua, entre jinriquixás esmagados e carros incendiados. Tinham os corpos cobertos de giz branco, através do qual se haviam formado manchas mais escuras, como se eles tentassem se camuflar. Caminhei entre eles, tropeçando numa idosa amah deitada de costas, o rosto rabugento coberto de pó-de-arroz, censurando-me com sua última careta. Um escriturário sem braços estava sentado junto à roda traseira de um ônibus queimado. Por toda parte, no Parque de Diversões, havia mãos e pés entre os destroços - fragmentos de varetas de incenso e cartas de baralho, discos de gramofone e máscaras de dragão, parte da cabeça de uma baleia empalhada, tudo meio branco de poeira. Uma peça de seda desenrolada atravessava a rua, como uma bandagem branca a serpentear entre os montes de escombros e as mãos sem corpos.

Esperei que alguém me chamasse, mas no ar só havia silêncio e uma espécie de vibração. Eu não conseguia ouvir o ruído do vidro a se quebrar sob meus pés. Caminhei de volta até o Lincoln Zephyr dos Hunters. O chofer achava-se de pé, junto da porta aberta do carro, limpando a poeira que cobria o pára-brisa. David estava sozinho no banco traseiro, apertando a boca com as mãos. Não me deu atenção e fixou o olhar no estofamento, como se nunca mais quisesse ver-me.

Pelas janelas quebradas, olhei para a babá Arnold, deitada no banco dianteiro. Os cabelos lhe entravam pela boca, empurrados pela explosão. Tinha as mãos abertas, com as palmas brancas expostas, mostrando a todos os passantes que as lavara com cuidado antes de morrer.

Mais tarde, ao visitar-me no Hospital Geral de Xangai, David perguntou-me sobre o sangue em minha perna. Curiosamente, aquele fora o único sinal de sangue que ele tinha visto no Sábado Sangrento.

- Fui ferido pela explosão da bomba - respondi.

De certa forma eu começara a fanfarronear, porém com mais verdade do que me dava conta. A bomba de alto poder explosivo que caíra ao lado do Parque de Diversões Grande Mundo causara 1.012 mortes, na grande maioria de refugiados chineses. Como todos repetiam sem parar, orgulhosos pelo fato de Xangai mais uma vez ter-se superado, aquele era o maior número de pessoas mortas por uma só bomba em toda a história da guerra aérea. Minha banal contusão, causada pelo revólver do sargento, colocava-me entre os 1.007 feridos. Conquanto não fosse o mais jovem deles, gostava de pensar que tinha sido o 1.007fi, número que gravei a tinta no braço.

Seguiram-se meses de combates ferozes em torno do Setor Internacional, durante os quais dezenas de milhares de soldados e civis vieram a morrer, antes que os japoneses conseguissem expulsar os chineses de Xangai. Mas a bomba da avenida Eduardo Vü, que um piloto chinês lançara por engano, passou a ocupar um lugar especial na mitologia da guerra, um exemplo cabal de como a morte em massa podia agora cair do céu.

Na época, enquanto eu repousava no leito do Hospital Geral, pensava não na bomba que caíra ao lado do Parque de Diversões, mas em meu exército de brilhantes soldadinhos no quarto de brinquedos. Ainda enquanto padioleiros da Força de Voluntários de Xangai me carregavam para a ambulância pelas ruas poeirentas, eu pensava que tinha de rearrumar suas linhas de batalha. Eu tinha visto a guerra real que esperara com tanta impaciência e me sentia vagamente aborrecido por não haver modelos de chineses mortos em minhas caixas de soldados. De vez em quando meus ouvidos se limpavam por um instante, e os sons espectrais da artilharia japonesa, que vibravam nas janelas do hospital, pareciam estar a me chamar de um outro mundo.

Alguns dias depois, entretanto, as lembranças do bombardeio começaram a se dissipar. Eu tentava recordar a poeira e os destroços na rua Szechuan, mas as imagens confusas em minha cabeça tinham começado a se misturar com os noticiários cinematográficos que eu vira sobre a guerra civil espanhola e as manobras filmadas dos exércitos francês e britânico. O combate nos subúrbios da zona oeste de Xangai escurecia a janela com cortinas de fumaça que os ventos do outono agitavam, revelando os cortiços de Nantao em chamas. As enfermeiras e os médicos que examinavam meus ouvidos com diapasões, Olga e meus colegas de escola, mamãe e papai em suas visitas vespertinas - todos se pareciam com os atores dos velhos filmes mudos que o pai de David Hunter projetava para nós na parede de sua sala de jantar. A bomba que destruíra o Parque de Diversões e matara mais de mil pessoas tinha se tornado parte daqueles filmes.

Três meses se passaram antes que eu pudesse voltar para a avenida Amherst. Granadas das baterias chinesas, na estação de Siccawei, e japonesas, em Hungjao, cruzavam-se sobre o telhado de nossa casa, e meus pais tinham-se mudado para um apartamento na Concessão Francesa. A batalha de Xangai prosseguia em torno do perímetro do Setor Internacional, sacudindo as portas de nosso apartamento e fazendo o elevador enguiçar com freqüência. Uma vez Olga e eu ficamos presos uma hora na gaiola de metal. Ela, em geral tão silenciosa, passou todo esse tempo despejando sobre mim uma catadupa de palavras, embora soubesse perfeitamente que eu não escutava uma só delas. Várias vezes imaginei que ela estivesse me acusando de haver dado início à guerra, ainda que aos olhos de Olga esse teria sido o menor de meus crimes.

Em novembro os exércitos chineses começaram a se retirar de Xangai, recuando pelo Yangtsé até Nanquim. Deixaram atrás de si os subúrbios devastados, que os japoneses ocuparam, cercando o Setor Internacional com seus tanques e ninhos de metralhadoras. Pudemos então voltar em segurança para a avenida Amherst. Enquanto meus pais conversavam com os criados, subi, correndo, para meu quarto de brinquedos, ansioso por rever meus soldadinhos.

A batalha de Xangai em miniatura tinha sido desfeita a vassouradas. Soldadinhos quebrados se espalhavam entre meu trenzinho de corda e os modelos de automóveis. Alguém, talvez Cule ou o Moço Número 2, usara meu Robinson Crusoé como cinzeiro, apagando tocos de cigarros em sua capa, enquanto olhava nervosamente pelas janelas. Pensei em reclamar com papai, mas sabia que os criados tinham estado tão assustados quanto eu.

Juntei os soldadinhos e mais tarde tentei brincar com eles, mas as brincadeiras pareciam mais sérias do que antes do Sábado Sangrento. Quando David e eu dispusemos nossos exércitos rivais em ordem de batalha, afligiu-me a idéia de que estivéssemos, em segredo, tentando matar um ao outro. Pensando nas mãos e nos pés amputados que eu tinha visto diante do Parque de Diversões, guardei os soldados na caixa.

No Natal, entretanto, chegaram novos conjuntos de soldadinhos para os substituir, Montanheses de Seaforth em kills de batalha caqui e Guardas de Coldstream, com suas barretinas de pele. Para minha surpresa, a vida no Setor Internacional não fora afetada pelos meses de luta em torno da cidade, como se a guerra feroz não passasse de uma diversão de importância secundária e particularmente brutal, como os estrangulamentos públicos na Cidade Velha. Os luminosos de néon brilhavam mais do que nunca sobre as quatrocentas boates de Xangai. Papai jogava críquete no Country Club, mamãe organizava seus jantares e torneios de bridge. Participei como pajem de um suntuoso casamento no Clube Francês. O Bund estava apinhado de navios mercantes e sampanas carregadas com quilômetros de peças de algodão, de estamparia brilhante, que as fábricas de papai produziam para as chinesas elegantes que flanavam no Setor. As grandes lojas importadoras e exportadoras da rua Szechuan trabalhavam ainda mais que antes. As estações de rádio transmitiam os seriados americanos de aventuras, os bares e salões de baile viviam cheios de moças Número 2 e Número 3, e a guarnição inglesa encenou seu Espetáculo Militar. Até mesmo os Demônios Motorizados voltaram de Manila para bater com seus carros. Enquanto a guerra distante entre o Japão e Chiang Kai-shek prosseguia no interior da China, as roletas giravam nos cassinos, tecendo seus sonhos da antiga Xangai.

Como que para se lembrarem que a guerra existia, numa tarde de domingo meus pais e vários amigos quiseram ver os campos de batalha do interior, a oeste de Xangai. Tínhamos ido a uma recepção oferecida pelo cônsul-geral britânico. As mulheres usavam seus melhores vestidos de seda, os homens seus mais elegantes ternos cinzentos e chapéus-pana-má. Quando nossos carros pararam na guarita da rua Keswick, esperei que os esfarrapados soldados japoneses nos mandassem voltar, mas deixaram-nos passar com um aceno e sem nenhum comentário, como se mal merecêssemos um olhar.

Depois de percorrermos cinco quilômetros, paramos numa estrada deserta. Lembro-me do campo de batalha sob o céu silencioso e da aldeia incendiada perto de um canal em ruínas. Os choferes abriram as portas, e descemos para uma estrada recoberta de fragmentos dourados. A nossos pés se espalhavam centenas de cartuchos de fuzil vazios. Trincheiras abandonadas se estendiam entre os montículos fúnebres, dos quais se projetavam caixões abertos, como gavetas de um guarda-roupa saqueado. Por toda parte havia restos de redes rasgadas, caixas de munição vazias, botas e capacetes, baionetas meio enferrujadas e foguetes de sinalização. Perto de abrigos de fuzileiros, agora inundados, havia uma fortificação de terra, pulverizada pela artilharia japonesa. Ao lado do embasamento de um canhão, jazia a carcaça de um cavalo, com as patas erguidas para o céu.

Contemplamos juntos essa cena, as senhoras afastando as moscas com os leques, os homens fazendo comentários em voz baixa, como um grupo de investidores que visitassem o set de um filme de guerra inacabado. Levados por papai e pelo Sr. Hunter, caminhamos na direção do canal, onde demos com soldados chineses boiando na água rasa. Por toda parte, nas trincheiras inundadas, viam-se soldados mortos, cobertos de terra até a cintura, como que adormecidos num dormitório destruído.

A meu lado, David reprimia risadinhas. Estava impaciente por voltar para casa, e eu via seus olhos aflitos por trás dos cabelos. Virou as costas para a mãe, porém o campo de batalha e os mortos o cercavam por todos os lados. Arrastando de propósito os sapatos engraxados, ele se pôs a chutar as caixas de balas contra os soldados adormecidos.

Juntei as mãos em concha sobre os ouvidos, tentando captar o som que os despertaria.





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