O inadimplento absoluto e a mora no código civil de 2002



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O INADIMPLEMENTO ABSOLUTO E A MORA NO CÓDIGO CIVIL DE 20021

FLÁVIO TARTUCE2

No Código Civil Brasileiro, o inadimplemento obrigacional tem tratamento entre os arts. 389 a 416, incluindo a matéria de juros e a cláusula penal. Nesse sucinto trabalho, deixaremos de lado a abordagem da multa, que merecerá por nós um estudo mais aprofundado em outra ocasião.

É notório que não cumprindo o sujeito passivo a prestação, responde o mesmo pelo valor correspondente ao objeto obrigacional, acrescido das perdas e danos, juros compensatórios, cláusula penal, atualização monetária, custas e honorários de advogado.3

Essa a regra contida no artigo 389 do Código Civil, que trata do inadimplemento absoluto das obrigações positivas (dar e fazer). Já no caso da obrigação de não fazer ou negativa, o inadimplemento terá início no dia em que o ato foi executado (artigo 390 do Código Civil).

Ao contrário da mora, no inadimplemento absoluto, a obrigação não pode ser mais cumprida, sendo maiores as suas conseqüências. Prevê o art. 391 do Código Civil que pelo inadimplemento do devedor respondem todos os seus bens, presente aqui o elemento imaterial ou espiritual da obrigação: o vínculo existente entre os sujeitos obrigacionais. Ademais, esse dispositivo consagra o princípio da responsabilidade patrimonial, sendo certo que nosso sistema não adota como regra a possibilidade de prisão civil por dívidas. Como se sabe, a prisão civil somente é possível em duas hipóteses, conforme prevê o art. 5º, inciso LXVII da Constituição Federal de 1988:


  1. nos casos de inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia;

  2. nos casos envolvendo o depositário infiel.

Nos contratos benéficos responderá por culpa aquele que tem benefícios com a obrigação do contrato e por dolo aquele a quem não favoreça (art. 392 do novo Código Civil). Exemplificando, no comodato, o comodatário responde por culpa ou dolo, enquanto o comodante apenas por dolo (ação ou omissão voluntária, intencional).

Pelo mesmo art. 392 do nCC, nos contratos bilaterais, sinalagmáticos e onerosos o inadimplemento das partes decorre de condutas culposa das mesmas. Tal regra se aplica à compra e venda, por exemplo.

Esses dispositivos do Código Civil juntos consagram, para nós, a denominada responsabilidade civil contratual. Entendemos que é incorreto fundamentar essa forma de responsabilidade civil no art. 186 da atual codificação. Na realidade, esse último dispositivo traz a denominada responsabilidade aquiliana, de natureza extracontratual.

A parte obrigacional não responderá por perdas e danos nos casos envolvendo o caso fortuito e a força maior (art. 393, caput, do novo Código Civil). Entretanto tal responsabilização pode ter origem na lei ou por força de contrato celebrado entre as partes. Contudo, em alguns contratos, não é admitida a responsabilização por tais ocorrências, caso de contratos celebrados sob a égide do Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/90), situação em que não se admite que o consumidor assuma tais encargos, de natureza excessivamente onerosa.

Para nós, o caso fortuito é o evento totalmente imprevisível, enquanto a força maior o evento previsível, mas inevitável, ou irresistível. Entendemos que não importa se tais eventos tiveram origem na conduta humana ou em fato natural.

Não existe unanimidade doutrinária ou jurisprudencial quanto à conceituação de caso fortuito e força maior, sendo certo que seguimos, nas diferenças acima apontadas, os ensinamentos de Sérgio Cavalieri Filho (Programa de Responsabilidade Civil. São Paulo: Editora Malheiros, 2003, p. 84). Esse mesmo critério é utilizado por Orlando Gomes (Obrigações. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2003, p. 176), sendo, para nós, o melhor a ser seguido. Entretanto, alguns autores, como Arnoldo Wald, têm entendimento pelo qual tais conceitos seriam, pelo direito civil brasileiro, sinônimos (Curso de Direito Civil Brasileiro. Obrigações e Contratos. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2000, p. 141).

No caso de inadimplemento absoluto, a principal conseqüência refere-se ao pagamento de perdas e danos, previstas entre os artigos 402 a 404 do novo Código Civil.4

Pelo primeiro dispositivo que trata da matéria, em regra, as perdas e danos devidas ao credor abrangem, além do que ele efetivamente perdeu, o que razoavelmente deixou de lucrar. No primeiro caso, tem-se os danos emergentes ou danos positivos, valores desembolsados por alguém. No segundo caso, os lucros cessantes ou danos negativos, constituídos por uma frustração de lucro.

Prevê o art. 403 do nCC que ainda que a inexecução resulte de dolo do devedor, “as perdas e danos só incluem os prejuízos efetivos e os lucros cessantes por efeito dela direto e imediato, sem prejuízo do disposto na lei processual”. Por isso, não é possível a reparação de dano hipotético ou eventual, conforme o pronunciamento comum da jurisprudência nacional.5

Por fim, segundo o art. 404 da atual codificação, as perdas e os danos, nas obrigações de pagamento em dinheiro, serão pagas com atualização monetária segundo índices oficiais regularmente estabelecidos, abrangendo juros, custas e honorários de advogado, sem prejuízo da pena convencional.

Interessante verificar que as perdas e danos referenciadas na atual codificação privada apenas tratam dos danos materiais, não havendo qualquer referência a danos extrapatrimoniais, caso dos danos morais.

Diante dessa constatação, surge a indagação: no caso de responsabilidade civil contratual, não terá o prejudicado direito à tal reparação? Qual o fundamento jurídico para tanto?

Logicamente que será possível ao prejudicado pleitear tais danos imateriais. Mas o fundamento jurídico para tanto não está no Código Civil. Engana-se quem entende que o fundamento é o art. 186 do nCC, que trata do dano “exclusivamente moral”. Como dissemos, esse dispostivo deve ser aplicado aos casos de responsabilidade civil aquiliana ou extracontratual. Na verdade, deve-se utilizar argumento sob o prisma civil-constitucional, apontando que a possibilidade de reparação moral está fundamentada no art. 5º, incisos V e X, da Constituição Federal de 1988, que já tratavam dessa reparabilidade.

Ao lado do inadimplemento absoluto, o Código Civil trata da mora. Essa é conceituada como sendo o atraso, o retardamento ou a imperfeita satisfação obrigacional. O conceito de mora pode ser também retirado da leitura do art. 394 do Código Civil, cujo teor é “considera-se em mora o devedor que não efetuar o pagamento e o credor que não o quiser recebê-lo no tempo, lugar e forma que a lei ou a convenção estabelecer”.6

Vale repetir: não se pode confundir a mora com o inadimplemento absoluto da obrigação, eis que no primeiro caso, ao contrário do segundo, a obrigação ainda pode ser cumprida. Pelo conceito que consta do comando legal acima transcrito, percebe-se que há duas espécies de mora.

Primeiro, a mora do devedor, também denominada mora solvendi ou mora debitoris. Esse atraso estará presente nas situações em que o devedor não cumpre, por culpa sua, a prestação referente a obrigação, de acordo com o que foi pactuado. Prevê o art. 396 do Código Civil que não havendo fato ou omissão imputado ao devedor, não incorre este em mora. Assim, a doutrina tradicional sempre apontou que a culpa genérica (incluindo o dolo e a culpa estrita), é fator necessário para a sua caracterização.7

Entretanto, já há outras vozes na doutrina moderna, apontando que a culpa não é fator necessário e indispensável para a caracterização da mora do devedor. Encabeçando essa corrente está Judith Martins-Costa defendendo que muitas vezes a culpa não estará presente, havendo também o atraso obrigacional. Cita, por exemplo, os casos envolvendo uma obrigação de resultado assumida, situação em que a análise da culpa é dispensada.8

Entretanto, a primeira tese é predominante, inclusive em nossos Tribunais.9

O principal efeito da mora do devedor é a responsabilização do sujeito passivo da obrigação por todos o prejuízos causados ao credor, mais juros, atualização monetária – segundo índices oficiais -, e honorários do advogado, no caso de propositura de uma ação específica. Se em decorrência da mora a prestação tornar-se inútil ao credor, este poderá rejeitá-la, cabendo reparação por perdas e danos (art. 395 do nCC). Na verdade, acreditamos que, nesse último caso, a mora é convertida em inadimplemento absoluto.10

Conforme o art. 399 do Código atual, o devedor em mora responde pela impossibilidade da prestação, embora essa impossibilidade resulte de caso fortuito ou de força maior, se estes ocorrerem durante o atraso. Entretanto, tal responsabilidade é afastada se o devedor provar isenção de culpa, ou que o dano sobreviria ainda quando a obrigação fosse oportunamente desempenhada.

Esse dispositivo merece por nós alguns comentários importantes.

Inicialmente, nota-se que trata-se de uma exceção à regra do art. 393 do nCC, pelo qual a parte não responde pelo caso fortuito (evento totalmente imprevisível) ou pela força maior (evento previsível, mas inevitável). Entretanto, se o devedor provar que perda ocorreria mesmo não havendo o atraso, tal responsabilidade deve ser afastada.

Vejamos um exemplo a ilustrar a regra exposta.

Pensemos em um caso em que um devedor está em atraso quanto à obrigação de entregar um cavalo. Ocorre uma enchente em sua fazenda e o cavalo se perde.

Ora, em regra, responderá tal devedor por perdas e danos, além do valor do animal. Mas se o mesmo provar que a enchente também atingiu a fazenda do credor, onde supostamente estaria o animal se não houvesse atraso, tal responsabilidade deve ser afastada.

Superado esse ponto e partindo para outra análise, percebe-se que a responsabilização deve também ser afastada se o devedor provar ausência de culpa. Sobre tal previsão, surge uma polêmica.

Quando da realização da III Jornada de Direito Civil, idealizada pelo Conselho da Justiça Federal, foi feita uma proposta de enunciado pelo Desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro Sérgio Hartung Buarque, com o seguinte teor:

O artigo 399 do Código Civil de 2002 deve ser interpretado sem observância à primeira ressalva ali contida, no que tange à prova da isenção de culpa”.

Foram as justificativas apresentadas pelo iminente magistrado:

Considero despicienda a primeira ressalva contida no art. 399 do Código Civil de 2002, no seguinte teor: “(...) salvo se provar isenção de culpa”, pelo que sugiro a sua interpretação sem se levar em conta a ressalva em referência.



Esta primeira ressalva não deve ser considerada na interpretação do artigo em tela porque tornar-se-ia redundante, já que, considerando-se a mora do devedor como o atraso culposo no cumprimento da obrigação, é evidente que a ausência de culpa acarreta a inexistência da mora.

Inclusive, sustento neste sentido em minha dissertação de mestrado, que mereceu aprovação pela UNESA, conforme defesa em junho do corrente ano.

Por outro lado, assim também entendia o saudoso Professor Agostinho Alvim, em sua obra “Da Inexecução das Obrigações e suas conseqüências” 5ª Edição, São Paulo, Editora Saraiva, 1980, p. 59, ao lecionar que: “Realmente, provada a ausência de culpa, deixa de haver mora, por falta do elemento subjetivo e consoante o disposto no art. 963. Dizer que o devedor responde pela mora, salvo se provar ausência de culpa, eqüivale a dizer que ele responde pela mora, salvo se não houver mora.”

Eis as razões pelas quais sugiro tal interpretação”.

Percebe-se que, realmente, a proposta de enunciado vai de encontro com o entendimento doutrinário e jurisprudencial dominante. Mas a proposta não foi aprovada quando da III Jornada CJF, diante dos votos contrários de uma parte dos participantes do evento, liderados por Judith Martins-Costa, a quem nos filiamos naquela ocasião. Pela divergência criada, e pela própria evolução do direito das obrigações, o enunciado foi retirado da pauta de discussão pelo próprio proponente.

Especificamente quanto à mora do devedor, a mesma recebe classificação importante.

Primeiro, haverá mora ex re ou mora automática se a mesma decorrer de fato previsto em lei; quando a obrigação for positiva - de dar ou fazer -; líquida – certa quanto à existência, determinada quanto ao valor -; e com data fixada para o adimplemento. A inexecução da obrigação implica na mora do devedor de forma automática, sem a necessidade de qualquer providência do credor, como a notificação ou interpelação do devedor (art. 397, caput, do novo Código Civil). Em casos assim, tem-se a aplicação da máxima dies interpellat pro homine (o dia do vencimento interpela a pessoa).

Já a mora ex persona ou mora pendente estará presente se não houver estipulação de termo certo para a execução da obrigação assumida. Desse modo, a caracterização do atraso dependerá de uma providência, do credor ou seu representante, por meio de interpelação, notificação ou protesto do credor (art. 397, parágrafo único, do novo Código Civil).

Exemplo típico de mora pendente pode ser percebido no caso de um contrato de comodato sem prazo de duração. A mora do comodatário somente se configurará depois de notificado o comodatário, judicial ou extrajudicialmente, pelo comodante. Caso não cumpra após o vencimento do prazo incorrerá em mora e será considerado como esbulhador, cabendo a correspondente ação de reintegração de posse. Entretanto, se o comodato for com prazo determinado, a mora se configura no vencimento desse prazo (mora ex re).

Quanto à mora do devedor, há ainda aquilo que Orlando Gomes denomina como mora presumida ou mora irregular. A mesma estaria prevista, para o autor baiano, no art. 398 do atual Código, pelo qual: “Nas obrigações provenientes de ato ilícito, considera-se o devedor em mora, desde que o praticou”.11

Como vimos previamente, além da mora do devedor, há ainda a mora do credor, também denominada mora accipiendi ou mora creditoris. Essa se faz presente nas situações em que o credor se recusa a aceitar o adimplemento da obrigação no tempo, lugar e forma pactuados, sem ter justo motivo para tanto.

O seu principal efeito é afastar a responsabilidade do devedor, isento de dolo, pela conservação do objeto da prestação. Desse modo, havendo mora do credor, se a coisa se perder por culpa do devedor, não haverá responsabilidade do mesmo.

Outro efeito da mora do credor é obrigar o credor a ressarcir o devedor pelas despesas empregadas na conservação da coisa. Também a mora sujeita o credor a receber a coisa pelada maneira mais favorável ao devedor, se o seu valor oscilar entre o tempo do contrato e o do cumprimento da obrigação. Todos esses efeitos constam do art. 400 do Código Civil em vigor.

Finalizando, interessante lembrar que a mora do credor cria a possibilidade da consignação judicial ou extrajudicial do objeto obrigacional, nos termos do art. 890 do Código de Processo Civil e art. 334 do Código Civil de 2.002.

De acordo com a doutrina, quando as moras são simultâneas – mora do devedor e do credor em uma mesmo situação -, uma elimina a outra, como se nenhuma das partes houvesse incorrido em mora. Ocorre, nesse sentido, uma espécie de “compensação dos atrasos”.12

Vimos que um dos principais efeitos da mora do devedor é que esse passa dever juros, denominados juros moratórios e conceituados pela doutrina como sendo “um fruto civil correspondentes à remuneração devida ao credor em virtude da utilização do seu capital13

Os juros moratórios constituem um ressarcimento imputado ao devedor pelo retardamento consentido no cumprimento da obrigação. Regra geral, os juros moratórios são devidos desde a citação inicial em ação específica e independem da alegação e prova do prejuízo suportado (art. 405 do CC/02).14

Esses juros moratórios podem ser convencionais, caso em que as partes estabelecem a taxa de juros até 12% (doze por cento) anuais ou 1% (um por cento) ao mês, segundo o nosso posicionamento defendido na obra “Função Social dos Contratos”.15

Além dos juros convencionais, há ainda os juros legais. Esses para os casos em que as partes não os convencionarem por instrumento obrigacional, pois mesmo não convencionados os juros moratórios são devidos, na taxa que “estiver em vigor para a mora do pagamento de impostos devidos à Fazenda Nacional” (artigo 406 Código Civil em vigor).

Dúvidas surgem em relação a previsão do art. 406 do Código Civil, acerca do valor máximo de taxa de juros moratórios, com a emergência da nova regra, principalmente na ausência de previsão contratual.

Alguns autores se posicionam no sentido dessa taxa ser a SELIC. Entretanto, outros sustentam a inviabilidade ou mesmo a inconstitucionalidade da referida taxa, posição a qual nos filiamos. Entendemos que a melhor interpretação a ser dada é a consubstanciada no enunciado nº 20, aprovado na I Jornada de Direito Civil, promovida pelo Conselho da Justiça Federal, cuja redação segue:

A taxa de juros moratórios a que se refere o art. 406 é a do art. 161, §1º, do Código Tributário Nacional, ou seja 1% (um por cento) ao mês. A utilização da taxa SELIC como índice de apuração dos juros legais não é juridicamente segura, porque impede o prévio conhecimento dos juros; não é operacional, porque o seu uso será inviável sempre que se calcularem somente juros ou somente correção monetária; é incompatível com a regra do art. 591 do novo Código Civil, que permite apenas a capitalização anual dos juros, e pode ser incompatível com o art. 192, §3º, da Constituição Federal, se resultarem juros reais superiores a 12% (doze por cento) ao ano”.

Vale aqui prenotar o posicionamento contrário de Mário Luiz Delgado Régis que defende a adoção da taxa SELIC e para quem “a aplicação da taxa SELIC, até mesmo para que se atenda à intenção do legislador no sentido de reduzir o inadimplemento contratual, penalizando com mais rigor o devedor moroso”, seria mais coerente. Completa o doutrinador pernambucano que “os juros moratórios de 0,5% ao mês sempre foram apontados como causa de morosidade da Justiça, por constituir estímulo decisivo a que as partes, já condenadas ou sem possibilidade de êxito nas respectivas demandas, viessem a adiar o pagamento de seus débitos. Com o aumento dos juros de mora, certamente, haverá de priorizar o pagamento”.16

Pois bem, quando da III Jornada de Direito Civil, foi feita proposta de revogação do enunciado nº 20, substituindo-se a taxa ali constante pela SELIC, em um novo enunciado.

Entrentato, por maioria de votos, conclui-se que a taxa SELIC é insegura e inconveniente, por trazer embutida a correção monetária, mantendo-se o enunciado 20, aprovado na I Jornada CJF. 17

Encerrando, cumpre comentar as questões referentes à purgação da mora (art. 400 do novo Código Civil).

A expressão purgar a mora significa afastar ou neutralizar os seus efeitos do atraso decorrentes. Pela purgação ou emenda da mora, tanto o credor quanto o devedor que incorreu em mora corrigem, sanam a falta cometida, cumprindo com a obrigação ainda em tempo hábil ao adimplemento.

Para tanto, deverá a parte anteriormente em atraso reparar os eventuais prejuízos causados ao outro sujeito da relação obrigacional.

Assim, a purgação da mora pelo devedor se dá pela oferta da prestação, com o acréscimo de juros, correção monetária, multa e honorários advocatícios, sem prejuízo das eventuais perdas e danos.

Já a purgação da mora pelo credor ocorre quando esse se oferece para receber ou para que a outra parte cumpra com a obrigação, sujeitando-se aos efeitos da mora já ocorridos.

Tanto devedor quanto credor podem, conjuntamente, purgar a mora se ajustarem a renúncia dos prejuízos decorrentes dos efeitos que dela se originam.

Não se pode confundir, entretanto, a purgação da mora com a cessação da mora. As diferenças entre os dois institutos são muito bem demonstradas por Maria Helena Diniz, conforme passamos a expor com citações do trabalho da eminente professora.18

Ocorre a purgação da mora, por meio de ato espontâneo do sujeito obrigacional em atraso, que visa remediar a situação a que deu causa, evitando os efeitos decorrentes do atraso e reconduzindo a obrigação à normalidade.

A purgação ou emenda da mora somente produz efeitos para o futuro (ex nunc), “não destruindo os efeitos danosos já produzidos desde o dia da incidência em mora até a execução tardia da obrigação”.

Já a cessação da mora “ocorrerá por um fato extintivo de efeitos pretéritos e futuros, como sucede quando a obrigação se extingue com a novação, remissão de dívidas ou renúncia do credor”.

Encerrando, lembramos que existem regras especiais previstas para a purgação da mora, como é o caso do que consta no 62 da Lei de Locação (Lei 8.245/91) e no art. 3º do Decreto-Lei 911/69, que trata da alienação fiduciária em garantia, e que recebeu nova redação pela Lei 10.931/04.

Sobre tais previsões, contudo, preferimos comentar em outra oportunidade.



1 Aula ministrada no curso de pós-graduação “Novo Direito Civil”, oferecido pelo sistema DIEX-UNISUL, em 19 de março de 2005. O curso é coordenado pela Professora Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka.

2 Graduado pela Faculdade de Direito da USP. Especialista em Direito Contratual e Mestre em Direito Civil Comparado pela PUC/SP. Professor em cursos preparatórios para as carreiras jurídicas. Professor convidado em cursos de pós-graduação em Direito Privado. Advogado em São Paulo. www.flaviotartuce.adv.br. Elaborado em março de 2.005.

3 Quanto aos honorários do advogado, vale transcrever o teor do enunciado nº 161, aprovado na III Jornada de Direito Civil do Conselho da Justiça Federal: “Os honorários advocatícios previstos nos arts. 389 e 404 do Código Civil apenas têm cabimento quando ocorre a efetiva atuação profissional do advogado”.

4 Na realidade, há ainda o art. 405, inserido na mesma seção. Mas entendemos que tal dispositivo legal está mal colocado, eis que trata mais propriamente da matéria de juros.

5 “INDENIZAÇÃO - DANO MORAL E/OU MATERIAL - PREJUÍZO OU ABALO PSÍQUICO - AUSÊNCIA – DESCABIMENTO. Os danos materiais pressupõem, para serem indenizados, prova plena da diminuição patrimonial sofrido pelo autor do pedido, em virtude de ato omissivo ou comissivo de quem se exige a reparação. Assim, a falta de certeza quanto ao prejuízo economicamente aferível afasta a possibilidade de indenização por dano meramente hipotético ou eventual”. (Segundo Tribunal de Alçada Civil de São Paulo, Ap. c/ Rev. 649.662-00/3 - 11ª Câm. - Rel. Juiz MENDES GOMES - J. 12.5.2003. ANOTAÇÃO No mesmo sentido: Ap. c/ Rev. 659.651-00/2 - 1ª Câm. - Rel. Juiz MAGNO ARAÚJO - J. 14.11.2000 Ap. c/ Rev. 656.277-00/2 - 11ª Câm. - Rel. Juiz MELO BUENO - J. 12.5.2003).

AÇÃO DE INDENIZAÇÃO - ADVOGADO QUE NÃO COMPARECE À AUDIÊNCIA PARA A QUAL FOI CONTRATADO - AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DOS DANOS EFETIVAMENTE SOFRIDOS PELA REQUERENTE - AÇÃO JULGADA IMPROCEDENTE - RECURSO IMPROVIDO. ‘A ação de reparação por danos materiais e morais, implica, necessariamente, na produção de prova cabal da lesão ou da ofensa irrogada em juízo, a existência de um dano a um bem jurídico, o que não se circunscreve apenas no aspecto de subjetividade, no campo conjuntural ou hipotético’ (TJDF, Acórdão n. 119009, 5ª Turma Cível, Relator Des. Dácio Oliveira, pub. DJU 27/10/99). (Tribunal de Alçada Civil do Paraná, APELAÇÃO CÍVEL - 0208685-9 - SÃO JOSÉ DOS PINHAIS - JUIZ RONALD SCHULMAN - PRIMEIRA CÂMARA CÍVEL - Julg: 01/10/2002 - Ac.: 152213 - Public.: 11/10/2002).




6 Sílvio de Salvo Venosa conceitua a mora como sendo “o retardamento culposo no cumprimento da obrigação, quando se trata de mora do devedor. Na mora solvendi, a culpa é essencial. A mora do credor, accipiendi, é simples fato ou ato e independe de culpa” (Direito Civil. Teoria Geral das Obrigações e Teoria Geral dos Contratos. SP: Atlas, Terceira Edição, 2003, p. 238).

7 Vale citar que esse é o entendimento de Agostinho Alvim, em sua festejada obra “Da Inexecução das Obrigações e suas Conseqüências” (São Paulo: Editora Saraiva, 5ª Edição, 1980).

8 Comentários ao Novo Código Civil. Volume V. Tomo II. Coordenador: Sálvio de Figueiredo Teixeira. Rio de Janeiro: Editora Forense, 1ª Edição, 2003, p. 263 a 283).

9 “CRÉDITO RURAL. Juros remuneratórios. Limitação em 12% a. a. Preço mínimo. A atualização pelo preço mínimo não pode ser feita em contrato celebrado antes da Lei 8880/94, sem cláusula adotando tal critério. TR. Possibilidade de sua utilização para a atualização do débito. Ressalva do relator. MULTA. Não cabe a multa moratória se não há fato imputável ao devedor. Recurso conhecido em parte e provido”.(grifo nosso) ( Superior Tribunal de Justiça, ACÓRDÃO: RESP 474395/RS (200201310531), 495907 RECURSO ESPECIAL, DATA DA DECISÃO: 20/05/2003, ORGÃO JULGADOR: - QUARTA TURMA, RELATOR: MINISTRO RUY ROSADO DE AGUIAR,, FONTE: DJ DATA: 04/08/2003 PG: 00316).

EXECUÇÃO - LOCAÇÃO - ACORDO HOMOLOGADO - CONSIGNAÇÃO EM PAGAMENTO DA PARCELA NÃO EFETUADA NO DIA DO VENCIMENTO - AFERIÇÃO DA CULPA DO DEVEDOR OU CREDOR PELO ATRASO - DISCUSSÃO NA PRÓPRIA AÇÃO EM QUE HOMOLOGADO O ACORDO – NECESSIDADE. Mais que mero atraso, mora é atraso culposo. Daí que, se o pagamento de determinada parcela não foi efetuado no dia do vencimento, cumpre aferir se, nas circunstâncias, isso se deu por culpa dos devedores ou por culpa da credora. A sede da discussão e da apuração dos fatos é a própria ação em que homologado o acordo” (Segundo Tribunal de Alçada Civil de São Paulo, AI 762.886-00/6 - 4ª Câm. - Rel. Juiz CELSO PIMENTEL - J. 8.10.2002).



10 Sobre o art. 395 do nCC, foi aprovado o enunciado nº 162 quando da III Jornada e Direito Civil do Conselho da Justiça Federal, com o seguinte teor: “A inutilidade da prestação que autoriza a recusa da prestação por parte do credor deve ser aferida objetivamente, consoante o princípio da boa-fé e a manutenção do sinalagma, e não de acordo com o mero interesse subjetivo do credor”.

11 Direito das Obrigações. Rio de Janeiro: Editora Forense, 16ª Edição, 2004, p. 201. Atualizador: Edvaldo Brito.

12 Diniz, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro. 2º Volume. Teoria Geral das Obrigações. São Paulo: Editora Saraiva, 16ª Edição, 2002, p. 369.

13 Gagliano, Pablo Stolze e Pamplona Filho, Rodolfo. Novo Curso de Direito Civil. Volume III. São Paulo: Editora Saraiva, 2003, p. 320.

14 Quanto à matéria, vale citar o teor do enunciado nº 163, aprovado na III Jornada do Conselho da Justiça Federal: “Art. 405: A regra do art. 405 do novo Código Civil aplica-se somente à responsabilidade contratual, e não aos juros moratórios na responsabilidade extracontratual, em face do disposto no art. 398 do novo CC, não afastando, pois, o disposto na Súmula 54 do STJ”. Vale lembrar o teor dessa súmula: “Os juros moratórios fluem a partir do evento danoso, em caso de responsabilidade civil extracontratual”.

15 Função Social dos Contratos. Do Código de Defesa do Consumidor ao Novo Código Civil. São Paulo: Editora Método, 2005.

16 Novo Código Civil Comentado. Organizador: Ricardo Fiúza. SP: Saraiva, 2ª Edição, 2003, p. 363

17 Teor do Enunciado proposto e não aprovado na III Jornada do Conselho da Justiça Federal: “Os juros legais de que trata o art. 406 do Novo Código Civil correspondem à Taxa SELIC, que deve ser computada sem concomitante correção monetária”. Autor da proposta: RAFAEL CASTEGNARO TREVISAN, JUIZ FEDERAL SJ/RS. Justificativa: I. Introdução. Estabelece o art. 406 do Novo Código Civil que “quando os juros moratórios não forem convencionados, ou o forem sem taxa estipulada, ou quando provierem de determinação da lei, serão fixados segundo a taxa que estiver em vigor para a mora do pagamento de impostos devidos à Fazenda Nacional”. Por ocasião da Iª Jornada de Direito Civil promovida pelo CJF, no ano de 2002, foi aprovado enunciado segundo o qual “A taxa de juros moratórios a que se refere o art. 406 é a do art. 161, §1°, do Código Tributário Nacional, ou seja, 1% ao mês. A utilização da taxa Selic como índice de apuração de juros legais não é juridicamente segura, porque impede o prévio conhecimento dos juros; não é operacional, por que seu uso será inviável sempre que se calcularem somente juros ou somente correção monetária. É incompatível com a regra do art. 591 do Código Civil, que permite apenas a capitalização anual de juros, e pode ser incompatível com o art. 192, §3°, da Constituição Federal, se resultarem juros superiores a 12% (doze por cento) ao ano”. Deve ser revisada tal interpretação, já que de meridiana clareza a norma legal. A taxa SELIC, segundo legislação vigente, é aquela atualmente “em vigor para a mora do pagamento de impostos devidos à Fazenda Nacional”. Não bastasse isso, é a taxa SELIC justa e adequada para compensar o credor pela mora do devedor, não sendo procedentes os argumentos e objeções apresentados em sentido contrário. II. Fundamentos jurídicos e econômicos. Estabelece o art. 161, §1º, do Código Tributário Nacional, Lei Complementar de que trata o art. 146 da Constituição Federal, que “se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de 1% (um por cento) ao mês”. No que se refere aos tributos arrecadados pela Secretaria da Receita Federal, aos quais expressamente se refere o Código Civil, há, indubitavelmente, lei específica dispondo sobre a taxa de juros aplicável no caso de mora no pagamento de impostos devidos à Fazenda Nacional. Nesse sentido, a Lei nº9.065/95, art. 13, combinada com a Lei nº8.981/95, art. 84, inciso I, §§ 1º e 4º, é clara no sentido de que os juros de mora serão equivalentes, no caso, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia – SELIC para títulos federais, acumulada mensalmente. Não tem amparo legal, nem é praticada pela Fazenda Nacional, pois, a exigência, na cobrança de impostos devidos à Fazenda Nacional, de juros de 12% ao ano, prevista no art. 161, §1°, do CTN. Havendo lei especial regulando os juros de mora fica afastada, no caso, então, a taxa de juros de 12% ao ano, nos exatos termos do art. 161, §1º, do CTN. Não bastasse a clareza dos dispositivos legais aplicáveis, constitui a taxa SELIC justa e adequada compensação, para o credor, pela mora do devedor. É taxa juridicamente segura. O fato de não ser possível prever com antecedência o seu percentual futuro não a torna insegura ou impraticável. A inflação futura também é imprevisível, e nem por isso deixou de ser a correção monetária amplamente utilizada na história recente do Brasil. Taxas de juros pós-fixadas são também amplamente utilizadas e admitidas no direito brasileiro, sendo exemplo disso a Taxa Referencial (TR) instituída pela Lei n°8.177/91, amplamente aceita pela jurisprudência (a título de exemplo, Súmula nº295 do STJ, segundo a qual “A Taxa Referencial (TR) é indexador válido para contratos posteriores à Lei nº8.177/91, desde que pactuada”). A utilização da taxa SELIC é também operacional e viável nas relações privadas, bastando dizer que tal taxa é utilizada há praticamente uma década para os créditos tributários, sendo de conhecimento geral, dada a sua ampla divulgação. O fato de ser a taxa referencial do SELIC inacumulável com a correção monetária (em sua fixação sem dúvida é levada em conta, além dos juros reais, uma expectativa de desvalorização da moeda) não prejudica sua operacionalidade. Basta levar em conta este aspecto nos contratos e na aplicação do direito. Somente no caso de ser realmente inafastável a aplicação da correção monetária, em razão de convenção das partes ou expressa disposição legal, é que se vislumbra a adoção da taxa de juros de 12% ao ano, prevista no art. 161, §1º, do CTN, como critério subsidiário. É a SELIC, como regra, porém, o juro legal de que trata o art. 406 do CTN. Muito embora o cômputo da taxa SELIC não envolva capitalização, seja mensal, seja anual, também é a taxa SELIC perfeitamente compatível com a regra do art. 591 do Código Civil, que permite a capitalização anual de juros. A capitalização é mero método de apuração dos juros, não se confundindo com a taxa de juros estipulada pelas partes ou prevista em lei. É a taxa SELIC, por fim, compatível com a Constituição Federal. Não é, em si considerada, incompatível com a antiga redação do art. 192, §3°, da Constituição Federal, que estabelecia o limite de 12% ao ano para os juros reais (tal norma foi revogada pela Emenda Constitucional nº40/2003). É fundamental levar em conta, na interpretação e aplicação do art. 406 do Novo Código Civil, a realidade econômica presente neste século XXI, num mundo globalizado em que prevaleceu o paradigma da economia de mercado nas relações obrigacionais privadas. O Novo Código Civil foi concebido com o deliberado propósito de modernizar a legislação, adequando-a a este novo contexto mundial, econômico e social. Não podem os juristas, na interpretação da nova legislação, apegar-se a paradigmas ultrapassados, desconsiderando as variáveis econômicas envolvidas no trato da matéria em questão, para tornar letra morta uma soberana deliberação do legislador. A fixação da taxa SELIC pelo Conselho de Política Monetária Nacional orienta-se, sem dúvida, por critérios de ordem macroeconômica, constituindo um dos mecanismos centrais e mais importantes de que se vale o Governo Federal para a condução da economia do país, especialmente par ao controle da inflação. A SELIC é a taxa básica da economia brasileira, é a remuneração básica oferecida pelo Governo Federal em seus títulos públicos. Conseqüentemente é a taxa que serve de referência para o mercado de capitais como um todo. Prova disso é a grande proximidade que há entre a taxa SELIC e a taxa dos CDIs (Certificados de Depósitos Interbancários). Esta proximidade não resulta de tabelamento legal, resulta de regras de mercado: é o governo federal, maior devedor do país, que fixa o custo do dinheiro no Brasil. O cidadão comum obtém, em aplicações financeiras consideradas as mais conservadoras e de menor risco, rendimento bruto próximo da taxa SELIC, já que tais aplicações ou envolvem fundamentalmente títulos públicos cuja remuneração básica equivale à taxa SELIC, ou são tais aplicações, mesmo que indiretamente, atreladas a estes. A taxa SELIC reflete, assim, pode-se dizer, o preço de mercado do dinheiro. O juro real inserido na taxa SELIC pode ser superior ou inferior a 12% ao ano. Tabelar o preço do dinheiro em 12% ao ano não parece ser a opção mais adequada, do ponto de vista jurídico e econômico, para que seja atingida a finalidade social da norma contida no art. 406 do Novo Código Civil. A mora do devedor causa indiscutível prejuízo ao credor. Juros moratórios equivalentes à taxa básica de juros da economia (no caso, a taxa do SELIC) correspondem, numa economia de mercado, adequada e justa reparação ao credor, pois tais juros refletem o custo de oportunidade sofrido pelo credor em decorrência da mora do devedor. III. Conclusão. Tendo em vista o exposto, seja por ser prevista expressamente em lei sua adoção, seja por ser justa e adequada à realidade econômica, necessário reconhecer que a taxa SELIC é o juro legal moratório de que trata o art. 406 do Código Civil Brasileiro de 2002”.

18 Curso de Direito Civil Brasileiro. 2º Volume. Ob. cit., p. 374.


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