O início do império



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A TRAJETÓRIA DE SUCESSO
DE ROBERTO MARINHO


SÉRGIO MATTOS

(Professor Doutor em Comunicação)

Trabalho apresentado durante o seminário “Pioneirismo Empresarial no Brasil e a Construção do Século XXI”, realizado no dia 09 de outubro de 2007, na sala da Congregação da FEA/USP – São Paulo. Sérgio Mattos é autor, entre outros, dos livros: “História da Televisão Brasileira: Uma Visão Econômica, Social e Política” (Editora Vozes, 2002) e “Mídia Controlada: Historia da Censura no Brasil e no Mundo” (Editora Paulus, 2005).



A TRAJETÓRIA DE SUCESSO de ROBERTO MARINHO

Sérgio Mattos


Doutor em Comunicação

"Na primeira vez que encontrei Roberto Marinho, disse a ele que no dia que as Organizações Globo decidissem que todas as crianças brasileiras deveriam estudar em uma escola de qualidade, isso iria acontecer".

Oded Grajew

(Presidente do Instituto Ethos de Responsabilidade Social)




INTRODUÇÃO


Admirado e invejado, odiado e temido. Frio, parcial, imprevisível e maquiavélico. Pragmático, ousado e ao mesmo tempo cauteloso. Determinado, empreendedor e visionário. Competidor e esportista. Humanista, idealista e pluralista. Simples, direto e franco. Imperador humilde e ditador, o Stalin das Comunicações no Brasil. Falseador da verdade e manipulador dos fatos. Conservador na política e liberal na economia. Todos estes entre outros termos podem ser encontrados em textos jornalísticos ou acadêmicos e são utilizados nas conversações de políticos e cidadãos que procuram definir um único homem, um dos brasileiros mais influentes do século XX: o jornalista Roberto Marinho.

A estas opiniões contraditórias a seu respeito, Roberto Marinho reagia parafraseando seu amigo Nelson Rodrigues, afirmando que “toda unanimidade é chata”. Sobre seu sucesso empresarial, costumava atribuir a muito trabalho, certa ousadia e alguma sorte, sem jamais deixar de investir e pensar no futuro. Pessoalmente não acreditava ser o homem mais influente do Brasil, mas admitia exercer influência, “o que faço sempre com vistas ao bem de meu país”.

Em uma outra ocasião, afirmou: “Não é verdade que eu exerça poder político hegemônico e menos ainda que o faça em caráter pessoal. A orientação que imprimo aos veículos que me cabe dirigir visa estritamente à defesa do que julgo serem os reais interesses do país e dos caminhos a serem trilhados para que se possa alcançar o bem-estar do povo”.1

O poder de Roberto Marinho era considerado tão grande que lhe atribuíam o comando de um governo paralelo que ditava o que a população devia pensar, como agir e como falar. Também era identificado como o magnata das comunicações, capaz de fazer e desfazer ministros. Por conta da indicação de Antonio Carlos Magalhães para o Ministério das Comunicações, Ulysses Guimarães teria anunciado seu rompimento com Tancredo Neves, do qual ouviu a seguinte afirmação: “Olha Ulysses, eu brigo com o Papa, eu brigo com a Igreja Católica, eu brigo com o PMDB, com todo mundo, eu só não brigo com o Doutor Roberto”. 2

Na visão de seus filhos, em entrevista concedida à revista Isto É 3, Roberto Marinho era um pai carinhoso, com grande senso de humor e capacidade de perdoar, mas que exigia respeito. Era um homem equilibrado, determinado, com vontade de aço e um grande competidor que nunca quis ficar sem concorrente e que se empenhava, esportivamente, em vencer seus adversários. “Não nos dava aulas nem roteiros. A experiência nos foi passada por horas e horas de conversas inesgotáveis em que cada palavra era incorporada ao nosso patrimônio profissional”.

Este trabalho aborda a atuação do jornalista Roberto Marinho, responsável pela implantação das Organizações Globo, numa tentativa de identificar e destacar ensinamentos deixados pela marcante trajetória deste empresário pioneiro. Este texto é fruto de um levantamento aleatório realizado em parte do que foi publicado sobre este empresário. Não se pretende aqui disfarçar fracassos e erros, fazer apologia ou transformar Roberto Marinho em um herói ou homem acima de qualquer suspeita. Como homem, ele tinha defeitos e qualidades. Foi um personagem polêmico como todos aqueles que obtiveram sucesso e poder. O objetivo é identificar, de maneira sucinta, alguns pontos positivos, como exemplos, que possam contribuir para aqueles que já estão no caminho ou pretendem realizar projetos profissionais ou empresariais no setor das comunicações. A história do império construído por Roberto Marinho (1904-2003) começou com o jornal O Globo, nome que passou a ser a marca registrada de todo o grupo cuja história se confunde com a própria história de vida de seu proprietário e vice-versa. Este texto está dividido em quatro partes: 1) – Introdução; 2) – O início do Império; 3) – Lições deixadas; 4) – Opiniões sobre Marinho; e , 5) – Considerações finais.


O INÍCIO DO IMPÉRIO


Tudo teve início com o lançamento do jornal O Globo, no dia 29 de julho de 1925, que surgiu como um veículo noticioso, em oposição ao jornalismo partidário praticado na época, tendo como objetivo maior ser o defensor das causas populares. Seu fundador, Irineu Marinho, morreu 21 dias após o lançamento do veículo, obrigando a família a contratar Eurycles de Mattos para comandar o jornal. Roberto Marinho, que tinha apenas 20 anos de idade, demonstrando humildade, não se sentiu suficientemente seguro para assumir o comando como era desejo de sua mãe. Durante seis anos, acompanhou o dia-a-dia do jornal, exercendo as funções de repórter, reescrevedor, secretário de redação adquirindo completo domínio sobre o fazer jornalístico. Quando Eurycles de Mattos morreu, no dia 5 de maio de 1931, ele assumiu, com 26 anos de idade, a direção de O Globo colocando em prática um estilo empresarial ousado, que resultou na construção de um império de comunicação que cresceu ininterruptamente.

Mantendo uma posição política e editorial cautelosa, O Globo apoiou o governo instituído pela Revolução de 30. “No período que se seguiu à vitória da Revolução de outubro de 1930, o jornal manteve uma linha de acomodação com o governo. No final da década de 1930 o jornal empenhou-se na campanha eleitoral, com simpatia pelos candidatos da Aliança Liberal – Getúlio Vargas e João pessoa”. 4 Durante a Segunda Guerra Mundial, O Globo era favorável ao rompimento da aliança com a Alemanha e tomou posição a favor do fim da ditadura de Getúlio Vargas.

O jornal era o carro-chefe, mas “o crescimento financeiro do grupo se deu por causa da edição de gibis, histórias em quadrinhos norte-americanos e de empreendimentos imobiliários”5, durante as décadas de 30 e 40 do século passado, o que lhe permitiu comprar transmissores e inaugurar sua primeira emissora, a Rádio Globo do Rio de Janeiro, no dia 2 de dezembro de 1944. Quando da solenidade de inauguração da emissora de rádio, Roberto Marinho, já demonstrando uma visão estratégica de mercado e procurando diversificar ainda mais seus empreendimentos, enfatizou que “esta não é só uma estação de rádio que estamos lançando. É uma nova forma que O Globo encontrou de servir ao país”.6

Na época, Roberto Marinho teve que enfrentar a concorrência direta e brigar pela audiência com o dono do ramo no Brasil, Assis Chateaubriand, com quem haveria de ter outro confronto, na década de 60, quando pretendeu e acabou ocupando novos espaços em uma área também dominada por Chatô, o da televisão. Na disputa com Chatô, saiu mais uma vez vencedor, obtendo maior audiência tanto na programação geral como no telejornalismo. O “Jornal Nacional” conseguiu em pouco tempo superar o prestígio do “Repórter Esso”, da TV Tupi, dos Diários Associados. Segundo o próprio Roberto Marinho seus programas noticiosos passaram a ser, para os brasileiros, “uma nova maneira de ver o mundo”, por meio do padrão de qualidade da Rede Globo.



Quando o jornal O Globo completou 70 anos, Roberto Marinho escreveu um texto no qual reconhece que o grupo multimídia começou mesmo com a instalação da rádio:
“Naquela época, início da década de 30, não se podia falar em Organizações Globo nem supor que viessem a existir. Essa história esperaria até 1944 para dar seu primeiro passo fora do âmbito da comunicação impressa, quando decidi fundar a Rádio Globo do Rio de Janeiro, num momento em que o rádio ganhava importância graças aos noticiários sobre a Segunda Guerra Mundial. Somente comecei a pensar em televisão em 1960 e resolvi colocar no ar a TV Globo do Rio de Janeiro, em 1965”. 7
Na verdade, Pedro Bial, ao escrever a biografia de Roberto Marinho, conta uma história diferente. Ele afirma que Marinho “pensava como um consumidor, e isso o fez pensar em abrir um canal de TV já em 1950”. Relata que por meio da Rádio Globo um pedido de concessão de uma transmissora de TV fora enviado ao presidente Eurico Gaspar Dutra, que acatou o pedido que foi revogado por Getúlio Vargas em 1953. A concessão só foi outorgada mesmo por Juscelino Kubitschek . 8 Com a eleição de Vargas nos anos 50, O Globo lhe fez oposição a ponto de quando o presidente se suicidou, em agosto de 54, durante a comoção popular duas caminhonetes da Rádio Globo e dois caminhões do jornal O Globo foram incendiados. 9

O Globo fez oposição moderada a Juscelino Kubitschek de quem acabou recebendo a primeira concessão de um canal de TV no Rio de Janeiro, em 1957. Em 1961, Marinho apoiou Jânio Quadros e depois apoiou João Goulart, no início, e conspirou contra ele depois, apoiando o golpe de 1964. Mas, foi Goulart quem lhe outorgou o segundo canal de TV, o de São Paulo. No dia 26 de abril de 1965, inaugurou a TV Globo do Rio de Janeiro, dando início a uma nova fase estrutural das Organizações Globo, beneficiando-se de suas relações com o regime militar e com todos os governos que se sucederam.
“Sob o regime militar, Marinho deu um salto decisivo na expansão de seus negócios ao inaugurar em abril de 65, a TV Globo do Rio. Seu jornal estava entre os mais vendidos na cidade e a rádio era líder de audiência. A TV Globo se firmou rapidamente por três razões: um acordo financeiro e operacional com o grupo norte-americano Time-Life, a colaboração com o regime militar e o declínio das TVs Tupi e Excelsior”. 10
Com uma maior receita e prestígio, a TV Globo passou, no início dos anos 70 a ser o carro-chefe das Organizações Globo. Nem por isso o grupo deixou de investir na mídia impressa. O grupo possui quatro jornais: O Globo, Extra, Diário de S. Paulo e Valor Econômico, este último em parceria com o grupo Folha. Em 1995, Roberto Marinho escreveu sobre as Organizações Globo:
“Em 1986, a então Rio Gráfica Editora incorporou a Editora Globo, de Porto Alegre. A partir daí, além das revistas, passou a editar livros e fascículos e assumiu o nome de Editora Globo. Com a reorganização pela qual passou em 1989, a Editora Globo evoluiu para se tornar a segunda maior do país. Hoje [1995] podemos falar das Organizações Globo com o orgulho de vê-las inclusas entre as maiores do mundo no campo da comunicação de massa. O jornal O Globo é o maior do país; a Rádio Globo transformou-se no Sistema Globo de Rádio enquanto a TV Globo do Rio de Janeiro foi o primeiro passo para que se formasse a Rede Globo de Televisão, hoje cobrindo todo o território brasileiro”. 11
A partir da década de 90, Roberto Marinho passou a cuidar pessoalmente de sua sucessão, tratando de dividir com os filhos as responsabilidades na direção das Organizações Globo, apesar de continuar no comando e manter-se informado sobre tudo. Em 1998 se afastou do comando do conglomerado que tem na rede Globo de Televisão a empresa mais importante do grupo que reúne quatro jornais, rádios, gráfica, gravadoras e canais de TV paga, Internet e editora de livros e revistas, semanais e mensais, direcionadas para segmentos específicos.

Quanto à política, Roberto Marinho era conservador. Quanto à economia, era um liberal de primeira linha. Seus veículos de comunicação sempre seguiram uma “posição política alinhada com seu pensamento e harmonizada com seus interesses. Não se deixou dominar pelo mito confortável da imparcialidade na imprensa. Preferiu o risco de tomar partido, o que fazia de modo transparente”.12


LIÇÕES DEIXADAS
Roberto Marinho, como nenhum outro brasileiro acumulou muito poder ao longo do século XX. Com uma fortuna pessoal avaliado em mais de US$ 1 bilhão e um conglomerado empresarial com faturamento anual de US$ 5,7 bilhões, ele constava, em 2003, da lista dos homens mais ricos do mundo elaborada pela revista Forbes. Ao longo de sua vida, dedicada ao trabalho, encontrou tempo para a prática de esportes. Na juventude praticou natação, boxe e o remo. Na idade madura dedicou-se à pesca submarina e ao hipismo, além de casar-se três vezes: com Stela Marinho, a mãe de seus filhos, com Ruth Marinho e, em 1984, com Lily de Carvalho com quem viveu até o final de sua vida. Ele nasceu no Estácio, um bairro de classe média baixa na Zona Norte do Rio de Janeiro, no dia 3 de dezembro de 1904 e morreu, aos 98 anos, no dia 6 de agosto de 2003. Filho do jornalista Irineu Marinho e de D. Francisca Pisani Marinho, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 22 de julho de 1993, tendo tomado posse a 19 de outubro do mesmo ano, passando a ocupar a cadeira de nº 39. Em 1992, Roberto Marinho publicou um livro intitulado “Uma Trajetória Liberal”, reunindo textos diversos, contendo experiências e testemunhos sobre Carlos Lacerda, Tancredo Neves e Luis Carlos Prestes.

Seu império foi herdado por seus três filhos: Roberto Irineu Marinho, que passou a ocupar a presidência das Organizações Globo; João Roberto Marinho e José Roberto Marinho permaneceram como vice-presidentes de Relações Internacionais e Responsabilidade Social, respectivamente.

Quando da morte de Roberto Marinho, seus filhos divulgaram uma nota oficial, no dia 8 de agosto de 2003, concluindo a mesma com o firme propósito de dar continuidade a obra do pai: “Nosso compromisso, em conjunto com nossos companheiros de trabalho, é ampliar a obra de Roberto Marinho, voltada para informar, entreter e educar a população brasileira. Assim o fazemos pela importância em si desse objetivo para toda nossa sociedade, mas também porque, dessa forma, manteremos viva a sua presença”.13

Numa entrevista concedida à revista WSN – World Screen News, Roberto Irineu Marinho, herdeiro e hoje presidente das Organizações Globo, enumerou três importantes lições, deixadas por seu pai, para a condução dos negócios, salientando que elas funcionam como um guia, fornecendo-lhe a certeza de que está no caminho certo. A primeira lição seria sempre acreditar no Brasil, pois foi acreditando no Brasil e nos brasileiros, ao longo dos últimos 80 anos, que as Organizações Globo foi construída. A segunda lição é procurar trabalhar sempre com os melhores e mais talentosos profissionais, independente de amizades, laços familiares e de divergências ideológicas. A terceira lição é manter a paixão pela comunicação que “nos motiva a construir um relacionamento com nossa audiência, pesquisar por inovações e manter a qualidade do produto final. Embora sejamos líderes do mercado, nós não estamos acomodados. Nós não consideramos que perseguir a qualidade e a inovação seja meramente uma despesa. Este é o caminho pelo qual geramos nosso lucro”.14

A partir de suas próprias atitudes e opiniões e do depoimento que inúmeros amigos e adversários deram sobre Roberto Marinho, pode-se construir um perfil de suas qualidades que hoje são referências para profissionais e empresários. Ele se imortalizou como um dos mais destacados homens de negócios do Brasil, porque soube ser um empreendedor obstinado. Além de visionário imprimiu sua marca na cultura brasileira.

Logo após o Golpe de 1964, que ele apoiou, tomou uma atitude corajosa contra a exigência do ministro da Justiça, Juracy Magalhães, que convocou os proprietários dos jornais após a decretação do AI-5 e exigiu que as empresas não admitissem cassados políticos em suas redações. Na oportunidade Roberto Marinho protestou dizendo: “O cassado político perde seus direitos políticos, mas não o direito ao exercício de sua profissão, que sequer lhe pertence, mas à sua família que, para sobreviver, depende deste direito”.15

É também de Roberto Marinho a seguinte auto definição: “Sou um democrata que sempre respeitou a livre expressão do pensamento e das idéias, mesmo quando elas são inteiramente contrárias às minhas”. Ele também era extremamente consciente do valor e do papel desempenhado pelos veículos de comunicação: “Utilizando-se a força dos meios de comunicação pode-se talvez vencer, mas não convencer. O convencimento exige diálogo. E este implica consulta à opinião da coletividade”.

Roberto Marinho, que foi presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) por duas gestões (1979-1984), acreditava que, por definição, a imprensa é o instrumento para difusão das divergências e dos conflitos inerentes à sociedade moderna:


“ela [a imprensa] é uma poderosa arma para a fiscalização coletiva dos atos do Governo e um instrumento posto, institucionalmente, a serviço do debate das idéias. Somos o veículo do pluralismo, fundamento da democracia. Faltaríamos ao nosso compromisso publico se fugíssemos à nossa responsabilidade de opinar. Todos temos o direito, inerente à própria concepção de democracia, a expressar nossas preferências. A propor caminhos que nos pareçam os melhores. Esse direito não pode ser negado à imprensa sob pretexto nenhum”.

Como presidente da ANJ, Roberto Marinho, demonstrando mais uma vez sua visão mercadológica e pioneirismo consolidou a ANJ, reunindo os jornais brasileiros em torno de uma associação. Foi durante sua gestão que os primeiros estudos sobre elaboração de jornal foram realizados e criados grupos técnicos com o objetivo de aprimorar a atividade do jornalismo. Foi em sua gestão que a ANJ promoveu a primeira campanha institucional visando incentivar a leitura e o consumo do veículo impresso, além de se estabelecer a padronização da mancha impressa o que resultaria na criação do sistema de módulos de publicidade, adotado por todos os jornais do país.

Em síntese, pode-se ainda destacar outros ensinamentos e exemplos deixados por Roberto Marinho que servem de inspiração para aqueles que pretendem enfrentar os desafios e as adversidades do século XXI e que desejam alcançar o sucesso. Roberto Marinho:

- Manteve-se sempre atualizado com as tendências políticas e econômicas, além de acompanhar o desenvolvimento tecnológico no mundo;



  • Teve ousadia e corria riscos. Como empresário apostava em idéias revolucionárias e importava novas práticas gerenciais e profissionais. Como jornalista nunca teve medo de enfrentar, fazendo oposição, ou de apoiar, se unindo a presidentes ou correntes partidárias;

  • Soube exercer o poder em defesa de seus princípios e ideais. Nunca buscou o aplauso fácil, mas tinha consciência de seu poder e sabia que todos que o procuravam estavam sempre a pedir alguma coisa, defendendo interesses pessoais. Exatamente por isso sabia dosar seu apoio;

  • Soube manter a união familiar em torno do negócio, treinando os filhos na arte e no oficio, exigindo que todos conhecessem e soubessem fazer de tudo dentro das empresas;

  • Soube identificar o momento exato de se retirar e conduzir pessoalmente sua sucessão;

  • Teve o senso da oportunidade e aproveitou todas as chances que lhe foram apresentadas. Sabia o momento exato de avançar ou recuar para adotar novas atitudes e empreitadas, a exemplo de parcerias firmadas inclusive com concorrentes;

  • Foi um grande negociador e com flexibilidade soube tirar partido para beneficiar suas empresas;

  • Reconhecia seus próprios limites e por isso sempre procurou trabalhar com os mais competentes, independente de ideologia, raça ou credo religioso. Acreditava e apostava nas boas idéias e propostas revolucionárias;

  • Respeitava os adversários, mas só entrava numa competição para ganhar;

  • Era um líder nato. Não agredia nem humilhava os subalternos, mas conduzia os negócios com mão-de-ferro: todos sabiam de quem era a última palavra;

  • Procurava ver na profundidade dos fatos (econômicos e políticos) não se limitando às borbulhas da superfície;

  • Sempre procurou estar no local certo, na hora certa;

  • Exigia fidelidade à empresa, à sua missão e o cumprimento dos objetivos planejados.

  • A diversidade de atuação empresarial foi a receita para a construção do maior conglomerado de comunicação do Brasil.



OPINIÕES SOBRE MARINHO

Apesar de muitos de seus atos serem contestados por adversários, políticos e profissionais, e até mesmo em nível acadêmico, Roberto Marinho, sempre teve uma explicação para suas decisões. Se as mesmas não deram certo ou não foram aceitas pela maioria, pelo menos ele acreditava nelas. Sempre esteve em sintonia fina com a política, com os políticos, com o desenvolvimento tecnológico e sabia, como ninguém, avaliar os riscos e o momento certo para novos empreendimentos. Era firme em suas decisões, fossem elas de cunho meramente administrativo ou político. Roberto Marinho foi um homem vitorioso e em sua carreira de sucesso soube agradar a muitos, mas também desagradou a outros. Enfim, ele era um homem de posições, um homem de opinião, pois só quem as tem pode mudar de direção, avançar ou retroceder, exercendo com sabedoria a estratégia político-empresarial.

A seguir, algumas opiniões sobre Roberto Marinho:

Jorge Rodrigues, advogado: “ O Roberto era um homem de grande coragem física. Ele dizia o seguinte: ‘Um homem que não tem coragem não merece viver’”. Seu amigo José Aleixo também destaca sua coragem: “Ele nunca teve medo físico de nada, ele sempre foi uma pessoa muito corajosa”.

Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente: “O que é o empresário? O que caracteriza um empresário? No fundo, é política, não é? Tem que ver o todo e ter audácia. Se você não for capaz de ver o conjunto e ter audácia, você pode ser um bom chefe de empresa, um bom capitão-de-indústria como se diria, mas você não é um líder, não é um empreendedor. Um empreendedor tem que inovar , e o Roberto Marinho é isso. Então, um empresário definido assim, é também um político”.

José Sarney, ex-presidente: “Ele era um homem de extrema polidez, um dos homens mais educados que eu já conheci. Juntava aquela sobriedade do poder que ele tinha com uma polidez muito grande. E aquilo decorria da personalidade dele sem que a gente percebesse ali qualquer esforço para que isso ocorresse”.

Luis Inácio Lula da Silva, presidente: “O Brasil perde um homem que passou a vida acreditando no Brasil. Como dizia o nosso amigo Carlito Maia, tem gente que vem ao mundo a passeio e gente que vem ao mundo a serviço. Roberto Marinho foi um homem que veio ao mundo a serviço. Quase um século de vida de serviços prestados à comunicação, à educação e ao futuro do Brasil”.16

Paulo Henrique Amorim: “Roberto Marinho era mais do que um empresário de visão. Ele era o editor-at-large do jornalismo da Rede Globo (e do jornal O Globo). Ou, como se dizia na redação, quando cheguei à TV, ele era ‘o nosso melhor repórter’. Ele e só ele decidia sobre o noticiário ‘sensível’ de política e economia”.17

Aloizio Mercadante, senador: “Foi um homem que atravessou pelo menos 70 anos da nossa história, sempre presente nos fatos mais relevantes da vida pública, interferindo, acompanhando, participando, alterando processos extremamente relevantes para a vida da nossa sociedade. (...) As nossas divergências são pequenas diante do que representou e o que pode representar as Organizações Globo para construir uma sociedade democrática plural, livre e cidadã”.18

Antonio Palocci, deputado federal: “Dr. Roberto Marinho foi fundamental na construção da democracia brasileira e no fortalecimento, na estabilidade das instituições democráticas do Brasil”


CONSIDERAÇÕES FINAIS

A força do prestígio de Roberto Marinho foi registrada pela revista Veja com o seguinte texto:

“O empresário costumava dizer que vivia muito ocupado para pensar na morte. Talvez por isso não tenha levado à frente o projeto de escrever suas memórias, previamente batizadas por ele de “Condenado ao êxito”. A exatidão do título pôde ser conferida na quinta-feira. Compareceram ao velório e ao enterro de Roberto marinho mais de 3.000 pessoas, entre populares e mandatários. Estiveram presentes o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e José Sarney, cinco governadores , seis ministros de Estado , os presidentes do Senado e da Câmara, quase todos os empresários, políticos e artistas de alguma relevância no cenário nacional, além de adversários políticos históricos, como o ex-governador do Rio de Janeiro Leonel Brizola. Morreu como viveu. Cercado por poderosos”.19
Um trecho do texto de como a revista Época, registrou sua morte resume a figura de Roberto Marinho:

“Para Roberto Marinho, os desafios estavam acima de tudo. Nunca era tarde para abraça-los. Não é à toa que, homem de jornal e rádio, resolveu investir em televisão aos 61 anos. Iniciava um negócio novo, repleto de adrenalina e turbulências, com energia de garoto em plena terceira idade. Tempos depois, aos 84 anos, mostrou novamente que não tinha medo do tempo – e investiu, desta vez no amor. Passou então a namorar dona Lily, com quem se casou em 1989. Sua morte, aos 98 anos, foi recebida com surpresa para muitos. Mas como se surpreender com o falecimento de alguém numa idade tão longeva? A resposta está na vitalidade, inteligência e inquietação que o acompanharam até o fim. Esse comportamento dava a impressão a muita gente de que o jornalista era imortal – impressão essa que criava anedotas e historietas em torno de sua longevidade (...). Doutor Roberto, como todos o chamavam, era um empreendedor nato. Mas preferia ser conhecido como jornalista, e não como empresário. Participou ativamente no processo que culminou na criação de Época e fez questão de escrever seu primeiro editorial”.20

Concluindo, pode-se dizer que Roberto Marinho sabia defender seus pontos de vista e seus interesses empresariais dentro de nossa sociedade competitiva e capitalista, procurando realizar e consolidar suas empresas conduzindo-as à liderança do mercado e, como ele dizia, para “servir ao país”. Para realizar seus sonhos e objetivos foi necessário muito trabalho, determinação, bom senso, humildade, respeitar as opiniões contrárias, ter senso de oportunidade, ousadia, saber selecionar pessoas competentes e, acima de tudo, acreditar em si próprio e nos próprios sonhos, pois só quem sonha, constrói. Foi sonhando que Santos Dumont conseguiu voar e foi sonhando que Roberto Marinho construiu a maior fábrica de sonhos dos brasileiros: A Rede Globo de Televisão.

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1 “Jornalista por escolha e por destino”. O Globo, 08/08/2003. Disponível em: < http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=3320&sid=463 >. Acesso em 25/09/2007.

2 BIAL, Pedro. Roberto Marinho. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004: 315.

3 “Não temos privilégios”. Isto É. Disponível em: www.terra.com.br/istoe/biblioteca/brasileiro/comunicacao/comunicacao01.htm acesso em 06/02/2005.

4 Academia Brasileira de Letras. Roberto Marinho. Disponível em www.academia.org.br. Acesso em 12 dez.2004

5 Roberto Marinho influiu durante sete décadas. Folha de S.Paulo. São Paulo, 7 agos. 2003.

6 “Globo has Brazil in its pocket”. Variety, 25/03/1987, p. 131. MATTOS, Sérgio, “As Organizações Globo na mídia impressa” in : BRITTOS, Valério Cruz e BOLAÑO, César (orgs.). Rede Globo: 40 Anos de poder e hegemonia. São Paulo, Editora Paulus 2005, pp 267-286. MATTOS, Sergio. História da Televisão Brasileira: Uma visão Econômica, Social e Política. Petrópolis/RJ, Editora Vozes, 2002.

7 MARINHO, Roberto. Quem somos. Disponível em http;//editoraglobo.globo.com e www.infoglobo.com.br


8 BIAL, Pedro. Roberto Marinho. Jorge Zahar Editor, 2004.

9 Roberto Marinho influiu durante sete décadas. Folha de S. Paulo, 7 agos. 2003.

10 Idem.

11 MARINHO, Roberto. Quem Somos. Disponível em http://editoraglobo.globo.com e www.infoglobo.com.br


12 SOARES, Lucila. Memória: Interrompemos nossa programação”. Veja, 13 de agosto de 2003. Disponível em: < http://veja.abril.uol.com.br/130803/p_080.html >

13 “Roberto Irineu Marinho assume presidência das Organizações Globo”. Folha Online, 08/08/2003.

14 CARUGATI, Anna. Interview: Globo´s Roberto Irineu Marinho (may 2004). Disponível em: www.woldscreen.com/interviewscurrent.php?filename=0504marinho> .

15 “Jornalista por escolha e por destino”. O Globo 08/08/2003.

16 “Morre Roberto Marinho, aos 98 anos”. O Globo 07/08/2003. Disponível em:

< http://geocities.yahoo.com.br/site_espelhomagico/marinho.html >

17 AMORIM, Paulo Henrique. “Os 35 anos do Jornal Nacional”. Disponível em:

< http://www.digestivocultural.com/ensaios/imprimir.asp?codigo=106 . Acesso em 25/09/2007.

18 MERCADANTE, Aloízio. Discurso de homenagem ao jornalista Roberto Marinho na solenidade realizada pelo Senado, em 3 set. 2003. Disponível em: < www.mercadante.com.br/pronunciamentos_88.html > .Acesso em 25/9/2007.

19 SOARES, Lucila. “Memória: Interrompemos nossa programação”. Veja, 13 de agosto de 2003. Disponível em: < http://veja.abril.uol.com.br/130803/p_080.html > Acesso em 25/09/2007.

20 FALCÃO FILHO, Aluízio. “Jornalista e empreendedor”. Época agosto 2003. Disponível em:
< http://revistaepoca.globo.com/epoca/0,6993,ept582791-2117,00.html > Acesso em 06/02/2005.





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