O ladrão do tempo john boyne



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O LADRÃO DO TEMPO
JOHN BOYNE
Tradução: HENRIQUE DE BREIA E SZOLNOKY
Companhia das Letras

2014
Para meus pais e para Michael, em memória




1

UM INÍCIO
Eu não morro. Apenas fico mais e mais e mais velho.

Se você me visse hoje, com certeza diria que sou um homem perto dos cinqüenta anos. Meço exatamente um metro e oitenta e quatro — uma estatura perfeitamente acei­tável para qualquer homem, você há de concordar comigo. Meu peso oscila entre oitenta e cinco e cem quilos — mais uma vez, nada excepcional, apesar de eu ser forçado a ad­mitir que esse número, conforme o ano passa, tenda a variar do valor mais baixo para o mais alto progressivamente, pois sigo o procedimento padrão de iniciar uma dieta extrema todo mês de janeiro e não me permitir nenhum tipo de ex­cesso glutão até depois de agosto, quando o frio se instala e sinto necessidade de um pouquinho de estofo. Tive a sor­te de meu cabelo — antes espesso, escuro e abençoado com uma ondulação sutil — ter resistido à tentação de cair todo de uma vez; ele só ficou um pouco mais ralo no alto da cabeça e assumiu um tom grisalho bastante atraente. Minha pele é bronzeada e, embora eu note algumas pequenas li­nhas de expressão sob os olhos, apenas o mais cruel dos críticos sugeriria que tenho rugas. Ao longo dos anos houve pessoas — tanto homens quanto mulheres — que me deram indícios de que sou um homem atraente, dono de um forte magnetismo sexual.

Contudo, o comentário sobre a minha idade — de que devo estar perto dos cinqüenta — me agradaria imensa­mente, pois já faz muitos anos que não posso dizer com honestidade que vivi apenas meio século. Esse número é apenas a idade, ou melhor, a representação visual de uma idade, à qual estive preso durante a maior parte dos meus duzentos e cinqüenta e seis anos de vida. Sou velho. Posso parecer jovem — em termos relativos — e pouco distinto fisicamente da maioria dos homens nascidos enquanto Truman estava na Casa Branca, mas estou muito distante de qualquer vigor próprio da juventude. Acredito há muito tempo que a aparência é a mais enganosa das características humanas e fico feliz por ser a prova viva da minha teoria.
Nasci em Paris no ano de 1743, durante a dinastia Bour­bon, quando Luís XV ocupava o trono e a cidade podia ser considerada pacífica. Claro que me recordo muito pouco do cenário político da época, mas tenho algumas lembranças de meus pais, Jean e Marie Zéla. Vivíamos em uma situação razoavelmente confortável, apesar de, na época, a França estar mergulhada em uma série de crises financeiras; o país parecia viver sob a sombra de nossas guerrinhas freqüentes, que exauriam das cidades tanto seus recursos naturais quanto os homens que poderiam extraí-los.

Meu pai morreu quando eu tinha quatro anos, mas não em batalha. Ele trabalhava como copista para um famoso dramaturgo da época, cujo nome eu até poderia mencionar, mas como ele e sua obra foram esquecidos por completo, o nome nada significaria para você. Decidi omitir destas memórias a maior parte dos nomes desconhecidos para que eu não precise apresentar todo um elenco de persona­gens no início — dá para conhecer uma quantidade im­pressionante de pessoas em duzentos e cinqüenta e seis anos, sabe? Ele foi assassinado a caminho de casa, quando voltava do teatro tarde da noite, por... vai saber? O golpe de um objeto pontudo em sua nuca o derrubou no chão e uma lâmina rasgou sua garganta, mandando-o desta para uma melhor. O assassino nunca foi encontrado; atos alea­tórios de violência eram tão comuns naquela época quanto são hoje — e a justiça, igualmente arbitrária. Mas o drama­turgo era um homem bondoso e ofereceu à minha mãe uma pensão. Assim, durante os anos remanescentes de sua vida de viúva, nunca passamos fome.

Minha mãe, Marie, viveu até 1758. Àquela altura, tinha se casado outra vez, com um dos atores da companhia de teatro para a qual meu pai trabalhara, um tal Philippe DuMarqué, que tinha manias de grandeza e afirmava ter se apresentado para o papa Bento XXV, em Roma — afirmação que certa vez foi motivo de zombaria por parte da minha mãe e resultou em um espancamento terrível pelas mãos de seu marido encantador. O casamento, embora infeliz e sem­pre manchado pela violência, resultou em um filho, meu meio-irmão Tomas, cujo nome desde então tornou-se de família. Tanto que o tatatatatataraneto de Tomas, Tommy, mora hoje a apenas alguns quilômetros de mim, na área central de Londres, e nos encontramos com freqüência para jantar, ocasiões em que eu invariavelmente "empresto" di­nheiro para que ele sane dívidas acumuladas graças a seu estilo de vida extravagante e ambicioso; isso sem conside­rar — falando sem rodeios — as despesas com narcóticos.

O rapaz em questão tem apenas vinte e dois anos e duvido muito que chegue aos vinte e três. Seu nariz está quase em carne viva por causa da quantidade de cocaína que cheirou nos últimos oito anos — ele não para de mexer o nariz, como aquela feiticeira do seriado — e seus olhos trazem uma invariável expressão vítrea e inconstante. Quando jantamos juntos, sempre por minha conta, ele fica propenso a surtos, tanto de euforia quanto de depressão severa. Já o vi histérico e também catatônico, e não tenho certeza de qual estado prefiro. Ele ri de repente, sem ne­nhum motivo claro, e sempre desaparece, quando assuntos urgentes o arrebatam para longe logo depois que lhe em­presto um pouco mais de dinheiro. Eu tentaria procurar ajuda para ele, mas sua linhagem sempre foi problemática e, como você verá, todos seus antepassados tiveram um final infeliz; portanto, não faz muito sentido. Passei da ida­de de tentar interferir na vida deles faz tempo — e, de qual­quer forma, eles não querem saber da minha ajuda. Creio que não devo me apegar demais a nenhum desses garotos, pois os Tomas, os Thomas, os Thom, os Tom e os Tommy sempre morrem jovens e sempre há um outro deles por aí, pronto para me incomodar. Tanto que na semana passada Tommy me informou que tinha "emprenhado", como defi­niu com elegância, a atual namorada; portanto, a experiên­cia me faz supor que seus dias estão contados. Estamos em meados do verão e a criança deve nascer perto do Natal. Ele providenciou um herdeiro para a linhagem dos DuMarqué e, assim, como o macho de uma viúva-negra, sua vida não tem mais utilidade.

Este é um bom momento para acrescentar que foi ape­nas no final do século XVIII, época em que cheguei natural­mente aos cinqüenta anos, que o meu envelhecimento físico se interrompeu. Até então eu era um homem como qual­quer outro, embora nutrisse um orgulho especial por minha aparência — algo atípico para a época — e me dedicasse a manter o corpo e a mente saudáveis, o que só entraria em voga dali a uns cento e cinqüenta anos. Eu me lembro de ter percebido, em algum momento entre 1793 e 1794, que mi­nha aparência continuava inalterada, o que na época me agradou, inclusive porque era raro viver até aquela idade no final do século XVIII. Por volta de 1810 aquilo se tornou assustador para mim, pois o natural seria que eu tivesse a aparência de um homem próximo dos setenta anos; em 1843, no meu centésimo aniversário, eu sabia que algo es­tranho estava acontecendo. Àquela altura, eu já estava aprendendo a conviver com o fato. Nunca procurei opiniões médicas, pois havia bastante tempo meu lema era "por que desafiar a sorte?". Não sou um desses personagens imortais da ficção que imploram pela morte como libertação da clau­sura da vida eterna; os prantos e lamúrias perpétuos dos mortos-vivos não são para mim. Afinal, minha felicidade é plena. Minha existência é construtiva. Contribuo com o mundo em que vivo. E talvez minha vida não seja eterna. O fato de eu ter duzentos e cinqüenta e seis anos não signi­fica necessariamente que viverei até os duzentos e cinqüenta e sete. Mas imagino que sim.

Porém, estou me adiantando em quase dois séculos e meio. Por isso, peço sua licença para voltar por um instante a meu padrasto, Philippe, que só viveu mais tempo do que minha mãe porque certa noite a espancou além da conta e ela desabou no chão, com sangue transbordando pela boca e pela orelha esquerda, para nunca mais se levantar. Eu ti­nha quinze anos na época e, depois de providenciar um enterro decente para ela e garantir que Philippe fosse julga­do e executado por seu crime, deixei Paris com o pequeno Tomas para seguir meu destino.

E foi como um rapaz de quinze anos, viajando de Ca­lais a Dover com meu meio-irmão a tiracolo, que conheci Dominique Sauvet, meu primeiro amor verdadeiro e pro­vavelmente a jovem com a qual nenhuma das minhas de­zenove esposas e novecentas amantes subsequentes jamais poderiam se comparar.
2

QUANDO CONHECI DOMINIQUE
Ouvi muitas vezes a afirmação de que é impossível se esquecer do primeiro amor; o ineditismo das emoções seria, por si só, o suficiente para assegurar uma lembrança dura­doura em qualquer coração pulsante. Tal fato não deve ser tão incomum para o homem médio, que acumula talvez uma dúzia de amantes e uma ou duas esposas ao longo da vida, mas é um pouco mais difícil para uma pessoa que viveu tanto tempo quanto eu. Admito ter esquecido os no­mes e as características de centenas das mulheres com quem compartilhei prazeres — em um dia bom, consigo me lem­brar de apenas catorze ou quinze esposas —, mas Dominique Sauvet está consolidada em minha memória como um marco histórico do momento em que deixei a infância para trás e comecei uma vida nova.

O navio que ia de Calais a Dover estava abarrotado e sujo, e era difícil escapar do cheiro viciado e deplorável de urina, suor e peixe morto. Apesar disso, eu estava exultante, pois tinha visto meu padrasto ser executado havia al­guns dias. Em meio à segurança de uma pequena multidão, desejei com toda a força que ele olhasse na minha direção no momento em que colocou a cabeça sobre o bloco de pe­dra, e por um breve instante ele olhou. Quando nossos olhos se encontraram, temi que, em seu terror, ele não me reconhecesse. Apesar de me dar calafrios, estava feliz com a sua execução. Ao longo dos séculos jamais esqueci a ima­gem do machado despencando sobre seu pescoço, o corte súbito e o gemido da multidão, entrelaçado com uma ovação e o som de um jovem vomitando. Certa vez, quando eu tinha por volta de cento e quinze anos, acompanhei uma leitura que Charles Dickens fez de um de seus livros, que continha uma cena de guilhotina, e precisei levantar e ir embora, de tão perturbadora que foi a memória daquele dia um século antes, tão arrepiante a lembrança de meu padras­to sorrindo para mim antes de sua vida acabar — embora a guilhotina mesmo só começasse a ser usada após o início da Revolução, coisa de trinta anos depois. Lembro-me do olhar gelado do escritor nas minhas costas enquanto eu saía, talvez pensando que eu me opunha à sua obra ou a considerava monótona, coisa que seria impossível.

Escolhi a Inglaterra como nosso novo lar porque era uma ilha, um território sem conexão com a França, e eu gostava da idéia de estar em um lugar independente e com­pleto por si só. Não era uma viagem longa e passei a maior parte dela cuidando de Tomas, então com cinco anos, que estava enjoado e insistia em tentar vomitar por cima da la­teral do navio um conteúdo que nem havia mais em seu estômago. Levei meu irmão até a balaustrada e o sentei com o rosto de frente para o vento, na esperança de que o ar fresco o ajudasse de alguma maneira, e foi então que vi Dominique Sauvet, a apenas poucos metros de nós, seu vo­lumoso cabelo escuro esvoaçando para trás com o vento e refletindo a luz conforme ela olhava em direção à França, que se distanciava de nós; em direção às lembranças de suas próprias angústias.

Ela flagrou meu olhar e o devolveu por um instante, antes de desviar o rosto. Depois olhou para mim mais uma vez, eu enrubesci, descobri o amor e peguei Tomas no colo, que imediatamente recomeçou a gritar de dor.

"Fique quieto!", implorei a ele. "Shiu!" Eu não queria parecer incapaz de cuidar de uma criança, mas era contra deixá-lo andar pelo navio sem supervisão, chorando, gri­tando e urinando quando bem entendesse, como algumas crianças a bordo faziam.

"Tenho um pouco de água fresca", disse Dominique, aproximando-se de nós e resvalando de leve em meu om­bro, seus dedos pálidos e finos tocando com delicadeza mi­nha pele exposta pelo longo rasgo na camisa barata, fazen­do com que todo o meu corpo se incendiasse de excitação. "Talvez ajude a acalmá-lo um pouco."

"Obrigado, mas ele já vai melhorar", respondi nervoso, com medo de conversar com aquela visão de beleza e ao mesmo tempo amaldiçoando minha inaptidão. Eu era ape­nas um menino, incapaz de fingir ser outra coisa.

"Não preciso dela, de verdade", continuou Dominique. "E também não falta muito para chegarmos." Ela se sentou e me virei devagar, observando sua mão descer pelo decote do vestido e voltar com uma pequena e estreita garrafa de água cristalina. "Eu a mantive escondida", explicou. "Tive medo que alguém tentasse roubá-la."

Sorri e aceitei a garrafa oferecida, observando Domini­que enquanto eu tirava a tampa e entregava a água a Tomas, que bebeu um pouco, agradecido. A paz voltou a reinar sobre ele e suspirei aliviado.

"Obrigado", eu disse. "Você é muito gentil."

"Fiz questão de trazer algumas provisões quando saí­mos de Calais, por precaução", ela disse. "Onde estão seus pais? Não deveria ser deles a responsabilidade de cuidar do garoto?"

"Estão debaixo de sete palmos de terra, em um cemité­rio parisiense", respondi. "Uma assassinada pelo marido, o outro assassinado por ladrões."

"Lamento", ela respondeu. "Então estamos na mesma situação. Viajando sozinhos."

"Tenho meu irmão."

"É claro. E como você se chama?"

Estendi a mão na direção dela e, conforme o fiz, me senti maduro, um adulto, como se o ato de cumprimentá-la selasse minha independência.

"Matthieu", respondi. "Matthieu Zéla. E essa criatura de estômago fraco é o meu irmão, Tomas."

"Dominique Sauvet", ela disse, ignorando minha mão e nos cumprimentando com um leve beijo na bochecha, o que me deixou ainda mais alvoroçado. "Prazer em conhecê-los", acrescentou.

Nosso relacionamento começou naquele instante e aprofundou-se mais tarde, naquela noite, em um quartinho de um albergue em Dover, onde nós três nos refugiamos. Dominique era quatro anos mais velha do que eu — tinha dezenove — e, naturalmente, mais experiente em assuntos românticos. Deitamos juntos na cama, próximos um do ou­tro para nos mantermos quentes, tensos por causa de nossos desejos. Ela enfim escorregou a mão por baixo do lençol frio e carcomido que mal nos cobria e passeou pelo meu peito e abaixo dele até que nos beijamos e permitimos que nossa paixão nos consumisse.

Quando acordamos na manhã seguinte, eu estava cheio de temores pelo que poderia acontecer. Olhei o corpo de Do­minique ao meu lado, o lençol cobrindo-a o suficiente para ocultar suas partes íntimas, mas ainda assim provocando em mim uma nova onda de desejo, e temi que ela se arrependes­se do nosso comportamento na noite anterior. Quando seus olhos se abriram, de fato houve uma estranheza à medida que ela se cobria ainda mais com o lençol — expondo, assim, mais do meu corpo, o que me deixou profundamente cons­trangido —, até que, enfim, ela se enterneceu e puxou meu corpo de encontro ao dela mais uma vez, com um suspiro.

Passamos aquele dia caminhando por Dover, Tomas conosco, como se fôssemos marido e mulher, e Tomas, nos­so filho. Eu transbordava de alegria, certo de que aquela era a vida mais perfeita que poderia existir. Eu queria que o dia durasse para sempre e, ainda assim, ansiava para que pas­sasse rápido e voltássemos logo ao quarto.

Naquela noite, porém, tive uma surpresa desagradável. Dominique ordenou que eu dormisse no chão com Tomas e, quando protestei, ela disse que, se eu não o fizesse, ela me cederia a cama e dormiria ela mesma no chão; então cedi. Quis perguntar o que havia de errado, por que de re­pente ela me rejeitava daquela maneira, mas não consegui encontrar as palavras. Imaginei que, se eu exigisse mais do que ela estava disposta a oferecer, ela me consideraria estú­pido, infantil, um bebê, e eu estava determinado a não dar motivos para que ela me desprezasse. Eu já pensava em como queria cuidar dela, ficar ao seu lado para sempre, mas hoje não tenho dúvidas de que ela achava que, como eu tinha apenas quinze anos, se quisesse algum futuro neste mundo, provavelmente não conseguiria comigo. Estava es­perando algo melhor.

Um erro, como ficaria evidente.
3

JANEIRO DE 1999
Moro em um apartamento agradável, com face sul, em Piccadilly, Londres. É um apartamento no subsolo de uma casa de quatro andares. A parte superior da propriedade é habitada por um ex-ministro do gabinete da sra. Thatcher cujas tentativas de conseguir uma cadeira na Câmara dos Lordes foram esnobadas de imediato pelo sucessor da Da­ma de Ferro, o sr. Major — que ele desprezava por causa de um incidente no Treasury alguns anos atrás. Desde en­tão, ele se embrenhara no menos prestigioso mas financei­ramente muito mais recompensador mundo da televisão via satélite. Como grande acionista da corporação que em­prega meu vizinho, tenho muito interesse em sua carreira e fui, em parte, responsável pela estreia de seu programa de entrevistas políticas exibido três vezes por semana e que, nos últimos tempos, vem obtendo resultados ruins de audiência devido à opinião geral de que ele é "coisa do passado". Apesar de considerar completamente absurda a noção do público de que qualquer coisa da década anterior seja "coisa do passado" — minha própria longevidade atesta isso —, suspeito que sua carreira esteja de fato chegando ao fim, e lamento, pois ele é um homem agradável e de bom gosto, característica que temos em comum. Ele foi gentil o suficiente para me convidar a visitá-lo em di­versas ocasiões, e certa vez jantamos com uma belíssima louça húngara de meados do século XIX que eu podia jurar que vi sendo fabricada em Tatabánya, enquanto passava minha lua de mel com, se bem me lembro, Jane Dealey (1830-1866), com quem me casei em 1863. Moça adorável. Belos traços. Final medonho.

Eu teria condições de viver com um luxo igual ao do meu amigo televisivo, mas não tenho o menor interesse. Neste momento, simplicidade é o que me agrada. Já vivi na penúria e já vivi na opulência. Dormi em calçadas e caí de bêbado em palácios, como um vagabundo criminoso ou como um idiota coberto de vômito. O mais provável é que eu repita ambos. Vim para este apartamento em 1992 e des­de então tenho vivido aqui. Fiz dele um belo lar. Há um pequeno vestíbulo assim que entramos pela porta da frente, que leva a um corredor curto que se abre para a sala de estar, um degrau abaixo, com um belo conjunto de janelas que se projetam para fora. Ali mantenho meus livros, meus discos, meu piano e meus cachimbos. Distribuídos pelo res­tante do apartamento estão um quarto, um banheiro e um pequeno quarto de hóspedes usado apenas pelo meu sobri­nho muito distante Tommy, que telefona para sairmos sem­pre que precisa de dinheiro.

No aspecto financeiro, minha vida tem sido próspera. Não entendo muito bem como acumulei meu dinheiro, mas há bastante dele. A maior parte se multiplicou sem eu per­ceber. Para dar o salto entre o navio de Dover e minha po­sição atual, assumi diversas funções e cargos, claro, mas acho que minha verdadeira sorte foi ter mantido meu di­nheiro como dinheiro, e nunca em títulos, ações, apólices de seguro ou pensões. (Seguro de vida é desperdício de dinheiro, no meu caso.) Tive um amigo — Denton Irving — que perdeu uma quantia imensa na quebra de Wall Street no começo deste século. Foi um daqueles sujeitos que se jogaram da janela do escritório por causa da sensação de fracasso. Um tolo; considerando pessoal algo que o país inteiro enfrentou. A culpa não foi dele, de jeito nenhum. Enquanto caía, ele com certeza viu metade das fortunas seculares de Nova York diante de suas janelas de hotel, con­templando seus próprios fins. Aliás, ele falhou até mesmo nisso. Errou o cálculo e acabou com uma perna quebrada, um braço estilhaçado e duas costelas fraturadas em plena avenida das Américas, gritando de agonia por cerca de dez segundos antes de um bonde virar a esquina em alta velo­cidade e terminar o serviço. Mas acho que conseguiu o que queria.

Sempre fui a favor de gastar dinheiro, pois há pouquís­simo sentido em ter esse troço se você não o usa para tornar sua vida mais confortável. Não tenho descendentes, portan­to ninguém a quem deixar minha herança na improvável ocasião da minha morte — com exceção do Tommy atual, claro —, e mesmo se tivesse, acredito que uma pessoa deve construir seu próprio caminho, sem ajuda externa.

Tampouco critico a época em que vivo. Conheço alguns jovens de setenta, oitenta anos que reclamam do mundo em que vivem e das mudanças que não param de acontecer. De vez em quando converso com eles no clube e considero um tanto ridículo o desdém que demonstram pelo Hoje. Recusam-se a ter as chamadas geringonças modernas em casa, fingindo incompreensão quando um telefone toca ou al­guém lhes pede o número do fax. Uma estupidez. O telefo­ne surgiu antes deles, ora. Aproveite tudo que sua época oferece, estou lhe dizendo. Essa é a essência da vida. Parti­cularmente, acredito que o final do século XX tem sido bas­tante satisfatório. Talvez um pouco tedioso em certos mo­mentos — embora eu tenha ficado obcecado por algum tempo com o programa espacial norte-americano durante os anos 1960 —, mas bom o suficiente por enquanto; já vi piores. Você devia ter visto como era o século passado. No final do XIX. As coisas eram tão morosas que não guardo mais do que duas lembranças de um período de vinte anos daquela época. E uma delas é apenas uma dor nas costas que me manteve de cama por seis meses.
Em meados de janeiro, Tommy me telefonou e me con­vidou para jantar pela quarta vez em três semanas. Eu não o via desde o Natal e, até então, tinha conseguido despistá-lo. Mas sabia que mais um adiamento o induziria a me visitar tarde da noite, e sempre que ele fazia isso acabava dormindo em casa — algo que eu não encorajava. Convida­dos que pernoitam são bem-vindos durante a noite, quando há bebidas para beber e conversas para conversar, mas na manhã seguinte sempre existe um constrangimento, quan­do tudo o que você quer é que eles vão embora e o deixem com a sua rotina. Ele não é um dos meus Thomas favoritos e com certeza não se compara a seu tetravô, mas também não é o pior deles. O rapaz tem certa arrogância charmosa, uma mistura de auto-confiança, naiveté e negligência que me atrai. Com vinte e dois anos, é o que eu chamaria de um jovem do século XXI. Isso se ele durar até lá.

Nos encontramos em um restaurante no West End, mais cheio do que eu esperava. O problema de ser visto em público com Tommy é que qualquer momento de privaci­dade com ele se torna impossível. Do minuto em que ele entra em um recinto até o minuto em que sai, todo mundo o encara, sussurra e lança olhares furtivos em sua direção. Seu status de celebridade intimida e hipnotiza as pessoas na mesma proporção, e tenho o dúbio privilégio de acabar envolvido em tudo isso. Na noite da última terça-feira não foi diferente. Ele chegou atrasado e quase despencou ao passar pela porta, sorrindo ao se aproximar de mim com seu terno Versace preto, camisa preta e gravata preta com­binando, parecendo alguém saído de um velório ou de um filme sobre a máfia ítalo-americana. O cabelo estava cortado de maneira despojada logo acima dos ombros e a barba era de dois dias. Largou-se na cadeira, sorrindo para mim e lambendo os lábios, sem perceber o silêncio que dominara o restaurante. Aparições três vezes por semana nas salas de estar de todo o país, sem contar as maratonas de reprises nos fins de semana, tinham transformado meu sobrinho em uma espécie de celebridade. E a consistência desse status o tornou imune aos incômodos que o acompanham.

Como muitos Thomas anteriores, Tommy é um rapaz bonito e, à medida que amadurece (fisicamente), torna-se ainda mais atraente. Tem seu programa de televisão há oi­to anos, desde os catorze, e passou de sensação adolescen­te a garoto de capa de revista e depois a tesouro nacional de vinte e dois anos. Conseguiu levar dois singles ao topo das paradas de sucesso (apesar de seu álbum não ter alcançado o top dez) e chegou a atuar durante seis meses em uma produção de Aladim no West End; havia um berreiro interminável sempre que ele aparecia de colete, pantalonas e quase mais nada. Ele gosta de reiterar que foi eleito o "garoto mais transável" quatro vezes consecutivas em uma determinada revista adolescente, título que me aterroriza mas o encanta. Ele conhece o mundo corporativo da tele­visão de um extremo a outro. Não é apenas um ator; é uma estrela.

Sua persona nas telas é a de um anjo de coração puro, não muito favorecido no quesito cérebro e a quem nada de bom acontece. Desde sua primeira aparição na programa­ção, no início dos anos 1990, seu personagem parece não ter encontrado nenhum motivo para sair de um raio de um quilômetro e meio de Londres. Ele talvez nem saiba da existência de qualquer outro universo. Cresceu ali, estudou ali e agora trabalha ali. Teve várias namoradas e duas esposas; teve um caso com a irmã e um romance não consumado com outro rapaz — algo bastante controverso para a época. Houve um período em que foi sondado por um importante time de futebol, até precisar desaparecer por causa da leucemia; era apaixonado por balé e obrigado a manter tal fato em segredo; flertou com a bebida, as drogas e o atletismo e fez sabe lá o que mais em sua ilustre carreira. Qualquer outro garoto já estaria morto com todos os desafios que sur­giram em sua vida. Tommy — ou "Sam Cutler", como é mais conhecido pela nação — persevera e está sempre pe­dindo mais. Ele tem, na falta de uma palavra melhor, per­sistência. Aparentemente, isso o torna benquisto por avós, mães e filhas, sem falar em diversos rapazes que copiam seus maneirismos e bordões com vistosa extroversão.

"Você não parece nada bem", eu disse enquanto co­míamos, observando de relance sua pele manchada e páli­da e os anéis avermelhados flutuando sob seus olhos. "E será que podemos, por favor, comer em paz?", implorei a uma garçonete que nos rondava, ansiosa, com um bloco e uma caneta, encarando seu herói com uma volúpia mal disfarçada.

"É a maquiagem, tio Matt", respondeu Tommy. "Você não tem idéia do que ela faz com a minha pele. Antes eu usava porque a gente precisa de um pouco para as câmeras, mas afetou tanto a minha pele que agora preciso de cada vez mais para ficar perto do normal. Agora eu pareço a Zsa Zsa Gabor nas telas e o Andy Warhol fora delas."

"Seu nariz está inflamado", comentei. "Você usa drogas demais. Um dia desses vai abrir um buraco nele. É só uma sugestão, mas talvez você devesse experimentar injetar em vez de cheirar."

"Eu não uso drogas." Ele deu de ombros, a voz perfei­tamente firme, como se acreditasse que aquilo fosse apenas o socialmente correto a fazer — negar, quero dizer —, mas ao mesmo tempo com plena consciência de que nenhum de nós dois acreditava nele, nem por um segundo.

"Não que eu me oponha a elas, entenda", eu disse, to­cando o guardanapo em meus lábios para limpá-los. Eu não estava em posição de dar sermões. Afinal, fui viciado em ópio na virada do século e consegui sobreviver — mas só Deus sabe o que passei por causa disso. "O problema é que as drogas que você usa vão matá-lo. A não ser que você use direito."

"Anão ser que eu o quê?" Ele olhou para mim, perple­xo, segurando a base da taça de vinho e girando-a devagar.

"O problema dos jovens de hoje", eu disse, "não é eles fazerem coisas ruins para si mesmos, como a maior parte da mídia gosta de acreditar. É eles não saberem fazer essas coi­sas direito. Vocês estão tão ansiosos para ficar chapados que não pensam que podem sofrer uma overdose e que, para ser bem franco, podem morrer. Vocês bebem até os fígados explodirem. Fumam até os pulmões entrarem em colapso de tanta podridão. Criam doenças que ameaçam acabar com todos vocês. Divirta-se como bem entender. Seja devasso, é sua obrigação. Mas seja esperto. Exagere em tudo, porém saiba o que está fazendo, é tudo o que eu peço."

"Eu não uso drogas, tio Matt", ele repetiu, com a voz firme mas pouco convincente.

"Então, por que precisa que eu lhe empreste dinheiro?"

"Quem disse que eu preciso?"

"Por qual outro motivo você estaria aqui?"

"Pelo prazer da sua companhia."

Eu ri. Era uma idéia no mínimo agradável. Eu gostava da maneira como ele sustentava as convenções sociais. "Vo­cê é tão famoso", comentei, perplexo com aquele fato. "Ain­da assim, ganha tão pouco. Não entendo. Por quê, exata­mente? Me explique."

"É um beco sem saída", respondeu Tommy. "Existe um pagamento padrão para o que eu faço, e não é muito. Não posso sair, porque virei ator de um papel só e não consegui­ria outros trabalhos — a não ser que eu trabalhasse com produção ou algo assim, que é exatamente o que eu deveria fazer, já que conheço essa indústria de cima a baixo. Vi praticarem todo tipo de golpe e arruinarem todo tipo de nego­ciação. É isso que quero para o meu futuro. Oito anos no papel de um babaca ingênuo em um programa imbecil de TV não te levam para um filme do Martin Scorsese, você sabe. Terei sorte se me oferecerem a oportunidade de aper­tar o botão do sorteio da National Lottery mais de uma vez por ano, caramba. Sabia que fui cogitado para fazer isso há uns dois meses, mas depois acabaram me descartando?"

"Sim, você me contou."

"E me trocaram pela Madonna. Pela Madonna! Não tenho como competir com isso, caramba! Eu trabalho para a merda da BBC, ela não. Imaginei que eles teriam um pou­co de lealdade. E o estilo de vida que eu levo para sustentar meu sucesso demanda um certo nível de dinheiro. Não te­nho como vencer. Sou como um hamster numa rodinha. Eu faria alguma coisa em publicidade, ou talvez desfiles de moda, mas meu contrato me impede de promover qualquer produto enquanto eu estiver no programa. Se não fosse por isso, juro que a esta altura eu seria uma prostituta do capitalismo. Eu venderia de tudo, desde loção pós-barba até absorvente íntimo, se eu pudesse."

Eu dei de ombros. Acho que fazia sentido. "Posso em­prestar uns dois mil", eu disse, "mas prefiro pagar algumas contas suas em vez de lhe dar o dinheiro vivo. Por acaso há homens atrás de você?"

"Homens. Mulheres. Qualquer coisa com batimentos cardíacos me segue pela rua", ele respondeu com um sorri­so arrogante. "Aliás, branqueei meus dentes na semana passada", acrescentou, non sequitur, abrindo um sorriso para me mostrar meia lua de dentes cor de neve. "Ficaram bonitos, não ficaram?"



"Homens", repeti. "Não se faça de bobo comigo. Guarde isso para o programa de TV."

"Que tipo de homens? O que você quer dizer?"

"Você sabe exatamente do que estou falando, Tommy. Agiotas. Traficantes. Pessoas de caráter duvidoso." Inclinei-me para a frente e olhei-o nos olhos. "Você deve dinheiro a alguém?", perguntei. "É por isso que está preocupado? Eu já vi pessoas morrerem nas mãos desse tipo de gente. Ante­passados seus, por exemplo."

Ele se reclinou na cadeira e a ponta da língua passou lentamente pelos lábios. Notei que ele inflava a bochecha esquerda de leve conforme me observava. "Uns dois mil seriam úteis para mim", respondeu. "Se você puder. Estou acertando minha vida, sabe?"

"Ah, tenho certeza que sim."

"Tudo vai dar certo para mim."

"Espero que dê", eu disse com displicência, me levan­tando e ajustando a gravata enquanto fazia menção de ir embora. "Tenho seus dados bancários em casa. Depositarei o dinheiro amanhã. Quando você entrará em contato comi­go de novo? Daqui a duas semanas? Terá gastado tudo nes­se tempo?"

Ele sorriu para mim e reclinou-se na cadeira, dando de ombros. Toquei seu ombro de leve ao me despedir, admi­rando a seda de sua camisa, que não devia ter sido barata. Ele tinha bom gosto para roupas, o Tommy atual. Quando ele morrer, os tablóides farão a festa com sua imagem.



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