O leitor, a contemporaneidade e a tecnologia



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Lumina - Facom/UFJF - v.3, n.1, p.113-132, jan./jun. 2000 - www.facom.ufjf.br

O LEITOR, A CONTEMPORANEIDADE E A TECNOLOGIA

Gilberto Barbosa Salgado*


> O leitor como objeto na modernidade e na Pós-Modernidade. A con­tem­pora­neidade como síntese. O leitor como agente cultural no cenário da crise de paradigmas. O leitor e as Novas Tecnologias
O objetivo central deste ensaio é mapear as relações existentes entre a contemporaneidade, entendida como atributo de síntese das tensões inerentes à dialética entre modernidade e pós-moder­nidade, e a tecnologia, sobretudo naquilo em que esta última possui de sugerir novas pautas para imaginação e representação, por ana­logia e/ou inferência, a partir da perspectiva da Internet, da conexão em rede, e congêneres. É preciso esclarecer, no entanto, que não se trata de uma argumentação metateórica dedicada a esmiu­­çar deta­lhadamente o debate entre modernidade e pós-mo­dernidade1, nem mesmo sobre as novas tecnologias, mas e tão-somente, tentar enten­der o problema do ponto-de-vista do leitor.

A idéia de um mal-estar na cultura ou na civilização (pois sabe-se que a cultura germânica não é afeita a diferenciá-las), foi denun­ciada magistralmente pelo psicanalista austríaco Sigmund Freud na obra “O Mal Estar na Civilização” (ou da cultura), lançada na alvo­rada dos anos trinta e considerada uma das grandes obras do século, mo­­ti­va­dora, inclusive, do Prêmio Göethe de literatura que o autor fora agraciado - por sinal, um dos poucos cientistas a receber tal distinção.

O diagnóstico freudiano era certeiro: os recalques para o incons­­ciente e a repressão sexual aceita moralmente pela socie­da­de eram uma forma de cinismo e de malaise capaz de permitir a as­sun­ção da civilização, a regularidade da ordem social e a esta­bi­lidade e o pro­gres­so na cultura. Simpático a este diagnós­tico, Zygmunt Bauman, sociólogo polonês homônimo do psica­na­­lista austríaco, descreve na introdução do seu “Mal-Estar da Pós-Modernidade” (p. 7), que a diagnose freudiana é um olhar, na realidade, acerca da modernidade.

Neste sentido, domesticação dos sentidos, submissão à ordem jurídico-política, aceitação de uma agenda para a higiene e o bem-es­tar social, conformismo de autômatos e cinismo tecno-social com­­po­riam uma programação pública para ser interna­lizada no plano pri­vado. Este era o lado sombrio, a face lunar da modernidade, que iria se opor a sua faceta solar e “iluminista”, que iniciara um percurso de meio milênio a partir das grandes navegações, das invenções e da tradução da primeira versão da Bíblia para o alemão e se agigantara fabulo­samente no Iluminismo como participação na polis ou saída do homem de sua menoridade, como atestara Kant no seu famoso artigo2.

É possível perceber, neste contexto, duas modernidades, uma, mais antiga, baixa modernidade talvez, certamente caracte­rizada pela reinvenção constante no plano da cultura, laicização social e inven­ção do conceito de homem - no sentido antropológico; des­ta maneira u­ma modernidade em que a poliarquia de ideolo­gias3, o sonho das u­to­­pias e a busca incessante de um esgota­mento perma­nente de novas formas de viver dentro de projetos que levem em consideração a liberdade e a i­gual­dade.

A toda esta plêiade de caracteres ou atributos da moder­nidade fica patente que a velocidade e uma seqüência vertiginosa de aconte­cimentos são capazes de realizar aquilo que Reinhardt Kose­lleck, discí­pulo de Erich Auerbach (o legendário autor de “Mimesis”) defi­niu como aspectos inerentes à moderni­dade: “acele­ração do presente; ruptura com o passado e a tradi­ção; hete­ro­ge­­­neidade do futuro; e a eleição de um tempo no­vo” (Koselleck, 1959, ps. 13-25).

Trata-se, portanto, de uma antecipação, em pelo menos duas décadas, de uma relação e elenco de aspectos da modernidade, o que seria extremamente explorado no decênio de 80. A trans­for­mação, a transmutação seriam possibilidades modernas que jamais pareciam cessar...

Entretanto, no final do decênio de 70, passados dez anos de radicalização total das possibilidades culturais, como exploradas no mai étudiant de 1968 e em todas as primaveras anárquico-culturais de revisão da Kulturkritik, erigidas dentro de novas pautas do mar­xismo, dos “esgarçamentos” de diversas utopias, acompanhados da fa­lên­cia do modelo russo de socialismo real, os teóricos culturais, dentro da nouvelle vague da intelectualidade francesa, redirecio­naram o pensamento, propondo à própria humanidade a acei­ta­ção de que erigia-se uma nova época, pós-moderna - ou tam­bém pós-mo­der­nidade - caracterizada, antes de mais nada, pelo esgo­ta­­mento das “grandes narrativas”, como quisera Jean-François Lyo­tard (1984, p.13). Outros, como Jameson4, procuraram circunscrever no pós-modernismo uma démarche nitidamente cultural, fortemente vol­tada para alterações nas narrativas, dentro de um sentido simbólico.

O decênio de 80, desta maneira, é marcado por um notável debate, em que perfilaram, no Collège de France, de um lado Michel Foucault, debatendo a pauta de uma pós-modernidade marcada por novos processos de subjetivação e estetização da vida cotidiana, em nome dos pós-estruturalistas e neo-nietzscheanos franceses5 e, de ou­tro lado, o alemão Jürgen Habermas, que escrevia uma obra (“O Discurso Filosófico da Modernidade”) como interlúdio à sua “Teoria da Ação Comunicativa”. O debate, que evidentemente não tinha a mínima necessidade de proclamar um vencedor, colheu o filósofo francês no ocaso de sua existência, vitimado prematuramente que foi por doença incurável, de tal maneira que não há grandes registros dos encontros. De qualquer modo motivou ao pensador alemão dois textos adicionais; um belo necrológico a Foucault, intitulado “Com a Flecha no Coração do Presente” e, no Brasil, publicado pela Revista Presença, enquanto que, o segundo, “A Cultura Oci­den­tal e a Perda de Confiança em Si Mesma”, era uma conferência ao Parlamento Espanhol. O debate serviu, sobretudo, para apro­ximar os dois campos teóricos: em primeiro lugar, os teóricos franceses torna­ram-se mais tolerantes, ao perceberem que propo­sições neo-iluministas e “modernas” não são necessa­riamente reacionárias sempre e, em segundo lugar, os “dialéticos” alemães compre­ende­ram que a defesa da diferença e da alteri­dade, de novos processos de subje­tivação e de uma estilística da existência huma­na não são prioritariamente irracionalizantes. Na referida confe­rência ao Parla­mento espanhol, por conse­guinte, Habermas propõe que a moder­nidade realize o encontro do pensamento utópico com o pensa­mento histórico, gerando, desta maneira, uma “consciência moderna do tempo” (Habermas, 1987, p. 131). A consciência pode­­ria, assim, ser o diferencial, por representar uma tentativa explícita do homem de dominar a natureza através da cultura.

Seria, por assim dizer, estranho, então, falar em pós-moderni­dade? Isto não equivaleria dizer “nós não somos contemporâneos de nós mesmos” (Rouanet, 1987, p. 10)? Por sua vez, os projetos da modernidade não seriam vastos, incompletos, inacabados, e, inver­samente, capazes de abarcar dentro de si - e em devir - múlti­plas concepções? Como falar em pós-modernidade se o(s) proje­to(s) da modernidade não se executaram? Projetos díspares como nazismo, socialismo e democracia; ou, por outra, expres­sio­nismo, futurismo e surrealismo cabem, todos, na moder­nidade? Se sim, como? E projetos dentro dos mesmos “ismos”, casos da psicanálise de veio freudiano, kleiniano e ou lacaniano, não se constituiriam em para­digmas em crise, mas dentro da moder­nidade?

Talvez não responder a estas perguntas seja a própria resposta, sublinhando, pois, uma inserção naturalizada destes múltiplos e dife­rentes projetos dentro da modernidade, todos sendo realizados ou superados - ou ainda em vias de superação e/ou realização. Não obstante ficaria mantida a matriz iluminista, solar, emancipatória e esclarecedora da modernidade, cujo fito seria o de libertar o homem. Contudo, pode-se argumentar que a incorporação dos temas pós-modernos dentro da própria pauta da modernidade6 provocou um pequeno deslocamento estético no eixo herme­nêutico das próprias noções de moderno e pós-moderno. E é possível, sem prejuízo ao debate, argumentar ainda que estas exegeses alteraram o quadro de referências e de avaliações sem, entretanto, atingir o cerne das concepções supra-referidas. Neste sentido, com Deleuze e com Guattari, é plausível supor que a pós-modernidade alinhe-se como um deslocamento pela alteridade, isto é, em afirmação de si pró­pria como estilo ou sintoma da própria modernidade, evi­denciando, em contrapartida, sua patologia, necrose ou falência em suas gran­des “plataformas”.

Não se abriria, aí, um vazio, niilismo ou vácuo de propostas e idéias? Parece que não, e é natural explicitar o por quê: a nar­ra­tiva da pós-modernidade em cenários pós-industriais traria a incorporação de novas tecnologias (voltar-se-á adiante à questão) e novos dispositivos para análise e interpretação. Em primeiro lugar, porque espaço, tempo, matéria, forma e conteúdo pode­riam estar submetidos a uma permanente desconstrução para, na acepção barthesiana, constantes montagens, desmon­tagens e re-arranjos serem, por extensão, desdobrados, sendo, deste modo, erigidos em um espaço entre-sujeitos. Em segundo lugar, a pauta da pós-modernidade envolveria uma experimentação constante e auto-referida, de tal maneira que torna-se funda­mentalmente lícito supor que a aceleração do tempo deslocaria a noção de história, apresen­tando, porquanto, não necessaria­mente uma ruptura ou supe­ração da modernidade, mas um deslocamento no sentido e no significado destas referências, descen­trador da noção de repre­sentação (daí sua crise) e de sujeito (daí sua “morte” ou substi­tuição por processos de subje­tivação).

Contudo, se há um vácuo de significações no âmago do eixo deste debate que contrapõe modernidade versus pós-moder­nidade, sua tensão ou aproximação também pode ser descrita por aquilo que se convencionou chamar de crise dos paradigmas nas ciências humanas e sociais. Senão, veja-se: a síntese da dialética entre moder­nidade e pós-modernidade repousaria, possivel­mente, em uma superação da própria transição do debate, uma vez que, este, não poderia se alongar, para não produzir uma “narrativa” que julgasse ser suficiente incorporar todas as facetas consti­tutivas do mesmo. Ao se externalizar em realidades de alcance “micro” (como no plano das subjetividades) ou “macro” (como nas práticas polí­tico-sociais) o próprio debate precisa de “desincorporar-se”, “des­ter­ritorializar-se”. Esta transparência, tal­vez opacidade, ao pedir novos registros, reafirma sua “autore­fle­xividade cultu­ral” (Connor, 1996, p.26). Então, em consonân­cia com o exposto, talvez esteja­mos em uma contem­poraneidade.

Uma das marcas do advento desta contemporaneidade talvez seja a ausência ou o fim de referências prontas : auto-re­fle­xividade, auto-normatividade e auto-modelagem7, são inscri­ções de cons­tru­ção referencial para, justamente, serem, depois, descons­truídas, tendo como resultante uma “desreferen­cia­lidade” dentro da crise dos paradigmas.

Fundamentalmente outros dispositivos de registro sintético inscrevem-se no interior destas narrativas. Complexidade e hetero­doxia (ou heterogênese, como prefere Guattari) são, imprete­rivelmente, dois desenlaces das próprias questões da aceleração e da velocidade. A primeira, por um lado, admite serenamente que para se lidar com qualquer programa de pesquisa (científico e/ou estético) a complexidade de temas e pautas programáticas deve ser consi­derada para permitir empiricidade, caráter heurístico e res­pos­ta efetiva aos desafios sociais, gerando, inclusive, um programa de estudos de alcance mundial, capitaneados pelo pensador Edgar Morin, cuja densidade social destas reflexões, visa, outrossim, impe­dir o “solipsismo” do sujeito (Morin, 1991, ps. 50 e 52).

A segunda, por outro lado, a heterodoxia, trafega em estradas não menos instáveis: trabalhar com a admissão da heterodoxia não só reforça o pensamento complexo e a insuficiência do design de molduras totalizadoras da realidade, como também - e princi­palmente - reforça outros pontos:

a) eixos antinômicos de exegese e hermenêutica social, como os que contrapõem os dualismos micro-macro, agência-estru­tura, subjetividade-objetividade, e individualismo-holismo meto­do­ló­gico tornaram-se, na bipolaridade de seus extremos, insufi­cien­tes para a análise social, pedindo, por conseguinte, seus re-arranjos em “middle range theories”(teorias de médio alcance), como preconizou ainda nos anos 70 o sociólogo norte-ame­ricano Robert King Merton, cuja espacialidade das interpre­tações ganhassem novas geometrias sociais e/ou “trigono­me­trias” de alcance empírico, cujo movimento do intelectual-teó­ri­co-cientista adquira total liberdade;

b) que os pontos resumidos na alínea anterior circunscrevem-se no âmago do debate acerca da “crise dos paradigmas em ciências humanas sociais”, donde esta seria percebida como um movimento amplo, salutar e heterodoxo, de tal maneira que, a própria crise, ganhe proporções de oportunidades;

c) que o debate sobre a crise dos paradigmas é “caudatário” de uma crise da sociedade, portanto mais geral, porém, e antagoni­ca­mente, é um herdeiro direto do debate entre modernidade e pós-modernidade, sendo tributário de suas tentativas de síntese;

d) que este debate gerou um movimento nas teorias e práticas sociais, uma “física desta estética”8;

e) que a noção de verdade, teologizada e prometeica9, herdeira das tradições cristãs e teológicas (deste modo, única, pois atingi-la é atingir a Deus, ou compreendê-lo) perde eficácia e poder expli­cativo e gnoseológico, na medida em que é substituída pelo axioma “de várias verdades em competição”, gerando uma poliarquia10 de modelos, cuja obrigação ético-moral do teórico seria produzir “narra­­tivas” de explicação do alcance máximo e do caminho de sua proposta, capazes, não obstante, de “adver­tir” o interlocutor para o seu sentido protéico11.

Estas posições corroborariam a proposta de Isabelle Stengers12, em torno da ampliação dos limites e dos horizontes das teorias, da constante “inventividade” dos conceitos e categorias de análise, da idéia de paradigmas como fenômenos relacionais13 em ciência e, afinal, do hibridismo hermenêutico e exegético e sua conseqüente aproximação, mesmo que cuidadosa, com a estética, a narrativa literária e os estilos em cultura.

Se a contemporaneidade é a síntese, e a crise dos paradigmas, a moldura do cenário; neste contexto, como fica o leitor?

Uma primeira interpretação localiza o leitor na modernidade. O quê - ou quem - seria o leitor moderno, ou da modernidade?

É plausível pensar que, fundamentalmente, este é um leitor capaz de fabular, imaginar, construir referências e representações, inter­­­pretar e analisar o sentido de todo o seu processo mental e cognitivo. Relacionar-se com obras e autores é um exercício cons­tante de busca de utopias, de liberdades e de igualdades... Pensar que, ao contrário do cinema, do teatro e da fotografia (que, em tese, “apre­sentam” reali­dades “prontas”), e em consonância com o lado meló­dico (e não rítmico) da música, além das artes plásticas, a leitura é uma das poucas formas de arte que faculta ao “usuário”14 construir seus próprios cenários, enredos, tramas e, portanto, imaginação e fabulação.

Na modernidade a leitura foi sempre uma forma simultânea de o leitor atualizar-se e libertar-se, isto é, ser capaz de movimen­tar-se em um espaço relacional com o livro que é contingente : ora oscila em direção a “ler para o exercício profissional”, uma leitura como exercício pragmático, portanto; ora em direção a “ler por ficção e distração”, o chamado entretenimento, ou seja, ler por puro prazer. Demiurgicamente a modernidade era capaz de juntar (a ambas) as possibilidades, ou, se necessário, garantir a sua reali­zação em separado, e parece que há um grande fascínio nestas pos­­si­bi­li­dades, onde ficam garantidos todos os espaços para escolha ampla e construção de significações.

Por outro lado, na pós-modernidade o leitor estaria em um espaço de desconstrução, portanto bastante fragilizado em suas escolhas; consequentemente com a imaginação pavimen­tada para as técnicas do marketing, do merchandising, a lista dos mais vendi­dos... A pós-modernidade retiraria, desta maneira, as referências: a leitura deixa de ser, assim, a garantia fiadora da atualização profis­sional, assim como a certeza de escapismo para um mundo de imaginação, fantasia e cultura.

Pode-se observar o aqui exposto a partir de reflexões susci­tadas pelos dois quadros expostos a seguir, que propõem ima­ginar o leitor e a leitura nos cenários da modernidade e da pós-mo­dernidade. Após estes quadros, entrar-se-á com a questão da con­tem­poraneidade e da tecnologia. Certamente, constituem caracte­rísticas a serem desdobradas e interpretadas em uma tese.

Apresentaremos a seguir dois quadros. O primeiro (em página dupla) é: “Comparação de características entre Indústria Cultural, editorial e o leitor nas perspectivas da teoria crítica e da ação comu­nicativa (cenário: modernidade)”. O segundo (no verso) é: “Com­paração de características entre cultura, editoras e o leitor nas pers­pec­tivas das teorias pós-estruturalistas e neo­nietzs­cheanas (cenário: pós-modernidade)”.

Percebe-se, nestes quadros, que, na contemporaneidade todas as características inerentes à pauta do leitor tanto da modernidade quanto da pós-modernidade ganham amplitude e multiplicidade, ainda que a idéia de contemporaneidade emerja, cada vez mais, como síntese. É como se um leitor moderno lesse para mudar e trans­formar sua vida, assim pensando: “Eu não sou o que quero ser, eu quero ser o que eu quero; eu quero mudar, transformar...” Por oposição, o leitor pós-moderno possivelmente raciocinaria desta maneira : “Eu não quero ser o que eu sou; eu quero ser o que eu não sou, eu quero me achar, me encontrar...”, isto é, achar-se-ia perdido e insatisfeito com suas escolhas, sendo que possivel­mente buscasse a inverossímil ilusão de reencontrar um elo perdido de si próprio. Pois na contemporaneidade, de outra forma, o que o leitor buscaria seria como escolher - e escolher com efi­cá­cia - dentro da possibilida­de de múltiplos “selves”. Este leitor pers­crutaria o seu imaginário em cima das seguintes fabulações, ao escolher leituras : “Eu quero ser o que eu posso ser; eu posso ser o que eu quero ser; eu quero escolher quem serei...”

Observa-se, desta maneira - e pelas circunstâncias - que esta tipologia trifásica do leitor (leitor moderno, leitor pós-moderno, leitor contemporâneo) é melhor e mais utilitária que o binômio leitor-lazer X leitor-profissionalizado, esta última mais funcional, talvez15. Trata-se, por evidência, de leitores “desterritorializados” e “desre­ferencializados” em suas escolhas - racionais ou não - típi­­cos de um cenário onde um vazio de ideologias, utopias e formas de articulação do pensamento, ou seja, “weltans­chauungen”, sejam constitutivos de uma crise de paradigmas nas ciências, na polí­­tica, nas artes e na cultura. Esta crise dos paradigmas, típica dos anos 90, prevista em texto de 1987 pelo sociólogo norte-ameri­cano Jeffrey Alexander, no artigo “The New Theoretical Move­ment”16, ao retirar a idéia de que um paradigma, ao provocar uma revolução científica17, seja capaz de alto teor analítico-conceitual e explicativo, “empurra” o argumento para uma posição em que a interpretação (como hermenêutica sobre processos sócio-culturais) ganhe estatuto e, ao fazê-lo, provoque hibridismos em algumas destas características, às quais pode-se alinhavar: a heterodoxia; o pluralismo; a multipli­cidade; a tolerância; a ciência e a cultura trans­for­madas em merca­dorias; a transmutação da “represen­tação” em práticas sociais; a constituição de processos herme­nêuticos sobre as narrativas; a poliar­quia em uma ordem social constante­mente nego­­ciada e reinventada e, afinal, a busca de novas tecnologias esta­­be­lecidas pela virtualidade e a digitalidade. Nesta nova ordem de questões a idéia de uma verdade é substituída pela idéia de várias verdades. Não há, deste modo, uma verdade a ser decifrada para o leitor e seus “enigmas” se exponen­cializam com o advento da interface virtual e as tecnologias.

Com efeito, como imaginar o leitor face ao advento de novas tecnologias, que atingem não só o livro, como o ato de leitura, podendo, não obstante até ameaçá-lo (o fim do livro?), como inter­roga-se Arlindo Machado?! Como a idéia de rede, certamente ligada a uma “transtemporalidade”, uma experiência de tempo descen­trada e ampliada com a globalização e o advento de mutações tecno­ló­gicas18, afetaria o leitor? Virtualidade, simu­lacro e imersão, seriam características que atingiriam de que maneira o ato de leitura? E temas que também são relacionados a aspectos como controle, des­lo­camento, desejo e informação que, via de regra, possuem uma natureza sócio-psicológica e percepto-cognitiva? Isto sem falar nos elementos inconscientes, simbólicos e imaginários, que também “assolam” a fabulação fantasista do leitor.

Além disso, é preciso lembrar que a idéia de rede envolve um modelo de ordem a-centrada, ainda que o leitor utilize a pro­dução cultural ou de entretenimento que ascede (pela leitura) para re-negociar simbolicamente sua ordem social, sua visão de mundo e, consequentemente, uma identidade que estabelece novas pautas dialogais pela interface virtual19. Ainda assim - para complicar ainda mais o assunto - Bruno Latour, em mais de uma ocasião20, adverte-nos para a idéia de que os fatos cientí­ficos obedecem a uma constru­ção social, onde,

a) a noção de verdade é relativizada, não como um a priori a ser perseguido, mas como um alcance a partir do que per­ma­nece, admitindo-se a noção de várias verdades competindo entre si;

b) a ordem social negocia simbolicamente com os fatos cien­tí­­ficos e com os próprios consensos obtidos pelas comuni­dades de cientistas e,

c) a ciência transformou-se em mercadoria, os laboratórios em indústrias e os cientistas em produtores. Ora, por que não, analo­gicamente, se pensar o mesmo para os livros e seus produtos culturais, as editoras, os autores e os leitores? Sob certo sentido, adiciona-se, a Internet subverte e transgride tudo isto, pois, se a rede é encarada como um espaço e, simultaneamente, suporte material para práticas sociais cuja instantaneidade se revelam no tempo, torna-se mais fácil produzir materialmente um livro, equipar tecnologicamente uma editora e, last but not least, tornar-se um escritor (autor). Parece que o nó górdio permanece sendo a comuni­dade de leitores, que tanto pode aumentar, tornando-se, eviden­temente, co-produtores ou produtores associados21, mas também diminuindo-se sensivelmente para realizar a temerária idéia de que o mundo pode se transformar em um imenso texto, não para ser armazenado em uma biblioteca “tentacular”, como adverte Jorge Luís Borges, porém ilimi­ta­da­mente “hospedado” em “sites” e redes para “transportes” e, em conse­qüência, negócios e difusão cultural.

Neste sentido, seguindo o argumento, o livro torna-se mais do que suporte, prótese, extensão da “mente” ao alcance digital (mais do que manual), bastando, para tal tarefa a conexão, mecanismo que, indubitavelmente, também auxiliaria livreiros, editores, tradutores e agentes literários além, é claro!, de autor e leitor. A transcendência estaria se virtualizando e naturalizando através da cultura, representando, sob certa ótica, uma grande novidade - e avanço sócio-cultural - na contemporaneidade.

Naturalmente que mecanismos existentes na rede como filtragem colaborativa, top-down e bottom-up representam poderosos instrumentos para o leitor sofisticado, sendo a Amazon Books um nítido exemplo: interpreta os desejos destes leitores, “sugere-lhe” listas adicionais de autores e obras afins - um meca­nismo virtual semelhante aos tradicionais índices ono­más­ticos-analíticos, rastreia “obras raras” com mais facilidade (afinal não há estocagem nem armazenagem, mas “transporte” virtual até o leitor-consumidor) e ainda possibilita “chats” privi­legiados para discussões com autores e sugestões temáticas para pesquisa. É impreterível constatar que os desejos dos leitores - estes, os sofis­­­ticados - são ressignificados. Mas, e o leitor comum? Estará defi­nitivamente condenado a um apartheid cultural progres­­sivo, que poderá isolá-lo dos padrões de altíssima sofis­ticação? Condenado a ser indicializado, por seleção natural, a uma vala comum de consumo de manuais de auto-ajuda, biografias sensa­cionalistas e instant-books?22 Torna-se, pois, de um parasita a um simbiótico, totalmente passivo a estes produtos culturais?

Não só em sentido cultural, como em seu sentido prático, esta nova interface, virtual por excelência, promoveria, não obstante, mutações nos regimes de mediação entre homem e tecnologia, entre homem e informação, e entre homem e cultura, mesmo que, por ilação, também se possa falar em “conexão múltipla”, como quer Steven Johnson23, onde se promovam “rela­ções” entre cultura, tecnologia e informação, ainda que com mediação apenas indireta do ser humano. Cabe advertir que esta é apenas uma reiteração de uma previsão já efetuada por Jürgen Habermas, no segundo volume de sua “Teoria da Ação Comuni­cativa”, quando propõe uma nova razão comunicativa, centrada no diálogo racional e no consenso fundado, mas comprovável na prática pelas relações estabelecidas não só entre homens, e entre homem e máquina, mas também - e fundamentalmente - de uma máquina (no caso softwares em computadores) a outra24.

Assim, cair-se-á na contraface da noção de indexicalidade ou indicialidade; como adverte-nos a socióloga Karin Knorr-Cetina no seu “The Manufacture of Knowledge - An Essay on the Constructivist and Contextual Nature of Science”, à página 15: se a indexicalidade pode representar conexões de “prati­ci­dade”, pelo próprio uso da álgebra booleana, de algoritmos ou mecanismos biná­rios, que produzem objetividade na ordem social, por outro lado, ela (a indicialidade) também pode gerar excesso de infor­mações, dificultando as interpretações (ou seja, “gorduras” nas práti­cas sociais e nas negociações da ordem societal).

Estas são novas conexões entre corpo, máquina e espaço; se atingem toda a sociedade, não deixarão de atingir o leitor: o livro produzido pela indústria de softwares gráficos-editoriais e/ou o livro “hospedado” na rede, na Internet, nos computadores, esta máquina “habitável” tem, fatalmente uma nova e cabal possibilidade para os leitores de alta sofisticação, qual seja, a possibilidade de incrementar suas informações com bancos de dados e, mais fortemente ainda, os chamados bancos de dados culturais.

Com esta síntese final, apesar de constituírem-se em conside­rações que “lançam questões”, é factível perguntar, doravante, qual o estatuto prático e epistêmico da formação do leitor na contempo­raneidade? Temas para se pensar e para reflexão em uma outra oportunidade... Lembrar, afinal, a famosa frase de James Joyce em “Finnegans Wake”: “My consumers, are they not my producers?”


Notas
* Sociólogo, psicólogo, psicanalista (AFP/RJ), mestre em Sociologia (IUPERJ), doutorando em Comunicação e Cultura (UFRJ), prof. da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) desde 1987, pesquisador do Centro de Pesquisas Sociais da UFJF.
1. Este percurso já foi realizado em monografias no doutoramento em Comunicação e Cultura - UFRJ/UFJF.

2. Já é abundante a literatura acerca do debate entre modernidade e pós-modernidade. Uma referência inicial é o livro de Marshall Berman, “Tudo que é Sólido Desmancha no Ar - A Aventura da Modernidade”, que inicia este caminho no início da década. Marxistas como Perry Anderson, Terry Eagleton e Fredric Jameson também se dedicaram ao debate, com inúmeras obras, sendo que, talvez, a melhor síntese deste esteja na obra “Da Sociedade Pós-Industrial à Pós-Moderna”, de Krishan Kumar, recentemente publicada no Brasil, que contém dois capítulos que fazem uma boa “cartografia” deste debate.

3. Poliarquia; no sentido literal, muitos governos; no sentido conotativo, livre competição entre diversas formas de pensamento e projetos ideo­lógicos e/ou utópicos.

4. Fredric Jameson, em pelo menos três obras, arroladas na biblio­grafia, ao final, emprestou ao pós-modernismo uma proposição defini­tivamente cultural.

5. Mesmo que Foucault, em mais de uma ocasião, rebatesse a pecha de estruturalista.

6. Como nas citadas obras de Berman, Bauman, Jameson e Perry Anderson, acrescidos de Slavoj Zizek, Richard Sennett, Chris­to­pher Lasch, Russell Jacoby e Terry Eagleton, quase todos através de análises ditas “culturalistas”.

7. As categorias de auto-modelagem, auto-normatividade e autorre­flexi­vidade estão expostas em um brilhante ensaio do sociólogo Karl Mannheim, intitulado “O problema Sociológico das Gerações”, no Brasil publicado pela editora Ática na Coleção Grandes Cientistas Sociais.

8. Coube ao teórico Jeffrey Alexander, no exemplar ensaio denomi­nado “O Novo Movimento Teórico”, publicado nos E.U.A no início dos 80 e, no Brasil, em 1987, pela Revista Brasileira de Ciências Sociais (vol. 2, n. 4), fazer a súmula destas questões.

9. Prometeu Acorrentado, ou a metáfora prometeica, descrita por Ésquilo. Prometeu era a divindade aprisionada que, com o fígado carcomido por abutres, “cuspia”, do alto de seu cativeiro, “verda­des” sobre os homens.

10. Poliarquia, ou governo de muitos. Em um sentido mais literal, múl­tiplos poderes.

11. Proteu, o deus marinho da mitologia grega, capaz de se meta­mor­fosear em feras ou homens, ao antever o futuro, a reali­dade, e “as verdades”.

12. Epistemóloga heterodoxa, sem renunciar ao diálogo com a herme­nêutica, porém efetuando-o com parcimônia, Isabelle Stengers em diversas obras, arroladas, na bibliografia, analisa detalha­da­mente as passagens, que, aqui, são sintetizadas de forma livre.

13. Impossível não pensar, aqui, nas reflexões do psicanalista inglês Donald Winnicott, ainda mais quando se sabe que Isabelle Stengers, junto com Léon Chertok, escreveram uma obra crítica sobre a psicanálise.

14. Este termo absolutamente cibercultural, no sentido que lhe empresta Pierre Lévy na sua mais recente obra.

15. São condições a priori para serem mensuradas em pesquisas quanti­tativas e qualitativas.

16. “O Novo Movimento Teórico”, no Brasil publicado na Revista Brasi­leira de Ciências Sociais.

17. Dialoga-se, como é perceptível, com o Thomas Kuhn de “A Estrutura das Revoluções Científicas”.

18. Ver, para tal, as observações de Paulo Vaz em “Globalização e Expe­riên­cia de Tempo”, na obra intitulada “Signos Plurais”, organizada por Philadelpho Menezes (São Paulo, Experimento).

19. Neste pormenor é emblemática a discussão de identidade na rede, e suas conseqüências psicossociais, como o faz Sherry Turkle no seu “Life in the Screen - Identity in the Age of Internet” (New York, Simon and Schuster, 1995).

20. Refere-se, aqui, a duas obras fundamentais de Bruno Latour, a primeira delas escrita conjuntamente com Steve Woolgar, “Labo­ratory Life - The Social Construction of Scientific Facts” (London, Sage) e “Science in Action”(Cambridge / Mass. Harvard University Press).

21. O que parece mais do que óbvio no caso do escritor Paulo Coelho e sua comunidade de “leitores-seguidores religiosos”.

22. Os instant-books são livros que efetuam uma imersão do leitor em uma “hiperrealidade”, isto é, os fatos e acontecimentos mais can­dentes do cotidiano “viram”, imediatamente, obras, casos, por exemplo, das obras de Pedro Collor de Mello sobre o “impea­chment” de 1992 e de Gustavo Franco sobre o “seu” (sic) Plano Real.

23. Cf. Steven Johnson, em “Interface Culture - How new Techno­logy Transforms the Way that we Create and Communicate” (San Francisco, HarperEdge, 1997).

24. Diagnósticos e prognósticos do pensador alemão Jürgen Haber­mas em “Teoría de la Accíon Comunicatíva – Vol. II”


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