O leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa



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C. S. LEWIS
AS CRÔNICAS DE NÁRNIA

VOL. II
O LEÃO, A FEITICEIRA

E O GUARDA-ROUPA
Tradução

Paulo Mendes Campos
Martins Fontes

São Paulo 2002

As Crônicas de Nárnia são constituídas por:

Vol. I – O Sobrinho do Mago

Vol. II – O Leão, o Feiticeiro e o Guarda-Roupa

Vol. III – O Cavalo e seu Menino

Vol. IV – Príncipe Caspian

Vol. V – A Viagem do Peregrino da Alvorada

Vol. VI – A Cadeira de Prata

Vol. VII– A Última Batalha

Para Lucy Barfield

MINHA QUERIDA LUCY,
Comecei a escrever esta história para você, sem lembrar-me de que as meninas crescem mais depressa do que os livros. Resultado: agora você está muito grande para ler contos de fadas; quando o livro estiver impresso e encadernado, mais crescida estará. Mas um dia virá em que, muito mais velha, você voltará a ler histórias de fadas. Irá buscar este livro em alguma prateleira distante e sacudir-lhe o pó. Aí me dará sua opinião. É provável que, a essa altura, eu já esteja surdo demais para poder ouvi-la, ou velho demais para compreender o que você disser. Mas ainda serei o seu padrinho, muito amigo
C. S. LEWIS

ÍNDICE


1. Uma estranha descoberta

2. O que Lúcia encontrou

3. Edmundo e o guarda-roupa

4. Manjar turco

5. Outra vez do lado de cá

6. Na floresta

7. Um dia com os castores

8. Depois do jantar

9. Na casa da feiticeira

10. O encantamento começa a quebrar-se

11. A aproximação de Aslam

12. A primeira batalha de Pedro

13. Magia profunda na aurora do tempo

14. O triunfo da feiticeira

15. Magia ainda mais profunda de antes da aurora do tempo

16. O que aconteceu com as estátuas

17. A caçada ao Veado Branco
1

UMA ESTRANHA DESCOBERTA

Era uma vez duas meninas e dois meninos: Susana, Lúcia, Pedro e Edmundo. Esta história nos conta algo que lhes aconteceu durante a guerra, quando tiveram de sair de Londres, por causa dos ataques aéreos. Foram os quatro levados para a casa de um velho professor, em pleno campo, a quinze quilômetros de distância da estrada de ferro e a mais de três quilômetros da agência de correios mais próxima.

O professor era solteiro e morava numa casa muito grande, com D. Marta, a governanta, e três criadas, Eva, Margarida e Isabel, que não aparecem muito na história.

O professor era um velho de cabelo desgrenhado e branco, que lhe encobria a maior parte do rosto, além da cabeça.

As crianças gostaram dele quase imediatamente. Mas, na primeira noite, quando ele veio recebê-las, na porta principal, tinha uma aparência tão estranha, que Lúcia, a mais novinha, teve medo dele, e Edmundo (que era o segundo mais novo) quase começou a rir e, para disfarçar, teve de fingir que estava assoando o nariz.

Naquela noite, depois de se despedirem do professor, os meninos foram para o quarto das meninas, onde trocaram impressões:

– Tudo perfeito – disse Pedro. – Vai ser formidável. O velhinho deixa a gente fazer o que quiser.

– É bem simpático – disse Susana.

– Acabem com isso! – falou Edmundo, com muito sono, mas fingindo que não, o que o tornava sempre mal-humorado. – Não fiquem falando desse jeito!

– Que jeito? – perguntou Susana. – Além do mais, já era hora de você estar dormindo.

– Querendo falar feito mamãe – disse Edmundo. — Que direito você tem de me mandar dormir? Vá dormir você, se quiser.

– É melhor irmos todos para a cama – disse Lúcia. – Vai haver confusão, se ouvirem a nossa conversa.

– Não vai, não – disse Pedro. – Este é o tipo de casa em que a gente pode fazer o que quer. E, além do mais, ninguém está nos ouvindo. É preciso andar quase dez minutos daqui até a sala de jantar, e há uma porção de escadas e corredores pelo caminho.

– Que barulho é esse? – perguntou Lúcia de repente.

Era a maior casa que ela já tinha visto. A idéia de corredores compridos e fileiras de portas que vão dar em salas vazias começava agora a lhe dar arrepios.

– Foi um passarinho, sua boba – disse Edmundo.

– Foi uma coruja – disse Pedro. – Este lugar deve ser uma beleza para passarinhos. E agora pra cama! Amanhã vamos explorar tudo. Repararam nas montanhas do caminho? E os bosques?

Aqui deve ter águia. Até veado. E falcão, com certeza.

– E raposas! – disse Edmundo.

– E coelhos! – disse Susana.

Mas, quando amanheceu, caía uma chuva enjoada, tão grossa que, da janela, quase não se viam as montanhas, nem os bosques, nem sequer o riacho do quintal.

– Tinha certeza de que ia chover! – disse Edmundo.

Haviam acabado de tomar café com o professor e estavam na sala que lhes fora destinada, um aposento grande e sombrio, com quatro janelas.

– Não fique reclamando e resmungando o tempo todo – disse Susana para Edmundo. – Aposto que, daqui a uma hora, o tempo melhora. Enquanto isso, temos um rádio e livros à vontade.

– Isso não me interessa – disse Pedro. – Vou é explorar a casa.

Todos concordaram, e foi assim que começaram as aventuras. Era o tipo da casa que parece não ter fim, cheia de lugares surpreendentes. As primeiras portas que entreabriram davam para quartos desabitados, como aliás já esperavam. Mas não demoraram a encontrar um salão cheio de quadros, onde também acharam uma coleção de armaduras. Havia a seguir uma sala forrada de verde, com uma harpa encostada a um canto. Depois de terem descido três degraus e subido cinco, chegaram a um pequeno saguão com uma porta, que dava para uma varanda, e ainda para uma série de salas, todas cobertas de livros de alto a baixo. Os livros eram quase todos muito antigos e enormes.

Pouco depois, espiavam uma sala onde só existia um imenso guarda-roupa, daqueles que têm um espelho na porta. Nada mais na sala, a não ser uma mosca morta no peitoril da janela.

– Aqui não tem nada! – disse Pedro, e saíram todos da sala.

Todos menos Lúcia. Para ela, valia a pena tentar abrir a porta do guarda-roupa, mesmo tendo quase certeza de que estava fechada à chave. Ficou assim muito admirada ao ver que se abriu facilmente, deixando cair duas bolinhas de naftalina.

Lá dentro viu dependurados compridos casacos de peles. Lúcia gostava muito do cheiro e do contato das peles. Pulou para dentro e se meteu entre os casacos, deixando que eles lhe afagassem o rosto. Não fechou a porta, naturalmente: sabia muito bem que seria uma tolice fechar-se dentro de um guarda-roupa. Foi avançando cada vez mais e descobriu que havia uma segunda fila de casacos pendurada atrás da primeira. Ali já estava meio escuro, e ela estendia os braços, para não bater com a cara no fundo do móvel. Deu mais uns passos, esperando sempre tocar no fundo com as pontas dos dedos. Mas nada encontrava.

“Deve ser um guarda-roupa colossal!”, pensou Lúcia, avançando ainda mais. De repente notou que estava pisando qualquer coisa que se desfazia debaixo de seus pés. Seriam outras bolinhas de naftalina? Abaixou-se para examinar com as mãos. Em vez de achar o fundo liso e duro do guarda-roupa, encontrou uma coisa macia e fria, que se esfarelava nos dedos. “É muito estranho”, pensou, e deu mais um ou dois passos.

O que agora lhe roçava o rosto e as mãos não eram mais as peles macias, mas algo duro, áspero e que espetava.

– Ora essa! Parecem ramos de árvores!

Só então viu que havia uma luz em frente, não a dois palmos do nariz, onde deveria estar o fundo do guarda-roupa, mas lá longe. Caía-lhe em cima uma coisa leve e macia. Um minuto depois, percebeu que estava num bosque, à noite, e que havia neve sob os seus pés, enquanto outros flocos tombavam do ar.

Sentiu-se um pouco assustada, mas, ao mesmo tempo, excitada e cheia de curiosidade. Olhando para trás, lá no fundo, por entre os troncos sombrios das árvores, viu ainda a porta aberta do guarda-roupa e também distinguiu a sala vazia de onde havia saído. Naturalmente, deixara a porta aberta, porque bem sabia que é uma estupidez uma pessoa fechar-se num guarda-roupa. Lá longe ainda parecia divisar a luz do dia.

– Se alguma coisa não correr bem, posso perfeitamente voltar.

E ela começou a avançar devagar sobre a neve, na direção da luz distante.

Dez minutos depois, chegou lá e viu que se tratava de um lampião. O que estaria fazendo um lampião no meio de um bosque? Lúcia pensava no que deveria fazer, quando ouviu uns pulinhos ligeiros e leves que vinham na sua direção. De repente, à luz do lampião, surgiu um tipo muito estranho.

Era um pouquinho mais alto do que Lúcia e levava uma sombrinha branca. Da cintura para cima parecia um homem, mas as pernas eram de bode (com pêlos pretos e acetinados) e, em vez de pés, tinha cascos de bode. Tinha também cauda, mas a princípio Lúcia não notou, pois aquela descansava elegantemente sobre o braço que segurava a sombrinha, para não se arrastar pela neve.

Trazia um cachecol vermelho de lã enrolado no pescoço. Sua pele também era meio avermelhada. A cara era estranha, mas simpática, com uma barbicha pontuda e cabelos frisados, de onde lhe saíam dois chifres, um de cada lado da testa. Na outra mão carregava vários embrulhos de papel pardo. Com todos aqueles pacotes e coberto de neve, parecia que acabava de fazer suas compras de Natal.

Era um fauno. Quando viu Lúcia, ficou tão espantado que deixou cair os embrulhos.

– Ora bolas! – exclamou o fauno.

2

O QUE LÚCIA ENCONTROU



– Boa noite – disse Lúcia. Mas o fauno estava tão ocupado em apanhar os embrulhos que nem respondeu. Quando terminou, fez-lhe uma ligeira reverência:

– Boa noite, boa noite. Desculpe, não quero bancar o intrometido, mas você é uma Filha de Eva?

Ou estou enganado?

– Meu nome é Lúcia – disse ela, sem entender direito.

– Mas você é, desculpe, o que chamam de menina?

– Claro que sou uma menina – respondeu Lúcia.

– Então é de fato humana?

– Evidente que sou humana! – disse Lúcia, bastante admirada.

– É claro, é claro – disse o fauno. – Que besteira a minha! Mas eu nunca tinha visto um Filho de Adão ou uma Filha de Eva. Estou encantado. Isto é... – e aí parou, como se fosse dizer alguma coisa que não devia. – Encantado, encantado – continuou. – Meu nome é Tumnus.

– Muito prazer, Sr. Tumnus.

– Posso perguntar, Lúcia, Filha de Eva, como é que veio parar aqui em Nárnia?

– Nárnia? Que é isso?

– Aqui é a terra de Nárnia: tudo que está entre o lampião e o grande castelo de Cair Paravel, nos mares orientais. Você veio dos Bosques do Ocidente?

– Eu entrei pelo guarda-roupa da sala vazia.

– Ah! – disse o Sr. Tumnus, numa voz um tanto melancólica. – Se eu tivesse estudado mais geografia quando era um faunozinho, saberia alguma coisa sobre esses países estrangeiros. Agora é tarde.

– Mas não são países coisa nenhuma – disse Lúcia, quase desandando a rir. – É logo ali atrás, acho... não tenho certeza. Lá é verão.

– Mas em Nárnia é sempre inverno, e há muito tempo. Aliás, vamos apanhar um resfriado se ficarmos aqui conversando debaixo da neve. Filha de Eva das terras longínquas de Sala Vazia, onde reina o verão eterno da bela cidade de Guarda-Roupa, que tal se a gente tomasse uma xícara de chá?

– Muito obrigada, Sr. Tumnus, mas eu estava querendo voltar pra casa.

– É ali, virando aquela esquina – disse o fauno –, e lá tem uma lareira acesa, torradas, sardinha, bolo...

– É muita bondade de sua parte. Só que não posso demorar muito.

– Segure no meu braço, Filha de Eva. Assim a sombrinha dá para dois. O caminho é por aqui.

Foi assim que Lúcia começou a andar pelo bosque, de braço dado com aquela estranha criatura, como se fossem velhos amigos.

Ainda não tinham andado muito quando chegaram a um lugar em que o chão era mais áspero, e havia rochas por toda parte e pequenas colinas para subir e descer. Ao chegarem ao fundo de um valezinho, o Sr. Tumnus voltou-se de repente para o lado, indo direto ao encontro de uma rocha colossal. No último instante, Lúcia percebeu que ele a conduzia para a entrada de uma caverna.

Mal se acharam lá dentro, ela começou a piscar à vista de uma bela lareira acesa. O Sr. Tumnus tirou do fogo um tição e acendeu um fogareiro.

– Não demora – disse, pondo a chaleira no fogo.

Lúcia nunca estivera num lugar tão agradável. Era uma caverna quentinha e limpa, aberta numa rocha de tons avermelhados, com um tapete no chão e duas cadeirinhas. (“Uma para mim e outra para um amigo” – disse o Sr. Tumnus.) Havia ainda uma mesa, uma prateleira e uma chaminé por cima da lareira; e, dominando tudo, o retrato de um velho fauno de barba grisalha.

Num canto, uma porta. “O quarto do Sr. Tumnus”, pensou Lúcia. Encostada à parede, uma estante cheia de livros, que ela ficou examinando enquanto ele preparava o chá. Os títulos eram esquisitos: A vida e as cartas de Sileno; As ninfas e as suas artes; Homens, monges e guardas do bosque; Estudo da lenda popular; É o homem um mito?

– Vamos, Filha de Eva.

Foi de fato um chá maravilhoso. Um ovo mal cozido para cada um, sardinhas fritas, torradas com manteiga, torradas com mel em seguida, e depois um bolo todo coberto de açúcar.

Quando Lúcia já não podia comer mais, o fauno começou a falar. Sabia histórias maravilhosas da vida na floresta. Falou das danças da meia-noite; contou como as ninfas, que vivem nas fontes, e as dríades, que vivem nos bosques, aparecem para dançar com os faunos. Falou das intermináveis caçadas ao Veado Branco, branco como leite, que, se for apanhado, permite que a pessoa realize todos os desejos. E dos banquetes, e dos bravos Anões Vermelhos procurando tesouros nas minas profundas e nas grutas. Depois falou do verão, quando os bosques eram verdes e o velho Sileno vinha visitá-los num jumento enorme, e, algumas vezes, até o próprio Baco. Então corria vinho nos riachos, em vez de água, e toda a floresta ficava em festa durante semanas.

– Infelizmente agora é sempre inverno – acrescentou o fauno, tristemente.

E, para distrair-se, tirou de uma caixinha uma flauta pequena e esquisita, que parecia feita de palha, e começou a tocar. A melodia dava a Lúcia vontade de rir e chorar, de dançar e dormir, tudo ao mesmo tempo. Passaram-se horas talvez, até que ela deu por si e exclamou, sobressaltada:

– Oh, Sr. Tumnus! Sinto muito ter de interrompê-lo... Além disso, gosto tanto dessa música! Mas, francamente, tenho de ir para casa. Não podia demorar mais do que uns minutinhos.

– Agora já não é possível – disse o fauno, deixando a flauta e abanando tristemente a cabeça.

– Não é possível?! – disse Lúcia dando um salto, toda assustada. – Por quê? Os outros devem estar preocupados. Tenho de ir para casa imediatamente.

Mas no instante seguinte ela perguntou:

Que aconteceu, Sr. Tumnus? – pois os olhos castanhos do fauno estavam cheios de lágrimas, que começaram a correr-lhe pelo rosto até a ponta do nariz. Depois ele cobriu a cara com as mãos e começou a soluçar.

– Sr. Tumnus, Sr. Tumnus! – disse Lúcia, muito aflita. – Não chore. Que foi que aconteceu? Não se sente bem? Diga o que é.

Mas o fauno continuava a soluçar, como se tivesse o coração partido. E mesmo quando Lúcia lhe deu um abraço e lhe emprestou o lenço, ele não parou de soluçar. Depois, torceu com as mãos o lenço todo encharcado. Em poucos minutos, Lúcia quase que andava dentro d’água.

– Sr. Tumnus! – disse-lhe ao ouvido, fazendo-o estremecer. – Acabe com isso. Logo! Devia ter vergonha de estar fazendo esse papel: um fauno tão grande, tão bonito! Por que está chorando desse jeito?

– Oh! Oh! Estou chorando porque sou um fauno muito ruim.

– Não acho nada disso. Penso até que é um fauno muito bonzinho, o fauno mais simpático que já encontrei.

– Oh! Oh! Você não diria isso, se soubesse de tudo! Não, sou um fauno mau. Acho que nunca existiu um fauno tão ruim desde o começo do mundo.

– Mas, então, que foi que você fez?

– Estou pensando no meu velho pai – disse o Sr. Tumnus. – Aquele do retrato em cima da lareira.

Ele nunca teria feito uma coisas dessas.

– Mas que coisa?

– A coisa que eu fiz! Trabalhar para a Feiticeira Branca. E o que eu faço! Estou a serviço da Feiticeira Branca.

– Mas quem é a Feiticeira Branca?

– Ora, é ela quem manda na terra de Nárnia. Por causa dela, aqui é sempre inverno. Sempre inverno e nunca Natal. Imagine só!

– Que horror! – exclamou Lúcia. – E que serviço você presta a ela?

– Aí é que está o pior de tudo – disse Tumnus, com um profundo suspiro. – Por causa dela, roubo crianças. É o que eu sou: ladrão de crianças! Olhe para mim, Filha de Eva: acredita que eu seja capaz de encontrar no bosque uma pobre criança inocente, que nunca fez mal a ninguém, fingir que sou muito amigo dela, convidá-la para vir à minha gruta, e depois fazer com que ela adormeça, para entregá-la à Feiticeira Branca?

– Não! Tenho a certeza de que o senhor nunca seria capaz de fazer isso.

– Pois eu faço, sim, senhora!

– Bem – disse Lúcia, devagarinho (porque ela queria ser justa, mas, ao mesmo tempo, não queria ferir muito o fauno) –, bem, isso foi muito malfeito. Mas, já que está arrependido, tenho a certeza de que não fará de novo.

– Filha de Eva, não está entendendo? Ainda não fiz! Estou fazendo agora!

– O quê?! – gritou Lúcia, pálida.

– A criança é você. A ordem da Feiticeira Branca foi esta: se alguma vez eu visse um Filho de Adão ou uma Filha de Eva no bosque, deveria atraí-los e entregar para ela. Você foi a primeira que eu encontrei. Fingi que era muito seu amigo, convidei-a para tomar chá, esperando que você adormecesse; aí, eu iria contar para ela...

– Oh, não faça uma coisa dessas, Sr. Tumnus! Não! O senhor nunca deve fazer isso.

– Mas, nesse caso – e ele recomeçou a chorar –, ela vai descobrir tudo. E vai mandar que me cor tem a cauda, serrem meus chifres, arranquem minha barba. Com a vara de condão é capaz de transformar meus bonitos cascos fendidos em horrendos cascos de cavalo. Mas, se estiver zangada mesmo, é capaz de me transformar em estátua de fauno. Vou ficar naquela casa horrível, até que os quatro tronos de Cair Paravel sejam ocupados... Sabe-se lá quando isso vai acontecer.

– Tenho muita pena, Sr. Tumnus, mas, por favor, deixe-me ir pra casa.

– Claro que sim. Tenho mesmo de deixar. Agora percebo. Não sabia como eram os humanos até encontrar você. Não iria entregá-la à feiticeira, principalmente agora, que a conheço. Vou acompanhá-la até o lampião. Você tem de achar o caminho até Sala Vazia e Guarda-Roupa.

– É claro que eu acho!

– Temos de ir bem caladinhos e escondidos. O bosque está cheio de espiões. Existem até árvores do lado dela!

O Sr. Tumnus abriu a sombrinha, deu o braço a Lúcia, e lá se foram pela neve. O caminho de volta não foi o mesmo que os levara à caverna do fauno; deslizaram silenciosamente, o mais depressa possível, sem dizerem nada, enquanto Tumnus escolhia sempre lugares mais escuros. Lúcia sentiu um alívio quando chegaram outra vez ao lampião.

– E agora, Filha de Eva, já sabe o caminho?

Lúcia olhou atentamente entre as árvores e conseguiu distinguir, à distância, um raio de luz que parecia ser a luz do dia.

– Sei; estou vendo o guarda-roupa.

– Então, já para casa. Espero que me perdoe por aquilo que eu desejava fazer...

– Está perdoado – disse Lúcia, apertando-lhe a mão com afeto. – Só espero que não lhe aconteça nada de mal por minha causa.

– Adeus, Filha de Eva. Posso ficar com o lenço?

– Pode, é claro.

E Lúcia correu na direção do distante raio de luz. E logo, em vez de ramos ásperos, passou a sentir os casacos e, em vez da neve desfazendo-se debaixo de seus pés, encontrou o chão de madeira. Depois, deu um salto para fora do guarda-roupa e se viu na mesma sala vazia do início de toda aquela aventura. Fechou bem a porta e olhou em redor, toda ofegante. Chovia ainda, e ela ouviu as vozes dos outros no corredor.

– Estou aqui! – gritou ela. – Estou aqui de volta! Tudo bem.

3

EDMUNDO E O GUARDA-ROUPA



Lúcia saiu correndo da sala vazia e achou os três no corredor.

– Tudo bem; já voltei.

– Do que você está falando, Lúcia? – perguntou Susana.

– O quê! – disse Lúcia, admirada. – Mas vocês não ficaram preocupados?

– Então, você andou escondida, hein? – disse Pedro. – Coitada da Lúcia! Ficou escondida e ninguém reparou! Você tem de ficar escondida mais tempo, se quiser que alguém se lembre de ir procurá-la.

– Mas eu estive fora muitas horas – disse Lúcia.

Os outros se entreolharam.

– Sua boba! – disse Edmundo, batendo de leve na cabeça. – Completamente boba!

– O que você está querendo dizer, Lu? – perguntou Pedro.

– Exatamente o que eu disse. Entrei no guarda-roupa logo depois do café. Fiquei fora muito tempo, tomei chá... Aconteceram muitas outras coisas.

– Não fique bancando a boboca, Lúcia – disse Susana. – Saímos da sala agora mesmo e você ainda estava lá.

– Ela não está bancando a boboca – disse Pedro. – Está imaginando uma história para se divertir, não é, Lúcia?

– Não é não, Pedro. É... é um guarda-roupa mágico. Lá dentro tem um bosque e está nevando. Tem um fauno e uma feiticeira. O nome da terra é Nárnia. Se quiserem, vamos ver.

Os outros não sabiam o que pensar, mas Lúcia estava tão agitada que todos a acompanharam à sala. Ela correu à frente, abriu a porta do guarda-roupa e gritou:

– Vamos, entrem, vejam com os seus próprios olhos!

– Mas que pateta! – disse Susana, metendo a cabeça lá dentro e afastando os casacos. – É um guarda-roupa comum. Olhem: lá está o fundo.

Olharam todos, depois de afastarem os casacos, e viram – Lúcia também – um guarda-roupa muito comum. Não havia bosque, nem neve, apenas o interior de um guarda-roupa, com os cabides pendurados. Pedro entrou e bateu com os dedos, certificando-se da solidez da peça.

Boa brincadeira, Lúcia – disse ao sair. – Você nos pregou uma boa peça. Quase acreditamos.

– Mas não é mentira coisa nenhuma! Palavra de honra! Há um minuto estava tudo diferente. Palavra que estava!

– Vamos, Lu – disse Pedro. – Você está exagerando; já se divertiu muito. É melhor acabar com a brincadeira.

Lúcia ficou vermelha até a raiz dos cabelos. Quis murmurar qualquer coisa e desandou a chorar.

Durante alguns dias, sentiu-se muito infeliz. Podia resolver a questão num instante, bastando declarar que tinha inventado aquela história. Mas Lúcia gostava de falar a verdade, e tinha certeza de que não estava enganada. Os outros, pensando que era tudo mentira, e mentira boba, davam-lhe um grande desgosto. Os dois mais velhos faziam isso sem querer, mas Edmundo costumava bancar o mau, e estava sendo mau daquela vez. Zombava de Lúcia, chateando-a o tempo todo, perguntando se ela não tinha achado outras terras misteriosas nos numerosos armários que existiam por toda a casa.

O pior é que esses dias eram para ter sido esplêndidos. O tempo estava lindo, passeavam lá fora da manhã até a noite, tomavam banho de riacho, pescavam, subiam nas árvores, deitavam-se no bosque... Mas Lúcia não se divertia de verdade. E assim foram correndo as coisas até que chegou um novo dia de chuva.

Naquela tarde, como o tempo continuasse ruim, resolveram brincar de esconder. Susana era o pegador e, mal se dispersaram para se esconder, Lúcia dirigiu-se à sala do guarda-roupa. Não queria esconder-se lá dentro, pois isso certamente faria com que os outros voltassem a se lembrar daquele assunto desagradável. Mas queria pelo menos dar uma espiada, porque, naquela altura, ela própria já começava a se perguntar se Nárnia e o fauno não passavam de um sonho. A casa era tão grande e complicada, tão cheia de esconderijos, que ela pensou que teria tempo de dar uma espiada e se esconder em outro lugar. Mas, mal tinha se aproximado, ouviu passos no corredor, e não teve outro remédio: pulou para dentro do guarda-roupa e segurou a porta, pois sabia muito bem que era uma idiotice alguém fechar-se num guarda-roupa, mesmo num guarda-roupa mágico. Eram os passos de Edmundo, que entrou na sala ainda a tempo de ver Lúcia sumir dentro do móvel. Sem hesitar, resolveu entrar também – não porque o considerasse um bom esconderijo, mas porque tinha vontade de continuar a chateá-la com o seu mundo imaginário. Abriu a porta. Os casacos estavam dependurados como sempre, cheirando a naftalina; tudo era escuridão e silêncio, e não havia vestígios de Lúcia. “Ela pensa que sou a Susana e que vim pegá-la, por isso está quietinha lá no fundo” – pensou Edmundo.



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