O livro Ensaio sobre a cegueira de José Saramago propicia uma leitura sobre a solidão e a solidariedade



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Uma leitura de Ensaio sobre a cegueira de José Saramago

Cleide Rita Silvério de Almeida

Universidade Nove de Julho – UNINOVE

Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação – São Paulo



Eixo 5: Pesquisa em Pós-Graduação em Educação, Linguagem e Mídias

Categoria: Comunicação


Resumo: Esta comunicação parte da premissa de que discutir a realidade educacional a partir de obras literárias ou cinematográficas pode nos abrir para problemas relevantes e permite estabelecer um diálogo fecundo, possibilitando reconhecer problemas nas histórias narradas e também captar lições para a vida e trabalho, tendo em vista as situações vivenciadas nos livros e filmes. Recorreu-se a uma obra da literatura portuguesa, na medida em que ela permite estabelecer uma leitura da dinâmica das instituições de ensino e do processo de conhecimento. A referência teórica que norteia este estudo é o pensamento complexo, entendendo que as situações e contextos retratados na obra estimulam a reflexão sobre os processos de conhecimento, a condição humana e sua complexidade. As idéias suscitadas por esta leitura podem ser sintetizadas em nove pontos: a cegueira é viagem, devir, movimento e por isso pode ser ultrapassada; esta viagem pode despertar para novos processos de aprendizagem; este novo processo de aprendizagem implica em olhar, ver, reparar, ouvir e escutar; pressupõe desenvolvimento da consciência; propõe a dialógica entre alteridade e individualidade; propõe também a organização das pessoas para que não vivam dispersas; a organização supõe solidariedade e ética na convivência; a necessidade da compreensão intersubjetiva e atenção e reflexão sobre a importância do feminino.
Palavras-chave: Educação, Complexidade, Cegueira Branca.

Introdução

Esta comunicação apresenta resultados parciais de um estudo bibliográfico e documental das relações entre educação, estética e complexidade. Faz parte do programa de pesquisa da linha de teorias em educação e do núcleo interinstitucional de investigação da complexidade – NIIC.

O livro Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, pode se constituir numa metáfora da escola e do processo de conhecimento levando em conta que a história relata uma misteriosa epidemia de cegueira branca. Esta comunicação parte da premissa de que discutir a realidade a partir de obras literárias ou cinematográficas pode nos abrir para problemas relevantes e permite estabelecer um diálogo fecundo, possibilitando reconhecer nossos problemas nas histórias narradas e também captar lições para nossa vida e trabalho considerando as situações vivenciadas nos livros e filmes. A referência teórica que norteia este estudo é o pensamento complexo de Edgar Morin, entendendo que as situações e contextos retratados na obra estimulam a reflexão sobre a condição humana e sua complexidade. A cegueira branca será então uma ideia norteadora e guia de nossa reflexão, pois é ela que movimenta toda a história.
A cegueira branca: instalação e desinstalação
A trama tem início com um homem que, enquanto dirige seu automóvel, perde a visão de um instante para o outro, entre as trocas de um semáforo, e mergulha em uma espécie de névoa leitosa assustadora. Uma a uma, cada pessoa com quem ele teve contato – sua esposa, seu médico, até mesmo o aparentemente bom samaritano que lhe oferece carona para casa – será contagiado. À medida que a doença se espalha, o medo, a desorganização e a insegurança tomam conta da cidade. As vítimas da cegueira ou mal branco são isoladas e colocadas em quarentena num manicômio desativado. No entanto, há uma mulher que não foi contagiada, mas finge estar cega para ficar ao lado de seu marido. Ela será importante para este grupo de pessoas que sai em uma jornada marcada por incertezas, angústia, solidão e solidariedade. Esta viagem apresentará vários desafios e parece que o autor com uma narrativa contundente também nos coloca ao lado deste grupo de peregrinos, uma vez que não é possível fazer uma leitura da obra sem o envolvimento com as questões propostas. E como nos diz o próprio autor: “O que eu quero é que o leitor participe. Todo texto é um texto por decifrar [...].” (ARIAS, 2004, p. 75).

Que lugar é este para onde Saramago nos conduz? Como educadores que lições podemos extrair dessa obra? Qual o significado da cegueira branca?

Antes do anúncio da cegueira branca, a narração evoca várias cores, ao referir-se ao “disco amarelo”, ao “sinal vermelho”, ao “desenho do homem verde”, às “faixas brancas” e à “capa negra do asfalto”. O cotidiano flui em sua rotineira normalidade até mergulhar nessa espécie de nevoeiro. Mas, como observam os personagens: “a cegueira não é assim, disse o outro, a cegueira dizem que é negra, Pois eu vejo tudo branco” (SARAMAGO, 1995, p. 13).

É interessante como o autor dinamiza a cegueira, possibilitando-lhe desde o início a reversibilidade, na medida em que, ao usar a cor branca para caracterizá-la, ele recorre a uma cor que significa a junção de todas as cores; isto nos faz lembrar o Disco de Newton, formado pelas cores do arco-íris, mas que em movimento torna-se branco. A cegueira negra, a treva total que é a cegueira que normalmente conhecemos, esta sim é irreversível.

O autor deixa claro também que não é uma cegueira psíquica, mas sim um tipo de mal que terá um período de quarentena, a qual, nas palavras do ministro, autoridade local, “poderão ser quarenta dias como quarenta semanas, ou quarenta meses, ou quarenta anos” (SARAMAGO, 1995, p. 45). Este período de tempo de afastamento e reclusão não poderia significar uma quarentena simbólica, um período de estágio evolutivo? A quarentena apresenta-se, assim, como uma condição de possibilidade de ultrapassar a cegueira branca. “O médico disse, As ordens que acabámos de ouvir não deixam dúvidas, estamos isolados, mais isolados do que provavelmente já alguém esteve, e sem esperança de que possamos sair daqui antes que se descubra o remédio para a doença” (SARAMAGO, 1995, p. 51).

E onde estará o remédio para a doença? Parece que, para o autor, o remédio consiste numa consciência profunda que permita apreender o fluxo dinâmico entre a existência, a resistência ou a desistência (ou escrito de outra forma: a existência, a r’existência ou a d’existência), vivências que serão experimentadas pelos personagens. O remédio pode estar no encontro consigo mesmo e com o outro, redimensionando as relações humanas numa dialógica constante entre alteridade e individualidade. Não se trata de uma cegueira estática, mas de um mal que, para ser enfrentado, evoca a compreensão da complexidade da condição humana e da realidade em que estamos inseridos e assim, impulsiona a convivência, a responsabilidade ética e a sensibilidade solidária. A cegueira é também identificada como um mar de leite, ou seja, assim como o mar que está sempre em contínuo movimento, a cegueira assume a dinâmica de uma viagem que pode levar ao conhecimento das próprias forças e fragilidades e ao desenvolvimento da consciência. Uma viagem de transformação que indica mudança e o alcance de um outro estágio de consciência. A leitura de uma proposta de viagem a partir da cegueira permite aproximação com, pelo menos duas situações: a da viagem dos heróis mitológicos e a do cotidiano da escola. A primeira aproximação é construída considerando que o herói mítico assim como os personagens da obra enfrenta provações, privações, forças do mal e desafios. Diel ajuda-nos a compreender melhor esta ideia ao argumentar que:

O homem pode e deve, através do funcionamento sadio da psique, dominar a si mesmo e ao mundo. É a lei fundamental da vida. Assim, os combatentes heróicos dos mitos concretizam as aventuras essenciais de cada vida humana, constituídas pelas possibilidades de espiritualização-sublimação e de perversão. [...] O sentido real da vida resume-se na evolução. O funcionamento psíquico, tema dos mitos, é uma constelação evolutiva que resulta da evolução passada e aspira à evolução futura. Assim, o tema fundamental dos mitos é a evolução não somente do homem-indivíduo, mas de toda a espécie humana. (1991, p.29-30)

A segunda aproximação remete-nos a viagem de transformação que a escola possibilita ao colocar-nos em contato com o conhecimento. Desde os estágios iniciais de aquisição da leitura e escrita até os estágios mais elevados de construção do saber, um mundo novo de compreensão da realidade se abre, permitindo aprendizagem, apreensão e apropriação de múltiplos conteúdos. Ao mesmo tempo em que há este ângulo de vivenciar a aventura do conhecimento que nos coloca em contato com os grandes pensadores da história, há o lado do fracasso escolar, evasão, repetência, indisciplina, violência, bullying, carência social dos alunos, falta de motivação dos professores, falta de integração entre escola e comunidade, entre outros. Estes problemas constituem-se em grandes desafios que exigem um enfrentamento das situações assim como fizeram os protagonistas do livro.

Os personagens desta história não têm nomes. Eles são identificados como: o médico, a mulher do médico, o ladrão, e em alguns deles a referência vincula-se ao ver, como o velho da venda preta, a rapariga dos óculos escuros e o rapazinho estrábico. Na escola também, muitas vezes, os alunos não são conhecidos pelos seus nomes, podendo até a ser simplesmente um número que o identifica.

Outro ponto a ser salientado é a ausência da referência de lugar e de tempo. Ao não se constituir em nenhum lugar e tempo específico, podemos fazer aproximações para qualquer tempo e lugar. Os personagens estão situados num tempo especial de significados que acontecem, para todos eles, pela primeira vez. Algo forte e significativo que pode conduzi-los para diferentes caminhos de aprendizagem, dependendo de suas ações e decisões. Há uma suspensão do cotidiano e um mergulho no inesperado e na incerteza. O não-lugar torna-se, então, o tempo e o lugar em que a cegueira está ocorrendo naquele momento, que é quando assume densidade histórica e temporal.

No nosso entender, a cegueira branca retratada no livro também pode ser interpretada como um momento de crise. Uma cegueira que podemos viver em nossas vidas, em nossa sociedade, em nossas escolas e em relação ao conhecimento em qualquer grau de ensino. E parece que a cegueira precisa acontecer para provocar a possibilidade de ver. Isso nos é sugerido pela epígrafe do livro, que soa como um alerta: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” Nesta frase fica estabelecida uma espécie de três estágios: o olhar, o ver e o reparar. O olhar seria aqui considerado como a capacidade de enxergar, estar apto para a visão. O ver constituir-se-ia numa percepção aprofundada da visão, como reforça o poeta Fernando Pessoa (1998, p.237) ao dizer: “Não é bastante não ser cego/ Para ver as árvores e as flores”. Já o reparar carrega um duplo sentido, podendo tanto constituir-se num terceiro estágio em que se vê com uma profundidade ainda maior, como ser interpretado no sentido de fazer reparo, conserto ou restauração àquilo que se vê.

E o que o leitor do livro vê? Vê que a epidemia de cegueira que se alastrou levou as pessoas a um processo violento de desumanização, desencadeando uma verdadeira barbárie. Assistimos a vários conflitos e confrontos, o esgarçamento ético na convivência, a degradação do poder, a competição e exploração, como pode ser exemplificado nas passagens que tratam da distribuição de comida nas camaratas, do sensacionalismo dos órgãos de comunicação com suas transmissões ao vivo e do despreparo do governo frente a situações de emergência.

Esta situação que nos provoca uma reflexão sobre alteridade e solidariedade remete-nos a Ardoino (2005, p. 553):

A experiência mais extrema, às vezes a mais cruel, mas provavelmente também a mais enriquecedora que podemos ter da heterogeneidade é a que nos é imposta através do encontro com o outro, enquanto limite de nosso desejo, de nosso poder e de nossa ambição de domínio (na primeira acepção do termo).

O outro, ou outros, a alteridade expressa nessa relação, quando transportada para a escola, não deve ser pensada apenas enquanto outras pessoas que fazem parte da nossa convivência, quer sejam os alunos, os funcionários ou os docentes: deve ser ampliada também como alteridade pedagógica e epistemológica, no sentido de diálogo com outros textos, como a música, o cinema, a literatura e outros campos de conhecimento. Trabalhamos lado a lado, muitas vezes sem nenhuma interação e sem curiosidade sobre a importância do trabalho do colega. Restritos a nosso espaço e domínio, ficamos cegos para o outro. Será que o professor de Cálculo consegue explicar a seus alunos a importância da Literatura? E o de Física, consegue falar da importância da História? Sem comunicação interpessoal, intersubjetiva, interdisciplinar e transdisciplinar, construímos um ambiente sem solidariedade e fértil para o erro e a ilusão. “Não se joga o jogo da verdade e do erro somente na verificação empírica e na coerência lógica das teorias. Joga-se, também, profundamente, na zona invisível dos paradigmas.” (MORIN, 2000, p. 24)

Como a obra suscita a reflexão sobre a alteridade, vale observar que a turbulência vivida entre os sujeitos está confinada nos limites do manicômio, para onde foram encaminhados ou despejados. Estão destituídos de sua privacidade, de seu cotidiano, do espaço urbano, enfim, de suas vidas. Aproximam-se, de certa maneira, dos prisioneiros da caverna de Platão, que se encontram amarrados e veem somente sombras da realidade. Tanto os habitantes da caverna como os do manicômio precisam desprender-se de seus grilhões para poderem ver a verdadeira realidade. Em ambas as situações, o processo de libertação está ligado ao ver: o ver a si mesmo, ver os outros e a realidade que os cerca, isto é, está ligado ao processo de conhecimento, como pode ser ilustrado pelo diálogo entre o médico e sua mulher: “Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.” (SARAMAGO, 1995, p. 310)

É importante ressaltar que as cegueiras do conhecimento são o tema de abertura do livro de Morin (2000) sobre os sete saberes considerados necessários para a educação. A primeira ideia do capítulo inicial é que “Todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão”. E logo adiante ele complementa:

O conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo externo. Todas as percepções são, ao mesmo tempo, traduções e reconstruções cerebrais com base em estímulos ou sinais captados pelos sentidos. Daí resulta, sabemos bem, os inúmeros erros de percepção que nos vêm de nosso sentido mais confiável, o da visão. (p. 20)

Como nossas escolas e universidades estão tratando o conhecimento? Será que nossos estudantes estão conseguindo ver e reparar, ou será que veem as sombras da realidade? Estamos semeando leituras plurais da realidade? Leituras emancipatórias? Vale lembrar um trecho do livro que pode provocar nossa visão:

[...] o mal é não estarmos organizados, devia haver uma organização em cada prédio, em cada rua, em cada bairro, Um governo, disse a mulher, Uma organização, o corpo também é um sistema de organização, está vivo enquanto se mantém organizado, e a morte não é mais do que o efeito de uma desorganização, E como poderá uma sociedade de cegos organizar-se para que viva, Organizando-se, organizar-se já é, de uma certa maneira, começar a ter olhos, (SARAMAGO, 1995, p. 281-282)

O autor quando perguntado sobre o nascimento do livro responde que:

A verdade é que a idéia nasceu num restaurante de Lisboa. Eu estava a almoçar sozinho, à espera do meu pedido, nesse momento em que se pensa em tudo e em nada. De repente, pergunto-me: e se fôssemos todos cegos? Assim, sem mais. Como seríamos? Isso já vai dando algumas pistas, a catástrofe, a peste, algo parecido com o cine-catástrofe que se faz hoje em dia, um grande terremoto. Depois você pensa, fica a pensar e a idéia original transforma-se em algo que vai muito além da própria cegueira, como a cegueira da razão, e não a física. (ARIAS, 2004, p. 55)

Cabe também destacar o trecho de uma entrevista do escritor José Saramago quando esteve na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1997, para participar do encontro Literatura & História, porque nesta passagem de sua entrevista ele explica o papel conferido ao feminino, representado pela mulher do médico.

– No Ensaio sobre a cegueira o senhor mantém uma saída nos olhos de uma mulher. [...] A partir dessas escolhas que fez no livro, como o senhor vê o futuro da humanidade?

– Eu não posso dar esta resposta. A resposta só pode ser dada pelas mulheres. Acho que não podemos cair na simplificação de dizer que os homens fizeram tudo mal e as mulheres, pobrezinhas, são uns anjos. Mas está claríssimo que o poder foi e ainda é essencialmente masculino. Há três sexos: o masculino, o feminino e o do poder. A questão está em saber se quando as mulheres conquistam o poder vão exercê-lo como mulheres que são, ou segundo este tal de terceiro sexo. O que se viu até hoje é que, quando lá chegam, não se tornam homens. Tornam-se poder. Portanto, tornam-se iguais aos homens. [...] No caso do Ensaio sobre a cegueira ainda é esta minha esperança: a de que a mulher seja capaz de tomar um lugar novo no mundo, de inventar um modo novo de ser e de viver. (CARVALHAL, 1999, p. 56-57)

Na medida em que o autor deposita uma esperança na mulher, a da criação de um novo modo de vida e existência, ou seja, de pensamentos, percepções e valores, é importante indagar que uma vez que, em nossa realidade educacional, há um número expressivo de educadoras, qual o papel que elas estão desempenhando? O feminino não é regido apenas pela razão, mas consegue articular e integrar a intuição e a emoção. Capra ( 1995, passim) aponta que estamos vivendo um período de transição e que o poder do patriarcado, que tem sido preponderante, começa a entrar em declínio. Boff (1995, p.67) na mesma linha de Capra argumenta que a mulher:

Por seu corpo, com o qual entretém uma relação de intimidade e de integralidade bem diversa daquela do homem, nos ajuda a superar os dualismos introduzidos pela cultura patriarcal e androcêntirca entre mundo e ser humano, espírito e corpo e interioridade e eficiência. Ela desenvolveu melhor que o homem uma consciência aberta e receptiva, capaz de ver o caráter sacramental do mundo e, por isso, de ouvir a mensagem das coisas, os acenos de valores e significados que vão para além da simples decifração das estruturas de inteligibilidade.

A complexidade das ações e do comportamento humano solicita de cada um de nós um esforço de compreensão intersubjetiva. Não basta explicar racionalmente os conhecimentos e as pessoas, pois esta atitude não será suficiente para estabelecer uma compreensão. “É bem certo que o difícil não é viver com as pessoas, o difícil é compreendê-las, disse o médico.” (SARAMAGO, 1995, p. 286) A vida imaginária proposta pela literatura e pelo cinema suscita uma possibilidade de compreensão maior, na medida em que temos acesso a todo o drama vivido pelos personagens. A dimensão estética possibilita ultrapassar as situações utilitárias e funcionais, desencadeando mecanismos de projeção e identificação com os personagens. Há um movimento de troca que vai do imaginário para o real e do real para o imaginário, irrigando estados e vivências subjetivas. Projetamos nossas aspirações, desejos e angústias e também nos reconhecemos por meio do outro. “A compreensão humana comporta não somente a compreensão da complexidade do ser humano, mas também a compreensão das condições em que são forjadas as mentalidades e praticadas as ações.” (MORIN, 2005, p. 115)


Considerações finais
Entendemos que Ensaio sobre a cegueira fala sobre os movimentos de uma vida em transformação. Os encontros e desencontros provocados pela cegueira exercitam os personagens não só na sobrevivência, mas também na convivência. A própria sobrevivência só se tornará possível na convivência, seja estabelecida em bases solidárias ou coercitivas. Cada um vai se fazendo a partir do grupo em que se insere, redefinindo seus valores. Se, por um lado, há uma privação do ver, foi necessário construir e constituir um novo campo de visão a partir das experiências vividas na camarata do manicômio. Os provérbios que perpassam toda a obra assim como as alterações na pontuação do texto, demonstram metaforicamente a necessária mudança de paradigma de uma sabedoria cristalizada para uma incerta, que seja capaz de leituras polissêmicas. Saramago elabora uma trama que suscita inúmeros questionamentos, sem oferecer, no entanto, respostas prontas ou definitivas. Dentre as discussões que sugere podemos também indagar se além de cegos, muitas vezes, não estamos também surdos? Não a surdez como distúrbio auditivo, mas a surdez simbólica que nos indisponibiliza para os outros e, fazendo que tenhamos preferência por ouvir a nossa própria voz ou verdades. Saramago propõe olhar, ver e reparar e podemos propor como complemento ouvir e escutar. Se o início dos acontecimentos que descrevem e caracterizam a cegueira branca parecem distópicos, ao final retomamos a esperança a partir das atitudes do grupo nuclear do romance como na passagem em que a mulher do médico diz: “se continuarmos juntos talvez consigamos sobreviver, se nos separarmos seremos engolidos pela massa e destroçados” (SARAMAGO, 1995, p. 245)

As idéias suscitadas pela leitura da obra e as referências que podem ser estabelecidas com a educação podem ser sintetizadas da seguinte maneira: a cegueira é viagem, devir, movimento e por isso pode ser ultrapassada; esta viagem pode despertar-nos para novos processos de aprendizagem; este novo processo de aprendizagem implica em olhar, ver. reparar, ouvir e escutar; pressupõe desenvolvimento da consciência; propõe a dialógica entre alteridade e individualidade; propõe também a organização das pessoas para que não vivam dispersas; a organização supõe solidariedade e ética na convivência; a necessidade da compreensão intersubjetiva e atenção e reflexão sobre a importância do feminino.

Assim, esta leitura procurou levantar algumas ideias que possam provocar uma reflexão em nosso cotidiano de trabalho, desejando que não seja um cotidiano de trevas, cegueira branca, tirania e competição, mas que nos livre do aniquilamento por meio da amizade e cooperação solidária, possibilitando que nossa caminhada exercite os nove passos acima referidos.
Referências
ARDOINO, J. A complexidade. In: EDGAR MORIN (Org.). A religação dos saberes: o desafio do século XXI. Jornadas temáticas idealizadas e dirigidas por Edgar Morin. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. p. 548-558, 2005.
ARIAS, J. José Saramago: o amor possível. Rio de Janeiro: Manati, 2004.
BOFF, L. Princípio - Terra: a volta à terra como pátria comum. São Paulo: Ática, 1995.
CAPRA, F. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1995.
CARVALHAL, T. F. (Org.). Saramago na universidade. Porto Alegre: EdUFRGS, 1999.
DIEL, P. O simbolismo na mitologia grega. São Paulo: Attar, 1991.

MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: Unesco, 2000.


______. O método 6: ética. Porto Alegre: Sulina, 2005.
PESSOA, F. Ficções do interlúdio. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
SARAMAGO, J. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.





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