O último tango



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O Último Tango

Two to Tango

Mary Jo Territo

Super Bianca 35



Debbie o enfeitiçava com seus beijos, o torturava com sua traição.

Louco de ciúme, Rick viu Debbie rodopiar feliz nos braços do bailarino e rival Ian Parker, e seu coração se endureceu de ódio.

Ao lado daquela mulher ele aprendera a não temer o amor, a sentir a beleza da vida, os limites da paixão.

Mas como deixar de acreditar no que seus próprios olhos viam: Debbie e Parker juntos, envoltos no fogo de um tango excitante e sensual?

Como deixar de suspender daquela prova tão evidente de traição?

Digitalização: Tinna

Revisão: Alice Akeru


Título original: TWO TO TANGO

Copyright: © by Mary Jo Territo

Publicado originalmente em 1985

pela Harlequin Books, Toronto, Canadá

Tradução: Luís Carlos Borges

Copyright para língua portuguesa: 1986

Editora Nova Cultural Ltda. — São Paulo — Caixa Postal 2372

Esta obra foi composta na Artestilo Compositora Gráfica Ltda.

e impressa na Companhia Lithographica Ypiranga



CAPÍTULO I

O casal de dançarinos Rick e Debbie Williams havia passado toda a manhã dentro dos estúdios da Agência de Propaganda Modelo, ensaiando para a gravação do comercial do perfume Reverte, da Indústria de Cosméticos Starlight. E agora estavam a postos esperando que o diretor desse a ordem para que o ensaio definitivo das filmagens começasse.

— Silêncio! — o diretor ordenou, para que o burburinho cessasse.

Uma ponta de nervosismo passou pelos belos olhos castanhos de Debbie, o que sempre acontecia quando precisava dar o melhor de si.

Rick sorriu e apertou-lhe o braço carinhosamente num gesto de encorajamento, transmitindo-lhe, com seus profundos olhos azul-escuros, confiança e amor.

Casados há pouco mais de dois anos, Rick e Debbie viviam em perfeita harmonia no salão de baile, no estúdio e em casa. Mais do que dois indivíduos, formavam uma entidade única, as virtudes de um compensando as fraquezas do outro.

Num sussurro quase inaudível, mal movendo os lábios, Rick disse para a esposa:

— Vamos fazer tudo certo logo na primeira vez, querida.

Debbie retribuiu-lhe o encorajamento com um sorriso nervoso, sentindo que agora tudo estaria bem. Quando dançaram juntos pela primeira vez como profissionais, ele dissera aquelas mesmas palavras e desde então as repetia antes de cada apresentação, transformando-as numa superstição particular. Às vezes, ela sentia que não conseguiria dar um passo sem ouvi-lo dizer isso.

Finalmente, os primeiros acordes da valsa se fizeram ouvir, juntamente com a palavra "ação", dita pelo diretor. Conduzida por Rick, Debbie flutuava.

Por um momento, as luzes, os técnicos e as câmeras pareceram deixar de existir. O cenário não era mais o simples desenho de um jardim ao luar, mas a própria natureza com rosas tão reais que ela podia até mesmo perceber-lhes o perfume.

Perto de uma fonte, eles pararam, e Rick a ergueu, girando-a com suavidade. Depois de um breve instante, ele a pôs no chão, e os dois continuaram a girar com graça e desenvoltura. Em algum lugar de sua mente, Debbie sabia que a brisa que lhe acariciava o rosto vinha de um ventilador, mas preferia não se lembrar disso. Aquela era uma noite de primavera no coração do jovem casal.

Ao pararem outra vez, Rick colocou-se atrás de Debbie, que, num movimento gracioso, deixou-se cair, sabendo que os braços possantes do marido iriam ampará-la. Um sorriso de felicidade surgiu-lhe nos lábios ao sentir-se abraçada.

Fitaram-se por alguns segundos e, então, ele a ergueu e a beijou.

— Corta! — o diretor gritou.

A música havia terminado. Os dois, porém, continuavam abraçados.

— Ei, vocês dois! — o diretor gritou, outra vez. — Eu disse "corta"!

Risadas soaram no estúdio, trazendo o casal de volta à realidade. Rick endireitou a gravata e correu o olhar pelos técnicos, com um sorriso satisfeito nos lábios. Querendo dar um aspecto zombeteiro àquela cena, Debbie não deixou por menos: atirou-se outra vez nos braços do marido e deu-lhe outro beijo.

Logo o estúdio encheu-se novamente com o som de gargalhadas e assobios, que continuaram até que o intervalo para o almoço, muito mais interessante do que o show gratuito, fosse anunciado.

— E então? — Rick perguntou a Debbie com um ar zombeteiro. — Acha que pode tirar as mãos de cima de mim por um instante? Apenas o suficiente para que possamos comer um sanduíche?

— Você sabe como me convencer! Basta apenas uma fatia de rosbife para que eu me esqueça de tudo. — Ela riu.

— É mesmo? Não foi o que pareceu sábado passado. Deixamos o jantar pela metade por sua culpa, querida. Você me forçou a ir para o quarto e...

— Oh, eu forcei você, Rick? Não se esqueça de que a idéia foi sua, querido.

— Ora, que diferença faz? — ele disse, dando de ombros.

Abraçados e sorrindo, os dois se dirigiram para o camarim, a fim de tirarem as roupas dos ensaios.

— Rick, pode me ajudar com este zíper? — Debbie perguntou, apontando para o fecho do vestido que usava.

— Claro! — Ele se aproximou e aproveitou para correr os lábios pelo pescoço alvo e macio.

— Rick, não faça isso! Estou ficando toda arrepiada — ela protestou.

— Ótimo — ele murmurou, acariciando-lhe os seios.

— É bom você parar ou não teremos condições de continuar o trabalho. E, depois, estou faminta!

— Eu também — ele completou num tom malicioso.

— Por rosbife — ela assegurou, desvencilhando-se.

— O que o rosbife tem que eu não tenho?

— Não me obrigue a responder, querido.

Livre do zíper e das mãos atrevidas do marido, Debbie tirou o vestido longo de chiffon e colocou um abrigo azul e branco, que a fez sentir-se mais à vontade. Então, sentou-se e ficou olhando para Rick que se despia com movimentos precisos e regulares. Adorava presenciar aquela cena. Aliás, adorava ver Rick fazer qualquer coisa... mesmo que não fosse nada de especial.

— Sabia que eu o amo muito? — falou com os olhos cheios de ternura.

— Eu também a amo, doçura — ele murmurou. — Mas agora vamos comer algo, pois ainda temos muito trabalho pela frente.

Ao saírem do camarim, se depararam com os colegas de equipe, espalhados pelo estúdio, comendo com avidez. Rick e Debbie encaminharam-se à mesa e serviram-se de sanduíches, salada e água mineral;

O patrocinador não poupara dinheiro no tratamento dispensado ao pessoal da gravação. Desde pequenos detalhes, como lanches, até a produção dos cenários, tudo era da melhor qualidade. Havia até mesmo um carro com chofer particular para transportar Rick e Debbie durante as filmagens.

Após encontrarem duas cadeiras vagas, Debbie atirou-se numa delas, comendo com entusiasmo, pois não havia ingerido nada, além de uma xícara de café no desjejum. Tinha a impressão de que todos estavam escutando seu estômago roncar de fome.

Quando terminou, pousou o garfo no prato e correu os olhos pelo estúdio, uma sombra de melancolia no rosto bonito.

— O que foi querida? — Rick perguntou, preocupado.

— Quando me lembro de que esta é a última vez que ensaiamos aqui, sinto uma profunda tristeza. É uma pena que tudo tenha acabado, não acha?

Há um ano, o casal assinara contrato com aquela agência de publicidade para a gravação de dois comerciais do perfume Reverte. Porém, o sucesso fora tanto, que o patrocinador resolvera fazer mais quatro anúncios, apenas mudando o ritmo da música. Agora, já era tempo de a diretoria da indústria lançar um produto novo e também modificar o tipo de campanha publicitária.

— Estes comerciais nos proporcionaram muitas coisas, Debbie. É hora de mudar. Nada dura para sempre — Rick falou, gentil.

— Exceto nós — ela retrucou sorrindo, sabendo que o marido estava coberto de razão.

Sem aqueles comerciais nunca poderiam ter estabelecido um estúdio próprio, nem reformado a casa de seus sonhos, comprada logo após o casamento: uma velha casa de fazenda no nordeste de Nova Jersey, a apenas uma hora de Nova York.

A compra fora um duro golpe para a conta bancária do casal. Por isso, adiaram os consertos para uma época mais propícia. Entretanto, com o lucro farto advindo daqueles comerciais, conseguiram antecipar os planos de reforma, além da popularidade que conquistaram junto ao público, o que só os beneficiaria no Campeonato Internacional de Danças de Salão realizado anualmente em uma das cidades importantes do país.

No ano anterior, haviam tirado o segundo lugar em Londres. Mas, agora, tinham sérias chances de serem os vencedores em Nova York.

— E pensar que Ian Parker e Marie DuClos quase conseguiram este emprego — Debbie suspirou.

— Ainda bem que isso não aconteceu, querida. Não que eu esteja sendo egoísta, mas imagine só se Marie resolvesse fugir de um contrato como este, do mesmo modo que fugiu de Ian. Os dois estariam em maus lençóis, agora.

— Ainda não entendo como ela pôde fazer isso. — Debbie balançou a cabeça, inconformada. Ian Parker e Marie DuClos haviam montado um espetáculo de grande sucesso na Broadway. E, após o término da temporada, Marie resolvera abandonar o parceiro e ir para Hollywood, convencida de que todos os produtores estariam ansiosos por transformá-la numa grande estrela do cinema.

Assim, Ian acabara ficando sem uma parceira no campeonato de dança daquele ano.

— Bem... — Debbie prosseguiu. — Devo confessar que isso não me parte o coração.

— Nem a mim — Rick concordou, rápido. — Ainda me lembro do espetacular desempenho de Parker no concurso do ano passado. Ele mereceu mesmo o primeiro lugar. Mas, se ainda pretende competir, vai ter que trabalhar muito. Você acha que ainda há alguma dançarina de categoria à disposição para fazer dupla com ele?

— Não, que eu conheça — Debbie falou, pensativa. — Ainda bem. É uma preocupação a menos para nós.

— É verdade. Mas ainda há Jim e Honey Loveman que têm números ótimos para este ano.

Debbie pôs de lado o prato vazio. Não havia motivos para prosseguirem com aquele assunto. Afinal, teriam bastante tempo para discuti-lo após a gravação.

— A comida estava uma delícia — observou. — Mas bem que eu gostaria de poder descansar um pouco. Tenho a impressão de que esta vai ser uma tarde exaustiva.

Os pressentimentos de Debbie tinham razão de ser. Conseguiram descansar por apenas quinze minutos, antes de submeterem-se outra vez à maquilagem e aos trajes adequados.

Filmaram várias vezes a mesma cena, pois nada parecia satisfazer o diretor. E, nos intervalos entre uma gravação e outra, não puderam nem ao menos sentar, para não amarrotar as roupas.

Finalmente, tudo acabou dando certo e voltaram ao camarim, exaustos.

— Deus! — Debbie queixou-se. — Parece que tenho chumbo nas pernas! E não é por causa da dança, mas pelos intervalos. Nunca fiquei tanto tempo de pé, sem fazer nada!

— Ah! Que delícia poder tirar esta fantasia! — Rick exclamou. — Também estou morto!

— Achei melhor não aceitarmos o convite do diretor para jantar — Debbie falou, livrando-se do vestido. — Tenho a impressão de que desabaria sobre o prato de sopa.

— Seria embaraçoso, não? — Rick riu. — Eu teria que arrumar uma desculpa para a minha esposa. Dizer que ela gostava tanto de sopa que nem se importava com a colher. Ou, então, dizer que sopa faz bem para a pele!

— Vamos embora, sim? — Debbie cortou, colocando um casaco de veludo sobre os ombros do marido. — Você está começando a ficar bobo.

Foi com alívio que deixaram o estúdio e aspiraram o ar fresco da noite.

— Deus! Já está escuro, Rick! — Debbie espantou-se.

— E o que você esperava? Já são quase oito horas!

— É tão estranho! Quando chegamos, hoje de manhã, o dia ainda não havia clareado, e agora encontramos a mesma coisa. Nem ao menos vimos o sol.

— São os ossos do ofício, querida.

— É. Eu sei. Não estou reclamando. Foi até divertido. Mas preferia ter passado o dia em casa, no nosso estúdio. Só nós dois. — E abraçou o marido com carinho.

— Realmente teria sido muito mais interessante — Ele sussurrou, beijando-a.

Eles poderiam ficar ali ainda por muito tempo, abraçados, envolvidos por aquela deliciosa sensação de estarem com a pessoa amada, mas um golpe de vento gelado os trouxe de volta à realidade.

Olharam ao redor. O estúdio ficava situado numa rua ocupada apenas por grandes depósitos. Nenhuma árvore, nenhuma pessoa à vista. Apenas latas e folhas de papel varridas pelo vento.

— Vamos embora daqui, querida. Este lugar me dá arrepios — Rick falou, puxando-a pela mão.

O carro já esperava por eles na esquina. Acomodaram-se no assento de trás e logo atravessavam a ponte George Washington, rumo ao lar, finalmente.

Apoiada no ombro de Rick, Debbie adormeceu. Ele, por sua vez, apesar de cansado, permaneceu desperto, olhando o vaivém das luzes dos carros. Uma grande satisfação o dominava. Sentia-se o homem mais feliz do mundo, pois tinha um trabalho adorável, saúde, um lar com Debbie, a iminente vitória de um campeonato e, quem sabe, um filho depois...

Quando o motorista saiu da rodovia principal, Rick decidiu que era a hora de acordar Debbie. E foi com pesar que o fez. Gostaria que continuasse dormindo para que pudesse carregá-la e colocá-la na cama, como se fosse apenas um bebê. Era incrível como aquela doce criatura lhe despertava um desejo quase irresistível de proteção. Mas não havia outro jeito, senão sufocar esse sentimento... Debbie detestava ser tratada como uma criança.

— Debbie, querida! Acorde... estamos chegando — falou mansamente.

Ela despertou, bocejando. Mas, ao reconhecer as proximidades do lar, arregalou os olhos.

— Devo ter dormido por mais de uma hora. O que fez nesse tempo todo, Rick?

— Estive pensando.

— Pensando em quê?

— Em mim... Em você... Em coisas assim.

Finalmente chegaram. A casa branca, de três andares e janelas verdes, erguia-se imponente, iluminada apenas pelo luar.

Na única janela iluminada, sobre o aquecedor, estava Sitar, a gata de estimação do casal. Astuta e preguiçosa, ela havia, como sempre, escolhido o lugar mais quente da casa.

Após se despedirem do motorista, Debbie e Rick saíram correndo para dentro de casa. Penduraram os casacos no hall e puseram-se a esfregar as mãos para aquecê-las do frio. Pela fresta da porta que conduzia à sala de visitas, surgiram os olhos cinzentos de Sitar, que os saudou com um miado displicente.

— Olá, mocinha — Debbie cumprimentou o animal. — Lembra-se de nós? Aqueles que lhe dão comida?

A gata deu outro miado, virou-se e foi embora.

— Nada como uma recepção calorosa, não é mesmo, querido? — Ela riu.

— Eu já disse a você que deveríamos ter um cão. Eles, pelo menos, lambem as mãos de quem os alimenta.

— Por falar em comida, acho bom prepararmos nosso jantar. Que tal alguns sanduíches?

— Perfeito — Rick concordou. — Estou tão cansado... Acho que não tenho nem forças para comer.

Era costume dos dois prepararem a comida e arrumarem a mesa juntos. Sem perguntas ou trombadas, o casal trabalhou em perfeita harmonia.

Em poucos instantes o lanche estava pronto e a mesa, graciosamente arrumada, com um jogo americano azul e branco, decorado com motivos campestres.

Comeram num silêncio quase absoluto, trocando apenas alguns monossílabos. E, ao terminarem, colocaram os pratos no lava-louças.

Exaustos, caminharam então abraçados até o quarto, local favorito do casal, assoalhado em pinho, coberto apenas por alguns tapetes rústicos e uma enorme cama de bronze.

Despiram-se rapidamente e enfiaram-se nus sob as cobertas. Era outro velho costume: só usavam pijamas nas noites mais geladas, preferindo que o contato de suas peles os aquecesse.

Rick abriu os braços, e Debbie aninhou-se no peito forte.

— Boa noite, querida — ele murmurou após beijá-la.

— Durma bem, amor — ela respondeu, uma doce sonolência tomando conta de seus sentidos.

O suave ranger da porta do quarto a sobressaltou, mas era apenas Sitar, a preguiçosa gata, que, após rodear a cama por alguns instantes, veio se refestelar aos pés dos donos. Rick já dormia.

— Tudo está bem. Tudo está como deveria estar — Debbie murmurou para si própria, pouco antes de mergulhar num sono profundo e tranquilo.

CAPÍTULO II

Na manhã seguinte, ao acordar, Debbie sentiu o aroma irresistível de café. Instintivamente, procurou por Rick na cama, mas ele já não estava mais lá.

Libertando-se da sonolência, olhou para o relógio e levantou-se de um salto. Já passava das dez horas. Não havia conseguido acordar com o toque do despertador, nem quando Rick levantara.

Após tomar um banho rápido, foi para a cozinha. Rick estava na mesa, imóvel escutando um tango e fazendo anotações numa folha de papel. Assim que a viu, fez um sinal com a mão, dando a entender que não queria ser perturbado.

Obediente, Debbie caminhou em silêncio até a mesa e serviu-se de um pouco de café.

Rick retornou a fita e pôs-se novamente a escutar a mesma música, com o semblante carregado, repetindo essa ação por mais duas vezes.

— Alguma idéia nova, querido? — ela perguntou, vendo-o preocupado com o número de dança como nunca tinha estado antes.

— Sim, algumas — ele respondeu, sem entusiasmo. — Mas precisamos ver se elas funcionam.

Às vezes, Rick tomava todo o trabalho para si, o que não agradava muito Debbie. Ela se sentia posta de lado, mesmo sabendo que fazia tudo isso apenas para poupá-la.

— Por que você não me acordou antes? Já é tão tarde...

— Quando percebi que você não havia acordado com o despertador, achei que precisava de um pouco mais de sono. E, depois, seu rosto parecia tão tranquilo que não tive coragem de chamá-la. — Ele se inclinou sobre a mesa e a beijou. — Bom dia, querida.

Debbie ergueu-se e afagou os cabelos loiros e macios de Rick.

— Ou muito me engano, ou você esteve escutando tango a manhã inteira, sem nem ao menos pensar na comida. Que tal se eu preparasse um lanche bem reforçado? Assim não precisaríamos interromper o ensaio para almoçar.

— Ótima idéia, meu bem.

Debbie preparou ovos, bacon e torradas, enquanto Rick voltava ao tango.

Após terminarem a refeição, os dois vestiram roupas apropriadas e saíram da casa em direção a seu estúdio particular.

Sitar, que se esquentava ao sol, deitada no parapeito da janela, saltou e pôs-se a seguir seus donos.

— Não precisava vir atrás de nós — Debbie disse para a gata, tomando-a nos braços. Riu, carinhosa. — Mas você não pode perder nada, não é mesmo?

Finalmente, atravessaram o pátio e chegaram ao estúdio, um antigo estábulo que recebeu, como o restante da casa, uma boa reforma. Uma clarabóia fora colocada no teto para deixar o local bem arejado e iluminado e grandes espelhos fixados nas paredes, para dar amplitude ao ambiente.

Mal colocavam os pés ali e sentiam uma vontade irresistível de sair dançando. Tinham construído um universo particular, um mundo próprio só para eles. Às vezes, passavam-se dois ou três dias sem que saíssem da propriedade, numa rotina que os agradava muito.

Era ali também que davam aulas de danças a grupos de pessoas interessadas em aprender aquela arte que Rick e Debbie dominavam tão bem.

Ao entrar, ela depositou a mascote sobre um pequeno tapete. Sitar deu um miado displicente e preparou-se para dormir.

— Animalzinho ingrato! — ela exclamou, num tom brincalhão. — Parecia ansiosa por nos ver dançar e agora resolve dormir!

Os dois puseram-se a rir do comportamento do ingrato animal que tanto adoravam e depois se apressaram em começar suas atividades.

Naquele dia iniciaram o trabalho com um severo aquecimento na barra. Ensaiar com os músculos frios seria um grande risco naquela época tão próxima ao campeonato. Não poderiam sofrer acidente algum, nem mesmo uma simples torção que lhes custasse alguns dias de repouso. Cada minuto do tempo que ainda restava era imprescindível para a preparação.

Haviam se inscrito também na categoria de ritmos latino-americanos, além das danças tradicionais. Mas, devido ao trabalho exaustivo com os comerciais, estavam atrasados no preparo dos números. Quatro das danças tradicionais já estavam coreografadas: Fox trote, valsa, valsa vienense e polca, porém ainda faltavam o tango e os números latino-americanos.

O tango, que sempre fora a especialidade da dupla, acabara por se transformar no grande fantasma. Rick havia preparado dúzias de coreografias diferentes, entretanto, de algum modo, não conseguira encontrar a combinação mágica, a série de passos capazes de eletrizar uma platéia e dar-lhes a impressão de naturalidade.

Após fazerem uma rápida revisão dos números já prontos, resolveram enfrentar o tango. Rick ligou o toca-fitas, e logo o ritmo langoroso encheu o ar.

— Vamos escutar a música, primeiro — ele disse. — Enquanto isso, vou lhe explicar as idéias que tive.

Ele falou sem parar, durante toda a música, ao mesmo tempo em que demonstrava um outro passo.

Debbie o escutava em silêncio, atenciosa. Sabia o quanto era importante cada detalhe, cada movimento.

— Vamos tentar? — ele sugeriu, por fim. — Primeiro, sem música, bem devagar.

As horas passaram, com sequências inteiras sendo analisadas e rearranjadas. E, e a cada nova tentativa, algo saía errado.

A frustração começava a tomar conta dos dois que, apesar do frio, estavam encharcados de suor. Diante da infinidade de mudanças introduzidas durante o dia, já não tinham mais certeza do que haviam conseguido alcançar.

Rick parecia um pouco mais otimista.

— Acho que desta vez vamos conseguir, Debbie. Que tal descansarmos um pouco antes de tentar?

— É uma ótima idéia. Melhor ainda se aproveitarmos para beber algo — ela sugeriu.

Dizendo isso, dirigiu-se à saleta pegada ao estúdio, que lhes servia de cozinha, onde havia um pequeno refrigerador e um fogãozinho. Preparou dois sucos de maracujá, pegou algumas frutas frescas e voltou para junto de Rick.

Saciaram a sede ouvindo tango. Apesar do silêncio e da imobilidade de seus corpos, o ritmo da dança ainda os absorvia. Suas mentes continuavam a trabalhar, ansiosas. Terminado o pequeno intervalo, voltaram aos ensaios.

Na primeira tentativa, foram muito rápidos em algumas passagens e muito lentos em outras. Debbie sentiu vontade de chorar, mas não disse nem uma palavra. Puseram-se a ensaiar apenas as sequências mais difíceis e depois tentaram outra vez a dança completa. E mais uma vez, e outra, até que, afinal, o número começou a tomar forma. Mal conseguiam reprimir o entusiasmo que começavam a sentir.

— Acho que agora conseguimos — Rick murmurou, excitado.

Debbie sentia o mesmo. Abraçaram-se, tensos e emocionados, ouvindo as batidas frenéticas de seus corações.

— Vamos tentar de novo? — ele sugeriu.

— Sim. Desta vez para valer! — Debbie disse, animada.

Ao darem os primeiros passos, perceberam imediatamente que suas esperanças iriam se confirmar. As sequências se encadeavam com perfeição e naturalidade. O ritmo tomava conta de seus corpos. Não precisavam mais pensar em cada movimento. Moviam-se como que por instinto. A dança deixara de ser apenas um amontoado de passos para tornar-se um ato espontâneo de seus corpos.

Ao terminarem o número, Rick ergueu Debbie no ar e pôs-se a girar pela sala, quase explodindo de felicidade.

— Nos conseguimos, querida! Nós conseguimos!

— Sim, Rick! Sim! Mas ponha-me no chão. Estou ficando tonta.

Os dois se abraçaram, rindo como duas crianças.

— Está melhor agora? — ele perguntou, recolocando-a no chão.

— Sim, seu maluco.

— Então, vamos tentar de novo. Façamos de conta que hoje é o dia da apresentação. Depois comemoraremos com um frango à Ia Rick... e uma farrazinha. O que você me diz disso?

— Hum... Acho que prefiro primeiro a farra. O frango fica para depois.

— Boba! — ele murmurou, beijando-lhe o pescoço. — Quem já ouviu falar em frango de sobremesa?

— Rick, vamos voltar ao serviço. Coloque a música logo, ou não terminaremos nunca o ensaio.

— Tem razão, querida. Eu mal posso esperar que tudo isso termine.

Rick acionou novamente a fita no gravador e, ao primeiro som da música, Debbie levantou os braços na direção do marido, convidando-o a iniciar a dança.

A nova tentativa foi ainda melhor. Os movimentos fluíam com mais naturalidade. Conduzida pelos braços fortes do companheiro, Debbie sentia-se leve ao rodopiar pelo estúdio. Ao aproximar-se do grande final, inclinou-se para trás e apoiou-se em Rick, que lhe envolveu a cintura e, num movimento brusco, desceu-a quase até o chão. Então, em perfeita sincronia, ela ergueu uma das pernas, ao mesmo tempo em que esticava um braço acima da cabeça, numa posição final de triunfo.

— Lindo! — Rick murmurou. — Absolutamente esplêndido! Olhe para o espelho e guarde para sempre a imagem deste momento.

Num dos grandes espelhos do estúdio, Debbie fitou com prazer a pose teatral. Sua tez, normalmente pálida, brilhava de excitação. A boca, sensualmente entreaberta, parecia prometer prazeres insuspeitos. E Rick, inclinado sobre ela, sustentando-a a poucos centímetros do chão, era a imagem perfeita da masculinidade.

— Rick — ela sussurrou. — Ainda temos mais uma sequência de movimentos.

— É verdade — ele respondeu, com a voz rouca, abraçando-a, os profundos olhos azuis cheios de desejo

Mas, ao invés de continuar a conduzi-la, apenas aproximou os lábios dos dela lentamente e a beijou.

Alheios à música, seus corpos tremiam de excitação. Apesar de dançarem juntos há três anos, a proximidade que aqueles momentos lhes proporcionava, sempre aguçava seus sentidos, como se fosse a primeira vez que se tocavam.

Possuídos pelo desejo, os dois permaneceram enlaçados, acariciando-se, enquanto as últimas notas do tango se perdiam no ar da tarde.

— Vamos para casa, Rick? — ela murmurou, ofegante.

— Não. Eu quero você aqui. Agora.

Indecisa, Debbie lançou um olhar fugidio ao espelho.

— Aqui e agora — Rick insistiu. — Vou buscar alguns lençóis no vestiário.

Debbie observou o marido atravessar o grande estúdio com passos largos e firmes em busca dos lençóis que eles mantinham lá para o caso de acidentes ou mal súbitos de alunos durante as aulas. Sentiu um arrepio de frio. Logo os braços de Rick a envolveriam e seus corpos se aqueceriam.

— Com frio, querida? — ele perguntou, quando voltou e a viu com os braços cruzados, toda encolhida. Apressando-se, rodopiou ao redor dela, antes de depositar, com um gesto solene, os lençóis a seus pés. — Aqui está, gentil donzela. Seu admirador estende-lhe a capa para que não suje os pés. — Caiu ao chão de joelhos, dramático. — Sou seu escravo, minha senhora!

Rindo, ela estendeu o braço e puxou-lhe o nariz.

— Ei! — ele protestou. — O que está fazendo?

— Tentando apertar o parafuso solto.

— Como, madame? Como pode dizer isto? Atreve-se a desonrar meu caráter?

— Não. Apenas seu corpo.

Debbie deslizou os dedos gentilmente sob a camisa dele.

— Venha, querido.

— Já que insiste...

— Sim, eu...

— "Sim"... — Rick repetiu. — Dissemos esta palavra há dois anos e, se tivesse que voltar atrás, eu a diria novamente, sem hesitação.

Então, devagar, como que para saborear aquele momento, ele começou a despir o corpo desejado da esposa, que em poucos segundos estava completamente nu diante de seus olhos, deixando à mostra as pernas bem torneadas, os seios arredondados e firmes, a curva graciosa do ventre.

Apesar de habituada à visão do corpo do marido, Debbie nunca deixava de sentir a mesma emoção quando via os músculos fortes, os quadris finos, os pelos dourados que lhe cobriam o peito largo. O coração parecia querer saltar-lhe da boca na expectativa do toque másculo.

Um gemido de prazer escapou-lhe dos lábios quando seus corpos se colaram, num abraço apaixonado.

Gentilmente, ele a puxou para que se deitasse, e começou a acariciá-la, os dedos hábeis deslizando pelo rosto fino, caminhando em direção aos seios e depois ao ventre.

— Oh, Rick... — ela murmurou, ardendo de desejo.

Em resposta, os lábios carnudos percorreram o mesmo caminho que os dedos. Trêmulos de excitação, eles já não podiam mais se conter.

Uma onda irresistível de prazer tomou conta dos amantes, fazendo com que ele se acomodasse sobre o corpo delicado de Debbie, beijando-a com ardor.

— Eu a amo — ele murmurava a todo instante.

Debbie percebeu que o marido não a encarava. Seguiu-lhe a direção do olhar: estavam fixos no espelho; no reflexo de seus corpos unidos, movendo-se em perfeita sincronia à luz fraca da tarde.

— Não, Rick — exclamou.

— O que foi, querida?

— Este ato não pode ser admirado como a um espetáculo, mas sentido profundamente.

— É tão bonito como quando estamos dançando — ele observou, poético.

— Mas é muito mais íntimo, também.

— A lembrança de nosso amor estará sempre presente, seja o que for que estejamos fazendo. Nossos corpos se movem com a mesma harmonia, com a mesma emoção.

Abraçados, rolaram pelos lençóis.

— Mas não se preocupe, querida. Não estamos dando nenhum espetáculo. Não há mais ninguém aqui. Apenas nós dois.

Um novo ímpeto tomou conta de ambos. Abraçaram-se ainda com mais força e paixão, enlouquecidos de prazer. Com os músculos retesados, a respiração rápida, atingindo quase o clímax, permaneciam com os olhos abertos, fitando-se, demonstrando o amor que sentiam um pelo outro, somente fechando-os no momento do êxtase maior.

Exaustos, cobertos de suor, permaneceram abraçados por um longo tempo, sentindo os músculos relaxando vagarosamente e a temperatura de seus corpos igualando-se à do ambiente.

— Rick, acho melhor nos vestirmos — ela falou, quebrando o silêncio da escuridão.

— Tem razão, querida — suspirou. — Vou acender as luzes.

Após beijá-la com carinho, levantou-se, deixando-a deitada no calor dos lençóis. De repente, o guincho da gata de estimação cortou o silêncio do estúdio, seguido pelo barulho de algo que caía ao chão.

— Sitar! — Rick gritou irritado. — Que diabos você está fazendo aqui no meio do caminho?

Debbie explodiu em gargalhadas.

— O que há de tão engraçado? — ele perguntou, sem compartilhar da alegria da esposa.

— Nada. Você acha que ela ficará traumatizada?

— Por quê?

— Por ter presenciado uma cena escandalosa. E ainda ser chutada depois. Coitadinha!

A risada de Rick foi breve, logo se convertendo em um gemido de dor.

— O que foi? — Debbie perguntou, erguendo-se imediatamente, preocupada.

— Meu tornozelo. Quando tento me mexer... Ai!

Debbie correu para acender as luzes. No meio do estúdio, Rick tinha o rosto contorcido pela dor. Após envolvê-lo em um lençol, saiu correndo para o escritório.

— Não se mova. Vou telefonar para o dr. Gould.

Ela quase gritou com o médico, que pacientemente fazia perguntas sobre o acidente, sem notar a aflição que a devorava, pensando no marido deitado, sofrendo no estúdio.

Após desligar o telefone, tentou assumir um ar mais despreocupado. Não queria que Rick soubesse de seus temores. O dr. Gould havia lhe dito que suspeitava que o tornozelo dele estivesse quebrado, o que seria o caos!

Quando conseguiu parar de tremer, disse:

— O doutor vai chamar uma ambulância. Vamos encontrá-lo no hospital.

— Hospital? Para quê?

— Ele quer tirar algumas radiografias. Só para ter certeza de que não há nada de errado com você.

— Bem... Então, preciso me vestir. Arranje-me algumas roupas, meu bem. Por favor.

— Não posso. O médico disse que você não deveria se mexer.

— Mas eu não posso ir nu para o hospital. É embaraçoso demais.

— Rick, o que é mais importante? Sua reputação ou sua perna?

Ele sorriu pela primeira vez depois do acidente.

— Nesse caso, você também não precisará se vestir. Podemos ir os dois para o hospital, embrulhados em lençóis. Seria um grande gesto de companheirismo. O que acha?

— Companheirismo demais para o meu gosto — ela observou sorrindo, mais tranquila com o bom humor do marido.

Debbie fez menção de levantar-se para vestir suas roupas, mas Rick a impediu.

— Fique comigo mais um pouco. Ainda há tempo.

Ela assentiu com um gesto carinhoso de cabeça, o medo novamente invadindo-a.

— Rick, estou assustada.

— Eu também, querida. Eu também.

Em silêncio, deram as mãos, sem trocarem mais uma palavra. Um vento frio começava a soprar.



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