O mal-estar na civilizaçÃO: a influência da tecnologia e o papel da educaçÃO



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O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO:

A INFLUÊNCIA DA TECNOLOGIA E O PAPEL DA EDUCAÇÃO
Márcia Magalhães Gomes (UCP)
Essas coisas— que, através de sua ciência e tecnologia, o homem fez surgir na terra [...]— ele as pode reivindicar como aquisição cultural sua. [...] Há muito tempo atrás, ele formou uma concepção ideal de onipotência e onisciência que corporificou em seus deuses. [...] Hoje, [...] ele próprio quase se tornou um deus [...]. O homem, por assim dizer, tornou-se uma espécie de “Deus de Prótese”. Quando faz uso de todos os seus órgãos auxiliares, ele é verdadeiramente magnífico; esses órgãos, porém, não cresceram nele e, às vezes, ainda lhe causam muitas dificuldades.

Freud (O mal-estar na civilização)


O momento atual pode ser caracterizado como peculiar na história da humanidade em decorrência do acelerado avanço na ciência e na tecnologia ocorrido no século XX.

Segundo Lévy (1999):

Na época atual, a técnica é uma das dimensões fundamentais onde está em jogo a transformação do mundo humano. A incidência, cada vez mais pregnante, das realidades tecnoeconômicas sobre todos os aspectos da vida social e também os deslocamentos menos visíveis que ocorrem na esfera intelectual obrigam-nos a reconhecer a técnica como um dos mais importantes temas filosóficos e políticos de nosso tempo. (p.7)
A globalização, realmente, trouxe conseqüências que alguns vêem como positivas, outros como negativas, entretanto, todos percebem a situação de crise que o mundo está enfrentando.

Mas o que deve ser entendido pelo termo crise? Será algo a ser temido pelos resultados nefastos que dela poderão advir? Ou deve ser concebida com uma conotação otimista cuja resolução provoque acréscimos significativos para a humanidade? Seja qual for a resposta, temos que assumir um certo “estado de choque” vivido no momento presente.

Segundo Meyer (1999), esse momento levanta a problemática:

da perda do senso de realidade, de sentido e de valores, ocasionada pela virtualização do homem, pelo jorrar incessante de informação e imagens via televisão, internet, propaganda [...] é levantada [inclusive] a dominação planetária da ciência e da tecnologia, com a conseqüente eliminação das diferenças culturais. O homem tende a perder um certo senso de interioridade, as coisas simples perdem o seu valor, o pensamento é soterrado pela avalanche de imagens. (p.154)


Não podemos, portanto, negar que é flagrante o estado de mal-estar em que se encontra a civilização, o que nos remete à conhecida obra de Freud publicada na primeira metade do século que findou.

O título original escolhido por Freud era “A infelicidade na civilização” que, posteriormente, foi mudado para “O desconforto do homem na civilização” e, finalmente, o definitivo, por sugestão de sua tradutora, veio a ser “O mal-estar na civilização”. Acreditamos, porém, que “O desconforto do homem na civilização” expressaria com maior propriedade tanto o momento vivido por Freud quanto o atual, na medida em que o homem é o seu principal foco.

O texto põe em destaque o antagonismo irremediável entre as exigências do instinto e as restrições da civilização. Esse assunto encontra sua origem em um dos mais antigos escritos de Freud, quando, em carta enviada a Fliess, o autor afirma que o incesto é anti-social e a civilização consiste na exigência de uma progressiva renúncia a ele.

Em seus “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Freud destaca a relação inversa existente entre a civilização e o livre desenvolvimento da sexualidade. Fala o autor que:

tem-se das crianças civilizadas uma impressão de que a construção dessas barreiras é um produto da educação, e sem dúvida a educação tem muito a ver com ela. Mas na realidade, este desenvolvimento é organicamente determinado e fixado pela hereditariedade, e pode ocasionalmente ocorrer sem qualquer auxílio da educação (p.181)
Apesar dessa postura assumida por Freud nos Três ensaios, não se tornou possível uma avaliação esclarecedora do papel desempenhado nessas restrições ao homem, determinadas por influências internas ou externas, até que suas investigações sobre a psicologia do ego o levaram às hipóteses sobre o superego e suas origens nas relações objetais do indivíduo.

É no “O mal-estar na civilização” que Freud vai evidenciar seu interesse pela classificação do sentimento de culpa que, para ele, seria o mais importante problema para o desenvolvimento da civilização.

Um segundo tema posto em questão nessa obra é o instinto de destrutividade ou agressividade.

Em trabalho posterior, que se originou de uma correspondência entre Einstein e Freud acerca da motivação que levaria o homem à guerra, o criador da psicanálise foi enfático ao afirmar que os conflitos de interesse entre os homens se resolvem pelo uso da violência.

Apresenta, ainda, parte da teoria dos instintos formulada pela psicanálise ao afirmar que:

os instintos humanos são apenas de dois tipos: aqueles que tendem a preservar e a unir – que denominamos “eróticos”, exatamente no mesmo sentido em que Platão usa a palavra “Eros” em seu Symposium ou “sexuais”, com uma deliberada ampliação da concepção popular de sexualidade - ; e aqueles que tendem a destruir ou matar - os quais agrupamos como instinto agressivo ou destrutivo. (p. 252)


Continua, destacando que os instintos não operam sozinhos, havendo predominância de um em detrimento de outro em determinados momentos: a auto-preservação precisa da agressividade para atingir seu objetivo. Afirma Freud, que “a dificuldade de isolar as duas espécies de instintos em suas manifestações reais é, na verdade, o que até agora nos impedia de reconhecê-los” (p.252).

Para Freud, as ações humanas apenas raramente são conseqüência de um único instinto. Cita, como exemplo, o que fora percebido pelo físico Georg Christoph Lichtenberg ao inventar uma bússola de motivos. Quando os seres humanos são levados à guerra, isto pode ocorrer por motivos nobres ou vis. Necessariamente, existe o desejo de agressão e destruição. Esses impulsos são satisfeitos mais facilmente em virtude de aparecerem amalgamados com motivos de natureza erótica e idealista.

Destaca Freud que o instinto destrutivo está em atividade em todos os seres humanos e procura conduzí-los à condição original de matéria inanimada, o que pode ser denominado de instinto de morte. Enquanto isso, os eróticos simbolizam o esforço pela vida. Enfatiza ainda o autor que:

o instinto de morte torna-se instinto destrutivo [...] quando é dirigido para fora, para objetos. O organismo preserva a sua própria vida, destruindo a vida alheia. Uma parte do instinto de morte, contudo, continua atuante dentro do organismo, e temos procurado atribuir numerosos fenômenos normais e patológicos a essa internalização do instinto de destruição (p. 254).


A análise dos instintos de vida e de morte foi mais profundamente descrita por Freud em sua obra “Além do princípio do prazer”. É nessa obra que apresenta pela primeira vez a dicotomia entre Eros e o instinto de morte.

Segundo o autor , um instinto seria:

um impulso inerente à vida orgânica, a restaurar um estado anterior de coisa, impulso que a entidade viva foi obrigada a abandonar sob a pressão de forças perturbadoras externas, ou seja, é uma espécie de elasticidade orgânica, ou, para dizê-lo de outro modo, a expressão da inércia inerente à vida orgânica. (p.54)
Comenta ainda que, acostumados a ver os instintos como agentes de transformação, pode causar estranheza a identificação de uma situação exatamente oposta: ver os instintos como expressão da natureza conservadora da substância viva. Freud chega a mencionar a possibilidade da existência de instintos que atuam no sentido do progresso, entretanto, acreditava que no momento deveria perseguir “a hipótese de que todos os instintos tendem à restauração de um estado anterior de coisas.” (p.55)

O autor fala ainda que se assumirmos como verdadeiro:

o fato de que tudo que vive morrer por razões internas, tornar-se mais uma vez inorgânico, seremos então compelidos a dizer que o objetivo de toda a vida é a morte, e, voltando a olhar para trás, que as coisas inanimadas existem antes das vivas. (p.56)
Freud explica o instinto de vida através de uma análise das células germinais, que trabalhariam contra a morte da substância viva. Os instintos que defendem as células germinais contra os estímulos do mundo externo e que proporcionam seu encontro com outras células germinais são os instintos sexuais que “são os verdadeiros instintos de vida. Operam contra o propósito dos outros instintos, que conduzem, em razão de sua função, à morte, e esse fato indica que existe oposição entre eles e os outros.” (p.58)

Freud põe ainda em destaque a visão dualística da vida institual afirmando que:

existe algo mais, de qualquer modo, a que não podemos permanecer cegos. Inadvertidamente voltamos nosso curso para baía da filosofia de Schopenhauer. Para ele, a morte é o verdadeiro resultado e, até certo ponto, o propósito da vida, ao passo que o instinto sexual é a corporificação da vontade de viver. (p.69)
Neste milênio que se inicia, bem como no século que o antecedeu, a violência e a destrutividade têm sido uma constante.

Quantas vidas vêm sendo ceifadas ao longo desse período tanto nas guerras entre países quanto nos demais conflitos que, em última instância, têm como objetivos o alcance ou a manutenção do poderio de uns em detrimento dos que a eles ficaram subjugados.

A violência vem sendo estampada em todos os meios de comunicação. Hoje assistimos ao vivo pela televisão a guerras, assaltos, revoluções e todas as demais formas de agressão ao homem pelo homem.

Paralelamente a esse tipo de violência, somos, também, atingidos em nossa privacidade pelas novas tecnologias. Presenciamos, hoje, a profundas e radicais transformações. Com o processo de globalização, os homens, independentemente de sua vontade, estão interligados em seu cotidiano. Vivemos uma época que favorece o poder da imagem na modelização do mundo e do sujeito.

Segundo Lévy (1993):
O que acontece com a distinção bem marcada entre o sujeito e o objeto do conhecimento quando nosso pensamento encontra-se profundamente moldado por dispositivos materiais, e coletivos sociotécnicos? Instituições e máquinas informacionais se entrelaçam no íntimo do sujeito. A progressão multiforme das tecnologias da mente e dos meios de comunicação pode ser interpretada como um processo metafísico molecular, redistribuindo sem descanso as relações entre sujeitos individuais, objetos e coletivos. Quem pensa? É o sujeito nu e monádico, face ao objeto? São os grupos intersubjetivos? Ou ainda as estruturas, as línguas, as epistemes ou os inconscientes sociais que pensam em nós? (p. 10-11).
Parece, portanto, que a tecnologia entendida como solucionadora de problemas exige a demissão do sujeito pois leva à massificação e ao empobrecimento ético e moral.

De acordo com Parente (1999):

As novas tecnologias de produção, captação, tansmissão, reprodução, processamento e armazenagem de imagem estão aí como realidade incontornável: o telescópio, o microscópio, a radiografia, a fotografia, o cinema, a televisão, o radar, o vídeo, o satélite, a fotocopiadora, o ultrasom, a ressonâcia magnética, o raio laser, a holografia, o telefax, a câmara de pósitrons, a infografia. São as máquinas de visão, que à primeira vista funcionam como meio de comunicação, seja como extensões da visão do homem, permitindo-o ver e conhecer um universo jamais visto porque invisível a olho nú. Do infinitivamente pequeno ao infinitamente grande, um novo universo se “descobre” se “desvela”, se “cria”, em seus movimentos regulares e caóticos. (p. 13-14)
Não podemos negar que as novas tecnologias trouxeram avanços em todos os campos do conhecimento, entretanto, cabe ressaltar que os sujeitos vêm sendo condicionados através destes veículos que circulam no mundo globalizado em tempo real.

Na opinião de Lévy (1999):


Na época atual, a técnica é uma das dimensões fundamentais onde está em jogo a transformação do mundo humano por ele mesmo. A incidência cada vez mais pregnante das realidades tecnoeconômicas sobre todos os aspectos da vida social, e também os deslocamentos menos visíveis que ocorrem na esfera intelectual obrigam-nos a reconhecer a tecnologia como um dos mais importantes temas filosóficos e políticos de nosso tempo. (p.7)
Pergunta ainda o autor que conseqüências trará para o sujeito o avanço da tecnologia?

Herrmann (1994) parece responder à questão proposta por Lévy ao descrever “como a crise da realidade atinge necessariamente o cerne da identidade, criando as chamadas “patologias do eu”. O “novo paciente” é, antes de tudo, um ser em confusão” (p.321).

Tudo é fugaz em uma sociedade que tende à desindividuação, à construção de egos frágeis e dependentes do investimento no outro. Ocorre, portanto, uma adesão acrítica a idéias, projetos e valores impostos pelos países hegemônicos como conseqüência da globalização.

Destaca Herrmann (1997), que a crise da crença na realidade acaba afetando a identidade do sujeito e que, na impossibilidade de sustentar o mundo em que vivemos, instaura-se o regime da farsa, que é a forma lógica-emocional que subjaz à moralidade contemporânea.

Para Lipovestky (1983), está ocorrendo uma mutação sociológica global muito ampla que, consequentemente, provoca um processo de personalização que rompe com a ordenação, a disciplina e a austeridade do mundo moderno. Isso dá origem a uma sociedade onde o valor máximo é a liberdade de viver sem coação, viver no aqui e agora, liberdade sexual, rebaixamento da hierarquia, legitimação de valores hedonistas e narcisistas. Há no pós-moderno um sentimento de incerteza em relação ao mundo.

Segundo Bauman (1997), as identidades vão-se adaptando a cada momento.Vivemos um tempo fragmentado que parece ter-se perdido do passado e do futuro e onde esquecer é tão ou mais importante que lembrar. É um mundo de objetos efêmeros, criados para cair rapidamente em desuso. As identidades podem ser adotadas e descartadas como troca de roupas. Há a determinação de viver um dia de cada vez, uma recusa a não se fixar, não jurar coerência nem lealdade a nada nem a ninguém, não controlar o futuro e reduzir o fluxo do tempo a um presente contínuo.

Lyotard (1998) corrobora esse posicionamento ao descrever a situação pós-moderna. Afirma o autor, que vivemos em um contexto no qual a pluralidade das regras de comportamento impede a existência de uma metalinguagem universalmente válida para todos os sujeitos. A centralidade dos mitos, dos universos ideológicos e das religiões universais está comprometida diante da fragmentação do consenso.

O sujeito pós-moderno é profundamente descentrado, escapando da totalidade do “grande relato” em que era envolvido nas épocas anteriores.

Rouanet (1997) acompanha a mesma linha de pensamento ao afirmar que o mal-estar na pós-modernidade se dá pela rejeição do projeto iluminista, que visava à auto-emancipação da humanidade e que se faria “através de um conjunto de valores e idéias consubstanciados em tendências como o racionalismo, o individualismo e o universalismo” (p.9).

Afirma ainda o autor que:

A repressão assume a forma de liberdade. A violência contra o pensamento não se manifesta mais como proibição de pensar, mas como liberdade de pensar, o que nas condições atuais de condicionamento invisível significa liberdade de pensar o que todos pensam. A violência contra a vontade popular não se exerce mais pela tirania, mas por um sistema democrático cujas regras formais de funcionamento impedem uma verdadeira contestação do poder existente (p.10-11)
Enfatiza Rouanet (1997) que, no que se refere à sexualidade— que foi por Freud considerada como tendo que ser reprimida como exigência da civilização— o que ocorre, no momento, é uma liberalização que no fundo está “a serviço da repressão, à medida que ela se dá em condições de “dessublimação repressiva” (p.11).

Destaca, ainda o autor que:

O indivíduo é solapado tanto pelo conformismo inerente à moderna sociedade de massas como pelas tentativas de reagir à massificação. Cada vez mais o mundo tenta mergulhar no coletivo. Há uma nostalgia do aconchego comunitário, uma busca de raízes, de identidades grupais. (p.11)
Na prática, o universalismo sucumbe ao particularismo, havendo um retorno ao racismo, ao nacionalismo, ao regionalismo e ao tribalismo. A guerra aparece como uma alternativa para a integração supranacional.

A agressividade está solta e valorizada em nome de pretensas posturas religiosas, defesa de territórios ou de ideologias.

Tudo é possível, tudo é permitido, aumentando, portanto, a tolerância aos impulsos destrutivos. O racional está bastante desprestigiado a não ser que venha a servir às necessidades do mercado em termos de competências específicas, com destaque para a competitividade.

Lyotard (1998) lembra as transformações que o progresso tecnológico trouxe para o campo do saber, através da dependência cada vez maior que a ciência tem das máquinas informacionais. A muliplicação dessas máquinas vem afetando a circulação do conhecimento.

A dependência que o saber tinha de uma formação cultural e científica torna-se desnecessária como conseqüência da oferta de conhecimento através das máquinas, bem como de seu acúmulo na memória das mesmas. O conhecimento é legitimado pela lógica do melhor desempenho, instaurando o terror tecnocrata.

Nesse momento em que a rapidez de resultados é fator primordial, a psicanálise vem sendo menos procurada pois não é bem aceita por aqueles que não pretendem uma busca das origens de sua dor psíquica. O que se procura é a satisfação imediata, quer seja através de tratamentos focais com uma finalidade específica, quer seja através de “drogas” legais e ilegais ou mesmo por meio de esoterismo.É uma busca frenética de prazer, seja qual for o preço pago por ele.

Freud, em “O mal-estar na civilização”, já mencionava esse fato ao afirmar que:

O serviço prestado pelos veículos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão altamente apreciado como um benefício, que tanto os indivíduos quanto os povos lhes concedem um lugar permanente na economia de sua libido. Devemos a tais veículos não só a produção imediata do prazer, mas também um grau altametne desejado de independência do mundo externo, pois sabe-se que, com o auxílio, desse amortecedor de preocupações, é possível, em qualquer ocasião afastar-se da pressão da realidade e encontrar refúgio num mundo próprio [...]. Sabe-se igualmente que é exatamente essa propriedade que determina o seu perigo e sua capacidade de causar danos (p.97)


Hoje, o uso extremado da internet não estaria a serviço de e dando origem a patologias?

Freud acreditava que, se a sexualidade não fosse reprimida, o homem atingiria a felicidade. O que vemos em nossos dias? O sexo está banalizado e descompromissado. A liberdade foi confundida por muitos com permissividade. Apesar da mídia dar ênfase à prevenção da Aids muitos preferem se arriscar, sentindo uma satisfação mórbida nas situações de promiscuidade. Torna-se, portanto, claro o estabelecimento do vínculo Eros-Tanatos.

O narcisismo atinge seu auge. O culto ao corpo é representado por uma ênfase exagerada na necessidade de permanecer longas horas nas academias, pelas cirurgias plásticas – para retirada ou acréscimos. Muito poucos se satisfazem com sua imagem física. A velhice precisa ser postergada, não no intuito saudável de melhorar a qualidade de vida, mas sim na tentativa de permanecer sempre jovem. O uso de anabolizantes, moderadores de apetite e fórmulas mágicas são prescritos. A anorexia e a bulimia vêm se tornando, freqüentes entre jovens, principalmente do sexo feminino.

A tecnologia tem trazido contribuições indiscutíveis a todos os campos do saber, mas seus efeitos nocivos também se fazem presentes.

Apesar de cidadão do mundo o sujeito é um ser, como dizia Freud, em desamparo, sem perceber com nitidez qual a solução para seus problemas.

Em “O futuro de uma ilusão”, entretanto, Freud já parecia indicar a saída ao afirmar que “não dispomos [...] de outros meios de controlar nossa natureza instintual, exceto a nossa inteligência! Como podemos esperar que pessoas que estão sob domínio de proibições de pensamento atinjam o ideal psicológico, o primado da inteligência?” (p. 62).

Continuando, o autor destaca que é possível que “o intelecto do homem não tenha poder em comparação com sua vida instintual [entretanto] a voz do intelecto é suave, mas não descansa enquanto não consegue uma audiência” (p. 68). Nessas falas podemos perceber com clareza o valor dado por Freud à capacidade intelectual do homem.

Posteriormente, em “O mal-estar na civilização”, Freud vai destacar o papel que a sublimação desempenha na vida do indivíduo. Afirma o autor que uma:



técnica para afastar o sofrimento reside no emprego dos deslocamentos de libido que o nosso aparelho mental possibilita e através dos quais sua função ganha flexibilidade. A tarefa aqui consiste em reorientar os objetivos instintivos de maneira que eludam a frustração do mundo externo. Para isso ele conta com a sublimação dos instintos. Obtém-se o máximo quando se consegue intensificar o suficiente a produção do prazer a partir das fontes de trabalho psíquico e intelectual. Quando isso acontece, o destino pouco pode fazer contra nós. Uma satisfação desse tipo, como por exemplo a alegria de um artista em criar, em dar corpo às suas fantasias, ou do cientista em solucionar problemas ou descobrir verdades possui uma qualidade especial que, sem dúvida, um dia poderemos caracterizar em termos metapsicológicos (p.98).
Ao se dar conta do processo que ocorre no que cunhou de sublimação, Freud havia entendido a importância da sexualidade para a criação intelectual.

Com a descoberta da existência da sexualidade infantil, Freud percebeu que na fase fálica as crianças apresentam práticas de natureza perversa que, posteriormente, serão reprimidas e submetidas à genitalidade, objetivando à procriação. Entre essas práticas, estão o exibicionismo, o voyerismo, a manipulação de órgãos sexuais, sempre acompanhadas de curiosidade. Freud chamou cada um desses aspectos perversos de pulsões parciais: pulsão oral, anal e escópica.

Em virtude da genitalidade não haver sido ainda despertada, a pulsão não tem um objeto preciso ao qual se dirigir, apresentando, portanto, um caráter errático. Decorrente desse fato, a pulsão parcial apresenta condições de se direcionar para caminhos aprovados socialmente, ou seja, se dá a sublimação. A pulsão é energizada pela libido, mas seu objeto não o é. Afirma, o autor, que através da sublimação o princípio do prazer é satisfeito dentro de padrões socialmente aceitáveis.

Apesar de identificar a educação como uma profissão impossível, Freud contribuiu substancialmente para o seu entendimento. Pôs em destaque a importância de que o educador deva buscar para seu aluno um equilíbrio entre o prazer individual e as necessidades sociais, ou seja, a repressão e a sublimação. Enfatiza ainda que só será bom educador aquele que conseguir estar em paz com a criança que vive dentro dele. Fala, também, que o ato de aprender sempre supõe uma relação com outra pessoa, a que ensina. O aprender é aprender com alguém, o que remete ao processo de transferência.

Através da transferência, mecanismo pelo qual é atribuído um sentido especial a uma pessoa determinada pelo desejo, o professor torna-se depositário de algo que pertence ao aluno. Daí deriva o poder do professor sobre o aluno. A transferência, como afirma Freud, é um processo inconsciente, entretanto, tudo que o aluno deseja é que o professor tenha condições de suportar a posição em que ele o colocou.

Quanta responsabilidade Freud delegou ao educador! Ser capaz de estabelecer bom relacionamento com o aluno, favorecendo dessa forma a possibilidade da transferência positiva, e promover situações que venham a favorecer a sublimação do aluno, pois ela será a fonte da criatividade e da produção científica e artística. E não são essas atitudes que a escola proclama como desejáveis em seus alunos?

E quanto às novas tecnologias? Qual a sua contribuição para a educação? Como já dissemos anteriormente, não podemos negar a importância da tecnologia para os diferentes campos do saber com reflexos diretos na educação. Sua contribuição, de extremo valor, não pode ser percebida, entretanto, sob um prisma de confiança extremada nem, também, através de uma visão crítica desmedida. A tecnologia não pode em si ser considerada nem boa nem má. Não devemos, porém, ter a ilusão que a simples incorporação de tecnologia produzirá efeitos favoráveis. É preciso que ela atenda às finalidades educativas a fim de que possa contribuir para a transformação da prática escolar.

É importante enfatizar que, não sendo neutra, a tecnologia está subordinada a jogos de poder e leis do mercado da sociedade em que está inserida. Conseqüentemente, o sistema educacional vai se apropriar da tecnologia sob uma determinada orientação ética, política, ideológica e pedagógica.

Lion (1997) destaca a ótica através da qual deverá ser percebida a tecnologia voltada para a escola ao afirmar que “produzir tecnologia não é somente inventar um novo aparelho, é questionar a tecnologia feita para a escola e o que, a escola faz com as produções tecnológicas. [...] É vincular tecnologia e cultura.” (p.31)

Sabemos ser imprescindível a utilização das novas tecnologias na escola, pois, através destas ferramentas, o acesso ao conhecimento será ofertado a todas as crianças que nela estiverem inseridas, uma vez que sua forma de pensamento, em nossos dias, está sendo estruturada a partir dos diferentes meios de comunicação.

A postura de Freud, ao designar o homem como “Um Deus de prótese” em “O mal-estar na civilização”, nos parece em parte adequada, na medida em que, com todo o avanço da tecnologia, o homem da atualidade convive com artefatos que há algum tempo só eram imaginados em termos de ficção científica.

O mal-estar na civilização persiste e pensamos que nunca deixará de ocorrer porque quem o provoca é o homem com suas virtudes e vicissitudes, assumindo as peculiaridades de cada momento histórico.

Acreditamos até que esse mal-estar seja bem vindo na medida em que se torne um desafio que impulsione o homem a buscar novas alternativas para resolver seus problemas e, especificamente, em nosso caso, o da educação.
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