O mapa dos Ossos James Rollins



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TRILOGIA SIGMA 01

O Mapa dos Ossos
James Rollins
tradução

Marcos José da Cunha



1ª. Reimpressão


Ediouro

Para Alexandra e Alexander

Que a vida de ambos brilhe tão intensamente quanto todas as estrelas

Agradecimentos
Num livro deste escopo, precisei do apoio de um grande número de pessoas: amigos, familiares, críticos, bibliotecários, curadores, agentes de viagens, lavadores de pratos e zeladores de animais de estimação. Primeiro, meus agra­decimentos a Carolyn McCray, que fez anotações com caneta vermelha em cada página antes de qualquer outra pessoa, e a Steve Prey, por suas idéias e insights que resultaram nas obras de arte descritas nestas páginas. Em seguida, é claro, sinto-me honrado em agradecer a meu grupo de amigos que se reúne quinzenalmente no Restaurante Cocos: Judy Prey, Chris Crowe, Michael Gallowglas, David Murray, Dennis Grayson, Dave Meek, Royale Adams, Jane O'Riva, Dan Needles, Zach Watkins e Caroline Williams. E, pela ajuda no terreno das lín­guas, minha profunda gratidão à minha amiga canadense Diane Daigle. Um agradecimento especial a David Sylvian pela energia, apoio e entusiasmo ilimi­tados e a Susan Tunis pelo empenho em apurar fatos de todo tipo. Como fonte de inspiração para esta história, devo mencionar os livros de Sir Laurence Gardner e a pesquisa pioneira de David Hudson. Por fim, as quatro pessoas que respeito pela amizade e pelos conselhos: minha preparadora de originais, Lyssa Keusch, e sua colega May Chen, e meus agentes, Russ Galen e Danny Baror. E, como sempre, devo ressaltar que todo e qualquer erro relacionado com fatos ou detalhes é de minha inteira responsabilidade.

A exatidão de qualquer obra de ficção é um reflexo dos fatos apresenta­dos. Assim sendo, embora a verdade às vezes possa ser mais estranha do que a ficção, esta sempre deve ter um fundo de verdade. Para este fim, todas as obras de arte, relíquias, catacumbas e tesouros descritos nesta história são reais. A seqüência de eventos históricos revelados nestas páginas é acurada. A ciência no âmago deste romance baseia-se em pesquisas e descobertas atuais.


As relíquias sagradas foram doadas a Rainald Von Dassel, arcebispo de Colônia (1159-67), após o saque da cidade de Milão pelo imperador Barba-Roxa. Esse tesouro foi doado ao arcebispo alemão pela cooperação e pelo exercício do cargo de chanceler a serviço do imperador. Nem todos estavam contentes em ver esse tesouro sair da Itália... não sem luta.


- De L'histoire de la Sainte Empire Romaine (História do Sacro Império Romano), 1845, Histoires Littéraires

Sumário
17 Prólogo
Dia Um

33 1. Atrás da bola oito

57 2. A cidade eterna

81 3. Segredos

100 4. Do pó ao pó
Dia Dois

131 5. Frenéticos

162 6. O incrédulo Tomé

188 7. Levando os ossos

212 8. Criptografia

237 9. Os Scavi

257 10. Invasores de túmulos
Dia Três

285 11. Alexandria

312 12. O enigma da esfinge

341 13. Sangue na água


Dia Quatro

373 14. Gótico

398 15. Perseguição

426 16. O labirinto de Dédalo

452 17. A chave de ouro
485 Epílogo
491 Nota do autor

Prólogo
Março de 1162
Os soldados do arcebispo desapareceram nas sombras do vale lá embaixo. Atrás deles, no alto do desfiladeiro glacial, cavalos guinchavam, alvejados e trespassados por flechas. Homens gritavam, berravam, urravam. O estrépito de aço soava tão claro quanto os sinos de uma capela.

Mas não era a obra de Deus que se fazia ali.

A retaguarda tem de agüentar-se firme.

Frei Joachim segurou as rédeas de sua égua enquanto ela escorregava de an­cas pela íngreme ladeira. A carroça com a carga havia chegado em segurança ao fundo do vale. Mas a verdadeira segurança ainda estava a uma légua de distância.

Se ao menos conseguissem alcançá-la...

Com as mãos cerradas nas rédeas, Joachim instigou sua cambaleante égua até o fundo do vale. Atravessou chapinhando um riacho gélido e arriscou uma olhadela para trás.

Apesar de a primavera ter-se anunciado, o inverno ainda prevalecia nos lugares mais altos. Os picos dos montes brilhavam intensamente ao sol poente. A neve refletia a luz, enquanto a geada se derramava dos picos escanhoados num turbilhão denso. Porém, ali nos desfiladeiros encobertos pelas sombras, a neve derretida transformara o chão da floresta num lodaçal. Os cavalos moviam-se com dificuldade até os machinhos e a cada passo corriam o risco de fraturar um osso. A frente, a carroça estava atolada quase até os eixos.

Joachim açoitou sua égua a fim de juntar-se aos soldados próximos à carroça.

Outra parelha de cavalos havia sido atada na frente. Homens empurravam atrás. Eles tinham de alcançar a trilha que atravessava a cadeia de montanhas seguinte.

- Eia! - gritou o condutor da carroça, fazendo estalar o chicote.

O cavalo-guia jogou a cabeça para trás e em seguida ergueu-se de encontro à cangalha. Nada aconteceu. Correntes retesaram-se, cavalos resfolegaram, ex­pelindo pelas narinas fumaça branca no ar frio, e homens gritaram palavras obscenas.

Devagar, bem devagar, a carroça saiu do atoleiro com o som de sucção de uma ferida aberta no peito. Afinal, ela se movia de novo. Cada atraso cobrara seu preço em sangue. Os moribundos gemiam no desfiladeiro atrás deles.



A retaguarda deve agüentar-se firme um pouco mais.

A carroça seguiu em frente, subindo de novo. Os três grandes sarcófagos de pedra na plataforma aberta da carroça deslizaram contra as cordas que os man­tinham presos no lugar.

Se alguma delas rebentasse...

Frei Joachim alcançou a carroça que atolara.

Seu irmão de ordem, Franz, aproximou-se em seu cavalo.

- A trilha à nossa frente está livre.

- As relíquias não podem ser levadas de volta para Roma. Precisamos che­gar à fronteira alemã.

Franz inclinou ligeiramente a cabeça, em sinal de compreensão. As relíquias já não estavam seguras em solo italiano, não com o verdadeiro papa exilado na França e o falso residindo em Roma.

A carroça subia mais rápido agora, encontrando terreno mais firme a cada movimento. Todavia, ela não avançava mais depressa do que um homem era capaz de andar. Joachim continuou a observar a serra distante, olhando fixa­mente por sobre a parte traseira de sua montaria.

Os sons de batalha haviam-se reduzido a gemidos e soluços, ecoando sinis­tramente pelo vale. O ruído de espadas havia cessado por completo, indicando a derrota da retaguarda.

Joachim esquadrinhou o vale, mas sombras densas impregnavam as altu­ras. A barreira de pinheiros negros ocultava tudo.

Em seguida, ele avistou um clarão prateado.

Uma figura solitária apareceu, iluminada por uma nesga da luz do sol, a armadura cintilando.

Joachim não precisou ver o dragão vermelho pintado no peitoral do homem para reconhecer o lugar-tenente do papa negro. O profano sarraceno adotara o nome de batismo Ferrabrás, em homenagem a um dos paladinos de Carlos Magno. Ele era pelo menos um palmo mais alto do que todos os seus homens. Um verdadeiro gigante. Sangue cristão manchava suas mãos mais do que as de qualquer outro homem. Batizado no ano anterior, o sarraceno agora era aliado do cardeal Otaviano, o papa negro que adotara o nome de Vítor IV.

Ferrabrás permaneceu na nesga da luz do sol, sem fazer qualquer tentativa de acossá-los.

O sarraceno sabia que havia chegado tarde demais.

A carroça afinal galgou a crista da serra e chegou à trilha ressequida e cheia de sulcos lá no alto. Eles agora avançariam rapidamente. O solo alemão estava apenas a uma légua dali. A emboscada do sarraceno fracassara.

Um movimento chamou a atenção de Joachim.

Ferrabrás tirou um arco enorme de um dos ombros, negro como as som­bras. Pôs lentamente a flecha na corda, encaixou-a, e em seguida inclinou-se para trás e puxou-a com toda a força.

Joachim franziu o cenho. O que ele esperava ganhar com uma flecha emplumada?

O arco vergou-se, e a flecha voou, descrevendo uma curva sobre o vale, perdida por um momento à luz do sol acima da cadeia de montanhas. Joachim, tenso, perscrutou o céu. Em seguida, tão silenciosa quanto um falcão que mer­gulha, a flecha acertou o alvo, despedaçando-se no sarcófago do meio.

Inacreditavelmente, a tampa do sarcófago partiu-se com um estrondo. As cordas desprenderam-se quando o sarcófago rachou, espalhando fragmentos ao redor. Agora soltos, todos os três sarcófagos deslizaram em direção à trasei­ra aberta da carroça.

Homens avançaram, tentando impedir que os sarcófagos de pedra se espa­tifassem no chão. Mãos estenderam-se. A carroça parou. No entanto, um dos sarcófagos inclinou-se demais. Caiu e esmagou um soldado, fraturando sua perna e pélvis. Os gritos estridentes do pobre homem retumbaram no ar.

Franz aproximou-se às pressas, apeando do cavalo. Ele juntou-se aos ho­mens na tentativa de tirar o sarcófago de pedra de cima do soldado - e, mais importante ainda, colocá-lo de volta na carroça.

O sarcófago foi erguido, o homem viu-se livre, mas o sarcófago era pesado demais para ser levantado até a altura da carroça.

- Cordas! - gritou Franz. - Precisamos de cordas!

Um dos homens que seguravam o sarcófago escorregou. Este tornou a cair, dessa vez de lado, e a tampa de pedra abriu-se.

O som do tropel de animais ergueu-se atrás deles. Na trilha. Chegando rá­pido. Joachim olhou para trás, sabendo o que encontraria. Cavalos, espuman­do e luzindo ao sol, precipitavam-se sobre eles. Embora distantes um quarto de légua, era evidente que todos os cavaleiros usavam trajes negros. Mais homens do sarraceno. Era a segunda emboscada.

Joachim simplesmente continuou montado. Não havia como escapar.

Franz ofegou - não por causa do apuro em que se encontravam, mas por causa do conteúdo do sarcófago que caíra. Ou, antes, pela falta dele.

- Vazio! - exclamou o jovem frade. - Ele está vazio.

O choque fez Franz erguer-se de um salto. Ele subiu o assoalho da carroça e fitou com os olhos arregalados o interior do sarcófago despedaçado pela flecha do sarraceno.

- Nada outra vez - disse Franz, caindo de joelhos. - As relíquias? Que des­graça é esta?

O jovem frade olhou nos olhos de Joachim e entendeu a falta de surpresa.

- Você sabia.

Joachim olhava fixamente para trás, na direção dos cavalos que se aproxi­mavam numa carreira desabalada. A caravana deles fora um ardil, uma mano­bra para enganar os homens do papa negro. O verdadeiro portador partira um dia antes, com uma parelha de mulas, levando as relíquias legítimas envoltas num pano grosso e escondidas num feixe de feno.

Joachim virou-se para olhar para Ferrabrás no outro lado do vale. O sarraceno poderia sentir o cheiro de sangue nesse dia, mas o papa negro nunca teria as relíquias.

Nunca.



Época atual

22 de julho, 23:46h

Colônia, Alemanha
À medida que a meia-noite se aproximava, Jason passou seu iPod para Mandy.

- Ouça, é o novo single do Godsmack. Ainda não foi lançado nos Estados Unidos. Não é o máximo?

A reação não foi a que Jason esperava. Mandy deu de ombros, inexpressiva, porém pegou os fones de ouvido que ele lhe oferecia. Ela escovou para trás as pontas dos cabelos negros, tingidas de rosa, e ajustou os fones aos ouvidos. O movimento fez sua jaqueta abrir o suficiente para revelar a marca de seus seios, do tamanho de uma maçã, pressionados contra a camiseta preta com estampa dos Pixies.

Jason olhou fixamente.

- Não estou ouvindo nada - disse Mandy com um suspiro cansado, arquean­do uma sobrancelha para ele.

Oh! Jason voltou a se concentrar no seu iPod e apertou a tecla Play.

Ele inclinou-se para trás apoiando-se nas mãos. Os dois estavam sentados numa relva fina que emoldurava a praça de pedestres, chamada Domvorplatz. Ela circundava a imponente catedral gótica, o Kölner Dom. Situada na Colina da Catedral, dela se avistava toda a cidade.

Jason contemplou a extensão das flechas gêmeas, decoradas com figuras de pedra, esculpidas em fileiras de relevos de mármore que iam do religioso ao arcano. Agora, iluminada à noite, a catedral dava a estranha sensação de algo antigo que se erguia das entranhas da terra, de algo que não era deste mundo.

Enquanto ouvia a música que escapava do iPod, Jason observava Mandy. Alunos do Boston College, ambos estavam em férias de verão e viajavam de mochila pela Alemanha e pela Áustria. Com eles viajavam dois outros amigos, Brenda e Karl, mais interessados nos bares da cidade do que em assistir à missa da meia-noite. Contudo, Mandy fora educada como católica romana. As mis­sas à meia-noite na catedral restringiam-se a alguns dias santos seletos, e o próprio arcebispo de Colônia participava delas, como a da Festa dos Três Reis Magos dessa noite. Mandy não queria perdê-la.

Embora Jason fosse protestante, concordara em acompanhá-la.

Enquanto eles esperavam a chegada da meia-noite, a cabeça de Mandy movia-se ligeiramente ao som da música. Jason gostava do modo como as me­chas de cabelo caídas na testa dela oscilavam de um lado para outro, do modo como o lábio inferior dela se projetava num beicinho enquanto ela se concen­trava na música. Subitamente, ele sentiu um toque em sua mão. Mandy havia chegado o braço mais para perto, roçando de leve a mão sobre a dele. Os olhos dela, no entanto, permaneciam fixos na catedral.

Jason prendeu a respiração.

Nos últimos dez dias, ambos deram-se conta de que saíam juntos cada vez com mais freqüência. Antes da viagem, não passavam de conhecidos. Mandy era a melhor amiga de Brenda desde o ginásio, e Karl era colega de quarto de Jason. Os respectivos amigos deles, namorados recentes, não queriam viajar sozinhos, caso seu relacionamento incipiente azedasse durante a viagem.

Não azedara.

Por isso Jason e Mandy muitas vezes acabavam passeando sozinhos.

Não que Jason se importasse. Ele estudava história da arte na faculdade. Mandy especializava-se em estudos europeus. Ali seus estéreis compêndios acadêmicos adquiriam materialidade e contornos, peso e solidez. Por terem em comum um entusiasmo semelhante pela descoberta, um achava que o outro era uma companhia de viagem descomplicada.

Jason manteve os olhos desviados do toque dela, mas um de seus dedos aproximou-se dos de Mandy. Será que a noite acabara de ficar um pouco mais animada?

Infelizmente, a canção logo chegou ao fim. Mandy sentou-se mais ereta, afastando a mão para tirar os fones de ouvido.

- Nós deveríamos entrar - sussurrou ela, apontando com a cabeça para a fila de pessoas que entravam pela porta da catedral. Ela levantou-se e abotoou a jaqueta - um casaco sóbrio - por sobre a camiseta chamativa.

Jason ficou junto de Mandy enquanto ela alisava a saia, que ia até os torno­zelos, e penteava para trás das orelhas as pontas cor-de-rosa dos cabelos. Num piscar de olhos, ela se transformou de uma estudante universitária meio punk numa colegial católica séria.

Jason ficou embasbacado com a súbita transformação. De jeans pretos e jaqueta clara, ele de repente sentiu-se malvestido para assistir a um serviço religioso.



  • Você está ótimo - disse Mandy, parecendo adivinhar a preocupação dele.

  • Obrigado - murmurou ele.

Eles pegaram seus pertences, jogaram as latas de Coca-Cola vazias numa lixeira próxima e atravessaram a pavimentada Domvorplatz.

- Guten Abend - saudou-os à porta um diácono de batina preta -Willkommen.

- Danké - murmurou Mandy enquanto eles subiam as escadas.

Adiante, a luz de velas irradiava-se através da entrada da catedral, bruxulean­do sobre os degraus de pedra, o que aumentava a sensação de tempo e antigüi­dade. Um pouco mais cedo nesse dia, enquanto visitava a catedral, Jason ficara sabendo que a pedra fundamental da catedral fora lançada no século XIII. Era difícil compreender essa amplitude de tempo.

Banhado pela luz de velas, ele alcançou as maciças portas lavradas e seguiu Mandy até o vestíbulo da frente. Ela umedeceu levemente os dedos na água benta de uma pia e fez o sinal-da-cruz. Jason sentiu-se repentinamente desconfortável, com uma aguda consciência de que aquela não era a sua fé. Ele era um intruso, um transgressor. Receava dar um passo em falso, ficar embara­çado e, por sua vez, deixar Mandy embaraçada.

- Me acompanhe - disse Mandy. - Eu quero conseguir um bom lugar, mas não muito perto.

Jason a seguiu. Quando ele entrou na igreja propriamente dita, o mal-estar logo deu lugar ao espanto. Apesar de já ter estado no interior da catedral e aprendido muitas coisas sobre a história e a arte da construção, ele ficou im­pressionado pela mera imponência do espaço. A longa nave central estendia-se por 120 metros à sua frente, seccionada ao meio por um transepto de noventa metros, formando uma cruz com o altar no centro.

No entanto, não eram nem o comprimento nem a largura da catedral que prendiam sua atenção, mas sua altura impossível. Seus olhos erguiam-se cada vez mais, guiados por ogivas, por longas colunas e pelo teto abobadado. Milha­res de velas deixavam um rastro de finas espirais de fumaça, que subiam em direção ao céu, tremulando das paredes, que recendiam a incenso.

Mandy conduziu-o em direção ao altar. Adiante, as áreas do transepto em cada lado do altar haviam sido isoladas com cordas, mas havia muitos lugares vazios na nave central.

- O que você acha daqui? - disse ela, parando no meio do corredor. Ela deu um breve sorriso, meio de agradecimento, meio de timidez.

Ele assentiu com a cabeça, emudecido pela beleza natural dela, uma Madona de preto.

Mandy segurou a mão dele e puxou-o até o fim do banco, junto à parede. Ele acomodou-se no assento, satisfeito com a relativa privacidade.

Ela continuou a segurar a mão de Jason, que sentia o calor de sua palma. A noite sem dúvida estava ficando animada.

Por fim, uma sineta tocou e um coro começou a cantar. Era o começo da missa. Jason seguiu o exemplo de Mandy: ficando de pé, ajoelhando-se e sen­tando-se numa elaborada coreografia de fé. Ele não entendia nada daquilo, mas descobriu-se fascinado, ficando absorto na pompa: os padres de batina balançando turíbulos de incenso, o hino cantado na procissão que acompa­nhou a chegada do arcebispo com sua mitra alta e vestimentas guarnecidas de dourado, os cânticos entoados pelo coro e pelos paroquianos, a iluminação das velas da festa.

E por toda a parte a arte se transformava num componente da cerimónia tanto quanto os participantes. Uma escultura de madeira de Maria com o me­nino Jesus, chamada de Madona de Milão, irradiava antigüidade e graça. No outro lado do corredor, uma estátua de mármore de São Cristóvão sustentava nos braços uma criancinha com um sorriso beatífico. E elevando-se acima de tudo estavam os maciços vitrais bávaros, agora escuros, mas ainda resplande­centes com a luz de velas refletida, criando jóias a partir do vidro comum.

Mas nenhuma obra de arte era mais espetacular do que o sarcófago de ouro atrás do altar, trancado em vidro e metal. Embora fosse apenas do tamanho de uma arca grande e tivesse sido construído na forma de uma igreja em miniatura, o relicário era o objeto mais importante da catedral, o motivo para a construção de um templo tão imponente, o ponto focal da fé e da arte. Ele protegia a mais sagrada das relíquias da igreja. De ouro maciço, o relicário fora feito muito antes de começar a construção da catedral. Desenhado por Nicolas de Verdun no século XIII, o sarcófago era considerado o melhor exemplo de obra em ouro medieval existente.

Enquanto Jason continuava seu exame cuidadoso, a missa foi-se aproxi­mando aos poucos do fim, marcada por sinetas e orações. Chegou afinal a hora da comunhão, a fração do pão eucarístico. Os paroquianos lentamente saíram em fila de seus bancos e percorreram os corredores para receber o corpo e o sangue de Jesus Cristo.

Quando chegou a vez de Mandy, ela ergueu-se junto com as outras pessoas que estavam em seu banco, tirando de mansinho a mão da de Jason.

- Eu volto já - sussurrou ela.

Jason olhou para seu banco vazio e para a lenta procissão que seguia rumo ao altar. Ansioso pela volta de Mandy, levantou-se para esticar as pernas. Apro­veitou esse momento para observar cuidadosamente as estátuas que flanqueavam um confessionário. Agora de pé, também se arrependeu de ter consumido a terceira lata de Coca-Cola. Olhou para trás, para o vestíbulo da catedral. Havia um toalete público fora da nave.

Olhando ansiosamente para trás, ele foi o primeiro a avistar um grupo de monges entrando pelos fundos da catedral, marchando em fila através de todas as portas dos fundos. Conquanto usassem batinas pretas completas, capuzes e faixas à cintura, Jason percebeu de imediato que havia algo de estranho. Eles se moviam depressa demais, com uma convicta precisão militar, deslizando furti­vamente para as sombras.

Seria a última parte da pompa?

Uma olhadela pela Catedral revelou mais figuras encobertas junto a outras portas, até mesmo além do transepto isolado com cordas ao lado do altar. Em­bora mantivessem a cabeça curvada numa atitude pia, parecia que estavam de guarda.

O que estava acontecendo?

Ele avistou Mandy perto do altar no instante em que ela recebia a comunhão. Havia apenas um punhado de paroquianos atrás dela. O corpo e o sangue de Cristo, Jason quase conseguia entender as palavras pelo movimento dos lábios.

Amém, ele mesmo respondeu.

A comunhão terminou. Os últimos paroquianos voltaram para seus luga­res, inclusive Mandy. Jason acenou-lhe com a mão, a fim de que ela se acomo­dasse no banco, e em seguida sentou-se ao lado dela.

- O que significam todos estes monges? - perguntou, inclinando-se para a frente.

Ela se ajoelhara com a cabeça curvada. Sua única resposta foi um som para fazê-lo silenciar-se. Ele voltou a sentar-se. A maioria dos paroquianos também estava ajoelhada, com a cabeça inclinada. Só uns poucos como Jason, os que não haviam comungado, permaneceram sentados. À frente, o padre terminou de arrumar tudo, enquanto o idoso arcebispo estava sentado no alto de seu estrado elevado, o queixo de encontro ao peito, meio adormecido.

O mistério e a pompa haviam-se extinguido no coração de Jason. Talvez fosse apenas a pressão da bexiga, mas tudo o que ele queria era sair dali. Chegou a estender a mão para o cotovelo de Mandy, a fim de insistir com ela para saírem.

A movimentação adiante o deteve. Os monges em cada lado do altar saca­ram armas de sob as dobras do tecido. O cinza metálico brilhou com o óleo à luz das velas, Uzis de cano curto, equipadas com longos silenciadores pretos.

O som dos disparos, menos ruidoso do que a tosse em staccato de um fu­mante inveterado, difundiu-se pelo altar. Cabeças ergueram-se ao longo dos bancos. Atrás do altar, o padre, vestido de branco, dançou sob os impactos. Parecia que estava sendo bombardeado por cápsulas de tinta - cápsulas de tin­ta carmesim. Ele tombou sobre o altar, derramando o cálice de vinho junto com seu próprio sangue.

Após um silêncio atordoante, os paroquianos começaram a gritar. As pes­soas levantaram-se bruscamente. O idoso arcebispo tropeçou no seu tablado, erguendo-se horrorizado. O movimento repentino arremessou sua mitra no chão.

Monges precipitaram-se pelos corredores... por trás e pelos lados, gritando ordens e vociferando em alemão, francês e inglês.

Bleiben Sie in Ihren Sitzen... Ne bouge pas...

As vozes eram abafadas, os rostos sob os capuzes estavam obscurecidos por meias de seda preta usadas como máscaras. Mas as armas em punho enfatizavam suas ordens.



Continuem sentados senão vocês morrem!

Mandy voltou a sentar-se com Jason e estendeu-lhe a mão. Ele apertou os dedos dela e olhou ao redor, incapaz de piscar. Todas as portas estavam fecha­das, guardadas.

O que estava acontecendo?

Dentre o bando de monges armados próximos à entrada principal surgiu uma figura, vestida como os outros, apenas mais alta, dando a impressão de levantar-se como se houvesse sido chamada. Seu manto parecia-se mais com uma capa. Sem dúvida um líder, ele não portava armas quando andou a passos largos e com audácia pelo corredor central da nave.

Ele encontrou-se com o arcebispo no altar. Seguiu-se uma acalorada dis­cussão. Jason logo percebeu que eles falavam em latim. O arcebispo de repente recuou horrorizado.

O líder deu um passo para o lado. Dois homens aproximaram-se. As armas reluziram. O objetivo não era matar. Eles atiraram contra a placa que lacrava o relicário de ouro. O vidro trincou e encheu-se de buracos, mas resistiu. A pro­va de balas.

- Ladrões... - sussurrou Jason. Tratava-se de um roubo elaborado.

O arcebispo parecia extrair força da obstinação do vidro, tornando-se mais confiante. O líder dos monges estendeu a mão, ainda falando em latim. O arce­bispo meneou a cabeça.



- Lassen Sie dann das Blut Ihrer Schafe Ihre Hände beflecken - disse o ho­mem, falando agora em alemão.

Deixe o sangue de suas ovelhas manchar suas mãos.

O líder acenou para dois monges na frente. Eles flanquearam o receptáculo lacrado e ergueram grandes discos de metal em cada lado da estrutura. O efeito foi instantâneo.

O debilitado vidro à prova de balas explodiu de dentro para fora como se impelido por algum vento despercebido. À bruxuleante luz de velas, o sarcófago tremeluziu. Jason sentiu uma pressão súbita, um estalido interno nos ouvidos, como se as paredes da catedral repentinamente houvessem sido empurradas para dentro, esmagando tudo. A pressão fez ensurdecer seus ouvidos; sua visão se comprimiu.

Ele virou-se para Mandy.

A mão dela ainda apertava com força a sua, mas seu pescoço estava arquea­do para trás, a boca escancarada.

- Mandy...

Do canto dos olhos, ele viu outros paroquianos fixos na mesma posição desoladora. A mão dela começou a tremer na sua, vibrando como o tweeter de um alto-falante. Lágrimas escorriam pelo rosto dela, tornando-se sanguino­lentas enquanto ele observava. Ela não respirava. Seu corpo então teve uma contração espasmódica e enrijeceu, deixando livre a mão dele, porém não an­tes de ele sentir um choque elétrico das pontas dos dedos dela para os seus.

Ele ficou de pé, horrorizado demais para sentar-se.

Um fino rastro de fumaça erguia-se da boca de Mandy.

Os olhos dela estavam revirados e já começavam a enegrecer nos cantos.

Morta.

Jason, mudo de terror, esquadrinhou a catedral. O mesmo estava aconte­cendo em toda a parte. Apenas alguns fiéis haviam escapado: duas crianças pequenas, imprensadas entre os pais, choravam e gritavam de desespero. Jason reconheceu os não afetados. Aqueles que não haviam comungado.



Como ele.

Ele recuou para as sombras junto à parede. Seu movimento passara mo­mentaneamente despercebido. Suas costas encontraram uma porta que não estava sendo guardada pelos monges. Não uma porta de verdade.

Jason abriu-a o suficiente para entrar de mansinho no confessionário.

Ele caiu de joelhos, agachando-se e abraçando a si mesmo.

Preces vieram-lhe aos lábios.

Então, também de maneira súbita, terminou. Ele o sentiu na cabeça. Um estalido. Um alívio da pressão. As paredes da catedral suspirando de volta. Ele chorava. Lágrimas frias desciam-lhe pelo rosto.

Ele arriscou-se a dar uma espiada por um orifício na porta do confessionário.

Jason olhou fixamente, obtendo uma visão clara da nave e do altar. O ar recendia a cabelos queimados. Gritos e lamentos ainda ecoavam, mas agora o coro vinha de algumas gargantas apenas. Dos que estavam vivos. Um vulto, a julgar por seus trajes esfarrapados um sem-teto, saiu aos tropeços de um banco e desceu correndo pela nave lateral. Antes de dar dez passos, foi atingido na parte de trás da cabeça. Um único disparo. Seu corpo estatelou-se no chão.



Oh! meu Deus... oh! meu Deus...

Reprimindo os soluços, Jason continuou com os olhos fixos no altar.

Quatro monges ergueram o sarcófago de ouro de seu estojo estilhaçado. O corpo do padre assassinado foi empurrado do altar com os pés e substituído pelo relicário. O líder tirou um grande saco de tecido de sob o seu manto. Os monges abriram a tampa do relicário e puseram o conteúdo em pé no saco. Depois de esvaziado, o sarcófago inestimável foi jogado no chão e abandonado com um estrondo.

O líder pendurou sua carga no ombro e dirigiu-se ao corredor central com as relíquias roubadas.

O arcebispo gritou com ele. De novo em latim. Parecia uma maldição. A única reação do homem foi um aceno de braço.

Outro monge aproximou-se por trás do arcebispo e apontou uma pistola para a parte de trás da cabeça dele.

Jason abaixou-se para não ver mais nada.

Ele fechou os olhos. Outros disparos soaram pela catedral. Esporádicos. Os gritos de repente cessaram. A morte espalhou-se silenciosamente pela catedral quando os monges massacraram os poucos sobreviventes.

Jason manteve os olhos fechados e rezou.

Pouco antes, ele avistara o escudo de armas sobre o manto do líder. A capa negra do homem rasgou-se quando ele levantou o braço, revelando um dese­nho vermelho por baixo: um dragão enroscado, a cauda em volta do próprio pescoço. Jason não conhecia o símbolo, mas este possuía um toque exótico, mais oriental do que europeu.

Além da porta do confessionário, um silêncio de pedra abateu-se sobre a catedral.

O som de passos com botas aproximou-se de seu esconderijo. Jason apertou ainda mais os olhos, contra o horror, contra a impossibilida­de, contra o sacrilégio.

Tudo por um saco de ossos.

E, embora a catedral houvesse sido construída em torno desses ossos, e inú­meros reis houvessem se curvado diante deles, e até mesmo aquela missa fosse uma festa em homenagem àqueles homens há muito mortos - a Festa dos Três Reis Magos -, uma pergunta aflorou antes de tudo à mente de Jason.

Por quê?

Por toda a catedral havia imagens dos Três Reis Magos - de pedra, vidro e ouro. Num painel, eles conduziam camelos através de um deserto, guiados pela Estrela de Belém. Noutro, era representada a adoração do Cristo menino, exi­bindo figuras ajoelhadas ofertando os presentes de ouro, incenso e mirra.

Mas Jason fechou a mente a tudo aquilo. Tudo o que ele conseguia imaginar era o último sorriso de Mandy. O toque suave dela.

Tudo acabado.

As botas pararam do lado de fora da porta do confessionário.

Ele clamou em silêncio por uma resposta para toda aquela carnificina.

Por quê?

Por que roubar os ossos dos Reis Magos?



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