O materialismo Racional



Baixar 0.86 Mb.
Página1/21
Encontro14.02.2018
Tamanho0.86 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   21

O Materialismo Racional

Gaston Bachelard

(pedir o livro)

Pôr o leitor directamente em contacto com textos marcantes da história da filosofia -através de traduções feitas a partir dos respectivos originais,

por tradutores responsáveis, acompanhadas de introduções

e notas explicativasfoi o ponto de partida para esta colecção.

O seu âmbito estender-se-á a todas as épocas e a todos os tipos

e estilos de filosofia, procurando incluir os textos mais significativos do pensamento filosófico na sua multiplicidade e riqueza. Será assim um reflexo da vibratilidade do espírito filosófico perante o seu tempo, perante a ciência e o problema do homem e do mundo


Director da Colecção:

ARTUR MORÃO Licenciado em Filosofia; professor da Secçã de Lisboa da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa


1. Crítica da Razão Prática
Immanuel Karit

2. Investigação sobre o Entendimento Humano


David Hurne

3. Crepúsculo dos Idolos


Friedrich Nietzsche

4. Discurso de Metafisica Gottfried Whilhelrn Leibniz S. Os Progressos da Metaffsica


Irnmanuel Karit

6. Regras para a Direcção do Espírito


Renê Descartes

7. Fundamentação da Metafísica dos Costumes


lrnrnanue1 Kant

8. A Ideia da Fenomenologia


Edrnund Husserl

9. Discurso do Método


Renê Descartes

10. Ponto de Vista Explicativo da Minha Obra como Escritor


Sõren Kierkegaard

11. A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos


Friedrich Nietzsche

12. Carta sobre Tolerância


John Locke

13. Prolegómenos a Toda a Metafísica Futura


Irrimanuel Kant

14. Tratado da Reforma do Entendimento


Bento de Espinosa

15. Simbolismo: Seu Significado e Efeito


Alfred North Whitehead

16. Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência


Henri Bergson

17. Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome (Vol. I)


Friedrich Hegel

18. A Paz Perpétua e Outros Opúsculos


1mrnanue1 Kant

19. Diálogo sobre a Felicidade



Santo Agostinho

20. Princípios da Filosofia do Futuro e Outros Escritos


Ludwig Feuerbach

21. Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome - Vol. II


Georg Wilhelrn Friedrich Hegel

22. Manuscritos Económico -Filosóficos


Karl Marx

23. Propedêutica Filosófica Georg Wilheim Friedrich Hegel


24. O Anticristo Friedrich Nietzsche

25. Discurso sobre a Dignidade do Homem


Giovanni Pico della Mirandola
26. Ecce Homo Friedrich Nietzsche

27. O Materialismo Racional


Gaston Bachelard

O MATERIALISMO RACIONAL

Título original: Le Matérialisme Rationnel


Presses Universitaires de France, 1953
Tradução de João Gama

Revisão de Tradução de Artur Lopes Cardoso

Revisão Tipográfica de Francisco Almeida
Capa do Departamento Gráfico das Edições 70
Depósito legal n.’ 39.816/90
Direitos reservados para todos os países de língua portuguesa

por Edições 70, L.”


EDIÇõES 70, L.DA, Av. Elias Garcia, 81, r/c - 1000 LISBOA
Telefs. 76 27 20 -76 27 92 - 76 28 54
Fax: 76 17 36
Telex: 64489 TEXTOS P
DELEGAÇÃO NO NORTE EDIÇõES 70, LDA. - Rua da Rasa, 173 - 4400 VILA NOVA DE GAIA
Telef. 370 19 12/3
NO BRASIL EDIÇõES 70. BRASIL, LTDA., Rua São Francisco Xavier, 224-A (TI-
JUCA) CEP 20550 RIO DE JANEIRO RJ
Telef. 284 29 42 / Telex 40385 AMU B
Esta obra está protegida pela Lei. Não pode ser reproduzida,
no todo ou em parte, qualquer que seja o modo utilizado, incluindo fotocópia e xerocópia, sem prévia autorização do Editor.
Qualquer transgressão à Lei dos Direitos de Autor será passível
de procedimento judicial.
Gaston BACHELARD
O MATERIALISMO RACIONAL
edições 70

Introdução


Fenomenologia e materialidade
Quem acompanhar a evolução dos conhecimentos científicos sobre a matéria no período contemporâneo é levado a espantar-se por o materialismo ainda ser defendido, pelos filósofos, como unia filosofia simples, isto é , uma filosofia simplista. Com efeito, os problemas tratados pelas ciências da matéria multiplicam-se actualmente e diversificam-se com tal rapidez que o materialismo científico - se acompanharmos os pormenores dos seus pensamentos efectivos - está prestes a tornar-se a filosofia mais complexa e mais variável que existe. Uni psicólogo ficaria chocado se lhe disséssemos que as combinações psicológicas são menos numerosas e menos delicadas que as combinações químicas. No entanto, os factos estão aí: a produção de ideias e de experiências, na química contemporânea., excede a memória de um homem, a imaginação de um homem, o poder de compreensão de uni homem.

Neste ponto torna-se necessário - sublinhá-lo-emos muitas vezes - que os homens se tinam para saber e para compreender, para tocar nos pontos donde parte o movimento do saber. É inútil repetir que o homem é inconstante e variável. «Ondula» fragilmente e a sua diversidade contingente esconde mal uma profunda pobreza. Para encontrar, no próprio homem, uma verdadeira riqueza psicológica, uma via certa, é necessário procurar esta riqueza no cume dos pensamentos. Então, pode compreender-se o homem na sua vontade de agir coordenadamente, na tensão da vontade de pensar, em todos os seus esforços para rectificar, diversificar, exceder a sua própria natureza. E não encontraremos as provas mais tangíveis deste @@excesso» no exceder a experiência comum, no exceder a própria natureza? Quer queiramos quer não, tudo se duplica, no homem, mediante o conhecimento. Só ele, o conhecimento, é o plano do ser, é o plano de potencialidade do ser, potencialidade que aumenta e se renova exactamente na medida em que o conhecimento aumenta. A ciência contemporânea introduz o homem num mundo novo. Se o homem pensa a ciência, renova-se enquanto homem pensante. Tem acesso a uma categoria inegável dos pensamentos. Não se diversifica apenas na vida contingente de um Montaigne. Diversifica-se «em altura», hierarquicamente.


Se, por outro lado, se tomar o conhecimento científico no seu aspecto moderno levando à perfeição toda a sua actualidade, não pode deixar de valorizar-se o seu carácter social bem definido. Conjuntamente, os sábios unem-se numa célula da cidade científica, não apenas para compreenderem, mas ainda para se diversificarem, para activarem todas as dialécticas que vão dos problemas precisos às soluções originais. A própria diversificação, como deve fazer a prova socialmente do seu valor, não é totalmente individualista. Esta socialização intensa, claramente coerente, segura das suas bases, ardentes nas suas diferenças, é ainda um facto de uma singular actualidade. Não respeitá-lo seria cair numa utopia gnoseológica, a utopia do individualismo do saber.
É necessário ter, desde logo, na devida conta, este carácter social, porque o pensamento essencialmente progressivo da ciência da matéria parte daqui, em nítida ruptura com todo o materialismo «natural». A partida cultural da ciência terá, daqui em diante, prioridade sobre todo o ponto de partida

10

natural. Ser um químico é colocar-se numa situação cultural, ocupando um lugar, incluindo-se numa categoria, numa cidade científica nitidamente determinada pela modernidade da investigação. Todo o individualismo seria um anacronismo. Desde o primeiro esforço da cultura que se sente este anacronismo. Quem quiser fazer a psicologia do espírito científico não tem melhor meio que seguir um eixo de progresso, viver o crescimento de uma árvore do conhecimento, a própria genealogia da verdade progressiva. No eixo do progresso do conhecimento científico, a essência da verdade é solidária do seu crescimento, solidária da extensão do seu campo de provas.


Então, se o homem moderno se torna verdadeira mente o sujeito do pensamento científico no trabalho, se mede o poder da instrução própria da ciência do nosso tempo, se toma consciência (Ia comunidade de espírito que a ciência actual exige entre trabalhadores, necessariamente terá de reconhecer, no próprio ser do conhecimento, uma complexidade explícita que nada tem a ver com a vã afirmação de uma complexidade que estaria em reserva nas coisas.
Esta última complexidade em profundidade nas coisas está sempre sistematicamente implícita nas proposições dos filósofos. Do lado do sujeito, ela não passa do conglomerado dos seus fracassos de conhecimento, muitas vezes até um grupo de questões mal postas, uma teimosia em levantar questões ingénuas, questões «primeiras», quando o pensamento científico substitui incessantemente as «questões primeiras». Do lado do objecto, a complexidade implícita é afirmada como uma potencialidade indefinida, entregue ao ocasionalismo de uma investigação individual, investigação que nunca poderá ter uma eficácia comparável às investigações intensamente coordenadas da cidade científica.
Mostraremos nesta obra que a cidade cultural do materialismo não cede a qualquer outra em potencialidade e que esta cidade cultural é susceptível de determinar reacções de consciência muito profundas. Finalmente, todos os pensamentos trazem a marca do ser pensante e uma análise química é também tinia análise de pensamento. Teremos mil provas de um espírito subtil ria prática imaterialista se acompanharmos a história da química. Uma psicologia complexa acompanha necessariamente uma ciência complexa. O materialismo cien-
11

tífico, examinado psicologicamente, aparecer-nos-á como uma psicologia muito subtilmente estruturada e que exige inúmeras inversões de perspectiva, a ponto de se poder considerar um novo espírito materialista.


Portanto, devemos insistir intensamente na ineficácia de um materialismo massivo, de um materialismo imobilizado. Também nos será necessário sublinhar a falta de poder de experiências que e a característica de um materialismo imediatamente satisfeito com as suas primeiras experiências.
É este materialismo massivo, ingénuo, caduco, que serve de alvo às críticas fáceis da filosofia idealista. Assim, são numerosos os filósofos que se atiram contra um fantasma fora de moda. Comparado com o actual conhecimento das diversas instâncias do materialismo científico (instâncias mecânica, física, química, eléctrica), pode dizer-se que o materialismo filosófico tradicional é um materialismo sem matéria, um materialismo completamente metafórico, uma filosofia cujas metáforas foram uma após outra arrancadas pelo progresso da ciência. Existe ainda um químico para tentar ligar as imagens dos 4 elementos materiais com as propriedades das substâncias químicas? Finalmente, a filosofia idealista só dirige os dardos contra as suas próprias noções, contra as ideias, fora de uso, que faz da matéria.
Portanto, parece-nos necessário estudar verdadeiramente o materialismo cia matéria, o materialismo instruído pela enorme pluralidade das diferentes matérias, o materialismo experimentador, real, progressivo, humanamente instrutivo. Veremos que, após o malogro dos ensaios racionalistas prematuros, se constitui verdadeira mente, na consciência contemporânea, um racionalismo materialista. Teremos, assim, de apresentar um novo conjunto de provas que confirme, pensamos nós, as teses que defendemos nas duas últimas obras com os títulos: Le Rationalisme AI)I,>Iiqiíé (Paris, P.U.F.), 1949) e L'Actinté Rationalisle de Ia Pli -rsique Contemporaine (Paris, P.U.F., 1951). O materialismo também entrou numa era de racionalismo activo. Acaba de aparecer nas doutrinas científicas uma química matemática no mesmo estilo em que se fala da física matemática. O racionalismo dirige as experiências sobre a matéria, ordena uma diversidade continuamente crescente de matérias novas. Simetricamente ao racionalismo aplicado, pode agora falar-se, pensamos nós, num materialismo ordenado.
12

11
Antes de examinarmos as intensidades de interesses filosóficos que estão implicadas no conhecimento dos fenómenos químicos, devemos sublinhar o prodigioso investimento de pensamento que, de alguma maneira historicamente, a química contemporânea manifesta. Dado o extraordinário crescimento da sua problemática, a ciência da matéria apresenta-se agora - numa acepção que vamos precisar - como uma ciência **tlojiittiro.


Em primeiro lugar, há uma questão de facto: o futuro dos conhecimentos da matéria alcançou, em dois curtos séculos, uma tal variedade de perspectivas que nenhum cérebro humano pode prever os balanços mais próximos das descobertas experimentais assim como as mutações teóricas prováveis. Actualmente, a química é uma ciência «aberta» em que a problemática prolifera.
Este futuro é grave. Chegou-se a um ponto da história em que o futuro da química compromete o futuro do género humano, tão grande é a verdade do destino do homem estar ligado aos seus pensamentos. Mediante a química e a física nuclear, o homem adquire inesperados meios de poder, meios positivos que ultrapassam todos os sonhos de poder do filósofo. O materialismo erudito, que não é apenas uma filosofia especulativa, arma uma vontade de poder, vontade que se excita graças ao próprio poder dos meios oferecidos. Parece que, também no plano psicológico, a vontade de poder conhece uma reacção em cadeia. Quanto mais se pode, mais se quer. Quanto mais se quer, mais se pode. Enquanto a vontade de poder era primitiva, enquanto era filosófica, enquanto era nietzschiana, não era eficaz - tanto para o bem como para o mal - senão à escala individual. Nietzsche agia sobre os seus leitores; um leitor nietzschiano que se torna autor tem apenas uma acção irrisória. Mas, a partir da altura em que o homem se apodera efectivamente dos poderes da matéria, quando já não sonha com elementos intangíveis ou átomos curvos, mas organiza realmente novos corpos e comanda forças reais, ele chega à vontade de poder dotada de uma verificação progressiva. Transforma-se num mágico verídico, demónio positivo.

13

E ensina uma magia verdadeira. Enriquece o futuro conferindo-lhe uma vontade de poder provada. Por isto mesmo, a ligação da vontade de poder com a vontade de saber torna-se estreita e duradoura. Esta ligação inscreve-se no futuro do homem. Transforma positivamente a química e a física nuclear em ciências **tofiitiii-o. Se o compararmos com o químico moderno que ensina a sua ciência, forma escolas, age nas fábricas, como era frágil o laço do alquimista iniciador com o alquimista iniciado! Pode deparar-se com sonhos, mas não se podem «aprender» com outro, muito menos «ensiná-los». O alquimista não podia transmitir objectivamente os seus sonhos. Trabalhava a um nível da psique humana em que a «objectividade» necessita de uma tal inversão da perspectiva que foi necessário esperar pela ciência psicológica do séc. xx para a assumir claramente mediante uma determinação da objectividade da subjectividade profunda. Mas desta vez, na ciência moderna, a transmissão objectiva do saber objectivo está assegurada. De uma geração para outra, a herança de verdades - haverá outra? - está garantida. Decerto que se podem imaginar utopias de perda do pensamento científico. Mas trata-se de jogos do espírito que no impulso essencial do pensamento científico nada justificam. A química não é uma moda. Não é uma doutrina passageira. Impõe-se, pela sua industrialização, num nível da realidade que lhe garante uma continuidade regular - por vezes, tinia **continith-1atlepesada que atrasa as revoluções úteis.


Daqui em diante, a química tem a coerência dos livros, a permanência das enormes bibliotecas! Muitas vezes, a imaginação dos profetas da desgraça não vai além da lembrança do incêndio da biblioteca de Alexandria: se todos os livros de química tivessem sido lançados às chamas, a civilização química não estaria aniquilada’? Sim, mas como compreender, daqui por diante, juntamente com o mundo, todos os livros em um incêndio histórico? Referimo-nos a esta insignificante discussão apenas para não deixarmos para trás uma objecção. Na realidade, só se destrói um livro de ciência contradizendo-o primeiramente, e ultrapassando-o depois. A química tira partido, como todas as ciências fortemente constituídas, de um materialismo histórico autónomo. Ou, mais exactamente, o seu desenvolvimento, daí em diante tão necessariamente implicado nas necessidades económicas, desenha uma recta particularmente nítida do materialismo dialéctico.
14

Portanto, a química tem o futuro de uma das maiores realidades do pensamento e da acção humanas.


Mas é noutro ponto de vista que nos colocamos para dizer que a ciência da matéria é uma ciência do futuro.
Com efeito, queremos caracterizar os novos conhecimentos sublinhando as necessárias revoluções epistemológicas que implicam. Nesta perspectiva, a química é uma ciência do futuro porque é, cada vez mais, lima ciência que abandona o seu passado. E não é sem razão. A química no seu esforço moderno revela-se, de facto, como uma ciência que foi **priniiffiamente i?ial.flin(la<-Ití. A consciência clara do seu estado presente permite-lhe descobrir a extraordinária vaidade da sua longa história. Este será um aspecto epistemológico que, neste ensaio, iremos esclarecer, quando pudermos estabelecer. que o materialismo erudito se tornou um cantão do racionalismo aplicado.
Sem remontar à pré-história da química, a sua história recente abunda em remodelações tão profundas que o desenvolvimento da ciência se dialectizou de parte a parte. As palavras subsistem mas, sob a permanência dos nomes, há uma variação radical dos conceitos. Os conceitos de base quase não têm uma validade que dure mais de uma geração. Viu-se bem isto, em meados do século passado, no tempo em que os jovens químicos Auguste Laurent e Charles Gerhardt lutavam contra a ciência de Berzélius. Outra prova de revolução profunda que continua uma revolução surda é a incrível desaterição da química constituída na altura em que os Lothar Meyer e os Mendéléef formulavam as primeiras leis da **periocidade dos elementos químicos classificados por pesos atómicos crescentes. Neste ponto da história - vemo-lo agora - o tema da ordem das substâncias estabelecia uma nova perspectiva que lançava para o passado todos os motivos de classificação antiga.
Assim, o materialismo científico está constantemente em situação de **tio **va.JUnda<@ào. Desde há dois séculos que continuamente é retomado como uma doutrina que se funda na essencial actividade de descoberta do espírito humano. Então, paradoxalmente, o que é novo é fundamental. Em 1864, Berthelot escrevia: «Há oitenta anos que não deixamos de fundar uma química orgânica (1)». **Estafittidaçôo incessante está, hoje mais do que nunca, eminentemente em acção.
1) Marcelin Berthelot, Leçons Stir les Méthodes en Chimie Organique, p. 8
15

Contudo, enganar-nos-íamos se víssemos nisto uma referência à banalidade da contingência da descoberta. Se o materialismo científico é uma ciência do futuro, é porque a sua racionalidade é precisamente produzir descobertas. Vista na sua perspectiva de racionalidade, a descoberta já não é verdadeira mente contingente. A contingência das descobertas científicas não passa, muitas vezes, de uma óptica de ignorância. As descobertas científicas vêm, assim, surpreender aqueles que se esforçam por compreender, aqueles que não beneficiam com a tensão das investigações que anima a cidade científica. É claro que as admirações de cultura não faltam na vida da cidade científica mas, perante uma nova descoberta, o sábio moderno admira-se compreendendo. Nos cantões científicos onde, segundo a expressão de Georges Bouligand, «a síntese global» e a problemática estão perfeitamente associadas, vê-se nitidamente que a síntese global, consciente da aquisição da ciência, prepara o futuro da ciência. Assim, a racionalidade, em contínuo aumento, da química dá ao químico a consciência do futuro próximo da ciência. O futuro próximo? O único futuro que tem um sentido. O impulso do futuro de uma ciência moderna é solidário do conjunto dos problemas bem postos.


Em síntese, um racionalismo cada vez mais operante insinua-se no realismo ingénuo da química, no materialismo ingénuo. Este racionalismo em acto exige novas experiências e desacredita continuamente as experiências imediatas. É o
racionalismo que, pouco a pouco, levanta os problemas. É a própria consciência dos problemas que se levantam, dos problemas que devem ser levantados.
Então começam as únicas polémicas úteis, as polémicas cercadas do racionalismo materialista e do realismo materialista. Em comparação com tais polémicas de cooperação, as
polémicas tradicionais entre idealismo e realismo são oposições demasiado longínquas. Estas polémicas tradicionais são escaramuças de aparato. Para se terem polémicas reais e úteis é necessário participar no duplo progresso do pensamento teórico formulado em sistema racional e da actividade experimental estimulada pela técnica. Então damo-nos conta de que o materialismo científico se funda em virtude de uma racionalidade progressiva, por uma eliminação cada vez mais acentuada da irracionalidade das substâncias, pela anulação
16

da contingência relativa das diversas substâncias. Voltaremos a falar desta eliminação progressiva da irracionalidade -


que o filósofo gosta de atribuir à raiz das coisas - assim como da contingência do diverso, tema favorito dos filósofos. Mas do ponto de vista histórico, está bem patente que o progresso da química moderna está condicionado por uma ordenação dos valores de racionalidade.
Sem esta ordenação dos valores de racionalidade, não se podem preparar as determinações precisas dos **vaI()rí@y íle **Inaterialiciade. Uma boa antíli.@e material é solidária de uma boa sínfese das noções. Com efeito, enquanto os elementos químicos não forem conhecidos com garantias de natureza suficientes, garantias nitidamente codificadas em critérios de pureza, bem coordenadas numa síntese de leis racionais, não se pode falar verdadeiramente de uma química **bei?i.fiincl(í(l(i.

O quase, ao nível da matéria, interdiz um racionalismo da matéria. Nada pode ser **júntIatIo sem uma doutrina muito elaborada dos elementos materiais bem distintos. Uma história da química progressiva é, em muitos aspectos, uma história dos progressos dos critérios de pureza relacionados com a análise das substâncias.


Mas os filósofos não se interessam por estes difíceis progressos. Querem **sempre.f@iiitlar uma **ve-- **I)ol- *iodas. Crêem
ece, só por si, a garantia de facilmente que a matéria **ofer um, realismo, de modo que os conhecimentos subsequentes sobre a matéria estão automaticamente bem fundados, estando fundados sobre experiências primeiras. Em síntese, os filósofos simplificam extremamente os temas filosóficos a respeito da matéria, evitando também qualquer longo debate com o materialismo erudito. Bloqueiam o materialismo num conceito primitivo geral de matéria, um conceito sem elaboração experimental, julgando-se no direito de ignorar a ciência discursíva efectiva da pluralidade das matérias exactamente quando dissertam sobre a matéria em geral.
Se se tratasse do problema das formas da realidade material, os filósofos seriam mais receptivos. A forma já é para eles

17

uma prova. Certos filósofos concedem à forma privilégios incondicionados, privilégios a priori. há, nas formas e na sua construção, uma espécie de pureza filosófica que permite, segundo nos parece, uma união progressiva contínua, que vai das concepções simples às concepções eruditas. No encontro da pureza material parece que a pureza das formas é inicial. Então compreende-se esta tentação, continuamente activa na história da filosofia, de explicar a matéria pela forma, de propor geometrias de átomos, acumulando e a‘justando imagens poliédricas, imagens de ângulos e de ganchos, de parafusos e de **caneitiras, sem nunca ter em conta uma instância material, uma instância directamente material, sem nunca ter posto verdadeiramente o espírito de acordo com a experiência positiva das propriedades da matéria, sem principalmente se instruir mediante o exame da acção material de umas sobre as outras. Até se querem imaginar transformações de formas. Não se querem estudar transacções da matéria.



Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   21


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal