O menino acordou e se viu em um local deserto. Era uma estação de trem, dessas que se vêem nos filmes. Tinha um escritório, uma guarita e algumas casinhas espalhadas à beira da linha. Parecia ser madrugada, pois



Baixar 0.71 Mb.
Página1/22
Encontro30.03.2018
Tamanho0.71 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   22


MARYANNA

PEDRO SAMUEL


MARYANNA MEDEIROS

Esta é a história de um poeta.

Sua infância, adolescência e juventude vivida de forma intensa.

Seu sonho de ser padre e ao mesmo tempo, jogador de futebol, que termina com mais um título mundial para o Brasil.

A descoberta da poesia, que trouxe o sentido que faltava para a sua realização.

E o encontro com a Maryanna, a menina escolhida para contar a sua história, e dar nome a este livro. Um livro de sonhos...

O menino acordou e se viu em um local deserto. Era uma estação de trem, dessas que se vêem nos filmes. Tinha um escritório, uma guarita e algumas casinhas espalhadas à beira da linha. Parecia ser madrugada, pois, a claridade presente dava um ar de miopia aos olhos do menino, que olhava distante e via somente campos e pequenas matas, que deixavam transparecer um verde descorado. Era a primeira vez que o menino se sentia gente e estava diante de um cenário, onde a solidão parecia a única realidade existente. Devia ter dois ou três anos de idade e aquela primeira imagem da vida, dava-lhe a sensação de estar só no mundo.

Passado este momento, houve um branco na vida do menino. Talvez ele tenha adormecido, por não suportar essa primeira imagem da sua existência. A vida não podia ser assim. Era muito pequeno para se sentir sozinho e o mundo deu uma trégua ao menino, que por um tempo, esqueceu de olhar seu novo espaço.

Algum tempo depois, se vê acompanhado de seu pai, andando por caminhos, em meio às matas e aos campos. E sorria... Esquecera aquela imagem da solidão, que a chegada àquele local deserto nele despertara. Era um sítio pequeno, uma casa de pau-a-pique pintada de branco, que já mostrava sinais de envelhecimento nas paredes descascadas. A nova casa do menino ficava próxima a uma ferrovia e tinha o encanto que as residências rurais do Sul de Minas possuem. Havia uma bica por onde corria uma água deliciosa, que descia até um córrego cercado de árvores. E era como se fosse um paraíso, onde se ouvia o canto dos pássaros em meio ao barulho das águas. Havia, também, muitos pinheiros, que pareciam heróis devido ao seu porte, pareciam mesmo, os donos da região. E o menino passou a gostar daquele espaço, onde se sentia livre. A liberdade é um sentir-se em paz.

Sua mãe parecia feliz, em meio aos trabalhos domésticos. Cuidava dos filhos com a dedicação de uma fera. Os cabelos negros e compridos, um olhar que lembrava uma santa. Contava histórias que faziam o menino viajar até as maravilhas do local onde vivia. Falava dos perigos, das onças, das serpentes e das assombrações que também moravam próximas daquele local de sonhos. Tinha um jeito simples de ser e o menino adorava acompanha-la quando ia buscar água, lenha ou mesmo, passear pelas proximidades, ou ainda, visitar as casas vizinhas.

Seu pai parecia forte. Tinha sempre um ar sério, exigente, como se precisasse mostrar que era o dono daquelas paradas. De vez em quando, ele se soltava e sorria mostrando sinais de grande contentamento. Nas noites de frio, acendia uma fogueira, que aquecia a cozinha de terra batida e sabia contar estórias fantásticas. Às vezes, ele sumia, ficava dias e dias sem aparecer e o menino ficava sem entender aquela ausência.

Sua irmã, dois anos mais velha era esperta, sabia muitas brincadeiras, corria por todos os cantos da casa. Os olhos eram grandes e brilhantes, e estavam sempre à procura de alguma coisa. Podia se notar que era muito inteligente e sensível. Transformava tudo em brinquedo e atraía a atenção do menino, que queria estar sempre ao seu lado.

E havia um bebê que dormia e chorava. Parecia chamar sempre a mãe, que não tirava os olhos dele. Assim era a família do menino, que vivia naquela casinha simples, onde tudo era simples...E havia um ar de felicidade em torno da vida, que era singela, mas fazia daquele menino um reizinho. Um reizinho que parecia não fazer perguntas ou, não se lembra delas, talvez, nem precisasse delas, ainda era muito pequeno.
***********************************************

A vida era realmente bonita. Não havia preocupações. Via-se uma natureza harmoniosa, onde cada ser tinha o seu espaço. Os campos, as árvores, os pássaros, as pessoas, as águas,os animais, tudo cercava aquele local. O sol, como era lindo o nascer do sol! Tinha qualquer coisa de magia, e encantava a existência. A noite era misteriosa, aquele escuro lhe trazia um certo medo e o menino sentia-se mais seguro próximo a luz, que vinha das lamparinas de querosene, do fogão de lenha e, quando era frio, da fogueira que aquecia a cozinha. Talvez, por isso, quase não se lembra da lua ou das estrelas. É uma ausência muito sentida, pois deve ser linda a noite com olhos de criança.

Não muito longe dali,moravam outras famílias. Quase sempre, a casa tinha visitas. Eram pessoas grandes, que conversavam sem parar. Traziam crianças que transformavam aquela casa, em um verdadeiro parque de diversões. Trepavam nas cadeiras, nas janelas, escondiam-se em todos os cantos, enfim, bagunçavam tudo. O menino tentava acompanhar aquele rítmo. Observava todos os detalhes e admirava a criatividade das crianças maiores, que brincavam como se fosem deuses, donos daquele pequeno mundo.

Um dia, o menino se viu em um caminho, no meio de uma pequena mata e estava com seu avô. Ah! Ainda não falei dele. Seu avô era uma pessoa muito séria, não parecia velho, de forma alguma. Por detrás daquela postura exigente, havia um ar de bondade, que podia ser percebido por todos. Era o padrinho de batizado do menino, que tinha o seu nome. Naquele dia, eles estavam juntos, avô e neto, em um caminho e o menino, lembra-se de, pela primeira vez na vida, ter feito uma pergunta.

- Vô, até onde se pode ir, por este caminho?

- Reizinho, este caminho pode nos levar até muito longe. Ele encontra as estradas e elas percorrem o mundo inteiro. Mas, você ainda não pode andar sozinho por este caminho, é muito pequeno, ainda, e pode perder-se nestas matas.

O menino nunca mais se esqueceu daquele diálogo e jamais, alguém voltou a lhe chamar de reizinho. Mas continuou a ser um reizinho, um reizinho que reinava sobre aquelas terras, árvores, pássaros, águas e caminhos que poderiam levá-lo ao mundo inteiro. E o mundo nem precisava ser grande, precisava, apenas, ter horizontes que, de vez em quando, mostrasse o arco-íris. E no seu mundo havia sempre o arco-íris, que sua mãe apontava dizendo ser lindo. E era lindo!

Tudo era felicidade para o menino Reizinho, nem era preciso sonhar. Seus sonhos eram realidades naquelas manhãs coloridas pelo sol. As manhãs de chuva? Reizinho nem se lembra delas. Talvez, também eram coloridas pelo brilho do verde molhado das plantas ou pelos pássaros, que passavam próximos à sua janela de onde, provavelmente, o menino olhava a enxurrada que passava levando folhas e pedaços de pau, que pareciam embarcações descendo rio abaixo.

Das manhãs de sol, Reizinho jamais vai esquecer. Seu pai, quase sempre, o levava até um retiro próximo, onde tirava leite. Era muito gostoso aquele passeio. Era preciso subir um morro alto e passar em meio a algumas cercas de arame farpado. Havia, inclusive, uma valeta que seu pai saltava com ele às costas, o que parecia fantástico aos olhos do menino. Finalmente, descia-se por um caminho cheio de pedras miúdas, onde era preciso muito cuidado para não se escorregar, e chegava-se a um curral. Um curral simples, feito de bambus, onde algumas vacas e bezerros faziam a alegria do menino Reizinho.

Reizinho tomava um leite delicioso, tirado na hora e ficava admirando seu pai, naquele trabalho de ordenha. Ficava , por um bom tempo, olhando aquelas criações. Aqueles berros pareciam uma melodia. Havia alguma coisa de paz naquele local, que o menino não se esquece nunca. Era, talvez, um paraíso escondido, “longe de qualquer lugar”, dividido, somente, por ele, seu pai e alguns animais. Um local perfeito para um menino se sentir um reizinho. Na volta, passava-se pelo mesmo caminho. Aliás, Reizinho nem se lembra da volta, não era importante.


***********************************************
Um dia, quem apareceu na casa do menino, foi a avó. Jeito simples, olhar distante. As rugas mostravam um passado longo. Trazia um sorriso tímido, um ar de submissão para com o mundo. Conversava muito com a mãe do menino, conversas que ele não entendia, mas ficava atento. Era muito bom ficar perto de sua mãe e de sua avó. Vários dias se passaram, dias em que sua avó era o centro das atenções e sua mãe parecia mais feliz.

Após esses dias, na volta de sua avó, a mãe do menino foi retribuir a visita. Iam juntos, avó, mãe e netos. Era uma longa caminhada, feita a pé, atravessando montes, matas, córregos, taperas, e algumas pequenas fazendas. Logo no alto do primeiro monte, Reizinho avistou ao longe uma porção de casa juntas.

- É a cidade, onde mora a vovó ! Disse a mãe.

Reizinho ficou impressionado com o que via. Na pequena cidade, Bom Jardim de Minas, o que mais se destacava era a Igreja. Percebeu qualquer coisa misteriosa, quando, a avó e mãe apontaram para aquele templo e fizeram o sinal da Cruz. Um gesto ainda incompreensível para o menino, que pensava na distância que separava o local onde estava, daquela cidade. Distância que parecia perto para o olhar, se fosse um pássaro, poderia chegar num instante. Contudo não o era. Precisava seguir por um caminho mais longo e mais difícil.

A caminhada foi longa. Subiram e desceram morros. Passaram por córregos, onde a parada para tomar água era obrigatória. Água deliciosa, que a mãe apanhava com a palma da mão e levava à boca do menino. Água que matava a sede e dava forças para seguir em frente. Chegaram a uma casa, onde sua mãe e sua avó, pararam para conversar com alguém conhecido. Somente após um bom café e muita conversa é que voltaram a caminhar. O passeio encantava Reizinho. A cada monte escalado, a cidade parecia mais próxima, as casas maiores e a Igreja mais encantadora.

- Vó, quem mora naquela casa bonita ? Perguntou Reizinho.

- Aquela é a casa de Deus.

- Vó, a senhora me leva até lá, quero conhecer Deus. Ele é bonzinho?

- Deus é muito bom, é Pai de todos nós, mas você ainda não pode conhecê-lo, é ainda muito pequeno. Somente quando crescer e procurar o amor, você irá encontrar Deus.

Reizinho não entendeu bem aquela resposta, mas estava feliz. Feliz com as coisas novas que estava conhecendo e, ao se aproximar da cidade, ficou encantado com o rio. O rio era realmente encantador, muito maior do que os córregos que ele conhecia. Havia uma ponte de madeira e, sobre ela, passaram e chegaram à rua. Era a cidade, casas grandes, pequenas, brancas, azuis, verdes e havia muros, que guardavam pomares cheios de frutas. Reizinho, louco por aquelas frutas, perguntou a sua mãe.

- Por que as pessoas fazem muros?

- As pessoas fazem muros para se protegerem . Porém, o muro faz com que as crianças fiquem tristes e os adultos, fiquem com medo dos ladrões, que podem pular o muro.

- Mãe, por que exitem ladrões?

- Porque existem pessoas que não possuem casa com quintal e as crianças gostam muito de frutas.

Finalmente, chegaram ao destino, onde seu avô esperava por eles. Reizinho estava cansado, mas cheio de contentamento por estar em casa de seus avós. Era uma casa simples, uma sala, onde se destacava um lindo relógio de parede. No quintal, o menino viu apenas algumas plantas e não gostou do muro que separava a casa de seus avós, das casas vizinhas. preferia a liberdade da sua casa na roça, onde não havia muros, a natureza se mostrava mais bonita, podia sentir-se parte dela. Ás árvores, os frutos, tudo parecia ter sido criado para ele.
***********************************************
Reizinho estava contente por estar em casa de seus avós. Veio a noite, com ela, as luzes da cidade foram acesas. A beleza que vinha das luzes de toda a cidade, fazia com que Reizinho, pela primeira vez, sentisse vontade de morar ali. A cidade parecia mais segura do que a escuridão na roça, onde assombrações e feras poderiam circular livremente e ameaçar a vida de um menino.

No dia seguinte, sua mãe o levou, juntamente com sua irmã, para visitar as lojas. Ficou encantado com os brinquedos de todas as cores e tamanhos. Sua mãe comprou panos, calçados, uma boneca para sua irmã, um brinquedo para o bebê, que havia ficado com a avó e um carrinho pequeno para Reizinho. Ele, porém, queria um carrinho maior e mais bonito, e o mostrou para sua mãe.

- Mãe, eu quero aquele ali!

Não entendeu a resposta de sua mãe. Lembra-se apenas, que começou a chorar e chorou muito. Pela primeira vez, Reizinho sentiu o seu desejo frustrado. Talvez, não era um reizinho de verdade. Mas ele queria ser e na tarde daquele dia, brincou com seu carrinho pequeno. E o imaginou grande, correndo por ruas, avenidas e estradas. Poderia percorrer o mundo inteiro através das estradas, como seu avô lhe dissera um dia. As horas se passaram. A noite chegou, Reizinho se cansou e dormiu embalado pelos sonhos de menino, que são sempre cercados de brinquedos e de anjos.

Assim que o dia amanheceu, o menino acordou com o chamado de sua mãe. Iriam voltar para casa. Pediram as bênçãos aos avós e partiram. Após andarem um bocado, chegaram à estação ferroviária. A volta seria feita de trem. Na chegada, o menino olhava as manobras e ficava radiante com os apitos da máquina. Sua mãe comprou as passagens e logo, estavam dentro de um vagão. Reizinho olhava pela janela, louco para o trem partir. Iria andar de trem. O trem que passava todos os dias em frente à sua casa, carregado de sonhos, que rapidamente se escondiam em um corte da linha.

Após um apito, o trem partiu e foi deixando para trás, os postes, as árvores e as casas. O menino observava aquele espetáculo da janelinha. Sentia uma felicidade imensa. Logo, as casas foram sumindo e vieram os pastos, os lagos, o gado, todo um cenário de sonhos. Reizinho nem viu o tempo passar, até o momento em que sua mãe lhe avisou que estavam chegando. Desceram em uma plataforma, onde havia muita gente e o menino sorriu ao reconhecer seu pai em meio às pessoas.

Era a mesma estação descrita no início do livro, embora o menino não a tenha reconhecido. Talvez, devido ao sol que brilhava naquela manhã, pelas pessoas que já não deixava aquele local parecer solitário ou, por causa do trem que prendia toda a atenção de Reizinho.

O trem permaneceu parado por algum tempo e o menino não tirava os olhos dele. O trem de madeira, que não era azul, mas tinha uma máquina vermelha, que apitou e partiu diante dos seus olhos. Foi ficando pequeno até sumir em uma curva e parecia ter levado o coração dos meninos, que como Reizinho, imaginavam o que poderia haver por detrás daquelas montanhas.

Subiram por uma estradinha e chegaram a uma ponte de ferro, coberta por dormentes, que deixavam à mostra o fundo, que aos olhos do menino parecia um abismo. Seu pai que carregava o filho mais novo, pediu a uma moça, que também iria pelo mesmo caminho, para atravessar Reizinho naquela ponte. Daquele colo, o menino sentia cada passo, que saltava os dormentes e, olhava para baixo, com a sensação de que um passo em falso iria jogá-lo no abismo. Sentiu muito medo e chorou até o momento em que a ponte ficou totalmente para trás e ele, novamente, sentiu sob seus pés, a terra firme.

Finalmente chegaram em casa. Reizinho sentiu-se contente por estar novamente em seu lar. Andou pelo quintal, olhou as plantas, os pássaros e tudo parecia feliz em vê-lo de volta. Brincou com sua irmã e o dia passou num instante. Escureceu, veio o sono e o menino dormiu. Dormiu e sonhou, ou melhor, teve um pesadelo. Estava caindo em um buraco escuro e sem fim, uma sensação horrível. Ao acordar, bastante assustado, Reizinho chamou pela mãe.

- Mãe, por que alguém não conserta aquela ponte? Ela é muito perigosa!

- É que, as pessoas grandes já não tem tantos medos, às vezes são descuidadas e é por isso, que há tantos perigos no mundo.


***********************************************
O menino esqueceu os perigos do mundo e os dias se passaram. Dias de sol, dias de chuva e ele, feliz da vida, sorria e brincava naquele paraíso, o local onde morava. Reizinho estava sempre junto de sua mãe e de sua irmã. Às vezes, sentia falta do pai, sempre trabalhando longe de casa. Ficava vários dias sem aparecer e, nas noites, havia sempre, crianças vizinhas que dormiam em sua casa, para servirem de companhia para sua mãe. E era divertida a noite, onde as brincadeiras eram constantes e faziam do escuro dos quartos, verdadeiros mistérios, onde as assombrações das estórias que sua mãe contava, se escondiam à espera de Reizinho. E ele adorava quando as crianças maiores desafiavam aquele escuro e voltavam como heróis, para a cozinha iluminada pela fogueira e pela lamparina de querosene, onde o menino se sentia seguro e saía, somente, vencido pelo sono.

Um dia, Reizinho conheceu sua outra avó, a mãe de seu pai. Era uma senhora baixa, olhos claros e brilhantes e, um jeito alegre que passava confiança ao menino. Não se lembra de ter conversado com ela, mas recorda sua voz grave, que quase sempre terminava em um sorriso. Perto dela, seu pai parecia mais feliz. Ela, porém, não ficou muito tempo com eles, mas deixou saudades em Reizinho, que um dia, pensou ter um outro avô.

- Pai, quero conhecer o pai do senhor!

Seu pai parecia ter se engasgado e custou a responder.

- Meu pai morreu!

- O que quer dizer isto, pai?

- Filho, lembra-se daquele gatinho, que uma cobra mordeu e você ficou triste? Pois é, as pessoas também morrem.

- Quer dizer, que eu também vou morrer um dia?

- Não, você não morrerá nunca. Talvez, um dia adormeça e acorde em um outro espaço. Com certeza, um mundo lindo, onde as flores estarão sempre vivas e você estará ao lado das pessoas que ama.

E a vida seguia, tranqüila, sua trajetória. Sua mãe cuidava da casa e dos filhos. Seu avô aparecia sempre, aquele jeito sério e o menino gostava dele. Tudo parecia bonito naquele local: o sol, as plantas, os pássaros, os animais, as chuvas e as enxurradas que passavam em frente à sua janela. Seu pai estava sempre andando pelos matos, trabalhando e cuidando de animais. Às vezes, porém, viajava e demorava muito a voltar. Um dia, Reizinho acordou e viu sua mãe arrumando bolsas, ouviu qualquer coisa sobre mudança e sentiu um ar triste pairando sobre a sua casa.

Pouco depois, seguiam em direção à estação de trem. Não se lembra de quem o atravessou na ponte, mas recorda a viagem, que parecia não terminar nunca. O trem parecia lento, atravessando serras, fazendas, cachoeiras, estações e pequenas cidades. Por fim, o menino adormeceu, embalado pelo balanço gostoso e pelo barulho do trem.

Quando acordou, estava em uma casa diferente. Encontrou seu pai, sua avó e como era noite, logo voltou a dormir. No dia seguinte, pôde observar melhor onde estava. Era uma casa pequena, um quintal pequeno, parecia ficar em um buraco. Uma escada dava acesso à uma rua movimentada, por onde passavam muitos carros e preocupava a mãe de Reizinho, que não tirava os olhos dele e de sua irmã.

E os dias foram se passando. Em um deles, sua mãe e sua avó, foram a uma feira e levaram o menino. Reizinho sentiu-se perdido em meio a tanta gente. Ficou de olho nas barracas, que além dos alimentos, tinham brinquedos que o deixava fascinado. Em um determinado momento, soltou-se da mão de sua mãe, foi até uma barraca, apanhou um brinquedo e correu de volta. Sentiu uma frustração enorme, quando o dono da barraca veio até ele e tomou-lhe o brinquedo das mãos. Logo, pensou consigo, que aquele homem era mau, tinha muitos brinquedos, custava deixá-lo levar apenas um?

Reizinho jamais havia pensado, que as pessoas poderiam ser más. Porém, aquele homem despertou nele aquela dúvida. Ao chegar a casa, seu pai lhe perguntou se tinha gostado do passeio e ele nem respondeu.

- Pai, as pessoas podem ser más?

- Não, as pessoas não podem ser más, porém elas erram muito e as crianças ficam tristes.

Permaneceram, ainda, por algum tempo, naquela casa. Reizinho, porém, sentia-se preso. Sua mãe parecia triste e numa determinada manhã, acordou com ela arrumando as bolsas e dizendo que iriam voltar para o sítio. O menino sentiu-se feliz e, pouco depois, já estava no trem que partia em direção a Minas. Ia olhando as plantas, ainda molhadas pelo orvalho e imaginando a alegria de rever sua casa e tudo o que havia deixado. Sentia saudades da liberdade de olhar o verde e andar por caminhos cercados por árvores, onde não faltavam o canto dos pássaros e o encanto dos animais que passeavam diante dos seus olhos.
***********************************************
Novamente em sua casa, o menino voltou a sentir o prazer de estar livre dos muros. Via sua mãe mais feliz. Sua irmã brincava com ele o dia inteiro e o seu irmãozinho começava a dar os primeiros passos. Seu pai é que, às vezes, ficava muitos dias fora. Porém, quando chegava, trazia balas e doces, e a alegria da casa se completava. Reizinho gostava muito, quando seu pai estava em casa e o levava para passear nas matas, nas casas vizinhas, nos currais, nos campos e muitos outros lugares inesquecíveis.

Um dia, sua família mudou-se para outra casa, não muito longe. Reizinho não se importou muito. A casa era pequena e velha, mas o lugar era bonito. À sua frente, havia uma horta com muitos alecrins e um caminho que levava a um córrego cheio de pedras, onde se apanhava a água que iria ser utilizada. Um pouco adiante, ficava a linha, por onde passavam os trens, que o menino adorava. Ao lado, tinha uma grande valeta, onde, segundo sua mãe, vivia uma enorme serpente. Havia também, muitas árvores: jacarandás, pinheiros, candeias, jaboticabeiras e outras. Atrás da casa, ficava um morro e o caminho que ia até a cidade do avô de Reizinho.

O menino acostumou-se logo à nova morada. Os dias se passavam rápidos, com tantos lugares bonitos para se brincar. Perto dali, moravam seu tio e seus primos. Um deles dormia sempre em sua casa, quando seu pai estava ausente e era uma grande companhia. Seu primo já não era tão pequeno, podia andar sozinho por todos aqueles caminhos, gostava muito de pescar e, algumas vezes, levava Reizinho.

O córrego que passava no fundo da horta de sua casa, além da beleza de suas pedras e da melodia de uma pequena cachoeira, tinha muitos peixes. Nas tardes, seu primo apanhava as minhocas e passava por entre elas, uma agulha acompanhada de uma linha, que era amarrada na ponta de uma pequena vara. Assim, estava pronta a “chupança”, nome dado a este material, utilizado na pesca da “maria-mole”, um peixe encontrado no local. Ao escurecer, seu primo o levava para pescar, sob uma quantidade enorme, de pedidos de cuidado, feitos por sua mãe.

Era um local assustador. A noite e as árvores cobriam o córrego, deixando uma escuridão total. Reizinho sentava-se próximo ao seu primo, não tinha coragem de olhar para cima ou para trás. Pensava nas assombrações e nos bichos que, a qualquer momento, poderiam atacá-los. Lembrava-se das estórias que sua mãe contava, sobre os antigos moradores, que diziam ser mal-assombrado aquele local. Alheio aos seus pensamentos, seu primo ia pegando os peixes, parecia não ter nenhum medo e isso confortava o menino Reizinho, que confiava nele.

Na volta, havia muitas dificuldades. Era preciso subir barrancos e saltar pedras no escuro. E elas pareciam sombras, aos olhos do menino, que confiava nos passos do seu primo e os seguia. E era muito bom chegar a casa e olhar os peixes, que ficavam nadando em uma lata com água. Logo depois, seu primo matava-os com água quente. No dia seguinte, sua mãe fritava-os para o almoço e eram deliciosos.

A casa de Reizinho tinha muitas histórias. Sua mãe falava muito, sobre a família, que havia morado nela, nos seus tempos de criança. Aliás, ela gostava de falar da infância. Contava histórias sobre um tempo em que havia muitos vizinhos e muito movimento naquela região. Apontava lugares, nomes de moradores e o menino, sentia aquela falta, no olhar de sua mãe, que parecia sentir muitas saudades. Dizia com orgulho, que o avô de Reizinho tinha sido um grande fazendeiro, com empregados, colonos, muitas terras e muito gado. Tudo aquilo havia desaparecido e o menino, ficava a imaginar o que teria acontecido com o povo que deixara aquele local quase deserto. E era uma terra muito fértil, o menino Reizinho poderia defini-la como sendo um paraíso.



Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   22


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal