O menino dos mistérios tomo 01



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COIMBRA “O PEREGRINO”AS PRINCESAS DA CIDADE LUZ

AS PRINCESAS DA CIDADE LUZ

LUZIRMIL COIMBRA

Havia, numa região muito distante, em uma extensa planície, um reino, cujas terras eram compostas de cerrados, mas contendo casas aqui, ali e acolá.

Para quem chegasse naquele país ficava admirado por ver as cordas de areia. Eram trilhas ou parcas vias que ligavam as habitações, que mesmo sendo circundadas por densos cerrados, contudo as comunidades se entrelaçavam na amizade e consideração ao próximo.

Numa das residências em meio ao cerrado da planície havia cinco pessoas: um casal e três filhas menores. As meninas eram lindas. Chamavam-se Álari, Cálida e Bálira respectivamente.

Ali tudo era belo; na verdade tal beleza provinha da maravilhosa natureza, composta de uma flora exuberante e de uma magnífica fauna, onde os gafanhotos gigantes pareciam pássaros. Devido ser um reino distante, os visitantes eram raros, mesmo por que, era necessário que alguém que pretendesse conhecer aquelas plagas tivesse a coragem necessária para empreender tal viagem.

Havia muita paz naquele reino. Os poucos habitantes que lá residiam, se entrelaçavam na convivência e sentiam-se felizes quando recebiam visitas de arrojados viajantes que levavam às comunidades, além de alguns bens, muitas instruções, sempre gratuitamente, pois os moradores eram pobres e mal conseguiam sobreviver.

Dentre os arrojados viajantes havia um, conhecido por Perê, que sempre visitava os sertões, num dos quais havia aquele reino, cujo nome era Planície do Alto.

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O nome do lugar era caracterizado pela existência de uma grande chapada. Tal era uma faixa existente entre as regiões baixas do rio Karin, a oeste, e as barrancas das terras degradadas ao leste. A queda abrupta do terreno era demarcada por uma orla de árvores, constantemente tragadas pelo desmoronamento de terras desprendidas em razão das ações das chuvas.



Do lado oeste, não existia muita a ação das degradações, haja vista ser uma composição da própria natureza. No entanto ao leste, certamente com o passar das centenas de anos, a planície seria rebaixada ao nível do oeste
Bem... Nossa história começa com a visita de uns mercadores, sendo três senhorios e um escravo.

Eles partiram de uma cidade onde residiam, cujo nome era São Sebastião da Ribeira, na madrugada de uma quinta feira. Um camelo, cujo nome era Analec, levaria em seus lombos, as coisas pessoais dos senhorios e alguns pertences do escravo, cujo nome era Perê. Entre tais pertences havia uma gaita de foles, instrumento que Perê gostava de tocar.

Eles teriam que viajar muitas horas, já que iriam a pé acompanhando o dromedário, e a distância do reino da Planície ficava algumas léguas além.

Desde a saída da grande cidade, que Perê sentia que iria passar algumas provações naquela jornada. Isto por que ele havia feito um propósito de nunca mais viajar com mercadores, haja vista que numa das últimas vezes que o fizera, tivera muitos problemas com seus senhores de então, em razão de doenças no camelo que conduzia.

Ele era um escravo livre, ligado todavia a certos compromissos oriundos de deveres para com o semelhante.

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Aquela ida dos mercadores à terra da Planície do Alto, se fundamentava nas palavras da mulher do mercador, que disse que iriam numa viagem de descanso, pois estavam estressados da vivência na cidade.

Mesmo tendo contragosto em efetuar aquela peregrinação, o escravo Perê seguia em companhia do mercador, que com sua esposa e sogra empreendiam aquele deslocamento.

Viajaram por muitas horas, até que ao cair da noite chegaram ao reino da Planície.

Por serem conhecidos do vice-rei daquele país, dirigiram-se diretamente para o palácio real, onde tomaram conhecimento que meses atrás houvera guerras internas, pelo que o palácio fora praticamente destruído. O rei estava morando numa casa de campo, próxima das orlas.

O vice rei tinha muita simpatia por Perê, assim o convidou para ficar hospedado na casa de campo, enquanto os mercadores ficariam no palácio do primeiro ministro.

Mas os acontecimentos não estavam para descanso naqueles dias na Planície. Focos de guerrilhas e deserção de soldados fiéis ao vice-rei compunham os movimentos. Além daquilo o líder daquela nação estava preocupado em reconstruir o palácio, o que não lhe permitiria dar muita atenção aos ilustres visitantes.

O mercador, sua mulher e sogra ficaram, por assim dizer, desprezados, já que esperavam contar com a companhia do vice rei em suas visitas, às diversas vilas do reino. Por outro lado o escravo Perê, atendendo a uma solicitação daquele mandatário, pôs-se a trabalhar na reconstrução das partes destruídas desde que chegara ao país.

Numa síntese o passeio dos mercadores foi minado, pelos acontecimentos havidos, e pela não presença de Perê, nas

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poucas visitas que fizeram. O escravo, contudo foi muito útil para o vice rei e seu reino. Mas ele sofreu algumas consequências por ter faltado à companhia de seus ex-senhores, um dos maiores castigos a ele imposta foi se ver separado da comitiva, já que ao retornar teve que fazê-lo solitariamente, pois seus senhores o deixaram num ponto em que ele deveria fazer uma parada para efetuar um trabalho em favor de uma nação em meio ao caminho para as planícies.


Quanto ás princesas da planície, até que saíram bem, pois os mercadores deram para cada uma, um presentinho, ainda que baratos e insignificantes, mas certamente as alegraram.

Dos fatos positivos que Perê pode anotar, foi só aquele. No tocante às demais ações dos mercadores, até os gastos pessoais, inclusive com uma alimentação do camelo, Perê teve que fazê-los por sua conta. Enquanto que em outras viagens seus senhores lhe pagavam tudo pelo caminho, naquela porém não ajudaram em nada, nem mesmo aos pobres do reino. Num resumo, Perê desta vez realmente fez um propósito de nunca mais viajar com mercadores, mormente quando dizem que vão para algum lugar para terem descanso.


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Algum tempo depois de Pere se ver separados dos seus senhores, precisou voltar à planície onde moravam as princesas. Seu primeiro pensamento foi fazer uma visita à tosca casa onde moravam, a vivenda porém estava deserta, sem moradores.

Tomando informações ele soube que houvera uma epidemia no arraial da planície em que a maioria das crianças morreram. Certamente as princesas já não mais existiam.

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Pere se entristeceu. Com melancólicos pensamentos dirigiu-se sem ter destino certo, ao leste do arraial, onde se localizavam as partes degradadas das terras. Tais degradações formavam um profundo precipício, entretanto haviam algumas trilhas tortuosas, não muito acessíveis, mas que enfim, se alguém tentasse descer ao fundo do vale, conseguia fazê-lo. Pere se encontrava transtornado pelas notícias das quais tomara conhecimento, diante daquilo propôs-se a descer as trilhas até um ponto em que se viu ao nível do fundo. Sua primeira observação foi ver uma espécie de rancho, em cujo chaminé saia fumaça, denotando que havia moradores no local. Dirigindo-se em direção a ele Pere, no caminho foi interpelado por um velho, de barbas tão brancas que pareciam algodão.

-Paz, amigo. - saudou-lhe o ancião. – De onde vens com semblante tão descaído? – perguntou-lhe.

-Ah! Amigo, tempos atrás conheci na planície, uma família e nela três jovenzinhas, pelas quais vim mais uma vez por estas regiões, pois desejava presenteá-las com alguns vestidos, pela educação da qual foram portadoras para comigo; contudo soube que faleceram.

-Ora, se for três meninas, cujos iniciais dos nomes são A, B e C, elas estão bem. Bem demais! Moram naquela palhoça a qual tu podes ver daqui. – apontou em direção à vivenda – eu acabei de passar lá para dar a cada uma delas um presente. E recebi ordens para lhe presentear também, ó peregrino.

Dizendo isto o velhinho pôs a mão sobre a cabeça de Perê e disse: Você será o tutor das princesas até que sejam rainhas, e a partir de agora terás o nome de LÍBERO, não esqueça.

Na sequência o velhinho desapareceu por entre uma cortina de neve, como que por encanto.

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Admirado com o que vira e ouvira, Perê se dirigiu à vivenda, encontrando lá os pais das jovens e elas, que numa alegria incontida cantavam uma espécie de hino.

Todos ficaram surpresos com sua chegada. Afinal moravam num lugar de difícil acesso. Como poderia ele ter ido ali sem que fosse preciso?

Perê lhes explicou que sua melancolia o conduzira ao Buracão, que a principio queria apenas contemplar das altas barrancas, as extensões que se estendiam ao nível baixo daquelas terras, disse também que mudara seu nome para LÍBERO.

Ele pode também se alegrar ao saber dos fatos ocorridos e contados pelo chefe da casa, que disse-lhe:

-No dia em que soubemos que que muitas crianças estavam falecendo por uma epidemia surgida no arraial da Planície, fomos aconselhados por um ancião que nos visitou, de que deveríamos descer as ribanceiras e habitar nesse casebre abandonado. O interessante é que hoje ele veio aqui, pôs a mão na cabeça de cada uma das meninas e predisse um futuro para elas. Nós estamos convictos de que o velhinho era um anjo.
Pela descrição do pai das meninas, o velhinho seria o mesmo que Perê encontrara ao chegar ao fundo do vale. Que era um ser humano diferente, era, pois desaparecera por entre uma névoa!

-Interessante! - E que profecia o velhinho anunciou para cada uma de vocês? – perguntou às jovens.

-Ah! Ele pôs a mão em minha cabeça e disse: Você Álari, será a RAINHA DA LETRA “A”.

-Fazendo o mesmo comigo ele disse: Você será a RAINHA DA LETRA “B”. – disse por sua vez Bálira.

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-À Cálida ele disse: VOCÊ SERÁ A RAINHA DA LETRA “C” – falou Éricson.



-Puxa vida! Serão rainhas das primeiras letras do abece-

dário?! - Admirou-se Perê meditando nas palavras ditas a ele pelo velhinho. Contudo nada disse à família sobre o encontro dele com o ancião.


A aconchegante choupana, embora humilde e pobre, entretanto a hospitalidade da família convidava Perê a ficar por lá, pelo menos até o outro dia.

Para quem estivesse em frente a vivenda, se olhasse para

o oeste veria as medonhas barrancas em cujo alto ficava a planície. O local da atual moradia do humilde Ericson e família, era denominado de Buracão. Raramente havia pessoas transitando pelas trilhas das íngremes ribanceiras.

Perê estava curioso pra saber quem seria o velhinho que visitara aquela família, entretanto eles não sabiam explicar a aparição do ancião num lugar de tão difícil acesso.

Por ser a localidade numa parte mais profunda, a noite pareceu chegar mais rápido. Com aquilo logo todos estavam reunidos dentro daquela que mais parecia ser mesmo uma palhoça, já que as paredes eram feitas de paus-a-pique e a cobertura de capim.

Por ser uma época de inverno fazia frio, assim as três meninas, seus pais e Perê, se assentaram próximos do fogão de lenha, em cuja trempe a prestimosa Elian, mãe das princesinhas, havia posto água a ferver para servir um delicioso chá de erva-cidreira.

O assunto entre eles era sobre as ações do velhinho que aparecera de imprevisto na palhoça.

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-Se fosse época de natal eu diria que era Papai Noel, dizia Elian.



-Mas é época de São João. Não seria ele? – dizia Perê em tom de brincadeira.

-O velhinho poderia ser também, Santo Antônio, ou São Pedro – dizia ainda gracejando, Ericson.

-Bem, o fato é que o bom velhinho esteve por duas vezes fazendo suas aparições a vocês, (e uma para mim, pensou ele; pois guardava o segredo para si) pois me disseram que velhinho surgiu primeiro lá na planície, depois, já nesse Buracão: especialmente para profetizar para as meninas, e depois disso desapareceu? – disse Perê.

-Isso mesmo. Não vimos para onde foi.

Foi assim, que entre um e outro papo a respeito do velhinho, depois de uma hora, todos foram repousar. Perê dormiu sobre um tanto de capim seco espalhado no solo da vivenda. Aliás, todos tinham acomodações idênticas para dormirem a noite, pois a pobreza da família era extrema.
Ao amanhecer do outro dia, depararam com um cavaleiro no terreiro em frente a vivenda. O rapaz parecia sério e queria falar com o chefe da casa, que ouviu as seguintes palavras.

-Meu patrão soube que uma família da planície se mudou para suas terras e me enviou para lhes dar uma ordem de desocupar o lugar o mais urgente possível.

-Mas não temos aonde ir – disse Ericson – Diga a ele quero trabalhar para manter minha família.

-Meu patrão não contrata trabalhadores. Cria gado e eu sou seu único empregado. Dêem o fora dessas terras!

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-Ora, não precisa se preocupar, caro Ericson. Eu posso vos levar para lugares mais apropriados. – interferiu Perê. futuramente chamado de LÍBERO.



-Mas como? Tenho três filhas menores e a esposa para cuidar! Morando aqui poderei trabalhar para alguém nesse Buracão, a fim de sustentar meus entes queridos.

-Ao meu patrão não interessa seus problemas – disse o vaqueiro – Saiam dessas terras o mais urgente possível, caso contrário vamos queimar essa palhoça para que se mandem daqui!

* * *

O sol se aprumava na casa do meio dia, quando seis pessoas, sendo três adultos e três meninas menores, carregando cada um, alguns pertences, iniciaram uma peregrinação sem destino.



Diante dos fatos, Líbero se propôs a participar da vida daqueles retirantes, que á princípio não tinham pra onde ir. Tendo sua opinião, optaram seguir em meio ao cerrado pelas regiões baixas, no sentido leste, já que por aquela direção havia um grande rio, não muito perto, porém se caminhassem uns cinco dias chegariam às suas margens, que por ser beira rio poderiam fazer um rancho pra habitarem, até um segundo plano.

Foi uma caminhada difícil. Tinham como alimento apenas farinha de mandioca, à qual adicionavam sal, já que também havia uma porção daquele tempero. Caminharam quatro dias, com paradas onde encontravam água, e a noite para repousarem.

Depois de andarem umas cinco léguas chegaram às margens do grande rio, do qual Perê sabia de sua existência. Era o famoso rio Sãofrancis, cujas águas corriam a esquerda pra quem estivesse daquele lado da margem a qual chegaram.

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No trajeto entre a palhoça e o grande rio, no qual se deslocaram por aqueles dias, houve alguns fatos dignos de notas, pois foram ocorrências sobrenaturais.



O primeiro aconteceu logo no terceiro dia, quando depois de caminharem por entre o cerrado, com o sol a pino e seu terrível calor, a água da moringa que levavam havia se acabado e todos estavam sedentos. As meninas, não obstantes estarem exaustas e com sede não reclamavam, pois compreendiam a situação. Ocorreu que no auge da angustia pela sede, eis que aparece o velho, com uma bilha de prata, contendo água fresca da qual foi servida a cada um dos retirantes num copo de cristal, cheio do precioso líquido. Após aquilo ele disse para Líbero:

Vou lhes dar de presente esta bilha de prata, mas não coloquem nela líquido algum para que não a contamine. Ela sempre conterá água potável sem que seja necessário ser suprida; entendeu? – dizendo isto, mais uma vez o velhinho desapareceu, desta vez sumindo no ar!

A partir dali não tiveram mais sede, pois a bilha sempre estava cheia de água limpa, não só para ser usada para beber, mas também para cozinhar.

O segundo fato ocorrido, foi a aparição repentina de uma Águia de grande tamanho, que transladou todos eles, sobre um vale profundo, o qual não poderiam transpor, caso fossem seguir em frente.

A ocorrência se deu no momento em que Líbero, seguindo adiante da família, que se tornara uma espécie de comitiva, deparou com o abismo. Era profundo e tendo barrancos tão íngremes que seria impossível descer neles para atravessarem de um lado para outro. A jovem Álari ficou tão

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preocupada a ponto de desejar em ser uma águia. Mal sabia ela que por ter pensado em ser um grande pássaro contendo a letra “A” como inicial, ocorreria um interessante fato. Foi impressionante! Num abrir e piscar de olhos ela tomou a forma de uma águia gigante! Com aquilo teve facilidade de transladar, seus pais, irmãs e o próprio Líbero, que no momento se lembrou das palavras do velhinho, ditas para Álari. Era a princesa da letra “A” prestando uma sensacional ajuda na trajetória deles.



Foi sob grande admiração, que após o translado passaram a comentar o ocorrido, mesmo por que todos viram a transformação da menina num pássaro e vice-versa.

-Estou pensando, - disse Líbero – Álari se transformou numa águia. Teria seu nome, que agora é regido pela princesa da letra A, alguma relação com a inicial do nome da ave?

-Teve sim – disse a menina – Ouvi a voz do velhinho me falando ao ouvido: “deseje ser uma águia gigante, ó Álari” - Assim que concebi aquele desejo me transformei na grande ave, conforme puderam ver.

Depois de algum tempo reiniciaram a caminhada. O intenso cerrado persistia além do valado. Com o declinar do dia, já com as sombras noturnas mais um vez cobrindo a terra, trataram de arranjar um lugar para passarem mais um noite. Vale dizer que haviam passado por aquele evento por três vezes, já que era o quarto dia que avançavam na direção proposta por Líbero.

Pelas aparências, aquela região deveria ser habitats de animais carnívoros, no entanto eles seguiam sem pensar nos

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possíveis encontros com onças cujos rastros viram nas trilhas de areia que andaram.



Nas três noites que já haviam pernoitado em meio as matas, eles acenderam uma pequena fogueira próximo da qual dormiam todos, sendo que Líbero e Éricsom faziam um turno de guarda, para na eventualidade de algum ataque de animal acordar a todos pra se defenderem. Mas até ali, só tinham ouvido os cânticos dos curiangos, guinados de morcegos e pios de coruja. Enfim eles estavam convictos de que passariam mais uma noite no cerrado, sem maiores impressões!
As horas noturnas passavam sob a égide do silêncio, apenas quebrado com os sons acima descritos. Na madrugada porém, quando Líbero fazia seu plantão, sem perceber dormiu, momento em que teve um sonho, em que viu um grande clarão no local em que pernoitavam.

Foi com grande admiração que Líbero viu ao redor, não o denso cerrado, porém um mundo diferente. Era uma cidade, iluminada por uma espécie de sol, não muito distante. Na transfiguração do ambiente ele se viu ante um magnífico castelo, na frente do qual uma escadaria parecia conduzir ao seu interior, num ponto alto.

No momento ele pensou: Estou sonhando, ou estou acordado realmente?

Ele realmente estava sonhando com uma realidade, não notou porém, perto dele, a família do atribulado Éricson. Tudo estava diferente. Olhando para o alto da escadaria iluminada, ele viu à entrada do castelo as três jovens acenando-lhe para que subisse.

Aturdido com a visão, ele se pôs a galgar os degraus, até

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chegar próximo das meninas, cujas vestes resplandeciam sob a fonte de luz que iluminava aquele mundo diferente.



-Olá querido amigo Líbero – disse Álari – Até que enfim você chegou ao castelo das Rainhas da Cidade Luz.

-Devo estar sonhando? Ou é uma realidade toda esta contemplação? – inquiriu ele.

-Sonho! Ah! Não, caro amigo. Você está numa cidade real.

-Mas...?


-Ora, caro Líbero. As vezes alguém anoitece num mundo e amanhece noutro! Você se lembra do dia em que dormimos em meio ao serrado pela quarta noite?

-Ora, isso foi ontem. – falou Líbero.

-Ontem? Puxa vida! Já se passaram dois anos depois daquela noite – retrucou Bálida.

-Caramba! Espero saber dos fatos e crer que realmente não estou sonhando um sonho comum.

-Então vamos entrar no castelo. Sentimos muito sua falta nesses dois anos que se passaram. Aquela noite, quando todos dormíamos em meio ao cerrado fomos transportados pelo velhinho da “bilha de prata”, para esta cidade, numa estranha carruagem. Foi como um sonho, mas ficamos intrigados por você ter sido deixado só, sem que pudéssemos exigir do velhinho para trazê-lo conosco.

-Mas não vi nada disso. Eu acabara de acordar para ficar de plantão, e Ericson pôs-se a dormir.

-Pois é. Nos momentos seguintes, entretanto, você cochilou, talvez tenha sido poucos minutos, porem suficientes para sermos visitados, acordados pelo velhinho e transladados. Tentamos te acordar mas seu sono estava profundo e o ancião nos disse para nos apressarmos que depois você nos encontraria. Caramba! Mas só veio ocorrer isso hoje.

-Não creio que eu tenha dormido por dois anos! Isso é um sonho que agora todos nós estamos tendo.

-Bem se é um sonho, é uma visão e participação sua no futuro, nobre Líbero – disse Álari.

-O importante é que nosso pai é o rei da Cidade Luz, minha mãe é a rainha e nós somos as princesas. Podes crer no que esta vendo, caro Líbero.

-Ora. Eu preciso acordar. Tudo está muito lindo para ser um sonho real.

Realmente a admiração de Líbero tinha fundamento. Para quem estivesse na sacada alta da entrada do palácio, ficava deslumbrado com a beleza que se apresentava. A começar pelas ruas. Eram todas pavimentadas com blocos cerâmicos da cor dourada, que iluminados pelo misterioso sol, lhes davam a aparência de ouro. As casas eram dispostamente perfiladas, de forma que uma não encobria a aparência da outra, que por serem belas, dava gosto contemplá-las.

Na frente da cada residência havia um jardim, sempre diferente um do outro, assim como as flores e a relva.

-Ainda não estou compreendendo como vim parar aqui. Foi tudo como um sonho. Você é capaz de me explicar cara Álari?

-Eu? Ora, também penso estar sonhando todos os dias. O fato é que pernoitamos em meio ao cerrado e acordamos num palácio, mas já fazem uns dois anos. Estou felicíssima por te ver aqui. Pensávamos nós que tivesses desaparecido nas brumas da magia que nos transportou para esta cidade luz. Bem, vamos dar uma festa por sua chegada em nossos domínios. Aqui tudo é riqueza, acabaram-se nossas preocupações e toda sorte de agruras.

Foi assim que aquele que fora um escravo num mundo de sofrimentos e tribulações, por se envolver com uma família atribulada dando a ela carinho e orientação, ganhou com eles uma morada na CIDADE LUZ.

DUAS FESTAS NUM ROTEIRO

76° VIAGEM AO NORTE DE MINAS

CAPÍTULO 01

Caros irmãos,

Tendo retornado de mais uma longa viagem em razão da obra de Deus, e sabendo dos vossos gostos em acompanhar os roteiros deste peregrino de Jesus Cristo, eis que venho através desta carta, retratar os lances de mais uma peregrinação.

Como sempre, inicio meus assuntos falando dos movimentos que resultaram em mais uma ida minha ao Norte de Minas, na localidade de Cruz dos Araújos, onde por graça e misericórdia de Deus completou, com esta, setenta e seis vezes.

Dei o título acima, a tal peregrinação, em razão de ter participado de duas festas, sendo uma de um ensaio regional na Fazenda Cachoeira e outra do casamento do notável irmão Vilson, cuja história muitos já conhecem através de minhas reportagens.

Para dizer a verdade, eu havia planejado ir somente ao casamento, que ocorreria na cidade de Lagoa Formosa no dia 1° de novembro de 2008; entretanto houve a necessidade de minha ida à Monte Carmelo, numa data antecipada.



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Tudo começou com três telefonemas do fraterno Abrão Nunes, encarregado regional da música naquela cidade, solicitando minha presença lá para fazerem uma viagem em minha companhia.

Por eu ter feito um compromisso com irmão Sebastião Vieira, de irmos a um batismo na fazenda Boa Sorte, me esquivei de toda maneira para não ir a Monte Carmelo, mas a insistência do irmão Abrão foi tanta que não consegui persuadi-lo.



Foi desta forma que surgiram os princípios daquela que
seria a septuagésima sexta ida minha às regiões do médio São Francisco, mais precisamente no município de Cônego Marinho, na localidade chamada Fazenda Cachoeira, onde há a sede central da CCB regional dali.

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