O meu filho nick



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O MEU FILHO NICK

Danielle Steel


***


Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!

***


Mãe ...
Conheci um milhão de pessoas Mas nunca ninguém como tu Muitos dos meus amigos são especiais Mas

ainda não consigo entender Como podes ser tão maravilhosa A melhor mãe do mundo Sempre me amaste

e ajudaste Mesmo quando eu não tinha razão Desculpa ter-te magoado Desculpa ter-te feito chorar Farei o

meu melhor para que te orgulhes de mim Prometo que vou tentar Todos vêem o infortúnio E todos sentem

a dor E se alguém souber que és tu e eu O Sol brilhará através da chuva Deste-me tanto Que as palavras

não são suficientes Para dizer quanto te amo Estou a tentar e é difícil Sem ti não existiria Acreditaste em

mim desinteressadamente Os meus braços estão sempre abertos Prometo que nunca se fecharão Tenho

mais respeito por ti Do que por outra mulher viva E o meu ombro está sempre aqui Se algum dia

precisares de chorar Tudo acabará em bem Porque sempre te amarei Até Ao dia em que morrer
Nick Traina

Agosto de 1996


PRÓLOGO
Este não é um livro fácil de escrever, mas há muito para dizer, nas minhas palavras e nas do meu filho. E

por mais doloroso que isso possa ser, vale a pena fazê-lo, se servir de ajuda para alguém. E difícil

encerrar um ser, um ser muito especial, uma alma, um sorriso, um rapaz, um enorme talento, um coração

imenso, uma criança, um homem, numa série de páginas. Porém, tenho de tentar, por ele, por mim, por

vós. E tenho a esperança de que, Ao fazê-lo, compreendereis quem é que ele foi, e o que significava para

aqueles que o conheciam. Esta é a história de um rapaz extraordinário, com um espírito brilhante, um

coração de ouro e uma alma torturada. É a história de uma doença, uma luta pela vida, uma corrida contra

a morte. Para mim, porém, ainda é cedo. Ele faleceu há pouco tempo. Ainda sinto uma dor no coração. Os

dias parecem intermináveis. Ainda choro Ao ouvir o seu nome. Entro no quarto dele e ainda sinto o seu

cheiro familiar. As suas palavras ainda ecoam nos meus ouvidos. Ainda há poucos dias, há poucas

semanas, ele estava vivo... há tão pouco tempo, e todavia está morto. Ainda me é impossível digerir ou

entender a situação. Ainda me custa aceitar. Olho para as suas fotografias, e não consigo imaginar que

toda aquela vida, aquele amor, aquela energia desapareceram. Mas será que aquele rosto divertido e

gracioso, aquele sorriso radioso, o coração que conheci melhor que o meu, o melhor amigo que ele se

tornou para mim, desapareceram realmente? Eles só vivem na memória? Mesmo agora, isso está para

além dos limites da minha compreensão, e, por vezes, para além daquilo que é suportável. Como é que

tudo aconteceu? Como é que o perdemos? Como é possível termos-lhe dedicado tanto esforço, tanto

carinho, tanto amor, e mesmo assim tê-lo perdido? Se só o amor o tivesse conseguido manter vivo, ele

teria chegado aos trezentos anos. Mas, por vezes, mesmo amando do fundo do coração, da alma, do

espírito, não é suficiente. Infelizmente, não foi suficiente para Nick.

Se tivesse três desejos, um seria que ele nunca tivesse sofrido de doença mental, o outro seria

naturalmente que ele estivesse vivo, mas o terceiro seria que alguém me tivesse informado, num dado

momento, que a sua doença - psicose maníaco-depressiva - poderia matá-lo. Talvez isso tenha acontecido.

Talvez me tenham dito de uma forma subtil. Talvez a inferência estivesse aí, e eu não quisesse saber. Mas

ouvi com atenção tudo o que me disseram Ao longo dos anos, analisei todas as doenças, e segui todos os

conselhos, o melhor que sabia e as forças permitiam. Por aquilo que me lembro, ninguém me disse nada.

Pelo menos, abertamente. E era uma informação que eu esperava desesperadamente. Não estou certa de

que teríamos feito as coisas de modo diferente, mas, pelo menos, eu teria sabido, teria sido avisada de qual

poderia ser o pior cenário.

A doença matou-o com a mesma certeza que um cancro o teria feito. Quem me dera ter sabido, ter sido

avisada, de como era grande o risco. Talvez tivesse ficado mais bem preparada para aquilo que viria a

acontecer mais tarde. Não sei se nas mentes das pessoas é evidente que a psicose maníaco-depressiva é

potencialmente fatal. Nem sempre, certamente, mas na maioria dos casos. Suicídio e acidentes parecem

ser as maiores causas de morte para os maníaco-depressivos. Nem são casos raros. Se me tivessem dito

que ele sofria de um cancro num órgão importante, teria ficado a saber que o risco era grande. Talvez

tivesse compreendido que a sua vida poderia ser curta e que as consequências poderiam ser trágicas. Estou

certa que teria lutado exactamente com o mesmo empenho, durante o mesmo tempo, com a mesma

perspicácia, mas teria ficado mais bem preparada para o que veio mais tarde. A derrota talvez não tivesse

sido tão chocante, embora fosse igualmente devastadora.

O propósito deste livro é prestar homenagem a Nick e àquilo que ele conseguiu durante a sua curta

existência. Nick era um ser humano extraordinário, alegre e inteligente, com uma percepção

extraordinariamente profunda e astuta dele próprio e dos outros. Encarava a vida com coragem,

desenvoltura, paixão e humor. Fazia tudo "em grande", melhor e com mais empenho. Amava com ardor,

ria muito, e fazia-nos rir, chorar, e tentava salvar-se desesperadamente. Nenhum daqueles que o

conheciam podia ficar insensível à sua dor. Era impossível conhecê-lo e não lhe dar importância. Ele fazia

com que gostássemos, sentíssemos e quiséssemos ser como ele. Era muito grande. Era o maior.

Escrevi este livro para lhe prestar homenagem e para o recordar. Mas tive ainda um outro propósito ao

fazê-lo. Quero partilhar a história, a dor, a coragem, o amor, e aquilo que aprendi ao passar por isso.

Quero que a vida de Nick não seja apenas uma terna recordação para nós, mas uma dádiva para os outros.

Há muito a aprender aqui, não só acerca de uma vida, mas acerca de uma doença que aflige entre dois e

três milhões de americanos, um terço dos quais, crê-se, morrem dela, possivelmente dois terços. E uma

estatística aterradora. As estatísticas são algo "brandas" na questão das vítimas, porque geralmente a

morte é atribuída a outras causas: por exemplo, mais a "overdose acidental" do que a suicídio, que é

determinado mais pela efectiva quantidade de substâncias fatais ingeridas do que por uma razão clara.

E discutível se aqueles que morreram poderiam ter sido salvos, ou se aqueles que irão morrer o poderão

ser. Então, e aqueles que viverão e que ainda vivem? Como é que os ajudamos? Que podemos fazer?

Infelizmente, ninguém, e certamente nem eu, tem as respostas mágicas para resolver o problema. Há uma

série de opções, soluções e formas de encarar a questão. Mas, primeiro, temos de analisar o problema.

Temos de compreender aquilo com que estamos a lidar, para sabermos que mais do que uma simples dor

de barriga, trata-se aqui de um cancro de fígado. Temos de entender que o que estamos a enfrentar é sério,

importante... e potencialmente fatal.

Algures por aí, em apartamentos, casas, hospitais, em empregos e vidas vulgares, e não apenas em

enfermarias psiquiátricas, estão pessoas a enfrentar uma luta terrível dentro delas. E junto a elas há

pessoas que sabem e que as adoram. Gostaria de aqui estender os meus braços, e oferecer esperança e as

realidades com que vivemos. Quero fazer a diferença. A minha esperança é que alguém seja capaz de

aproveitar o que aprendemos, e que salve uma vida. Talvez possais fazer a diferença, embora eu não

tivesse conseguido. Se é verdade que um terço dos maníaco-depressivos morrem desta doença, e das suas

sequelas, então dois terços viverão. Dois terços podem ser ajudados, e podem viver uma existência útil. E,

se possível, gostaria que a história e a vida de Nick os ajudassem, os servissem, e que aprendessem com os

nossos erros e as nossas vitórias.

As maiores lições que aprendi foram a coragem, o amor, a energia, a ingenuidade e a persistência. Nunca

desistimos, nunca desviámos a cabeça para o lado, nunca nos virámos contra ele, nunca o abandonámos,

até ele nos deixar, porque já não conseguia manter a luta por muito mais tempo. Não só lhe foi feita a

ressuscitação cardiopulmonar quando tentou suicidar-se, como tentámos manter a sua alma viva de todas

as maneiras possíveis, de modo a continuar a luta ao nosso lado. E a verdadeira vitória para ele, e para

nós, foi o facto de lhe termos dado uma qualidade de vida que ele de outro modo nunca teria tido.

Conseguiu prosseguir a carreira naquilo que adorava: a música. Conseguiu vitórias que só algumas

pessoas conseguem, com o dobro da sua idade, ou com uma vivência muito maior. Conhecia o prazer e a

emoção do sucesso, além de também conhecer melhor que ninguém o preço que pagou por isso. Tinha

amigos, uma vida, uma família, uma carreira, divertimento, alegria e tristeza. Passou os últimos anos de

vida com surpreendente graciosidade, apesar das deficiências com que nasceu. E ficámos extremamente

orgulhosos dele, como homem, músico e ser humano. Era um jovem brilhante e talentoso que carregava

uma doença. Mas a doença não o impediu de ser quem era, nem nos impediu de o amar como ele era.

Em retrospectiva, penso que foi uma das melhores prendas que lhe demos. A aceitação de como ele era e o

amor incondicional. Aos nossos olhos, pelo menos, a doença era apenas uma das suas facetas, não era ele

como um todo. Escusado será dizer que é extremamente difícil amar alguém com psicose maníaco-

depressiva. Há alturas em que vos apetece chorar, dias em que pensais que já não conseguis fazer nada,

semanas em que não fazeis a diferença e quem vos dera podê-la ter feito, momentos em que vos apetece

virar as costas. O problema é deles, não é vosso, e todavia ele torna-se vosso se amardes a pessoa que

sofre da doença. Não tendes outra escolha. Tendes de ficar junto deles. Fostes apanhados numa armadilha,

da mesma forma que o doente certamente o foi. E, por vezes, detestareis essa armadilha, detestareis aquilo

que ela faz à vossa vida, aos vossos dias, ao vosso equilíbrio mental. Mas, detesteis ou não, estais lá, e

custe o que custar, tendes de fazer o vosso melhor.

Só vos posso contar o que fizemos, o que tentámos, o que resultou e o que falhou. Podeis aprender com o

que tentámos atingir, e desenvolver melhores caminhos que resultem convosco. Experimentámos um sem-

número de coisas, e algum do tempo passámo-lo sentados. Não existem livros de regras, nem manuais,

nem folhas de instruções, nem normas. Só tendes de tactear o caminho no escuro e fazer o melhor que

puderdes. Não conseguis fazer mais que isso. E se tiverdes muita sorte, o que estiverdes a fazer resultará.

Se não tiverdes, não resultará, e então tentareis outra coisa. Tentareis tudo o que puderdes até ao fim, e

então a única coisa que vos restará é saberdes as dificuldades que sentistes. Nick sabia. Nick sabia as

dificuldades que sentíamos para ajudá-lo, e ele também tentava ultrapassá-las. rRespeitava-nos bastante

por isso. Nutríamos um grande amor um pelo outro porque tínhamos passado por muita coisa juntos.

Éramos efectivamente muito parecidos, mais do que aquilo que pensámos durante muitos anos. Ele

acabou por me dizer isso. Fez-me rir. Fez-me sorrir. Não era apenas o meu filho, mas o meu melhor

amigo. Estou a escrever este livro por ele, para o homenagear, e para ajudar aqueles que precisam de saber

o que aprendemos, o que fizemos, o que deveríamos ou não ter feito. E se isso ajudar alguém, então é

porque vale a pena reviver tudo, e partilhar as alegrias e a agonia de Nick. Não faço isto para o expor, ou

para me expor, mas para vos ajudar.

Voltaria a fazer tudo de novo? Sem dúvida. De imediato. Não trocaria estes dezanove anos por nada deste

mundo. Não renunciaria à dor, ao tormento, à pura frustração ou à tristeza ocasional, porque a alegria e a

felicidade estavam sempre presentes. Não havia nada melhor na vida do que saber que as coisas estavam a

correr-lhe bem. Não perderia um instante dos que passei com ele. Ensinou-me mais acerca do amor, da

alegria, da coragem, do amor pela vida, da maravilhosa imoderação do que algo ou alguém me ensinará

alguma vez. Ofereceu-me as dádivas de amor, compaixão, compreensão, aceitação, tolerância e paciência,

envoltas em gargalhadas, vindas do fundo do coração.O amor é para ser partilhado, a dor para ser aliviada.

Se eu puder partilhar a vossa dor, e aliviá-la com o amor de Nick partilhado por todos nós, então a vida

dele será uma nova dádiva, desta vez não só para mim e a sua família, mas também para vós.Foi Nick que

fez com que valesse a pena lutar por tudo isto. Fê-lo por nós, e por ele próprio, e nós por ele. Foi uma

dança de amor do princípio ao fim. Foi uma vida que valeu a pena viver, independentemente das

dificuldades e desafios. Penso que ele concordaria com isso. Não tenho a menor dúvida. Não sinto

qualquer arrependimento, por mais duro que tivesse sido. Não teria dispensado um segundo dos que passei

com ele. E o que aconteceu no fim foi o seu destino. Como diz a canção: "Destino... dança comigo, meu

destino." E como era doce a música. O seu som perdurará eternamente, tal como Nick, e o nosso amor por

ele.Ele foi uma dádiva inestimável. Ensinou-me tudo o que merecia a pena saber acerca da vida e do amor.

Que Deus o abençoe e o guarde, e sorria com ele, até nos voltarmos a encontrar. E que Deus te ampare na

tua viagem.

D. S.
A VIAGEM COMEÇA
Conheci o pai de Nick no dia do seu trigésimo primeiro aniversário, num dia soalheiro de Junho. Bill era

inteligente, estava empregado e tinha um ar de Jean-Paul Belmondo. Era extremamente atraente, culto,

bem-educado, muito inteligente, provinha de uma família respeitável e tinha uns pais formidáveis. Possuía

tudo para ter uma boa vida, mas também tinha um passado cheio de altos e baixos. Era algo a que ele se

referia superficialmente, sem se deter em pormenores.

Era produto de uma educação jesuíta, frequentara a universidade, jogara futebol, e formou-se em

Psicologia pouco depois de nos conhecermos. Na sua juventude, metera-se nas drogas, mas há muito que

as abandonara. Quando nos conhecemos, nem se drogava nem bebia. Nem pouco mais ou menos. Fiquei

impressionada com isso, pois eu não bebia na altura, e nem agora bebo, e toda a minha vida me tenho

mantido afastada das drogas e das pessoas que as consomem.

Há algumas coisas que ainda desconheço acerca dele, outras, esqueci, ou talvez tenha preferido perdê-las

algures. Confesso que durante duas décadas só passou alguns momentos na minha vida. Mas agora, ao

rever todos os instantes da vida de Nick, e os dias que lhe deram origem, ao escolher as fotografias e ao

mergulhar no passado, relembro coisas que há muito preferira esquecer. As suas muitas qualidades. O seu

charme. A atracção que exercia nas mulheres. Não partilhámos as nossas vidas durante muito tempo, mas

deixou-me uma impressão indelével. E quando os nossos caminhos se cruzaram de novo por causa de

Nick, voltei a aperceber-me da boa pessoa que ele era, e ainda é. De certa forma, a pessoa que ele é agora

não só restaurou a minha fé nele, como em mim mesma. Aos trinta e um anos, era um homem calmo,

adorava a vida ao ar livre, adorava pescar, e era um pouco tímido. Possuía muitas qualidades, algumas das

quais vi em Nick mais tarde. Tinha a sorte de ter o apoio de pais dedicados, que achavam que ele não

poderia fazer nada de errado, e, tal como eu, era filho único. Não faço ideia se as coisas teriam alguma vez

resultado entre nós em condições normais.

É difícil de dizer. Carregava fardos que eu não conhecia, e sofria com os seus próprios demónios. Não sei

se o gene maníaco-depressivo veio dalgum ramo da sua árvore genealógica, ou da minha, não há maneira

de saber isso. E a única evidência de algo estranho do lado de Bill foi o seu vício pelas drogas, que só

descobri mais tarde.

Sempre acreditei que em muitos casos, se não mesmo em todos, o vício da droga é efectivamente uma

questão de automedicação das pessoas, embora não saiba se isso foi o caso de Bill. Não sei se alguém sabe

como é que estas coisas acontecem, ou por que razão.

Soube pouca coisa da sua história nesses primeiros dias depois de nos conhecermos, e se calhar não fui

suficientemente inteligente ou sofisticada para compreender tudo o que via. Já havíamos sido casados

anteriormente, e eu tinha uma filha de nove anos do primeiro casamento, a minha filha mais velha,

Beatrix. Sei agora quais devem ter sido as minhas esperanças ou suspeitas então: Bill era um homem recto

e carinhoso. A vida levara-o a atravessar uma profunda agonia, mas a alma conseguira, de certa forma,

sobreviver; acredito que seja uma boa pessoa e, desde a morte de Nick, tornámo-nos amigos.

Começámos a namorar nesse Verão e, seis semanas depois de nos conhecermos, fiquei grávida, o que,

escusado será dizer, foi uma surpresa. Não importa agora discutir se foi ou não o momento adequado.

Ainda era extremamente jovem na altura, tendo casado aos dezoito anos a primeira vez. Mas já tinha idade

suficiente para saber o que fazia. Em retrospectiva, mais tarde, um pouco mais madura e mais reticente

relativamente a mim mesma, interroguei-me se, secretamente, desejara outro filho. Ou talvez tivesse sido

apenas o destino. De qualquer forma, a percepção do que acontecera atingiu-nos como uma bomba.

Nenhum de nós estava preparado para pensar em casamento, e seguiram-se então um ou dois meses

traumatizantes, enquanto agonizávamos a pensar no que fazer.

Pelo que me lembro, Bill foi bastante correcto relativamente ao problema, embora compreensivelmente

desalentado. Numa relação de seis semanas, a gravidez é uma coisa de que não se está à espera. Do ponto

de vista religioso, opunha-me a fazer um aborto, embora, admito, tenha ponderado a hipótese, atendendo

às circunstâncias. Vivia sozinha, sem qualquer intenção de casar com Bill, tinha uma criança para

sustentar e ainda não ganhava por aí além. Sustentar um bebé ia ser um grande desafio, e não pedi nem

esperei que Bill o fizesse, nem ele tinha condições para o fazer, na altura.

Isso pôs-me perante um dilema moral e social. Vivia num mundo em que uma criança nascida fora dos

laços do matrimónio não seria bem vista. E para complicar ainda mais as coisas, embora não tivéssemos

vivido juntos durante muitos anos, ainda não tinha sido pronunciada a sentença do meu divórcio anterior.

Por isso, mesmo que eu e Bill quiséssemos casar imediatamente, não poderíamos. Além disso, estava

preocupada com o exemplo que daria à minha filha, e com o que ela pensaria depois. A falta de

discernimento que demonstrei então não é um exemplo que eu queira dar a qualquer um dos meus filhos,

mesmo agora.

No entanto, apesar dos problemas óbvios, resolvi ir em frente e ter o bebé. Bill e eu concordámos em viver

separados, mas continuar a vermo-nos. Tínhamos a esperança de que as coisas entre nós dessem certo,

mas não era de modo nenhum uma certeza. Já nessa altura me apercebi de problemas na relação, e Bill e

eu éramos muito diferentes. Não contei aos meus pais, que viviam a quatro mil e oitocentos quilómetros

de distância. Via-os raramente, e sabia que uma notícia deste género iria, compreensivelmente, ser

encarada com horror. Eu vinha de um mundo em que bebés acidentais, ou filhos ilegítimos, não eram

recebidos calorosamente. Os meus pais, e particularmente o meu pai, não iam ficar contentes. Nem eu. Foi

um sério esforço, e sei que, dessa altura em diante, a minha vida ia ser ainda mais dura do que tinha sido

até aí. Eu ganhava a vida, mas as coisas estavam difíceis, e quase todas as pessoas que conhecia iam ficar

chocadas. Imaginei-me uma pária social, provavelmente sozinha até ao resto da vida, sem marido e com

dois filhos para sustentar. Se vasculhar nas lembranças desse tempo, lembro-me com extrema facilidade

que fiquei com um medo de morte, e completamente baralhada. Mas senti que tinha de dar o melhor de

mim, pelo bem da minha filha e do meu filho por nascer. Por aquilo que me era dado ver, tinha à minha

frente uma estrada solitária, longa e difícil.

Miraculosamente, a poucos dias de tomar a decisão de ter o bebé, ofereceram-me um projecto de escrita

que cobriria, literalmente até ao último penny, aquilo que eu imaginava que custaria ter o bebé: médicos,

fraldas, hospital, roupa. A quantia que me foi oferecida era exactamente aquilo de que precisava para me

orientar. Foi um obstáculo que ultrapassei, mas sabia que muitos mais se seguiriam. Tinha cerca de sete

livros escritos na altura, mas só dois tinham vendido. Ganhava a vida a escrever anúncios, a fazer

traduções, a ensinar inglês e escrita criativa, e até em empregos ocasionais em lojas. O novo projecto

significava que poderia escrever a tempo inteiro. Um grande milagre para mim, na altura.

O obstáculo seguinte a ser ultrapassado foi o ter de dizer à minha filha que ia ter um bebé, um dilema

moral que me trazia em agonia, um exemplo excepcional do "faz o que eu digo, não faças o que eu faço".

Não queria que ela cometesse os mesmos erros quando crescesse (e não cometeu). Uma pessoa deve

apaixonar-se, casar e depois ter um filho, e não engravidar, manter-se solteira e envolver-se com alguém

que mal se conhece e que só se vê de tempos a tempos. Era o que eu não queria para ela, ou para mim. E,

nessa altura, julgo que Bill e eu compreendemos que a nossa ligação não era a mais perfeita. Ele tinha

outros prazeres na vida, dos quais eu não sabia ainda nada, tínhamos interesses e vidas diferentes. Se

tivéssemos namorado, sem a pressão de um bebé, o romance já teria provavelmente fracassado, e a tensão

nervosa teria sido certamente menor. Com um bebé prestes a nascer, sentíamos uma grande pressão sobre

nós, quer individual quer conjuntamente. Foram tempos muito difíceis.

A minha filha foi extraordinária e, em vez de demonstrar choque, desaprovação ou embaraço perante a

confissão dolorosamente sincera que lhe fiz, abraçou a novidade com emoção, entusiasmo, de braços

abertos. Estava exultante. Sempre desejara um irmão, e sentia uma embaraçante felicidade por este ir ser

"o nosso bebé", e não o termos de partilhar com mais ninguém. Foi, efectivamente, uma forma optimista

de encarar a situação, e deixou-me imensamente feliz. Criou um laço estreito entre nós que nunca

diminuiu. Mesmo aos nove anos, ela nunca me criticou e deu-me sempre um infinito apoio.

Curiosamente, o problema da hereditariedade nunca me passou pela cabeça nessa altura. Não sei se era eu

que era apenas uma ingénua, ou se estávamos simplesmente numa época em que as pessoas não se



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