O modernismo no brasil e a semana de arte moderna de 22



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O MODERNISMO NO BRASIL E A SEMANA DE ARTE MODERNA DE 22


Podemos definir o Modernismo Brasileiro como um movimento literário e artístico que integrou várias tendências já existentes, baseados na valorização da realidade nacional e na exaltação do pensamento moderno. Na literatura, este movimento se iniciou com a Semana de Arte Moderna de 1922, inaugurando uma nova fase estética. Nas artes plásticas, a primeira mostra de arte não-acadêmica no Brasil ocorreu em 1913, com uma exposição de Lasar Segall. A obra de Segall está situada numa confluência do expressionismo com o cubismo. Entretanto, foi Anita Malfatti quem, na sua exposição de 1917, desencadeou transformações radicais nas artes plásticas brasileiras, escandalizando os intelectuais paulistas. Os quadros da pintora mesclavam expressionismo, cubismo e fauvismo. O movimento modernista contou com esculturas de Brecheret, as gravuras de Goeldi e as telas de Vicente do Rego Monteiro(1899-1970), filiado ao monumentalismo da escultura primitiva. Muitos artistas participaram da mostra realizada durante a Semana de Arte Moderna de 1922. Nos anos seguintes, aprofundou-se a tendência de eliminar o academicismo do passado e novos nomes uniram-se a estes renovadores: Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Cícero Dias, Antônio Gomide, Ismael Nery e Guignard. Na década de 20 destacaram-se Portinari, Toma's Santa Rosa, Orlando Teruz, Pancetti e Milton Dacosta. Na décade de 30, o grupo Santa Helena antecipou as tendências que dominaram a arte brasileira depois de 1945. Volpi foi seu principal representante.
ANITA MALFATTI

Anita Catarina Malfatti nasceu em São Paulo, em 1896, e seus primeiros estudos artísticos foram orientados pela mãe, pintora amadora. Em 1912 foi enviada para a Alemanha, a fim de cursar a Academia de Belas-Artes de Berlim, após curto estágio em Dresden. A própria artista, em depoimento de 1939, assim descreveu esses primeiros tempos na Europa: "Em Berlim continuei a busca e comecei a desenhar. Desenhei seis meses dia e noite. Um belo dia fui com um colega ver uma grande exposição de pintura moderna. Eram quadros grandes. Havia emprego de quilos de tintas, e de todas as cores. Um jogo formidável. Uma confusão, um arrebatamento, cada acidente de forma pintado com todas as cores. O artista não havia tomado tempo para misturar as cores, o que para mim foi uma revelaçãoe minha primeira descoberta. Pensei: o artista está certo. A luz do sol é composta de três cores primárias e quatro derivadas. Os objetos se acusam só quando saem da sombra, isto é, quando envolvidos na luz. Tudo é resultado da luz que os acusa, participando de todas as cores. Comecei a ver tudo acusado por todas as cores. Nada neste mundo é incolor ou sem luz. Procurei o homem de todas as cores, Louis Corinth, e dentro de uma semana comecei a trabalhar na aula desse professor."Após uma curta passagem pela Alemanha se dirigiu a Paris e retornou ao Brasil em 1914 quando realizou sua primeira exposição individual. Em 1917 após estudos feitos nos Estados Unidos realizou outra exposição. Criticas feitas ao seu trabalho por reacionário como Monteiro Lobato a desestabilizaram e sua obra declinou logo após. Seus trabalhos foram expostos na Semana de Arte Moderna de 1922 e em outras exposição onde foi premiada e consagrada.Para Mário de Andrade, outro expoente do modernismo brasileiro: "foi ela, foram os seus quadros, que nos deram uma primeira consciência de revolta e de coletividade em luta pela modernização das artes brasileiras."



LASAR SEGAL

Pintor, escultor, desenhista e gravador, Lasar Segall nasceu em 1891 em Vilna, na Lituânia, e nessa cidade (então parte integrante do território russo) deu início ao seu aprendizado, com o escultor e gravador Markus Antokolski. Em 1906 emigrou para a Alemanha, estudando na Academia de Belas-Artes de Berlim entre 1907 e 1909, quando foi desligado por ter participado da Freie Sezession — uma exposição de artistas descompromissados com a estética oficial — na qual conquistou o Prémio Max Liebermanu. Em 1910 transferiu-se para Dresden, freqíientando a Academia de Belas-Artes local na qualidade de Meisterschúller (aluno instrutor), dispondo de atéliê próprio e de plena liberdade de expressão. Em Dresden, no mesmo ano, realizou sua primeira mostra individual, com pinturas ainda fortemente marcadas pelo Impressionismo de Liebermann. Tinha Segall cerca de vinte anos quando começou a se afastar gradativamente da influência de Liebermann e a se aproximar do Expressionismo. Sempre em busca de novos caminhos, estava em 1912 nos Países Baixos, e em 1913 aventurou-se até o Brasil, onde realizou a primeira exposição de arte moderna. No mesmo ano retornou à Alemanha; em 1914, cidadão russo que era, foi internado num campo de concentração. Essa amarga experiência lhe serviria, anos mais tarde, na abordagem de alguns de seus quadros mais trágicos, inspirados pela guerra de 1939. Até 1923 Segall permaneceu na Alemanha, onde publicou quatro álbuns de litografias e águas-fortes e realizou exposiç6es individuais em Hagen (1920), Frankfurt (1921) e Leipzig (1923). A Alemanha vencida proporcionava-lhe campo propicio ao trágico e rude Expressionismo dc sua mocidade. Aos 32 anos, já senhor de sua técnica, praticava urna temática pessoal: velhos leitores do Talmude, camponeses e mendigos, indigentes e crianças, evocações da terra natal e retratos de parentes e intelectuais, auto-retratos. Seu desenho é incisivo e anguloso; o colorido, forte e cru, O corpo humano é deformado de modo a melhor evocar paixões e sofrimento. Em 1923, decidiu voltar ao Brasil, radicando-se definitivamente em São Paulo, onde, no ano seguinte, efetuou nova mostra individual, e realizou a decoração do Pavilhão de Arte Moderna de Dona Olivia Guedes Penteado. Casando-se em 1925 com uma discípula, Jenny Klabín, adotou como sua a nova terra, naturalizando-se mais tarde cidadão brasileiro. Ao mesmo tempo, deu inicio às pinturas de temática brasileira — mulatas com filhos ao colo, marinheiros e prostitutas, favelas e bananeiras — expostas em 1926 em Berlim, Dresden e Stuttgart, em 1927cm São Paulo em 1928 no Rio de Janeiro. Em 1929 Segall passou a esculpir, criando, em madeira, pedra e gesso, as mesmas figuras sofridas e solitárias que já eternizara em pinturas, desenhos e gravuras. Cabe recordar que seu primeiro mestre, Antokolski, foi. um dos mais importantes escultores russos do século XIX: sua obra, influenciada por Rodin, oscila entre os temas judaicos e as grandes personagens da história russa, sem falar nos mártires e santos do cristianismo, que muito o seduziram. Pode-se aventar a hipótese de uma influência, leve mas duradoura, de Antokolskí sobre Segall escultor. Após ter realizado uma exposição em Paris, em 1932, Segall fundou, com outros artistas, a Sociedade Pró-Arte Moderna SPAM — da qual foi, por assim dizer, a alma. Duas de suas series mais importantes de pinturas tiveram Inicio em 1935: as interpretações da natureza de Campos do Jordão e os Retratos de Lucy (sua jovem aluna Lucy Citti Ferreira). Foram intervalos de calma, nos quais vibram tonalidades líricas. Em 1936, porém, o artista estava de volta à antiga ambiência de tragédia e solidão: é a época de suas primeiras pinturas de temática social, que lhe garantiram um lugar de destaque entre os principais expressionistas do século. Essas pinturas preludiam a iminente conflagração mundial, os massacres, o genocídio. Pogrom. Na pio de Emigrantes, Guerra, Campo de Concentraçdo. Os Condenados e as gravuras do álbum Visões de Guerra (1940-1943) compõem uma dramática sequência de sofrimento, raras vezes expresso, em obras pictóricas, de modo tão intenso e profundo. Uma grande exposição realizada em 1943 no Museu Nacional de Belas-Artes, no Rio de Janeiro (não sem incidentes criados pelos pintores tradicionalistas ou acadêmicos), colocou definitivamente Sega11 entre nossos maiores artistas. Em 1944 a temática das prostitutas, que vinha desde os tempos da mocidade em Berlim, de novo irrompe nas gravuras do álbum Mangue. A mesma temática ressurge numa de suas últimas séries de pinturas, ,4s Erradias, de 1949. Neste mesmo ano, tem inicio uma nova fase, interrompida pela morte em 1957: As Florestas. Lasar Segall é tipicamente expressionista. Enquadrando-se como artista de técnica e temperamento europeus, pode também ser considerado brasileiro, não só porque viveu entre nós vários anos, chegando mesmo a se naturalizar, mas porque se inspirou em nossa gente e em nossas coisas, chegando, em certos momentos, a ser tocado pela luminosidade tropical. Foi excepcional como pintor, como desenhista, como gravador — nas três técnicas — e como escultor, Além do mais, contribuiu poderosamente para a implantação da arte moderna em São Paulo e no Brasil, cujos limites culturais alargou. Sua temática é, no dizer de Geraldo Ferraz, a do sofrimento humano- O drama de sua raça judaica e, mais do que isso, o drama da raça humana, ameaçada de extermínio pela violência e pela intolerância, motivaram-lhe os quadros mais sofridos. Segall nunca foi maior nem mais sincero do que quando retratou os desamparados e os oprimidos-+, e em suas grandes obras de cunho social chega a evocar o Goya dos Desastres de Ia Guerra e o Picasso de Guernica. No fim da vida tornou-se mais lírico, adotando por vezes tom bucólico ante a paisagem de Campos do Jordão; sentiu também o apelo do não-figurativismo, na sérieAsFlorestas, que presenciou experiências formais e cromáticas; mas tinha necessidade da figura humana para externar seus sentimentos. E é como grande pintor figurativo, um dos maiores que viveram no Brasil, que será sempre evocado.
GUIGNARD

Ainda adolecente, Alberto da Veiga Guignard,seguiu com sua família para a Europa onde cursou as academias de Arte de Florença e Munique, e expôs por duas vezes no Salão de Outono, em Paris.Referindo-se a si mesmo na terceira pessoa, Guignard disse, em 1960, que " de acadêmicopassou a moderno , após ter visto uma exposição de arte moderna alemã: o modernsmo o fascinou." Em 1929, retornou ao Rio de Janeiro e lecionou na Fundação Osório e na Antiga Universidade do Distrito Federal, além de montar seu ateliê.De meados da década de 30 até o final da vida, Guignard evoluiu gradativamente, sempre concedendo primordial importância ao desenho.Em 1944, mudou-se para Minas Gerais a convite de Juscelino e foi como paisagista que atingui seu apogeusobretudo das séries Jardim Botânico, Itatiaia, Parque Municipal de Belo Horizonte, Lagoa Santa, Sabará e Ouro Preto.Guignard era dotado de excelente técnica, pintando em camadas finas, que se sucediam umas sobre as outras, à maneira dos antigos. Sua pintura é, preferentemente, lisa, ignorando o empaste.


DI CAVALCANTE
Possível autor da iniciativa de 22, Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque Melo, artisticamente conhecido como Di Cavalcanti, nasceu e morreu no Rio de Janeiro. Teve seu trabalho publicado pela primeira vez em uma revista, em 1914. Realizou sua primeira mostra individual em 1917, como desenhista; era então na opinião de Mário de Andrade, "o menestrel dos tons velados", e utilizava como meio de expressão predileto o pastel, evocando figuras femininas "de angelitude então em voga". Em 1921 realizou sua primeira exposição de pinturas e em seguida presenciou a Semana de Arte Moderna, ao que parece originada de uma sugestão de Di Cavalcanti e Paulo Prado. Compareceu com 12 obras nas quais se observa certa persistência de tendências passadas, como o Impressionismo e o Simbolismo, temperadas com algumas pitadas de Expressionismo. As críticas, como de costume a qualquer forma de mudança na arte da época, foram intensas e arrasadoras. Após a Semana, Di Cavalcanti embarcou para a Europa onde se dedicou exclusivamente à pintura e onde sofreu muitas influências no trabalho. Retornando ao Brasil realizou nova mostra e uma exposição individual. Mário de Andrade não poupou elogios aos seus trabalhos e à maneira explendida como mostrou o Brasil como ele é. Suas coisas, sua gente, sua alegria. A década de 40 foi o apogeu do talento de Di Cavalcanti, que se tornou um dos mais notáveis pintores brasileiros gerados pelo modernismo.
TARSILA DO AMARAL
À margem da Semana de Arte Moderna, despontaram algumas personalidades importantes, sem as quais não seria possível apresentar um quadro completo da criação modernista, pois sua obra é fundamental tanto pelo nível expressivo quanto pela originalidade da solução. E não é exagerado afirmar que entre esses criadores isolados se encontram alguns dos maiores artistas brasileiros deste século, como Tarsila do Amaral, Antônio Gomide, Celso Antônio de Meneses e Osvaldo Goeldi. Tarsila do Amaral nasceu em Capivari, no interior do Estado de São Paulo. Estava perto dos trinta anos quando, em 1916, -deu início à sua carreira de artista, tornando-se aluna dos escultores Zadig e Mantovani. Em 1917 era aluna de Pedro Alexandrino, nada tendo feito que deixasse pressupor o alto nível que atingiria sua pintura, anos mais tarde. Depois dc curto estágio no ateliê do pin tor alemão Georg Fischer Elpons, em 1920 Tarsila seguiu para a Europa, cursando por algum tempo a Academia Julian, de Paris, e o ateliê de Émile Renard, retratista da moda. Certas figuras femininas de Tarsila, executadas por volta de 1922, em pálidas cores com predomínio de azuis, evocam diretamente o estilo desse mestre, o qual teve o mérito de encorajá-la em direção à modernidade. Em 1922, Tarsila expunha em Paris, no pacato Salão dos Artistas Franceses, uma pintura que evocava o passado, sem remeter ao futuro. Nesse mesmo ano, contudo, retornando ao Brasil, decidiu modificar sua orientação estética; ao mesmo tempo, ligou-se aos intelectuais que formavam o Grupo Klaxon: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti dei Picchia e Sérgio Buarque de Holanda, entre outros. Logo depois formou, com os três primeiros e Anita Malfatti, o Grupo dos Cinco, de vida efêmera; em 1923 encontrava-se de novo em Paris para estudar seriamente. Em janeiro de 1923, ainda sob a influência do Impressionismo, pintou Paquita, a Espanhola. Na obra seguinte — A Negra — já se acham algumas das características que marcam sua grande obra. Por essa época, a artista começou a freqüentar os ateliês dos principais mestres cubistas. Como escreveu Sérgio Milliet, em 1924, na Revista do Brasil, "André Lhote foi o seu primeiro mestre. Com ele conheceu a necessidade de uma reação contra o boichevismo impressionista. Lhote, pintor secundário, é excelente professor. Traço de união entre o cubismo e o academismo. Seu segundo mestre foi Fernand Léger. Mais um passo para a frente: mecanismo da vida moderna, assunto novo, síntese, ritmo, movimento. Quis, porém, conhecer os requintes da nova tendência e dirigiu-se a Albert Gleizes. Geometria, abstração do objeto, criação. Passou pelas três fases do cubismo. Convinham-lhe todas parcialmente. E continuou a ser Tarsila do Amaral". Ao mesmo tempo que seu espírito se abria e amadurecia, Tarsila conhecia Picasso e De Chirico, Brancusi, Manuel de Falia, Stravinsky, André Breton, Cendrars, John dos Passos e outros plasmadores da arte do século XX.Em 1924, durante uma viagem às cidades históricas de Minas Gerais, em companhia de Oswald de Andrade e do poeta Blaise Cendrars, Tarsila descobriu o Bra-sil: as obras que compôs nos anos seguintes constituem a fase "pau-brasil", da qual E. E. C. B. é altamente significativa. Tal fase resume-se, segundo Sérgio Milliet, em alguns poucos ingredientes: "As cores ditas caipiras, rosas e azuis, as flores de baú, a estilização geométrica das frutas e plantas tropicais, dos caboclos e negros, da melancolia das cidadezinhas, tudo isso enquadrado na solidez da construção cubista". Em 1926 Tarsila casou-se com Oswald de Andrade. Um dia, em 1928, surgiu-lhe, sem premeditação, um quadro diferente, início da chamada fase "antropofágica", na qual se situam seus quadros mais importantes. A própria Tarsila assim descreve o início dessa fase: "Eu quis fazer um quadro que assustasse o Oswald, uma coisa que ele não esperava. Aí é que vamos chegar no Abaporu. O Abaporu era figura monstruosa, a cabecinha, o bracinho fino, aquelas pernas compridas, enormes, e junto tinha um cacto, que dava a impressão de um sol, como se fosse também uma flor. Oswald ficou assustadíssimo e perguntou: ‘Mas o que é isso? Que coisa extraordinária!’ Ele telefonou para o Raul Bopp: ‘Venha imediatamente aqui, que é para você ver uma coisa!’ Raul Bopp foi lá no meu ateliê, na rua Barão de Piracicaba, assustou-se também. Oswald disse: ‘Isso é como se fosse selvagem, uma coisa do mato’, e o Bopp concordou. Eu quis dar um nome selvagem também ao quadro e dei Abaporu, palavra que encontrei no dicionário de Montoya, da língua dos índios. Quer dizer ‘antropófago’ ". Baseando-se nessa obra, Oswald de Andrade elaborou toda uma teoria, da qual a Revista de Antropofagia seria o órgão oficial. Em 1931 Tarsila viajou para a União Soviética, chegando a realizar, em Moscou, uma exposição individual; ao regressar, impressionada com o que lá observara, pintou alguns quadros de tema social, entre eles duas obras-primas: Operários e 2•a Classe. Essa fase social pouco duraria, pois logo em seguida a artista retornou à sua temática caipira, agora resolvida num espírito talvez mais lírico. Tais retornos de Tarsila a fases anteriores tornaram-se habituais: em 1946, pintL ras como Primavera ou Praias retomavam "o gigantismo onírico da fase antropofágica, agora imersa num lirismo novo, pontilhista quase, em meios tons"; Fazenda outras obras feitas após 1950 de novo apresentam "as tônicas da fase pau-brasil no colorido de baú, porém sensivelmente suavizado". Na verdade, concluída sua fase social dos anos 30, Tarsila repetia-se Sua última grande obra — o mural Procissão do Santíssimo em São Paulo no Século XVIII — foi-lhe encomendada em l95~ pelo Governo do Estado de São Paulo. Tarsila do Amaral faleceu a 17 de janeiro de 1973, deixando obra relativamente pequena: cerca de 250 óleos, meia dúzia de esculturas, três gravuras e umas poucas centenas de desenhos, conforme o recenseamento levado a cabo por sua biógrafa Aracy Amaral. Uma das precursoras do que se poderia chamar de pintura nacional brasileira, Tarsila soube emprestar a seus temas um lirismo intenso, adaptando formas e cores brasileiras à severa disciplina cubista.

CONSIDERAÇÕES SOBRE O MOVIMENTO MODERNISTA DE 22


Abaporu (1928) de Tarsila do Amaral

Dimensões: 85 cm X 73 cm





Abaporu na língua tupi significa aquele que come ou ainda antropófago. Esta significativa expressão batizou, a partir de 1928, o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. A tela nos apresenta um ser que pensa, mais exatamente, sonha. O sol a frente de sua cabeça é tropicalmente intenso e pode ao mesmo tempo ser a flor de um cacto. Levemente sentado, esse ser tem mãos e pés grandes e fixos ao solo, ao chão. A realização do sonho tem como condição o conhecimento do solo, da base, das tradições.

A realização estética dessa obra foge aos padrões acadêmicos e conservadores e sabemos que a

formação de Tarsila do Amaral está ligada ao modernismo europeu. Conclui-se que o artista moderno brasileiro não se satisfaz em seguir as tendências européias, a sua criatividade volta-se para a cultura do país.

O Abaporu é um convite significativo para que comecemos a nos interessar pela arte moderna no Brasil. Conscientes dos defeitos das simplificações, podemos dizer que esta tela nos apresenta uma espécie de síntese do desejo modernista que culmina com a Semana de Arte Moderna e avança para os demais momentos do modernismo, do qual o antropofagismo de Oswald de Andrade é exemplar.



O que é São Paulo nos anos 20?

  • é a "ambigüidade" social: aristocracia cafeeira, burgueses, operários, imigrantes, caboclos ex-escravos...

  • é movimento: automóveis, bondes elétricos, luzes, apitos de fábricas, velocidade do mundo urbano...

  • é o capital: a riqueza do café, o processo industrial, os primeiros arranha-céus...

  • é a contestação: o movimento operário anarquista e a memória da primeira greve geral (1917)...

  • é o início da crise oligárquica...

  • em breve São Paulo teria sua primeira emissora de rádio (1925)...

  • SÃO PAULO AGITA E PULSA...

Mas a arte paulista era...

  • a poesia parnasiana, as formas rígidas e tradicionais - a métrica e a rima...

  • as companhias de teatro francês e as óperas italianas do Teatro Municipal...

  • A ARTE BEM COMPORTADA...

Enquanto isso na Europa...

  • vivia-se a crise do início do século XX que acabou por mergulhar na barbárie da Primeira Guerra Mundial (1914-1918)...

  • a política, cultura e arte questionavam a razão humana nesse contexto de irracionalidade...

  • no plano artístico, são as vanguardas européias que expõem o novo panorama.

Os jovens intelectuais e artistas brasileiros traziam

das suas "excursões" culturais européias...

  • informações sobre o Futurismo italiano de Marinette - Oswald de Andrade;

  • informações sobre o Expressionismo alemão e mais tarde sobre o Cubismo - Anita Malfatti;

Em 1917, a mesma Anita Malfatti realiza sua primeira exposição. Monteiro Lobato gritava: "Paranóia ou mistificação?".

Enfim...

  • FUTURISMO, CUBISMO, EXPRESSIONISMO, FAUVISMO, DADAISMO, SURREALISMO desembarcavam com suas novas concepções antiacadêmicas nessas terras tropicais.

Semana de Arte Moderna de 1922

13, 15 e 17 de fevereiro no Teatro Municipal de São Paulo

  • Foi o confronto com o gosto estético tradicional:

- Leitura de poemas e prosas;

- Espetáculos de música e dança;

- Conferências e exposições de arte.

  • Participantes:

- Anita Malfatti, Vicente Rego Monteiro, Di Cavalcanti;

- Villa-Lobos, Guiomar Novaes;

- Ronald de Carvalho, Menotti del Picchia, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Graça Aranha;

E TANTOS OUTROS...

FORAM DIAS AGITADOS AQUELES!!!

  • Após a Semana:

- repercussões jornalísticas;

- surgimento das revistas críticas modernistas: Klaxon e Estética;

- O Manifesto Pau-Brasil (1924);

- O Manifesto Antropófago (1928).

ERA A EFERVECÊNCIA CULTURAL!!!

A Semana não foi o Modernismo, mas ela aglutinou as insatisfações estéticas e extrapolou as novas concepções artísticas. Na poesia, a métrica e a rima foram questionadas em nome da liberdade criativa, na pintura o academicismo da tradição renascentista deu lugar às novas formas, cores e temas e na música a tonalidade e melodia tradicionais sofreram abalos. A Semana representa um vivo e radical esforço de atualizar a linguagem da arte. O modernismo brasileiro não significou a cópia dos modelos estéticos europeus, se houve assimilação desses padrões artísticos vanguardistas, o esforço maior da Semana foi contestar os velhos padrões estéticos e repensar a nova realidade brasileira através da arte.

Você pode saber mais sobre este tema lendo as seguintes obras, entre outras:

ALAMBERT, Francisco. A Semana de 22: A aventura modernista no Brasil, São Paulo, Scipione, 1992.

HELENA, Lúcia. Movimentos da Vanguarda Européia, São Paulo, Scipione, 1993.

PROENÇA, Graça. História da Arte, São Paulo, Ática, 1991.

Além disso, seria interessante visitar museus onde se encontram obras significativas sobre este movimento, como o Museu de Arte Contemporânea que se localiza no Parque do Ibirapuera em São Paulo, a Pinacoteca do Estado que fica na Av. Tiradentes e o Museu Lasar Segall, na Vila Mariana.

Outra sugestão é uma visita ao Centro Cultural Itáu que funciona na Avenida Paulista, cujo acervo possui diversos documentários relacionados ao tema, com a vantagem de que o empréstimo das fitas é gratuito.


SEMANA DE ARTE MODERNA

A Semana de Arte Moderna constituiu-se um marco inicial do modernismo no Brasil.


Realizada entre os dias de 13 e 17 de fevereiro de 1922, no Teatro municipal de S. Paulo, mostrou obras afinadas com a nova linguagem das correntes estéticas do começo do século.
Inserida num momento histórico de tentativa de reestruturação da sociedade, em busca de nova saída política, fatos históricos significativos que a antecederam, exerceram influência nas idéias de mudança e ruptura entre o velho e o novo, expressadas naquele momento.
Os acontecimentos que precederam 1922, e, especificamente, a Primeira Guerra Mundial , que teve início em 1914 , alterou imensuravelmente o mundo ocidental e teve seus reflexos no Brasil.
Travada na esperança de tornar o mundo seguro para a democracia, a primeira guerra mundial, tornou-se rapidamente uma "guerra popular, na qual civis, ao lado dos soldados nas trincheiras participavam de violentas manifestações em favor do extermínio do inimigo. Frutificou uma epidemia de revoluções, dentre as quais a revolução Russa, e lançou a semente de novos conflitos no futuro , ainda mais contundentes. Por tudo isto, fixou o padrão de uma era de violência que tem-se mantido durante a maior parte do século XX."
Várias propostas de paz foram discutidas para por fim à guerra, sendo a mais importante a dos, o Quatorze Pontos, proposta pelo Presidente Wilson, apresentada no congresso em janeiro de 1918 e dentre os quais figurava a criação da Liga das Nações Unidas.

Ao final do verão de 1918, a guerra aproximava-se do fim e com o colapso das potências centrais foi assinado um armistício. Em 1919, com a Conferência de Paris assinou-se o Tratado de Versalhes.


Decisivamente a guerra acarretou conseqüências que alteraram o mundo. Além das questões referentes à economia que transtornou o equilíbrio do comércio e fez a Europa perder muitos mercados, produziu também uma inflação mundial devido às políticas de financiamento a que se recorreram os governos para custear a luta.
Conseqüências positivas houveram, como por exemplo a liberdade para as mulheres que foram emancipadas e ganharam o direito ao voto pelo menos em duas grandes nações. Mas, de outro lado, grande foi a desilusão - particularmente da classe média - quanto à postura cobiçosa dos políticos na definição do tratado de paz, traindo os princípios da causa internacional em prol dos objetivos nacionais.
Por um breve lapso de tempo, teve-se a impressão de que a meta de fortalecimento da democracia talvez tivesse sido atingida: a Alemanha iniciou o pós guerra como uma república; os novos estados criados pelo Tratado de Versalhes tentaram funcionar como governos representativos. Contudo, já ao final de 1939, apenas três países permaneciam como tal: a Grã - Bretanha, a França e os Estados Unidos.
Como se pode ver, gestou-se no pós - guerra, uma revolta, sobretudo dos jovens quanto à crença nos princípios democráticos. Nesse contexto desenvolveu-se na Rússia o comunismo que conduziu pela primeira vez na história a classe operária ao poder e, adiante, na Itália o fascismo, com Mussolini.
A desilusão portanto trazida pela primeira guerra mundial e esses acontecimentos políticos, sociais e econômicos que vieram em sua esteira, abalaram as crenças até então prevalecentes.
Assim pode-se concluir que as duas primeiras décadas do século XX foram marcadas pela crise do capitalismo e o nascimento da democracia de massas. A revolução socialista ameaçou a burguesia e esta, tomou consciência deste risco. O progresso materializado nas invenções do telégrafo, automóvel, lâmpada, cinema, avião e telefone gerou uma euforia conseqüência da revolução científica experimentada naquele momento.
Esta euforia, no entanto, durou pouco. A desconfiança nos sistemas políticos , sociais e filosóficos vigentes, levaram a sociedade a a questionar os valores de seu tempo.
Conhecido como os "anos loucos" esse período é marcado , pricipalmente, pela ânsia de viver freneticamente, fruto da incerteza lançada pela guerra quanto à possibilidade de paz.
Na filosofia nasceu o positivismo lógico como uma filosofia inflexivelmente científica. Os sociólogos aliaram-se aos filósofos na negação dos valores da metafísica - Max Weber , bem como Freud e Carl Jung estudiosos da psicologia e psicanálise.
Os movimentos literários mostraram tendências semelhantes à da filosofia. Decepcionados com as brutalidades da I Guerra mundial e o não cumprimento dos pactos da vitória, impressionaram-se pelos avanços da ciência e da tecnologia, e, em especial pelas " sondagens feitas nos segredos ocultos da mente" pela nova ciência da psicanálise.
Assim os temas eram frustração, cinismo e desencanto, destacando-se figuras de grande expressão como Ernest Hemingway, Bertold Brecht, Marcel Proust, Virgínia Woolf e outros.+
Na música refletiu-se também o espírito de desencanto, nascendo inivações contrárias à tradição romântica, destacando-se Wagner, Claude Debussy, Maurice Ravel, Arnold Schoenberg, Igor Stravinski.
Na arte as tendências foram semelhantes, quebrando-se o convencionalismo e explorando-se novas fronteiras estéticas distantes do gosto das pessoas comuns. Nasceram então os movimentos de vanguarda que, cronológicamente ,podem ser assim relacionados: futurismo, expressionismo, cubismo, dadaismo e surrealismo. Todos eles propondo a desorganização da cultura e da arte produzida até então.
Particularizando estes movimentos, verifica-se em suas caracteristicas essenciais o seguinte;
O futurismo, lutava pela destruição do passado, mudando , sensivelmente, a forma de representar a realidade, focando o movimento dos objetos em seu deslocamento no espaço. (Felippo Tommaso Marinetti )
O expressionismo, trouxe a idéia de que as composições abstratas podem ser tão eficientes quanto as realistas, valorizando cores, texturas e pinceladas. ( Lasar Segal e Anita Malfatti)
O cubismo agregou uma técnica de expressão na qual o artista fraciona o elemento da realidade e recria-o através de planos geométricos superpostos. ( Pablo Picasso, Mondrian e outros)
O dadaismo radicalizou. Nada propunha exceto a destruição. Era contra os valores da cultura e buscava um mundo mágico. ( Tristan Tzara)
O surrealismo foi o último movimento de vanguarda e através do seu Manifesto lançado em 1924, assim se definia: (...) "as profundezas de nosso espírito abrigam forças estranhas capazes de aumentar as da superfície (...) a pretensão era atingir uma realidade situada no plano do subconsciente e do consciente. ( Salvador Dalí )
Na arquitetura, também os arquitetos empenharam-se em negar o sentimentalismo e despertaram para a consciência de que os estilos arquitetônicos não estavam em harmonia com as realidades da moderna civilização. Nasceu o funcionalismo, uma das mais importantes inivações desde a renascença, tendo como pioneiros Otto Wagner na Alemanha, Louis Sullivan e Frank Lloyd Wright nos Estados Unidos.
Conhecida também como arquitetura moderna ou estilo internacional, incorporava a idéia de que o "homem moderno não acredita nas idéias helênicas de harmonia, equilíbrio e contenção ou nas virtudes medievais de piedade e fidalguia, mas sim em força, eficiência, rapidez e conforto."
Representou também a melhor abordagem para o uso eficiente dos recursos mecânicos e científicos do mundo contemporâneo.
Permitiu a aplicação de novos materiais tais como aço, vidro e concreto. Da prática desse novo estilo funcional nasceu a escola Bauhaus em 1919, fundada por Walter Gropius e que serviu de centro para a teoria e a prática da moderna arquitetura. - " O conteúdo estético de um edifício só pode ser expresso legitimamente em termos de sua finalidade".
O ponto culminante do reflexo de toda essa ruptura entre o velho e o novo, o antigo e o moderno, no Brasil, foi a Semana de Arte Moderna.
A corrosão da arte acadêmica brasileira era acompanhada pela intensificação das greves operárias contra a carestia, à fundação do Partido Comunista Brasileiro, à criação da Coluna prestes e o crescimento do tenentismo, gestando-se com esses e outros fatos a Revolução de 30, numa tentativa de reestruturar a sociedade brasileira em busca de uma nova saída política.
Retornando da Europa em 1912, Oswald de Andrade divulgou idéias cubistas e futuristas; Lasar Segall - Russo que se fixara no Brasil - fez uma exposição de pintura expressionista, seguindo Anita Mafatti.
Inovações de linguagem, ainda que tímidas, apareceram em textos publicados por Mário Andrade, Manuel Bandeira e outros.
Aberta por Graça Aranha, seguida da execução de peças de Villa lobos e da declamação do poema " Os Sapos " de Manuel Bandeira, que ridicularizava o Parnasianismo, a Semana de Arte Moderna provocou gritos e vaias aos modernistas, assustando a burguesia.
Esse clima marcou a ruptura com o tradicionalismo. A arte apresentada estava em consonância com os estilos de vanguarda, estabelecendo, definitivamente, o início do movimento modernista no Brasil.

(Katiuska Berenguer Regis)























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