O mundo de Sofia 20 Locke



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O mundo de Sofia
De Jostein Gaarder
Cia. das Letras, São Paulo, 1998
Tradução de João Azenha Jr.

Capítulo 20 (Excerto)
Locke

(Páginas 280-286.)

Alberto acomodou-se no sofá e disse:

— Da última vez em que estivemos sentados nesta sala, eu falei sobre Descartes e Spinoza. Chegamos a concordar que os dois têm um importante ponto em comum: ambos são racionalistas convictos.

— E um racionalista é alguém que acredita na importância da razão.

— Sim, o racionalista acredita na razão como fonte de conhecimento. E muitas vezes acredita também em certas idéias inatas ao homem, isto é, em idéias que já existem no homem independentemente de toda e qualquer experiência. E quanto mais clara for esta idéia, tanto mais certo é o fato de ela corresponder a um dado da realidade. Você ainda se lembra de que Descartes tinha uma clara e nítida noção do que fosse um “ser perfeito”. A partir dela ele chegou à conclusão de que Deus realmente existe.

— Não sou do tipo que se esquece facilmente das coisas.

— Este pensamento racionalista foi típico para a filosofia do século XVII. Na Idade Média ele também esteve bem representado e podemos encontrá-lo em Platão e Sócrates. No século XVIII, porém, ele passou a ser exposto a uma crítica cada vez mais severa e mais profunda. Muitos filósofos passaram a defender, então, a opinião de que nossa mente é totalmente vazia de conteúdo, enquanto não vivemos uma experiência sensorial. Esta visão é chamada de empirismo.

— E é desses empíricos que você vai falar hoje?

— Vou tentar. Os empíricos, ou filósofos da experiência, mais importantes foram Locke, Berkeley e Hume, todos ingleses. Os líderes entre os racionalistas do século XVII foram o francês Descartes, o holandês Spinoza e o alemão Leibniz. Por isso é que freqüentemente fazemos uma distinção entre o empirismo inglês e o racionalismo continental.

— Por mim, tudo bem. Só que este monte de nomes me confundiu um pouco. Será que dava para você repetir o que se entende por “empirismo”?

— Um empírico deriva todo o seu conhecimento do mundo daquilo que lhe dizem os seus sentidos. A formulação clássica de uma postura empírica vem de Aristóteles, para quem nada há na mente que já não tenha passado pelos sentidos. Esta idéia contém uma severa crítica a Platão, para quem o homem, ao vir ao mundo, trazia consigo idéias inatas do mundo das idéias. Locke repetiu as palavras de Aristóteles, mas o destinatário de sua crítica era Descartes.

— Não há nada na mente que já não tenha passado pelos sentidos?

— Nós não nascemos com idéias inatas, ou com uma visão de mundo já formada. E nada sabemos sobre o mundo em que somos colocados antes de o percebermos com nossos sentidos. Quando pensamos alguma coisa, portanto, que não somos capazes de relacionar com fatos vivenciados, este pensamento ou noção é falso. Por exemplo, quando empregamos palavras como “Deus”, “eternidade” ou “substância”, nossa razão está funcionando em ponto morto. Isto porque ninguém nunca vivenciou Deus, a eternidade ou aquilo que os filósofos chamam de “substância”. Por conseguinte, muitos estudiosos podem escrever tratados que, na verdade, não acrescentam nada de novo ao conhecimento. Uma filosofia baseada em tal reflexão, por mais refinada que seja, pode impressionar, mas no fundo não passa de mera fantasia. Os filósofos dos séculos XVII e XVIII tinham herdado muitos desses tratados. Era chegada a hora de examiná-los sob uma lupa, a fim de eliminar deles toda e qualquer noção ou idéia vazia. Talvez possamos comparar isto ao processo de lavagem do ouro. A maior parte dos resíduos não passa de areia e barro, mas de vez em quando há também uma pedrinha de ouro brilhando no meio de tudo.

— E essas pedrinhas de ouro seriam as verdadeiras experiências?

— Ou pelo menos os pensamentos que podem ser relacionados às experiências humanas. Para os empíricos britânicos, era importante examinar todas as noções humanas, a fim de verificar se elas podiam ser comprovadas com experiências reais. Mas vamos examinar um filósofo de cada vez.

— Sim, vamos lá.

— O primeiro foi o inglês John Locke, que viveu entre 1632 e 1704. Seu livro mais importante chama-se Um ensaio sobre o entendimento humano, de 1690. Nele, Locke tenta explicar duas questões. Em primeiro lugar, ele pergunta de onde os homens tiram os seus pensamentos e as suas noções. Em segundo, pergunta se podemos confiar no que nossos sentidos nos dizem.

— Um projeto e tanto…

— Vamos tomar um problema de cada vez. Locke está convencido de que todos os nossos pensamentos e todas as nossas noções nada mais são do que um reflexo daquilo que um dia já sentimos ou percebemos através de nossos sentidos. Antes de sentirmos qualquer coisa, nossa mente é como uma tábula rasa, uma “lousa vazia”.

— Isto parece evidente.

— Antes de experimentarmos qualquer coisa, portanto, nossa mente é tão vazia quanto uma lousa antes de o professor entrar na sala de aula. Locke também compara a mente com uma sala em que não há um móvel sequer. Mas então é a vez de os nossos sentidos entrarem em ação: podemos ver o mundo à nossa volta, sentir o cheiro das coisas, seu gosto, podemos tocá-las e ouvi-las. E ninguém faz isto de forma mais intensa do que as crianças. Surgem, assim, as idéias sensoriais simples. Só que a mente não recebe passivamente essas impressões exteriores. Dentro da nossa mente também acontece alguma coisa. As idéias sensoriais simples são retrabalhadas pela reflexão, pela crença e pela dúvida. E o resultado disso, segundo Locke, são as idéias da reflexão. Locke estabelece a distinção, portanto, entre “sensação” e “reflexão”. Isto porque a mente, a consciência, não é um mero receptor passivo. E é exatamente nesse ponto que precisamos ficar alertas.

— Ficar alertas?

— Locke afirma que, através dos sentidos, não conseguimos senão impressões simples. Quando como uma maçã, por exemplo, posso “sentir” a maçã inteira numa única e simples sensação. Na verdade, estou recebendo toda uma série de impressões simples: uma coisa verde, fresca, cheirosa, suculenta e de sabor levemente ácido. Só depois de já ter comido muitas maçãs é que posso pensar que estou comendo “uma maçã”. Locke diz que, neste momento, conseguimos formar a noção complexa de uma maçã. Quando éramos pequenos e comemos maçã pela primeira vez, não possuíamos essa noção complexa. Mas víamos uma coisa verde, sentíamos o gosto de uma coisa fresca e suculenta, nham, nham…, e também um pouco ácida. Aos poucos vamos “amarrando” muitas impressões sensoriais e formando conceitos como “maçã”, “pêra” e “laranja”. Mas é aos nossos órgãos de sentidos que devemos, em última análise, todo o material de que se serve o nosso conhecimento do mundo. E é por isso que é falso e precisa ser eliminado o conhecimento que não pode ser atribuído a impressões sensoriais simples.

Seja como for, podemos ter certeza de que aquilo que vemos e ouvimos, de que sentimos o cheiro e o gosto, corresponde exatamente ao que sentimos.

— Sim e não. Esta é a segunda questão que Locke se propõe a discutir. Primeiro ele explica de onde retiramos nossas idéias e noções. Em seguida ele pergunta se o mundo é realmente do jeito que nós o percebemos. E isto não é uma coisa absolutamente evidente, Sofia. Não podemos colocar o carro na frente dos bois. Aliás, esta é a única coisa que um verdadeiro filósofo não deve fazer.

— Esqueça o que eu disse.

— Locke estabelece a diferença entre aquilo que chama de qualidades sensórias “primárias” e “secundárias”. E nesse ponto ele estende a mão aos filósofos que o precederam: por exemplo, a Descartes.

— Me explique isto!

— Por qualidades sensoriais primárias Locke entende a extensão, peso, forma, movimento e número das coisas. Com relação a essas propriedades, podemos estar certos de que nossos sentidos reproduzem as verdadeiras propriedades das coisas. Mas nós também percebemos outras características das coisas. Dizemos que uma coisa é doce ou azeda, verde ou vermelha, quente ou fria. Locke chama isto de qualidades sensoriais secundárias. Tais impressões sensoriais, como as cores, o cheiro, o gosto ou os sons, por exemplo, não reproduzem as características verdadeiras, presentes na coisa em si. Elas reproduzem apenas o efeito que essas características exteriores exercem sobre os nossos sentidos.

— Gosto não se discute.

— Exatamente. Podemos estar de acordo sobre as propriedades primárias, como tamanho e peso, por exemplo, pois elas são inerentes às coisas em si. Mas as propriedades secundárias, como cor e gosto, por exemplo, podem variar de animal para animal, de homem para homem, dependendo de como são constituídos os órgãos de sentidos de cada indivíduo.

— Quando Jorunn chupa uma laranja, ela faz a mesma cara que outras pessoas fazem quando chupam um limão. Geralmente, ela não consegue ir até o fim. “Está azeda”, costuma dizer. E na maioria das vezes eu acho a mesma laranja doce e gostosa.

— E nenhuma de vocês tem razão, porque também nenhuma de vocês está errada. Ao falar sobre suas impressões, vocês apenas estão descrevendo o efeito desta laranja sobre os seus sentidos. O mesmo ocorre com as cores. Pode ser que determinado tom de vermelho não agrade você. Se Jorunn compra um vestido exatamente desse tom, é melhor você guardar para si a sua opinião sobre ele. Não que o vestido seja feio ou bonito; é que vocês duas percebem de forma diferente este mesmo tom de vermelho.

— Mas todos concordam que uma laranja é redonda.

— Sim. Quando você segura uma laranja, não dá para dizer que ela tem a forma de um cubo, por exemplo. Você pode achá-la doce ou azeda, mas não pode “achar” que ela pesa oito quilos, se o peso dela não passa de duzentos gramas. Você pode talvez “acreditar” que ela pese muitos quilos, mas este é um caminho que não vai dar em nada. Se muitas pessoas tentam adivinhar quanto pesa um objeto, sempre haverá uma que estará mais certa que as outras. O mesmo vale para o número das coisas. Ou há 986 ervilhas numa tigela, ou não. E o mesmo vale também para o movimento: ou um carro está em movimento, ou então está parado.

— Entendo.

— No que se refere à “realidade estendida”, portanto, Locke compartilha da mesma opinião de Descartes, ou seja, que a realidade possui certas características que o homem pode captar com sua razão.

— Não é muito difícil concordar com isto.

— Também em outras áreas Locke admite o que chama de conhecimento “intuitivo” ou “demonstrativo”. Por exemplo, ele acha que certas diretrizes éticas valem para todos. Neste caso, podemos dizer que ele acredita no chamado pensamento do direito natural e que este é um traço racionalista que podemos identificar em seu pensamento. Outro traço claramente racionalista: Locke acredita que é inerente à razão humana saber que existe um Deus.

— Talvez ele tivesse razão.

— Razão em quê?

— Em que existe um Deus.

— É possível. Mas ele não deixa que esta problemática se reduza a uma questão de fé. Para ele, a idéia que o homem faz de Deus nasce da própria razão humana. E este é um traço racionalista do seu pensamento. Devo acrescentar que Locke defendia a liberdade de opinião e a tolerância. Além disso, defendia também a igualdade de direitos entre os sexos. Para ele, a posição de inferioridade das mulheres havia sido criada pelos homens. Assim sendo, ela podia ser corrigida.

— Concordo plenamente.

— Locke foi um dos primeiros filósofos dos tempos modernos a se ocupar com a questão dos papéis sexuais. Isto foi de grande importância mais tarde para John Stuart Mill, uma personalidade por sua vez muito importante para a luta pela igualdade de direitos entre os sexos. Locke expressou muito cedo pensamentos liberais que só floresceram em sua plenitude durante o Iluminismo francês do século XVIII. Por exemplo, ele foi o primeiro a propagar o princípio da divisão dos poderes

— Isto significa que o poder do Estado é dividido em diferentes instituições.

— Você ainda se lembra que instituições são essas?



— O Legislativo, ou o Parlamento, o Judiciário, ou o Tribunal, e o Executivo, ou o próprio governo.

— Esta tripartição vem do filósofo iluminista francês Montesquieu. Locke chamou a atenção sobretudo para o fato de termos de separar o Poder Legislativo do Poder Executivo, se quisermos evitar a tirania. E ele foi contemporâneo de Luís XIV, que reunia em suas mãos todo o poder e costumava dizer “O Estado sou eu”. Dizemos que Luís XIV foi um governante “absoluto” e que “seu” Estado era mais arbitrário do que de direito. Contrariando esta idéia, Locke achava que para se assegurar um Estado de direito os representantes do povo tinham que promulgar leis que seriam depois executadas pelo rei e pelo governo.

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