O objetivo deste diálogo é apresentar uma síntese do primeiro capítulo do livro de Afonso celso



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SÍNTESE DA HISTÓRIA DAS IDÉIAS DE PAULO FREIRE E A ATUAL CRISE DE PARADIGMAS, RELACIONANDO CATEGORIAS DESSE PENSAMENTO COM A INCLUSÃO DO NEGRO NO SISTEMA EDUCACIONAL DO MUNICÍPIO DE SÃO LUÍS.

Clenia de Jesus Pereira dos Santos

Aluna do curso de doutoramento

São Luís – Maranhão

O objetivo deste trabalho é apresentar uma síntese do primeiro capítulo do livro de Afonso Celso Scocuglia, cujo título é a História das idéias de Paulo Freire e a atual crise de paradigmas. Esta é a quarta edição com prefácio de Moacir Gadotti.

A primeira parte aborda a história das idéias de Paulo Freire, contemplando: educação, desenvolvimento e conscientização, incluindo subseções como contexto histórico-cultural, desenvolvimento nacional e democracia, educação, conscientização e liberdade, síntese do primeiro Paulo Freire. A seção seguinte apresenta uma das mais valiosas obras de Freire, Pedagogia do Oprimido, que inclui nos seus escritos, especificamente, o oprimido e sua Pedagogia, educação, ação cultural e consciência de classe, a produção, o trabalho e a revolução como contextos educativos.

Aborda ainda o político pedagógico como eixo central, inseparabilidade e especificidade política e pedagogia na formação do educador e movimentos sociais, partidos, educação e, por final, uma síntese do pensamento de Paulo Freire. Este é o foco central da primeira parte deste ensaio.

Em seguida, aborda-se a segunda parte deste ensaio, que objetiva expor o objeto de pesquisa e pontuar as reflexões contidas no pensamento de Freire. É mister enfatizar que apresentaremos conclusões finais que veiculam reflexões e juízo de valor acerca dessa leitura.

Pretendemos neste diálogo abordar em síntese, a análise que Celso Scocuglia faz do pensamento freiriano, dentro de um processo histórico da vida e obra de Paulo Freire. Enfatiza o entendimento das relações postas ao longo do desenvolvimento e das mudanças do pensamento do autor. Os escritos expressam as mudanças qualitativas do discurso freiriano nas categorias conscientização, ao diálogo e à ação cultural. É mister destacar que essa análise centra-se nos escritos do final dos anos cinqüenta e percorre o itinerário intelectual das décadas 1980 a 1990.

O princípio desta comunicação é relatar, com base em pesquisa, que o pensamento de Freire é diferente do que alguns autores expressam; é dizer que, pelo contrário, o pensamento não é e nunca foi descontínuo, mas um contínuo movimento da sua prática educativa.

Segundo Scocuglia podemos afirmar a existência de “vários” Paulos Freires. Ratificando esse pensamento, o autor diz: “Se há constantes na sua obra, essas constantes alicerçam o movimento, a retroalimentação permanente, a insatisfação com as certezas petrificadas, o exercício prático-teórico da inter e da transdisciplinaridade a constante progressão”. Como homem do seu tempo, “cada vez mais incerto de suas certezas, advogado do processo de conhecimento crítico, consciente de sua incompletude, este educador não parou de fazer história e ser feito por ela”, o que nos remete a concluir que, somente quem leu o posto e o pressuposto de suas obras possui credencial para confirmar a existência de uma pluralidade de Freires. Isto aponta para uma afirmação encontrada em seu livro Pedagogia do Oprimido, quando ele expressa a necessidade que o homem tem de perceber-se inconcluso.

É claro que essa incompletude garante essa relação em movimento educando-educador, teoria x prática. Práxis educativa que corrobora o pensamento de Scocuglia quando ele diz: foram feitas para serem recriadas – reinventadas (...) Certamente, essa é uma das principais virtudes do seu legado.
1 O ITINERÁRIO DA PESQUISA DE FREIRE
Este item comunica o percurso intelectual do pensamento de Freire, centrado em momentos distintos, especificamente o primeiro, entre 1959 e 1970; o segundo corresponde à década de setenta, e o terceiro, conclamado por Scoquglia como um dos escritos mais significativos, isto é, os anos oitenta e noventa. Percebe-se que não é uma leitura que se caracteriza como linear. Há em suas obras um contexto. A título de exemplo, Pedagogia do Oprimido intertextualiza as idéias marxistas, e Cartas a Guiné-Bissau (1980) expressa notória proximidade com as idéias gramscianas.

Referenciando Scocuglia, as demais obras escritas num conjunto com os autores, e últimas escritas sozinho como Educação na Cidade (1991), Pedagogia da Esperança (1992), Pedagogia da Autonomia (1996) e Política e Educação (1993) fazem menções ao cenário contemporâneo onde veiculam as incertezas da crise de paradigmas nas ciências sociais e não educação. O autor supracitado referencia ainda artigos publicados (1978/79/80), entrevistas e debates proferidos por Freire, os quais oportunizam conhecer melhor o vigor e a rigorosidade do pensamento freiriano.


2 EDUCAÇÃO DESENVOLVIMENTO E CONSCIENTIZAÇÃO
Este espaço enfatiza o contexto histórico-cultural do pensamento de Freire, abordando o nacionalismo desenvolvimentista e o populismo como macro-estrutural nesse contexto inicial. Aponta este início como entremeados pelo Governo de Juscelino Kubistschek (1955-60) e posterior ascensão de João Goulart (1961-64) culminando com o golpe civil militar de abril de 1964.

É Importante destacar desse momento histórico as experimentações relativas ao sistema Paulo Freire, pelas principais entidades. Scocuglia, referenciando Góes (1991, 47/68), aponta:


a) Em Recife – Movimento de Cultura Popular – MCP;

b) Em Recife (SEC) – Serviço de Extensão Cultural da Universidade de Recife – equipe interdisciplinar trabalha a fundamentação do sistema proposto por Freire;

c) Em João pessoa e, depois no estado, a CEPLAR (Campanha de Educação Popular na Paraíba);

d) Em Recife – União Estadual dos estudantes de Pernambuco e Diretório Central dos Estudantes da Universidade do Recife (financiado pelo MEC);

e) Em Natal (RN) – Campanha “De pé no chão também se aprende a ler” (financiada pela Prefeitura de Natal);

f) Em Angicos – Governo do Rio Grande do Norte (financiada pela Aliança para o Progresso, através do convenio USAID/SUDENE);

g) Em Osasco (SP);

h) Em Brasília, através do Plano Nacional de Alfabetização (PNA-MEC);

i) Projeto Nordeste e ProjeSul (Sergipe, Rio de Janeiro) financiados pelo PNA-MEC (1987:369).
A importância de mencionar estas informações é ratificar a influência do pensamento de Freire neste contexto e a multiplicidade de organizações, bem como as forças políticas diante das práticas educativas que foram revertidas e paradas a partir do Golpe Militar de1964.

O pensamento de Freire se reportava basicamente para a alfabetização como processo de conscientização. Diferente do pensamento estratégico político-eleitoral da população, do populismo progressista que vislumbrava a metodologia freiriana como propulsora de barateamento do processo, além de se caracterizar como metodologia rápida. Essa concepção de alfabetizar sucinta de Freire é um posicionamento desmistificador do que outrora se construía no espaço político. Nesse posicionamento, ele deixa bem claro que o objetivo do processo de alfabetizar está além da simples escrita de uma carta a qualquer destinatário, ao presidente da república, por exemplo, mas votar com consciência da escolha de um representante que realmente sirva ao povo.

Conclui-se, portanto, que o método Paulo Freire servia especificamente à ultrapassagem da conscientização crítica à consciência ingênua, que são claramente expressas em educação e mudança (1970, p. 40-41).

Freire tecia uma rede de comunicação entre ação educativa e ação política, onde Scocuglia, citando Paiva (1980, p. 87) diz que o problema centrava-se no binômio educação/política e buscava a educação necessária àquela sociedade em trânsito, que se democratizava.

Paulo Freire fazia denúncia ao escolanovismo baseado na memorização, o que mais tarde denomina de educação bancária.

Em contrapartida e opondo-se ao sistema conservador, Freire propõe os Círculos de cultura, substituindo a educação formalizada e institucionalização e os cadernos de cultura, substituindo as cartilhas tradicionais usadas nas escolas.

Na verdade, Freire lançava como proposta a inserção do homem na construção do saber, isto é, a cumplicidade deste e a influência da cultura de todas as etnias para demonstrar a vida e participação de cada ser no processo de conhecimento. Scocuglia comunga desse pensamento de parâmetros personalistas de análise, unidos à síntese existencial-culturalista mencionada. Defende-se uma sociedade democrática, alicerçada no pluralismo econômico e político e na dignidade da pessoa humana.
3 EDUCAÇÃO, CONSCIENTIZAÇÃO E LIBERDADE
Para explicar este tema, o autor lança mão de um conceito de Freire sobre conscientização e, diante da concepção deste termo, pressupõe a educação como espaço, reflexão e auto-reflexão das massas sobre tempo e espaço no mundo, depositando um excessivo crédito no poder transformador da educação. O objetivo seria possibilitar o engajamento das camadas populares no processo político. Segundo Freire, a proposta de alfabetização é, para a grande parte dos adultos brasileiros, a passagem da consciência ingênua à consciência crítica.

Segundo Scocuglia, Freire enfatiza que o processo de conscientização não será apenas resultante das modificações econômicas, por mais importantes que estas sejam, mas seria o resultado de um trabalho pedagógico apoiado em condições históricas propícias. Na busca da criticidade, a conscientização não poderia fazer parte de uma educação qualquer, mas de um processo voltado para a responsabilidade social e política para a decisão. Comenta ainda o autor que Freire trata da busca da consciência crítica desvinculando esse processo das condições socioeconômicas, isto é, não conecta as bases infra-estruturais com as esferas da superestrutua. Scocuglia afirma que, agindo nesse prisma, Freire não incorpora durante esse período o conflito de classes e as relações de produção tão necessárias para uma compreensão das estruturas sociais capitalistas. Conclui o autor que, visto desse modo, podemos dizer que a representação da sociedade brasileira do começo dos anos sessenta é falha [incompleta] e as conseqüências na análise dos papéis da educação são notórias. Portanto, percebe-se claramente que, pensando nessa ótica, corre-se o risco de uma análise reduzida e simplista, podendo remeter o leitor de Freire [Scocuglia] a entender que ele defende a educação conscientizadora como motor das transformações sociais, o que seria, no mínimo, equivocado. Em outras palavras, a sociedade seria transformada a partir da superestrutura.



4 SÍNTESE DO PRIMEIRO PAULO FREIRE
O pensamento freiriano transita na sociedade brasileira rumo à modernização e a um posicionamento implícito na disputa entre as forças agro-comercial e urbano-industrial (Scocuglia). Frente a esse contexto, o pensamento de Freire é de que o povo precisa aumentar o seu grau de consciência em relação aos problemas de seu tempo e de seu espaço.

Como proposta viável, Freire propõe o método freiriano de alfabetização. Partindo de palavras geradoras do universo vocabular do grupo e a partir desse levantamento, o coordenador passa por várias fases no processo até mobilizar o grupo a criar palavras além do que fora discutido nele, tendo como eixo central em todo esse processo, o diálogo entre o educador e o educando.


5 PEDAGOGIA DO OPRIMIDO E AÇÃO CULTURAL

Não poderia deixar de mencionar neste espaço o significado que teve para mim a releitura de Pedagogia do Oprimido. Minha primeira leitura dessa obra aconteceu em 1993, quando eu era estudante do 7ª período do Curso de Pedagogia, quando essa leitura foi feita com um olhar diferente, isto é, com os conhecimentos prévios daquela época, o que resultou em outro tipo de entendimento, com certeza. Mas, recentemente, tive a oportunidade de ler esse exemplar e não poderia deixar de enfatizar que a concepção de diálogo, oprimido, opressor, libertação, humanização são termos compreendidos em outro prisma. Isso remete a concordar que a incompletude que há no ato de conhecer está vinculada ao contexto, ao tempo e espaço de cada sujeito.

Essa obra, segundo Scocuglia, foi escrita no limiar dos anos sessenta e hoje acumula traduções em dezenas de línguas, sendo carro-chefe da penetração mundial do pensamento freiriano.

Pedagogia do Oprimido expressa uma elaboração teórica mais consistente e mais rigorosa quanto à base de fundamentação socioeconômica e política de Freire. A obra faz alusão direta ao pensamento marxista remetendo a questões relativas às classes sociais e ao conflito entre elas. É nessa obra que, na opinião de Scocuglia, Freire começa a ver a politicidade do ato educativo com maior nitidez.



6 O OPRIMIDO E SUA PEDAGOGIA
Neste espaço é nítida a mudança nos termos usados outrora por Freire. Referenciando Scocuglia, a mudança começa seu registro por liberdade e libertação. Enquanto o primeiro termo remete ao individual, mental, personal, o segundo significa sair vencedor nos conflitos sociais de classe. Comenta o autor que não há libertação sem humanização do homem e não há humanização sem a ruptura com a estruturação classista do capitalismo.

O principal objetivo dessa obra, segundo Freire, era possibilitar ao oprimido condições de perceber-se como tal, percebendo também o opressor para, a partir desse estágio de consciência, libertar-se e libertar o outro. Em outros termos, seria a sua libertação conectada à percepção dessa situação opressora/alienante e à criação de alternativas a essa situação.


7 EDUCAÇÃO, AÇÃO CULTURAL E CONSCIÊNCIA DE CLASSE
Neste diálogo, apresentamos o que Freire categoriza como ação cultural sobre a educação de adultos que, conforme Scoglucia (2003, p. 48), pode ser ampliado para a educação como um todo. Neste espaço é centrado o pensamento freiriano, voltado para a concepção de classe do oprimido, o que é cognominado de consciência em si enquanto classe para si.

A produção, o trabalho e a transformação da sociedade como contextos de educação política.

Aqui o autor enfoca mais uma vez a mudança ocorrida no pensamento de Freire a partir de influências marxistas e gramiscianas. Enfatiza novamente que, em Educação como prática de liberdade, Freire defendia a mudança na sociedade através de uma reforma internado homem via conscientização. E que, com a presença de outras categorias econômicas, contemplando a sua análise teórica, reestrutura suas concepções pedagógicas.

Outro ponto relevante é que Scocuglia aponta o cerne da mudança do pensamento freiriano nos trabalhos realizados na África, onde, segundo o autor, percebe-se claramente a incorporação da categorização teórica infra-estrutural marcando a progressão das propostas político-educativas desse educador.

Uma das contribuições significativas marcadas por Freire é que, a partir das mudanças supracitadas, reinventa-se o processo educativo, ou seja, o contexto teórico funde-se ao contexto concreto, aproximando o processo da educação ao trabalho.

O pensamento de Freire com relação à transformação e à contribuição na reinvenção da escola em Guiné-Bissau, reporta-se à desconstrução da escola colonial e à construção de um espaço, onde o diálogo e a construção do saber partissem do existencial, não como um saber qualquer, mas centrado numa realidade.

Para esse fim, foi implantado o Centro de Formação de Professores de Co – cidade localizada a 50km de Bissau (Scocuglia, p.69). Para Freire, diz Scocuglia, este sim, representava um verdadeiro processo político-pedagógico, haja vista ter nascido de um parto coletivo, sustentado pelas relações manuais e intelectuais.
Entretanto, diante de uma certa euforia com a escola de Co pensada como modelo para a implantação definitiva da educação socialista, fundada na inseparabilidade da educação e trabalho, Freire adverte para o risco de se repetir o que o sistema capitalista faz com seus trabalhadores, ensinando-lhes suas necessidades. Certamente para não correr o risco alertado, a inseparabilidade do trabalho produtivo e do processo educativo deve ser canalizada no sentido do privilégio do trabalho sobre o capital (SCOCUGLIA, 2003, p.70).
Finalmente, a proposta era, na verdade, fornecer ao trabalhador a possibilidade de pensar, de saber criar, de perceber-se enquanto classe opressora e, a partir desse extremo, buscar possibilidades de mudanças e, no dizer de Freire, o surgir de um homem novo e uma mulher nova, capazes de construir a consciência de classe para si.

8 O POLÍTICO PEDAGÓGICO COMO EIXO CULTURAL

É mister enfocar o pensamento central de Scocuglia neste item, quando ele menciona o pensamento freiriano que faz uma relação direta do vencer / convencer. Para esta explicação, ele aborda que educar é um ato político e intencional. Exemplifica os conteúdos didáticos como portadores de ideologias, estando a serviço de alguém. O próprio ato do professor funde o vencer com o convencer.


9 POLÍTICA E PEDAGOGIA NA FORMAÇÃO DO EDUCADOR
Neste diálogo percebe-se claramente a expressão do pensamento freiriano exposto nas palavras de Scocuglia quando este veicula a convivência, a proximidade e as relações que se travam na politicidade do ato educativo e a concomitância na educabilidade do ato político.

Este ato político que na opinião de Freire é bastante intenso está presente também nos conteúdos programáticos escolares, que às vezes escondem ou denunciam escolhas, preferências, opções sociais, culturais ou ideológicas (Scocuglia, p.76). Portanto, educar é um ato político porque traz implícito, pressuposto nas entrelinhas do ato, uma intenção que, dependendo da concepção do educador, promove a liberdade ou a opressão do aluno.

Neste prisma, é imprescindível os cuidados que a Pedagogia precisa ter na formação do educador, uma vez que este é responsável por iniciar o processo e dirigir o estudo. É preciso antes de tudo inventar e reinventar caminhos capazes de problematizar o objeto a ser desvelado e apreendido pelo educando. Para este ato, Freire prioriza o diálogo e a substituição do comportamento bancário na ação do professor pela implantação da ação emancipadora e revolucionária, onde as relações estabelecidas permeiam pelo terreno das relações horizontais e não verticais. Só desse modo, segundo Scocuglia, “a força da atuação pedagógica do professor transformará a escola conforme interesses as necessidades e os valores dos indivíduos dos grupos e das classes que fazem tal escola” (Scocuglia, p.83).
10 MOVIMENTOS SOCIAIS, PARTIDOS E EDUCAÇÃO
Este espaço expõe os quinze anos de exílio de Freire e as condições em que ele encontra a sociedade brasileira no seu retorno, o que Scocuglia caracteriza de abertura lenta e gradual (Scocuglia, p.85).

Percebe-se claramente a importância que Freire deposita nos movimentos sociais como responsáveis pela inauguração de uma educação crítica gestada e nascida na cotidianidade dos grupos populares (Scocuglia, 2003). Freire entende os movimentos como propulsores de uma nova política inseparável de uma nova educação. Portanto, argumenta o autor:


Nessa ótica, os papéis exercidos pelos partidos políticos enquanto educadores sociais e por isso mesmo, enquanto entidades educadas pela sociedade ganham desta que na argumentação [...] Assim o partido pode caminhar no sentido de “educar” o trabalhador como sujeito consciente e militante de sua classe, criticando a educação opressora e de baixa qualidade e, quando no poder, implementar novas alternativas educacionais (SCOCUGLIA, 2003, p.86-88).
Finalmente para encerrar o capítulo, Scocuglia propõe uma síntese do pensamento político-pedagógico de Freire. Expressa a complexidade que é sintetizar um pensamento caracterizado pela dialeticidade, autocrítica e de reconstrução analítica que superpõe uma conexão antropológica, sociológica, filosófica, epistemológica, teológica e política com os caminhos educativos e pedagógicos.

É importante ressaltar a pluralidade de Freire ao longo da história pois, como a sua proposta de educar, ele é também inconcluso. Isso foi ratificado por Scocuglia na análise de obras escritas por Freire e que, segundo o autor, o Freire de Pedagogia do Oprimido não é o mesmo de Educação como prática de Liberdade.

Este pensamento está expresso no modo como Freire concebe algumas categorias que permeiam suas obras e, a cada contexto e a cada influência no pensamento Freiriano, contribui para mudanças e certezas da dialeticidade que há na sua forma de ver o mundo.

Um outro ponto que o autor reflete é com relação à contribuição imensa que Freire disponibiliza a Pedagogia. Portanto, Scocuglia conclui dizendo (2003, p.95) que já escreverem que “em Pedagogia se pode estar com Paulo Freire ou contra Paulo Freire, mas não sem Paulo Freire”. Isto nos remete à necessidade que temos de incorporá-lo no nosso cotidiano pedagógico como representante infalível do princípio dialético, certos que, sendo sujeitos de nossas histórias, precisamos escrevê-las, contá-las e incluí-las no processo para que nos sintamos também sujeitos dela.



11 A POLÍTICA DE INCLUSÃO DOS AFRODESCENDENTES NO SISTEMA EDUCACIONAL DO MUNICÍPIO DE SÃO LUÍS E A PROXIMIDADE COM O PENSAMENTO FREIRIANO
Este diálogo tem o objetivo de relacionar o meu objeto de pesquisa com o pensamento freiriano, fazendo ou não relação com este. A priori, é imprescindível registrar que, apesar de Freire não ter vivido nos cenários atuais, nem ter usado terminologias desta contemporaneidade em seus escritos, não nos resta dúvidas de que o seu pensamento está incluído nos pensares dos autores atuais. Podemos afirmar que o pensamento de Freire é um pensamento clássico, porque qualquer obra inclui reflexões por ele profetizadas.

Portanto, abrimos este debate com informações veiculadas por Vera Maria Candau, expressas no livro Sociedade, Educação e Cultura, onde ela aborda que os negros no Brasil estão cultural e socialmente excluídos. Apesar de sua presença na população brasileira ser demograficamente expressiva, 44,2% (4,9% de pretos e 39,3% de pardos)2, este grupo pode ser caracterizado como uma minoria, se tomarmos como referências as relações de poder e o exercício de cidadania.

Para analisarmos o pensamento de Candau, à luz do pensamento freiriano, faz-se necessário resgatar as categorias utilizadas por ele em Pedagogia do Oprimido, um excelente exemplo de obra que denuncia a opressão da classe dominante sobre o oprimido. Ao longo da história, temos exemplos vivos das condições opressoras em que viveram e vivem os negros na sociedade. E essa opressão, apesar dos documentos legais e das políticas destinadas à superação desse contexto marginal e segregário, é percebida claramente nos gestos e nas atitudes das pessoas. Isso se revela nas pesquisas que apresentam índices altíssimos de negros brasileiros em significativa desvantagem social em relação ao branco. Essas pesquisas revelam ainda que o tempo de escolaridade dos brancos está em média de 5,9 anos enquanto os negros possuem escolaridade de 3,3 anos.

Tal realidade nos remete à crença de que a população negra está socialmente marginalizada (social, cultural ou enticamente) e que crianças de grupos marginalizados, tendem a fracassar. Esse ato reflete a anulação do homem negro e da mulher negra no processo histórico da sociedade. Retoma-se Pedagogia do Oprimido, onde a contribuição de Freire seria o reconhecimento do negro de si mesmo, enquanto oprimido e hospedeiro do opressor, para, a partir disso, contribuir para o partejamento de sua pedagogia libertadora. Mas Scocuglia expõe um ato interessante que é a quase exclusividade da categoria superestrutural em Pedagogia do Oprimido que impede uma visão mais apurada das necessidades do oprimido, na busca de uma mobilização que viabilize a difícil passagem da classe em si “ para a classe para si”.

Porém, mais tarde, com a influência do pensamento gramisciano, Freire compreenderia a infra-estrutura como categoria determinante e influenciadora da superestrutura. Portanto, só a partir dos trabalhos realizados na África, é que, segundo Scocuglia, vamos notar a incorporação da categorização teórica infra-estrutural.

Com efeito, Candau revela que, pela concepção de que o negro fracassa por responsabilidade própria, uma seria a teoria racista que teve seu auge em 1850 e 1930 no Brasil, afirmando que os negros são intelectualmente inferiores, e a teoria da privação cultural que tem como pressuposto que os alunos dos grupos minoritários fracassam porque possuem um déficit cultural: a família não garantiu um ambiente familiar que preparasse a criança para freqüentar a escola. Ainda em paralelo a essa corrente, firma-se a crítica-reprodutivista, que considera que a escola simplesmente reflete um processo de exclusão que é estrutural e não escolar.

Considerando as teorias acima, conclui-se que tanto uma, quanto outras, oferecem respostas limitadas, porque não incluem no seu bojo a importância da diversidade cultural no processo de construção do conhecimento e o caráter monocultural das instituições escolares. Aqui, corroboramos plenamente com o pensamento de Freire quando ele apresenta o diálogo como mola propulsora no processo educativo. Pressupõe também a superação da educação bancária, onde o homem é um depósito, sequer consegue enxergar-se como oprimido. Nesse parâmetro, Freire propõe a educação problematizadora como oposição àquela. Esta, sim, é capaz de compreender a diversidade de vozes presentes no contexto de vários falantes.

Paulo Freire, nos seus escritos, demonstra claramente a superação da educação homogênea, propõe também cadernos de cultura em substituição às cartilhas. Esse pensamento nos remete a uma lógica da escola plural que Freire já desenhava para cenários futuros. Enriquecendo o pensamento, é o que McLaren vem dizer no seu livro Multiculturalismo Revolucionário.


Isso significa que não existe mundo ideal monolítico, autônomo, puro ou aborígine que possa ser entendido fora da natureza social da linguagem e ao qual nossas construções necessariamente correspondam (p.30).
Conclui-se, portanto, que o pensamento de Freire é luz presente em várias categorias de todos os escritos analisados durante essa caminhada leitora, um ou outro ponto se faz presente especialmente na sua obra conhecida mundialmente – Pedagogia do Oprimido. Outro ponto a ser refletido é que esse pensamento se torna clássico à medida que as relações outrora analisadas no antagonismo de classe se fazem presente em obras editadas atualmente, porque ainda não superamos essa relação de poder. Mas, ao longo da história, temos assumido posturas reflexivas, embora lentas, graças ao pensamento crítico freiriano. Concordamos plenamente com Scocuglia quando diz: “Em Pedagogia se pode estar com Paulo Freire ou contra Paulo Freire, mas não sem Paulo Freire”. Isso implica a importância e a necessidade que temos enquanto educador do poder reflexivo do pensamento freiriano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CANDAU, Vera Maria. Sociedade, educação e culturas: questões e propostas. Petrópolis, Vozes, 2002.
MCLAREN, Peter. Multiculturalismo revolucionário. Pedagogía do dissenso para o novo milênio. Porto Alegre, Artes Medicas, 2000.
SOCUCUGLIA, Afonso Celso. A história das idéias de Paulo Freire e a atual crise de paradigmas. 4.ed. João Pessoa, Editora Universitária.


2 IBGE – Censo 1991 – Índices confirmados pela pesquisa nacional por amostragem de domicilio IBGE – 1995.


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