O ocultar mostrando do telejornalismo na era digital: retrospectiva da communication research audiovisual



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Compreensão e interpretação: análise de conteúdo
Na análise de conteúdo dos informativos televisivos estudados do Brasil e da Espanha estivemos atentos a não dar por aceito que a freqüência da exposição de um assunto nos mass media seja a indicação utilizada pelos destinatários para advertir seu significado, porque segundo observa Wolf (Lisboa, 1995, pág. 149) isto “implica uma idéia de mensagem em que estão explicitamente contidos todos os elementos necessários para sua compreensão e interpretação”.
Compreensão e interpretação de um texto
A psicologia cognitiva e a semiótica textual para este processo de compreensão e verbalização nos oferece um caminho diferente, salientando, segundo escreveram Wolf (1995, pág. 149) e Violi (1982, pág. 93) que “para a interpretação e a compreensão de um texto há elementos que não são explicitamente mencionados e que são igualmente essenciais”. Ou seja, “para ser capaz de tratar a informação contida em um texto, o destinatário deve combinar a informação nova com a informação já acumulada na memória”.
Violi (1982, pág. 93) afirma também que:
“A primeira parte de um texto (ou inclusive apenas seus primeiros elementos lexicais) ativa um cena esquemática na qual há muitos elementos que são deixados, por assim dizer, em branco; as partes seguintes vão preencher essas espaços em branco (ou pelo menos alguns deles), introduzindo novas cenas, substituindo-as por outras ou sobrepondo outras de várias formas, segundo relações causais, temporais, etc. Quem interpreta constrói, pouco a pouco, um mundo mental possível, no qual insere os novos detalhes que o texto vai lhe oferecer, mudando, sempre que necessário, as cenas que havia construído anteriormente. Um texto coerente é aquele cujas diferentes partes contribuem para a criação de uma única cena, em geral muito complexa. É importante notar que o caráter desse mundo textual depende, muitas vezes, de aspectos das cenas que já não se encontram explicitamente mencionadas no texto, o que demonstra o papel e a importância que os conhecimento extralingüísticos têm na interpretação textual e a necessidade de um modelo teórico que permita explicar as razões do sistema dedutivo exigido para a compreensão do texto”.
Van Djik-Kinstsch (1983, pág. 337), segundo destacou Wolf (1995, pág. 151), argumenta que “utilizar esse conhecimento no processo de compreensão do discurso significa ser capaz de associar o próprio discurso a uma estrutura de conhecimento pré-existente que, assim, lhe provê um modelo de situação”.
O papel preponderante das macro-estruturas na compreensão e na memorização dos textos informativos não é o único resultado mencionado no trabalho de Larsen (1983); com efeito, no que se refere à função dos conhecimentos já acumulados na memória, parece atenuar-se em uma dinâmica do processo de compreensão e de memória que restringe, em parte, o sentido da hipótese da agenda-setting, Wolf (Lisboa, 1995, pág. 151).
Para Larsen (1983), “o conhecimento dos fatos adquirido anteriormente, e cujas atualizações constituem o noticiário, parece refletir-se segundo duas direções”:


  1. “A memorização se concentra mais na informação já adquirida que na nova. A familiaridade com o assunto aumenta a facilidade de memorizá-lo, e·”.




  1. “A nova informação, a que cronologicamente é mais recente (os últimos desenvolvimentos de um fato) parece ser mais privilegiada do que a que amplia os conhecimentos, isto é, a informação de fundo” (Wolf, 1995, págs. 151 e 152).


Os newsmaking
A sociologia dos emissores ao newsmaking é o outro ponto da pesquisa comunicativa que constitui nosso marco teórico. Os estudos dos emissores e dos processos produtivos nas comunicações estão intimamente ligados aos outros pontos estudados anteriormente: os mass media televisivos e seus efeitos de longo prazo e a agenda-setting na construção da imagem da realidade social tanto do ponto de vista do emissor como do receptor.
Com esse tipo de estudo teórico tentamos examinar os emissores dos informativos televisivos e a lógica produtiva dos mass media.
Os estudos sobre os emissores serão confinados, em seu conjunto, nos níveis mais baixos das operações produtivas dos mass media (...). Os níveis mais altos do planejamento econômico e da programação política permanecem praticamente inexplorados; as questões mais amplas e relevantes raramente são colocadas e existem pouquíssimas tentativas sistemáticas de estudo do emissor, que ocupa uma posição fundamental no tecido social, com a possibilidade de rechaçar e de selecionar a informação em consonância com a gama de pressões que são exercidas em um determinado sistema social”, Halloran (1960, pág. 7 In Wolf, 1995, pág.160).
Wolf (a995, pág, 160) afirma que o estudo dos emissores evoluiu, passando de alguns conceitos simples a articulações mais complexas entre variáveis que não dizem quase nada a respeito da lógica produtiva interna dos mass media. “Foram dois enfoques que caracterizaram essa evolução: o ligado à sociologia das profissões, que estudou os emissores do ponto de vista de suas características sociológicas, culturais, dos padrões de carreiras que eles seguem, dos processos de socialização a que estão sujeitos. Neste caso, são estudados alguns favores externos, como a organização do trabalho, que influem nos processos produtivos dos comunicadores”. A segunda abordagem, pelo contrário, segundo salienta Wolf (1995, pág. 161) “está constituído pelos estudiosos que analisam a lógica dos processos pelos quais a comunicação de massas é produzida e o tipo de organização de trabalho dentro da qual se efetua a construção das mensagens”.
Neste sentido, para este estudo nos detivemos no enfoque que analisa a lógica dos processos de produção, ao acompanhar suas rotinas produtivas como observador dos participantes, enquanto nos interessamos também em registrar a socialização e as características sociológicas culturais dos jornalistas profissionais que atuam na produção dos informativos televisivos.
Os gatekeepers
Os gatekeepers também estiveram presentes no nosso marco teórico como enfoque desta pesquisa. Como se sabe, o conceito de gatekeeper (selecionador) foi elaborado por Kurt Lewin em um estudo de 1947 sobre as dinâmicas que atuam no interior dos grupos sociais que, segundo destacou Wolf (1995, pág. 161), especialmente no que se refere aos problemas ligados à mudança dos hábitos alimentares. Segundo Lewin (1947, pág. 145), “identificando os canais por onde foi a seqüência de comportamentos relativos a um determinado tema, nota-se que existem neles zonas que podem funcionar como cancela, como porteiro: o conjunto das forças, antes e depois da zona filtro, é decididamente diferente, de tal forma que a passagem, ou o bloqueio, da unidade através de todo o canal depende, em grande medida, do que acontece na zona filtro. Isto acontece não só com os canais de alimentação, mas também com a seqüência de uma informação, dada através dos canais comunicativos, em um grupo”.
É exatamente na zona filtro onde atua o gatekeeper nos mass media, e principalmente nos meios televisivos. Existe um individuo ou um grupo de indivíduos que têm o poder de decidir se deixa ou não a informação.
Robinson (1981, pág. 97) afirma que “as decisões do gatekeeper são tomadas menos a partir de uma avaliação individual da noticiabilidade que em relação a um conjunto de valores que incluem critérios, sejam profissionais, sejam organizativos, tais como a eficiência, a produção das notícias, a rapidez”.
Essa filtragem feita pelos gatekeepers ao controle do processo informativo em seu conjunto foi analisado por Donohue-Tichenor-Olien (1972, pág. 43), segundo assinalou Wolf (1995, pág. 163):
“Na transmissão da mensagem através dos canais pode estar implicado muito mais que um simples rechaço ou aceitação (...) O gatekeeping nos mass media inclui todas as formas de controle da informação, que pode ser estabelecido nas decisões sobre a codificação das mensagens, da seleção, da formação da mensagem, da difusão, da programação, da exclusão de toda a mensagem ou de seus componentes”.

Distorção involuntária das mensagens
A distorção involuntária das mensagens foi analisada por Golding-Elliot (1979, pág. 12 In Wolf, 1995, pág. 165). Golding-Elliot (1979) afirmam que “(Passamos) do conceito de manipulação (entendida como) a distorção deliberada das notícias com fins políticos ou pessoais, conceito que regularmente limita a perspectiva daqueles que criticam os mass media para as distorções voluntárias e de breve prazo”.
O conceito de manipulação implica uma posição de equilíbrio da qual as notícias podem ser subtraídas devido a influência de preconceitos, de conspiração ou daqueles que possuem o poder político e comercial. Tal noção tem limites que são decisivos. Um é a impossibilidade de definir onde se situa, na realidade, esta posição de equilíbrio (...). O outro se associa à tentação de assumir que, se essas várias influências pudessem ser removidas e se os jornalistas pudessem ser libertados dos vícios que os unem, a autonomia profissional garantiria uma imparcialidade incorrupta e uma informação integral”( Wolf, 1995, págs. 163 a 167).
A noticiabilidade
Quanto aos critérios de importância e noticiabilidade nos informativos televisivos estudados para analisar sua linguagem (a palavra, a imagem e o som), utilizamos o enfoque de newsmaking das teorias comunicativas.
Como já havíamos proposto na parte correspondente às definições e conceitos deste estudo, a pergunta: Que imagem do mundo oferece os noticiários televisivos? – ou seja, como se associa essa imagem às exigências quotidianas da produção das notícias nos organismos televisivos – define, segundo assinala Wolf (1995, pág. 169) e escreveram Golding-Elliot (1979, pág 1), “o âmbito e expõem os problemas de que se ocupa o enfoque do newsmaking”.
Segundo dizem esses autores, “esse enfoque se articula principalmente dentro de dois limites: a cultura profissional dos jornalistas e a organização do trabalho e dos processos produtivos”.
Tuchman (1977, pág. 45) é a grande teórica deste enfoque, e suas teorias já foram tratadas amplamente por nós no início deste estudo. Na visão de Tuchman a cultura profissional dos jornalistas e a organização do trabalho e dos processos produtivos jornalísticos estão calcados no seguinte:
“O objetivo declarado de qualquer órgão de informação é oferecer relatos dos acontecimentos significativos e interessantes. Apesar de ser, evidentemente, um propósito claro, este objetivo é, como muitos outros fenômenos, aparentemente simples e inexplicavelmente muito complexo. O mundo da vida quotidiana – a fonte das notícias – está constituído por uma superabundância de acontecimentos (...). São esses acontecimento os que o órgão de informação deve selecionar. A seleção implica, pelo menos, o reconhecimento de que um acontecimento é um acontecimento e não uma casual sucessão de coisas cuja forma e cujo tipo se subtraem ao registro. O objetivo de selecionar se tornou mais difícil devido a uma característica posterior dos acontecimentos. Cada um deles pode exigir ser único, fruto de uma conjunção específica das forças sociais, econômicas, políticas e psicológicas que transformam um acontecimento nesse acontecimento particular(...). Do ponto de vista do órgão de informação é impossível aceitar essa pretensão quanto a todos os acontecimentos. Como qualquer outra organização complexa, um meio de informação não pode trabalhar sobre fenômenos idiossincráticos. Tem que reduzir todos os fenômenos a classificações elaboradas deliberadamente, como os hospitais que reduzem cada doente a um conjunto de sintomas e de doenças(...)”.
Estas exigências, que são devidas à superabundância de fatos que acontecem, indicam que os órgãos de informação, para produzir notícias, devem cumprir três obrigações:
1 – Devem tornar possível o reconhecimento de um fato desconhecido (inclusive os que são excepcionais) como acontecimento notável.

2 – Devem elaborar formas de relatar os acontecimentos que não levem em conta a pretensão de cada fato ocorrido a um tratamento idiossincrático.



3 – Devem organizar, temporal e espacialmente, o trabalho de modo que os acontecimentos noticiáveis possam afluir e ser trabalhados de uma forma planejada. Essas obrigações estão relacionadas entre elas.
Veron (1983, II) afirma que “os acontecimentos sociais não são objetos que se encontrem já feitos e cujas características nos são dadas a conhecer pelos meios com maior ou menor fidelidade”. Para ele, “os acontecimentos sociais só existem na medida em que esses meios os elaboram. A informação nos oferece a realidade selecionada e julgada, porque nunca é neutra”.
Para Wolf (1995, pág. 170) há restrições ligadas às organizações do trabalho sobre as quais se criam convenções profissionais, pois segundo afirmou Garbarino (1982, pág. 12), estas convenções profissionais são as que “determinam a definição de notícia, legitimam o processo produtivo, desde a utilização de fontes até a seleção dos acontecimentos e das modalidades de confecção, e contribuem a precaver-se contra as críticas do público”. Wolf afirma que “estabelece, assim, um conjunto de critérios de relevância que definem a noticiabilidade (newsworthines) de cada acontecimento, isto é, sua capacidade para ser transformado em notícia”.
A noticiabilidade está constituída pelo conjunto de requisitos que são exigidos dos acontecimentos – do ponto de vista do jornalista profissional dos jornais (e rádio e televisão) – para adquirir a existência pública de notícias. Tudo o que não corresponde a esses requisitos é excluído, por não ser adequado às rotinas produtivas e aos cânones da cultura profissional (Veron, 1983; Wolf, 1995).
Em outras palavras, pode-se dizer que “noticiabilidade corresponde ao conjunto de critérios, operações e instrumentos com os quais os órgãos de informação enfrentam a tarefa de escolher, quotidianamente, entre um número imprevisível e indefinido de fatos, uma quantidade finita e tendencialmente estável de notícias” (Ver Gabarino, 1982 e Wolf, 1995).
O poder do gênero informativo televisivo
Villafañe & Mínguez (Madri, 1996, pág. 244) opinam que “o gênero informativo é um gênero poderoso na televisão, pois além de seu poder publicitário pelas grandes audiências que convoca, sobre ele recaem as tensões e pressões do poder político sabedor de sua capacidade para criar opinião”.
Wolf (1995, pág. 170) compartilha essa formulação ao afirmar que “a noticiabilidade está estreitamente relacionada com os processos de rotinização e de padronização das práticas produtivas: equivale a introduzir práticas produtivas estáveis em uma matéria prima (os fatos que ocorrem no mundo) que é, por natureza, extremamente variável e impossível de ser prevista”.
Já para Tuchman (1973, pág. 160) “sem uma certa rotina da qual podem servir-se para enfrentar os fatos imprevisíveis, as organizações jornalísticas, como empresas racionais, falhariam”. Atheide (1976, pág. 113) salienta que “a definição de noticiabilidade vincula-se ao conceito de perspectiva-da-notícia (newsperspective), que é “a resposta que os órgãos de informação dão à questão que domina a atividade dos jornalistas: que fatos quotidianos são importantes?” (Wolf, 1995, pág. 171).
Seguindo as análises de Wolf (1995) e Atheide (1976), fatos quotidianos importantes que se transformarão em notícias são:
“As notícias são aquilo que os jornalistas definem como tal. Este assunto raramente é explicitado, dado que parte do modus operandi dos jornalistas é que as coisas acontecem lá fora e eles se limitam simplesmente a relatá-las”.
Neste sentido, Atheide (1976) assinala que “afirmar que fazem ou selecionam arbitrariamente as notícias seria contrário a sua posição epistemológica, uma teoria de conhecimento implícita, construída a partir de procedimentos práticos para resolver exigências organizativas”.

Fragmentação da informação e da noticiabilidade
Em última análise, para Atheide (1976), “notícia é o produto de um processo organizado que implica uma perspectiva prática dos acontecimentos, perspectiva essa que tem por objetivo reuni-los, oferecer avaliações simples e diretas, sobre suas relações, e fazer isso para entreter os telespectadores”. Essa factibilidade contribui para descontextualizar ou para tirar um acontecimento do contexto em que se produziu, a fim de poder recontextualizá-lo dentro das dimensões do noticiário” (Atheide, 1976, pág. 179 em Wolf, 1995, pág. 171).
O discurso, do ponto de vista da fragmentação da informação e da noticiabilidade, também foi examinado por esta pesquisa na ótica do newsmaking, da semiótica, da lingüística e das análises psicanalíticas.
Wolf (1995), Garbarino (1982), Golding-Elliot (1979), Findhal-Höjer (1981) Epstein (1981), Atheide (1976), Magistretti (1981) trabalharam com este tema dando importantes contribuições ao marco teórico proposto. Vejamos a opinião de cada um deles:
“O discurso sobre a noticiabilidade pode parecer, à primeira vista, um ataque aos fundamentos constitucionais da instituição jornalística” (Garbarino, 1982, pág. 9, em Wolf, 1995, pág. 171).
“Aquilo que o sociólogo descreve como conseqüência inevitável da organização produtiva, o jornalista entende como uma acusação de manipulação ou de incompetência”( Golding-Elliot ,1979, pág. 9 em Wolf, 1995, pág. 172).
“As poucas tentativas de descrever um tema mais a fundo são, geralmente, desprovidas de sistematicidade e pouco incisivas (...). A lacuna mais séria é o fato de que a metade dos temas estudados carece da informação em background ou aporta apenas referências incompletas aos fatos e motivos subjacentes. As causas dos acontecimentos são, muitas vezes, mencionadas de forma apressada, de passagem, em frases subordinadas, sem o destaque necessário (...). Comparando notícias breves e longas, sobre o mesmo acontecimento, observa-se que, em algumas notícias longas não se mencionam os fatores causais, enquanto que, nas notícias breves, esses mesmos fatores podem ser suficientemente tratados(...). Aquilo que geralmente é transmitido ao público é a localização dos acontecimentos, os indivíduos que estão implicados nele e pormenores como as designações geográficas, os nomes das personagens públicas (...). Esses elementos ocupam, automaticamente, o primeiro lugar na memória dos destinatários, enquanto que as conseqüências dos acontecimentos permanecem no fundo. O resultado é uma resenha fragmentada, cheia de pormenores isolados e à qual falta o contexto” (Findhal-Höjer, 1981, pág. 116 em Wolf, 1995, pág. 173).
“Os limites rígidos da duração dos noticiários e de suas dimensões fazem com que dois ou três minutos das notícias maiores não sejam suficientes para dar o contexto histórico ou geográfico da maior parte dos acontecimentos (...) A atenção fica centralizada no que acontece e não em seus objetivos ou em suas causas profundas” (Rostein, 1981, pág. 126 em Wolf, 1995, pág. 173).
“A noticiabilidade de um acontecimento está habitualmente sujeita a desacordo, mas depende sempre dos interesses e das necessidades dos órgãos informativos e dos jornalistas”(Atheide, 1976, pág. 112 em Wolf, 1995, pág. 173).
“O produto informativo parece ser o resultado de uma série de negociações, pragmaticamente orientadas, que têm por objeto o que é publicado, e o modo como é publicado no jornal ou no que é transmitido, e como é transmitido, no noticiário ou no telejornal”(Magistretti, 1981).
“O status de não especialista que o comunicador tem, os critérios produtivos vigentes, a natureza do meio de comunicação, o desejo que os comunicadores têm de manter a reserva de suas fontes, as opiniões que têm sobre as reações do público, tudo isso impediu que o programa televisivo se transformasse em um relato corrente do assunto tratado”(Elliot, 1972, pág. 149 em Wolf, 1995, pág. 174).

Os news values (valores-notícia) e as rotinas produtivas da noticia
Além do exposto anteriormente no corpus deste estudo, inclinamo-nos pelo enfoque do valor-notícia, que é definido por Wolf (1995, pág. 175) como: “os news values (valores notícia), um componente da noticiabilidade”. Esses valores, segundo destacou Wolf, “constituem a resposta à seguinte pergunta: Quais são os acontecimentos que são considerados suficientemente interessantes, significativos e relevantes para serem transformados em notícias?”
Neste caso nos fixaremos no que propõe Golding-Elliot (1979, pág. 100): “os valores-notícia derivam de pressupostos implícitos ou de considerações relativas”:


  1. Às características substantivas das notícias; a seu conteúdo;

  2. À disponibilidade do material e aos critérios relativos ao produto informativo;

  3. Ao público;

  4. À concorrência.


As rotinas produtivas jornalísticas
As rotinas produtivas foram examinadas nesta pesquisa a partir do ponto de vista teórico de Wolf (1995), Golding-Elliot (1979), Atheide (1976), Bechelloni (1982), Schlesinger (1978), Gans (1979).
Escassez de tempo e de meios são elementos fundamentais que acentuam a importância dos valores-notícia, “que se encontram profundamente enraizados em todo o processo informativo” (Wolf, 1995, pág. 195). Segundo este autor, as rotinas produtivas “se compõem de diversas fases, que variam segundo a organização de cada meio de comunicação (...). É possível ilustrar aqui as fases principais da produção informativa que mais incidem na qualidade da informação. As fases distinguidas por Wolf são:


  1. A escolha;

  2. A seleção; e

  3. A apresentação.

Cada uma delas dá lugar a rotinas articuladas e processos de trabalho, dos quais só alguns aspectos são tratados” Wolf (1995, pág. 195)


Por outro lado, Golding-Elliot (1979, pág. 102) afirmam que “a escolha das notícias nega o essencial da ideologia profissional que retrata o jornalista à caça das notícias, orientado para o exterior como ativo selecionador de informações, independente das fontes”. Na prática, “jornalistas de rádio e televisão estão relativamente limitados quanto à escolha que podem fazer, e a produção da informação televisiva é, em grande parte, expor as notícias que a redação não pode deixar de dar”.
A escolha factível “é proporcional aos recursos disponíveis, mas continua sendo a cereja que enfeita o bolo. Até nos órgãos de informação fortes e organizados observa-se, na fase da escolha, uma enorme utilização de notícias de agências e de algumas importantes fontes institucionais” (Wolf, 1995, pág. 196).
Sobre o “caráter regular, planejado e repetitivo deste tipo de canais e de modalidades de recolher as informações e, sobretudo, a impossibilidade de substituir as fontes institucionais”, caracteriza-se, segundo ressaltou Wolf (1995, pág. 198) “profundamente o tipo de cobertura informativa que, a partir destes pressupostos, é possível realizar”. Nesta acepção, Schlesinger (1978, pág. 105 In Wolf, 1995) afirma que a produção é:
“Organizada de tal modo que sua dinâmica fundamental realça o caráter perecível das histórias. Se uma notícia se alonga de um dia para outro, presume-se que o público depois de um dia de exposição a essa notícia está convenientemente familiarizado com o problema de forma que permite que o background seja dado como certo. O contrário desta questão é que existe uma tendência inerente às notícias que leva a que sejam enquadradas de uma forma descontínua e a-histórica (...) e, por conseguinte, a uma redução de significação”.
Agências de noticias e as rotinas produtivas
As agências de notícias estão situadas e implicadas nestas rotinas e nos problemas que se apresentam. Segundo alguns autores como Boyd Barret-Palmer (1981), Robinson (1981), Lepri (1982), Cesareo (1981) e Wolf (1995) “as grandes agências de notícias, supra-nacionais ou nacionais, constituem indubitavelmente a fonte mais notável de materiais noticiáveis: ignoram ou minimizam o valor de sua função, pretendendo que elas são iguais às fontes, o que equivale a rechaçar uma grande faixa do processo de mediação que separa as redações dos jornais e do rádio e televisão do movimento real”.
Wolf (1995, pág. 297) observa que “a informação quotidiana – especialmente a radiotelevisiva – é cada vez mais, e necessariamente, uma informação de agência cujo núcleo de apoio é constituído precisamente por essas fontes anônimas que raramente aparecem nos noticiários e nos jornais como origem efetiva de todo quanto é comunicado”.
Os estudos comparativos sobre as instituições televisivas suecas, irlandesas e nigerianas feitos por Golding e Elliot distinguem três aspectos significativos ligados à utilização das agências, Wolf (1995, pág. 207):
1 – Apesar das diferenças de avaliação acerca da atendibilidade e da credibilidade de cada uma dessas grandes agências supranacionais (Asociated Press, United Press International, norte-americanas; Agence France Press, francesa; Reuter, inglesa; Tass, soviética), as agências são (e como tal são consideradas) fontes literalmente insubstituíveis, das quais não se pode prescindir por motivos econômicos(...);

2 – Reforço de noticiabilidade, provocado pelo papel insubstituível das agências transnacionais, para as diferenças existentes entre os diferentes órgãos de informação; e



3 – A cobertura das agências alerta as redações sobre tudo o que acontece no mundo e a partir desse conhecimento as redações procedem a sua própria cobertura.
O editing - Editando as notícias -
O processo da edição e apresentação das notícias é outro fator importante que foi abordado dentro do marco teórico das teorias comunicativas no que se refere ao editing. De acordo com os autores Wolf (1995, pág. 219) e Atheide (1976, pág. 97), “o processo de tratamento não pode ser explicitado nos noticiários”; se o fosse, afirma Atheide, “destruiria a convicção que o público tem de que a pretensão do órgão de informação não é criar as notícias, mas apenas retratá-las”.
A fase de preparação e apresentação dos acontecimentos dentro do formato e da duração dos noticiários consiste, precisamente, em anular os efeitos das limitações provocadas pela organização produtiva, para restituir à informação seu aspecto de espelho do que acontece na realidade exterior, independentemente do órgão informativo, Wolf (1995, pág. 219)
Se todas as fases anteriores funcionam no sentido de descontextualizar os fatos do quadro social, histórico, econômico, político e cultural em que acontecem e em que são interpretáveis (isto é, no sentido de ajustar os acontecimentos às exigências de organização do trabalho informativo), nesta última fase produtiva, acontece uma separação inversa: recontextualizam-se esses acontecimentos, mas em um quadro diferente, dentro do formato do noticiário (Wolf, 1995, pág. 219-220).
Calabrese e Violli (1980) e Wolf (1995, págs. 221 e 222) afirmam que “a fragmentação dos conteúdos e da imagem da realidade social se situam exatamente entre esses dois movimentos: por um lado, a extração dos acontecimentos de seu contexto; por outro, a re-inserção dos acontecimentos noticiáveis no contexto constituído pela confecção, pelo formato do produto informativo”.
É importante notar “que a rigidez do formato (uma duração pré-estabelecida e estável, uma ordem no esquema pré-fixado e respeitado) acaba por constituir o parâmetro ao qual são adaptados os conteúdos do noticiário: neste sentido, representa o contexto (formal, textual) em que a relevância e o significado da notícia são captados e com relação ao qual são avaliados”, (Calabrese/Violli , 1980 e Wolf, 1995). Ou também, “representa também o contexto em outro sentido: é dentro do quadro do formato onde opera o mecanismo de dependência de sentido ligado à aproximação de duas notícias entre si, aos critérios de calibragem do ritmo interno do noticiário”.
Atheide (1976, pág. 85) e Wolf (1995, pág. 220) são da opinia que: “o editing tem, portanto, como objetivo oferecer uma representação sintética, necessariamente breve, visualmente coerente e possivelmente significativa do objeto da notícia”. Produz-se aí o highlighting provocado pela transformação no modo de condensar, focalizar a atenção em certos aspectos do conhecimento. O highlighting foi definido por Gans (1979) “como a seleção dos aspectos evidentes de um acontecimento, ação ou personagem, que obtém, anulando os aspectos previsíveis e tudo o que não pareça ser suficientemente importante, novo e dramático”. Wolf, crê que “filmar imagens que acompanham uma notícia, tendo em mente a possível montagem, significa concentrar-se nos aspectos considerados profissionalmente mais idôneos para ilustrar o acontecimento, ou seja, significa operar tomando como base os valores-notícia”.
Vilches (Barcelona, 1993, pág. 100) observa que “nas páginas de Encoding/ Decoding (1973) Hall analisa em primeiro lugar o conceito de signo televisivo. Remetendo-se ao signo icônico de Peirce (1965-1966) – como aquilo que possui algumas propriedades da coisa representada – recorda que a realidade existe fora da linguagem, mas constantemente mediatiza a linguagem”.
Da mesma forma que R. Barthes (1964, 1970), Hall fala da confusão da teoria lingüística ao definir os termos de conotação e denotação. Vilches (Barcelona, 1993, pág. 100) assinala que “acontece que o signo televisivo, como toda imagem, é vulnerável a ser lido como natural”.
A ideologia no sentido althusseriano (Althusser, 1971) da representação imaginária das relações dos indivíduos com suas condições reais é um sistema de codificação. Isto implica que “não se pode dissociar as regras formais e os códigos televisivos das condições sociais e culturais que criam o uso dessas regras”, destaca Vilches (1993, pág. 100).
O sistema de decodificação dos espectadores tem regras oriundas da própria cultura: “a forma em que cada cultura codifica seus signos constitui verdadeiros mapas de significação. A forma como as pessoas aplicam esses mapas de significação constitui regras de competência cultural”, Vilches (Barcelona, 1993, pág. 100).

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