O outono II com fotos



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O OUTONO II COM FOTOS

WALDO LUÍS VIANA


O OUTONO DO MEU TEMPO II,

A MISSÃO!
MÃOS AO ALTO, BRASIL!




TERESÓPOLIS

2009

A meu pai, o velho Waldo, exemplo de dignidade humana,

que me ensinou a ser um cidadão do bem...


Prólogo
(todo livro tem de ter um...)

O livro “O Outono do Meu Tempo”, o primeiro, coletânea de artigos para homenagear os meus 50 anos, não saiu. Não pôde ser editado, porque era ruim e não possuía valor comercial. Aliás, nada do que escrevo tem valor comercial. É tudo muito ruim, o que é que eu posso fazer? Não sou grande escritor mesmo, mas escrever, para mim, é questão de sufoco! Ou escrevo ou morro!


O processo é assim: a realidade funesta de meu país cai, de cambulhada, por cima de mim e começo a ficar nervoso, me sobe uma falta de ar, vermelhidão, dor no peito e aí, sento em frente ao computador e começo a desovar a minha férula! Todo o estupor com o que vejo, contravejo e não posso, em silêncio, me opor!
O Brasil me comove assim como os seus homens públicos! Como o país é grande e como os seus políticos são pequenos, hipócritas e sórdidos! Já se disse que aquilo que os últimos estragam de dia, a nação conserta à noite! Isso eu ouvia, como novidade, quando tinha 14 anos! Agora, com 54, ficou entre o ridículo e o ainda pior!
Aí eu sento, diante do computador, e baixa um santo, espécie de vingador-guerreiro com sangue na boca, as mãos vão palmilhando nervosamente o teclado e, quando vejo, novo artigo foi escrito! Lá está o ponto final e nem revisei o começo...
Dá-me vontade de conversar com alguém, mas os acontecimentos na Internet vão se atropelando, interpenetrando-se e-mails de amigos que sofrem problemas semelhantes ao meus e vou compondo um “dlog” (“delivery blog”), espécie de carta para um conjunto de endereços eletrônicos replicados por pessoas que sofrem do mesmo modo. No fim foram artigos arremessados e replicados entre milhares de internautas...
E surge uma peça crítica conforme o meu jeito, sem a censura prévia a que são submetidos meus colegas jovens dos jornais, sempre à mercê do lápis vermelho dos diretores de redação, que, por sua vez, se reportam à visão seletiva dos departamentos de contabilidade dos patrões!
Como não viso a faturamentos, vou levando e – graças a Deus – muitas respostas simpáticas vieram e meus escritos foram sendo lidos, marcados e comentados. Colecionei tantas repercussões, tantos conselhos para fazer novo livro – apesar da teimosia crônica em não fazê-lo – que aí ele está, quase independente de minha vontade, como filho independente que sai de casa e deseja até me trair...
Sinto os ardis do cabo da boa esperança que afligem o homem da meia-idade que vê a tal 3ª e última idade batendo à porta. Sempre fui boêmio e destrambelhado na juventude, cultivando amigos, inimigos e pecados que todo escritor e poeta deve assumir e manter. Não me arrependo de haver errado e cometido enganos!
Estou plenamente convencido – não da inocência, como alguns políticos – mas da ruindade dos escritos e da mediocridade do meu pensamento! No entanto, não posso deixar de convir que tudo o que saiu, veio do coração sangrando e ele se curou, parcialmente, quando disse as sandices todas que veremos a seguir...
Se você estiver planejando encontrar belezas bíblicas, previsões quixotescas ou os conselhos de um mago compostélico, guarde o tempo livre, feche imediatamente o volume e vá ler coisa mais útil, porque sou reles escritor brasileiro à procura de consolo ao se saber, na rotina, um ser proscrito!
Sou do tempo – e olha que já estou no fim do outono! – em que se ensinava patriotismo com aulinhas idiotas de moral e cívica. Tive que descobrir depois, sofrendo, com amargura, em dura cerviz, que o patriota vai surgindo das cinzas da própria descrença, quando percebe que o passado era melhor que o futuro e que, como poeta, fui um dia feliz e nem sabia...

Teresópolis, outubro de 2009.

O autor.

FINALMENTE, ENFURECI!

Acordei de madrugada, neste outono de terremoto, a pensar sobre o que aconteceu realmente em meu país. Todo mundo já disse tudo. A imprensa golpista, a imprensa esquerdista que não se diz golpista (aliás que caricatura grotesca o esquerdismo a favor!) – e fiquei matutando: o que nos aconteceu?


Os políticos continuam os mesmos, safados, entre uísques, interesses e amantes, procurando os seus cadinhos, como moscas em volta das fezes do poder. Uma Pátria dirigida por pútridos, em sucessão de escândalos que não dá pra registrar, empreiteiros, bicheiros, lobistas, vigaristas, assessores, falsos empreendedores com escritório de fachada, amantes em busca de carteiras gordas e uma gravidez premiada, traficantes pequenos e grandes, a cocaína e a prostituição à solta, a pornografia invadindo os olhos dos nossos filhos pela internet e a corrupção vitoriosa, tão inexcedível em seu poder de persuasão, que os corruptos levam os filhos de carro blindado para a escola e seus netos serão inevitavelmente chacinados por alguém, desesperado, que o gordo, careca, de terno cinza e gravata vermelha, com certeza no passado prejudicou...
O que aconteceu neste país que nossos vizinhos querem tomar nossas riquezas e os índios e ONGs estrangeiras nossos territórios e minerais? Onde generais, sempre ciosos do respeito à hierarquia, acalmam as suas mulheres nos travesseiros noturnos, dizendo que com certeza virá o próximo aumento para a tropa? E olha que mulher de militar é fogo, hein, tem coragem...
O Brasil, como dizia o velho general Golbery é um barril de pólvora. E dizia mais: entre sístoles e diástoles vamos desdobrando nosso vil destino, enquanto as maiorias não cobram o seu quinhão. Esperemos, pois, que a Rocinha desça um dia e tome São Conrado, onde reside o Sr. César Maia e outros que tais. Vai ser uma novela da Rede Globo. Ainda bem que o Projac fica mais longe...
Cá estou eu, diante do computador que ainda me resta, pensando em meu país, sem dormir, como o velho seringueiro de Mário de Andrade. De que adianta pensar que minha filha está longe e se atravessar minha cidade de madrugada possa levar uma bala perdida? E o festival em torno da morte da menina Isabella? A mãe verdadeira já está sendo envolvida por duplas caipiras e talvez se torne artista do próximo Big Brother...
Tudo nessa terra é banalização. Vivemos a morte bem morrida da ética. Eu também tenho os meus pecados, como cruel mortal, mas diante do que vejo, das carnificinas, das bocas de fumo, dos caveirões e fuzis AR-15, sou reles e ingênuo inocente.
Escritor e poeta com tantos livros a publicar, outros no estrangeiro porque minha gente não me deseja ler, porque não apanhei da ditadura (tinha quinze anos quando ela explodiu) e não posso nem requerer indenização...
O que aconteceu, meu Deus, a meu país, em que as mulheres precisam tirar a roupa para subir na vida e encontrar um figurão para escorar o divórcio. Em que as prostitutas são seres dos mais nobres porque fazem distribuição de renda: tiram dos homens mais velhos o dinheiro que revertem para os filhos mais novos, que não pediram para nascer...
E nossos aposentados, roubados a cada dia em seus proventos de vento, não podem recorrer a ninguém, já sem forças. Os que lhes esmagam serão velhos um dia também, mas vivem da esperança de repatriar o dinheiro de paraísos fiscais, onde os brasileiros detêm 150 bilhões de dólares e não receiam qualquer guerra e, no íntimo, fazem previsão meteorológica de que jamais haverá um tsunami no Caribe...
Nossos juros, os mais altos do planeta, para conter o egoísmo da inflação produzido por nossas elites. Nenhuma idéia nova. Só a mesma ortodoxia econômica da Escola de Chicago. Como se o sol nascesse a cada dia por causa do Itaú, do Bradesco e do Banco de Boston. Essas instituições não valem a beleza de um carvalho, nem o pescoço de uma vaca pendido no pasto...
O Brasil da dengue, dos seios siliconados, da febre amarela, do carnaval do abadá e do rouba-cá, das geladeiras novas do bolsa-família para poupar energia, enquanto entregamos Itaipu para o falsificado irmão Paraguai, da solidariedade latino-americana que é sempre contra nós, dos norte-americanos que ainda pensam que comemos bananas e temos cobras pelas ruas passando entre tiros de fuzil, pobre Brasil, em que os poetas não estão nas praças públicas, mas trombadinhas e mulheres grávidas morrem nas portas dos hospitais públicos, aqueles da saúde quase perfeita.
Afinal temos um PAC de placas, discursos e pedras fundamentais, pastores bandidos que devem ao fisco e não podem ser investigados porque têm bancadas parlamentares, um congresso fascista, movido a facções profissionais como queria Mussolini, e uma falsa esquerda, sempre ética antes de chegar ao poder e coberta de dossiês e socialismo de mercado quando encontra com ele. Pobre país em que temos quase 50 ministros, como na extinta União Soviética e 22 mil cargos de confiança, como em qualquer ditadura africana.
Onde isso tudo vai acabar? Em nada. Na minha cama, Para onde irei como sempre, assustado, à espera do efeito do calmante...

VOU PEDIR UM EMPREGUINHO AO LULA!

À luz das últimas pesquisas que lhe dão 50% de popularidade, inclusive entre as classes ricas, joguei a toalha. Meu vizinho socialista, que quer a redenção do proletariado, mas xinga a empregada quando ela pede aumento, já me falou que não adianta lutar contra a realidade!


Lula, você é o maior! É o nosso condutor! Não existe mais nada no Brasil a adorar, abaixo de Deus, que não seja você. Aliás, como todo conservador “que se acha...”, você é, sem dúvida, um “secretário de Deus”.
Felizmente, você veio cuidar de nós. E já não era sem tempo. São Lula, de barbicha e língua presa, tende piedade de nós! E eu, pobre mortal, que vivo sem patrão desde 1987, tenciono agora declinar de minha oposição. Ó presidente, mil perdões!, estava de birra. Sabe como é, eu sou um invejoso que não tem emprego em estatal e não fui nomeado Assessor de Documentação dos Discursos do Presidente Feitos de Encomenda para Ocasiões Especiais, nem encaminhado para a Gerência Especial da Secretaria Adjunta dos Projetos Levados à Subchefia da Casa Civil, mas gostaria de encontrar o meu lugar junto à divindade!
Sabe, Pai Lula, tenho até bom currículo: sou economista, poeta, jornalista, escritor e quase poliglota. Escrevi minha vida inteira e até tinha convicções e princípios, mas, eles não são populares junto ao senhor, que não me considera um “cumpanhero”. Então, resolvi fazer como Groucho Marx: não!, não é aquele tal de Marx que buzinam no seu ouvido, mas um humorista norte-americano que assinalou um dia: “se você não gosta dos meus princípios, não importa, tenho outros!”. Assim passará a ser comigo, também, Pai Lula. Estou me desligando de meus princípios em direção ao senhor, de mãos estendidas, suplicando-lhe um emprego.
Sabe, a barra está muito pesada para quem não tem carteirinha do PT. Até meu vizinho socialista me falou, entre uma baforada de charuto Cohiba e outro, tomando o seu uisquinho, que a luta entre os petistas está muito encarniçada. Os que tem boquinha e os que não tem. É uma espécie de PT1 versus PT2, este último em busca de cargos, onde eles estiverem. E o senhor sorri, magnânimo, estimulando as divisões para reinar. Eta, Maquiavel da gota...
Mas são 37 ministérios, mais os gabinetes da presidência, deve ter um lugarzinho para mim! Sei que falei mal do senhor a vida inteira, mas é sempre bom atrair mais um aliado. Sempre achei que seu governo foi, sem a menor dúvida, o mais corrupto da história deste país – e olha que estudei história – e o senhor, tão bonzinho, botou um americano-descendente em seu governo que fala até português, um “maria-mole”, um aloprado intelectual que esqueceu exatamente do julgamento tão áspero feito antes. Afinal, meu Deus, posso ficar igualzinho a ele e esquecer tudo o que escrevi e cometer os mesmos pecados...
O senhor tem um líder no Senado que é fazendeiro sublunar e pertenceu a todos os governos. Eu também sei fazer contorcionismos verbais e de coluna vertebral, desdizendo tudo o que disse: afinal a vertigem de um empreguinho, uma sinecura governamental vai me fazer um bem enorme. E tenho filha pra criar, etc.
E quanto a seu apoio paternal a todos os corruptos – será que o senhor abriria uma exceção para um pobre intelectual que jamais traficou nem se corrompeu, nem tem ficha policial, coitado de mim (preciso arranjar!), mas agora está disposto a ter uma vida diferente para pertencer ao seu time?
Pelo amor de Deus, Pai Lula, me dê um encostozinho entre 6 e 20 mil e irei para as esquinas para contar os seus feitos. Eu, que uso minha pena para mover e comover, vou gritar aos quatro ventos que vivo no paraíso, que meu presidente é o maior! Deu-me até um empreguinho de consultoria no ministério da Cultura, com aquele ministro baiano que trata da “repimboca da parafuseta da extrovenga dos afro-descendentes emergentes”...
Ah, já ia me esquecendo. Eu sou um deslocado, meio assim, como dizem os ianques imperialistas, “drop out”. Sabe, presidente, eu sou abraão-descendente, ainda não sou idoso, não sou gay, não sou afro-descendente, não sou portador de necessidades especiais (só a de pertencer ao seu magnífico governo), apenas tenho hipertensão moderada e estranhamente fiquei um pouquinho diabético depois que o senhor assumiu. Olha, eu garanto, também tomo umas biritas nas horas vagas e como tenho muitas horas vagas... Mas o grave é que com esse quadro não existe nenhuma ONG para me consolar, desovando recursos voluntários (ou de Plutão) para o meu bem-viver...
Assim, Pai Lula, como presente de Natal, no espírito da boa-vontade, veja se me arranja um empreguinho federal, de malandro público, porque a barra está pesada e meu vizinho me chateia muito.
E tenho certeza de que, a custa do povo, não será um empreguinho, será um empregão...


O CULTO À PERSONALIDADE

Francis Ford Copolla, o grande diretor de cinema contemporâneo, brindou-nos com uma cena antológica no filme O Poderoso Chefão II, em que o mafioso mais jovem pedia a seu pai, adoentado e velho, um conselho para continuar a dirigir “os negócios”. O capo debruçou-se sobre o jovem e lhe disse, em tom hierático: “meu filho, lembre-se de que todo mundo pode morrer”...


Tal cena veio-me à mente ao refletir sobre a aprovação popular do presidente Lula, em 73%, o que tem espantado muita gente. Seu governo, por sua vez, aprovado em patamares mais modestos, de 58%, parece ter sido tomado por uma onda incomensurável de auto-elogio e auto-suficiência, apesar de todos os escândalos de corrupção que sempre contornaram a administração petista.
Lula é fiador de todas as acomodações e aparentemente alheio às manobras da oposição atônita. Parece indestrutível e invulnerável, como se extrapolasse qualquer condição típica do homem comum. É gênio. O terceiro mandato voltou a ser discutido por todos e o presidente, fingindo que o poder não é um grande prazer, diz que não o quer. E teimará até o fim com a pantomima, aceitando a missão depois, docemente constrangido...
Em volta dele, os áulicos constroem as estratégias mais complexas para a mudança constitucional e até o vice-presidente, estribado nas facilidades de dizer o que quiser sem poder ser criticado, em virtude da terrível doença de que é portador, afirma que “é isso o que o povo quer”.
Muitos se esquecem, porém, que a história é mestra da vida e o Brasil não está fora da História. Os exemplos de culto à personalidade, que é a exaltação das virtudes de um governante em regimes autoritários visando à sua perpetuação no poder, geraram muitos monstros e grandes sofrimentos aos povos atingidos. Se ficarmos no critério de avaliação popular, por exemplo, teríamos Hitler, na Alemanha e Mussolini, na Itália, como paradigmas de excelência. Eram estimados, temidos e seguidos por quase todos, até o momento em que caíram em desgraça. Após as respectivas derrotas, sumiu como por encanto a maioria dos nazistas e fascistas do solo europeu...
Stálin, um dos maiores assassinos do século XX, que matou mais gente do que Hitler, era venerado pelo povo, a ponto de, por ocasião de sua morte, em 1953, milhares de russos, tomados por profunda tristeza, se suicidarem ou terem sido pisoteados diante de seu esquife. Logo após a morte do grande líder, Nikita Khrushchev, tendo assumido o comando do Partido Comunista da extinta União Soviética, recomendou que os adeptos do regime, no mundo inteiro, abjurassem o stalinismo e renunciassem ao culto de sua personalidade, no que não foi seguido por muitos, que não aceitaram que o genocida fosse derrubado do pedestal.
Mao Tsé-Tung, na China, Pol Pot, no Camboja e Ho Chi Min, no Vietnam, foram exemplares convictos desse culto, que contemplou também, ditadores como Anuar Kadhafi, na Líbia, Abdel Nasser, no Egito, Mobuto e Idi Amin Dada, na África Central. À sombra desses senhores, milhões de mortos, com certeza. Recentemente, tivemos a punição, por enforcamento, do ditador Saddam Hussein, culpado por centenas de milhares de mortes no Iraque e motivo de suspeita infundada pelos norte-americanos de colaboração com o terrorismo islâmico da Al-Qaeda.
No entanto, é insuperável, em termos de culto à personalidade, o presidente vitalício da Turcomênia, na Ásia, Saparmurat Niazov. Como não existe imprensa privada em seu país, ela não se cansa de elogiar, diariamente, a sabedoria e os feitos do genial dirigente, escritor e poeta. Sem embargo de representar uma dos ditadores mais sangrentos da região, Niazov não se cansa de declarar que não aguenta os elogios copiosos de jornalistas e intelectuais: “se tivesse aqui ao lado um buraco, cairia dentro dele para fugir aos vossos elogios” – comentou, também docemente constrangido o ditador, em 2003. O “pai de todos os turcomenos” chegou a instituir um concurso na televisão para premiar “alguém que menos elogiasse” o amado presidente, apelando aos membros do governo para que não estimulassem mais o culto à personalidade. Tudo em vão, porque a onda de “amor e carinho” pelo grande líder transbordou para além das fronteiras do país.
Acreditem se quiser, mas temos na África vários ditadores recentemente promovidos por nossa diplomacia a ciosos colaboradores do Brasil. Com eles, nosso presidente estreitou respeitoso diálogo, esperando compreender como alguns deles conseguiram manter-se mais de trinta anos no poder. Quem sabe, seja uma conversa sobre “exportação de tecnologia” governamental...
É claro que não podemos deslocar os exemplos extremos dos ditadores genocidas para analisar o culto à personalidade sobre os presidentes latino-americanos Hugo Chávez e Lula da Silva. Sua popularidade advém do consentimento popular, mas eles demonstram com diversas atitudes pretender uma espécie de apropriação espiritual das massas, assim como fizeram, antes, os inesquecíveis Juan Perón e Getúlio Vargas.
Hugo Chávez acredita-se “herói bolivariano” e artífice de uma “Nova Colômbia”, que congregaria a Guiana, a Venezuela, a Colômbia e o Equador como um só território socialista, em moldes cubanos. Por sua vez, Lula não tem pretensões imperialistas, mas constrói uma espécie de tentativa de unanimidade, em torno dos programas sociais dirigidos às camadas mais baixas, procurando manter, por outro lado, a legitimidade do poder premiando a banca internacional e seus agentes no país com os juros mais altos do planeta. Sua política “esperta” tem dado bons resultados e colocou a popularidade presidencial nas alturas. E Lula, como todos os demais líderes autoritários, tem interlocução direta com as massas, sem precisar de ninguém, nem de partidos, nem de opositores, nem tampouco de sucessores...
O único defeito de sua trajetória, no entanto, é o que afetou historicamente os ditadores acima citados. Quanto mais poder e mais popularidade, mais o presidente está só. A execução dos projetos – e essa é a semente do totalitarismo – depende somente dele. Tudo é com ele mesmo, apesar de mais de quarenta ministros...
É engraçado como o líder amado pelas massas pode parecer bondoso e magnânimo. Lula sobe aos palanques, numa eterna campanha que jamais termina, e lisonjeia os pobres, como se fosse o eterno mocinho. Nada o abate e, com grande altivez, o presidente paralisa e destrói eventuais adversários, amigos e inimigos. Não há solução para o país a não ser por ele, nosso guia e cuidador. Não é uma questão de forma, mas uma questão de fundo. No entanto, o Brasil, cadinho de raças e experimentalismos sociológicos, apesar da natureza tropical e bruxuleante, pertence ao mundo e não foge aos tentáculos da História.
Getúlio Vargas, que governou por quinze anos como ditador, e não terminou seu mandato como líder eleito, falava em “meu curto período de governo”. Era adorado pelas massas e acabou com um tiro no peito. Longe de mim desejar tal futuro para o nosso presidente – até porque já se disse que a história se repete como farsa ou tragédia – mas não custa nada também o grande Lula recomendar moderação a seus aliados, lembrando o conselho do velho mafioso de Francis Ford Copolla.

A ORIGEM DO PODER

Nestes tempos movediços em que se ensaia, de modo até um pouco artificial, uma pretensa questão militar (como se forças armadas condenadas ao tecnicismo e à sombra pudessem forjar algum verdadeiro e legítimo líder político) – podemos relembrar, a propósito, o contexto de uma sucessão, outrora falsamente pacífica, entre os generais-ditadores Ernesto Geisel e João Figueiredo.
Como ocorre naturalmente em política, uma coisa é o que o fato mostra na superfície e outra o que representa, nas profundidades: parecia a todos que o general, em término de mandato, passaria mansamente o bastão ao próximo general, daquela vez agraciado com período de seis anos. Figueiredo era figura polêmica, homem de linguagem desabrida, um “falso burro” no estilo típico, espertamente espalhado antes por Benedito Valladares e hoje, por alguém que frequenta nossa casa todos os dias em horário nobre, pela TV.
O postulante ao novo mandato presidencial era homem de cara fechada, militar de cavalaria aparentemente tosco e grosseiro e mente de grande lucidez matemática. Quem conhece um pouco das teorias da neurolinguística e inteligência emocional sabe do que estou dizendo. As inteligências são divididas, assim como os homens e, infelizmente para os socialistas, são desiguais. Os neurocientistas, hoje, identificam oito tipos de inteligência e não estão muito distantes, no entanto, dos antigos, que dividiam nossa educação entre as disciplinas de gramática, retórica, lógica, aritmética, música, geometria e astronomia. Assim, as famílias destinavam seus filhos para ser profissionais do Direito, quando detestavam matemática, para a Engenharia, quando gostavam dos cálculos e para a Medicina, se tivessem vocação científica para curar ou cuidar. Era de bom tom, por outro lado, que os filhos que não tivessem vocação para o comércio fossem consagrados à poesia ou à religião. E assim caminhava a vida...
Figueiredo surgia como postulante como o pináculo do poder do Serviço Nacional de Informações, monstro criado pelo general Golbery para vigiar permanentemente as esquerdas. De quebra, tinha os prontuários de todos os corruptos ou quase corruptos da República e não os revelava. Eram dossiês cuidadosamente guardados a sete chaves para a boa hora da chegada ao poder. E a hora chegara...
Durante a “campanha”, Figueiredo recebeu apoio de vários segmentos da sociedade brasileira, interessados no projeto de aprofundamento da distensão, lenta, gradual e segura iniciada por Geisel, que cancelou o Ato Institucional nº. 5, que lhe conferia poderes tão imperiais quanto os antigos reis de Portugal e Espanha, que seguiam as Ordenações Filipinas. Os adeptos da anistia ampla, geral e irrestrita, do restabelecimento de algumas franquias democráticas e o afrouxamento da censura afeiçoaram-se àquele que parecia ser o último presidente do longo período ditatorial.
No entanto, houve um fato marcante nessa caminhada “pré-eleitoral”. Visitado por tantos, temido por outros, Figueiredo deslocou-se humildemente, mesmo na condição de general da mais alta hierarquia, à sede do Alto Comando do Exército, carinhosamente apelidado de “Forte Apache”, para pedir apoio a seus colegas de farda. Recebido efusivamente, respondeu com elegância à pergunta, propositalmente feita diante dos repórteres: disse que estava ali porque sabia que era naquele lugar em que repousava, em realidade, a origem de todo o seu futuro poder. O presidente que pediu, seis anos depois, que o esquecessem, que preferia o cheirinho de cavalo ao cheirinho do povo, como bradou em uma de suas desagradáveis tiradas, bem sabia quem lhe asseguraria a tranqüilidade devida para governar.
Hoje, em ambiente aparentemente diverso, temos um presidente eleito democraticamente, com espantosos índices de popularidade e audiência. Navegamos no melhor dos mundos, mar calmo, céu de brigadeiro, no estilo perigoso das calmarias podres. Livramo-nos do doce FMI, da dívida externa, temos reservas compradas a 14% e ordenhadas a 2% lá fora, não temos crise de alimentos nem de energia e a educação e a saúde “são quase perfeitas”. Ah, estava me esquecendo: nossos impostos são menores do que nos tempos de Tiradentes. Tão querido é o presidente que a população lhe pede, de joelhos, que dispute um terceiro mandato. Em 183 milhões de brasileiros, não há ninguém que se equipare ao seu tirocínio e capacidade de governar. Talvez, aglutine em si mesmo as oito inteligências da neurociência e nem saibamos...
Há pouco tempo, o presidente vetou dispositivo que permitisse a fiscalização do Tribunal de Contas da União sobre as Centrais Sindicais. Não liquidou a Era Vargas, como desejava o seu antecessor, o tal da “herança maldita”, mantendo a obrigatoriedade do imposto sindical, a unicidade regulada e os dispositivos que tornam secretas a destinação das verbas dos neopelegos. Essa estrutura neopatrimonialista, que mama nas tetas do Estado, como alguns empreiteiros durante a ditadura, é a tropa de choque sem armas, é a origem do poder e da estabilidade do atual governo.
Todos foram cooptados e estão distribuídos por ministérios, autarquias, empresas de economia mista e fundos de pensão. O mesmo aparelhamento de inspiração varguista, deixando os rentistas soltos para traficar e multiplicar os ganhos aqui e no exterior. Lembram-se dos lemas: “pai dos pobres e mãe dos ricos”? Depois vimos o célebre: “o país vai bem, mas o povo vai mal” e, finalmente, “nunca neste país”. Agora, tenta-se empurrar uma maternidade espúria ao Plano de Aceleração de Crescimento, uma espécie de espasmo caritativo do patrimonialismo governamental ao mais pobres, acionando a infra-estrutura instalada e sequiosa de obras, comissões e dispersão de doações para futuras campanhas eleitorais.
Temos as mesmas equações políticas que sempre permearam a vida política do país: o rouba-se para se eleger e se elege para roubar e aquela constatação de que o Estado é dividido entre os que estão roubando e os que querem roubar. Nada muda, meu Deus. Apenas as moscas...
Nessa perspectiva, nota-se interessante movimento sociológico de abandono dos movimentos sociais que lutam pela reforma agrária “na marra”, porque estão sendo esvaziados os seus recursos em favor das centrais sindicais amarradas ao governo. Com o agronegócio a pleno vapor e os planos para os biocombustíveis, não interessa contrariar os latifundiários e grandes empresas rurais. O cotidiano do governo é um eterno assembleísmo, permitido pela Justiça Eleitoral devidamente calada, em torno de um líder inflamado eternamente em campanha, aplaudido efusivamente por ricas centrais sindicais.
Não é preciso que os 50 ministérios não se articulem, “não conversem direito” – como afirmou o presidente. Basta que os banqueiros e plutocratas estejam satisfeitos; os líderes sindicais aplaudam qualquer raciocínio que os mantenha dirigindo sindicatos de fachada, que nada mais significam ou reivindiquem; que o Legislativo continue impune, sem trabalhar, e discutindo as futuras eleições em recesso branco e que o Judiciário mantenha as sinecuras, a lentidão, o conservadorismo do mérito e a imensidão de seus palácios em que não entra o povo – enfim, basta que o Brasil continue a bancar uma gigantesca assembléia sindical manipulada, que não sentiremos o tempo passar e que as coisas permanecerão como sempre estiveram.
Os imperadores romanos davam pão e circo e o nosso imperador, também. O povo tem tudo o que tem – assim ele pensa – mas, apesar dos institutos de opinião, com suas estatísticas esotéricas, o mundo se move, a história se move e o Brasil dentro deles.
Não adianta a oposição brandir com escândalos que é malhar em ferro frio: como disse o José Serra, o povo não entende o que é dossiê, pensa que é doce! O aparelhamento estatal e a força dos sindicatos, que já faz o presidente abrir mão de agüentar a chatice do MST, das FARC e do Foro de São Paulo, garantem-lhe o poder e o futuro. Esse é o seu Alto Comando, onde humildemente deposita flores e esperanças. Resta saber se o esquema sobreviverá sem fissuras e se essa tecnologia de poder, da mesma forma que no caso do João Figueiredo esquecido, não sejam superados por forças ocultas irresistíveis que estão sendo gestadas, humildemente, no horizonte. Mas essa é uma outra estória a ser contada...


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