O par Perfeito



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O Par Perfeito

The Perfect Father



Penny Jordan

Samantha Miller ansiava por formar uma família, mas bons partidos estavam em falta.

Talvez visitar sua irmã, casada e feliz, na Inglaterra ajudasse...

Liam Connolly deveria estar aliviado ao vê-la partir para outro país. Desde adolescente, Samantha tinha uma queda por ele... Mas Liam conseguira resistir à impetuosidade dela ao se convencer de que não faziam um par perfeito. Então, por que, depois de ela confessar o motivo de sua viagem à Inglaterra, Liam subitamente descobriu que queria ser o homem a lhe dar seus filhos?
Digitalização: Rita de Cássia

Revisão: Gabi



Capítulo Um

— Grande jogo, Sam! Nunca esperei ver uma mulher ganhar o troféu de ouro da empresa.

— Sam não é uma mulher. Mulheres são pequenas, bonitinhas e abraçáveis. Elas ficam em casa e fazem bebês. Sam... Nem esse nome é feminino.

Samantha Miller se empertigou até sua altura total de quase 1,85m — dez centímetros a mais que o homem que acabara de criticá-la de forma tão cruel na frente de todos.

— Cliff, sabe qual é o seu problema? — perguntou Samantha num tom afável. — Você não reconhece uma mulher de verdade quando vê uma. A minha impressão é de que um homem não é muito homem se pode lidar apenas com o tipo de mulher que você acaba de descrever, e quanto a fazer bebês... — Ela fez uma pausa para dar ênfase, completamente ciente do fato de que tinha toda a atenção dos colegas de trabalho que estavam ali no amplo escritório aberto. — Sou mulher suficiente para ter um bebê quando bem quiser.

Só agora ela estava revelando toda a extensão de sua raiva pela forma como Cliff a insultara, seus olhos faiscavam em desafio, sua voz tremia com a intensidade de seus sentimentos.

— Você ter um bebê? — zombou seu antagonista, antes que Samantha pudesse prosseguir. — Quem haveria de querer engravidar uma mulher como você? De jeito nenhum. A sua única chance de ter um filho seria usando o esperma de algum estudante de medicina e uma seringa...

Várias pessoas caíram na gargalhada, fazendo com que Samantha compreendesse que, a despeito do quanto fosse aceita publicamente por seus colegas, uma desconfortável parte deles parecia compartilhar das opiniões de Cliff Marlin.

Diante dessa mesma situação, outra mulher teria se derretido em lágrimas, mas não Samantha. Ela aprendera desde cedo que uma mulher alta como ela não ficava nada engraçadinha quando chorava. Além disso... Usufruindo dos seus dez centímetros a mais que ele, Samantha olhou para Cliff de cima para baixo, expondo os dentes num sorriso completamente falso. Então deu de ombros.

— Você tem direito à sua opinião, Cliff, mas, puxa, é uma pena que você seja um tremendo perdedor. Se eu jogasse golfe tão mal quanto você, também seria bem ranzinza. E quanto a fazer bebês... Diga-me quantas vezes você errou aquela bola no oitavo buraco.

Agora foi a piadinha de Samantha que provocou risos.

Sem dar a Cliff a oportunidade de retaliar, ela girou nos calcanhares e se afastou, de cabeça erguida.

O que importava era que Sam percebeu que no momento em que estivesse fora do alcance das vozes, as pessoas começariam a fofocar a respeito dela, a amazona de l,85m que, no tempo em que trabalhava na empresa, jamais comparecera a qualquer evento social com um acompanhante; a única do exíguo grupo de mulheres naquela empresa basicamente masculina que não havia, em nenhum momento, contado para as outras detalhes de sua vida particular.

Agora, com pouco mais de trinta anos, Samantha estava completamente ciente de que entrara numa década que prometia ser uma das mais produtivas e aceleradas de toda a sua vida. Também seria uma década que lhe daria uma oportunidade de encontrar um homem, o homem... Aquele por quem iria se apaixonar, com quem iria passar o resto da vida, o homem com quem iria ter os bebês que tanto desejava.

Claro que houvera homens. Montes deles. Homens que não queriam se comprometer, homens que não queriam filhos, homens que não queriam nem mesmo uma esposa, homens que já eram casados, homens que... Ah, sim, a lista de homens a evitar era interminável. E a gama de escolhas ficava ainda menor para alguém tão seletiva quanto Samantha.

— Por que pelo menos não sai com ele? — inquirira Roberta, sua irmã gêmea, na última vez em que ela deixara seu novo lar na Inglaterra para visitar a família nos Estados Unidos. A mãe delas estivera se queixando com Bobbie a respeito da teimosia de Sam em não aceitar um convite masculino para sair.

— Porque não faz o menor sentido sair com ele. Eu já sei que não é ele. — respondera Samantha, fatalista. — É muito fácil para você ficar do lado da mamãe — queixara-se à sua gêmea quando as duas ficaram sozinhas. — Você já achou o seu homem, o seu príncipe encantado. E depois que vi o quanto é especial o relacionamento de vocês, o quanto vocês são felizes, como eu poderia me contentar com menos?

— Oh, Sam. — Bobbie abraçou-a, contrita. — Sinto muito. Você tem razão. Você não deve se contentar com nada menos do que a felicidade. Você vai conhecer o homem certo em breve. — E então, ao bocejar, ela se desculpou dizendo: — Meu Deus, como estou cansada...

— Cansada? Bem, não estou surpresa! — Samantha rira, incapaz de conter um olhar invejoso para a gravidez avançada de sua irmã, que não esperava gêmeos, conforme torcera. Esta era mais uma gravidez simples. Vendo a expressão em seus olhos, Bobbie perguntara gentilmente:

— Sam, você nunca conheceu ninguém a quem pudesse amar? Você nunca amou ninguém?

Samantha pensou por um momento antes de sacudir a cabeça, negativamente. Seu cabelo louro, ao contrário de sua irmã gêmea, era cortado numa massa de cachos curtos que emoldurava seu rosto perfeito, deixando seus grandes olhos azuis parecendo ainda maiores e mais escuros que os de Bobbie.

— Não. A não ser que você conte àquela queda que tive por Liam quando ele começou a trabalhar para o papai... Eu devia ter uns 14 anos na época, e Liam deixou bastante claro que não estava interessado numa adolescente de maria-chiquinha e aparelho dental.

Roberta rira. Liam Connolly era o principal assistente do pai delas, e não era segredo algum na família que Stephen Miller o estava encorajando a concorrer ao cargo de governador do estado quando ele se aposentasse.

— Sim — concordara Bobbie. — Bem, acho que, para um homem de 21 anos, principalmente tão bonito quanto Liam, a idéia de ter uma mocinha de 14 anos beijando o chão que ele pisava não parecia muito atraente.

— Acredite em mim, para Liam, isso não era nem um pouco atraente — retorquira Samantha. — Acredita que ele até mesmo se recusou a me beijar num dia de ação de graças? Mas talvez fosse porque eu era a filha do seu chefe.

— Sim, essa teria sido uma manobra de carreira muito ruim — respondera imediatamente Bobbie. — E ainda pior se papai tivesse achado que Liam estava encorajando você.

— E Liam sempre colocou a carreira acima de tudo — retorquiu Samantha.

Bobbie levantara as sobrancelhas em resposta ao tom crítico na voz de sua irmã.

— Ora, vamos, Bobbie, ele tem muitas mulheres em sua vida e em sua cama. Mas até papai comentou o fato de que ele nunca chegou perto de fazer um convite sério a ninguém. Ele nunca nem deu as chaves da casa dele a nenhuma delas.

— Talvez ele ainda esteja procurando pela mulher certa. — Samantha resfolegara.

— Se está, então tudo que posso dizer é que primeiro está se divertindo bastante com as mulheres erradas!

Agora, sabendo perfeitamente bem o que estava prestes a ser dito às suas costas no escritório, Samantha caminhou até os elevadores. E daí se ainda faltavam trinta minutos para a sua hora de almoço? Precisava de ar fresco e limpo, e não de uma atmosfera contaminada pela maldade e inveja de Cliff. Porque Samantha sabia o que o ataque dele havia deflagrado. Cliff vinha pegando no pé de Samantha há seis semanas, desde que ela fora sondada para uma promoção que ele próprio estivera cobiçando.

Felizmente Samantha sairia de férias dentro de um mês, e já fizera os preparativos para passá-las com sua irmã gêmea. Como o mandato de seu pai como governador estava quase terminando, seus pais estavam muito ocupados e não poderiam se juntar às duas filhas.

Eles formavam uma família bem unida, principalmente por causa de sua história. Sua mãe era filha ilegítima de Ruth Crighton. Ruth, então solteira, pertencera ao ramo da família Crighton de Haslewich em Cheshire, Inglaterra, na época em que as jovens solteiras de sua classe simplesmente não engravidavam. E, se engravidassem isso era escondido.

Acontecera durante a Segunda Guerra Mundial. Ruth apaixonara-se perdidamente pelo avô de Samantha, mas, devido a um equívoco e à desaprovação de seu pai, que nutria preconceito contra os americanos, Ruth deduzira erroneamente que Grant mentira sobre seu estado civil, e que na verdade teria esposa e filho nos Estados Unidos. Pressionada pela família, Ruth entregara para adoção sua filhinha, a mãe de Samantha e Roberta.

Por um daqueles caprichos do destino que sempre pareciam improváveis demais, o bebê de Ruth fora adotado secretamente por Grant, que presumira que Ruth rejeitara a criança da mesma forma que o rejeitara. Quando, ao descobrir o quanto sua mãe, Sarah Jane, ainda estava abalada pela rejeição que sofrerá da sua própria mãe, Samantha e Roberta haviam elaborado um plano para fazer com que Ruth explicasse porque rejeitara a filha. E então todas as circunstâncias verdadeiras que haviam cercado o nascimento de Sarah vieram à tona.

Elas não apenas haviam conseguido reunir seus avós, como Roberta também conhecera Luke, com quem se casara e agora tinham um filho. E outro já estava a caminho.

Como sua avó, Luke também era um Crighton. Só que ele era de Chester, e não do ramo Haslewich da família.

Os Crighton e a lei combinavam como pêssegos e creme de leite. Assim, não era surpresa que Luke fosse o principal advogado da empresa.

Inicialmente, Samantha sentira uma certa repulsa por seu ligeiramente austero cunhado. Contudo, por baixo dessa austeridade havia um mordaz senso de humor e uma inteligência aguçada. Era verdade que ele roubara de Sam sua amada irmã gêmea e colocara todo o Atlântico entre as duas, mas também fizera Bobbie uma mulher extremamente feliz. Contudo, embora não fossem o tipo de gêmeas que vivessem grudadas, havia momentos, como este, em que a única pessoa que Samantha queria ver era sua irmã.

Cliff Marlin poderia ser pouco mais que um patético arremedo de homem, mas era realmente o homem que a magoara muito, e isso ela não queria que nem ele, nem ninguém, soubesse.

A provocação maliciosa de Cliff ferira-a profundamente. Nem mesmo Bobbie sabia da inveja profunda que Sam sentia dela ou do quanto ficara chocada ao perceber o quanto fora forte a sua convicção de que seria a primeira das duas a se casar e ter filhos.

Ela não desejava mal algum a Bobbie, claro que não. Além disso, vira a angústia e a dor sofrida por Bobbie quando pensara que Luke não atendia os seus telefonemas por não corresponder aos seus sentimentos. Era apenas... Apenas o quê? — perguntou a si mesma enquanto mordia o lábio inferior e saía para o dia de sol primaveril.

Era apenas este desejo, esta fome de ser mãe. Apenas que Samantha sentia uma dor profunda por não concretizar o lado maternal de sua natureza. Mas como poderia concretizar esse lado quando nem havia um homem em sua vida?

Quando Bobbie brincara com Sam, dizendo que ela deveria encontrar alguém que pudesse dar primos ao seu bebê, Sam rira e zombara da gêmea, comentando que um homem não era mais essencial ao propósito da procriação, pelo menos o tipo de contato amoroso e pessoal de que Bobbie parecia estar gostando tanto. É claro que Samantha não falara a sério; apenas cedera ao lado petulante de sua natureza que já a pusera em perigo muitas vezes enquanto crescia. Samantha admitia ser teimosa e dona de um gênio forte.

Por exemplo, ainda há pouco no escritório, a tentação de virar para Cliff e lhe dizer que iria provar o quanto era mulher, que iria provar a todos que seria capaz de encontrar um parceiro e ter um bebê, fora forte demais, difícil de resistir. Felizmente, Sam resistira.

Teria sido muito descuido da parte dela — uma executiva acostumada a trabalhar com especialistas em tecnologia para informática, onde a lógica era necessária — ceder ao impulso de mandar a cautela às favas e se deixar levar por uma onda de emoção, dizendo a Cliff que não apenas era capaz de provar que estava errado, como também iria fazê-lo.

Naturalmente esse seria um comportamento não condizente com a filha do governador. Aos olhos de Cliff, seu pai era mais um ponto contra ela. Quando Samantha recebera a oferta para o cargo que ele tanto desejava, ela ouvira-o comentar com outro colega:

— É óbvio que ela não teria a menor chance de conseguir esse trabalho se não fosse filha do governador — comentara amargamente. — Eu consigo ver claramente o que está acontecendo. A empresa está querendo trabalhar para o governo, e haveria maneira melhor de ganhar a simpatia do governador do que promovendo sua filha?

Não era verdade, e Samantha sabia disso. Ela conquistara essa promoção por mérito. Ela era, simplesmente, a melhor pessoa para o cargo, e já dissera com todas as letras a Cliff. Ele não gostara de ouvir isso, nem um pouco, e ainda menos quando ela o derrotara com facilidade no campeonato de golfe da empresa.

Sam devia isso a Liam. Ele era um exímio jogador de golfe. E, mesmo quando era apenas uma adolescente, ele jamais facilitara para que ela o derrotasse. Em vez disso, sempre jogara duro, dizendo-lhe o que ela estava fazendo de errado. Ele também era excelente jogador de xadrez — e pôquer — motivo pelo qual seu pai costumava dizer que ele daria um excelente governador.

Os pais de Samantha haviam falado sobre isso durante o jantar, há menos de uma semana.

— Bem, eu posso entender por que você insiste tanto para que Liam concorra para ser seu sucessor ao cargo — dissera a mãe de Samantha. — Mas se ele for eleito, será o mais jovem governador da história deste estado.

— Hum... Ele tem 37 anos. Concordo que é mesmo um pouco jovem.

— Trinta e sete anos e solteiro — insistira Sarah Jane. — Teria um pouco mais de chance de ser eleito se tivesse uma esposa.

Enquanto Stephen Miller levantava as sobrancelhas, a mãe de Sam insistira:

— Não olhe para mim com essa cara. Você sabe que é verdade. Os eleitores gostam da idéia de ter como governador um pai de família. Isso faz com que se sintam mais seguros e reforça suas crenças instintivas de que...

— ... de quê? De que um homem casado seja um governador melhor que um solteiro? — perguntara secamente seu pai. Mas mesmo assim admitia que Sarah Jane tinha razão. — Bem, certamente Liam tem muitas candidatas a esposa — comentara o pai com admiração, imediatamente lançando um olhar envergonhado para Sarah Jane.

— Stephen Miller, eu não acredito que você está com inveja dele!

— Inveja, não. Claro que não — protestara.

— Espero que não, porque então eu começaria a acreditar que você não aprecia nem a mim nem sua família — comentou Sarah Jane, zombeteira.

— Querida, você sabe que isso não é verdade — respondeu o marido num tom tão terno que encheu os olhos de Samantha de lágrimas.

Como aceitar qualquer coisa menor que o amor verdadeiro quando tinha como exemplo não apenas o casamento fervorosamente feliz de sua irmã gêmea, mas também o de seus queridos e maravilhosos pais e, é claro, o de seus avós, que ainda estão tão perdidamente apaixonados agora quanto naquele distante verão abalado pela guerra, quando se conheceram.

O problema era que Sam parecia ser incapaz de encontrar um parceiro que a amasse e que pudesse ser o pai de seus filhos. O homem que provaria que Cliff estivera errado ao dizer que ninguém iria querê-la.

Oh, como ela gostaria de provar que Cliff estava mesmo errado. Como gostaria de entrar na empresa não apenas de braços dados com o seu príncipe encantado, mas com o ventre grande e maravilhoso com um filho seu... Ou filhos, porque Bobbie ainda não seguira a tradição da família Crighton de conceber gêmeos. No começo da gravidez, Bobbie torcera para isso. Os exames de ultrassom revelaram que ela teria apenas um bebê, embora no fim da gestação Bobbie estivesse se queixando de que estava grande o bastante para estar esperando quadrigêmeos.

Gêmeos! Gêmeos... Eles percorriam a história da família Crighton como um refrão e, estranhamente, a despeito de todos os seus primos — de primeiro, segundo e terceiro graus — que haviam se casado nos últimos anos, nenhum da nova geração tivera partos duplos.

Samantha fechou os olhos. Ela podia se ver, apoiada no braço forte de seu amor, sorriso beatífico no rosto, corpo talvez pesado por estar carregando gêmeos, mas com o coração flutuando com amor e excitação.

— Sam.


O agudo tom de aviso na voz de sua irmã gêmea foi tão nítido, tão real, que Bobbie poderia estar mesmo ali ao seu lado.

Sentindo-se culpada, ela abriu os olhos e compreendeu que alguém realmente falara com ela, mas definitivamente não era sua amada gêmea.

Suspirando cautelosamente, ela levantou o rosto para fitar os olhos verde-prateados de Liam Connolly.

Sim, levantou o rosto, porque Liam, segundo ele próprio, era descendente de vikings por parte da família norueguesa de sua mãe, e embora tivesse cabelos escuros nada nórdicos, era quase oito centímetros mais alto do que ela. Ele era até mesmo mais alto que o pai de Samantha.

— Oi, L-Liam... — Por que diabos ela estava balbuciando como se alguém a houvesse flagrado com a mão dentro de uma jarra de biscoitos?

Liam fez um gesto na direção da rua movimentada à frente deles e disse, seco:

— Eu sei que você gosta de pensar que é uma supermulher, mas não acho que a melhor maneira de provar isso seja atravessando a avenida de olhos fechados. Além disso, temos uma lei neste estado contra atravessar a rua fora da faixa de pedestres, sabia?

Sam deixou escapar um pequeno suspiro rebelde. Ela não fazia a menor idéia de por que sempre que estava com Liam tinha a impressão de ter novamente 14 anos, quando era perdidamente apaixonada por ele.

— Papai disse que você concordou em concorrer ao cargo de governador quando ele se aposentar — anunciou, tentando mudar de assunto.

— Hum... — Ele a fitou com aqueles olhos que em algumas vezes eram ardorosos e sensuais, e em outras tão frios que pareciam capazes de gelar o coração de uma mulher. — Por acaso você não aprova?

— Você tem 37 anos. New Wiltshire praticamente governa a si mesmo. Eu pensei que você ia esperar amadurecer um pouco para tentar algo maior.

— Como o quê? A presidência? — perguntou Liam. — New Wiltshire pode não significar muito para você, mas acredite quando digo que é muito importante para mim. Você sabia que estamos a um passo de conseguir a aprovação de uma lei que estimulará os cidadãos a entregar voluntariamente suas armas? Você sabia que nós temos um dos índices mais baixos de desemprego do país inteiro e que nossas crianças possuem uma das médias mais altas de aprovação no ensino médio? Você sabia que o nosso programa de auxílio-desemprego é um dos mais aplaudidos...?

— Sim... Sim, eu sei disso tudo, e não estou falando mal de New Wiltshire. Afinal de contas, é o meu lar, e o meu pai é o governador...

Fixando seus olhos cinzentos nela, Liam ignorou o que Sam estava dizendo, inquirindo seriamente:

— Sabia que os jardins que cercam a residência do governador foram declarados um tributo ao gosto e ao conhecimento da esposa de nosso governador...

— Ah, mas fui eu quem projetou os jardins — começou a dizer Sam, fitando-o acusadoramente. — É verdade, você me pegou nessa — reconheceu, curvando a boca num sorriso relutante quando percebeu o bom humor curvar a boca de Liam. — New Wiltshire é um lugar maravilhoso, Liam, eu sei disso. Eu só achei que você iria preferir algo um pouco mais... Um pouco mais provinciano — disse ela secamente, incapaz de resistir e acrescentar: — Afinal de contas, você passa muito tempo em Washington.

— Com o seu pai — retrucou prontamente Liam antes de dizer: — Mas se eu tivesse percebido que você estava sentindo falta de mim...

Sam o fulminou com o olhar.

— Não me venha com essa — alertou-o. — Conheço você, lembra? Eu não sei o que todas aquelas garotas com quem você sai vêem em você, Liam — disse severa.

— Não? Você quer que eu lhe mostre?

Para sua própria irritação, Sam sentiu-se começar a empalidecer um pouco. Ela sabia perfeitamente bem que Liam estava apenas tentando provocá-la. E havia muito tempo que ele fazia isso.

— Não, obrigada — respondeu automaticamente. — Gosto de ter exclusividade sobre os meus homens. Exclusividade e olhos castanhos — acrescentou, zombeteira. — Sim, eu tenho realmente uma queda por homens de olhos castanhos.

— Olhos castanhos... Hum... Bem, acho que posso passar a manter os meus fechados... Ou usar lentes de contato. No que estava pensando ainda há pouco? — Liam inquiriu, mudando completamente de assunto.

— Pensando?

Samantha sabia perfeitamente bem o que ele iria deduzir se ela lhe contasse. Ele expressaria ainda mais desaprovação e desprezo do que sua irmã gêmea.

— Bem... Nada — mentiu.

Mas então, notando pela expressão dele que iria insistir nesse assunto, acrescentou rapidamente:

— Estava pensando na visita que farei a Bobbie.

— Está indo para a Inglaterra?

Samantha olhou intrigada para ele. Liam estava de testa franzida, e sua voz assumira um tom quase rude.

— Bem, sim, por um mês inteiro. Mais do que o bastante para Bobbie poder colocar em prática suas táticas de casamenteira — comentou irreverente.

— Bobbie está tentando arrumar um marido para você?

Samantha encolheu os ombros.

— Você sabe como ela é. Está muito apaixonada por Luke, e quer me ver igualmente casada e feliz. É melhor tomar cuidado, Liam — disse de brincadeira.

— Você é ainda mais velho que eu. Ela pode ter os mesmos planos para você! Pensando bem, talvez ela esteja certa. A Inglaterra pode ser um bom lugar para encontrar um homem — brincou Samantha, com uma expressão subitamente melancólica ao se recordar das zombarias de Cliff. — Há algo profundamente atraente nos homens ingleses.

— Principalmente nos de olhos castanhos? — perguntou Liam num tom áspero que não lhe era habitual.

— Bem... Principalmente esses — concordou Samantha.

Mas Liam, tudo indicava, estava encarando esse assunto com muito mais seriedade do que ela, porque desviou o olhar por um instante, e quando a fitou de novo, seus olhos tinham um tom frio e cinzento.

— Por acaso não estamos falando de um determinado inglês de olhos castanhos?

— Um determinado homem? — Samantha estava perdida. — Bem, sim, acho que um seria suficiente — concordou, usando sua melhor imitação de sotaque caipira. — Pelo menos para começar, mas depois... O que você está tramando, Liam? — perguntou a ele, abandonando o sotaque fingido ao notar como ele a observava.

— Eu só estava lembrando da forma como o irmão de Luke olhava para você no casamento de Bobbie - disse com frieza. — Os olhos dele eram castanhos, se me lembro bem.

— James... — Samantha franziu a testa. Ela nem conseguia se lembrar da cor dos olhos dele, mas com toda certeza James era muito simpático e extremamente bonito. Além disso, era muito franco quanto ao seu desejo de se estabelecer e criar uma família, sem qualquer fobia contra compromissos ou preconceito contra mulheres altas e independentes. Nenhuma mesmo.

— Hum... Tem razão, eram castanhos — concordou, brindando Liam com um sorriso. — Sabe, nós teríamos filhos de olhos castanhos.

— O que você disse...

Vagamente, Samantha olhou para Liam. Ela acabara de ter uma idéia maravilhosa.

— Genes de olhos castanhos predominam sobre genes de olhos azuis, não é mesmo? — perguntou a ele, sem esperar uma resposta.

— Sam, você está com algum problema?

Liam agarrou o antebraço dela, não dolorosamente, mas com força bastante para que Samantha reconhecesse que ele não estava determinado a soltá-la.

Samantha soltou um pequeno suspiro e olhou para ele.

— Liam, por acaso você acha que eu sou o tipo de mulher que não poderia... Que um homem não iria... — Ela se calou quando sua garganta ameaçou se apertar em lágrimas, engolindo-as ferozmente antes de prosseguir irritada: — Alguém me disse hoje que não sou mulher suficiente para que um homem me queira... Para que me torne mãe. Bem, vou provar que ele está errado, Liam... Eu vou provar que ele está tão errado que... Eu vou para a Inglaterra e encontrarei um homem que saiba amar e valorizar uma mulher de verdade, a mulher que existe em mim. Ele vai me amar, e eu vou amá-lo tanto que...

Ao notar que ele estava apertando ainda mais o seu braço, ela exigiu:

— Solte-me, Liam. Minha hora de almoço já está acabando e eu tenho um milhão de outras tarefas para fazer...

— Samantha — começou Liam em tom de aviso, mas ela já havia se soltado dele e estava partindo.

Samantha estava pensando no quanto era irônico que justamente Liam, dentre todas as pessoas, houvesse lhe apontado a direção certa. E agora ela não permitiria que ninguém a desviasse de seu rumo. Na Inglaterra ela iria encontrar o seu amor, como sua irmã gêmea havia feito. Por que ela não havia pensado nisso antes?

Os ingleses eram diferentes. Não eram como Cliff. Ingleses... Um inglês iria amá-la tanto como ela desejava ser amada, e ela iria amá-lo também.

Ela já estava lamentando ter contado tanto a Liam. Samantha amaldiçoou sua grande língua. Mas com toda a certeza ela não iria contar a mais ninguém, nem mesmo a Bobbie. Não, sua busca para encontrar o seu príncipe encantado, o pai perfeito para os filhos que ela queria ter, iria ser um segredo seu e de mais ninguém.

Olhos faiscando de felicidade, Samantha caminhou de volta para o prédio comercial onde trabalhava.



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