O pensamento religioso no Brasil



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JUVENTUDE UNIVERSITÁRIA CATÓLICA

Figurações e Configurações da Identidade entre Ação Religiosa e Luta Armada

(1950/1964)

Estudos religiosos realizados por Antônio Carlos Villaça (2006) mostram que um novo pensamento adentrou na Igreja no início do século XX no Brasil, vindo com as idéias do Padre Júlio Maria,1 que alinhado aos Bispos liberais Keteller e Gibbons, representantes de uma linha européia renovadora, encorajaram novas posturas na Igreja Católica. O Padre Júlio Maria foi eminentemente um pregador encorajador da fé católica e da união entre a Igreja e o povo. A historiografia do pensamento religioso realizada por Antônio Carlos Villaça (2006, p. 116-117) mostra que

Júlio Maria percebeu o novo rumo da Igreja. E jamais vinculou a fé religiosa a um regime político. Diante da separação entre o Altar e o Trono, propôs como fórmula salvadora e urgente, inadiável: a união entre a Igreja e o povo [...]. Hoje, sob o ponto de vista social, só há duas forças no mundo – a Igreja e o povo. Uni-las é o ideal do Papa, concorrer com essa união é, em cada país, o dever dos católicos, principalmente do clero. Nós, porém, não podemos consegui-la, nem desviando-se da rota que a Igreja segue nem separando-nos do povo.

Villaça (2006) ressalta que o caminho adotado pela Igreja no final do século XIX, revelava claramente a postura voltada para a busca de união com o povo, diante de um mundo com muitos problemas sociais. O padre renovador, sem ligar questões de fé com política, elaborou um texto para os católicos alertando para a questão, quando diz:

Como no mundo inteiro, hoje no Brasil não há, não pode haver senão duas forças: a Igreja e o povo... Demonstrei que, bem longe disso, o que deve ser a sua missão (do clero) é...substituir às questões políticas, erroneamente predominantes nos governos, nos parlamentos e nos jornais, a questão social, que á questão por excelência, porque ela afeta os interesses fundamentais do homem e da sociedade; ... mostrar aos pequenos, aos pobres, aos proletários que eles foram os primeiros chamados pelo Divino Mestre, cuja Igreja foi logo, desde seu início, a Igreja do povo; ... enfim, unir a Igreja ao povo.

Esses pronunciamentos do Pe Júlio Maria representaram um avanço muito grande para o catolicismo no Brasil. Reformas sociais, mudanças de mentalidade e modo de ser, ou seja, reforma do homem e da sociedade são elementos constantemente presentes na Doutrina Social da Igreja. (RÉGIO BENTO, 1999, p 91). Essa posição reformista e o esforço do diálogo da Igreja com o povo, constitui-se em uma tentativa de ampliação não só o número de fiéis, mas de uma luta pela melhoria de vida dos setores mais carentes da sociedade.

Era um novo pensamento numa Igreja diante de um mundo desordenado pela descrença e pelo capital, precisando ser avivada. Com os avanços do progresso das Ciências e da Revolução Industrial que vinham se impondo no mundo capitalista europeu, a Igreja percebeu que estava perdendo fiéis que já não se comprometiam com a missão religiosa, além do mais, necessitava incentivar a formação de futuros membros para as classes dirigentes.

Mainwaring (1986, p. 24) acredita que


apesar dessas tensões, a transformação da Igreja coloca em questão os argumentos tradicionais sobre os objetivos, inflexibilidade e conservadorismo político das instituições religiosas. Quando o fim fundamental de uma instituição for supra-racional, ela se disporá a sacrificar alguns interesses, caso esteja convencida de que foi chamada para fazê-lo. Uma Igreja poderá renunciar a benefícios financeiros, prestígio, expansão institucional e a outros interesses se sentir que sua missão religiosa a obriga a agir dessa maneira.

Mainwaring chama a atenção para o que a Igreja pode fazer para se manter na sua missão religiosa, recorrendo à racionalidade de criação de estratégias para preservação de uma tradição. A Igreja, diante de pressões, dissolve antigos argumentos e apesar de não ser flexível em seus dogmas, muda nesse momento de postura para se manter atuante atendendo aos seus interesses. Estas colocações mostram que a transformação da Igreja seria necessária não só pela descrença e pelo uso do capital, mas pelo sofrimento das massas e dos processos de dominação da elite. Além do mais, surgiam conflitos em muitas partes do mundo – especialmente na América Latina, que colocava a Igreja como suporte ao sofrimento das massas (MAINWARING, 1986, p. 24).

Entende-se a partir desses pressupostos que a reestruturação da Igreja estava no aspecto social, em atendimento a clamores populares e pressões internas da sociedade, criando um novo momento de racionalidade dos representantes da Igreja. Surge então a investida em conversão rápida de pessoas com o lema “a messe é grande e os operários são poucos”, 2 quando a Igreja estipula metas para começar a renovar suas ações com apoio de um maior número de fiéis, que seriam os leigos ou operários da vasta messe. Sob o ponto de vista religioso, o pensamento do Padre Júlio Maria, seguia na Europa e adentrava na América Latina a exemplo da conversão do Apóstolo São Paulo, quando este confessa por diversas vezes nos Evangelhos que fora perseguidor implacável de comunidades cristãs, mudando sua vida pela conversão e caminhada entre o povo.

Villaça (2006, p. 113-117) sintetiza que a Igreja veio a se transformar desde que a sociedade se mostrava progressista, aderindo a todo esse processo de renovação, o que acabou afetando a estrutura e os princípios tradicionais da Igreja. Torna-se necessário esclarecer que o padre havia chegado ao Brasil proveniente dessas caminhadas na Europa, e sua vinda representou uma proposta estipulada pela Igreja, quando esta discutia em conselhos internos, uma efetiva ação do clero diante dos novos tempos. A Igreja havia decidido pela transferência de muitos de seus padres para a missão religiosa por toda a América Latina e o padre Júlio Maria foi um dos que imigraram.

A partir dessas considerações, a idéia de conversão representava trazer mais fiéis para a messe, estimulando através das ações católicas, a formação do laicato e a de futuros líderes da sociedade. Aliás, estratégia ideal para ampliar sua missão, que ora estava com poucos trabalhadores. E a hierarquia da Igreja era responsável pelo trabalho de promover a participação efetiva de leigos, trazendo a integração e inserção de novas propostas cristãs. E isso é mostrado mais adiante no Compêndio do Vaticano II3 quando o documento oficial da Igreja, no Capítulo IV, estabelece a entrada dos leigos e suas funções. De acordo com o documento Decreto Apostolicam Actuositatem (1991, p. 76-77) da Igreja Católica:
Esclarecidos os ministérios da hierarquia, o santo Sínodo de boa vontade passa a tratar do estado dos fiéis que são denominados leigos. Tudo o que acima foi dito acerca do Povo de Deus vale igualmente para os leigos, religiosos e clérigos. Mas aos leigos, homens e mulheres por motivo do estado e missão, destinam-se, particularmente, certas coisas cujos fundamentos devem ser examinados mais detidamente dadas as circunstâncias especiais do nosso tempo. Pois os Pastores Sagrados sabem perfeitamente o quanto os leigos contribuem para o bem de toda a Igreja.

O documento reza que esses leigos eram convidados pela Igreja para ampliarem sua missão com a rápida conversão, implicando em intervenção nos problemas do mundo através da Igreja. A participação do laicato representava a chegada de cristãos avivados e ingressados pelo batismo na missão de Cristo

Para o Vaticano II, os leigos representavam a união com o povo e este apostolado estava voltado para a missão salvífica da Igreja (DECRETO APOSTOLICAM ACTUOSITATEM, 1991, p. 79), podendo ser chamado como cooperação mais imediata com os integrantes da Igreja após processo de conversão, postura essa semelhante a do Apóstolo Paulo. Segundo o mesmo documento (1991, p. 1.335),

[...] os leigos, por sua vez, participantes do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo, compartilham a missão de todo o povo de Deus na Igreja e no mundo. Realizam verdadeiramente apostolado quando se dedicam a evangelizar e santificar os homens e animar e aperfeiçoar a ordem temporal com o espírito do Evangelho, de maneira a dar com a sua ação neste claro testemunho de Cristo e a ajudar à salvação dos homens. Já que é realmente característico do leigo viver em meio ao mundo e aos negócios seculares, são eles chamados por Deus para, abrasados no espírito de Cristo, exercerem o apostolado a modo de fermento no mundo.


Com base nesse decreto, a intenção da Igreja era trazer o laicato para a diversidade de serviços, animando o povo e ao mesmo tempo a própria Igreja com testemunhos de vivências reais imbuídas no amor de Cristo. Era exemplo de vida no combate à miséria, à violência e ao embrutecimento humano. Portanto, os leigos tinham o dever do apostolado e a missão de colaborar na messe católica. Pensamento esse que anteriormente vinha sendo estruturado na nova ala da Igreja, que contava com o apostolado de renovadores, como o Padre Júlio Maria, que acompanhavam essas mudanças propagando a mensagem religiosa.

Lendo o documento da Igreja, percebe-se em seus registros que havia também a preocupação com a liberdade e as novas posturas dos homens na sociedade solidária. A chegada de novos credos havia enfraquecido a Cristandade. Além desses fatos, os discursos voltavam-se para a idéia “do demônio agitando o mundo moderno do capital”.

Sendo assim, a Igreja necessitava investir no catolicismo contra “esses males do século”. Os leigos e o clero viviam em um mundo novo, onde o comportamento e o espírito da Belle Époque assustavam a tradição religiosa pela liberdade avassaladora. Época repleta de tendências filosóficas, científicas, sociais, literárias - expressões das vicissitudes culturais em um mundo com circularidade de informações que oferecia campo a apropriações e hibridações estreitamente contrárias aos dogmas da Igreja.

Scott Mainwaring (1989) faz uma abordagem partindo da idéia de que a Igreja Católica se mantinha em estreita relação com o ambiente social e político.

a crise na Igreja brasileira teve início após a Segunda Guerra Mundial e foi resultado de uma rápida transformação da sociedade sem que houvesse uma mudança correspondente por parte da Igreja. As manifestações da crise incluíam uma resistência à secularização, o alarmante crescimento do protestantismo e do espiritismo, menor comparecimento à missa, uma crise de vocações, o crescimento da esquerda, e uma perda de influência entre as classes dominantes e a classe operária urbana. Os líderes mais proeminentes da Igreja sentiram essas mudanças eclesiásticas ao fazer com que a hierarquia tomasse consciência de que era preciso repensar a missão da Igreja. Mas, embora a crise institucional explique porque a Igreja começou a se abrir, não explica a direção ou a magnitude dessa mudança. A Igreja poderia ter reagido à crise de diversas maneiras. De fato, grupos diferentes dentro da Igreja apresentaram reações variadas, cada qual representando uma concepção diferente da Igreja, seu papel na sociedade e seus interesses. As respostas efetivas dos líderes eclesiásticos não foram necessariamente aquelas que melhor defendessem os interesses da Igreja; ao lado dos ganhos houve muitas perdas. (MAINWARING 1989, p. 33)


Mainwaring quando analisa a Igreja Católica e a política no Brasil, propõe a noção de modelos de transformação da sociedade, de Igreja como ponto de partida para a compreensão da missão que ela deveria exercer na sociedade.

Ivan Manoel (2001, p 319 -329) quando estuda a Ação Católica no Brasil, traz a idéia de uma autocompreensão de seu papel na sociedade. Ao enfatizar esses conflitos, o autor lembra as ameaças vindas da Guerra Mundial no início do século e os esforços da Igreja para atuar diante dessas transformações, preservando seus interesses. Eram anos de muitas as formas de mudanças e os embates eram grandes. Havia muitas coisas em jogo entre a Igreja e o Estado. Mainwaring (1989) ressalta que a Igreja, no contexto da América Latina, sofria reflexo do contexto internacional, apontando interesses subjacentes nessa inserção de serviços.

Ademais, a própria estrutura social, política e ideológica estava obsoleta, com propostas que poderiam comprometer a própria autonomia e tradição da Igreja. A legitimidade religiosa e política da Igreja no Brasil foi resultado de um longo processo que acompanhou a própria história. A Igreja adotou novos princípios e expressão, expandindo-se a partir de um panorama de tensão no mundo. A I Guerra Mundial, por exemplo, desenvolveu conflitos ideológicos de toda ordem. Se o movimento leigo estava inserido nessa nova missão da Igreja, este não tinha autonomia e, portanto, era submisso aos líderes da Igreja, com suas ações ainda limitadas pelo clero. De acordo com Régio Bento (1999, p16), a juventude operária de imediato não adotou uma posição socialista condenando o capitalismo assolante.

A Igreja Católica no Brasil passou a definir novas posturas, investindo contra o marasmo que afetava as pessoas diante de um mundo de consumismo e de princípios capitalistas, reconstruindo seu pensamento, ações, quando buscou o diálogo com o povo. Espaço aberto para leigos - servidores da Igreja. A participação deles no Brasil se deu inicialmente com a presença de jovens que freqüentavam a Igreja por meio de suas famílias. O movimento cresceu gradativamente nesse clima de conflito de Igreja e Mundo. Mais adiante, pela maior inserção de estudantes, operários, camponeses e pessoas de diversos setores populares da sociedade, amplia-se o laicato, formando uma ala reconhecida como esquerda católica.

A partir dessa investida no laicato4 os princípios da Doutrina Social da Igreja, e o pensamento reformista do Padre Júlio Maria, influenciam outros religiosos renovadores que aqui no Brasil desenvolviam suas missões em diversas partes do país. A influência recebida foi na verdade, a mola propulsora dessas mudanças no interior da Igreja brasileira.

A partir desse entendimento sobre essa ação geral vinda como resultado de mudanças no pensamento da Igreja percebe-se a importância dos estudos de Villaça (2006) ao mostrar que não só as mudanças estruturais externas contribuíram para essas transformações, mas que as condições políticas do país abriram espaço para que essas novas idéias adentrassem no país.

Não se trata de afirmar que a Igreja construiu uma nova identidade, mas sim de uma nova estratégia de preservação de seus preceitos, afirmando-se como novo discurso diante das diferenças sociais. Portanto, o Padre Júlio Maria se revelou um historiador e um ativo reformulador do pensamento social, criticando posturas e manobras de políticos brasileiro e de uma parcela do clero, quando em uma de suas falas menciona:


Infelizmente, certos políticos entre nós, em face do fato republicano, não têm perdido ocasião de explorar o clero, ou antes, aquela parte do clero que se acostuma a medir os horizontes do mundo pelas dimensões de uma sacristia, onde não lhe chegam as vozes, que fora tumultuam, das grandes reivindicações populares, mas apenas as vozes dos devotos. Verberando as manobras políticas de que grande parte do clero brasileiro participa, ou como agente solidário, ou como simples vítima, pois que parte dele ainda não discerniu o justo e o verdadeiro na questão de quês e trata, demonstrarei o erro do clero e o nosso dever na hora presente. (MARIA, J. apud VILLAÇA, 2006, p. 124)

As análises do Padre Julio vieram então, discutir o papel dos políticos no Estado e seu silêncio nas divergências mundiais e nacionais; era voz que se pronunciava diante da omissão política. Nesse período, a Igreja passa a definir melhor o papel das ações religiosas do laicato e sua dependência diante da hierarquia do clero, investindo mais efetivamente em ações locais para a população, visto como dever da Igreja diante de uma conjuntura de tensão e diferenças sociais. Nessa nova concepção, a ala mais progressista da Igreja falava do comodismo presente no clero em geral e que – inserido em práticas ligadas a manobras políticas, expressando também a idéia de certa vulgaridade nas ações limitadas dos católicos praticantes que diante de um mundo em desordem – nada fazia.

Essa linha de renovação vinha trazendo um sinal do sentimento de “indiferentismo religioso presente de modo geral nas pessoas”. Eram os valores da sociedade que estavam sendo analisados e Mainwaring (1989, p. 30), em seus estudos, reforça essa idéia quando mostra que,
a maioria dos estudos sobre a Igreja e a política privilegiaram sempre a relação entre a Igreja e o Estado, mas é também importante analisar seus vínculos com as várias classes sociais. A forma pela qual a ideologia e os símbolos religiosos legitimaram ou desafiam os aspectos dos valores dominantes tem um impacto significativo na vida política. A Igreja brasileira sempre foi uma instituição importante. Seus símbolos e discurso ajudam a moldar a identidade de diferentes classes e instituições sociais e ajudam a definir práticas políticas e sociais.

A História do Brasil sempre esteve muito voltada para as relações entre a Igreja e o Estado, ressaltando a função social da Igreja. Os debates entre católicos sobre a situação da pobreza e carências da população, legitimavam cada vez mais as relações de poder de grupos e foram construindo uma história de dominação com endurecimento de comportamentos humanos diante da hegemonia do capital. Sabemos que o pensamento da Igreja sempre esteve ao lado das questões sociais e políticas do Estado.

Compreende-se que esses aparelhos ideológicos mantiveram entre si um estado de interdependência por anos, mesmo com embates ideológicos. Estudos sobre a relação de poder entre o Estado e a Igreja como instituições poderosas têm sido objeto de pesquisadores, no entanto, pensar como foram construindo o pensamento e as formas de relação com a sociedade ainda comporta muitos estudos. A Igreja, em si, seus colégios, seminários, paróquias, tinham auxiliado por anos a elite tradicional, perdendo campo para o Estado, que vinha adquirindo nesse período importância nos aparelhos jurídicos e econômicos, atendendo aos interesses de grupos que expandiam seus negócios. O Estado assegurava seu espaço e a Igreja perdia campo.

As mudanças estruturais mostram que a Igreja Católica não só havia, literalmente, enfraquecido em suas antigas bases, mas também estava encorajada, conscientizando pessoas para a messe, contando com a presença de leigos que assumiam o princípio de obediência e serviço. Villaça (2006, p. 31) se aloja com essa idéia de renovação do pensamento trazendo novos fiéis para a Igreja, encorajando-os a fazer parte dessas novas mudanças em pessoas e na sociedade ao tempo em que outras mudanças, como a ideológica, estavam acontecendo pelo mundo, uma vez que a Igreja estava dividida entre o Catolicismo Tradicional e a Neocristandade.5

É preciso ficar claro que a Igreja da Neocristandade (1916–1955) se empenhava em cristianizar pessoas, enquanto que a ortodoxa lutava pela preservação do status quo e de suas tradições. Mainwaring (apud SOARES, 1986, p. 45) descreveu que
a nova missão da Igreja era cristianizar a sociedade, conquistando maiores espaços dentro das principais instituições e embuindo todas as organizações sociais e práticas pessoais de um espírito católico. Como escreveu um líder leigo, “voltar a Cristo quer dizer voltar à vida pública, social, funcional, doméstica. (Não podemos) reduzir a religião à missa, a confissão, à comunhão, a fitas, medalhas, procissões”.

A missão era de recristianizar pessoas, levando fé e participação social a diversos setores da sociedade, essa posição reformadora da Igreja, valorizava o trabalho dos pobres, assumindo postura redentora da sociedade – visão otimista que acreditava na recristianização de um grande número de pessoas dando conta de mudança na estrutura maior da sociedade e nos homens –, e assim expandir sua missão, preservando sua ordem. A Doutrina Social da Igreja oferece maneiras de realizar avaliação da sociedade, além do estabelecimento de metas e ações, na medida em que evangeliza e transforma. Ademais, Mainwaring (1989, p. 44) entende que,


a concepção da Igreja quanto a sua missão integral determina diretamente o seu envolvimento na vida política. Quando, por exemplo, líderes religiosos argumentam que a Igreja deveria lutar contra o comunismo ou que deveria se colocar acima da política ou desenvolver uma opção preferencial pelos pobres, estes pressupostos derivam do sistema religioso. Isto significa que é preciso compreender os objetivos da instituição e a concepção de fé que a motiva. A maioria dos estudos sobre a Igreja do período de 1916–1955, contudo, não tem ressaltado estes aspectos.

Mas, se esse pensamento de vida e atuação numa messe social fora da política, não nos parece possível, apesar da dedicação a práticas de fé e conversão, idéias vindas pela influência da Doutrina Social da Igreja, mas de padres reformadores como Júlio Maria que fazia parte da ala renovadora da Igreja. Visto que o Pe. Júlio expressava bem sua posição renovadora, postura de grandes homens da Igreja naquele tempo. Seu pensamento recebeu a influência do Pe. Júlio Maria Chevalier que dizia ser preciso continuar a catequizar os católicos, mostrando-lhes a Igreja através do diálogo com Deus, razão de sua fé e esperança, dedicando-se a aliviar todas as necessidades humanas, principalmente as das camadas mais pobres.

Esse projeto católico restaurador remonta à luta da Igreja contra a secularização do Estado e da sociedade, processo que se intensificou no Ocidente ao longo do século XIX, marcado por “uma redução constante do peso social da religião organizada”. (ZANONE, 2000. p. 673). O Padre Júlio Maria de Lombaerde, por exemplo, experimentou vivências religiosas em países pobres e, quando aqui chegou, viu que a Igreja brasileira não estava representando devidamente seu papel social e político, sendo preciso agir de imediato.

A atuação dessa linha de renovação da Igreja, com a morte do Pe. Júlio Maria, recebe através de seu ideal, fortes influência para a missão. (VILLAÇA, 2006, p. 114-116). Permaneceram suas idéias em seguidores como o jornalista Carlos de Laet6 e Jackson de Figueiredo7. Estes foram organizadores das idéias do Padre Júlio Maria e responsáveis pelos movimentos religiosos depois da morte dele. Jackson de Figueiredo, leigo e fiel colaborador de Dom Leme e do Centro Dom Vital pretendia formar uma intelligentsia católica (DELLA CAVA, 1975, p. 12) que esteve durante toda a década de 30 e início da de 40 ligado à grupos da direita católica.

Para entender o surgimento dessa Ação Católica, foi preciso compreender todo o aparato do pensamento da Igreja Européia e o empenho de Papas como Leão XIII (1878-1903) que organiza o Concílio Plenário de 1899 dos Bispos da América Latina com a presença de 13 Arcebispos, sendo 11 do Brasil. De acordo com estudos realizados por Régio Bento(1999, p 82) sobre a reforma na Igreja Católica:

Leão XIII condena a divisão de classes, que ocorre quando a classe detentora do capital (dadores de trabalho) explora a classe detentora da força-trabalho (trabalhadores assalariados). A existência dessas duas forças sociais com identidades diferentes, típicas das sociedades capitalistas, não representa em si mesmo um problema moral.


Certamente, o papel de Leão XIII na Igreja marcou a existência de uma nova consciência dos problemas sociais, defendendo o direito dos operários admitindo uma correlação de forças entre patrões e empregados. A posição do Papa Leão XIII estava voltada para reformar o sistema capitalista com ajuda de leigos e não destruir o capitalismo em si, reconhecendo a miséria imerecida de grande parte da população. .

Depois o Papa Pio X (1903-1914) clama a participação da ação de leigos, eleva o Arcebispo do Rio de Janeiro (1897-1930), Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti à dignidade cardinalícia em 1905, tornando o Arcebispo, o primeiro Cardeal de toda a América Latina. Destaca-se ainda o Papa Pio XI (1922-1939) que a partir da Encíclica Quadragésimo Anno (QA,) chama os leigos de colaboradores católicos defendendo a idéia de medidas macrossociais para a transformação da estruturação social.

No Brasil, a Ação Católica era considerada um movimento da Igreja que recebendo a influência dos pensamentos de Jacques Maritain e Emmanuel Mounier, renova toda a experiência litúrgica. (GÒMEZ DE SOUZA, 1984, p 92). Esse amplo movimento católico leigo no Brasil sob a influência dessas ações católicas gerais, conta com a presença de leigos, mas por jornalistas e políticos como Jackson de Figueiredo, quando no ano de 1921, funda a primeira revista de intelectuais católicos no Brasil, A Ordem. Trata-se de uma publicação de fundamental importância para a criação de um centro de estudos sociais e religiosos, com ênfase em sociedade, conhecido como Centro Dom Vital, que passa a funcionar no ano de 1922 (VILLAÇA, 2006, p. 13).


1.2 A luta ideológica da Igreja Católica no Brasil e a criação do Centro Dom Vital

Jackson de Figueiredo, apoiado por Dom Sebastião Leme,8 representava também a nova ala da Igreja, tendo um papel importante nessa luta ideológica da Igreja Católica no Brasil (VILLAÇA, 2006, p. 133) – revitalizador institucional. O caminho de Dom Leme da Silveira Cintra - líder do Episcopado Nacional era o de erguer bandeira contra o catolicismo acomodado, recuperando e consolidando espaços para a Igreja Católica na sociedade. Uma figura religiosa de espírito liberal, capaz de criar atitudes mais concretas dentro da atividade pastoral, ações essas mais efetivamente renovadoras que demonstravam a força irresistível do catolicismo quando anunciava ser o Brasil um país essencialmente católico. Analisando as causas desta situação, mostra-se “certa debilidade social” dos católicos brasileiros enfraquecendo as virtudes teologais sugeridas pela cristandade.

De modo geral, Dom Sebastião Leme da Silveira Cintra e o Padre Júlio Maria de Lombaerde foram os precursores do novo catolicismo no Brasil, sustentados pelas reflexões e posturas do capuchinho Dom Vital Gonçalves de Oliveira,9 um dos importantes nomes na Questão Religiosa, e que combateu a heresia e a Maçonaria no século XIX. A historiografia da Igreja Brasileira reconhece nas figuras do Pe Júlio Maria, de Dom Sebastião Leme e de Frei Dom Vital, o teor de suas renovações, quando denunciaram impasses entre a sociedade, os princípios da Igreja e o contexto sócio religioso e político. O aspecto reformista do Centro Dom Vital condenava as tendências socialistas em prol das reformas cristãs. O empenho desses reformadores católicos ampliava o projeto da regulação ético social do capitalismo com a melhoria da situação dos trabalhadores, obtendo uma distribuição de renda mais justa. (MARIA, 1950, p. 244-247).

Nesses anos, um outro nome que se destacou na Neocristandade foi o do Padre Lacroix,10 que advogava um Brasil mais catequista e a promoção vocacional para que a messe fosse alcançada com maior amplitude. Lacroix julgava os padres brasileiros, acusando-os de estarem demasiadamente preocupados com assuntos de menor teor do que o religioso, o que representou uma afronta para a ala renovadora, que reagiu a suas críticas. Era o conflito dentro da própria Igreja, quando padres e bispos discutiam rumos da Igreja e as novas posturas do cristão.

O grupo contava com a participação de escritores católicos, pensadores de uma reforma sócio religiosa que combatia a presença comunista. O Centro recebera esse nome pela importância da figura de Dom Vital para a mudança do pensamento católico brasileiro. Dois pontos estiveram nas idéias de Dom Vital: o combate às idéias maçônicas vindas desde os anos do Papa Pio IX11 (1846–1878), representante do antiliberalismo na Europa, e os conflitos internos entre correntes ideológicas. Ora, Dom Vital havia estudado na Europa e estava imbuído do pensamento antiliberal. Se assim era, sua postura em Olinda /PE com sua ideologia impregnada dos princípios de Pio IX, portanto, do pensamento vigente da Igreja de reação antimoderna, ao mesmo tempo em que entrava em contradição com a liberdade religiosa (VILLAÇA, 2006, p. 85- 86).

Era o Centro Dom Vital responsável pela difusão do catolicismo e pelo diálogo entre o alto clero, bispos antiliberais, antimodernos ou não, e a sociedade e tinha como tarefa árdua o combate ao comunismo. O povo brasileiro vivia em condições de desigualdades, principalmente no Nordeste, com questões da seca. O povo tinha Padre Cícero Romão Batista, popular “Padinho Ciço”- beato símbolo da salvação de seus problemas elementares, como fome, sede, falta de moradia e saúde . As secas nordestinas no início desse século tinham deixado marcas enormes. Exemplos de um passado que somava problemas à população carente, ao tempo que seletos grupos asseguravam privilégios (MOREIRA ALVES, 1966, p. 42).

Esses problemas abriram campo para o trabalho desses pensadores no Centro Dom Vital. Assim, desde 1922, o Centro Dom Vital vinha dialogando com essas diferenças ideológicas, atuando com base em estudos religiosos, por meio de documentos da Igreja e de cartas de bispos e cardeais. Entre os anos de 1920 e 1930, todos eles, portanto, estão inseridos no contexto do Dom Vital, envolvidos com as questões sociais, políticas e econômicas do país. O mundo do capitalismo dava idéia do provisório, trazendo intranqüilidade para as pessoas. Desde o início do século, jornais católicos já atuavam divulgando o consumismo, as mudanças de padrões de vida, etc. O jornal A Bússola era um deles, cujo nome sugeria ser um guia para as famílias cristãs, como se lê na edição publicada em 7 de janeiro de 1912.
É a bússola um instrumento, cuja agulha aponta sempre para o norte, e do qual se utiliza o piloto para orientar o navio. [...] A nau da Igreja leva os seus passageiros para um porto que não deste mundo. A vida presente não é o fim do homem [...].

O jornal funcionava como orientação às famílias cristãs, tratando de vida e de princípios religiosos que não poderiam ser o de uma existência sem a religiosidade a serviço do capital e era lido freqüentemente no Centro Dom Vital com o intuito de trazer novas informações. Mas, além de promover estudos e discussões da doutrina religiosa, o Centro Dom Vital congregava, cada vez, mais intelectuais para a ação apostólica.

A compreensão desse contexto e da importância do novo pensamento revelou a figura do então Cardeal, Dom Sebastião Leme como homem de grande habilidade para o diálogo entre a Igreja, a política e os setores da sociedade. Fato constatado durante os 15 anos em que permaneceu como Cardeal-Arcebispo do Rio, Primaz do Brasil, proporcionando e reintegrando o diálogo entre a Igreja e Estado brasileiro. O Cardeal Sebastião Leme transita pelos Governos de Rodrigues Alves, Delfim Moreira, Epitácio Pessoa, Artur Bernardes e de Washington Luís. Este último, inclusive, recebeu sugestão de Dom Leme para que deixasse o Governo e se retirasse do Palácio do Catete, mas acaba sendo deposto pelo Movimento de 1930.

Dom Leme era um estrategista notável, e isso também é observado quando, mais tarde, celebra no Governo Vargas missa solene de Ação de Graças pelo restabelecimento da paz nas famílias, com a presença do próprio Getulio Vargas. A estratégia da Igreja era a intensa campanha para a inclusão cada vez maior dos leigos ao mesmo tempo em que dialogava com a sociedade, com os militares e os setores. Isso também fica claro quando, em 12 de outubro de 1931, Dom Leme inaugura o Cristo Redentor no Morro do Corcovado, no Rio de Janeiro, com a presença do Presidente Vargas e do seu ministério, resultado de um acordo entre Estado e Igreja. É do Cardeal Leme a frase: “ou o Estado reconhece o Deus do povo, ou o povo não reconhece o Estado.Assim foi que no regime de Vargas se intensificaram os esforços por uma redefinição dos vínculos entre o Estado e a Igreja Católica Nacional, culminando com a aproximação de ambos (LAUERHASS, 1986, p. 92).

Dessa forma, a recristianização da sociedade estava em passos largos de negociação no Governo Vargas, o que acaba fortalecendo a ideologia católica no país, ao tempo em que se firmava o Partido Comunista do Brasil – criado em março de 1922, por um grupo de intelectuais e operários –, orientado, em parte, pela III Internacional Comunista,12 centralizando o movimento operário no país, ofendendo a Igreja. A importância desse trabalho anticomunista foi grande dentro do modelo da Neocristandade que a Igreja Católica pregava. Nesse novo momento, Dom Leme ganha força e produz discurso que enfatiza o respeito e a obediência à hierarquia religiosa e a necessidade de manutenção da ordem cristã em nível nacional, combatendo o comunismo, como pré-requisitos ao bem-estar da sociedade brasileira, mostrando, assim, que a linha renovadora estava trabalhando na messe católica.

As relações entre Dom Leme, Jackson de Figueiredo e figuras atuantes como Alceu Amoroso Lima se definem na criação de um grupo chamado Liga Eleitoral Católica (LEC), associação constituída para apoiar candidatos católicos às eleições para a Assembléia Constituinte de 1933, contando com a participação de pessoas influentes na sociedade brasileira.

Pode se pensar no Centro Dom Vital e na LEC como centros religiosos a serviço da Igreja, promovendo discussões políticas e sociais com o intuito de ampliar consciências individuais que pudessem intervir na sociedade em prol de um mundo melhor. Para mostrar a atuação católica no país, compreendemos o grupo de pensadores católicos divididos em grupos,ambos radicadas na cidade do Rio de Janeiro: os pensadores liderados por Jackson de Figueiredo e Alceu Amoroso Lima em torno do Centro Dom Vital e da revista A Ordem, de atuação marcadamente política, e de outro lado, os artistas plásticos e poetas Ismael Nery, Murilo Mendes e Jorge de Lima, que fizeram do catolicismo um discurso sob forma artístico-literária no país.

A mensagem do Centro Dom Vital configura-se, assim, como um produto cultural híbrido, que se dirige às diversas esferas da vida social, pondo em circulação um conjunto de idéias. Aproveitando o número de padres e bispos em eventos de esquerda, organizou-se um encontro do episcopado para refletir sobre a situação nacional a partir de revolução de 1930, produzindo fundamentos para a formação da Liga Eleitoral Católica – LEC, em preparação às eleições de 1934, como alternativa para orientações dos fiéis católicos em vista da formação de seu juízo de cidadão diante de urna eleitoral.

Essas novas idéias influenciam radicalmente a vida pública de Alceu Amoroso Lima (leia-se também Tristão de Ataíde), pensador que em suas falas recorria à interpretação de São Tomás de Aquino, freqüentando reuniões no Centro Dom Vital. Amoroso Lima estudara a ideologia revolucionária de Mauritain e Newman (VILLAÇA, 2006, p. 18-19), influenciando seu pensamento renovador. Ao lado dele, Gustavo Corção, outro intelectual atuante no Centro Dom Vital. Até então considerados tradicionalistas ortodoxos ferrenhos, ambos mergulhavam na ebulição dos debates entre Ciência, Estado e Religião e as recomendações cristãs do Centro Dom Vital.

Nesses anos com a criação da LEC o objetivo era oferecer apoio aos candidatos independentemente de partidos políticos, aqueles que se dispusessem a defender na Constituinte o pensamento da Igreja em relação a indissolubilidade do casamento, a assistência religiosa às escolas públicas e a pluralidade sindical. O Centro Dom Vital se articulava em interesses políticos, inserindo-se na LEC que segundo Mainwaring (1989, p. 48), “foi uma das expressões mais destacadas da Neocristandade criada por Leme em 1932 para orientar católicos como votar”.

Durante esses anos, Dom Leme criara estratégias de pontes entre a Igreja e o Estado, enfrentando movimentos de diversos âmbitos, inclusive o da Escola Nova, que debatia idéias educacionais defendendo o ensino público gratuito e laico no Brasil. A Escola Nova, com a participação de educadores católicos, na verdade, ia contra a proposta da Igreja de expandir a educação por meio de escolas católicas. Dom Leme mostrou que tinha força política, alcançando êxitos em candidaturas nas Assembléias Constituintes entre os anos de 1933 e 1934, quando apoiou políticos, via LEC. Além de obter parecer favorável à legislação, Dom Leme conseguiu reintroduzir a educação religiosa nas escolas do país.

Assim, é possível observar o projeto político e social da Igreja caminhando com o religioso. Não resta dúvida que a LEC tinha em seu bojo a palavra eleitoral, e esta interferia nas capelanias militares e hospitalares, inserindo-se em discussões e coligações políticas.

As análises de Villaça (2006) refletem o impacto da ampliação e inovação do pensamento católico no Brasil, não só a partir do trabalho anterior de padres renovadores, mas de posturas de Dom Leme e de figuras do Centro Dom Vital, somadas ao esforço da Igreja em criar suas estratégias de domínio, dialogando com o Estado e outros setores, liberais ou não.

Beozzo (1994, p 23) em seus escritos, menciona:

O trabalho com universitários, entretanto, começou no Centro Dom Vital, antes de se integrar na Ação Católica. Assim, foi sob a influência do Centro Dom Vital e de seu novo presidente, Amoroso Lima – anos mais tarde presidente da Ação Católica -, que surgiu, em 1929, a Associação dos Universitários Católicos (AUC).
Nesse entendimento, estudantes agitavam mais por questões religiosas do que políticas no país. A implementação do modelo de Neocristandade no Brasil, que teve como marco inicial não só essa nova postura da Igreja, mas a religiosa em combate às diferenças sociais diante de um quadro de miséria. As ações renovadoras dos padres e leigos traziam de forma camuflada, um forte teor político cristão. Podemos dizer que o religioso adentrava na arena política brasileira e a figura de Dom Sebastião Leme trouxe através das Cartas Pastorais da Igreja (datadas em 07/1916 e 01/1925), o modelo de Neocristandade para a Igreja brasileira quando esta analisa a situação nacional a falta de cumprimento acerca dos deveres sociais da sociedade e capta leigos para as ações cristãs.

O ingresso de leigos, as questões sociais e políticas e um quadro de acumulação de capital em mãos de poucos estabelecia campo para as ações de uma esquerda católica. Eram os leigos chamados para ações espirituais, inseridas na valorização humana e na mudança social. O pensamento renovador desses leigos, padres e bispos, sinalizava o real panorama de miséria no Brasil e a omissão do Estado brasileiro, que ostentava e conjugava com políticos que não abraçavam o combate à desigualdade social.

Nessa ótica, o Brasil tinha adeptos a essa nova postura da Igreja e o campo estava propício às mudanças que a Igreja estava propondo. Mainwaring (1989, p. 43) esclarece que:
O Vaticano encorajou os esforços da Igreja brasileira para fortalecer a presença da Igreja na sociedade, especialmente durante o papado de Pio XI (1922–1939), cuja visão da Igreja e da política aproximava-se à de Dom Sebastião Leme. Sob Pio XI, os movimentos da Ação Católica tornaram-se peças-chaves dentro da Igreja. Pio XI julgava os partidos políticos como sendo demasiadamente divisionistas, mas, mesmo assim, buscava alianças com o Estado para defender os interesses católicos. Ele apoiou diretamente e encorajou Dom Sebastião Leme em seus esforços para promover uma restauração católica.

A doutrina social da Igreja Católica brasileira vinha se afirmando, ao passo em que surgiam novos convertidos e correntes de pensamento. A Ação Católica Brasileira formou através de Dom Leme, do seleto grupo de leigos e apoio de representantes da intelectualidade católica como Alceu Amoroso Lima, Gustavo Corção, uma corrente de conversão ao catolicismo entre os anos de 1918 e 1928.

A ascensão dessa proposta ganha impulso em 1932, com a criação do ICES (Instituto Católico de Estudos Superiores) no Rio de Janeiro. O instituto contou com a colaboração de uma esquerda católica representada por freis como Pedro Secondi, Tomás Keller, Martinho Michler, Amoroso Lima havia ingressado na luta de esquerda revolucionária seguidora da linha do humanismo integral de Jacques Maritain, tendo uma trajetória democrata defensor da liberdade e um crítico ferrenho do totalitarismo, enveredando anos mais tarde na esquerda. Apesar da mudança gradativa de seu posicionamento político, é no sentido de sua aversão ao totalitarismo. (VILLAÇA, 2006, p. 175).

A atuação de Gustavo Corção, membro do Centro Dom Vital era de direita, com base na crítica reacionária ao capitalismo e ao consumismo nacional, seguidor da ideologia reacionária de Venillot e de Maistre, recusa o liberalismo econômico e o socialismo no país. Podemos afirmar que entre Gustavo Corção no seu imaginário político atacou a irresponsabilidade das elites brasileiras. O Brasil assistia a uma somatória de idéias que, advindas de grupos hegemônicos e de pensamentos religiosos, rotulou outros grupos de "fascistas", "conservadoras" ou "direitistas". Grupos que transitaram no governo de Getúlio Vargas. Essas denúncias levaram Corção a se alinhar ao jornalista Carlos Lacerda anos mais tarde.

Em 1938 com a derrota do Fascismo na II Guerra Mundial, muitos integrantes do Centro Dom Vital se afastaram da linha ideológica anterior. Corção critica a postura de Dom Helder Câmara, alegando que este andava difamando o Brasil na Europa, país que tivera a audácia de expulsar os comunistas reprimindo movimentos desse tipo. Dom Helder Câmara estava ligado ao pensamento religioso de Emanuel Mounier, Teillard de Chardin, Lebret - defensores dos oprimidos.

1.1 A cruzada anti comunista movida pelo Centro Dom Vital
Então, se o Centro Dom Vital seguia expandindo seus ideais católicos, convertendo muitos intelectuais e políticos, esses cristãos renovados atuariam no contexto nacional, com valores e elementos ideológicos capazes de mudar a ordem vigente, como foi o caso da Associação dos Universitários Católicos (AUC) que publica a revista Vida com estudos religiosos e filosóficos.

Dom Leme tinha influência no Vaticano e também adentrava com facilidade no Palácio do Governo brasileiro. Ele representava um freio para as idéias comunistas no país, vistas pelo Centro Dom Vital como desviante da ordem religiosa e nacional, implicando numa possível quebra da unidade católica, que não apresentava as mesmas características da filosofia revolucionária em relação a propriedade, a luta de classes, a revolução e alienação religiosa. Parte da Igreja, os setores burgueses não se firmavam nesses projetos, pois o comunismo contrariaria a ordem vigente. As comunidades religiosas não possuem relação com o comunismo. (SALLERON, 1979, p 223).

Padres do Mosteiro de São Bento travam em suas pregações uma espécie de guerra litúrgica. O Pe. Leonel França13 se envolve nessas novas investidas católicas ao lado de beneditinos e dominicanos como Frei Romeu Jorge Dale14 organizando ações católicas. Por outro lado, as heresias de Mauritain15 eram combatidas pelos grupos tradicionalistas tanto no Brasil como na Argentina e no Chile (GÒMEZ DE SOUZA, 1984, p 96).

Havia perigo da chegada do comunismo e este sistema encontrou resistência na Igreja, mesmo com a presença da esquerda cristã. A ausência de reformas do Estado, a omissão política e a doutrina social presas a uma elite conservadora atendiam aos princípios do comunismo, e este balançava os setores burgueses. Ferir os princípios de setores influentes da sociedade seria um outro problema. Convém lembrar que nesses anos havia uma forte migração de adeptos ao Cristianismo para novas religiões que segundo a Igreja Católica eram imediatistas e assistencialistas.

A Igreja cria, então, movimentos dirigidos a segmentos diferenciados: mulheres, classe média, operariado, juventude e outros, abrindo novas vertentes para o movimento da Ação Católica Brasileira. Alguns desses grupos já vinham combatendo a idéia de comunismo: a Aliança Feminina, iniciada em 1919, a Congregação Mariana, criada em 1924. Eram anos de tensão entre grupos de interesses diversificados e a Igreja da Neocristandade que através de sua sistematização, cria a Coligação Católica Brasileira (CCA) que resultou da confluência de seis associações representantes que atuariam nas questões sociais e numa grande corrente anticomunista. O organograma mostra a organização da Coligação Católica:


A Coligação Católica representava o agrupamento de grupos leigos por áreas afins, com liderança de padres e hierarquia religiosa (leia-se ala esquerda católica), que ditava as ordens para essas ações, inseridas no projeto da Neocristandade. Constituía-se numa recatolicização da Igreja brasileira empreendida por meio da articulação entre o Centro Dom Vital, as idéias vindas de Dom Leme e de ordens religiosas nacionais e estrangeiras (SALEM, 1982, p. 97-134).

Igualmente importante foi o fortalecimento da imprensa católica inserida na Coligação Católica, veiculando diretrizes da Neocristandade contra a chamada “má imprensa”, que estava a serviço dos setores conservadores. O lema da Neocristandade era defendido como princípio de moralidade católica, com a adoção de conscientização cristã e conduta anticomunista rígida. Os perigos do comunismo que se implantara na União Soviética, e que estavam presentes no Brasil de forma bem visível, ameaçava a tradição oligárquica ainda vigente no país. Villaça (2006, p. 15) ressalta que

a mudança foi profunda. Ao político sucedia o universitário. Ao nacionalista, o universalista. Ao reacionário, o liberal. Ao líder impressivo, áspero, violento, sucedia o esteta, o pacificista, o antipolêmico. Começava a fase cultural do movimento católico no Brasil. Jackson fora a fase política ou de preocupações absorventemente políticas. O bernadismo. A oposição sistemática às revoluções precursoras da Revolução de 1930. A pregação da ordem contra a desordem, ou o espírito de sedição.

Conflitos locais e mundiais ameaçavam estruturas antigas como a Igreja. Skdimore (1982, p. 38) ressalta queessa extraordinária concentração de poder, a corrupção de velhos políticos, as aspirações de classes trabalhadoras, o governo e as questões sociais delimitavam um país que deveria ser reconstitucionalizado”. Com a Revolução de 30 eclodindo, o país vivia um processo político que vinha atravessando sucessivas fases de problemas sociais entre militares, setores da classe média – concentrados na população urbana em crescimento –, comerciantes, liberais, burocratas (SKIDMORE, 1982, p. 32).

Pesquisas realizadas por Márcio Moreira Alves (1966, p. 38) consideram que,


a evolução da Igreja, face ao tempo e ao país, não pode incriminá-la como organização de agitação ou de ação política. Sua participação nos problemas sociais é não mais que uma decorrência da conexão entre a instituição e o contexto histórico brasileiro, sua cultura e o desenvolvimento do seu povo. É, portanto, imprescindível reconhecer que, ao se institucionalizar em determinada região, a Igreja adquire colorido temporal, isto é, étnico e cultural. Aos seus elementos transcendentes, supratemporais, acrescentam-se os variados e mutáveis aspectos de uma população. Desta forma, o catolicismo, como outras denominações do cristianismo ao se tornarem Igreja particulares, adota formas sujeitas a se modificarem com o correr dos tempos. Forma-se então uma estrutura eclesiástica com aspectos próprios, originais, ao lado dos elementos que são comuns à Igreja em qualquer lugar.

Nessa perspectiva do autor, são coerentes os caminhos que a Igreja manteve nesses novos processos sociais e políticos, com decisões diante da evolução dos tempos e a corrente anticomunista, desenvolvendo uma outra postura compreensível dentro de um cenário de mudanças, a política.

A efetiva atuação da Igreja no plano social e religioso é analisada por Moreira Alves, que ao fazer leituras de jornais de inspiração cristã, argumenta que a Igreja estava com sua estrutura obsoleta e suas metas não estavam mais alcançando a sociedade, advogando que no Estado brasileiro, a dor do declínio das oligarquias resultara no processo de industrialização e avanço do capitalismo. Para ele, esse processo, por sua vez, deixava o país debilitado socialmente pela consolidação de dois componentes: a burguesia industrial e o operariado, que não tinha, até então, grande expressão política.

Mas, mesmo com esses valores latentes na Igreja, o mundo não os adotava mais e caminhava para o capitalismo, onde tudo era imediato e provisório diante das possíveis mutações sociais. No caso do Brasil, Moreira Alves (1996, p. 39) afirma que a estrutura eclesiástica que chegou até nós, ainda tendo em parte como um dos objetivos mais focalizados “ganhar o céu”, estava obsoleta e não respondia mais ao povo.

Ora, a Igreja tinha valores redencionistas, uma hierarquia normativa, e tanto a sociedade quanto o catolicismo vinham sofrendo significativas mudanças. Sobre esse período, Carlos Guilherme Mota (1994, p 31) comenta que
A preocupação em explicar as relações sociais a partir das bases materiais, apontando a historicidade de fato social e do fato econômico, colocava “em xeque” a visão mitológica que impregnava a explicação histórica dominante. É o início da crítica à visão monolítica do conjunto social, gerado no período oligárquico da recém-derrubada República Velha.

A visão heterogênea do Governo Vargas movia vários setores, criando mitos e articulações que marcaram o período. Dessa maneira, o campo de renovação era propício e o clima de mudança mostrava o Estado e a Igreja em crise, como reflexo de um certo divórcio entre a Igreja e o Estado que vinha desde os anos de 1889. Carone (1976, p 12-13) ressalta que,

O divórcio entre ambos leva toda a hierarquia eclesiástica a se distanciara do Estado e a adotar política crítica aos pobres constituídos: por sua vez, a posição defendida pelo padre Júlio Maria e outros distancia a Igreja dos problemas concretos e da ação católica, fato que só começa a desaparecer com a iniciativa do Arcebispo de Olinda, Sebastião Leme. A volta ao plano das preocupações político-sociais se dá com a famosa Pastoral de 1916, quando o Arcebispo se interroga e mostra que os católicos formam a “quase totalidade da Nação”, mas, pergunta ele, é uma “maioria cônscia dos seus deveres religiosos e sociais?” A resposta é negativa, o que faz com que em 1922, quando já transferido para o Rio de Janeiro, funde a Confederação das Associações Católicas. A ação da Confederação se faz entre os leigos. Mas, paralelamente, funda-se o Centro Dom Vital, a Revista A Ordem, os dois sob a orientação de Jackson de Figueiredo.
O autor aborda o papel da Igreja diante do cenário político social, ao passo em que o integralismo havia tomado espaço para desobediência às autoridades constituídas tendo as sacristias como apoio à suas propagandas. Dom Sebastião pouco elogiava o Presidente da República, embora em sermões fizesse recomendações do Papa em relação à figura de Getúlio Vargas como salvador do Brasil e da América Latina do perigo comunista. Com o declínio econômico que vinha se arrastando, o declínio político se instaurava cada vez mais no país. Havia um conjunto de forças conservadoras interessadas no fim do governo, forças da oficialidade do exército (os tenentes) e oligarquias estaduais como a gaúcha, a baiana e a paraibana aliadas a burguesia industrial que começava a ocupar espaço na vida econômica nacional.

Além de forças conservadoras, grupos vinham lutando para a conquista do espaço político como o Partido Comunista Brasileiro (PCB) fundado em 1922, o Partido Democrático (PD) fundado em 1926, as lideranças anarquistas e sindicalistas. Nesses anos, a ilegalidade do PCB colocava Luis Carlos Prestes, Laura e Otávio Brandão no Bloco Operário Camponês (BOC) que se tornou a maior força democrática opositora às oligarquias nacionais que lançava o Jornal A Nação, em janeiro do ano de 1927. E pela primeira vez no país, os comunistas tinham sob sua influência um jornal diário e de grande circulação. Essa foi a primeira tentativa de organização de uma frente única operária e socialista para concorrer às eleições no país.

Verifica-se na história que o Estado getulista assumia o papel de agente do desenvolvimento econômico comprando café e controlando o preço do açúcar nacional, tomando medidas que favoreceram o crescimento de muitos setores no país. A política de Vargas visava à garantia do direito educação, saúde, trabalho, subsistência, propriedade, bem como e principalmente – os direitos trabalhistas. Mas isso segundo os principais analistas do seu governo, foi uma estratégia de dominação política que teve como principal objetivo, contar com o apoio do povo, essencial para a manutenção do poder. Mas, assim que adquiriu confiança pelo povo e toma o poder, o presidente destituiu os governadores e nomeou interventores de sua confiança que nomearam prefeitos para os municípios, até que a nova Constituição fosse elaborada garantindo, novamente, a autonomia federalista aos estados.

Ressalta-se que, durante esses anos, a presença de grupos como os Círculos Operários de 1930, e a Juventude Católica, de 1935 que podem ser entendidos como expressões iniciais de uma política de Vargas, das investidas da Igreja e de alianças com a Congregação Mariana. Eram grupos da Igreja voltados para ações de esquerda especializadas anticomunistas. Esses grupos defendiam os direitos humanos com uma linha cristã e serviço operário da Igreja e o comunismo era contra a burguesia, porque os comunistas queriam tomar o poder e acabar com a propriedade privada, quando tudo passaria a pertencer ao Estado, que garantiria uma distribuição igualitária das riquezas e todos os serviços básicos.


1.2 Estruturação das Ações Católicas Especializadas no Estado Novo
Em 1935, eclodia a revolta liderada pelos comunistas e o comunismo passa a ser o inimigo do Governo Vargas. Após a intentona comunista ocorrida em 1935, o presidente decretou estado de sítio que deveria vigorar apenas sessenta dias, mas se estendeu até junho de 1937. Em março de 1936, a polícia invadiu o Congresso e prendeu parlamentares acusados de pertencerem à Aliança Nacional Libertadora. Criou-se em setembro de 1936 o Tribunal de Segurança Nacional (TSN), extensão do judiciário controlado pelo Executivo visando julgar os participantes da Levante Comunista.16.

Vargas consolida sua aliança com os militares, com os empresários, com a Igreja e com os integralistas e aproveitando-se dos impactos do momento em 1937, o General Eurico Gaspar Dutra anuncia a descoberta do Plano Cohen,17 segundo o qual os comunistas preparavam um ataque ao Brasil. O clima golpista volta a se acender em setembro de 1937, quando foi apresentado à Nação um documento do Governo sobre uma suposta nova revolta que eclodiria em breve no país, com a tomada de poder pelos comunistas. Esse documento ficou conhecido como e no dia 10 de novembro, deste mesmo ano, tropas militares cercam o Congresso.

O organograma abaixo mostra essa nova estruturação de católicos leigos em Ações Especializadas que lutaram pelos direitos humanos e pela justiça social no país.

Estrutura Organizacional



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