O presente ensaio literário tem por objetivo analisar os contos



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FACULDADE DE EDUCAÇÃO , CIÊNCIAS E LETRAS


RITTER DOS REIS
Curso de Pós – Graduação em Leitura e Produção de textos no
Ensino de Língua e Literatura
Concepções Teóricas do Ensino de Literatura
Professora Doutora Rejane Pivetta

ENSAIO LITERÁRIO SOBRE OS CONTOS:


“AS AVENTURAS DE UM LEITOR “ -- ITALO CALVINO
“O LIVRO DE AREIA “ -- JORGE LUÍS BORGES
Aluna : Simone Mazzilli da Rosa

O presente ensaio literário tem por objetivo analisar os contos :


“ O livro de areia “de Jorge Luís Borges , e “A aventura de um leitor “ de
Italo Calvino levando em conta os pontos fundamentais que são : o au-
tor, a obra, o leitor e a história. Para tanto analisarei as semelhanças e
diferenças dos mesmos com relação a cada um dos tópicos.
Não podemos vincular o sentido da obra à intenção de autor, e
não podemos também excluir o autor ou julgá-lo indiferente no que se
refere à significação do texto. A interpretação de um texto depende da
resposta que ele dá as nossas perguntas. Quando um texto muda o seu
conceito histórico e/ou cultural, mudam também as significações arbitrá-
rias a ele, portanto, toda a interpretação é contextual.
Na obra de Jorge Luís Borges “O livro de areia “, no primeiro
parágrafo de apresentação do seu conto, observo um conto científico e
matemático. O autor apresenta sua obra, afirmando ser um fato, relato
verídico. No conto de Italo Calvino “A aventura de um leitor “ no primei-
ro parágrafo apresenta uma descrição da sua paisagem e só depois o
personagem é apresentado, não como indivíduo, mas como a soma de
suas ações. É através delas que vamos conhecendo a personalidade de
Amedeo.
Tanto o personagem de Borges, não personificado com um no-
me, como o personagem de Calvino, chamado de Amedeo. São descri-
tos por ambos como pessoas solitárias e sem atrativos físicos, que gos-
tam de lugares isolados e apresentam o hábito pela leitura e pela figura
presente do livro. Ambos envolvem-se com uma segunda pessoa que
surge do nada, porém com a capacidade de provocar uma mudança no
cotidiano. Esse segundo personagem é descrito em ambos os contos,
como alguém de aparência desfavorável e é julgado muito mais velho do
que de fato é.
Na obra de Calvino é mais evidente a presença do livro como
valor literário e o ato de ler influência na personalidade do personagem,

não só por lhe dar prazer, mas por permitir que viva fatos que sua exis-


tência mundana não lhe permitia. Era através da leitura que ele se
envolvia no “enredo das vidas humanas “. Seu prazer não era apenas
a leitura, o contato, o manuseio do livro, das sensações táteis e olfáticas
Também tornava-se um ato prazeiroso a forma que selecionava livros
que iria reler e outros que seriam escolhidos para ler pela primeira vez.
Desta forma demonstrava o prazer de selecionar um novo mundo no

qual iria habitar. Era o prazer de escolher o mundo em que penetrar,


onde a vida era mais vida que a realidade dele mesmo. Já, no conto de
Borges não é visualizado um personagem apaixonado pela leitura, mas
sim um personagem que possuia alguns livros. Não demonstrando
nem prazer, nem envolvimento maior, com os mesmos, ele apenas co-
menta a importância dos que já possui. Até que confrontado com um li-
vro que nunca terminará de ler, o qual não tem início nem fim e o levará
a desfazer-se do mesmo, diante do medo que o objeto ( o livro ) lhe cau-
sa.
Como todo texto narrativo, o conto especifíca-se para apresen-
tar um enunciado (narrador) que relata eventos os quais desenrolam-se
no tempo, originados ou sofridos por agentes, situa-se no espaço de um
modo possível. Como é o caso do narrador do texto de Calvino o qual
apresenta-se como um narrador que conhece total e plenamente apenas
um personagem e os fatos relacionados a sua vida, diante de um ponto
de vista limitado. Assim, podemos chamar de : narrador onisciente inten-
so, ou seja, o narrador narra sua própria história, apresentando-se na
primeira pessoa ,do singular, e figura assim como o personagem princi-
pal.

Assim, sem mais consequências que um puro jogo literário,


Borges tornou-se mestre do anacronismo e das atribuições errôneas.
Utilizava a falsificação como um recurso literário o qual faz parte a pró-
pria tendência da linguagem elaborada. E se toda a obra literária é pa-
ródia é porque remete aos textos trancendentais, o falsificar, o elaborar
com o artifício de uma mentira , que estaria na base de sua criação es-
crita.
Sendo a leitura uma interação entre o texto e o leitor, o perso-
nagem de Borges ultrapassa esse limite e mergulha totalmente no livro,
tornando-se obcecado pelo mesmo e deixando a vida, os amigos e o
mundo real de lado na tentativa de desvendá-lo, e compreender os mis-
térios, as múltiplas perspectivas que ele comporta. Ao se dar conta das
impossibilidades disto, assim como em “Palomar”, ao tentar descrever
“uma onda “, mistura o livro a outros na parte mais profunda da biblio-
teca e deixa-o sem interpretação final, uma vez que todas as respostas
não podem ser dadas sobre todo.
O texto de Calvino é muito mais próximo da realidade que o de
Borges, pois a aventura de Amedeo é perfeitamente possível de ocorrer.
Enquanto em : O livro de areia “ a narrativa situa-se no limite do realis-

mo fantástico, típico da obra de Borges que gosta de abordar temas


que quebrem a estrutura do própria ato de leitura e remetem o leitor a
uma nova articulação de significados.
Sendo o fictício regido por regras que devem acionar o imagi-
nário do leitor , tanto nós leitores reais, como Amedeo , leitor do conto.
Somos levados a interagir com o texto e avançar na leitura para saber
como terminará a história. É um efeito cascata, uma história interagin-
do com outra, pois a leitura de uma obra , não se esgota nela mesma,
e tanto nós como Amedeo temos nossos horizontes ampliados de for-
ma dialética na nossa relação : leitor real, leitor implícito. Para Jauss
é importante salientar que o leitor implícito pertence a uma categoria
empírica para o público, pois o texto possui pré – orientações fixas .
Seremos nós os leitores , que iremos atualizar o significado que está
embutido na construção do texto.
Tentar definir os dois contos em termos “Aristotélicos “ seria
desvinculá-los da sua real significação , pois se ambos são capazes de
produzir catarse em seus leitores, não podemos dizer que apresentam
uma verdade absoluta ou que são capazes de modificar os valores hu-
manos. Como tentar enquadrá-los na definição de que : “poesia “ é imi-
tação da vida ? Até poderíamos forçar esta visão em Calvino, mas nun-
ca em Borges. Assim, a obra não compõe-se das partes estanques,
mas de todos os itens que devem ser levados em conta na hora de ana-
lisá-la. Se ainda não temos uma teoria que possa ver a obra como um
todo cheio de significado, a estética da percepção nos dá uma direção
a seguir na tentativa de abarcar senão todas ( já que isso é impossível)
pelo menos a maior parte dos significados da obra, ajudando-nos a
compreendê-la.
Segundo Culler, a poética, como explicação dos recursos e
estratégias da literatura, não pode ser reduzida a uma explicação das
figuras retóricas, mas a poética poderia ser vista como parte de uma re-
tórica expandida, que estuda os recursos para os atoa lingüísticos de to-
dos os tipos. A única maneira de expressar emoção na forma de arte é
encontrar um “correlato objetivo”, em outras palavras, um cojunto de ob-
jetos, uma situação, uma cadeia de eventos que será a formula para
aquela emoção específica, de tal maneira que, quando os fatos exter-
nos, que devem se encarar em experiência sensorial, sejam dados,a
emoção imediatamente evocada.

Não podemos situar os dois autores no conceito de cânone,


pois ambos são contemporâneos e os historiadores normalmente só de-

tem-se em analisar obras contemporâneas, para não discutir a importân-


cia da obra no seu tempo e participar ativamente da construção do pró-
prio cânone.
Para Bloom , quando refere-se ao “ser cânone”, a posição de
Borges no Cânone Ocidental , se prevalecer, será tão segura quanto a
De Kafka e de Beckett. De todos os autores latino-americanos neste sé
culo, é o mais universal. Com exceção dos mais poderosos escritores
modernos – Freud ,Proust e Joyce – Borges tem mais poder de contágio
do que praticamente todos os demais, mesmo quando os talentos e a
escala das obras deles em muito excedem as dele. Ninguém mais na
tradição occcidental subverteu a idéia da imortalidade literária tão impla-
cavelmente quanto Borges. Ele leva seus leitores de volta a seu motivo
inicial para metáfora, desejar ser diferente, encontrar um outro lugar, es-
colher a profissão de escritor.
Podemos situar a importância dos dois autores, analisados
nesse ensaio literário , na medida em que proporciona ao leitor uma vi-
são da nossa época, uma vez que a obra não está desvinculada do
contexto em que está escrita, e acaba refletindo os gostos e temores
da sociedade atual , com o qual o leitor ( ou seja : nós ) acaba identi-

ficando-se.


Já , na visão de Maingueneau, quando refere-se em: “A vida e
A obra”, argumenta que o insustentável é nos defrontarmos com nosso
próprio limite. O texto passa a ser quase como um inconsciente do autor
e também do leitor.
No conto : “O livro de areia “, Borges , ao citar as “Mil e uma
Noites “e retomar o mito de Sherazde podemos resgatar o gosto que to-
dos temos por uma “história bem contada”, a atração que as narrativas
tem no ser humano desde os tempos imemoriais, quando reuníamos em
torno de uma fogueira para ouvir histórias.
A passagem do tempo nos dois contos é semelhante, porém
no conto de Calvino o tempo cronológico mistura-se ao psicológico, e
enquanto em Borges, vemos apenas uma passagem do tempo cronoló-
gico. Tempo este que não é bem definido, só reparamos que ele passou
pela citação do narrador que diz que : a estação começou e terminou, e
ele estava em casa, fechado, tentando desvendar “ o livro de areia “.
Não conseguimos também, distinguir exatamente quanto tempo durou a
aventura de Amedeo, mas sabemos que o seu interlúdio não durou mais
que algumas horas, uma vez que a passagem do tempo é linear.

Para finalizar meu ensaio literário, gostaria de salientar que


nas obras de Calvino revela-se uma formação apaixonadamente cien-
tífica e uma curiosidade cultural capaz de transitar do gênero realista
ao fantástico, mantendo-se sempre como eixo a reflexão sobre a histó-
ria e a sociedade contemporânea. Enquanto, nas obras de Borges , vin-
cula o fantástico com o jogo mental, recorrendo sempre ao tempo, aos
espelhos , aos labirintos ou aos livros imaginários. Borges defende a i-
déia de que todo o escritor é a soma de todos os escritores que o pre-
cederam.

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