O presente ensaio literário tem por objetivo analisar os contos



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FACULDADE DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIAS E LETRAS.


RITTER DOS REIS
Curso de Pós – Graduação em Leitura e Produção de textos no
Ensino de Língua e Literatura

Concepções Teóricas do Ensino de Literatura


Professora Doutora Rejane Pivetta
Concepções Teóricas do Ensino Gramatical
Professor Doutor Valdir Flores

ENSAIO LITERÁRIO SOBRE AS OBRAS:


DE José Saramago: “A Maior Flor do Mundo”
“O Conto da Ilha Desconhecida”
Aluna: Simone Mazzilli da Rosa
Através desse ensaio literário venho apresentar minhas análises literárias e gramaticais observadas nas obras: “A maior flor do mundo” e “O conto da ilha desconhecida”, ambas da autoria de José Saramago.

Como já salientado por meus professores, é importante reforçar a observação de que: “a língua e a linguagem são fontes de vida” e por isso é que através delas podemos obter uma complexidade das realidades humanas dentro do contexto literário, observando que: “o ensino da língua e literatura constituem uma iniciação à aventura de ser e significar”.

José Saramago (1), nascido em 1922, foi o primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Em suas obras percebe-se a constante fusão entre o fictício e o imaginário. Essa fusão de fatos reais e irreais, também foi percebida pela academia Sueca, a qual justifica o prêmio: “devido as parábolas apoiadas no imaginário, na compaixão e na ironia”. Dados que podemos observar e analisar tanto em “A maior flor do mundo” e em “O conto da ilha desconhecida”.

Na Obra “A maior flor do mundo” (2) onde o autor refere-se como quem não sabe escrever para crianças, fato que não é real, pois ele intrinsecamente deixa entender é que a criança não é aquele ser tão desprovido de compreensão e inteligência. Mostra que com sua linguagem é possível para o entendimento de muitas crianças em diferentes faixas etárias.

Em nenhum momento rebaixa a capacidade de compreensão da criança. Saramago é capaz de revestir a linguagem com uma significação que vai além do banal, entretanto, no início do conto, é simplório ao reconhecer não saber usar as palavras e ao final, da narrativa, invoca alguém para escrever em seu lugar. E por que não questionar um reflexo de sua infância, embutidos no personagem nomeado de “Herói menino”? Pois Saramago nasceu em uma aldeia de Azinhaga província de Ribatejo. E também porque não interligar “O conto da ilha desconhecida”, com o lugar onde mora atualmente? Questiono esse dado despreocupada de quem antecede quem, ou seja, a obra ou a moradia. Gostaria apenas de ressaltar aqui mais uma interligação de fatos, tendo em vista que atualmente Saramago mora na Ilha de Langarote, no arquipélago das Canárias, território Autônomo da Espanha.

Podemos observar na obra “A maior flor do mundo” o aspecto ilustrativo, uma forma rica e detalhada para tecer o texto e tecer imagens. Refletindo um fazer literário longe do contexto das histórias infantis tradicionais clássicas, pois em todas as histórias infantis a criança sai do seu lugar para uma aventura, aqual podemos chamar de busca. Porém não há uma relação familiar e sim um personagem principal sem nome próprio, sem referencia familiar. Resta-lhe apenas “ um resto de avós e uma parentela”(2) não tem certeza da estrutura familiar da criança. Saramago demonstra a intenção de levar o leitor a outro mundo, isso pode ser constatado já no inicio quando menciona que não sabe escrever para crianças, pois lhe falta certo jeito de contar a história. Busca a simplicidade pensando no que precisa para ter o jeito. Assim, torna o ato da escrita uma ação através da ficção, como moldura para expressar seu imaginário; o imaginário que escapa dessa linguagem.

Já, em “ O Conto da ilha desconhecida”(3) Saramago abusa da ironia, (como já mencionada anteriormente) criando uma obra que não é uma história de amor, mas também a é; desmistifica tudo, inclusive a própria literatura; relativisa valores; zomba de contradições e propõe uma ruptura com o tradicional, questionando a realidade a partir da história. Possibilitando um momento de orientação ao leitor: exs: a) Quando situa o rei em relação ao tempo.( 3) b)- Quando torna necessário um novo olhar sobre conceito de PORTA/ ILHA/ MAR / BRANCO (3) Pois estes necessitam ser significados no decorrer do obra, pois sofrem evolução no significado e fazem diferenças, de acordo com o conceito.

Também realiza uma grande critica social. Percebe-se isso quando analisamos os espaços, esse já não são tão demarcados, as portas são o espaço mais social porque apresentam o poder, a política. O rei é onipotente e tem descaso aos outros. O homem enfrenta a ordem burocrática do poder. Aparece claramente a burocracia submetida ao poder das classes dominantes. O herói necessita deslocar-se até o rei e não apresenta uma linguagem humilde, sim determinada. Este necessita sair da porta,da burocracia, do mundo burocrático, dos domínios e do poder do rei e lançar-se na busca.

Em “A maior flor do Mundo”(2) as expressões ALI e instaura o espaço aqui é a pagina, não tem floresta, rio ... é um espaço construído pela linguagem.

Há uma intertextualidade entre os dois textos na relação do afastamento com “ O conto da ilha desconhecida” (3) constata-se:



  • narrador é sempre a primeira pessoa;

  • construção da referenciação: U-NARRADOR / NÓS – TI, salientando ser uma transferência imóvel. Já em “A maior do mundo”(2) constata-se:

  • Há um diálogo grande com o leitor na interdisciplinaridade com clássicos infantis,

  • Narrador passa a ser: escrito, testemunha e leitor

  • Utiliza-se da poesia para oferecer uma estrutura sintática,

  • Os numerais dão a dimensão do tamanho esforço do menino. Para isso o autor dispensou os advérbios, porque os numerais irão intensificar o esforço do menino.

As obras ilustram a concepção de literatura e de linguagem, permitindo que se faça uma reflexão da linguagem apresentada: “METALINGUAGEM”.

Ambos os Heróis: menino/homem tem uma ação comum; a de “sair do lugar” caracterizando assim as ações do herói. Este “sair do lugar” provoca o deslocamento para encontrar a busca, onde o herói convoca o assumir um papel. Se assim os heróis partem para o caminho da iniciação. São percursos que possam por provas. Na iniciação há necessidade de auto-conhecimento para ultrapassar seus limites. Em ambas as obras são necessárias mostrar-se forte, resistente para denotar tudo que impede sua realização. Os dois heróis realizam um feito de estágio superior concretizando a realização. Entretanto, esses fatos antes de se tornarem -se uma realização necessitam passar pelo precedente da busca. Está busca será determinada pela vontade cociente do herói de revelar algo desconhecido, caracteriza o destino do herói. Em “A maior flor do mundo” a busca realizada pelo menino não tem uma intenção instintiva, ele é levado pelo narrador a sair para a busca. Entretanto ele também toma uma “ação de opção” quando questiona - se ao “VOU OU NÃO VOU?” (2) nesta parte Agrupava – se ao “Conto da ilha desconhecida” onde diante da porta das decisões a “mulher da limpeza” (3) adquire o mesmo status, constando assim uma necessidade de escolha os heróis devem assumir sua postura. Para finalizar devo ressaltar a importância do retorno. Na obra “A maior flor do mundo” o retorno aparece quando volta para o lar, o “herói menino” volta renovado e passa essa renovação para sua coletividade, não restringindo - se apenas a aldeia, mas à coletividade de leitores daquele mundo.

Saramago, em suas duas obras, já mencionadas, ultrapassa a realidade. É um efeito literário que desnuda a funcionalidade no texto, permitindo que o leitor ingresse nele como uma ponte. Essa possibilidade do fictício no efeito literário, nos leva para outro mundo que não seja o da realidade. Ex. quando fala em “MARTE” e as concepções da parte, do barco, de flor (2 e3) .

Há uma idéia de fingimento na literatura, o termo ficção designa o rumo da literatura. O fictício, segundo Iser , é caracterizado como uma travessia de fronteiras entre o mundo real e o alvo que se visse, que são os atos de fingir. Em “A maior flor do mundo” valorizado até a fala da aldeia e da parentela. A partir daí, vem outro mundo que aponta a realidade.(2)

Para Iser (4) a linguagem não pode ser mimética, porque ela sempre ultrapassa as determinações do real. Em contra posição há o fictício que possibilita o imaginário e uma pergunta sem literatura: “ VOU OU NÃO VOU?”(2) Aí o literário passa a ser esse jogo entre o fictício e a experiência do real. Provoca um deslocamento com o interior e o exterior do texto, que é a ligação entre o fictício e o imaginário. Assim o leitor pode encontrar espaços para participação do jogo, dentro do texto. Isso, também, caracteriza o herói das duas narrativas.

Há metaficcionalidade porque a trajetória do herói reflete sobre a aventura, possibilita que o fictício seja visto dramatizado e representado através do personagem. Existe uma maneira , metafórica reflexão sobre a essência da literatura que nos proporciona.

Para Iser,(4) todos gostamos de ficção, daí o caráter antropológico, faz parte da formação humana. A criação cria outro mundo possível. E o homem necessita encontrar esse fingimento na literatura para suplementar e permitir que olhemos o outro, aventuremo-nos no lugar do outro. Encontramos assim, textos auto- consciente do papel da ficção e da função do distanciamento para levar o autor para outro mundo possibilitando que esse seja cúmplice da existência humana. Por isso em “O conto da ilha desconhecida” a ficção, a auto - compreensão humana está na ilha. Pois é necessário sair da terra firme para ir ao mar em busca de uma identidade, em um mar desconhecido. Procurar outras verdades que não sejam as dos mapas, das convenções.

No decorre das narrativas observa-se que Saramago apropria-se da linguagem não apenas como escolha de palavras, mas pela necessidade de ter uma linguagem para escrever. Não é uma seleção de palavras, sem uma forma de perceber o mundo através da visão da criança, em “ A maior flor do mundo”. Nessa obra o autor desfruta de uma moral aberta deixando de lado o pedagogismo da história infantil que é a razão do adulto.Aqui é a criança que revela o olhar infantil. Saramago permite que a criança ocupe o lugar de escritos em seu olhar infantil, fazendo a criança escrever com sua linguagem própria. Acredite que o mundo só pode ser significado em uma linguagem não empobrecida, fazendo valer a possibilidade da linguagem apontar para um novo mundo, com linguagens inéditas.

Há uma história paralela do narrador, pois a análise literária permite constatar que há duas histórias dentro de uma, na obra “A maior flor do mundo”, onde Saramago cumpre todas as etapas de uma narrativa primitiva de forma igualada a uma narrativa contemporânea.

Existem momentos em que a linguagem se torna referência explícita. Ë a reflexão consciente dessa construção enquanto em linguagem, que produzirá metalingüísticas. É por via da linguagem que é possível estabelecer relações entre leitor e narrador, mostrando a constatação do que revela a complexidade do humano que é mais resistente ao “ser humano”, onde tudo já vem pronto. Simplificado da superfície em superfície, parte outro mundo. A linguagem da literatura é inexplicável, só o nosso entendimento através da ficção pode possibilitar a abertura para o imaginário. O mistério é inexplicável, só através do nosso entendimento ele se desvenda. Dado ao limite da linguagem sugerir a existência humana indicando caminhos, aí a literatura é um lugar adequado para ultrapassar limites.

Na literatura as potencialidades da linguagem devem ser muito exploradas. É necessário trabalhar as ambigüidades, não apropriar-se. A literatura sempre narra o sentido comum, faz sair da realidade, ir para outro mundo. Mostra a multiplicidade de diferentes entendimentos no texto literário.

A concepção de linguagem não se prende ao sentido denotativo, tem a missão de potencializar a linguagem, e na imagem poética ele potencializa a linguagem como forma de dizer pouco.

Na obra “O conto da ilha desconhecida” há linguagem no texto, pois basta analisar o DA: ARTIGO DEFINDO SINGULAR. Já é a ambigüidade da linguagem em suas controvérsias. As metamorfoses do barco são signos de ambigüidade. Como é desconhecido se fala DA ILHA , isso está explicito na linguagem. A linguagem tem que apontas para algo real, para não ser ilusão e sim a retórica a necessidade de apontar um caminho.

Nas passagens:” se eu te pudesse dizer, então não seria desconhecida” a linguagem não é reflexão, é uma concepção de linguagem contrária a mimese. “Essa linguagem é de marinheiro, se tenho a linguagem é como se fosse” aqui Saramago mostra que acredita no poder de criação da linguagem, por isso fica além da própria cópia, do reflexo que tem essa força de criação.

Paralelamente aos significados intertextualizados acontecem diferentes manifestações, nos obra. Quando o autor cita que “gostar é a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar”, manifesta aposse. Manifesta conhecer e não é possuir, para o homem é esta sempre a procura. Manifesta uma nomeação quando escolhe para o barco o nomear não significa possuir nem conhecer. A manifestação do significado da flor faz um reler de significado da flor faz um reler de símbolo de harmonia, de imagens a virtude da alma e ligação simbólica a infância. Já a simbologia da ilha associa – se ao primordial do próprio eu; outro mundo maravilhoso; desejos e felicidades.

Diante de uma análise gramatical das obras é possível verificar que em “A maior flor do mundo” encontramos uma estrutura sintática de poesia (pagina 9), onde o autor dispensou o uso dos advérbios com a idéia de intensificar propositalmente o espaço de seu herói menino. Aqui na expressão herói menino, Saramago dispensa o uso do nome próprio, refere – se a seu personagem principal, e utiliza-se da junção de um adjetivo substantivado, “herói menino” em outros trechos da obra também encontramos: “silêncio que zumbra”; “calor vegetal...” “...caule sangrando e fresco...”.

As expressões apresentadas dentro dos parênteses () sempre aparecem em situações atemporais. O nome da obra já apresenta uma intenção de utilizar – se do Grau do substantivo: “A MAIOR FLOR DO MUNDO”. Também encontramos referenciais de lugar e formas: “cá encima do morro”, “lá” como lugar distante, “côncavo das mãos” ao transportas a água. Saramago algumas vezes, nessa obra, utilizou-se do ti para especificar a primeira pessoa. É possível destacar uma sintaxe completa; um léxico que não é familiar e imagens de linguagem altamente elaboradas.

Encontramos verbos no imperfeito, tais como: “fazia”, “estava”. Já em “O conto da ilha desconhecida” encontramos a estrutura de uma narrativa econômica e possui muita simbologia DIANTE DA PALAVRA PORTA. Estabelece uma relação metonímia e um conceito metafórico para saída. Também utiliza substantivos ligados a artigo indefinido “um homem” e “uma mulher da limpeza”

Em “A maior flor do mundo”, na frase: “Este menino foi levado para casa, rodeado de todo o respeito, como obra de milagre”, temos aqui uma utilização pouco usual do pronome demonstrativo que, aqui, substitui o artigo definido “o”. Não é “o menino” e sim “este menino” que será responsável pelo milagre. A seguir o pronome do caso reto “ele”, aparece quando menciona:”...diziam que ele saíra da aldeia para...” resgata várias noções: herói menino, o menino, menino perdido , aquele que foi responsável pelo milagre. Assim , deixa transparecer a transformação do menino ao longo do conto. Essa mudança è anunciada ,anteriormente, com a presença do vocativo: “ó que feliz ia o menino!”.

Observando a presença dos parênteses é possível constatar que eles têm a função de trazer-nos avaliações do autor sobre determinados pontos do texto. Normalmente estão no presente do indicativo, pois o narrador está interagindo com o leitor real: nós.

Em “O conto da ilha desconhecida” observa-se :


  • a colocação de pronomes oblíquos no português falado e escrito em Portugal; exemplo: “deu-ta o rei” , “Pedi-lha para ir...”

  • Indefinição no nome dos personagens, eles não são substantivos próprios e sim, comuns. São definidos pelas funções e não por seus nomes.

  • * uso de provérbios; exemplo: “ ...estas coisas não se fazem do pé para a mão, levam o seu tempo...”

Finalizando minha análise literária e gramatical sobre José Saramago e suas obas “A maior flor do mundo” e “O conto da ilha desconhecida” gostaria de relatar que, para realização a mesma, foram necessárias muitas reflexões e observações, tanto literárias como gramaticais, para interligar: autor / intenção do autor / realidade dos personagens / intenção dos personagens e a possibilidade das intervenções e interpretações do leitor. Contudo, esta analise, possibilitou-me um momento de crescimento cultural.

Acredito que esse tipo de trabalho possa ser realizado em diferentes faixas etárias, adequando nas mesmas o grau de dificuldade e/ou exigência da análise do trabalho. Diante dessa possibilidade e da vontade de procurar desafios cultural, penso que cabe a nós trabalhadores da educação oferecer esse momento de crescimento cultural para que os alunos aprendam a interpretar, a solucionar questões, a vivenciar situações, a refletir sobre o que lêem, a descobrir que a leitura os levará a mundos mágicos, emocionantes, envolventes. Tornando-os pessoas engajadas nos problemas do mundo atual . enfim a leitura os levará a interagir em um universo que lhes era desconhecido até então.




  • Referências bibliográficas:

  1. Pesquisa CD-ROM: Enciclopédia ENCARTA 2001.

  2. Saramago, José. A maior flor do mundo. SP: Companhia das Letrinhas, 2001.

  3. Saramago, José. O conto da ilha desconhecida.SP: Companhia das letrinhas, 1998.

  4. Iser, Wolfgang. O fictício e o imaginário – teoria e ficção. RJ: Ed. EALIERJ, 1999.


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